domingo, 2 de abril de 2017

O fabuloso imaginário do absurdo

Conto anterior da coleção: 217 dias

Neguinha
Já tinham se passado duas horas além do horário habitual que o restaurante fechava. Na cozinha, os funcionários encerravam a limpeza e os preparativo para se iniciar um novo turno no dia seguinte. No vasto salão, quase todas as mesas arrumadas, faltava apenas uma. Faltava a mesa que até algumas horas atrás era a cabeceira de uma enorme sequência de mesas perfiladas com quase trinta convidados. Tinha sido uma noite incrível. Luis Antonio reunira amigos e familiares para comemorar a entrada na aposentadoria. Ele estava com quase 68 anos vida, sendo 40 deles dedicado à odontologia. Dono de uma das agendas mais disputadas da Urca, ele fechou seu consultório que vivia lotado de pacientes que não pensavam na dor, mas apenas em serem tratados por umas das mãos mais leves da categoria. Em uma reportagem veiculada numa revista dominical, foi apelidado de o doutor da broca de plumas. Luis Antonio era mais do que um homem com mãos leves, quase imperceptíveis, no cuidado dos seus paciente. Ele era também um homem tranquilo de fala suave. Conversar com ele, era quase que receber um cafuné.
- Meu bem, precisamos ir. O gerente já está começando a olhar atravessado para nós.
- Sim, querida, precisamos mesmo. Deixe-me apenas terminar esta última taça de vinho. Esta taça... Fernando! – Luis Antonio fez uma pausa para chamar a atenção de seu único filho que cochichava algo ao ouvido da esposa. – Fernando, escute, por favor, meu filho. Esta taça é a mais especial de toda a noite. Oficialmente, esta é a última taça de vinho que beberei enquanto ainda cirurgião-dentista praticante. Ao chegar em casa, meu bem, abriremos aquele português que está escondido ao fundo da adega. Será o meu primeiro vinho como Luis Antonio, o aposentado.
- Meu bem, você não acha que... – Maria Helena, sua esposa começava a falar, quando foi interrompida pelo filho Fernando.
- Mãe, deixe o coroa em paz. Deixe ele encher a cara. Agora ele é Luis Antonio, o aposentado. Adorei isso pai. Ficou uns quinze anos mais velho. Estou até imaginando aqui o próximo destino de viagem. Nada de Paris, Londres, Nova York ou Munique. Esses eram o lugares que Luis Antonio, o cirurgião-dentista ia para impressionar os amigos. Agora, Luis Antonio, o aposentado, vai para Conservatória, Penedo, Raposo, Gramado... – nesse momento, Maria Helena interrompe seu filho.
- Pare de bobagens, meu filho. Pois saiba, que no início do nosso casamento, quando estávamos apertados, íamos muito para Gramado. Não era meu, bem?
- O gerente daquela pousada nos conhecia por nome e sobrenome – Luis Antônio prosseguiu. – E saiba, Fernando, que você quase foi feito lá. Por sorte, naquele aniversário de casamento, seus avó nos deram de presente uma viagem para Bariloche.
- Talvez isso explique eu sentir calor com tanta facilidade. – Fernando provocou o pai. – Então, me digam, qual será o destino da viagem para comemorar? Precisa ser algo diferente.
- Por enquanto, não vai ter viagem, meu filho. Combinei com sua mãe que isso ficará para o final do ano. Passaremos o Natal pela primeira vez fora do país e longe de vocês. Será estranho e um pouco triste, mas achamos que será uma experiência nova válida. Vou aproveitar essa nova fase da minha vida para dar início a um antigo sonho meu. Não me peçam para antecipar. Quero que a surpresa seja total. Sábado, faremos um almoço lá em casa. Por favor, apareçam. O tio Valter e a tia Ana estarão com as crianças. Vai ser lá que anunciarei... ou melhor dizendo... mostrarei a surpresa.
No sábado, estava a família reunida no jardim da entrada da bela casa em que Luis Antonio e Maria Helena moravam em um condomínio fechado na Barra da Tijuca. Quando os convidados chegaram, Luis Antonio já tinha saído. Passaram duas horas e nada. Além de ansiosos, já estavam com fome. Petiscos de frios e torradinhas acompanhadas de pastas não davam mais conta. Duas garrafas de vinho foram esvaziadas. Os assuntos tinham morrido e já estavam na fase dos lugares comuns.
- Minha nossa senhora, que barulheira é essa?
Maria Helena se espantara com um grave barulho que se aproximava. Nem era necessário o seu comentário. Todos eram capazes de ouvir quando ainda estava distante e, pelas expressões, estavam tão assustados quanto ela. O barulho que à distância já era impressionante, foi se aproximando. Quando chegou ao seu volume máximo, não se afastou mais. Tinha parado. Os familiares se entreolhavam. Todos tinham entendido que o som estava em frente a porta da casa. Antes que alguém pudesse tomar qualquer iniciativa, o portão da garagem se abriu tornando o som mais alto ainda. Os poucos segundos de suspense que se criou foram quebrado com a entrada de Luis Antonio montado em um moto negra esporrenta. Era uma Harley-Davidson modelo Fat-Boy com um guidão alto. A moto era toda negra, grande e imponente. O espanto que antes era apenas com o barulho, agora somara-se à cena.
- Minha nossa senhora, meu bem.
Maria Helena se levantou espantada acompanhada dos familiares que calados seguiram na direção de Luis Antonio. As reações foram diversas. Fernando, o filho, acompanhado do tio Valer se concentraram em comentários elogiando a moto. Maria Helena e sua cunhada, tia Ana, se atentaram ao suposto grau de irresponsabilidade que envolvia aquela aquisição. Debora, a nora, foi a única que não se preocupou com a novidade. Sua atenção foi exclusiva para o sogro. Aliás, o sogro protagonizava uma cena bem contraditória. Ele estava vestindo uma calça social bege e uma camisa xadrez de botões e mangas curtas enquanto montava uma moto típica de bad boys que usam couro, não fazem a barba, odeiam mangas em camisas e cheiram à cigarro e bebida.
- Tio, você está muito vermelho. O sol te castigou nesse passeio de moto – constatou a nora.
- Vermelho? Mas o capacete é fechado. Nem fico com o rosto exposto ao sol.
- Tem razão – ela concordou. – Inclusive, seus braços estão normais. Apenas seu rosto que está vermelho. Muito vermelho. Esse capacete te sufoca?
- Não, nem um pouco. Ele é bem confortável. Isso deve ser por conta de um aborrecimento que tive no caminho para cá. Um carro fez um movimento inapropriado quase provocando acidente comigo. Acabei me desentendendo com o motorista em uma breve discussão.
- Mas, tio, a ponto de ficar vermelho desse jeito?
- Foi uma grande lambança que aquele irresponsável fez.
A moto foi tema de quase toda a tarde do almoço. As conversas não fugiam muito das preocupações da esposa e irmã, nem dos comentários do cunhado e filho sobre mecânica, estilo e velocidade. O ápice foi quando Luis Antonio disse que a moto tinha um nome, Neguinha. Obviamente que todos resolveram encarnar nele. Com muito esforço, sob uma chuva de deboches, ele explicou que o nome já veio com a moto. Neguinha era o nome dela já com o primeiro proprietário e, na cultura dos motociclistas, não se muda o nome de uma moto. Tio Valter insistiu na troca do nome ou, até mesmo, extinguir essa ideia que ele considerava patética.
- Não, Valtinho! Não se pode cometer uma heresia dessas. Nenhum dos outros donos fez isso. Não seria eu quem quebraria uma tradição deste tipo.
- Outros donos? – Tio Valter perguntou com uma mistura de espanto. – Quantos donos essa moto já teve?
- Eu sou o sexto.
- Veja bem, Luis Antonio. Eu não entendo muito de moto. Aliás, a única coisa que entendo de moto é que elas têm duas rodas e, por isso, foram feitas para cair. Todavia, de carro eu entendo e sei que, um carro que pula muito de dono em dono, é dor de cabeça na certa. Na maioria das vezes, o carro tem algum problema crônico que nenhum mecânico consegue resolver.
- Ora, Valtinho, estamos falando de uma Harley-Davidson. Não é possível construir uma frase que contenha ao mesmo tempo Harley-Davidson e problema crônico. Não podemos nos esquecer que, não bastante, é uma Fat Boy carburada. Um sonho moderno dos fãs da marca.
- Pois então, Luis Antonio – Tio Valter tenta ser contundente em seus argumentos. – Agora que não faz sentido mesmo. Como um sonho de consumo troca tanto de mão para mão? Essa moto não tem nem quinze anos. E sem falar que é meio estranho que, num meio em que se apegam aos nomes às motos, não se apeguem à própria trocando rapidamente. Ainda acho que tem algo de estranho no ar.
Luis Antonio não conseguiu argumentos para acabar com a desconfiança do Tio Valter. Em contrapartida, o próprio, por não entender de mecânica de motos, não pode comprovar para o cunhado que a moto era uma furada. Maria Helena, que já não estava gostando nem um pouco da novidade, cortou a discussão quando ainda era uma conversa apenas.
Ainda perdido sem ter o que fazer com seus dias livres de aposentadoria, Luis Antonio não fazia outra coisa a não ser passear com seu novo brinquedo pela orla da praia da Barra da Tijuca. Ia comprar pão de moto, ia ao banco de moto, ia ao mercado comprar poucas coisa de moto. Era ele e a moto para cima e para baixo. Duas semanas inteira de relacionamento solteiro com a Neguinha. Ele insistia muito, mas Maria Helena se negava a andar naquilo que ela considerava ser um veículo extremamente perigoso. Ainda mais na idade dela que não permitia muitas surpresas, ela enfatizava sempre ao final. Contrariado com a insistente relutância da esposa, Luis Antonio seguiu para a terceira semana com seus passeios diários solitário. Sua esposa começou a perceber que, aquilo que ele chamava de falta de companheirismo, estava o aborrecendo. Ela já tinha notado antes que, a cada dia que passava, ele chegava mais vermelho. Sua desconfiança era igual à de sua nora, excesso de sol. Contudo, se tivesse prestado atenção à conversa dos dois no primeiro dia, passaria a desconfiar de outra coisa.
Com quase um mês de Neguinha na sua casa que Maria Helena sucumbiu aos pedidos, agora um pouco acalorados, de Luis Antonio. Era uma noite de segunda-feira. Para ela, a orla estaria sem trânsito algum e se sentiria mais segura. Não foram necessários muitos minutos para que a sua sensação de segurança terminasse. Ainda dentro do condomínio, com chão de paralelepípedo, Maria Helena, sem intimidade com o banco do carona e com poucas opção de onde se segurar, sentiu um pânico súbito. Pediu para que Luis Antonio retornasse. O marido se negou. Ordenou que parasse de frescura e se segurasse direito nele.
- É só se agarrar em mim como aquelas periguetes de rabo empinado.
Maria Helena estranhou o linguajar de Luis Antonio, mas nada comentou, pois seu pânico tinha tomado conta de sua mente. Tudo que ela queria era se segurar em algo e ter a sensação de que não seria deixada para trás em um chão áspero. Ao sair do condomínio, com um asfalto nivelado, o sacolejo da moto quase zerou. Maria Helena pode aos poucos entender como se posicionar e retomar o controle de si. Enquanto isso, Luis Antonio seguia na direção de um retorno que sairia direto na pista da praia. Ele precisou esperar um carro passar para entrar na principal. Maria Helena ainda recuperava o fôlego quando o momento de sair foi aproveitado por Luis Antonio arrancando em alta velocidade, dando um forte tranco na esposa. Ela quase, literalmente, ficou para trás. Por sorte, teve reflexos suficientes para abraçar por completo o marido. Ainda assim, seu movimento brusco de tentar se manter na moto acabou desestabilizando Luis Antonio, logo a moto também.
- PORRA, MARIA HELENA – Luis Antonio gritou assim que conseguiu retomar o controle da moto. – QUER NOS JOGAR NO CHÃO? QUE MERDA!
O que era no início um medo instintivo por moto, virou um colapso nervoso. A cabeça de Maria Helena deu curto circuito. Era o eminente risco de cair de uma moto em alta velocidade que ela tinha acabado de escapar. Era o grito de Luis Antonio, algo que ela nunca ouvira em toda a sua vida com ele. Maria Helena sequer conseguia falar de tanto que se tremia e chorava. Com muito esforço, ela pediu para que ele encostasse. Coisa que ele fez visivelmente consternado.
- Por que você está chorando, Maria Helena? – Luis Antonio perguntou assim que ela tirou o capacete e revelou um rosto em total estado de caos. – Você que quase nos derrubou. Mesmo assim eu contornei tudo. Pare de dramas. Foi apenas um susto.
Maria Helena apenas chorava, tentava recuperar o ar e limpava o rosto que estava lambuzado num mix de lágrimas, saliva e coriza. Luis Antonio seguia a recriminando numa postura agressiva jamais vista antes. A esposa permanecia na intimidade do seu pânico. Nada ao seu redor roubava a sua atenção, nem o seu marido em um estado estranhamente novo. A cena perdurou por quase meia hora, até que Maria Helena, com visivel pouco fôlego, se levantou dizendo que ia chamar um táxi.
- Não, não vai chamar taxi porra nenhuma – Luis Antonio foi contundente mais uma vez numa versão inédita da sua personalidade. – Você é minha esposa! Você saiu comigo! Você está comigo! Você volta comigo!
Ainda muito nervosa, Maria Helena implorou ao marido que a deixasse ir de táxi para casa. Ela argumentou que estava muito nervosa para conseguir voltar com segurança numa moto. Disse também que ele estava bastante irritado. Para ela, cada um voltar de uma maneira diferente seria melhor para espairecerem as cabeças.
- Não, não vou admitir isso! Ou você volta comigo, ou você nem volta.
Maria Helena estava exausta psicologicamente. Por mais que quisesse, não tinha condições mentais, e talvez físicas, para prolongar aquela conversa. Não relutou. Levantou-se da beira da calçada, colocou o capacete e se posicionou ao lado da moto esperando por Luis Antonio para subir depois dele. Com os dois na moto, Luis Antonio seguiu para casa. Desta vez, sem forçar muito a velocidade. No meio do caminho, um carro trocou de pista obrigando Luis Antonio a frear. Nada muito brusco. Mesmo assim, ele, assim que teve oportunidade, colocou a moto em movimento novamente e emparelhou com o carro:
- Ôh, seu filho da puta – Luis Antonio disse para o motorista do carro com o dedo em riste. – Não tem retrovisor nessa merda, não?
- Qual o seu problema? – o homem rebateu. – Você estava longe. Ou vai dizer que é o dono da rua e preciso da sua autorização para mudar de pista.
- Você vai precisar de autorização para conseguir uma cirurgia de reconstrução facial se enfiar essa merda de carro novamente na minha frente. Abre o seu olho – terminada a ameaça, Luis Antonio não deu tempo de resposta para o homem e seguiu em frente.
Já em casa, Maria Helena cogitou ligar para o filho. Desistiu. Pensou em ligar para a cunhada. Refugou. Para ela, compartilhar aquele momento poderia piorar mais as coisas. Talvez Luis Antonio reagiria mal àquilo e voltasse a se descontrolar. Ela, de fato, odiara aquela cena que viu pela primeira vez. Todavia, não queria ver novamente. Maria Helena cogitou então que sepultar aquele acontecimento seria a medida mais prudente.
Foram mais algumas semanas com Luis Antonio fazendo seus passeios solitários na Neguinha. Esporadicamente, ele fazia um convite e Maria Helena, numa posição bem passiva, negava inventando algo mais importante a se fazer.
Certa tarde, o telefone da casa tocou. Maria Helena estava só e então atendeu. Era seu filho Fernando. Ele começou a ligação pedindo para a mãe ter calma. Geralmente isso deixa as pessoas mais nervosas ainda. A mãe entrou em pânico. De imediato, pensou no pior. Luis Antonio sofreu um grave acidente, ela perguntou sem pestanejar. O filho negou de imediato para acalmar a mãe. Não, nada de acidente, ele disse. Papai estava preso, Fernando completou na sequência. Maria Helena perguntou em qual delegacia, o filho respondeu e em seguida ela desligou partindo em disparada.
Assim que chegou à delegacia, Maria Helena foi recebida pelo filho que não quis entrar em maiores detalhes. Ele preferiu deixar por conta do delegado que a esperava em sua sala. Simpático, ele cumprimentou Maria Helena, tentou deixá-la confortável apesar das insistentes perguntas da esposa.
- Não, senhora, seu marido não vai para a prisão. Ele apenas foi detido por vandalismo e tentativa de agressão. Por ele não ser primário, uma fiança, acredito, será suficiente. Como ele não tem ficha, pesquisei um pouco sobre ele e fiquei impressionado como é a típica situação que jamais esperaria de um homem como seu marido. Ele está passando por alguma turbulência na vida particular, profissional ou sei lá mais o quê?
- Não, seu delegado – Maria Helena respondia quando foi interrompida pelo delegado.
- Freitas, senhora. Pode me chamar de Freitas.
- Desculpe – Maria Helena prosseguiu. – Não, Freitas. Quero dizer, estava tudo bem, sim. Estava tudo na perfeição que sempre foi viver com o Luis Antonio. Daí, foi só ele se aposentar que as coisas meio que saíram do controle. O meu bem começou a se tornar um homem impaciente, grosseiro em alguns momentos e até, digamos, sofisticou seu vocabulário com diversos palavões.
- O que é isso, mãe? – Fernando se assustou com o depoimento da mãe. – Não estou sabendo disso. Papai anda nervoso?
- Bastante, filho. Gritou comigo outro dia. Falou palavrões. Chega irritadiço da rua. Não sei, mas acho que o tempo ocioso da aposentadoria está fazendo mal a ele. – Maria Helena fez uma pausa para segurar um choro que ficou evidente para todos e depois se direcionou para o delegado. – Freitas, o que o Luis Antonio fez?
- Pois bem, senhora. Segundo relatos do próprio, ele foi fechado por um ônibus que quase provocou um grave acidente. O motorista do ônibus disse que não foi nada de especial. A moto sequer caiu no chão. Aparentemente, ele parou a moto na frente do ônibus e começou a discutir com o motorista. De repente, ele se descontrolou mais do que já estava e começou a quebrar os retrovisores, janelas e para-brisa do ônibus.
- Meu senhor, Freitas! Como que o meu bem conseguiu quebrar tanta coisa?
- Ele usou um martelo, senhora.
- Um martelo?
- Meu senhor! Minha nossa senhora! De onde ele tirou um martelo?
- Depois de muito conversar com ele, descobrimos que ele já vinha há alguns dias pilotando a moto com um martelo preso à perna?
- Meu pai andando com um martelo? Seu Freitas, isso não faz sentido nem na época que ele era dentista. Ele nunca usou um martelo na vida. Qual a razão disso?
- Vejam bem – Freitas demonstrou desconforto em prosseguir. – É comum em alguns moto-clubes que seus integrantes andem acompanhados de algo para se defender de desavenças.
- Mas, papai não é de moto-clube. Ele é apenas um dentista que dirige uma Harley-Davidson.
- Bem – Freitas estava muito desconfortável com o que ia dizer. – Algumas pessoas, quando compram essas motos, ficam sob influências de filmes, mitos e acabam sob sugestão de personagens. O martelo, por exemplo, por muito tempo foi conhecido como o artifício usado por membros do moto-clube Hells Angels. Vai ver ele leu algumas coisas sobre, viu uns documentários e pensou que, agora que ele tem uma Harley, ele virou um cara mau. Isso acontece. Acreditem!
A conversa se prolongou por longas horas até que conseguissem determinar de fato o que estava acontecendo. Exaustos e sem opções, desistiram. Luis Antonio foi solto após pagamento de uma fiança. Em seguida, pai, mãe e filho seguiram para a casa do casal. Lá chegando, Tio Valter os aguardava. Eles ficaram surpresos porque não tinham comentado coisa alguma com familiares, apenas os três estavam sabendo daquilo. Tio Valter parecia ansioso para contar algo, mas ao ver a péssima aparência dos três, se conteve e perguntou o que tinha acontecido. Conforme Fernando ia contando para o tio detalhes do evento, Maria Helena e Luis Antonio ficavam mais abatidos. Parecia que um tragédia tinha assolado a família. No meio da história, a esposa de Fernando, Debora, chegou e, mesmo pegando a história pela metade, não parecia nem um pouco surpresa. Ao final, quando Fernando terminou de contar o acontecimento, tio Valter abriu um enorme, soltou uma risada, bateu as mãos algumas vezes e se jogou de pé sobre o sofá.
- Você também enlouqueceu, Valtinho? – Maria Helena perguntou.
- Não, não enlouqueci. Aliás, vocês iriam dizer exatamente isso caso não tivesse acontecido esse surto do Luis. Estou feliz que aconteceu, de verdade. Claro que estou feliz também que ninguém se feriu. Mas assumo que isso acontecendo apenas ficou mais fácil de confirmar o que eu vim contar para vocês.
- Valtinho, por favor – Maria Helena o interrompeu. – Nosso dia foi muto cansativo. Não temos condições de lidar com voltas e serpenteios. Vá direto ao ponto, por favor.
- Ok, é justo – Tio Valter desceu do sofá, se recompôs e prosseguiu. – Pois bem, vamos lá. Desde aquele almoço em que você, Luis Antonio, apareceu com a tal Neguinha que fiquei inquieto com a tal história de a moto ter rodado na mão de tantos proprietários. Principalmente pelo que falamos naquele dia. Nunca deu problema, é uma moto desejada por todos, os que compram costumam ser fiéis às elas. Sim, sentia que tinha algo de estranho no ar. Vocês sentiram também, mas não perceberam. Luis Antonio dava sinais de mudança de personalidade. Ele começou a ficar uma pessoa irritadiça. Vocês viram com o evento de hoje. Maria Helena vivenciou um momento de pico na rua, segundo acabaram de me contar.
- Eu também notei – Debora, a esposa de Fernando, pegou a palavra.
- Você também – Tio Valter reagiu com surpresa e empolgação ao mesmo tempo. – Que ótimo! Mais pessoas para sustentarem o que estou para contar.
- Peraí – Fernando interrompeu. – Quando que você percebeu algo, Dab?
- No primeiro dia. Ele chegou muito vermelho. Perguntei o motivo e disse que tinha se aborrecido no trânsito com algum motorista. Ninguém notou. Apenas eu notei porque estranhei ele estar vermelho. Pensava que era...
- VERMELHO DE SOL – Maria Helena falou junto com a nora e depois seguiu só na fala. – Sim, ele voltava dia a pós dia sempre vermelho. Achava que era sol, mas ele nunca se bronzeava ou descascava. Claro, meu bem! Você estava se aborrecendo todos os dias na rua, estava me dando sinais e não percebi.
- Calma, Maria Helena – Tio Valter interveio. – Não é culpa sua, nem de ninguém. Sim, o sinais estavam surgindo, mas ninguém se atentou. Muito menos podemos dizer que os negligenciamos. Isso tudo tem um culpado e não somos nós. É a moto e vou explicar. Como disse, resolvi correr atrás do motivo da moto ficar tão pouco tempo na mão dos seus proprietários. Rastreei no sistema do DETRAN e achei o proprietário anterior. Garoto novo, universitário e de classe média alta. Ficou menos de seis meses com ela. Motivo da venda? Podem ler aqui no e-mail que ele me respondeu. Ele se tornou uma pessoa agressiva depois que comprou a moto. Os amigos notaram, a namorada notou, a família notou. Peguei com ele os documentos do proprietário anterior e adivinhem o que aconteceu. Nem precisam responder. Ficou agressivo. Achei os outros dois anteriores e nem preciso prosseguir, não é mesmo? A mesma história. Daí fui no primeiro proprietário. Aliás, proprietária. Marcela. Pasmem. Ela está morta.
- Pai meu e da nossa senhora! – Maria Helena exclamou.
- Calma – Tio Valter prosseguiu. – Ela não morreu de acidente de moto. Ela teve um derrame, ficou alguns dias internada e depois morreu. Ainda em vida, nas suas últimas horas, ela pediu para ser enterrada com a moto. A família achou que era uma grande besteira. Disseram que ela estava dando uma dramaticidade a um meio de transporte. Acontece que ela era membro do moto-clube feminino Bruxas do Asfalto. Dizem que esse moto-clube é composto apenas por mulheres envolvidas com bruxaria. Fui falar com uma das integrantes do moto-clube. Ela quem me contou esses detalhes. Segundo ela, a família vendeu a moto porque precisava de dinheiro para pagar o funeral e as dívidas que ela deixou ao morrer. O moto-clube era contrário e avisou à família que estavam comentando um grande erro. Venderam a moto e começaram os problemas para o primeiro dono. Amigos, essa moto, pelas palavras da integrante, é amaldiçoada pelo espírito da tal Marcela. Ele vem expulsando seus novos proprietários até que seja colocada onde deveria estar, no túmulo da sua primeira dona. Acho que não preciso dizer o que devemos fazer, não é mesmo?
O consenso da família foi geral. No dia seguinte, duas integrantes do moto-clube apareceram na casa de Luis Antonio acompanhadas de um reboque. Lamentaram não poder pagar pela moto. Luis Antonio, na sua forma original, de forma elegante, agradeceu por nada de pior ter acontecido e desejou uma eterna paz para a amiga delas. Enquanto elas iam embora, Maria Helena e Luis Antonio ficaram no portão de casa admirando a Neguinha partir. Luis Antonio se lamentou em voz alta:
- Eu vou sentir uma saudade do caralho dessa moto.
- Meu bem – Maria Helena olhou assustada para ele. – Você ainda está sob efeito da...
- Calma – Luis Antonio a interrompeu. – Foi uma brincadeira apenas para te assustar.
- Enfia essa brincadeira no cu.
- Boa, Maria Helena. Boa tirada aproveitando a deixa.
- Não foi tirada, Luis Antonio – Maria Helena virou se de costas para ele seguiu para dentro de casa falando em voz alta. – E prepare uma grande viagem para se desculpar por tudo que aconteceu.
- Pois é, - Luis Antonio falou em voz alta. – acho que vou ter que cancelar minha aposentadoria para pagar essa viagem.

Próximo conto da coleção em breve

quinta-feira, 30 de março de 2017

Volúvel

Carina
- Você quer ficar solteiro para sempre?
A pergunta da Carina percorreu todo meu sistema nervoso como se fosse um fantasma arrastando correntes por uma casa assombrada. Gelei e nenhuma outra reação era possível.
Nós homens nascemos com alguns defeitos de programação de fábrica que nos fazem reagir de maneira exagerada a algumas situações inocentes. É algo inerente por mais que reconhecemos. Basta fazer um teste com seu companheiro. Quando ele estiver na sala distraído, por exemplo, grite do quarto algo como:
- O QUE É ISSO, PEDRO HENRIQUE?
Estou supondo que ele se chame Pedro Henrique. Do contrário, aí você que vai ter um problema. Enfim, ao gritar isso, mesmo que o dito cujo não tenha culpa no cartório, instintivamente, sob efeito de algo mais forte, ele se tremerá todo, gaguejará e, não me surpreenderia caso chorasse pedindo desculpas enquanto se encaminha engatinhando para o quarto.
Algo do tipo já aconteceu comigo certa vez. Estava dando aula pela primeira vez para uma turma de primeiro período. Toda aula é sempre a mesma coisa, um aluno ou outro fica ao final para falar algo, útil ou não. Na maior parte das vezes, são lamentações gratuitas. Em turmas de primeiro período, inevitavelmente, por cautela ou excesso de respeito, os alunos costumam me chamar de senhor, professor, mestre ou algo do tipo. Naquele dia, uma aluna, mais velha que a média, algo em torno de uns vinte e cinco anos, ficou por último para falar comigo. Ela começou a conversa com:
- Preciso falar com você.
O pronome informal derrubou qualquer barreira que me deixaria ressabiado com as famosas lamentações de primeiro dia de aula. Pior ainda, criou um falso ar de intimidade entre os dois. À vontade, deixei que a aluna prosseguisse. Foi quando que ela sapecou:
- Estou grávida.
As minhas pernas fraquejaram. A pele, sempre branca, ficou da cor de uma vela. O suor surgiu abruptamente na testa. E dentro da minha cabeça ouvia a banda do Programa do Ratinho tocando “Parabéns pro papai!”. O desespero aflorava cada vez mais quando finalmente me toquei que nunca tinha visto aquela menina até então. Tudo não passava de mais uma reação exagerada por conta do nosso defeito de programação original.
Voltando à pergunta da Carina. Fui pego de surpresa. Não esperava que um dia ela tocasse nesse assunto. Quando a conheci, me alertavam que ela precisava de escolta. A garota não marcava bobeira. Chegava junto e na pressão. Era daquelas que se você piscasse, ela te sacudia e só se daria por si quando estivesse estirado em um motel, com ela sentada à beira da cama se penteando e te apressando para pedir a conta, pois não quer perder o capítulo da série sobre as Kardashians. É, ninguém é perfeito. Evitei-a em algumas oportunidades para não ter dor de cabeça, até que um dia foi inevitável. Numa madrugada de dia de semana, Carina apareceu bêbada debaixo da minha janela gritando meu nome. Algo precisava ser feito antes que os vizinhos reclamassem. Ou me chamassem de frouxo. Deixei que entrasse e obviamente que o bicho pegou. Sem cerimônias, ao final, ela tomou um banho e foi embora. Mantivemos até então uma relação que não sei ao certo como classificar. Era quase que um delivery reverso. Ela ligava, perguntava se estava disponível e vinha ao meu encontro. Satisfeita ou com a tarefa razoavelmente encerrada, pois não vou mentir que sempre dou conta da libido dela, ela ia embora e a vida seguia.
Era uma dinâmica tão bem resolvida e prática que não tinha motivos para mexer naquilo. Eu mesmo tentei dar um toque especial algumas vezes. Em uma delas, chamei a Carina para comer uma coisa na rua antes. Ela dispensou. Nada em público. Para ela, nossa relação se limitava ao meu quarto. Noutra, propus um vinho antes. Foi rapidamente colocado de lado por ela. A possibilidade de um dos dois cair bêbado ou ter de lidar com uma ereção capenga por motivos alcoólicos fizeram Carina manter o protocolo objetivo. Nada fugia da rotina que era chegar, um agarrava o outro, tirávamos a roupa, transávamos como dois babuínos no cio e, se ela estivesse com uma folga de tempo, um papinho depois, do contrário, banho e ia embora.
Por conta da sua personalidade e do implícito contrato sexual consentido por ambas as partes, a pergunta me causou pânico. Sem falar do famigerado defeito de programação já citado, obviamente. Não acreditava que chegaria ao ponto de ter de inventar uma desculpa para me desvencilhar dela. Era tudo ótimo como estava. Por qual motivo ela queria entrar em um relacionamento sério? Aliás, por que transformar em um relacionamento?
- Você está doido? De onde tirou que quero algo sério com você? Eu nunca quis algo sério com alguém. Imagine com você. – ela terminou a fala rindo.
- Não precisava me magoar também. Era só falar que entendi errado.
- Você entendeu MUITO errado. – Carina fez questão de enfatizar o muito. – Aliás, você sempre entende tudo errado. A única coisa que me interessa é se pretende ficar nessa por muito tempo ou corro risco de perder meu objeto sexual para alguém disposta a desenvolver uma relação com um pervertido incorrigível.
- Estou confuso se devo ficar mais magoado ou se isso foi um elogio.
- ANDA! – ela demonstrou um pouco de impaciência. – Responde logo!
- Responder o que, baby?
- Corro o risco de perder o meu brinquedinho por demanda?
- Não, não corre. Por quê? Posso saber?
- Porque estava pensando em dar um passo à frente nessa brincadeira. – vendo que meus olhos se arregalaram novamente, Carina se antecipou em me acalmar. – Não é o que está pensando, desesperado. Quero apimentar mais as coisas que estão começando a ficar monótonas.
Já tinha um tempo que a Carina dava sinais que ia pedir algo do tipo. Mesmo sendo bem resolvida, tinha a impressão que ela ficaria nas indiretas e dicas soltas no ar até que eu me tocasse e pedisse. Engano meu. Ela mandou na minha lata, direto e reto. Queria fazer um ménage à trois. Sim, meus caros. Ela propôs por iniciativa própria o Santo Graal da perversão masculina. A menor das surubas. Apenas uma condição foi imposta, eu quem deveria arrumar a terceira pessoa. A euforia dela com a minha pronta aceitação foi tamanha que desistiu de se vestir para ir embora e pediu mais umazinha.
- Tá, mas preciso de uns quinze minutos que ainda estou meio cansado. – eu tive de ser honesto.
Já tinham se passado dois dias e nada de chegar perto de ter um nome. Mesmo empolgado, ou ansioso, ou excitado mesmo, com a proposta, estava empacado na parte do arrumar a terceira pessoa. Na teoria, essa parece ser a parte mais fácil. Inocência da minha parte. A primeira coisa que me veio à cabeça foram as amigas lésbicas. Ora, é, no mínimo, ofensivo achar que a pessoa por ser lésbica tem um nível de perversão diferenciado ao ponto de topar uma surubinha. Por que uma amiga heterossexual não teria tal nível de perversão? E o pior? Por que acreditar que uma amiga lésbica está mais propensa a topar algo com um homem do que uma amiga heterossexual topar algo com uma mulher? Achei melhor abordar quatro amigas. Era sempre a mesma ladainha inicial. Comentava do meu dilema e perguntava se elas tinham uma conhecida para indicar. Notem que em nenhum momento convidava a própria amiga. Para enfatizar o desapego da proposta, não perguntava por amigas delas, mas por colegas. Tudo para deixar no ar uma falsa intenção de não ter intimidade com a presa que seria devorada por mim e pela Carina. Obviamente, era uma estratégia escalafobética para a pessoa se candidatar. Das quatro, três chegaram a pedir para ver uma foto da Carina. Não sei por qual motivo, mas pediram. De corpo inteiro e uma do rosto de perto. Nenhuma das quatro se propôs, tampouco indicaram alguém. Em compensação, todas pediram relatos caso eu conseguisse colocar em prática. Claro que daria relatos sensacionais, mesmo não acontecendo, inclusive.
Já estava com aquela missão nas mãos há mais de uma semana e nada. A solução mais óbvia de todas martelava minha cabeça toda vez que me lembrava dessa pendência. Carina começou a me cobrar e, num ato de desespero, segui com a famigerada solução. Contratei uma garota de programa. Claro que para ficar por cima, combinei com a profissional que ela deveria ser atriz, fato que fez com que tentasse me extorquir umas notas a mais. Não colou. Acordei com ela que fingisse ser minha amiga. Dei umas dicas para que ela tivesse histórias em comum comigo, dentre outras futilidades que denunciaria a nossa amizade fictícia.
No dia combinado, Angel, a garota de programa chegou bem antes do horário marcado. A ideia era fingir intimidade. Ela estaria descalça deitada no sofá como se fosse antiga frequentadora da casa. Pedi também que ficasse só de blusa e calcinha. Ah, e mudamos o nome dela. Porque, convenhamos, Angel era demasiadamente óbvio. Virou Patrícia mesmo.
- Mas já iniciaram os trabalhos na minha ausência? – Carina disse assim que entrou e encontrou a Patrícia refestelada seminua no meu sofá.
- Que nada – Patrícia tomou à frente. – Foram uns amassos de leve. Coisa de matar a saudade.
- Matar a saudade, é? – Perguntou a Carine.
- É, matar a saudade. – Concordei sem ter a mínima ideia do que a Patrícia falava e em seguida perguntei à própria. – Matar a saudade, né?
- Claro – Patrícia seguiu com seu roteiro inventado sobre algo que não combinamos. – Desde Cabo Frio, lembra? Devem ter uns seis meses que não nos vemos. Não é?
- Sim, imagino que seja isso. – Confirmei. – Não tinha noção de quanto tempo não nos víamos. Tanto que não comentei algo sobre com a Carina. Aliás, ainda bem, né? Digo... Aliás, esta é a Carina e esta é a Patrícia.
As duas se cumprimentaram e ficaram sentadas uma ao lado da outra no sofá. Fui à cozinha pegar uns copos para servir a tequila que a Carina exigiu para tirar a timidez. Seja lá o que ela chamava timidez. Enquanto buscava copos, garrafa, limão e sal, eu fiquei com os ouvidos ligados na conversa da sala. Sabe-se lá o que a boca descontrolada da Patrícia aprontaria. Ela deu sorte no assunto do tempo que não nos víamos. Nem queria imaginar o que aconteceria se tivesse dito para a Carina que eu tinha a visto recentemente ou algo que fosse contraditório à demência que ele resolveu improvisar.
- Você é muito mais bonita pessoalmente – ouvi da cozinha a Patrícia dizer para a Carina.
- Jura? O baby mostrou foto minha para você?
- Baby?
- Sim, ele é o baby.
- Nossa que apelido fofo. Por que disso?
- Porque ele chama todo mundo de baby. Nunca ouviu isso?
- Claro que ouviu! – Voltei da cozinha interrompendo o diálogo das duas. – Praticamente pontuo as frases com baby. Sua tequila.
- Carta ouro? – Carina perguntou num misto de exclamação e demonstração de ter ignorado a mancada. – Você capricha mesmo.
- Não é um dia qualquer, baby.
- Tem razão – Carina concordou para depois ponderar. – Ainda assim me senti meio desprivilegiada. Você mostrou foto minha para ela, mas não me mandou uma foto dela sequer.
- É como ela disse, baby. Tinha muito tempo que não nos víamos, então mandar uma foto antiga poderia criar uma ilusão.
- Exatamente – Patrícia interveio para o meu desespero. – E sem falar que seis meses atrás eu estava gordinha. Tipo inchada, sabe? Não foi uma época boa para mim.
- Nossa – Carina se espantou. – Nem diria que já foi gordinha. Você tem um baita corpão.
- Obrigada! Ah, obrigada! – Patrícia agradeceu à Carina pelo elogio e a mim pela dose de tequila que foi virada rapidamente. – Quem diria naquele dia em Ilha Grande em que nos conhecemos que iríamos um dia estar aqui nessa aventura?
- Ilha Grande? – Carina se espantou e eu, calado, também. – Baby, nunca te imaginaria em Ilha Grande.
- Que coisa, não? – Interagi com um sorriso artificial. – Foi uma única vez e foi suficiente só por encontrar essa pérola. Não é mesmo, meu anjo?
- Patrícia! – A infeliz não entendeu o meu sarcasmo e corrigiu o que não precisava.
- Esquece – Cortei o tema para evitar maiores problemas e já puxei outro com o intuito da Carina se expor, já que tinha acordado com a Patrícia alguns dias atrás que isso precisava ser combinado antes de começar a fodelança. – Que tal falarmos sobre preferências ou restrições para a atividade do dia?
- Então, que bom que tocou no tema – Patrícia, sabe-se lá o porquê, tomou a frente da conversa. – Vai ter de rolar uma restrição, sim. Sabe como é, né? Ontem tive relações com um cara...
- Um cara? – Carina a interrompeu espantada. – Você não é gay? Ela não é gay, baby?
- Sim, ela é. Digo, não! Quero dizer... – Tentei explicar, me enrolei e fui cortado pela Carina.
- Poxa, baby! Imaginei que traria uma amiga gay para interagir comigo. Você é muito egoísta mesmo. A ideia foi minha e você quem vai ficar com a atenção das duas.
- Não, não é isso – A Patrícia se meteu na conversa. – Você está confundindo as coisas, gata. É Marina, certo?
- Carina! – A própria respondeu.
- Então, Carina, eu topo qualquer parada. Meninas e meninos. Pode relaxar quanto a isso. Inclusive, acho que só vou te dar atenção hoje, pois, como estava querendo dizer, ontem transei com um cara e ele me deixou um pouco machucada. Ele era meio sem jeito, sabe? Daí, hoje não vai rolar anal.
- Patrícia – tentei intervir em vão.
- Pois vou te falar uma coisa, Carina. Tem bastante tempo que não vejo esse cachorro, mas parece que foi ontem. Lembro bem do estrago que ele me fez da última vez.
- Patrícia – insisti em interromper a improvisação não combinada dela.
- Aliás, – ela fez uma pausa para tomar um shot de tequila me dando a oportunidade de cortá-la, mas a desperdicei pasmo com o talento da menina para fazer merda. – da última uma pinoia. Todas às vezes. Impressionante como que, em toda vez que transo com o bebê, digo, o baby, ele arregaça o meu rabo.
- Ele o que? – Carina se espanta.
- Patrícia – faço mais uma intervenção, mas já sabendo que talvez seja tarde demais.
- Não! Peraí! – Carina se impõe. – Ele não gosta de cu. Nunca comeu cu na vida. Baby, quem é essa garota?
Até poderia contornar a situação, mas minha pausa com uma expressão de derrota acusou tudo. Em questão de segundos, a Carina ligou todas as mancadas que a Patrícia cometeu naquele pouco espaço de tempo e concluiu acertadamente que não éramos amigos como tínhamos nos apresentado. Foram necessários mais uns segundos para a Carina perceber que, se não era amiga, só podia ser uma garota de programa.
- Ok, você me descobriu. – Patrícia não sabia mesmo a hora de se calar. – Entenda que isso não tem problema algum. Sou profissional. Acredite, vai ser bem melhor do que com uma conhecida sem experiência.
Carina, segundo ela mesma, pouco se importava com experiência, desenvoltura ou traquejo para a coisa. A preocupação era higiene. Patrícia, ou Angel, tanto faz, obviamente fez uma cena se explicando sobre como era uma pessoa limpinha. Não era disso que Carina se referia. Ela estava preocupada com doenças. Não se sentia segura com uma pessoa que indiscutivelmente é considerada grupo de risco. A profissional se ofendeu sem motivos, ficou irritada e começou uma discussão com a Carina. Foi uma baixaria só. Nada perto da baixaria que esperava que fosse rolar no meu quarto. Carina, no auge da discussão, afirmou que não falaria mais com ela e decretou que nada mais aconteceria. Foi uma frustração terrível. Ao menos, ela tomou partido das coisas e colocou a rainha das gafes para fora da minha casa. Fato que agradeci, pois não precisei pagar pelos (des) serviços dela. Com a saída da garota de programa, as coisas se acalmaram um pouco. Tentei aproveitar a presença da Carina para não ficar na mão, literalmente. Ela ainda estava irada com a minha atitude. Minhas atitudes, diga-se de passagem. Contratar uma garota de programa e mentir para ela. Obviamente não rolou coisa alguma. Ainda bem que ela não foi embora brigada comigo. De quebra, manteve a proposta da mesa. Na saída, sacramentou:
- Semana que vem sem falta. E nem se dê ao trabalho de procurar alguém. Você pisou na bola. Agora quem vai arrumar a pessoa sou eu.
A semana não passou tão rapidamente como gostaria. Ao menos, pelo lado bom, tive bastante tempo para planejar uns movimentos e umas posições em que fosse possível dar atenção para as duas meninas ao mesmo tempo. Pude também me manter em forma com duas séries diárias de exercícios que prefiro chamar intimamente de punheta. No final de semana, que ficou bem no meio do período, não saí. Nada de desperdiçar energia. Fiquei em casa me concentrando fazendo uma maratona de filmes pornôs sobre o tema. Aproveitei também para providenciar as bebidas que iriam dar aquela animada nas meninas. Não pensava em outra coisa que não fosse o tal evento. Cancelei todos os compromissos do dia, dormi até tarde para estar bem descansado, dei uma aparada nos pelos do playground e me prostrei no sofá esperando a chegada das duas beldades.
Nunca tinha visto Carina com mulheres dando pinta de estar se relacionando com alguma delas. Inclusive, ela sempre comentava comigo que tinha vontade de ficar com meninas, mas não tinha conseguido. Não sabia ao certo se era uma confissão sincera, ou se ela estava apenas soltando uma deixa para que eu propusesse algo. Era algo contraditório se considerasse que ela, sempre que saía, ia para baladas GLS. Seu argumento era que a música era melhor e que podia dançar sem ser importunada por um hétero babaca. Argumento inclusive que todos sabemos ser verdade, infelizmente. O fato era que, sendo verdade ou não, alguém com o perfil dela sempre conhece mais mulheres, mas não somente mulheres.
- Oi, baby – ela disse assim que abri a porta. – Esse é o Mateus.
É possível uma pessoa morta ficar de pé sem apoios? Eu provei que é possível. Sim, podíamos me considerar morto naquele momento. Meu coração parou, o sangue não correu mais, meu cérebro cessou com seus sinais e meu pau entrou. Ok, a última informação não serve para classificar um indivíduo como morto, contudo, achei pertinente para ratificar a minha reação. Não sei quanto tempo fiquei ali atônito tentando processar a informação. Eu apenas fiquei e precisei de um tranco para retomar as atividades biológicas do meu corpo. Tamanha a porrada que o próprio corpo disparou que não houve comunicação do cérebro com a boca e no instinto falei:
- Você não vai comer o meu cu!
Carina e o rapazinho riram. Ela, em seguida, entrou puxando-o pela mão. Enquanto atravessava a sala, ela se vangloriava com ele do fato de ter acertado previamente que eu teria uma reação daquele tipo ao abrir a porta. Ela sempre foi uma cretina mesmo.
- Nunca imaginei que você fosse tão inseguro.
- Não é questão de ser inseguro. Eu apenas não esperava algo do tipo. Estava aqui todo ansioso aguardando por você e supostamente uma amiguinha. Alguém da sua idade, entende? Cinturinha fina. Peitinhos, se possível, menores que o seu, só para ter uma diversidade. Sabe do que estou falando? Abre o bocão para os seus, faz biquinho para os da amiguinha. Quem sabe uma loura para contrastar com seus cabelos negros? Mas não! Surge-me um caralhudo. Não que eu tenha reparado na sua virilha para constatar isso. Eu nem olhei para aí. Droga! Olhei agora apenas para enfatizar o que estava a dizer. Não pense que sou manja rola que fica encarando o pau dos outros. Caralhudo foi um termo aleatório para dar mais dramaticidade à coisa. O fato de ter pau grande para mim não é um drama. Não! Peraí! Não quero dizer que reparei naquela olhada o tamanho do seu pau pelo volume. Eu nem olhei direito. Foi uma olhada sem ver. Sequer conseguiria dizer se o seu zíper está aberto. Vejam só! Não está! Não! Porra! Aí é sacanagem! Ele deu maior ajeitadão. Daí fica impossível não olhar. Aí, olha! Jogou para esquerda! Pronto, olhei novamente. Já encarei mais o pau dele do que o próprio rosto. Enfim, por que estou falando do pau dele mesmo?
Terminei a pergunta e fui para a cozinha para não piorar a situação. Carina gargalhando respondeu à minha pergunta dizendo que eu era enrustido. Preferi ignorar. Ela prosseguiu me sacaneando à distância falando para não me preocupar, pois o pau dele não era maior que o meu. Todavia, era mais grosso. Sequer caberia na minha mão, ela completou. Depois, finalizou dizendo que era melhor eu tentar segurá-lo para tirar a dúvida. Eu permaneci na cozinha batendo a minha cabeça contra a geladeira enquanto aquela cretina se calava.
- Baby – Carina quebrou o silêncio quando retornei da cozinha. - Vamos ter calma? Ninguém vai fazer nada que o outro não queira.
- Acho justo – peguei a deixa da Carina. – Inclusive, na semana passada, antes de começar, íamos deixar claro os limites de cada um.
- Sim, é verdade. Bem, considerando que são dois homens hoje, minha única restrição vai ser dupla penetração. De resto, é festa – Carina encerrou a fala com sua tradicional risada de doida divertida.
- Bem, as minhas serão... – minha fala foi interrompida pelo Mateus.
- Além de não permitir que eu chegue perto da sua bunda, né?
- Ora, vejam só. Parou de coçar o pau para fazer piadinhas – fiz uma pausa, pois Carina me olhou atravessada recriminando minha reação. – Enfim, isso que você falou, obviamente, além de outras partes do meu corpo. Aliás, o meu corpo todo. Por favor, mantenha distância dele.
- Ih, baby – Carina se levantou do sofá para ir à cozinha e, no caminho, me deu um tapa na testa. – Homofóbico, é? Cada segundo uma surpresa. Pego cerveja na geladeira ou congelador?
- Congelador! E não sou homofóbico. Muito pelo contrário. Sabe bem disso. Vou cumprimentar o Mateus sempre que nos encontrarmos, o abraçarei quando conveniente, entretanto, com os dois pelados, quero distância. Não consigo me sentir à vontade. Não é uma questão de discriminar homens de uma maneira geral ou apena gays. Apenas me sinto exposto quando nu na presença de um homem e a proximidade com ele me deixa desconfortável. Para se que tenha uma noção, depois do futebol, quando iam todos para o chuveiro, eu ficava enrolando do lado de fora. Sei lá. Aquele monte de piroca e bunda cabeluda não era uma cena a qual queria fazer parte. Não era questão de desejos reprimidos, não me garantir caso alguém se aproximasse, ou complexo de comparar medidas. Trata-se de uma cena que não me apetece. Tipo animal sendo maltratado, escatologia ou pele de idoso um dia depois de uma pancada.
- O que acontece com a pele de idoso depois de uma pancada? – perguntou o Mateus.
- Fica roxo, mas não é como um hematoma. Apenas a pele mesmo. Coisa nojenta que depois descasca como plástico de capa de caderno vagabundo.
- Baby, – Carina voltou da cozinha. – é sério que de restrições sexuais, já está divagando sobre pele de velho?
- Pois é, acabei indo longe. Enfim, é isso que falei. Ah, e sem contato visual. Não me leve a mal, mas sem olhares cruzados.
- Vocês dois vão ficar transando comigo de cabeça baixa como dois submissos?
- Não precisa ser assim... – Carina não me deixou terminar a frase.
- Você está muito fresco, baby.
- Não é frescura, baby! É questão de não querer encarar outro homem na hora que estiver excitado de pau duro. Nem em filme pornô faço isso. Tem umas horas que eles filmam só o rosto do ator para mostrar a excitação dele. Tá doida? Bater uma punheta olhando para um macho contorcendo artificialmente o rosto à beira de estirar um músculo. Sem falar quando dão close na penetração. Estão lá, pau e boceta. Boceta paradinha e pau dentro, pau fora. Só que ele ocupa a tela toda. E eu balançando o meu encarando a rola de outro cara. Falta apenas eu comentar em voz alta “que rola lustrosa”. Não, não quero! Vou ficar olhando para você o tempo todo. Seu rosto, seus peitos, sua boceta. Se estiver de costas, fico encarando seu rabo. Caso não tenha ângulo para ver alguma coisa, fecho os olhos e imagino a Penélope Cruz.
- Sério? – Mateus pareceu, inicialmente, não aprovar meu comentário num todo. – Ela tem cara de suja.
- Não ouse falar assim dela. Bem, mas que seja! Então me dê um nome. Se fechasse os olhos, em quem pensaria?
- Pierce Brosnan vestido de James Bond.
- Não prefere o Sean Cornery? Peraí! Você é gay?
- Sim, claro! Por quê?
- Gay ou bi?
- Gay! Por quê?
- Você já transou com alguma mulher antes?
- Não, nunca. Mas é que tenho tanta intimidade com a Carina que acho que não será problema.
- Acha? Você... – eu mesmo me interrompi. – Carina, ele acha. Sabe o que acho? Que ele não vai conseguir e, como não cedi coisa alguma que lhe favorecesse, ficamos com poucas opções. Ou os três ficam apenas conversando, ou apenas transarei com você como sempre e ele ficará ao redor da cama... sei lá... cantando La Vie En Rose para dar um toque romântico a mais um ménage fracassado.
- Nossa, que cafona. Não tem outra música melhor?
- MATEUS – eu e Carina gritamos juntos.
Ficou claro naquele momento que nosso plano tinha ido por água abaixo. Pelo menos eu e Carina estávamos quites. Cada um fez uma lambança numa semana. Mesmo assim, não perdemos totalmente a viagem. Largados pela sala, consumimos tudo que tinha preparado enquanto falávamos as mais diversificadas putarias. Mateus foi embora com uma imagem diferente de mim. Percebeu que não era preconceituoso com gays em geral, mas que apenas tinha restrições próprias com o mesmo sexo nu na minha companhia tão compreensíveis quanto a incapacidade dele de ter relações sexuais com mulheres. Carina tentou, com a ajuda dele, fazer um levantamento de nomes em comum para convocar para uma terceira tentativa. Ao final, nos demos por vencidos e deixamos o projeto na gaveta. Na próxima semana, seríamos apenas nós dois, assim ficou combinado. Sem invenções, sem peripécias. Apenas o sexo conveniente e objetivo de sempre. Até mesmo porque, já estávamos há duas semanas sem.

Outro conto da coleção? Leia Anita