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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Pedaços de uma vida encenada

Traições e mortes
[Cena interna no único cenário: um quarto] Um casal nu deitado na cama. O homem [Samuel] fuma um baseado e a mulher [Carla], deitada no ombro dele, faz carícias na barriga de Samuel.
[Samuel] É engraçado.
[Carla] O que é engraçado?
[Samuel] Aqui não tem porta-retratos. Toda casa é cheia de porta-retratos, menos esta.
[Carla] E o que você queria, Samuel? Fotos minhas com meu marido por todos os lados?
[Samuel] Sei lá! É apenas curioso. Faz falta.
[Carla] Ah Samuel, ainda bem que não tem, né? Você sequer consegue transar comigo com as cortinas abertas, pois fica incomodado com a possibilidade de algum vizinho nos ver. Imagine se tivesse fotos do meu marido te encarando. Já pensou? Ia ser uma trabalheira daquelas ter de deitar todos os porta-retratos sempre que você chegasse por aqui.
[Samuel] Não é para tanto também.
[Carla] Não? Então vamos abrir as cortinas, as janelas e ligar a luz. Que tal?
[Samuel] Para! Sabe que gosto de ser discreto.
[Carla] Então não reclama.
[Samuel] Não estou reclamando. Apenas acho estranho estar tanto tempo com você e nada sei da sua vida. Não sei como é o rosto do seu marido...
[Carla] Samuel... Samuel... por qual motivo quer saber como é o rosto do meu marido?
[Samuel] Sei lá. Caso passasse por ele na rua, saberia quem é.
[Carla] Ah tá! Daí pararia para falar com ele, se apresentaria, sentariam para beber um chope e sabe mais o que, né? Me dá esse baseado que você já está ficando doido demais.
[Samuel] Não é isso também. Não precisa exagerar. Apenas nada sei sobre sua vida. Sequer sei o nome dele, por exemplo.
[Carla] Você está muito obcecado por ele, Samuel. O que está acontecendo?
[Samuel] Não, nem estou obcecado por ele. É por você mesmo. Estamos juntos há tanto tempo e nada sei sobre você.
[Carla] Samuel, nós somos amantes. Você não tem de saber muita coisa sobre mim, assim como nada sei sobre você.
[Samuel] Não precisa dizer que somos amantes, Carla. Estou dizendo apenas que são três anos nessa brincadeira e quase não falamos sobre...
[Carla] Samuel, por favor, pare! Somos amantes. Não conversamos. Apenas transamos. Ponto! A única conversa mais longa que tivemos foi quando nos conhecemos e só. Para conversar, tenho meu marido, minha irmã, meu terapeuta e meus dois gatos.
[Samuel] Dois gatos? Aí oh! Sequer sabia que tinha gatos. Três anos com você e nem sabia que tinha gatos. Achava que era uma pessoa que curtia cães assim como eu. Eu tenho dois cães.
[Carla] Dois cães?
[Samuel] Sim, o mais velho se chama...
[Carla] EU NÃO ME IMPORTO! Samuel, pouco me interessa se você tem gatos, cachorros, lambaris ou alienígenas na sua casa. Tudo que quero é que me coma e me faça gozar como um beija-flor. Apenas isso.
[Samuel] Nossa... falando assim, eu me sinto como um objeto.
[Carla] Ok! Está bem! Desculpa. Objeto pode soar muito pejorativo. Vamos colocar desta forma, somos amantes e não temos sentimentos um pelo outro. É apenas sexo. Por qual motivo acha que me envolveria com uma pessoa bem mais nova? É sexo e pronto. Por mais íntimo que seja você enfiar o pau em mim, esse é o máximo de intimidade que quero com você. Não quero saber da sua vida, nem contar da minha para você. Estamos combinados? Consegue manter assim?
[Samuel] Sim, mas é estranho. Eu acho...
[Carla] Samuel, cala a boca e me come novamente, por favor.
Os dois voltam a transar. Algum tempo depois, porta do quarto se abre, entra um homem [Augusto] que acende a luz. Os dois se assustam e param de transar.
[Augusto] QUE PORRA É ESSA?
[Samuel] Ai caceta!
[Carla] Oh meu Deus!
[Augusto] Anda! Que porra é essa, Carla?
[Carla] Calma! Não é nada do que está pensando.
[Augusto] Como não? Vocês estão nus. Você estava montada nele.
[Carla] Eu sei. Eu sei. Calma! Vamos conversar com calma, Augusto.
[Samuel] Augusto? Ah! Olá! Eu sou o Samuel. Estávamos falando sobre você agora mesmo.
[Carla] Samuel, não!
[Augusto] CALA A BOCA E SAI DE PERTO DE MIM.
[Samuel] Ei! Não precisa se exaltar.
[Augusto] Eu não quero papo com você. Fica na tua.
[Carla] Samuel, não piore as coisas.
[Samuel] Piorar? Ele que está exaltado.
[Augusto] Isso é problema meu! Não se meta. Fique no seu canto.
[Samuel] Então não aponte o dedo para mim.
[Augusto] E você não aponte esse pau duro para mim.
[Samuel] Ah, me desculpe. Ele demora um pouco para...
[Carla] Ah Samuel...
[Augusto] Por que você não cala a boca e não sai daqui, seu gigolozinho?
[Samuel] Peraí! Gigolozinho, não!
[Carla] Augusto, talvez não seja um bom momento para chamar ele disso. Ele está um pouco sensível quanto ao papel dele na...
[Augusto] Carla, você ainda vai defender esse gigolozinho?
[Samuel] Gigolozinho, não!
[Augusto] Gigolozinho, sim! Gigolozinho mequetrefe!
[Carla] Augusto, calma. Peraí. Ele não tem culpa.
[Samuel] Segura a onda aí, Augusto.
[Augusto] Não ouse me chamar pelo nome, gigolozinho mequetrefe. Seu... seu gigolozinho mequetrefe de pau pequeno.
[Samuel] Pior você que é corno.
Augusto parte para cima de Samuel. Eles começam a brigar e rolar pelo chão. Carla, de pé sobre a cama, fica gritando para que eles parem. Samuel pega o radio-relógio sobre a mesa de cabeceira e acerta a cabeça de Augusto que fica estatelado no chão.
[Carla] Samuel, meu Deus. O que você fez?
[Samuel] Eu estava me defendendo. Será que ele morreu?
[Carla] Meu Deus! Meu Deus, Samuel! Ele não está respirando! Você o matou!
[Samuel] Ele partiu para cima de mim.
[Carla] Porque você chamou ele de corno.
[Samuel] Ele me chamou de gigolozinho mequetrefe de pau pequeno primeiro.
[Carla] E isso é motivo para matar alguém, Samuel?
[Samuel] Eu não matei por isso.
[Carla] Ainda bem, né? Porque você tem o pau pequeno.
[Samuel] As coisas saíram do controle e... peraí! Você acha meu pau pequeno?
[Carla] Você promete não me matar se disser que sim?
[Samuel] Carla, não é a hora para deboches. Você tem noção que estou com um homem morto no seu apartamento?
[Carla] Este não é meu apartamento, Samuel.
[Samuel] Não, não é? Não é seu apartamento, Carla? Como assim? Estamos por anos vindo para cá.
[Carla] Exatamente, Samuel. Acha mesmo que ficaria tanto tempo te trazendo para o meu apartamento correndo riscos? Este é um apartamento que alugo exatamente para evitar riscos.
[Samuel] AHN! Então está explicada a falta de porta-retratos.
[Carla] Sério, Samuel? Vai voltar ao papo dos porta-retratos?
[Samuel] É que tudo ficou claro agora.
[Carla] Será que pode se levantar então e se vestir? Temos um presunto aqui e precisamos fazer algo.
[Samuel] Não fale assim do... peraí! Se este não é seu apartamento, como seu marido nos descobriu e conseguiu a chave para entrar sorrateiramente?
[Carla] Ele não é o meu marido, Samuel.
[Samuel] Como assim ele não é seu marido, Carla? CARLA! ELE NÃO É O SEU MARIDO? Meu Deus! Pobre Augusto. Eu o chamei de corno. Eu matei um homem inocente. Viu? VIU? É POR ISSO QUE MESMO AMANTES DEVEM CONVERSAR ENTRE SI. Se eu soubesse como era seu marido nada disso teria acontecido. Este homem teria entrado aqui, saberia que não era o seu marido e daí... peraí! Se ele não era seu marido, como tinha a chave daqui? Por que ele ficou tão enciumado com o que viu?
[Carla] Ah Samuel, larga de ser complicado. O Augusto é meu namorado tem tempo. Quero dizer, ERA meu namorado, né?
[Samuel] Namorado? Peraí! Você tinha outro? Você estava saindo com outro além de mim?
[Carla] Sim, Samuel. Qual o problema? Ele namorava comigo há mais de sete anos. As coisas foram ficando meio mornas com o tempo, daí recorri a você.
[Samuel] Nesse caso, chamar de corno foi merecido.
[Carla] Sim, foi. Por isso que ele ficou irritado. Mesmo sendo verdade, ninguém gosta de ser chamado de corno.
[Samuel] ELE ME CHAMOU DE GIGOLOZINHO MEQUETREFE DE PAU PEQUENO PRIMEIRO.
[Carla] O que não deixa de ser verdade.
[Samuel] Assim como ele ser corno.
[Carla] Mas nem por isso é motivo para se matar alguém.
[Samuel] Eu não o matei por isso. Enfim, eu era o amante do amante e...
[Carla] Ah que seja. Temos um cadáver aqui e precisamos fazer algo.
[Samuel] Precisamos? Você me envolve nesse triângulo... peraí! Triângulo, não! Somos quatro. Eu, você, o Augusto e seu marido. Qual o nome dele mesmo?
[Carla] ESQUECE O MEU MARIDO! EU NÃO VOU FALAR O NOME DELE!
[Samuel] Enfim, você me enfiar nesse quadrado, retângulo, sei lá o que amoroso e eu tenho de dar conta do cadáver.
[Carla] Ah, o cara que queria parceria, comprometimento e cumplicidade agora quer fugir da raia e me largar com o pepino na mão. Pois saiba que é um cadáver cheio de impressões digitais suas no pescoço, na mesinha, no rádio-relógio. E, para piorar, cheio de esperma seu no lençol.
[Samuel] Só que o apartamento está no seu nome, logo você é suspeita também.
[Carla] Você acha mesmo que sou burra de alugar um apartamento no meu nome? Meu marido descobriria rapidinho. O aluguel está no nome do Augusto. Alugamos juntos assim que nos conhecemos para ter o nosso canto.
[Samuel] Assim que se conheceram? E nós estamos três anos juntos sem um canto próprio? Sem uma música nossa? Sem...
[Carla] PORRA, SAMUEL! QUE MERDA DE BAD TRIP É ESSA QUE A MACONHA TE DEU?
[Samuel] Eu não sei. Estou tendo uma crise de pânico. Estou me sentindo como um pequeno apêndice nessa complexa relação. Estou me sentindo um lixo.
[Carla] Samuel, meu querido...
[Samuel] NÃO ME CHAME DE QUERIDO!
[Carla] Está bem! Está bem! Samuel, preste atenção, pois só vou falar uma vez. Nós temos um cadáver para dar cabo. Todos os indícios apontam apenas para você. Já imaginou nos jornais? “Homem reclama que o pau pequeno de seu cônjuge não o satisfazia e acaba morto por ele.” Vai vender como água. Eu poderia facilmente pular fora e deixar essa banana na sua mão. Só que não irei. Então vamos pensar juntos?
[Samuel] Dá para falar do meu pau então?
[Carla] Ok, me desculpe.
[Samuel] E pare de usar pepino ou banana como metáforas de referências fálicas.
[Carla] Justo.
[Samuel] Obrigado. Bem, acho que sei quem pode nos ajudar. Conheço uma pessoa que trabalha na polícia e é corrupta. Ela deve ter as artimanhas para situações como esta.
[Carla] Se ela for policial corrupta como diz, resolver isso vai ser pinto.
[Samuel] CARLA! METÁFORAS FÁLICAS!
[Carla] Porra, Samuel! Se veste então que facilita a minha vida.
[Samuel] Vou ligar para ela.
Samuel pega o celular em suas calças que estão no chão. Corte de cena para indicar passagem de tempo. Os dois ainda estão no quarto com o corpo de Augusto no chão quando toca a campainha. Carla sai para atender. Carla volta na companhia de outra mulher [Tânia] que se assusta com a cena.
[Tânia] O QUE É ISSO, SAMUEL? ESTE HOMEM ESTÁ MORTO?
[Samuel] Calma, meu amor.
[Carla] Meu amor?
[Tânia] Quem é essa mulher, Samuel?
[Carla] Ela te chamou de meu amor, Samuel?
[Tânia] Por que você está pelado, Samuel?
[Carla] Ah essa é uma boa pergunta. Também gostaria de saber por que ele ainda está pelado.
[Tânia] Samuel, por que você está pelado em um quarto com um homem morto?
[Carla] Pode parecer estranho, mas existe uma relação aqui. Ele estava pelado, o homem viu o piruzinho do Samuel, chamou ele de pau pequeno e... bem... o resto você já sabe.
[Tânia] Você matou o homem porque ele te chamou de pau pequeno, Samuel?
[Samuel] Não, foi por isso, meu amor.
[Carla] Meu amor?
[Tânia] Por que você tirou a roupa para ele, Samuel?
[Carla] Ele não tirou a roupa para o homem. Ele tirou para mim. Por que vocês estão se chamando de meu amor?
[Tânia] Samuel, quem é essa mulher?
[Carla] Samuel, que tal se vestir primeiro, meu amor?
[Samuel] Não ouse me chamar de meu amor.
[Tânia] Não chame o meu amor de meu amor.
[Carla] Ih, está bem. Não está mais aqui quem falou.
[Tânia] O que está acontecendo, Samuel?
[Samuel] Então... vou explicar. O Augusto entrou e pensei que fosse o marido da Carla porque ela insiste em não me mostrar fotos dele.
[Carla] E nem vou mostrar. Ah, eu sou a Carla.
[Samuel] Daí ele partiu para cima de mim.
[Carla] Porque você chamou ele de corno.
[Samuel] Ele me chamou de gigolozinho mequetrefe de pau pequeno antes.
[Carla] Fato que ele tinha razão. Você tem pau pequeno.
[Tânia] É verdade, meu amor.
[Carla] Viu?
[Samuel] Que seja. Ele também era corno.
[Tânia] É verdade. Seu marido é corno.
[Carla] Ele não é meu marido.
[Tânia] Ele não é seu marido?
[Samuel] Não, ele é o Augusto, o outro.
[Tânia] E quem é seu marido?
[Samuel] Eu não conheço o marido dela.
[Carla] Ninguém conhece o meu marido. Nem você, nem o Augusto.
[Tânia] Peraí! Vamos ver se eu entendi. Você é casada com um homem que não é este caído no chão?
[Carla] Exato!
[Tânia] E o nome dele é?
[Carla] Não importa.
[Samuel] Boa tentativa, meu amor.
[Carla e Tânia juntas] CALA A BOA E VAI SE VESTIR.
[Tânia] Tá, você é casada com um homem aí misterioso e aquele ali...
[Carla] O Augusto.
[Tânia] Isso! O Augusto é seu amante?
[Carla] Namorado.
[Tânia] Tá, namorado. E onde entra o Samuel nesta história?
[Carla] Ele é o meu amante.
[Tânia] VOCÊ É O... VOCÊ ESTAVA ME TRAINDO?
[Samuel] Calma, meu amor. Não é nada do que está pensando. Era apenas uma aventura. Perceba toda a hierarquia. Tinha marido. Tinha namorado. Eu sou apenas um estagiário. Coisa insignificante. Ela até alugava apartamento para se encontrar com o Augusto. Comigo nada disso acontecia. Não tínhamos um apartamento exclusivo. Um apelido carinhoso. Nem cópia de chaves.
[Tânia] Pouco me importa. Você acha que vou me importar com sua posição na escala de perversão dessa mulher? O que interessa é que você andou me traindo enfiando esse pau pequeno por aí.
[Carla] Ih, eu não falaria isso. Da última vez...
[Samuel] Meu amor, por favor, eu te peço...
[Tânia] Não me peça coisa alguma. Como tem coragem de me chamar na casa da sua amante para ajudar a desaparecer com o corpo do homem que você matou porque ele disse que você tinha pau pequeno.
[Samuel] Eu não matei por isso. Ele partiu para cima de mim.
[Tânia] Porque você o chamou de corno.
[Carla] É verdade! Chamou mesmo. Ninguém gosta de ser chamado de corno. Ainda mais pelo cara que lhe coloca o chifre.
[Samuel] Por favor. Eu... eu... eu não tenho culpa disto. Digo, sim, cometi uma traição, mas foi uma traiçãozinha.
[Carla] Por três anos.
[Tânia] TRÊS ANOS?
[Samuel] Porra, Carla, me ajuda.
[Carla] Te ajudar? Você mata meu namorado, chamada a sua namorada para ajudar, ela fica fazendo barraco aqui e eu tenho que ajudar?
[Tânia] Barraco com motivo.
[Carla] É verdade. Eu ficaria indignada se descobrisse que estava sendo traída.
[Tânia] Pelo seu marido ou pelo Augusto?
[Carla] Qualquer um dos dois. Estou puta só de saber que o Samuel tem namorada.
[Tânia] É revoltante, né?
[Carla] Eu o teria matado se soubesse. Como minha posição na hierarquia é menor que a sua, prefiro aguardar o que vai fazer.
[Samuel] Tânia, meu amor, não dê ouvidos a essa doida. Ela tem amantes. Mais de um. Ela tem um namorado e um amante. Todos secretos. Até o marido dela é secreto. Sequer podemos ter certeza que o nome dela é Carla.
[Carla] Meu nome é Carla, sim. E, mesmo tendo vários amantes, sou melhor pessoa que um assassino.
[Samuel] EU ESTAVA ME DEFENDENDO PORQUE ELE PARTIU PARA CIMA DE MIM.
[Carla] Porque você o chamou de corno.
[Samuel] Ele me chamou primeiro de gigolozinho de pau pequeno.
[Carla] Viu? Assassino complexado!
[Tânia] Você matou mesmo esse homem porque ele disse que você tinha pau pequeno, Samuel?
[Samuel] NÃO! Escute-me, meu amor. Essa mulher é louca e acabou me envolvendo nesse jogo psicótico dela de amantes e drogas.
[Tânia] Drogas? Que drogas? Você estava fumando maconha?
[Samuel] Bem...
[Tânia] Você sabe que sou contra drogas. Sou uma policial e tudo que combato é o mundo das drogas.
[Carla] Ah então é por isso que ele te traía. Agora entendi tudo. Ele não podia fumar um baseado com você e começou a sair comigo porque fumo também. Está tudo explicado agora.
[Samuel] Tânia, meu amor, me escute, por favor.
[Tânia] NÃO ME VENHA COM MEU AMOR, SEU MACONHEIRO DE PAU PEQUENO.
[Carla] Ih, nem quero ver.
Tânia parte para cima de Samuel e, com o mesmo rádio-relógio em mãos, o acerta várias vezes na cabeça.
[Carla] É, parece que você o matou.
[Tânia] Eu me descontrolei.
[Carla] Vocês formam um casal estranho mesmo. A mulher mata o homem porque descobre que ele fuma maconha escondido. Já o homem mata por um motivo mais banal ainda.
[Tânia] Banal nada. Ele estava se defendendo de um ataque.
[Carla] Ele foi atacado porque chamou a outra pessoa de corno.
[Tânia] O outro disse primeiro que o Samuel tem pau pequeno.
[Carla] Mas é verdade!
[Tânia] Assim como o outro ser corno.
[Carla] Não o chame de outro. Ele tem nome. É Augusto.
[Tânia] Que seja. Agora são dois cadáveres aqui.
[Carla] Olha, vou ser bem sincera. O Augusto está cheio de marcas do Samuel. Já o Samuel está cheio de marcas suas. Fica fácil eu sair ilesa dessa história. Como tenho certa compaixão pela sua situação de traída, vou ficar um pouco até conseguir resolver isso. Porém, você precisa ser rápida, pois meu marido vai estranhar em breve eu estar tanto tempo na rua.
[Tânia] E como acha que vou resolver isso?
[Carla] E eu lá sei. O Samuel que me disse que iria ligar para uma pessoa da polícia que conhecia que era corrupta e saberia lidar com isso.
[Tânia] CORRUPTA? Que desgraçado! Onde sou corrupta? De onde ele tirou isso? Maconheiro de pau pequeno.
[Carla] Não diga isso. Tenha respeito pelos mortos.
[Tânia] Impossível não falar isso. Ainda mais com ele pelado na minha frente.
[Carla] Até agora não entendi por que ele não se vestiu esse tempo todo.
[Tânia] Vou ligar para um legista que conheço. Ele sabe bem como alterar a cena do crime. Talvez possa nos ajudar.
[Carla] Ele é bonitão?
[Tânia] Sério? Você não tem vergonha na cara?
[Carla] Por que teria? Acabei de perder meu namorado e meu amante. Preciso iniciar a reposição.
[Tânia] Você é uma descarada mesmo.
[Carla] Ele é teu amante, né?
[Tânia] É, mas fica quieta por respeito ao Samuel.

sábado, 30 de julho de 2016

Pedaços de uma vida encenada

Mercenário
Cena externa em uma rua de madrugada. Um homem [Mercenário] faz sinal para um táxi que para. Ele está com duas grandes bolsas esportivas.
Cena interna simulando a parte interna de um taxi em movimento.
[Mercenário] Rua José Henrique Afonso, por favor.
[Taxista] É aquela rua do morro...
[Mercenário] Sim, essa mesma.
Alguns segundos de silêncio.
[Taxista] Senhor, aquele é um morro muito violento. Inclusive durante o dia. Imagine agora em plena...
[Mercenário] Meu senhor, não vou lhe pedir para entrar na favela e subir aquelas ruas. Você vai parar na entrada e ir embora. Pode ficar tranquilo.
[Taxista] Ainda assim, senhor. É um local ermo e que mesmo naquela rua...
[Mercenário] Quando fica uma corrida até lá?
[Taxista] Ah não sei. Talvez uns 35 ou 40.
[Mercenário] Acha que passa de 50?
[Taxista] Com certeza não.
[Mercenário] Ótimo. Tome aqui 50. Pode ficar com o troco. Chegando lá nem precisaremos perder tempo para que não se sinta que esteja em risco. Basta parar, eu desço e você vai logo embora.
Alguns segundos de silêncio.
[Taxista] Senhor, desculpe-me insistir, mas tem certeza que deseja ir para lá? É realmente necessário?
[Mercenário] Meu senhor, sinto que esteja muito aflito com o meu destino.
[Taxista] Sim, estou bastante. São anos trabalhando na madrugada e não tem ideia do que já vimos ou ouvimos.
[Mercenário] Acredite, meu senhor, eu sei de tudo isso e um pouco mais. Pode ficar tranquilo.
[Taxista] Tranquilo é impossível. Você não se parece nem um pouco com uma pessoa que frequentaria uma favela de madrugada. Muito menos a...
[Mercenário] Não tenho cara de quem frequenta favela?
[Taxista] Oh não! Nem um pouco.
[Mercenário] E tenho cara de que frequenta que tipo de lugar?
[Taxista] Eu diria uma academia com certeza. Você tem um biótipo atlético. É alto, forte e bem apessoado.
[Mercenário] Bem apessoado?
[Taxista] Ah sim, bem apessoado. Caso contrário, jamais pararia para você numa hora dessas.
[Mercenário] Bom argumento. Quer dizer que pareço aqueles caras fúteis que vivem em uma academia?
[Taxista] Não, não quis dizer isso. Você parece mais um professor de academia. Tem o biótipo de profissional de educação física. Imaginei que fosse isso por conta da camisa justa na manga deixando os braços mais fortes. Sem falar nessas duas bolsas.
[Mercenário] O que tem as bolsas?
[Taxista] São bolas, certo? Para atividades esportivas, não?
[Mercenário] Talvez. Talvez. Quem sabe, não?
[Taxista] Então acertei, correto?
[Mercenário] Para quem já viu muito e ouviu demais sobre a madrugada, você pergunta muito.
[Taxista] Oh me desculpe, senhor. Não quis ser inconveniente.
[Mercenário] Esqueça sobre ser inconveniente. Você está sendo imprudente. Fazer muitas perguntas para estranhos na madrugada é bastante arriscado. Ainda mais para um cara que está indo para a favela mais perigosa da cidade.
[Taxista] Tem sentido o que disse. Tem sentido. Mas o que quero dizer é que você me pareceu uma pessoa do bem. Logo eu não estaria correndo riscos fazendo essas perguntas. Por outro lado, uma pessoa do bem como você, naquela favela, correria muitos riscos.
[Mercenário] Por que estaria correndo riscos por lá? Você acha que uma pessoa de bem é alvo fácil por lá? Você acredita que iria me envolver com os bandidos de lá?
[Taxista] Não, por favor! Oh não! Jamais imaginaria algo do tipo. Exatamente por ser alguém de boa índole, tenho certeza que está indo para lá por outros propósitos. Como disse, deve ser um professor de educação física levando bolas para alguma atividade de recuperação dos jovens da comunidade. Claro que sua ida de madrugada é estranha e arriscada. Ainda assim, acredito que seu intuito é bom.
[Mercenário] Então, já que tem a certeza que não irei me envolver com os bandidos de lá e que minha ida é motivada por boas intenções, qual a sua preocupação?
[Taxista] Ah nunca se sabe, não é mesmo, senhor? Não viu semana passada o que aconteceu na Favela da Serrinha? Houve uma invasão por lá e mataram todos os traficantes de lá. Encontraram vários corpos. Uma chacina que, mesmo envolvendo marginais, é de chocar. Agora imagine você está subindo a favela na mesma hora que acontece isso. Não tem essa de quem é de boa índole, quem é bem intencionado ou quem é coisa ruim. Todo mundo vira alvo, todo mundo vira escudo. É cada um por si. Se carta que tem CEP vai parar em casa errada, imagine bala que é anônima.
[Mercenário] O senhor parece ser um bom homem. Não sei quanto tempo trabalha na madrugada, mas ela, sem dúvidas, te afetou e moldou uma nova pessoa. Deveria cogitar voltar para o dia.
[Taxista] Sim, são muitos anos. Mesmo assim, nunca mais volto para o dia. Engarrafamento, pessoas estressadas, muita concorrência...
[Mercenário] Meu senhor, acredite em mim. Acredite no homem que trabalha na madrugada também. Volte para o dia o quanto antes. Você não tem ideia do que a madrugada pode fazer com um homem.
[Taxista] Como assim? O que você quis dizer com...
[Mercenário] Apenas pense no que disse. Pode parar ali do lado daquela caçamba. Muito obrigado e boa noite.
[Taxista] Boa noite e tome cuidado. Por favor, senhor, tome muito cuidado.
[Mercenário] Deixa comigo.
Cena externa em uma rua escura de comunidade. O Mercenário sobre uma rua íngreme da favela. A rua é escura e deserta. À frente tem duas motos com um jovem sobre cada uma delas e mais um terceiro [Soldado] de pé ao lado segurando uma metralhadora.
[Soldado] Opa! Opa! Opa! Onde tu pensa que vai, mermão?
[Mercenário] Vou bater um papo com seu chefe.
[Soldado] Bater papo com o meu... [risos do Soldado] Está pensando que isso aqui é supermercado que pode ir falar com o responsável por qualquer motivo? O que foi? O que tá pegando? Comprou pó e não deu onda? Foi isso? Que reclamar que esse nariz de tamanduá não dá mais conta e precisa de algo mais forte?
[Mercenário] Rapaz, você...
[Soldado] Rapaz é o cacete. Preste atenção que só vou falar uma parada contigo e se não entender vou te colocar para conversar com esse cano aqui, entendido? Quer pó? É comigo! Que algo mais forte? É comigo! Agora, se for para fazer reclamaçãozinha de bunda mole, é com a puta que o pariu. Entendido? Entendido? Então, qual vai ser?
[Mercenário] Rapaz, até que você é bastante comprometido com seu trabalho e tenho certeza que o Feijão deve ter muito orgulho de você na linha de frente. Ainda assim, também tenho certeza que se ele souber que estive aqui e não pude falar com ele porque você me impediu... ou me embarrerou como costumam falar... Ah rapaz... De funcionário do mês, vai para carvão do micro-ondas do mês. Entendido? Entendido? E então, qual vai ser? Vai continuar na posição de cão de guarda que só late e não pensa ou vai deixar o chefe orgulhoso?
[Soldado] Tu é abusado mermo? Deve ter o colhão maior que o cérebro. O que você quer com o Feijão?
[Mercenário] Tenho uma entrega e uma proposta para ele.
[Soldado] Essas bolsas aí?
[Mercenário] É, as bolsas aqui.
[Soldado] Abre aí.
[Mercenário] Não.
[Soldado] Então não sobe.
[Mercenário] Rapaz, reflita mais uma vez.
[Soldado] Mermão, ou tu mostra ou você não sobe. Tu acha que sou otário? Vai que isso está cheio de arma, você chega lá e dizima geral.
[Mercenário] Rapaz, mais uma vez, pense. Você está com essa arma aí na mão. Até eu abrir a bolsa, pegar uma arma e começar a atirar, você já me matou três vezes e rezou um pai nosso.
[Soldado] Porra, mermão, não dificulta a parada. Isso aqui não é uma pracinha com recreação.
[Mercenário] Ok, vou facilitar para você. Eu tenho apenas uma arma na minha cintura aqui atrás. Pode pegar. Nas bolsas não tem armas. Se mesmo assim você duvida de mim, faremos de uma forma mais segura. Eu vou de garupa naquela moto com as bolsas. Você vai de garupa na outra apontando a sua arma para mim. Caso eu seja burro e apronte alguma, você larga o dedo. Simples.
[Soldado] Estou pensando em outra possibilidade. Se essas bolsas são tão importantes assim para o Feijão, o que acha de dar um tiro no meio da sua cabeça e eu subir apenas com as bolsas?
[Mercenário] Rapaz, não seja burro. Você não me conhece. Eu sou tão importante quanto as bolsas. Assim que o Feijão souber que me matou, ele vai te mandar para a mesma vala que você me mandou. Pegue aqui a minha pistola. Vai logo. Vamos agilizar logo essa merda que eu não tenho a madrugada toda, nem o Feijão. Chegando lá, se não for exatamente o que estou falando, pode ter certeza que o Feijão vai ser o primeiro a estourar os meus miolos.
[Soldado] Puta que o pariu. Isso vai dar merda. Vai dar merda mesmo. Vamos lá mesmo assim. Sobe naquela ali. Vambora, seus molengas. Vamos subir para bunker.
[Mercenário] Sabia que você era um cara esperto.
[Soldado] Cara esperto era meu pai que me fez. Sem gracinhas, entendeu? Sem gracinhas.
[Mercenário] Deixa comigo, filho de um cara esperto.
Cena externa pelas ruas da favela acima. As duas motos emparelhadas. Mercenário na garupa de uma com as duas bolsas e o soldado na garupa da segunda moto o tempo todo com a arma apontada para o outro. A cena se encerra quando eles param em frente a um portão de garagem de ferro grande.
Cena interna. Uma grande sala com mesas com drogas sendo pesadas em embaladas. Pó, dinheiro, armas e pacotes sobre as mesas. No total são onze pessoas dentro da sala mais o Feijão. Os quatro que subiram nas motos entram e fecham a porta.
[Feijão] QUE PORRA É ESSA? QUEM É ESSE CARA?
[Soldado] Desculpe, Feijão. Ele disse que tinha uma encomenda do seu interesse. Já revistei e só estava com essa arma.
[Feijão] MESMO ASSIM, CARALHO! COMO QUE VOCÊ ME SOBRE COM A PORRA DE UM ESTRANHO ASSIM? VOCÊ NEM SABE QUEM É, SEU MERDA!
[Mercenário] Preciso dizer que o erro dele foi influenciado por...
[Feijão] VOCÊ CALA A BOCA QUE AINDA NÃO ESTOU FALANDO COM VOCÊ. REPONDE, SEU MERDA! O QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA PARA SUBIR COM UM ESTRANHO...
[Mercenário] Olha só. Eu não vou ficar ouvindo você dar esporro no seu cão de guarda. Estou aqui para negócios e meu tempo é curto. Guarde o esporro para mais tarde e trate de se acalmar que o que tenho para você é do seu interesse e vai me agradecer.
[Feijão] AH PUTA QUE PARIU. O ESTRANHO AGORA QUER ME DAR ORDEM E ASSUMIR O CONTROLE DA CONVERSA AQUI NA MINHA ÁREA. NO MEU BUNKER. VOCÊ TEM MERDA NA CABEÇA?
[Mercenário] Massacre da Serrinha.
[Feijão] O que? Massacre da Serrinha? Do que está falando?
[Mercenário] Semana passada aconteceu um massacre na Favela da Serrinha e...
[Feijão] Isso eu sei, porra! Do que está falando? Por que está falando isso para mim?
[Mercenário] Porque assim que terminou o massacre, a favela ficou quase vinte quatro horas sem nenhum grupo tomando conta da região. Até que o pessoal do Maré Mansa chegou e tomou conta do morro. Se você soubesse com antecedência, teria tomado conta do morro antes deles e teria mais uma comunidade sob seu controle, aumentando seus territórios na cidade.
[Feijão] O Maré Mansa assumiu a Favela da Serrinha porque foram eles que invadiram e mataram todos por lá. Não existia a possibilidade de a favela ficar sob o meu comando.
[Mercenário] Errado. Eles não deram um tiro, uma facada, um soco sequer. Eles apenas souberam que a favela foi invadida, que todos do grupo do Nonô morreram e subiu o morro com a maior tranquilidade do mundo. Foi a coisa mais fácil da história para eles.
[Feijão] Claro que não! Foram eles que invadiram. Você acha que sou idiota?
[Mercenário] Não, não te acho um idiota. Mesmo assim, afirmo para você que não foram os caras do Maré Mansa.
[Feijão] Ah não? Então quem foi? A polícia? Os porcos invadiram, mataram todos como se fossem açougueiros e depois deixaram tudo à disposição do primeiro grupo que aparecesse?
[Mercenário] Não, errado novamente. Quem fez o serviço foi apenas um homem. Ele entrou, matou todos para mostrar que pode e agora está aqui disponível para vender seus serviços para você.
[Feijão] Você está... Quer dizer que [Feijão gargalha e os outros o acompanham em seguida] Você acha que sou idiota, seu desgraçado? Você está subestimando muito a minha inteligência.
[Mercenário] Ok, te entendo perfeitamente. É complicado acreditar nisso. Por isto trouxe as duas bolsas. Aceite-as como se fosse um cartão de visitas meu.
Feijão abre uma das bolsas enquanto outro homem abre a outra. Tiram sacos pretos de dentro, cada um com um objeto grande e pesado dentro.
[Feijão] PUTA QUE PARIU, SEU PSICOPATA DE MERDA! [Feijão abre um dos sacos e é uma cabeça] SEU MANÍACO DE MERDA! VOCÊ É MUITO MAIS MALUCO QUE IMAGINEI. SÃO TODOS ELES?
[Mercenário] Ora, abra as sacolas.
[Feijão] Olhem isso! [Feijão vai abrindo as sacolas, cabeças são reveladas e ele ri de euforia] Isso é incrível. Olhem aqui aquele desgraçado magrelo que matou o Fabinho. Filho de uma puta. Se fudeu.
[Mercenário] Podemos prosseguir?
[Feijão] Você pode o que quiser agora. Bem que reparei que você tem uma cara de assassino. Mulambo, fez bem em não matar esse doido e trazer ele vivo para mim.
[Soldado] Viu, chefe? Sabia que não iria dar uma bola fora. Nunca te decepcionaria.
[Mercenário] Não te disse, funcionário do mês?
[Soldado] Percebi que você podia não ser apenas um maluco. Tinha de ter algo por trás.
[Feijão] Foi sorte. Você precisa saber que foi sorte, mulambo. Enfim, pode voltar para lá com o novinho para a subida da ladeira não ficar abandonada. Leva a arma desse psicopata também. Quando ele sair, você devolve para ele.
[Soldado] Deixa comigo, chefe.
[Feijão] Agora me responda uma coisa. Por que a Favela da Serrinha?
[Mercenário] Precisava de dinheiro. Dos seis territórios deles, a Favela da Serrinha era a que tinha maior movimentação de dinheiro e maior facilidade para uma intervenção minha. Fui lá, executei todos e peguei a grana para mim.
[Feijão] Quanto tinha?
[Mercenário] Não passou de duzentos.
[Feijão] Eles são muito fracos. Aquele tal de Nonô sempre fui ruim de negócios. [Feijão e seus comparsas começam a rir] Duzentos mil é o que fazemos em uma semana por aqui.
[Mercenário] Não duvido disso. Por isto vim até aqui para oferecer meus serviços.
[Feijão] Você quer que eu te pague para matar o resto da galera do Nonô?
[Mercenário] Não, jamais pediria isso. Tenho certeza que você e seus homens são capazes de fazer isso. Estou vendendo outro serviço. A informação antecipada de uma favela totalmente desocupada de organização adversária. Zero. Ela estará lá vazia esperando pela sua entrada. E, o melhor de tudo, vocês sequer sujarão as mãos de sangue.
[Feijão] Sem sujar as mãos?
[Mercenário] Na realidade, se vocês pudesses apenas dar conta dos corpos, eu agradeceria por ser apenas eu.
[Feijão] Ok, acho justo. Deixe-me ver se entendi então. Você vai a uma favela da minha escolha, invade, apaga todos e vai embora deixando tudo de bandeja para mim e meus homens?
[Mercenário] Não será exatamente assim.
[Feijão] Então como?
[Mercenário] A favela não será da sua escolha. Eu preciso decidir qual será de acordo com a facilidade de invasão que detectar. Imagino que talvez não ajude nos seus planos estratégicos de expansão, mas é questão de tempo apenas.
[Feijão] Tá! Tá bom! Só isso?
[Mercenário] Não, tem mais. Não ficará tudo de bandeja para você. A grana que lá estiver, eu levo. Drogas, armas, equipamentos ou qualquer outra coisa podem ficar. Não faço questão.
[Feijão] Tudo bem! Também acho justo. Mais alguma coisa?
[Mercenário] Apenas isso.
Feijão fica pensando por alguns segundos.
[Feijão] E como você pode me garantir que depois não vai querer rifar minha cabeça para o Maré Mansa?
[Mercenário] Feijão, sejamos espertos. Atualmente, mesmo sem você conquistar os próximos territórios do Nonô, você tem muito mais poder que o Maré Mansa. Você acha que vou te ajudar a crescer para vender depois a sua cabeça para um cara que pode pagar menos?
[Feijão] Você então quer fazer parceria comigo porque a cada conquista conseguirá tirar mais dinheiro de mim, certo?
[Mercenário] Tirar dinheiro tem uma entonação que não concordo. Prefiro dizer que a cada vitória nossa, consigo ser mais bem pago por você. Ora, isso é estratégia de negócios.
[Feijão] Isso é ser mercenário.
[Mercenário] Quem não é mercenário nesse bunker, Feijão?
[Feijão] Que seja. Quanto mais dinheiro eu passar a ganhar, mais você vai levar. É isso que quis dizer.
[Mercenário] Você continua enxergando nossa parceria de forma invertida. Pense assim, quanto mais dinheiro investir em mim, mais dinheiro vai fazer depois. O valor que pagar por um novo território vai ser exatamente o quanto vai fazer no mesmo território em um mês. Qual negócio que se paga em um mês?
[Feijão] É, parece um bom negócio mesmo. E como são as condições?
[Mercenário] Você paga e eu te entrego os cinco territórios restantes. Caso permaneça interessado nos meus serviços, renegociaremos as áreas do Maré Mansa.
[Feijão] Você quer adiantado? ELE QUER ADIANTADO! VOCÊ ACHA QUE SOU IDIOTA? VOCÊ PENSA QUE SOU UM OTÁRIO?
[Mercenário] Feijão, exijo que me respeite. Sou um mercenário, não um trambiqueiro. Se fosse para pegar o seu dinheiro e fugir, não me daria ao trabalho de vir até aqui, gastar minha saliva e ainda correr o risco de levar uma bala na cabeça de algum cão de guarda seu precipitado. Era mais prático invadir como fiz na Serrinha e levar a grana, sem correr o risco de ser seguido por vocês, caso desse o golpe como falou.
[Feijão] Mais prático? MAIS PRÁTICO? Você está pensando que isso aqui é a Favela da Serrinha que um homem sozinho invade?
[Mercenário] Feijão, não me leve a mal, mas sua favela possui pontos frágeis de segurança onde fica fácil chegar até você.
[Feijão] AH É? POIS ENTÃO FALE AGORA ONDE É FÁCIL ENTRAR AQUI?
[Mercenário] No ponto que entrei, estava apenas seu cão de guarda e dois motoboys.
[Feijão] Mas eles te viram chegar de longe. Nem teria chances.
[Mercenário] Imagino que esteja certo disso. Só que, caso fosse invadir essa região, jamais subiria a rua como fiz hoje.
[Feijão] Não tem outra maneira, espertalhão. Qualquer uma das quatro ladeiras que dão acesso ao topo tem o mesmo esquema.
[Mercenário] Sim, eu sei disso. Por isso os alcançaria por trás.
[Feijão] Como por trás se não tem outro acesso? Não ouviu o que acabei de falar?
[Mercenário] Sim, ouvi. O problema é que tem outro acesso, sim. Logo na rua principal no início da favela tem aquele bar, meio que um restaurante, que passando pela cozinha dá em uma área externa. Ali tem um muro que, pulando, você chega a uma espécie de corredor que liga os fundos de várias casas. Basta seguir o corredor até o final, entrar na última casa e, quando sair pela porta principal, você estará após o seu cão de guarda.
[Feijão] Eu nunca tinha pensado nisso.
[Mercenário] Pois acredite no profissional que é especialista em invasões. Como te disse, se fosse para sumir com sua grana, faria desta forma. Zero risco e gastaria metade do tempo que estou perdendo aqui.
[Feijão] VOCÊS SABIAM DA PORRA DESSE ACESSO? ESTAMOS COM A MERDA DO CU ARREGANHADO PARA OS OUTROS E NINGUÉM REPARA NISSO? POR QUE ESTOU PAGANDO VOCÊS AINDA? IDIOTAS! INCOMPETENTES! SÓ QUEREM SABER DE FICAR NA VIDA BOA AQUI EMBALANDO AS COISAS, VENDENDO NAS RUAS E COMENDO PLAYBOYZINHA NO BAILE. O ESSENCIAL, O PRIMORDIAL, A NOSSA RETAGUARDA, NINGUÉM SE PREOCUPA. PUTA QUE O PARIU.
[Mercenário] Ei! Feijão! Ei! Foco! Não tenho a noite toda. Vamos ou não vamos fazer negócios?
[Feijão] NÃO ME INTERROMPA QUE ESTOU PUTO.
[Mercenário] Sim, tem todo direito, mas, como já disse quando cheguei, guarde para depois. Não tenho a noite toda.
[Feijão] Você também é um sociopata apressado mesmo. Nunca vi um assassino de aluguel tão ansioso quanto você.
[Mercenário] Não sou assassino de aluguel. Não me confunda. Sou apenas um facilitador territorial. Meus métodos podem não ser os mais tradicionais, mas são eficientes.
[Feijão] Que seja. Já estou de saco cheio de olhar para a sua cara mesmo. Vamos fechar esse negócio então. Quanto quer pelos cinco territórios?
[Mercenário] Quanto você tem aí?
[Feijão] Você quer toda a minha grana?
[Mercenário] Não, quero saber apenas quanto tem neste momento.
[Feijão] No máximo uns quinhentos, quinhentos e cinquenta.
[Mercenário] Impossível. Você mesmo disse que faz duzentos por semana. Reveja esses números.
[Feijão] Ai porra! Mas você é abusado mesmo. Quanto que temos hoje?
[Homem à mesa do dinheiro] Uns quinhentos e cinquenta no máximo.
[Mercenário] Não minta!
[Feijão] Não minta! Pode falar a verdade logo para ele.
[Homem à mesa do dinheiro] Pouco mais de setecentos. Uns setecentos e vinte.
[Mercenário] Fechado!
[Feijão] PORRA! TUDO?
[Mercenário] Você acha que os cinco territórios restantes não valem isso?
[Feijão] Claro que valem! Valem até mais! Esperava apenas que pudesse fazer os pagamentos aos poucos.
[Mercenário] Você quer financiar os meus serviços? Está achando que sou Casas Bahia?
[Feijão] Você é muito abusado mesmo. Eu devia meter uma bala na sua cabeça.
[Mercenário] Eu sei disto. E é por conta dessa certeza que quero o pagamento de uma só vez. Somente assim terei a certeza que não vai tentar me apagar antes de terminar o serviço. Vai precisar fazer com que valha a pena tamanho pagamento.
[Feijão] Sim, faz sentido. E depois? Quem te garante que não irei te apagar depois?
[Mercenário] Dando tudo certo? Você vai ser meu fã número um e ainda implorará para eu aceitar fazer o mesmo com os territórios do Maré Mansa.
[Feijão] Vejam só que coisa. O calhorda além de ser bom no que faz, é esperto e pensa certo.
[Mercenário] Uma coisa está ligada da na outra. Podem colocar o dinheiro nas bolsas?
[Feijão] E as cabeças?
[Mercenário] São meus cartões de visita, se esqueceu?
[Feijão] Ah foda-se mesmo. Iremos praticar tiro ao alvo com elas. Vocês dois podem encher as bolsas. Sabe, nunca achei que uma cabeça fosse tão pesada. Por que elas estão com o topo e as bocas costuradas?
[Mercenário] As coisas nunca acontecem como se espera, daí costurei para ficarem de uma maneira mais apresentável. É melhor assim do que despedaçada ou caindo aos pedaços.
[Feijão] Você é doente! Estão aqui as bolsas. Pegue esse celular para falar comigo. O único número salvo é um que fica aqui comigo. Como vamos fazer?
[Mercenário] Na próxima terça-feira de noite te ligo confirmando onde atuarei. Provavelmente será na Favela do Arruda. Sendo lá, entro na madrugada de quarta para quinta. Você junta uma galera e fica nas redondezas pronto para entrar antes do amanhecer.
[Feijão] Combinado.
[Mercenário] E minha arma?
[Feijão] Está lá embaixo com o vacilão. Ele vai te entregar.
[Mercenário] Ok. Até terça.
[Feijão] Até terça, seu maníaco abusado.
Cena externa. O Mercenário sobe na moto que o esperava e desce a favela até o ponto inicial onde está o Soldado e o outro motoboy.
[Mercenário] Feijão disse para me entregar a minha arma.
[Soldado] Tudo bem lá em cima?
[Mercenário] Tudo encerrado perfeitamente. Não te disse que era do interesse dele?
[Feijão] É! Ele ficou orgulhoso de mim. Está aqui a arma.
Mercenário assim que recebe a arma, atira matando o Soldado e os dois motoboys. Em seguida, pega o celular, abre um aplicativo e aperta alguns botões.
Cena interna. Bunker do Feijão. Ele e seus comparsas estão festejando o acordo. Eles brincam com as cabeças que começam a fazer som de bipe. O som vai acelerando rapidamente. Eles não conseguem reagir. As cabeças explodem e toda a sala vai para os ares.
Cena externa. O Mercenário já na rua que fica no início da favela faz sinal, um táxi para e ele entra.
Cena interna simulando o interior de um táxi.
[Taxista] Boa noite. Para onde?
[Mercenário] Rua Francisco Albuquerque, por favor.
[Taxista] Não é a rua da favela do...
[Mercenário] Sim, é ela mesma. Sem perguntas, por favor. Nada de ruim vai acontecer com você. [Mercenário pega o celular e faz uma ligação] Alô? Maré Mansa? Pode pedir para o menino descer com a minha sacola, sua encomenda já foi entregue no inferno.