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quarta-feira, 5 de abril de 2017

Ressaca moral

Capítulo anterior: Confraternização

- Hoje é dia da Marlene, baby?
Juliana, com a cabeça repousada em meu ombro, fez a pergunta me tirando do estado sonolento, quase apagando. Tínhamos acabado de transar e permanecemos deitados curtindo o momento. Juliana conseguia uma folga extra no trabalho às quintas-feiras e passou a usar esse dia para ficar comigo. Típico programa de amante que tanto me incomodava e comentei com a Tatiana no dia anterior. De fato, não gostava de como essas coisas estavam andando. Por outro lado, tinha um dia inteiro com ela à minha disposição. Ela chegava, rolava aquela trepada sensacional para matarmos a saudade, coisa hormonal beirando à selvageria, depois saímos para almoçar, voltávamos para a minha casa, rolava uma rapidinha de sobremesa, um cochilo pós-gozo em seguida, acordávamos já de noite, bebíamos alguma coisa, às vezes um filme, depois um sexo de fim de dia protocolar estilo casal com vinte anos de relacionamento, dormíamos e no dia seguinte ela ia direto para o trabalho. Com sorte, conseguia um sexo matinal daqueles que o homem não goza nunca porque está com a bexiga cheia. Não, não podia reclamar no quesito satisfação. Fazia um bom tempo que não tinha dias com tanto sexo. Contudo, esperava algo mais da minha relação com ela. Ainda mais considerando como foi na época que apenas flertávamos.
- Claro que não – respondi. – Até porque já são quase cinco e meia. O horário dela não é esse.
- Baby, então melhor ver porque, pelo barulho de porta abrindo que eu ouvi, alguém acabou de entrar.
Não tinha escutado o tal barulho que Juliana falou. Como sou bem surdo na maior parte do tempo, deveria levar em consideração o que ela tinha dito. Antes que pudesse fazer algo, ambos escutamos o som da minha porta da sala batendo com força. Os dois reagiram assustados àquilo. Juliana, levando consigo o lençol cobrindo o seu corpo nu, correu para o banheiro e lá se trancou. Que ótimo, não? Um suposto marginal entrando na casa e eu que me virasse para me defender dele nu, literalmente com o pau na mão. Acabei correndo e fiquei atrás da porta do quarto que já estava fechada. Alguém forçava a maçaneta tentando abrir a porta. Continuei atrás da porta oferecendo resistência. Aliás, uma resistência nem tão impressionante assim. Aparentemente, o meliante era surpreendentemente fraco. Após algumas tentativas frustradas, a pessoa parou de forçar a porta.
- SAI DE TRÁS DESSA MALDITA PORTA, SEU IMBECIL!  - era a voz da Tatiana.
- Porra! – disse abrindo a porta. – Você quer me matar do...
- IMBECIL! – Tatiana me interrompeu. – COLOCA UMA ROUPA! PORRA! Não bastasse tudo, ainda tenho de te ver pelado. Por que você está pelado em pleno... Peraí! Tem gente no banheiro? Quem é a piranha desta vez?
- Tatiana, não tem piranha alguma – disse enquanto colocava um short e tentava gesticular para Tatiana que contivesse as palavras. – Só pode ser uma pessoa.
- Uma pessoa é o cacete! Cada dia você come uma piranha diferente. Por que está todo se mexendo aí igual a uma codorna abatida? O que tem a piranha no banheiro? O que ela tem de especial para você estar a defendendo? Ela por algum acaso... Ah tá! Já entendi. Quem está no banheiro é a...
- Juliana – a própria saiu do banheiro se apresentando. – Você deve ser a Tatiana, não?
- Sim, sou eu. Desculpe-me pela maneira rude de nos conhecermos, mas meu dia não foi nada bom.
- Imagino que tenha seus motivos além, obviamente, do habitual que é conviver com esse traste.
- Baby – intervi na conversa. – Não tem nem cinco segundo que conheceu a Tatiana e já está contra mim?
- Baby é o cacete – Juliana respondeu num tom áspero que nunca tinha visto antes. – Que história é essa de cada dia uma piranha diferente?
Olhei para Tatiana na intenção de sinalizar que a brincadeira não estava tendo graça. Ela me devolveu um olhar tão furioso quanto o de Juliana. Naquele momento, me dei conta de que algo sério aconteceu e eu iria me dar muito mal. Pelo menos já estava vestido, pois a exibição do encolhimento do meu pau seria ilustrativa para a minha sensação de pavor pelo que estava por vir. Cheguei a desviar os olhos para a Juliana para confirmar o que era óbvio, só faltava a Tatiana bufar. Vendo que estava em uma sinuca de bico, ou melhor, em uma corda bamba equilibrando duas coisas ao mesmo tempo, optei por contemporizar. Seria impossível administrar uma Tatiana, que tudo sabe de mim, possessa e uma Juliana, que gostaria que desse certo, igualmente irada. Sentei-me então à beira da cama:
- Calma, Juliana – escolhi por chamar pelo nome para dar entender que estava levando a conversa a sério. – Não tem essa de uma piranha por dia. Quando digo que estou para valer com você, estou dizendo a verdade. Provavelmente esse ataque da Tatiana a mim é uma reação exagerada algo que fiz.
- REAÇÃO EXAGERADA? – pelo grito da Tatiana, conclui que talvez estivesse subestimando demais o problema dela. – EXAGERADA? EU FUI DEMITIDA POR SUA CAUSA!
- BABY! – Juliana se espantou e eu em seguida.
- MINHA CAUSA? COMO ASSIM?
Tatiana, por mais impossível que fosse, ficou mais transtornada ainda com a minha reação. Xingou, gesticulou, gritou e, em certos momentos, até chegou a puxar os próprios cabelos. Algumas frases ficaram desconexas, outras incompletas. Filtrando o máximo, o que se pode concluir é que fiz uma série de cagadas na festa de final de ano da empresa na noite anterior e, mediante os fatos, o gestor a demitiu. Cagadas, aliás, que, como era de se esperar, não lembrava por conta das minhas constantes amnésias alcoólicas. Pelo visto, o gestor além de vingativo, pois a demitiu porque não gostou de coisas que fiz, era um verdadeiro filho da puta, afinal, porque só a demitiu no último minuto de um longo dia de trabalho.
- NÃO, NÃO ADIANTA FICAR CONTRA O MEU CHEFE FALANDO MAL DELE. ISSO NÃO VAI AMENIZAR O SEU LADO. – Tatiana, ainda possessa, cortou o que achava ser uma boa estratégia minha. – Mas, sim, ele foi um filho da puta mesmo.
- Ok, gente – Juliana se enfiou no fogo que nem era cruzado, mas apenas em uma única direção. – Desculpe-me pela intromissão, Tatiana, mas o que ele fez de tão grave que chegou ao ponto de gerar a sua demissão?
Ao que parece, foi o conjunto da obra. Tudo começou no que deve ter sido após a minha terceira Cuba Libre. Longe de estar bêbado, mas suficientemente encorajado pelo álcool e incomodado com a apatia das pessoas, subi no pequeno palco onde o tecladista tocava música ambiente. Peguei o microfone e fiz um discurso improvisado sobre a importância de se extravasar nas festas de final de ano.
- Ah, baby – a reação da Juliana foi sofrida. – Que vergonha.
- Calma, Juliana – a Tatiana se antecipou. – Piora. Ah, mas piora muito. E, para dizer a verdade, isso nem seria motivo de dar merda, pois ele se passou por funcionário. Ninguém conhece de fato todos os funcionários por lá. E quer saber de uma coisa? Foi até engraçado. Teve uma parte que foi assim:
“Sim, vocês têm o direito de extravasarem na noite de hoje. É uma celebração! Onde já se viu celebração combinar com pessoas contidas. Aposto que o meu chefe vai me regular esta noite, um de vocês deve estar pensando. Pois eu aposto que o seu chefe vai estar completamente bêbado em menos de meia hora do jeito que servem uísque na mesa da diretoria. Aposto que ele não vai se lembrar de coisa alguma no dia seguinte. Aposto que ele ficará decepcionado caso passe vergonha sozinho na pista de dança. Aposto que... Ah, vocês já entenderam. Vamos! Levantem essas bundas caretas das cadeiras. Exceto a bela loura de cabelos presos ali ao fundo. Não, você deve, sim, se levantar também, baby. O exceto foi porque sua bunda está longe de ser careta. Chamar esse monumento ao corpo feminino apenas de bunda é, no mínimo, uma falta de respeito. Este objeto, cobiçado por uma ampla maioria que já teve o prazer de vê-la desfilar pessoalmente, precisa ser tombado pelo patrimônio cultural para que evitem o seu mau aproveitamento. Ela precisa ser venerada dias e noites como fazem com imagens religiosas. Ela deveria estar estampada em cada mural por toda a empresa em uma bela campanha motivacional com o slogan: Quando você achar que fez um belo trabalho, olhe para esse rabo e perceberás que fez apenas a sua obrigação. Li isso algum dia pela internet e adaptei, mocinha. Agora, antes que todos venham dançar, uma salva de palmas para o mais belo rabo que vi em minha vida.”
- Que machista, baby – Juliana me recriminou.
Não era a intenção. Bem, ao menos, nunca tive a intenção de assim ser, mesmo não me lembrando de patavinas do que aconteceu na noite anterior. Por mim, poderia ter campanha com fotos de homens sarados sem camisa também. Não me afetaria, tampouco eles se sentiriam ofendidos por isso. Talvez a minha forma de venerar o corpo feminino seja um pouco enfática e espalhafatosa. De qualquer forma, não iria me prolongar com essa discussão com a Juliana, pois não era o objetivo daquele momento tenso.
- Ainda bem que você sabe que nem vale a pena discutir comigo. Machista ou não, já está errado por elogiar bundas alheias por aí. – disse a Juliana.
Tatiana cortou o ciúme barato da Juliana e prosseguiu. O tom mais ameno que ela apresentou ao detalhar o meu discurso foi rapidamente substituído pela ira do início da conversa. Talvez tenha sido um lapso dela ou, na minha plena esperança, uma total incapacidade de ficar por muito tempo irritada comigo. O fato é que o vulcão voltou a entrar em erupção, principalmente na parte em que descrevia a conversa que tive com o chefe direto dela.
- Nem começa porque essa parte eu me lembro bem – interrompi tentando deixar um ponto a meu favor registrado. – Eu era só elogios. Comecei ainda no personagem do falso funcionário e desenvolvi um longo monólogo sobre seus atributos profissionais, dedicação e seriedade.
- Ele me falou isso – Tatiana ponderou com um tom seco e áspero. – Inclusive, ele disse que foi nesse momento que começou a desconfiar de que você não era funcionário.
- Que absurdo! O cara, além de ser um filho da puta, é um pessimista. Como pode uma pessoa não acreditar que alguém seja funcionário da própria empresa unicamente pelo fato de elogiar demais outro colega?
- Não foi por isso, imbecil – Tatiana permaneceu com o mesmo tom. – Ele disse que você tentava descrever tarefas, mas nenhuma fazia sentido com as minhas, tampouco com qualquer outro setor da empresa.
- Tá, mas isso não significava necessariamente que foi você quem me colocou para dentro da festa.
- Na realidade, sim, né? Na cabeça de quem faria sentido um penetra numa festa corporativa elogiar aleatoriamente uma funcionária? Bem, que seja. Você depois desandou a me elogiar como amiga também. Acho que isso acusa tudo, né?
- Ok, é justo! Mas que fique registrado que te elogiei como amiga. E foi sincero. Não se esqueça de que a sinceridade sai nos momentos alcoolizados. Já viu algum bêbado manter uma mentira ou inventar algo? Pois é! Estava bêbado e sendo honesto. Tudo que falei era verdade. Maior declaração de amor que fiz para uma amiga. Você! Baby friend! Vem cá, me dá um abraço. Vou colocar Friends Will Be Friends do Queen para tocar. Viva a nossa amizade! Estamos de bem? Paz? Aqui, cheira! Amiguinho...
- CALA A BOCA, IMBECIL!
- Gente, mas o cara te demitiu só porque você levou uma terceira pessoa para a festa? – Juliana retomou a palavra em um péssimo momento, quando estava pegando velocidade na minha deixa de amolecer o coração da Tatiana. Ou era o que eu achava.
- Juliana, colocar um conhecido para dentro de uma festa corporativa fechada, de fato, nem é um pecado capital. É algo recriminável, mas não tão dramático. – Tatiana se explicou para Juliana num tom que queria tanto que fosse comigo. – O problema é esse convidado externo aprontar todas e você não ter controle sobre ele.
- Como assim aprontar todas? O que ele fez, meu Deus?
- Basicamente, subornou um garçom para receber bebida deliberadamente. O discurso do microfone que já contei. Desenhou um enorme pênis com sushis e sashimis da mesa de comida japonesa. Lambeu a minha diretora nos dois lados do rosto.
- ELE O QUE?
- Relaxe, Juliana. Ela ao menos curtiu a lambida dele. Fez um bolão com os auxiliares administrativos sobre o tamanho da bunda da tal loura e depois foi até ela medir com uma fita métrica, que sabe-se lá de onde ele arrumou?
- VOCÊ MEDIU A BUNDA DA MULHER?
- Toquei o mínimo necessário, baby! E foi tudo muito profissional com fins de jogatina. Até porque, para dar entrar na papelada do patrimônio cultural, eu preciso das medidas...
- Mas, enfim – Tatiana cortou tudo. – Deixe-me terminar a parte do meu chefe. Porque foi ali que a queimação foi aumentada com um tonel de gasolina. O problema foi quando ele se empolgou nos elogios sobre a nossa amizade. Falou demais e contou de quando precisou do meu ombro amigo para falar do relacionamento com você, Juliana.
- Falar do nosso relacionamento? Baby, você está com algum problema com o nosso relacionamento?
- NÃO! – respondi no automático. – Digo, sim! Mas não foi isso!
- Peraí – Juliana demonstrou mais interesse do que nunca na conversa. – Você está ou não está com problemas no nosso relacionamento?
- Sim, estou! Só que o problema não é esse. A história do ombro amigo não foi por conta de problemas.
- Tem razão, Juliana. O caso do ombro amigo foi para ele me contar sobre a festa de formatura e a frustrada primeira transa de vocês.
- OPA! – Juliana gritou com a palma de uma das mãos espalmada. – Você foi fazer fofoquinha da nossa intimidade com ela? É isso mesmo?
- Não, não é isso – respondi. – Estava eufórico com o início e precisava contar para alguém. Daí, nada melhor do minha melhor amiga que amo tanto e nunca faria algo para prejudicar a sua...
- CALA A BOCA, IMBECIL – fui cortado pela Tatiana. – Não era fofoquinha, Juliana. Aqui preciso defender ele. Estava desde o início acompanhando a novela de vocês dois. Além de torcer muito por vocês. Não sei se ele disse, mas sempre fui sua fã sem te conhecer. Considerava que você fosse capaz de dar um juízo na cabeça dele. Enfim...
- Então, vejam que coisa linda – dessa vez, eu interrompi a conversa. – Minha amiga linda do coração e a maior paixão que tive na minha juntas...
- CALA A BOCA! – as duas gritaram.
- Como ia dizendo, – Tatiana retomou a palavra. – a minha torcida era tamanha, que queria muito saber como tinha sido a noite da formatura. Só que no domingo seguinte ele sumiu. Daí, eu só consegui falar com ele na segunda. Foi quando comentou que tinha toda uma epopeia para me contar. A euforia dele para compartilhar a notícia somada à minha vontade de saber o final da história nos fez marcar um almoço na segunda-feira.
- Viu? – usei a deixa da Tatiana para acertar a impressão da história com a Juliana. – Nada de fofoquinha. Apenas um cara apaixonado e empolgado com uma grande amiga torcendo pela felicidade deles.
- Está bem! Menos, né? – Juliana deu entender que aceitou a história. – E o que isso tem a ver com a sua demissão? Qual a relação que eu não entendi até agora?
- O problema foi que o imbecil aí... – Tatiana seguia com a palavra até ser interrompida por mim.
- Essa insistência em me chamar de imbecil é uma forma estranha de dizer que me ama, né?
- CALA A BOCA! – Tatiana seguiu. – Você já deve ter percebido, Juliana, que tudo com esse bêbado é na base do álcool. Pois bem, durante o almoço, DURANTE UM DIA DE SEMANA QUE EU ESTAVA TRABALHANDO, ele pediu uma cerveja e me ofereceu. Eu neguei. Daí, ele com esse talento persuasivo todo desastrado me convenceu a beber um copo só para brindar o início do relacionamento com você. Acabei aceitando. Erro grave de quem o conhece há tanto tempo. Nunca é apenas um copo com ele. Nunca tem fim. Nunca tem limite. O almoço durou quase a tarde toda e saímos de lá bêbados.
- Ah, baby, que péssimo amigo – Juliana se decepcionou novamente comigo.
- Péssimo nada, baby! Eu estava feliz. Ela estava feliz por mim. Estávamos felizes comemorando. Não existe nada de errado nisto. Venha me dar um abraço, vamos comemorar!
- PARA! Que seja. Eu me lembro de algo do tipo. – Juliana começou a ligar uns pontos e, assim, me preocupar. – Lembro-me da segunda-feira logo depois da formatura que você cancelou de nos encontrarmos. A desculpa que você deu era outra. Algo de ela estar com problemas pessoais e precisava de você para conversar. Até achei foto depois.
- Ah, baby, veja bem. – ela tinha ligado bem os pontos e eu precisava acertar as coisas. – Perceba que era uma emergência para ajudar a amiga de qualquer forma. Só distorci a verdade por fins práticos. Não existe por de trás da história...
- Você é uma pessoa muito ruim mesmo. – Juliana me cortou. – É uma mentirinha atrás da outra. Não bastante, só faz merda. Complica a vida de quem chama de amiga. E você também, Tatiana, vou te falar uma coisa. Para mim, tudo isso é novidade. Sabia que ele era desajustado, mas não a esse ponto de destruir as coisas ao seu redor. Agora com você é diferente, pois você sabe bem disso. Convive com isso. Aliás, como consegue conviver com isso? Como ainda é amiga dele? Então ele contou para o seu chefe que você encheu a cara e faltou o resto do trabalho?
- Exatamente – Tatiana concordou e sua expressão era cada vez pior. – Alguma coisa na cabeça desse imbecil, talvez um curto-circuito entre os neurônios afogados em rum, o fez pensar que contar esse episódio soaria como um elogio. Era óbvio que o meu chefe ficaria possesso em saber que bebi na hora do almoço. Aliás, bebi é eufemismo. Enchi a cara na hora do almoço a ponto de não poder voltar para o trabalho. Não bastante, ele percebeu que caiu na mentirinha dele. Afinal, foi ele mesmo quem ligou para o meu chefe inventando a história que passei mal. O próprio se lembrou dos detalhes da conversa e se recordou que esse imbecil debochou da cara dele o tempo todo durante a ligação. Ele se sentia humilhado a cada constatação que fazia. Você me disse uma coisa certa, Juliana. Eu convivo com isso. Sei dos riscos. Mesmo com ele sempre se superando, a certeza de que no final vai dar merda é real. E, na maioria das vezes, eu quem me fodo com ele. No mínimo, passo uma vergonha enorme. Você tem razão. Não existe motivo para ser amiga dele. Quero dizer, eu gosto dele de verdade, mas, aparentemente, a recíproca não é verdadeira.
- NÃO! – tentei cortar a Tatiana. – NÃO DIGA ISSO!
- Digo, sim. Não faz sentido algum. Você em uma noite, em que deveria apenas escolher um vestido para eu ir à festa, arruinou a minha vida. Começou colocando defeito em todas as minhas roupas que eu considerava boas, fez com que perdesse meu emprego e ainda afugentou o carinha que eu estava saindo.
- OPA! – interrompi novamente. – DESSA, EU NÃO ESTOU SABENDO.
- Pois é, baby. Aparentemente, entre uma merda ou outra, você acabou conhecendo o Jefferson. Aquele com o nome com dois efes que você fez piada por isso. É curioso que, com o meu chefe, mesmo da pior maneira possível, você tentou me elogiar, falou dos meus atributos, quase uma declaração estabanada de amor. Já com o Jefferson, você só falou mal de mim. Desenhou o meu pior retrato, quase um rascunho feito por uma criança. Parecia que me odiava e que eu era a pior pessoa do mundo para se relacionar. O garoto ficou tão assustado que apenas me disse que precisava repensar algumas coisas e, desde então, não me atende mais, nem responde às minhas mensagens.
- Sério, Tatiana? Ele é um péssimo amigo. Acho que nem podemos colocar amigo na definição.
- Calma aí, meninas. Vocês estão exagerando um pouco as coisas...
- Exagerando? – Tatiana me interrompeu. – Vamos ver o que é exagero. Juliana, se lembra da diretora que ele lambeu os dois lados do rosto?
- TATIANA, PORRA! – o pânico tomou conta de mim.
- “Tatiana porra” o quê? O que tem ela? – Juliana me confrontou.
- TATIANA! NÃO SEJA EU! VOCÊ É MELHOR DO QUE ISSO!
- Para o inferno esse papinho. Ser você seria sustentar uma mentira e iludir essa menina. Eu vou ser sincera e dizer o que tem de ser dito. O que vier depois é consequência da SUA AÇÃO, não da minha.
- Fale, Tatiana. Por favor. O que ele fez com a diretora?
- Eles foram flagrados se agarrando numa cabine do banheiro masculino. Ela foi demitida hoje também. Outra vítima das inconsequências dele. Se te consola, ou massageia o ego, você em uma noite virou uma lenda em toda a empresa. Só falavam de você hoje por lá.
Fez-se o silêncio na casa. Juliana voltou ao banheiro e se sentou na tampa da privada que estava abaixada. Eu e Tatiana, do meio do quarto ficamos olhando para ela aguardando alguma reação. Nada. Olhei então para Tatiana que desviou o rosto e se sentou na cama. Assim como a Juliana, ela ficou fitando o chão. Eu não tinha um incêndio para contornar, tinha dois. Na realidade, tinha duas florestas com vários focos de incêndio em cada uma delas. Não tinha a menor idade de por onde começar. Não sei lidar com essas situações apaziguadoras. Tudo que faço é usar sarcasmo na esperança de quebrar o clima e as coisas se acertarem sozinhas com uma risada. O momento não chegava perto de permitir isso. Saí do quarto e fiquei de pé na sala esperando que alguma das duas fizesse algo. Não sei o que? Que me xingasse, jogasse algo em mim, fosse embora, mas fizesse algo. Aquele silêncio estava me matando. Peguei uma garrafa de rum do meio das minhas outras garrafas de bebida. Fez um barulho de vidro quando elas se esbarraram. Deu para ouvir um riso curto contido do meu quarto. Com certeza foi a Tatiana. Foi um sorriso recriminador como quem diz que esse merda vai encher a cara como solução do problema dele. Não pretendia encher a cara. Todavia, precisa de uma bebida. Não tinha condições de elaborar algo mais sofisticado. Estava inquieto e ansioso. Coloquei três dedos de rum em um copo e virei em um gole só. Desceu mal e franzi todo o rosto. Abri a geladeira à procura de algo para misturar. Minha casa nunca tem um suco ou refrigerante para improvisar uma bebida. A maior parte dos destilados que tenho é de protagonistas, não devem ser misturados. Apesar de essa geração bunda-mole insistir em misturar com energéticos excessivamente açucarados. Não, o problema não está no excesso de açúcar, mas na mistura em si. Exatamente por nunca ter com o que misturar, não fazia sentido ter uma garrafa de rum em casa. É a minha bebida destilada favorita, sim. Entretanto, sempre bebo misturando com algo. Com a geladeira ainda aberta e a garrafa de rum na mão, fiquei refletindo de onde ela surgiu. Faltava bem menos que a metade para ela acabar.
- Admirando sua recordação da noite épica? – Tatiana disse enquanto entrava na cozinha, pegava uma garrafa de água e, em seguida, saía de lá.
Ela ficou parada no meio da sala encarando minha estante de livros. Dizem que se pode definir uma pessoa pelo o que ela lê. Talvez até funcione comigo, em partes. Jamais, por exemplo, conseguiriam determinar qual disciplina leciono. Nunca tive livros técnicos do tema em casa, tampouco nos locais onde trabalhava. Provavelmente era um sinal da minha soberba nesse aspecto que me impedia de consultar um material completar. O que daria na aula vinha sempre da minha cabeça e de improviso. Obviamente nunca lecionei algo tão complexo que exigisse uma preparação prévia, mas uma leve consulta para ampliar as abordagens era algo salutar para um bom professor. Bem, não fazia isso. Lá na minha prateleira estavam os meus “mestres”. Sim, entre aspas. Nunca fui aluno deles, mas assim os considerava por conta da influência que exerceram sobre a minha personalidade e a minha escrita. Não sei se uma coisa é consequência da outra. Digo, personalidade e escrita. É óbvio que escritores são capazes de causar impacto em seus leitores a ponto de influenciar características de quem os lê. Experimente mergulhar de cabeça no mundo de Bukowski e entenderá o que falo. Ou como sou, se assim preferir. Hemingway, Machado, Garcia Márquez, Rubem, o Fonseca, não o Alves, Kerouac, Mario Prata, Dostoievski, Ariano, Cervantes, Veríssimo e Hunter Thompson estavam a postos aguardando o olhar sinistro de Tatiana. Ela os ignorou. Seus olhos eram todos atenção para um título perdido destoando dos demais.
- Poxa, baby – com um tom melancólico, Tatiana puxou a palavra. – Você nem abriu o livro que te dei.
- Eu ia abrir quando fosse ler, assim conservaria o delicioso cheiro de livro novo.
- Quando fosse ler? Eu te dei tem mais de um ano.
- A fila de livros aqui é grande, baby.
- Fila? Você sempre relê os mesmos. Só esse tal de Putas Choronas... – cortei a Tatiana.
- Memórias de Minhas Putas Tristes!
- Que seja! – ela prosseguiu. – Só esse, já te vi folheando umas cem vezes nesse mesmo espaço de  tempo que te dei o livro.
- PÉSSIMO AMIGO! - a Juliana gritou do banheiro.
- Tatiana – chamei pelo nome para manter o foco em mim. – Acredite, eu ia ler um dia.
- Quando?
- Quando estivesse preparado.
- Preparado? Desde quando precisa de preparação para se ler algo? O que você precisa?
- Talvez uma lobotomia. Ou estar em coma e alguém ler para mim para ver se acordo de raiva.
- Porra, baby! Que ingratidão!
- Não, não é ingratidão. Nem um pouco. Fiquei muito feliz de ganhar um livro de você. Deu-me um baita orgulho saber que por minha causa você pisou alguma vez na vida numa livraria.
- VAI TOMAR NO SEU CU! Você e esse seu sarcasmo de merda.
- PÉSSIMO AMIGO! – Juliana mais uma vez gritou do banheiro.
Não era sarcasmo. Foi um comentário honesto que talvez devesse ser tolhido por uma mente com o mínimo bom senso. Ser estabanado socialmente sempre foi um defeito grave que me acometia, principalmente em momentos de tensão.
- Desculpe-me – tentei amenizar as coisas em um tom que entoava sinceridade. – Na minha cabeça, era um elogio que fazia sentido.
- Ah, na sua cabeça fazia sentido? Na sua cabeça não tem a recordação que fico magoada por pouca coisa?
- Ah, tá! E na sua cabeça não passa que não gosto dessas merdas de autoajuda?
- Você é um péssimo amigo!
- PÉSSIMO AMIGO! – Juliana outra vez.
- Você compra um presente errado para mim e eu sou o péssimo amigo por não mudar minhas predileções literárias?
- SÉRIO QUE VOCÊ VAI DISCUTIR ALGUMA COISA? – Juliana surgiu triunfante na sala encerrando a conversa de vez. – Você é muito pior do que imaginava. Adeus!
- Peraí! – contive a Juliana pela mão enquanto ia a caminho da porta. – Aonde você vai?
- Eu? – Juliana parou para me responder. – Eu vou embora da sua vida e espero que você faça o mesmo da minha. Adeus!
Congelei. Um gosto de sangue subiu à boca. Lábios e língua travaram. Não sabia como reagir. Foi um esforço diário por semanas para conseguir começar algo com a Juliana e tudo estava desmoronando por conta de uma cagada que ela nem estava envolvida. Não podia desprezar a Tatiana e a sua desgraça, contudo, prioridades precisavam ser determinadas. Entre as duas, escolhi a Juliana. A Tatiana eu tentaria resolver mais à frente.
- Calma, Juliana – mais uma vez usei o nome para demonstrar seriedade ao problema. – Precisamos conversar.
- Conversar o que? Você me traiu!
- Eu não te traí coisa alguma.
- Ah, traiu, sim. – Tatiana se meteu na conversa.
- Tatiana, na boa – me impus para tentar conduz melhor a conversa. – Eu entendo perfeitamente a merda toda ao seu redor. Já falou e falou até demais. Eu só peço que segure um pouco a onda aí enquanto ao menos tento ser sincero com ela.
- Sincero? Ok! Vou até sentar para ver melhor essa cena. – disse a Tatiana enquanto cumpria com a sua fala.
- Essa eu também quero ver. – Juliana completou. – Vai, senhor sinceridade. Vai assumir que me traiu?
Forçando um pouco a cabeça, conseguia me lembrar dos amassos com a diretora no banheiro. Recordava, inclusive, de como começou. As lambidas foram bem depois de tudo começado. Pelo que me consta, foi numa série de sarradas em uma tentativa de dançar forró. A coisa, naturalmente, começou a pegar fogo e, em algum momento, disse para a diretora que ela era muito gostosa. O destino, que sempre me prega peças, colocou à minha frente uma pessoa tão cretina quanto eu. Ela respondeu perguntando como eu poderia saber que era gostosa se sequer tinha a provado. Daí que vieram as lambidas. Para a minha maior surpresa, a diretora foi enfática ao dizer que ninguém prova um produto lambendo o rótulo. Foi nesse momento que o convite para sairmos do campo de visão de todos foi feito. Pena que o executamos miseravelmente. Todos nos viram entrando no banheiro masculino. Claro que foi questão de minutos para um segurança aparecer e interromper tudo. Não sei precisar o tempo, mas foi o bastante para um zíper ser abaixado e uma saia ser levantada. Imagino ser dispensável dizer o que era de quem
- Eu não estou acreditando no que estou ouvindo. – Juliana expressava desespero com as mãos levadas aos cabelos. – Como você mesmo diz, eu te fiz uma pergunta que admitia apenas sim e não como resposta. Em troca, você me deu um relato detalhado da sua façanha. Obrigado pelo sadismo gratuito em me magoar. Foi a resposta mais longa e dolorosa que poderia imaginar para uma simples confirmação de que me traiu.
- Nada disso! Sim, me desculpo por ter sido prolixo. De fato, foi desnecessário. Mesmo assim, não confirmei que te traí.
- Ah, não me traiu? A traição seria configurada em qual momento? Quando estivesse com um dos punhos cerrados dentro do rabo da diretora vagabunda?
- Olha o machismo. Minha boca foi mais rápida que meu cérebro.
- Enfia o seu deboche no cu! NO CU! Enfia e roda! E não me venha com esse papinho de que não me traiu.
- Mas eu não te traí. Para te trair, é necessário que tenhamos um relacionamento.
- E não temos um relacionamento? Vai ser escroto ao ponto de entrar em especificações técnicas do relacionamento? O que temos então?
- Sei lá! Estamos saindo. Estamos nos conhecendo. Só que em nenhum momento anunciamos que estamos em um relacionamento oficial exclusivo. Portanto, sem relacionamento oficial exclusivo, não existe traição.
- Você vai ser mesmo filho da puta ao ponto de tentar se safar tecnicamente dessa cachorrada que me fez, né?
Preciso reconhecer que foi muita covardia colocar na mesa um argumento desse tipo. Algo tirado do fundo do poço de tão baixo. Não, não me via num relacionamento com a Juliana. Muito pelo contrário. Estava me sentindo em uma conveniência mútua de puro comodismo movida por motivações de sentimentos equivocados. Ela, para mim, era como o Santo Graal. A aluna séria que jamais sairia com um cara como eu, principalmente sendo seu professor. Não sei por parte dela qual a motivação que a fazia querer se envolver comigo de maneira tão fria.
- Que relação fria? – Juliana perguntou demonstrando mais desespero ainda. – De onde você está tirando isso?
- Bem... – fiz uma pausa e olhei a Tatiana sentada passivamente com as sobrancelhas levantadas como quem pede para prosseguir e saciar sua sádica satisfação com aquela cena. – De onde tirei isso? Baby, nosso relacionamento parece um caso de pessoas casadas. Eu pareço seu amante.
- Meu Deus! Meu Deus! – Juliana se descabelava mais a cada exclamação feita. – Você é muito mais maluco do que eu imaginava. De onde você tira essas coisas?
- De onde? Ora, sejamos sinceros, não é mesmo? Quantas vezes andamos na rua de mãos dadas? Quantas vezes fizemos um programa em local público? Tudo que fazemos é nos encontrar por aqui. No máximo, vamos ao restaurante da esquina comer algo e voltamos. Se isso não parece um caso de amantes, então não sei de nada dessa vida.
- Tatiana – Juliana se vira para a Tatiana. – Preciso da sua ajuda aqui porque ele é muito pior do que eu imaginava. Isso é sério mesmo? Ele comentou com você sobre isso? Já que vocês conversam sobre tudo, inclusive nossas peripécias sexuais, ele falou com você sobre essa leitura torta do nosso relacionamento que sei lá como ele prefere chamar?
Os breves segundos de silêncio da Tatiana foram suficientes para acusar que ela consentia com a minha versão. Quero dizer, que ela tinha ciência de tudo aquilo que tinha dito para a Juliana. Ela interrompeu seu próprio silêncio com uma longa respirada. Em seguida, confirmou verbalmente.
- E você não acha que isso é loucura dele? – Juliana perguntou mais uma vez para a Tatiana.
- Sendo bem sincera, eu achei isso estranho. Só que precisava ouvir a sua versão para ter uma opinião melhor formada. É isso mesmo que ele disse? A programação de vocês se limita a isso?
- Sim, ele não mentiu, mas... – Tatiana interrompeu a Juliana que confirmava a minha versão.
- Ora, se era isso mesmo, ele tem razão para achar que tem algo de estranho. Lembro que ele comentou algo sobre desconfiar que você tinha vergonha dele.
- VERGONHA? – Juliana riu depois do seu próprio grito. – Quero dizer, ele me fez passar vergonha muitas vezes. Por sorte, quando acontecia, estávamos aqui a sós. Tirando isso, não tenho vergonha dele. Que absurdo! Todos no colégio sabiam que flertávamos sempre. Caso tivesse vergonha dele, teria cortado logo de cara para minimizar a minha fama.
- Então me explica o motivo de tanta reclusão comigo. Por que publicamente não existimos? Por que nosso relacionamento se limita a esse apartamento de cinquenta metros quadrados?
- Por quê? Isso não é óbvio para você? Porque me sinto intimidada. Você é uns dez anos mais velho do que eu. Você foi meu professor. Consegue imaginar o quanto é difícil para mim?
- Eu sabia – Tatiana foi pontual enquanto Juliana prosseguia.
- Não bastante, você é meu segundo namorado. Quero dizer... – Juliana fez uma pausa, balançou as mãos no ar e prosseguiu. – Sei lá! Não sei mais o que somos, mas sei que você é o número dois. É isso, apenas posso dizer que você é o meu segundo. O segundo cara na minha vida. O primeiro foi um namorico de adolescência que sequer durou um ano. Perdi a virgindade com ele, mas foi só isso. Você agora é a segunda pessoa na minha vida. Ou o primeiro homem. Bem, nem sei mais se posso te chamar de homem depois disso tudo. Digo, no sentido de adulto, não de masculino, antes que fique ofendido. Estou perdida. Queria estar com você, mas não sabia como fazer. Se fosse para ficarmos trancados dentro da sua casa como vinha acontecendo toda semana, por mim estava ótimo. Afinal, estava com você. Se me chamasse para ir ao cinema, iria. O mesmo com praia, shopping, parque, até circo fuleiro lá da Pavuna. Não te dava a mão nas poucas vezes que estávamos na rua exatamente por isso. Não sabia se era para darmos as mãos. Só que, se você me desse, eu não soltaria nunca mais. Apesar de preferir que andasse abraçado a mim. Está satisfeito agora? Está explicado? Porque eu sequer precisava me explicar para você depois de tudo que ouvi hoje. Cada dia ao seu lado é um esforço enorme para te acompanhar e ao final recebo isso. Você não tem ideia do quanto é complicado tentar te acompanhar conforme os copos vão sendo virados. Como te disse, você foi meu segundo. Minha segunda transa foi com você. Isso para mim já é algo complexo demais para ficar totalmente confortável. Daí, você vem cheio de coisinhas. Fala sacanagem, me joga para lá, me aperta. Claro que com o tempo iria curtir. É sua forma peculiar de demonstrar o quanto me deseja. Só que, na segunda transa da vida, isso assusta, e muito. Eu não tinha vergonha de você. Nunca tive. Sempre te achei um cara genial, ainda mais com esse jeito desastrado de ser. Eu estava em pânico. Queria conseguir te acompanhar. Nem sempre é fácil. Tem vezes, que ao se deparar com algo novo, ao invés de nos adaptarmos, travamos. Eu travei. Eu queria ser a musa sexual que você tentava fazer com que me sentisse. Queria mesmo. Era algo novo demais. Tudo que conseguia era ser uma boneca. Um brinquedinho. Ainda assim, você se esquecia que sou mais do que um corpo para lamber, apertar, beijar e enfiar esse pau ansioso. Eu sou uma companhia também. E você sabe bem disso porque, no início, era tudo que éramos um para o outro. Virtualmente, na maior parte do tempo, eu assumo, mas éramos. Tínhamos conversas, cumplicidade, interação. Tudo bem que às vezes você descambava para as coisas com duplo sentido. Era engraçado, confesso. Acabava jogando sua mentalidade para mais próxima da minha e me sentia confortável. Ou menos desconfortável. Enfim, eu estava em pânico. Agora, não sei mais. Acho que estou horrorizada com a pessoa que você é. Eu ouvia falar das suas bebedeiras e maluquices, contudo, imaginava que eram situações apenas engraçadas. Não sei. Vai ver sou muito inocente. A minha vida social não me proporcionou amigos que transam em banheiro de festa com mulheres desconhecidas.
- Ou com diretoras de colégio na secretaria.
- TATIANA! – Gritei.
- O que ela disse? – Juliana fez a pergunta no automático, pois tinha entendido perfeitamente o que Tatiana falou. – A Verônica? Jura? Aquela mulher mesquinha? Que nojo! Não me fale que foi durante a época em que estávamos juntos. Nem precisa responder. É indiferente. Foi a cereja do bolo. Mesmo assustada com nosso relacionamento, esperava que você me calejasse para a vida. Jamais imaginaria que me deixaria calejada para as coisas ruins da vida. Você não me deu experiências, mas cicatrizes que me lembrarão de erros que nunca mais cometerei. Adeus. Não me procure, por favor.
Juliana se levantou e foi até a porta. Quando segurou na maçaneta, ela refugou por alguns segundos. Não, ela não olhou para trás. Juliana apenas respirou fundo, e encarando ainda para a porta, disse que me odiava e que jamais passaria pela sua cabeça que um dia teria tal sentimento por mim. Daí, a porta foi aberta e ela foi embora sem fechar. Não quis correr o risco de ter de olhar para trás. Em um corredor silencioso, Juliana foi embora sem fazer barulho algum. Sem deixar rastros de que um dia esteve ali. Eu podia sentir que era o fim. A minha certeza disso era tão grande quanto a da que tinha quando sabia que um dia estaria com ela.
Éramos agora eu e Tatiana na sala. Levantei-me, fechei a porta e sentei-me ao lado dela. Tatiana se levantou, foi até a estante, retirou o livro que me deu de presente e colocou em sua bolsa. Depois disso, não fez mais movimento algum. Não sabia se estava pronta para ir embora e esperava que eu dissesse algo. Ela também poderia estar tomando coragem para dizer algo. Resolvi quebrar o silêncio:
- Satisfeita?
- Ah, para o inferno! Se te consola, isso não era o meu plano quando saí rumo à sua casa. Não tinha isso em mente.
- Pelo menos, agora pode dizer que conseguiu empatar a minha fodida na sua vida fodendo com a minha.
- Pois saiba que está muito longe de empatar ainda.
Ela foi até o meu quarto e se sentou na beira da cama. Visivelmente, Tatiana não iria embora naquele momento. Com certeza, não iria embora tão cedo. Muita coisa foi dita e tínhamos muito por acertar.
Próximo capítulo em breve

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Confraternização

Capítulo anterior: Enfim, primeiro encontro

Não eram nem dez da manhã quando o barulho da porta se abrindo me acordou. Imaginei quer seria a Marlene, então nem me dei ao trabalho de levantar da cama, tampouco de abrir os olhos. Voltei para o fim de sono que antecedia à ressaca e fui acordado com um grito:
- VAMBORA , HOMEM! LEVANTA ESSE CU DA CAMA!
Marlene jamais me acordaria assim. Tinha de ser a desgraçada da Tatiana. Parada na porta do meu quarto com duas mochilas, uma nas costas e outra no chão ao lado da sua perna. Ela tem essa mania de andar de mochila para todos os lados. E nunca é uma mochila parcialmente cheia. Não! É sempre uma mochila abarrotada de coisas quase estourando o zíper. Sua desculpa é que, como fica revezando em três endereços diferentes, precisa andar com algumas coisas sempre à mão. Ah, para o inferno com esta desculpa, né? Basta deixar um kit básico em cada um dos três endereços, se planejar melhor e então andaria com o mínimo. O fato é que ela tem sangue de muambeira mesmo. Daquelas que cruzam a fronteira do Paraguai com bolsas enormes cheias de tranqueiras. Enfim, desta vez eram duas e isto não é um bom sinal.
- Porra, sua imbecil. Odeio que me acordem gritando. Odeio levar susto.
- Ah tadinho! Queria o quê? Cafuné? Uma massagem com final feliz? Uma dedada?
- Até que uma dedada cairia bem agora.
- O QUÊ?
- Viu como é bom levar susto logo pela manhã? Larga de ser imbecil e faz algo de útil na vida. Coloca a roupa que está amontoada no sofá na máquina de lavar e aperte o botão iniciar, por favor.
- Por que deveria fazer isso?
- Por que você está aqui?
- Porque preciso de um favor.
Daí fiquei parado sério olhando para Tatiana e ela fez o mesmo para mim. Ela levantou as sobrancelhas, eu repeti o gesto. Ela deu uma ligeira esbugalhada nos olhos, fiz o mesmo. Ela jogou a cabeça um pouco para frente, eu a imitei cinco vezes. Voltamos a ficar parados nos encarando até ela interromper dando sinal de que captou a sutileza da coisa. Ela foi até lá para um favor, eu precisava de um favor.
- Tá! Já entendi, seu explorador.
Enquanto Tatiana fazia o que tinha pedido, levantei-me aos poucos e fui ao banheiro. Se existe uma coisa que é sagrada para um homem é a primeira mijada do dia. Não somente pelo alívio, mas por ser um jato respeitável seguido de toda a flatulência acumulada por uma noite inteira de sono. Sei que isso é meio escatológico, mas não deixa de ser verdade. Pode perguntar a qualquer homem. Terminada a sinfonia solo de um trompete enferrujado e o esvaziamento da bexiga, voltei para o quarto. Tatiana já estava acabando de colocar as roupas na máquina. Peguei o celular, não tinha mensagens recebidas. Olhei os históricos de conversas durante a noite, nada constrangedor. Lista de chamadas feitas e recebidas estava imaculada. Aparentemente foi uma noite de poucos estragos.
- Pronto – disse Tatiana entrando no quarto e jogando uma das mochilas na cama. – Preciso da sua ajuda. Tenho uma festa hoje e quero sua opinião sobre qual vestido usar.
- É, a tal dedada agora soa bem mais interessante.
Ela riu e disse que não tinha escapatória. Em seguida, pediu que me ajeitasse na cama para poder espalhar os vestidos. E não eram poucos. Não parava de sair vestido daquela mochila, era quase como palhaços saindo de um Fusca. Ao final, minha cama parecia uma feirinha de estacionamento de supermercado. Ela foi então ao banheiro com um em mãos.
- Que tal?
Ela me perguntou um minuto depois ao sair do banheiro com um vestido de cor azul meio que escuro, puxando para o roxo. O tom flertava um pouco com metálico e tinha umas alças finas no ombro.
- Você está parecendo um presente da Roberto Simões.
- O que é isso?
- Sua pobre, é uma loja cara de presentes para casa.
- Ah, então isso é bom!
- Se você quiser ser um cinzeiro pretensioso que nunca será usado por pena de sujá-lo, sim.
- Hum, acho que quero ser usada. E muito!
Ela voltou rindo para o banheiro com outro vestido em mãos. Mais um minuto e lá estava Tatiana com um vestido de cor meio indefinida. Algo verde, com azul e amarelo. Tudo misturado parecendo que foi mergulhado em água sanitária. Não bastante, por cima dele tinha um tecido tipo tela com furos bem finos.
- Céus, você está parecendo uma Sininho de peça infantil de baixa renda.
- Ah para! Ele é levinho!
- Ótimo! Use-o quando precisar se pesar vestida.
Lá se foi Tatiana resmungando para o banheiro mais uma vez. Agora era um conjunto composto por uma saia preta e blusa branca de bolinhas pretas com uma gola bem grande. Ela saiu do banheiro e parou com a mão na cintura.
- É festa à fantasia?
- Não!
- Então não use. Parece secretária de filme cafona da década de sessenta. Coloque um laçarote no pescoço e virará a Lucy.
- Quem é Lucy?
- Lucy do seriado I Love Lucy.
- Você é um hétero com umas referências muito estranhas.
- A começar pelas amigas que querem que dê palpites de roupas.
Ela riu concordando e voltou para o banheiro. Mais outro minuto e já estava com um vestido estampado de manchas que mudava a cor do fundo em diversas partes. Algo como uma união de retalhos de tecidos com estampas iguais, mas com cores distintas no fundo.
- Você está igual a um chão de alfaiataria.
- Jura?
- Claro! Olha esse monte de cores de maneira caótica.
- Eu gosto tanto desta estampa.
- Parece um cu de jaguatirica.
- É fofo!
- Ok, um cu fofo de jaguatirica.
Ela resmungou alguma coisa antes de entrar no banheiro. Retornou em seguida com um vestido mais comprido que os demais. Ele também era estampado, mas com referências tropicais, lembrando praia, flores, sol, entre outras coisas. Era o mais alegre de todos.
- É em um cruzeiro?
- Não!
- Que bom. Porque se fosse, iriam te confundir com uma cortina e provavelmente um marinheiro bêbado limparia o pau em você.
Segue Tatiana para o banheiro com a última peça, finalmente. Confesso que estava me divertindo, mas precisava também tirar o rabo do quarto e ver um pouco de luz natural. Nisso ela voltou com um vestido tubinho preto colado ao corpo, modelo tomara que caia e muito curto.
- Você está parecendo uma puta.
- Isso é bom?
- Depende do preço.
- Ah me ajuda – ela quase suplicou balançando os braços e se mexendo para os lados.
- Isso! Mais um pouco e coloco uma nota de dez no seu decote.
- Porra! Dez?
- Meu vale-alimentação está zerado.
Depois de um breve esporro sobre não estar ajudando, ela foi enfática ao dizer que eu precisava escolher uma das opções disponíveis, pois iria se arrumar na minha casa. Perguntei então como era o evento para poder melhor balizar minha decisão.
- É uma festa e ponto final.
- Assim fica complicado de te ajudar.
- Faz diferença que tipo de festa é?
- Dependendo do seu objetivo, sim.
- Vai ter um carinha que estamos flertando tem um tempo.
- Então o preto sem dúvida alguma.
- Ah, mas você não gostou de nenhum. Deve ser o menos pior.
- E isso faz alguma diferença? Logo a opinião de um bêbado que não tem gosto nem para o que vai beber. O cara cujo pré-requisito para beber é estar líquido.
- Não importa. Estamos falando de roupa.
- Pior ainda. Onde que vale a opinião do cara que só veste jeans e camisas pretas?
- Para mim vale.
- Se te consola, te comeria com qualquer um deles.
- Jura?
- Juro, mas precisaria estar muito bêbado para tomar coragem e puxar assunto com você.
Ela se sentou na beirada da cama para não amassar os outros vestidos e com a mão sobre os joelhos lamentou aquilo tudo. Não era apenas implicância desta vez, as opções eram todas umas merdas. Só que não faria a burrice de falar isso, ou entraria em um vórtice sobre gosto e moda. Decido por matar de vez com aquilo, me levantei e anunciei que iria à padaria tomar café. Ela disse que não queria e iria ficar. Saí então do quarto quando ela pediu o que temia:
- Vai ao shopping comigo então?
- Mas nem a pau – gritei da sala enquanto abria a porta da rua.
- Você vai me deixar sozinha aqui sem ter o que fazer?
- Toque uma siririca!
- Eu estou triste porra!
- Toque com a berinjela que está na geladeira enfiada na bunda. Vai te animar.
- Isso ofende!
- Se te reconforta, a berinjela ouviu isso e também ficou ofendida.
Fechei a porta e saí. Ela veio atrás me pedindo por ajuda. Para não correr o risco de prolongar mais aquilo, voltei. Sentados na minha cama debatemos por um bom tempo sobre a melhor roupa a ser usada. Por mim, manteria a opinião sobre o vestido preto. Era suficientemente vulgar para o tal carinha ficar interessado nela. Entretanto, para ela, eu deveria considerar outro ponto em questão.
- É que vou me encontrar com ele em um evento da empresa.
Confraternizações de final de ano de empresas são sempre um terreno ardiloso. As pessoas se esquecem de que ainda estão em ambiente profissional e, com a ajuda do álcool, se comportam de forma mais inapropriada possível. Falam o que não deve. Fazem brincadeiras com quem não tem tanta intimidade assim. Sem entrar no mérito dos desmaios, vômitos, tombos e trepadas no banheiro. Acreditem, acontece, não é lenda urbana.
- Baby, a roupa não está tão contida como deveria para uma festa da empresa. Mesmo assim, é condizente com a sua idade. Se fosse uma gerente de quase quarenta anos, diria que estaria para bancar uma periguete. Acho que dá para manter assim. É Open Bar?
- É, tudo liberado! Eles fecharam o segundo andar de um restaurante na Lagoa. Vai ter banda e tudo.
- Poxa, baby. Não rola convite para parentes? Tipo... amigos bêbados?
- Eu até cogitei te chamar, mas você anda nessa fase agarrado à Juliana. É Juliana para cá. Juliana para lá. Só dá ela na sua vida. Tem duas semanas que não nos falamos.
- Era só me mandar mensagem, ora.
- E iria responder? Você não larga essa menina. Estou até começando a desgostar dela.
- De onde tirou que estou agarrado o tempo todo com ela? Não é assim, não!
- Como não? Nem foi ao Natal da sua família para ficar com a dela.
- Eu? Quem te falou... Ah tá! Falou com a minha mãe, né?
- Sim! Liguei para sua mãe para desejar feliz Natal para ela e, papo vai, papo vem, ela meio que se lamentou comigo. Ela até está feliz por você estar namorando sério outra pessoa. Ela entende como uma tentativa sua de colocar as coisas nos rumos certos. Mesmo assim, ela ficou chateada, né? Com toda razão, baby. Deixar de passar um dia do Natal com seus pais porque estava com a família da nova namoradinha? Dava para administrar melhor isso aí. Passava a noite do dia 24 com uma família e o dia 25 com a outra. Agora faltam dois dias para o réveillon e você nem deu um beijo de Natal nos seus pais.
Apesar do tom ameno, senti um leve esporro no discurso de Tatiana. Ela tinha razão. Mesmo iludida por uma versão mentirosa. Não, não tinha ido passar o Natal com meus pais, entretanto Juliana não foi o motivo. A verdade é que estava sem saco para aturar família. Digo família no sentido coletivo. Pais, tios, primos, enteados, ajuntados e terceiros desgarrados de suas verdadeiras famílias. Em condições normais de temperatura e pressão, esses eventos já são uma tortura. Ninguém bebe no meu ritmo e ainda me condenam por isso. Não bastante, me ignoram por completo na hora de estruturar o evento. Leia-se, compram pouca bebida. De quebra, eles insistem naquelas conversas chatas as quais respostas monossilábicas se tornam desperdício de saliva. Mesmo assim, não era uma situação em condições normais. Estava recém-divorciado da Maria Fernanda. Era certo que seria fuzilado por perguntas que agrediriam o bom senso por estarem tão além da barreira do limite da intromissão na vida privada de alguém. Obviamente, esses questionamentos seriam feitos repetidamente por parentes diferentes, em momentos distintos, em pontos isolados da festa. Não responder a qualquer um deles seria considerado uma afronta à instituição. Para a família, casamento era um acordo social e a dissolução dele deveria ser feita oficialmente em um evento coletivo. Membro a membro da família deveria ser notificado da fatalidade, eles insistem em classificar assim. Como se não fosse suficiente, escutaria ainda sermões, indiretas, conselhos e pedidos de mãos juntas para repensar a vida. A bebida seria usada como culpada em dosagens inversamente proporcionais às dosagens que consumiria no evento. Não, obrigado. Não queria ir.
- Ah baby, não acredito que tenha feito isso com sua mãe. Você está falando isso só para me provocar, né?
- Não, não estou. Eu juro. Não estava no clima e inventei a história da Juliana para que não tivesse de ouvir as lamentações da minha mãe.
- Não! Não! Eu aceito seu mau humor matinal. Lido de boa com as suas grosserias gratuitas para não demonstrar afeto por mim. Aturo qualquer coisa torta que você faz, mas isso não. Se você não ligar agora para a sua mãe e contar a verdade, eu irei.
Tatiana é indiscutível uma pessoa de bom coração. Preciso reconhecer também a sua tolerância com a minha personalidade de merda. Só que tem vezes que ela é tão burra quanto um tamanco velho. Tentar me recriminar pelo que fiz, seja uma atitude condenável ou não, só iria prolongar uma discussão a qual meu prazer mórbido perpetuaria até reverter os papéis e fazê-la se sentir mal por ter iniciado. Sem falar na hipótese de trazer minha mãe à conversa. Acabaria colocando as duas como culpadas ao final.
- Tá, não vou discutir isso com você. Ela é sua mãe e se você acha que está certo o que fez com ela, quem sou eu para julgar, né?
- Exato!
- Mesmo assim, poderia ter passado com a Juliana ao menos para manter a veracidade da sua escrotidão.
- Ah, baby, ela ia passar com a família...
- E qual o problema? – Juliana me interrompeu.
- Você prestou atenção nos motivos que me levaram a não querer passar o Natal com...
- Ah tá – Juliana me interrompeu novamente. – Tem razão. Foi mal. Puxa vida, achava que vocês estavam em uma espécie de lua-de-mel.
- Sim e não ao mesmo tempo.
- Como assim?
Apesar de um breve início turbulento, ou confuso, as coisas com a Juliana eram meio que monótona. Ela ia lá para casa, bebíamos alguma coisa, transávamos, dormíamos e, no dia seguinte, ela ia embora. Em partes, era como o início de uma vida de casado. Exceto pelo fato de que não acontecia todos os dias. Não suficiente, aos finais de semana, quando tínhamos a opção de sair e fazer um programa diferente, a primeira opção dela era ficar em casa. Quando a convencia a sair, ela optava por algo discreto com apenas nós dois. No fundo, me senti como um amante. Não sei se ela tinha vergonha por sair com um cara mais velho ou de mim mesmo. Aquilo estava me incomodando de verdade a um ponto de me fazer esquecer o que sentia por ela.
- Que chato mesmo. Colocava muita fé em vocês dois.
- Você não era a única. Eu também. Bem, vamos ver se é só questão de conversar com ela e achar um ponto em comum.
- Sim! Sabe o que acho? Ela pode estar sentindo um pouco de pressão. Você é um cara mais velho, tem personalidade forte e era o professor dela. Você acha que ela está coagida?
- Coagida?
- Não é bem coagida o termo que quero. A palavra me falta agora. Tipo quando vocês dizem que a camisa pesa no jogador. Ah, esquece! Pensa nisso. Vai ver ela acha que isso pode ser demais para ela e está pouco à vontade com você.
Eu entendi o que a Tatiana quis dizer. Não acho que faça sentido. Ao menos seria uma gota de esperança para mim, pois, até o momento, a expectativa de que o relacionamento com a Juliana saia do outro lado é bem baixa. Claro que cogito ter uma parcela de culpa na situação em que estávamos. Aceitava passivamente as sugestões dela. Aliás, ficava tão bobo com ela que a tal personalidade forte que Tatiana falou sumia. É até curioso constatar isso. Juliana se sentia intimidada por estar com um cara mais velho que, perto dela, agia como um garoto mais novo.
- Então não irão se ver hoje?
- Quarta-feira é sempre um dia ruim para ela.
- Quer ir à festa? Posso ver se te coloco para dentro.
- Lembro bem que disse palavras mágicas como Open Bar para descrever a festa. Ora, por qual motivo não aceitaria?
- Você precisa se comportar.
- Ah, me ajuda!
- Prometa!
- Prometer o quê?
- Que vai se comportar!
- Isso é muito vago. Seja específica.
- Prometa que não vai encher a cara, não vai dar show, não vai me fazer passar vergonha, não vai assediar minhas colegas de trabalho ou colocar em risco meu emprego.
- Você sabe que jamais faria isso.
- Você está falando sobre prometer o que te pedi, né?
- Exato!
Tatiana, como era esperado, relutou até o quanto pode. Ao final, cedeu. Depois, precisou da mesma insistência que usei para convencê-la para fazer com que o colega do departamento de marketing autorizasse a minha entrada. Aparentemente, eu teria de assumir o papel de algum consultor que prestou serviço para a empresa naquele ano. Mediante ao que me esperava, assumia até o papel de esposo da Tatiana por mais vexaminoso que isso seria para a minha imagem.
- Eu consigo o que me pede e me trata assim?
- Como se você aceitasse fingir ser minha esposa.
- Eca!
Chegamos à festa pouco mais de uma hora e meia além do horário no convite. Forcei um atraso demorando no banho e me arrumando propositalmente. Não queria entrar em uma festa com pessoas desconhecidas ainda sóbrias. Estranhamente, minha estratégia não funcionou. Quando entramos, estavam todos sentados em suas mesas conversando de maneira contida. Dava pena ver a mesa do bufê quase vazia. Nada de funcionários se acotovelando para pegar logo comida e voltar para a mesa. Era possível refletir com calma o que iria pegar. Nada estava prestes a acabar. Olhei com espanto para Tatiana que me retornou um semblante blasé seguido da ordem para me comportar. Um garçom servindo cerveja interrompeu nosso momento mãe e filho. Antes que pudesse reagir ao que me era oferecido, Tatiana o dispensou alegando que primeiro íamos comer algo. Odeio quando ela faz coisas desse tipo. Qual o problema de beber uma dúzia de tulipas de cerveja para abrir o apetite?
- Coma algo ou digo para a segurança que você é penetra. Vou ali falar com meu chefe e quando voltar quero ver o neném com um pratinho bem cheio, combinado?
De fato, não podia reclamar do bufê. E nem falo do fato de estar vazio e, assim, praticamente ao meu dispor. O pessoal da organização caprichou de verdade. Como era de se esperar, tinha aqueles cacarecos tradicionais. Uma diversificação de canapés que só servem para te dar sede e depois formar uma massa grudenta na boca. A tradicional galinha com rabo de abacaxi e corpo composto de palitos com ovos de codorna. Aliás, peguei uns quatro logo de início e os afoguei no molho rose. Acabei comendo só três, porque um dos ovos se soltou do palito e ficou submerso no molho. Para o inferno que iria resgatar aquele rebelde. Seguindo os clichês, um mar de pães massudos para rechear com rolinhos de queijo prato e presunto. Convenhamos, até para os meus padrões de bons modos, é constrangedor ficar em um bufê cortando pãozinho e enchendo de frios em rolos. Passei a diante. Pastas, patês e outras gororobas pálidas. Ia seguir em frente, mas uma espécie de tigela em formato de abóbora me chamou a atenção. Nela, continha queijo derretido borbulhante. Achei interessante. Peguei uma fatia de baguette dentre as várias já cortadas em uma cesta. Com uma faquinha que mais parecia um coletor de secreção para exames, passei o queijo derretido cobrindo por inteira uma das faces da fatia do pão. Assoprei. Dei uma mordida. Tinha tempo que não comia algo tão gostoso. Nunca fui bom identificando queijos, mas chutaria algo como um provolone misturado com outro tipo queijo de orçamento mais baixo para fazer volume com menos custo. Para incrementar, era possível identificar algo puxando para o doce que talvez fosse damasco ou uma geleia dissolvida naquela gosma suprema. A fatia que ainda tinha em mãos poderia ser saboreada em três ou quatro mordidas. Coloquei tudo na boca e, enquanto tentava manobrar aquela bomba calórica entre dentes e língua, voltei à cesta de pães para pegar mais duas fatias. Larguei a tal faquinha laboratorial e mergulhei as fatias a fundo na tigela. De lá, iam diretamente para a minha boca. A sensação era algo que sou totalmente incapaz de descrever sem usar metáforas sexuais. Terminada a segunda fatia adicional, peguei uma baguete inteira, que provavelmente estava por lá mais para decoração, e, com ela em mãos, dei a volta na mesa para melhor me posicionar junto à tigela. No meio do caminho, um garçom, provavelmente querendo ser prestativo, disse que eu poderia me servir em um prato e levar para a minha mesa. Eu não tinha mesa. Eu não queria sair dali e correr o risco do queijo esfriar. Eu queria enfiar a baguete inteira no molho e ir mordendo como se estivesse num festival particular de fondue para pessoas sem compostura à mesa. Tanto queria que fiz. Lá estava eu, mergulhando aquele pão enorme no queijo derretido. Pontinha por pontinha. Daí, mordiscava a parte com queijo para não desperdiçar pão à toa. Pontinha por pontinha. Tinha esquecido totalmente onde estava. Meu estado de êxtase era tamanho que ignorei tudo e todos ao meu redor. Nada me incomodava. Bem, nada me incomodou até entrar na segunda metade do pão.
- Senhor salvador Deus pai – Tatiana exclamava do outro lado da mesa do bufê. – Minha nossa senhora dos babadores, olha o seu estado.
Com a boca cheia, tentei perguntar o motivo do espanto. Obviamente, ela não entendeu e tudo que consegui foi, acidentalmente, ejetar um pedaço de pão em algum pote de patê. Meu estado era realmente lamentável e sequer tinha me atentado a isso. Vários pingos de queijo derretido tinham caído na minha camisa. Fiapos esticados de queijo pendurados pela minha barba. Uma boca envolta de mais queijo ainda como se fosse uma criança que tentou usar a maquiagem da mãe. A situação era constrangedora. Confesso que não sabia de onde saia tanto queijo. Ainda assim, Tatiana não precisava me constranger me dando um generoso monte de guardanapos enquanto cobria o próprio rosto. Ela disse que já voltava e, dessa vez, queria me encontrar em um estado apresentável. Fiquei meio que escondido atrás de uma decoração feita com frutas e lá gastei os guardanapos na tentativa de me deixar em condições de poder cruzar o salão rumo ao banheiro. A verdade é que ninguém me daria bola, mesmo se passasse pelo salão como estava antes. Inclusive se aproveitasse para fazer uma coreografia. Talvez até deveria me sentir triste por não ser capaz de atrair a atenção alheia, mas preferi deixar esse sentimento para o tecladista que sofridamente tentava criar um clima aprazível de início de festa que, igualmente a mim, era ignorado sem esforço. Saindo finalmente do banheiro, acabei me deparando com o simpático garçom que tentou me tirar da mesa.
- Muito gostoso aquele queijo, não, senhor?
- Acho que essa definição é pouca, mas, sim, vou concordar com você. Por mim ficaria ali a noite inteira.
- E por que não fica, senhor?
- Porque está na hora de se empanturrar de outra coisa. Sabe... álcool? É você quem serve?
- Tem garçom fixo para as bebidas, mas posso arrumar algo para o senhor. Algo em especial?
- O que vocês têm para servir?
- Tem cerveja que está sendo servida na jarra. Espumantes nas taças estão rodando também. Com menos frequência, mas tem.
- Nada destilado?
- O uísque ficou apenas para a diretoria. Tanto que apenas o maître tem acesso a ele.
- Puxa, que notícia ruim saber que apenas ele tem acesso ao uísque – lamentei enquanto sacava uma nota de cinquenta do bolso deixando bem à mostra para o garçom. – Adoraria uísque com queijo derretido no pão. Sabe como é, né? Misturar estilos. Sofisticado com o rústico. Quase um viking com sotaque britânico.
- Senhor, infelizmente, não tenho acesso ao uísque. Me desculpe.
- Eu te entendo, rapaz. Consegue outros destilados?
- Sim, posso providenciar batidas, drinques, qualquer outra coisa.
- Sabe fazer Cuba Libre?
- Claro, senhor. É algo bem simples, inclusive.
- Pois tome – entreguei a nota de cinquenta ao garçom. – Cuba Libre opressora à noite toda.
- O que seria Cuba Libre opressora, senhor?
- Quase nada de Coca-Cola, pouco gelo, uma rodela de limão e muito, mas muito, rum. A ideologia prevalece no copo.
- Perfeitamente, senhor. O senhor é engraçado.
- Outra coisa – segurei o garçom pelo braço enquanto se afastava. – Posso lhe pedir outro favor?
- A tigela de queijo derretido?
- Não tinha pensado nisso. Você é bom, rapaz! Bem, fica para mais tarde! Está vendo aquela menina baixinha?
- A que chegou com o senhor?
- Não repita isso em voz alta que dá azar.
- O senhor é engraçado.
- Que seja! Ela vai tentar regular o seu prestativo trabalho enquanto me traz as bebidas. Ignore-a. Preciso de um copo cheio na mão durante toda a noite.
- Pode deixar, senhor. Já volto com sua primeira dose de Cuba Libre oprimida.
- Opressora!
- Perdão, senhor! Opressora! Cubra Libre opressora.
E lá se foi o garçom. Tinha a ligeira impressão que iria adorar a dedicação daquele danado.

Próximo capítulo: Ressaca moral