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domingo, 2 de abril de 2017

O fabuloso imaginário do absurdo

Conto anterior da coleção: 217 dias

Neguinha
Já tinham se passado duas horas além do horário habitual que o restaurante fechava. Na cozinha, os funcionários encerravam a limpeza e os preparativo para se iniciar um novo turno no dia seguinte. No vasto salão, quase todas as mesas arrumadas, faltava apenas uma. Faltava a mesa que até algumas horas atrás era a cabeceira de uma enorme sequência de mesas perfiladas com quase trinta convidados. Tinha sido uma noite incrível. Luis Antonio reunira amigos e familiares para comemorar a entrada na aposentadoria. Ele estava com quase 68 anos vida, sendo 40 deles dedicado à odontologia. Dono de uma das agendas mais disputadas da Urca, ele fechou seu consultório que vivia lotado de pacientes que não pensavam na dor, mas apenas em serem tratados por umas das mãos mais leves da categoria. Em uma reportagem veiculada numa revista dominical, foi apelidado de o doutor da broca de plumas. Luis Antonio era mais do que um homem com mãos leves, quase imperceptíveis, no cuidado dos seus paciente. Ele era também um homem tranquilo de fala suave. Conversar com ele, era quase que receber um cafuné.
- Meu bem, precisamos ir. O gerente já está começando a olhar atravessado para nós.
- Sim, querida, precisamos mesmo. Deixe-me apenas terminar esta última taça de vinho. Esta taça... Fernando! – Luis Antonio fez uma pausa para chamar a atenção de seu único filho que cochichava algo ao ouvido da esposa. – Fernando, escute, por favor, meu filho. Esta taça é a mais especial de toda a noite. Oficialmente, esta é a última taça de vinho que beberei enquanto ainda cirurgião-dentista praticante. Ao chegar em casa, meu bem, abriremos aquele português que está escondido ao fundo da adega. Será o meu primeiro vinho como Luis Antonio, o aposentado.
- Meu bem, você não acha que... – Maria Helena, sua esposa começava a falar, quando foi interrompida pelo filho Fernando.
- Mãe, deixe o coroa em paz. Deixe ele encher a cara. Agora ele é Luis Antonio, o aposentado. Adorei isso pai. Ficou uns quinze anos mais velho. Estou até imaginando aqui o próximo destino de viagem. Nada de Paris, Londres, Nova York ou Munique. Esses eram o lugares que Luis Antonio, o cirurgião-dentista ia para impressionar os amigos. Agora, Luis Antonio, o aposentado, vai para Conservatória, Penedo, Raposo, Gramado... – nesse momento, Maria Helena interrompe seu filho.
- Pare de bobagens, meu filho. Pois saiba, que no início do nosso casamento, quando estávamos apertados, íamos muito para Gramado. Não era meu, bem?
- O gerente daquela pousada nos conhecia por nome e sobrenome – Luis Antônio prosseguiu. – E saiba, Fernando, que você quase foi feito lá. Por sorte, naquele aniversário de casamento, seus avó nos deram de presente uma viagem para Bariloche.
- Talvez isso explique eu sentir calor com tanta facilidade. – Fernando provocou o pai. – Então, me digam, qual será o destino da viagem para comemorar? Precisa ser algo diferente.
- Por enquanto, não vai ter viagem, meu filho. Combinei com sua mãe que isso ficará para o final do ano. Passaremos o Natal pela primeira vez fora do país e longe de vocês. Será estranho e um pouco triste, mas achamos que será uma experiência nova válida. Vou aproveitar essa nova fase da minha vida para dar início a um antigo sonho meu. Não me peçam para antecipar. Quero que a surpresa seja total. Sábado, faremos um almoço lá em casa. Por favor, apareçam. O tio Valter e a tia Ana estarão com as crianças. Vai ser lá que anunciarei... ou melhor dizendo... mostrarei a surpresa.
No sábado, estava a família reunida no jardim da entrada da bela casa em que Luis Antonio e Maria Helena moravam em um condomínio fechado na Barra da Tijuca. Quando os convidados chegaram, Luis Antonio já tinha saído. Passaram duas horas e nada. Além de ansiosos, já estavam com fome. Petiscos de frios e torradinhas acompanhadas de pastas não davam mais conta. Duas garrafas de vinho foram esvaziadas. Os assuntos tinham morrido e já estavam na fase dos lugares comuns.
- Minha nossa senhora, que barulheira é essa?
Maria Helena se espantara com um grave barulho que se aproximava. Nem era necessário o seu comentário. Todos eram capazes de ouvir quando ainda estava distante e, pelas expressões, estavam tão assustados quanto ela. O barulho que à distância já era impressionante, foi se aproximando. Quando chegou ao seu volume máximo, não se afastou mais. Tinha parado. Os familiares se entreolhavam. Todos tinham entendido que o som estava em frente a porta da casa. Antes que alguém pudesse tomar qualquer iniciativa, o portão da garagem se abriu tornando o som mais alto ainda. Os poucos segundos de suspense que se criou foram quebrado com a entrada de Luis Antonio montado em um moto negra esporrenta. Era uma Harley-Davidson modelo Fat-Boy com um guidão alto. A moto era toda negra, grande e imponente. O espanto que antes era apenas com o barulho, agora somara-se à cena.
- Minha nossa senhora, meu bem.
Maria Helena se levantou espantada acompanhada dos familiares que calados seguiram na direção de Luis Antonio. As reações foram diversas. Fernando, o filho, acompanhado do tio Valer se concentraram em comentários elogiando a moto. Maria Helena e sua cunhada, tia Ana, se atentaram ao suposto grau de irresponsabilidade que envolvia aquela aquisição. Debora, a nora, foi a única que não se preocupou com a novidade. Sua atenção foi exclusiva para o sogro. Aliás, o sogro protagonizava uma cena bem contraditória. Ele estava vestindo uma calça social bege e uma camisa xadrez de botões e mangas curtas enquanto montava uma moto típica de bad boys que usam couro, não fazem a barba, odeiam mangas em camisas e cheiram à cigarro e bebida.
- Tio, você está muito vermelho. O sol te castigou nesse passeio de moto – constatou a nora.
- Vermelho? Mas o capacete é fechado. Nem fico com o rosto exposto ao sol.
- Tem razão – ela concordou. – Inclusive, seus braços estão normais. Apenas seu rosto que está vermelho. Muito vermelho. Esse capacete te sufoca?
- Não, nem um pouco. Ele é bem confortável. Isso deve ser por conta de um aborrecimento que tive no caminho para cá. Um carro fez um movimento inapropriado quase provocando acidente comigo. Acabei me desentendendo com o motorista em uma breve discussão.
- Mas, tio, a ponto de ficar vermelho desse jeito?
- Foi uma grande lambança que aquele irresponsável fez.
A moto foi tema de quase toda a tarde do almoço. As conversas não fugiam muito das preocupações da esposa e irmã, nem dos comentários do cunhado e filho sobre mecânica, estilo e velocidade. O ápice foi quando Luis Antonio disse que a moto tinha um nome, Neguinha. Obviamente que todos resolveram encarnar nele. Com muito esforço, sob uma chuva de deboches, ele explicou que o nome já veio com a moto. Neguinha era o nome dela já com o primeiro proprietário e, na cultura dos motociclistas, não se muda o nome de uma moto. Tio Valter insistiu na troca do nome ou, até mesmo, extinguir essa ideia que ele considerava patética.
- Não, Valtinho! Não se pode cometer uma heresia dessas. Nenhum dos outros donos fez isso. Não seria eu quem quebraria uma tradição deste tipo.
- Outros donos? – Tio Valter perguntou com uma mistura de espanto. – Quantos donos essa moto já teve?
- Eu sou o sexto.
- Veja bem, Luis Antonio. Eu não entendo muito de moto. Aliás, a única coisa que entendo de moto é que elas têm duas rodas e, por isso, foram feitas para cair. Todavia, de carro eu entendo e sei que, um carro que pula muito de dono em dono, é dor de cabeça na certa. Na maioria das vezes, o carro tem algum problema crônico que nenhum mecânico consegue resolver.
- Ora, Valtinho, estamos falando de uma Harley-Davidson. Não é possível construir uma frase que contenha ao mesmo tempo Harley-Davidson e problema crônico. Não podemos nos esquecer que, não bastante, é uma Fat Boy carburada. Um sonho moderno dos fãs da marca.
- Pois então, Luis Antonio – Tio Valter tenta ser contundente em seus argumentos. – Agora que não faz sentido mesmo. Como um sonho de consumo troca tanto de mão para mão? Essa moto não tem nem quinze anos. E sem falar que é meio estranho que, num meio em que se apegam aos nomes às motos, não se apeguem à própria trocando rapidamente. Ainda acho que tem algo de estranho no ar.
Luis Antonio não conseguiu argumentos para acabar com a desconfiança do Tio Valter. Em contrapartida, o próprio, por não entender de mecânica de motos, não pode comprovar para o cunhado que a moto era uma furada. Maria Helena, que já não estava gostando nem um pouco da novidade, cortou a discussão quando ainda era uma conversa apenas.
Ainda perdido sem ter o que fazer com seus dias livres de aposentadoria, Luis Antonio não fazia outra coisa a não ser passear com seu novo brinquedo pela orla da praia da Barra da Tijuca. Ia comprar pão de moto, ia ao banco de moto, ia ao mercado comprar poucas coisa de moto. Era ele e a moto para cima e para baixo. Duas semanas inteira de relacionamento solteiro com a Neguinha. Ele insistia muito, mas Maria Helena se negava a andar naquilo que ela considerava ser um veículo extremamente perigoso. Ainda mais na idade dela que não permitia muitas surpresas, ela enfatizava sempre ao final. Contrariado com a insistente relutância da esposa, Luis Antonio seguiu para a terceira semana com seus passeios diários solitário. Sua esposa começou a perceber que, aquilo que ele chamava de falta de companheirismo, estava o aborrecendo. Ela já tinha notado antes que, a cada dia que passava, ele chegava mais vermelho. Sua desconfiança era igual à de sua nora, excesso de sol. Contudo, se tivesse prestado atenção à conversa dos dois no primeiro dia, passaria a desconfiar de outra coisa.
Com quase um mês de Neguinha na sua casa que Maria Helena sucumbiu aos pedidos, agora um pouco acalorados, de Luis Antonio. Era uma noite de segunda-feira. Para ela, a orla estaria sem trânsito algum e se sentiria mais segura. Não foram necessários muitos minutos para que a sua sensação de segurança terminasse. Ainda dentro do condomínio, com chão de paralelepípedo, Maria Helena, sem intimidade com o banco do carona e com poucas opção de onde se segurar, sentiu um pânico súbito. Pediu para que Luis Antonio retornasse. O marido se negou. Ordenou que parasse de frescura e se segurasse direito nele.
- É só se agarrar em mim como aquelas periguetes de rabo empinado.
Maria Helena estranhou o linguajar de Luis Antonio, mas nada comentou, pois seu pânico tinha tomado conta de sua mente. Tudo que ela queria era se segurar em algo e ter a sensação de que não seria deixada para trás em um chão áspero. Ao sair do condomínio, com um asfalto nivelado, o sacolejo da moto quase zerou. Maria Helena pode aos poucos entender como se posicionar e retomar o controle de si. Enquanto isso, Luis Antonio seguia na direção de um retorno que sairia direto na pista da praia. Ele precisou esperar um carro passar para entrar na principal. Maria Helena ainda recuperava o fôlego quando o momento de sair foi aproveitado por Luis Antonio arrancando em alta velocidade, dando um forte tranco na esposa. Ela quase, literalmente, ficou para trás. Por sorte, teve reflexos suficientes para abraçar por completo o marido. Ainda assim, seu movimento brusco de tentar se manter na moto acabou desestabilizando Luis Antonio, logo a moto também.
- PORRA, MARIA HELENA – Luis Antonio gritou assim que conseguiu retomar o controle da moto. – QUER NOS JOGAR NO CHÃO? QUE MERDA!
O que era no início um medo instintivo por moto, virou um colapso nervoso. A cabeça de Maria Helena deu curto circuito. Era o eminente risco de cair de uma moto em alta velocidade que ela tinha acabado de escapar. Era o grito de Luis Antonio, algo que ela nunca ouvira em toda a sua vida com ele. Maria Helena sequer conseguia falar de tanto que se tremia e chorava. Com muito esforço, ela pediu para que ele encostasse. Coisa que ele fez visivelmente consternado.
- Por que você está chorando, Maria Helena? – Luis Antonio perguntou assim que ela tirou o capacete e revelou um rosto em total estado de caos. – Você que quase nos derrubou. Mesmo assim eu contornei tudo. Pare de dramas. Foi apenas um susto.
Maria Helena apenas chorava, tentava recuperar o ar e limpava o rosto que estava lambuzado num mix de lágrimas, saliva e coriza. Luis Antonio seguia a recriminando numa postura agressiva jamais vista antes. A esposa permanecia na intimidade do seu pânico. Nada ao seu redor roubava a sua atenção, nem o seu marido em um estado estranhamente novo. A cena perdurou por quase meia hora, até que Maria Helena, com visivel pouco fôlego, se levantou dizendo que ia chamar um táxi.
- Não, não vai chamar taxi porra nenhuma – Luis Antonio foi contundente mais uma vez numa versão inédita da sua personalidade. – Você é minha esposa! Você saiu comigo! Você está comigo! Você volta comigo!
Ainda muito nervosa, Maria Helena implorou ao marido que a deixasse ir de táxi para casa. Ela argumentou que estava muito nervosa para conseguir voltar com segurança numa moto. Disse também que ele estava bastante irritado. Para ela, cada um voltar de uma maneira diferente seria melhor para espairecerem as cabeças.
- Não, não vou admitir isso! Ou você volta comigo, ou você nem volta.
Maria Helena estava exausta psicologicamente. Por mais que quisesse, não tinha condições mentais, e talvez físicas, para prolongar aquela conversa. Não relutou. Levantou-se da beira da calçada, colocou o capacete e se posicionou ao lado da moto esperando por Luis Antonio para subir depois dele. Com os dois na moto, Luis Antonio seguiu para casa. Desta vez, sem forçar muito a velocidade. No meio do caminho, um carro trocou de pista obrigando Luis Antonio a frear. Nada muito brusco. Mesmo assim, ele, assim que teve oportunidade, colocou a moto em movimento novamente e emparelhou com o carro:
- Ôh, seu filho da puta – Luis Antonio disse para o motorista do carro com o dedo em riste. – Não tem retrovisor nessa merda, não?
- Qual o seu problema? – o homem rebateu. – Você estava longe. Ou vai dizer que é o dono da rua e preciso da sua autorização para mudar de pista.
- Você vai precisar de autorização para conseguir uma cirurgia de reconstrução facial se enfiar essa merda de carro novamente na minha frente. Abre o seu olho – terminada a ameaça, Luis Antonio não deu tempo de resposta para o homem e seguiu em frente.
Já em casa, Maria Helena cogitou ligar para o filho. Desistiu. Pensou em ligar para a cunhada. Refugou. Para ela, compartilhar aquele momento poderia piorar mais as coisas. Talvez Luis Antonio reagiria mal àquilo e voltasse a se descontrolar. Ela, de fato, odiara aquela cena que viu pela primeira vez. Todavia, não queria ver novamente. Maria Helena cogitou então que sepultar aquele acontecimento seria a medida mais prudente.
Foram mais algumas semanas com Luis Antonio fazendo seus passeios solitários na Neguinha. Esporadicamente, ele fazia um convite e Maria Helena, numa posição bem passiva, negava inventando algo mais importante a se fazer.
Certa tarde, o telefone da casa tocou. Maria Helena estava só e então atendeu. Era seu filho Fernando. Ele começou a ligação pedindo para a mãe ter calma. Geralmente isso deixa as pessoas mais nervosas ainda. A mãe entrou em pânico. De imediato, pensou no pior. Luis Antonio sofreu um grave acidente, ela perguntou sem pestanejar. O filho negou de imediato para acalmar a mãe. Não, nada de acidente, ele disse. Papai estava preso, Fernando completou na sequência. Maria Helena perguntou em qual delegacia, o filho respondeu e em seguida ela desligou partindo em disparada.
Assim que chegou à delegacia, Maria Helena foi recebida pelo filho que não quis entrar em maiores detalhes. Ele preferiu deixar por conta do delegado que a esperava em sua sala. Simpático, ele cumprimentou Maria Helena, tentou deixá-la confortável apesar das insistentes perguntas da esposa.
- Não, senhora, seu marido não vai para a prisão. Ele apenas foi detido por vandalismo e tentativa de agressão. Por ele não ser primário, uma fiança, acredito, será suficiente. Como ele não tem ficha, pesquisei um pouco sobre ele e fiquei impressionado como é a típica situação que jamais esperaria de um homem como seu marido. Ele está passando por alguma turbulência na vida particular, profissional ou sei lá mais o quê?
- Não, seu delegado – Maria Helena respondia quando foi interrompida pelo delegado.
- Freitas, senhora. Pode me chamar de Freitas.
- Desculpe – Maria Helena prosseguiu. – Não, Freitas. Quero dizer, estava tudo bem, sim. Estava tudo na perfeição que sempre foi viver com o Luis Antonio. Daí, foi só ele se aposentar que as coisas meio que saíram do controle. O meu bem começou a se tornar um homem impaciente, grosseiro em alguns momentos e até, digamos, sofisticou seu vocabulário com diversos palavões.
- O que é isso, mãe? – Fernando se assustou com o depoimento da mãe. – Não estou sabendo disso. Papai anda nervoso?
- Bastante, filho. Gritou comigo outro dia. Falou palavrões. Chega irritadiço da rua. Não sei, mas acho que o tempo ocioso da aposentadoria está fazendo mal a ele. – Maria Helena fez uma pausa para segurar um choro que ficou evidente para todos e depois se direcionou para o delegado. – Freitas, o que o Luis Antonio fez?
- Pois bem, senhora. Segundo relatos do próprio, ele foi fechado por um ônibus que quase provocou um grave acidente. O motorista do ônibus disse que não foi nada de especial. A moto sequer caiu no chão. Aparentemente, ele parou a moto na frente do ônibus e começou a discutir com o motorista. De repente, ele se descontrolou mais do que já estava e começou a quebrar os retrovisores, janelas e para-brisa do ônibus.
- Meu senhor, Freitas! Como que o meu bem conseguiu quebrar tanta coisa?
- Ele usou um martelo, senhora.
- Um martelo?
- Meu senhor! Minha nossa senhora! De onde ele tirou um martelo?
- Depois de muito conversar com ele, descobrimos que ele já vinha há alguns dias pilotando a moto com um martelo preso à perna?
- Meu pai andando com um martelo? Seu Freitas, isso não faz sentido nem na época que ele era dentista. Ele nunca usou um martelo na vida. Qual a razão disso?
- Vejam bem – Freitas demonstrou desconforto em prosseguir. – É comum em alguns moto-clubes que seus integrantes andem acompanhados de algo para se defender de desavenças.
- Mas, papai não é de moto-clube. Ele é apenas um dentista que dirige uma Harley-Davidson.
- Bem – Freitas estava muito desconfortável com o que ia dizer. – Algumas pessoas, quando compram essas motos, ficam sob influências de filmes, mitos e acabam sob sugestão de personagens. O martelo, por exemplo, por muito tempo foi conhecido como o artifício usado por membros do moto-clube Hells Angels. Vai ver ele leu algumas coisas sobre, viu uns documentários e pensou que, agora que ele tem uma Harley, ele virou um cara mau. Isso acontece. Acreditem!
A conversa se prolongou por longas horas até que conseguissem determinar de fato o que estava acontecendo. Exaustos e sem opções, desistiram. Luis Antonio foi solto após pagamento de uma fiança. Em seguida, pai, mãe e filho seguiram para a casa do casal. Lá chegando, Tio Valter os aguardava. Eles ficaram surpresos porque não tinham comentado coisa alguma com familiares, apenas os três estavam sabendo daquilo. Tio Valter parecia ansioso para contar algo, mas ao ver a péssima aparência dos três, se conteve e perguntou o que tinha acontecido. Conforme Fernando ia contando para o tio detalhes do evento, Maria Helena e Luis Antonio ficavam mais abatidos. Parecia que um tragédia tinha assolado a família. No meio da história, a esposa de Fernando, Debora, chegou e, mesmo pegando a história pela metade, não parecia nem um pouco surpresa. Ao final, quando Fernando terminou de contar o acontecimento, tio Valter abriu um enorme, soltou uma risada, bateu as mãos algumas vezes e se jogou de pé sobre o sofá.
- Você também enlouqueceu, Valtinho? – Maria Helena perguntou.
- Não, não enlouqueci. Aliás, vocês iriam dizer exatamente isso caso não tivesse acontecido esse surto do Luis. Estou feliz que aconteceu, de verdade. Claro que estou feliz também que ninguém se feriu. Mas assumo que isso acontecendo apenas ficou mais fácil de confirmar o que eu vim contar para vocês.
- Valtinho, por favor – Maria Helena o interrompeu. – Nosso dia foi muto cansativo. Não temos condições de lidar com voltas e serpenteios. Vá direto ao ponto, por favor.
- Ok, é justo – Tio Valter desceu do sofá, se recompôs e prosseguiu. – Pois bem, vamos lá. Desde aquele almoço em que você, Luis Antonio, apareceu com a tal Neguinha que fiquei inquieto com a tal história de a moto ter rodado na mão de tantos proprietários. Principalmente pelo que falamos naquele dia. Nunca deu problema, é uma moto desejada por todos, os que compram costumam ser fiéis às elas. Sim, sentia que tinha algo de estranho no ar. Vocês sentiram também, mas não perceberam. Luis Antonio dava sinais de mudança de personalidade. Ele começou a ficar uma pessoa irritadiça. Vocês viram com o evento de hoje. Maria Helena vivenciou um momento de pico na rua, segundo acabaram de me contar.
- Eu também notei – Debora, a esposa de Fernando, pegou a palavra.
- Você também – Tio Valter reagiu com surpresa e empolgação ao mesmo tempo. – Que ótimo! Mais pessoas para sustentarem o que estou para contar.
- Peraí – Fernando interrompeu. – Quando que você percebeu algo, Dab?
- No primeiro dia. Ele chegou muito vermelho. Perguntei o motivo e disse que tinha se aborrecido no trânsito com algum motorista. Ninguém notou. Apenas eu notei porque estranhei ele estar vermelho. Pensava que era...
- VERMELHO DE SOL – Maria Helena falou junto com a nora e depois seguiu só na fala. – Sim, ele voltava dia a pós dia sempre vermelho. Achava que era sol, mas ele nunca se bronzeava ou descascava. Claro, meu bem! Você estava se aborrecendo todos os dias na rua, estava me dando sinais e não percebi.
- Calma, Maria Helena – Tio Valter interveio. – Não é culpa sua, nem de ninguém. Sim, o sinais estavam surgindo, mas ninguém se atentou. Muito menos podemos dizer que os negligenciamos. Isso tudo tem um culpado e não somos nós. É a moto e vou explicar. Como disse, resolvi correr atrás do motivo da moto ficar tão pouco tempo na mão dos seus proprietários. Rastreei no sistema do DETRAN e achei o proprietário anterior. Garoto novo, universitário e de classe média alta. Ficou menos de seis meses com ela. Motivo da venda? Podem ler aqui no e-mail que ele me respondeu. Ele se tornou uma pessoa agressiva depois que comprou a moto. Os amigos notaram, a namorada notou, a família notou. Peguei com ele os documentos do proprietário anterior e adivinhem o que aconteceu. Nem precisam responder. Ficou agressivo. Achei os outros dois anteriores e nem preciso prosseguir, não é mesmo? A mesma história. Daí fui no primeiro proprietário. Aliás, proprietária. Marcela. Pasmem. Ela está morta.
- Pai meu e da nossa senhora! – Maria Helena exclamou.
- Calma – Tio Valter prosseguiu. – Ela não morreu de acidente de moto. Ela teve um derrame, ficou alguns dias internada e depois morreu. Ainda em vida, nas suas últimas horas, ela pediu para ser enterrada com a moto. A família achou que era uma grande besteira. Disseram que ela estava dando uma dramaticidade a um meio de transporte. Acontece que ela era membro do moto-clube feminino Bruxas do Asfalto. Dizem que esse moto-clube é composto apenas por mulheres envolvidas com bruxaria. Fui falar com uma das integrantes do moto-clube. Ela quem me contou esses detalhes. Segundo ela, a família vendeu a moto porque precisava de dinheiro para pagar o funeral e as dívidas que ela deixou ao morrer. O moto-clube era contrário e avisou à família que estavam comentando um grande erro. Venderam a moto e começaram os problemas para o primeiro dono. Amigos, essa moto, pelas palavras da integrante, é amaldiçoada pelo espírito da tal Marcela. Ele vem expulsando seus novos proprietários até que seja colocada onde deveria estar, no túmulo da sua primeira dona. Acho que não preciso dizer o que devemos fazer, não é mesmo?
O consenso da família foi geral. No dia seguinte, duas integrantes do moto-clube apareceram na casa de Luis Antonio acompanhadas de um reboque. Lamentaram não poder pagar pela moto. Luis Antonio, na sua forma original, de forma elegante, agradeceu por nada de pior ter acontecido e desejou uma eterna paz para a amiga delas. Enquanto elas iam embora, Maria Helena e Luis Antonio ficaram no portão de casa admirando a Neguinha partir. Luis Antonio se lamentou em voz alta:
- Eu vou sentir uma saudade do caralho dessa moto.
- Meu bem – Maria Helena olhou assustada para ele. – Você ainda está sob efeito da...
- Calma – Luis Antonio a interrompeu. – Foi uma brincadeira apenas para te assustar.
- Enfia essa brincadeira no cu.
- Boa, Maria Helena. Boa tirada aproveitando a deixa.
- Não foi tirada, Luis Antonio – Maria Helena virou se de costas para ele seguiu para dentro de casa falando em voz alta. – E prepare uma grande viagem para se desculpar por tudo que aconteceu.
- Pois é, - Luis Antonio falou em voz alta. – acho que vou ter que cancelar minha aposentadoria para pagar essa viagem.

Próximo conto da coleção em breve

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O fabuloso imaginário do absurdo

Conto anterior da coleção: Projeto Brasil YYY

217 dias
Com passos pesados e arrastados, Gerson subiu as escadas do seu prédio que não tinha elevador. Ele morava no último andar, na cobertura, onde era o apartamento do zelador que o alugou para fazer uma grana extra. Ao entrar em casa, foi recebido por um ar carregado que já impregnava a casa há dias e por algumas cartas ao chão que foram passadas por deixado da porta. Mesmo sabendo do que se tratava, ele se abaixou para pegá-las. Avisos de cobranças, ameaças de corte de serviço e novas faturas que igualmente às demais não seriam cumpridas. Era o fechamento com chave-de-ouro de um dia de merda. Passou dez horas na rua à procura de emprego e o máximo que conseguiu foi gastar o final de sola do seu sapato velho que tinha sido presente de três natais atrás. Entrou no banheiro, lavou as mãos e o rosto, apoiou-se na bancada e fitou o próprio rosto no espelho. Estava mais envelhecido do que nunca. Sua aparência era péssima. Gerson era o símbolo da derrota em pessoa. Ninguém daria uma chance para aquele homem. Pensou em ligar para os seus filhos, mas sabia que a ex-esposa não o atenderia. Depois esboçou um sorriso. Não tinha créditos no celular mesmo e o telefone da casa ainda fora cortado. Olhou-se no espelho mais uma vez e em voz alta disse para si que era suficiente. Estava na hora. Entrou no box, pegou a ponta da gravata e a amarrou bem firme no cano do chuveiro. Olhou pela última vez para uma saboneteira escurecida por musgo com quem se despede do pouco que tem e soltou o corpo deixando-o desabar.
Um início de cheiro de cigarro entrou no nariz de Gerson provocando incômodo. Ele acordou. O banheiro estava escuro e o cheiro de cigarro era forte. Instintivamente, ele se levantou e, ao sair do box, se deparou com um homem de pé à porta do banheiro fumando. Ele vestia um alinhado terno negro, com camisa cinza escuro e uma bela gravata escarlate. Não era possível ver seu rosto, pois pendia sua cabeça para frente e assim o deixava encoberto pelo impecável chapéu negro que usava. Gerson ficou parado e calado olhando o homem que calmamente levava o cigarro à boca, tragava e depois soltava seguidas baforadas pequenas. O silêncio permaneceu por alguns minutos até que Gerson o quebrou:
- Você é quem eu estou pensando?
- Sim.
- Como sabe em quem estou pensando?
- Porque sou quem está pensando, logo sei o que está pensando.
- Você veio me buscar?
- Eu não busco pessoas, Gerson. Eu castigo pessoas.
- Você vai me provocar dor e sofrimento então?
- Não, eu já passei dessa fase de sadismo gratuito. Isso perdeu a graça depois que lançaram 50 Tons de Cinza. Agora uso a vulnerabilidade de vocês a meu favor. Facilitando para você, porque não tenho o dia todo, coloco vocês para trabalharem para mim.
- E o que você... – Gerson iniciava a pergunta quando foi cortado pelo homem.
- Veja bem, eu não tenho tempo de sobra, então vou agilizar tudo por aqui. Você em vida cometeu 217 pecados. Foram 217 pecados. Foram 217 atitudes condenáveis que você precisa pagar agora para poder subir aos céus. Para cada pecado seu, você terá de viver um dia extra neste mundo. Contudo, você não é mais uma pessoa qualquer. Você morreu. Aliás, morreu nada! Se matou. Atitude dos fracos. Confesso que sou fã de vocês, pois são os mais fáceis de convencer. Enfim, são 217 dias vagando por este mundo, interagindo com pessoas que não desenvolverão mais laços com você. Inclusive, para elas, você nem terá mais esse rosto. Você estará vivo, mas não será você. Será outra pessoa completamente diferente, apenas com a mente que sempre teve. E nem é uma mente qualquer, né? É uma mente atordoada, não é, suicidinha?
- Então, resumindo, preciso apenas existir por mais 217 dias? Quero dizer, mais 5.208 horas iguais às minhas últimas, com a exceção de que não terei mais as obrigações mundanas de antes?
- Não é bem assim. Pode ser mais rápido, como pode ser mais demorado do que calculou. Aliás, estou impressionado com a sua habilidade. Enfim, o meu calendário funciona de maneira diferente. Para mim, o dia não acaba quando o relógio bate meia-noite. Não! O que determina um dia completo para mim, no seu caso, será quando você matar uma pessoa. Passados os 217 dias completos que me deve, sua alma poderá subir aos céus livre de todos os pecados e ficar em fim aliviada.
O homem virou-se de costas e foi embora. Gerson ficou parado no meio do banheiro ainda assimilando aquela gama de informações. Ele queria dar fim a tudo e o que acabou conseguindo foi iniciar uma considerável sequência de tarefas das quais duvidava ser capaz de efetuar.
Passado um tempo refletindo hipóteses e soluções, Gerson foi à cozinha, pegou algumas facas e um grande garfo, guardou todos na cintura da calça e seguiu escada abaixo. Chegando à rua, viu que era tarde da noite e poucas pessoas estavam pelas redondezas. Ele entrou numa rua deserta e viu uma mulher gorda que devia ter quase cinquenta anos andando só. Ela carregava várias sacolas de supermercado. Em passos pesados e com pouco ar, ela seguia rua acima como uma locomotiva cansada de viagem. Gerson apertou o passo se aproximando dela por trás. Segurou a faca pelo cabo e se posicionou melhor para enfiar no pescoço da fácil vítima. Não conseguiu. Tinha cometido 217 pecados em vida, mas não achava justo usar uma mulher inocente para pagar por um deles dentro de um conceito de justiça distorcido de uma entidade. Resolveu voltar para casa e se sentou no chão. Ficou sentado por muito tempo. Olhando o relógio na mesinha da sala calculou que permaneceu no mesmo local por uns dois dias ao menos. Não sentiu fome, nem sono. Percebeu que ficar ali parado, por mais que não resolvesse o seu problema, ao menos não criava novos.
- Você é muito burro – a voz do homem ressurgiu da cozinha junto com o cheiro do cigarro. – Existem maneiras mais inteligentes de quitar a sua dívida comigo sem entrar em dilemas morais. Ninguém lhe disse que seria fácil. A dificuldade vai se manifestar de duas maneiras distintas e cabe a você escolher com qual delas quer lidar. A dificuldade de saber que escolheu pessoas inocentes porque não ofereceram resistência é uma delas. Vai pesar na sua consciência hipócrita, mas pelo menos será prático. A outra é a dificuldade física que, ao escolher marginais, pessoas ruins e pecadores em um nível mais baixo que o seu, terá resistência, pois irão lutar e revidar até a última gota de vida, mas em contrapartida não pesarão na sua consciência. Qual vai escolher? A eternidade nas suas condições cedo ou tarde afetará seu senso crítico e escolher qualquer coisa será questão de tempo. Decida-se e ponha um fim nisso.
O homem foi embora deixando Gerson com a cabeça confusa. Ainda sentado no chão, Gerson provocava em sua cabeça uma luta ardilosa entre seus princípios e as ideias do homem. Ele refletiu por muito tempo enquanto esperava anoitecer mais uma vez. Quando a escuridão tomou a cidade, ele voltou à rua e foi em direção a uma parte do bairro que era bastante perigosa. Ficou andando sem direção e sem pressa até que foi abordado por um rapaz que lhe pediu a carteira. Era o que Gerson procurava. Sem hesitar, sacou uma das facas e partiu para cima do rapaz que não fugiu. Durante o combate, algumas de suas facas caíram e o rapaz pode pegar uma delas tornando a luta mais igual. Ao final, Gerson conseguiu matar o rapaz, mas o saldo era péssimo. Cortes e perfurações por várias partes do seu corpo. Enquanto avaliava o estrago, o cheiro de cigarro voltou ao ar.
- Parabéns – disse o homem chegando sorrateiramente por trás de Gerson. – Você conseguiu encerrar finalmente seu primeiro dia.
- Mas a que custo? Estou todo arrebentado!
- Não se preocupe. Você é diferenciado dos demais. Isso vai curar numa velocidade absurda. Em menos de quatro horas normais você estará inteiro e novo.
- QUATRO HORAS? Você tem ideia do quanto isso dói? É dor por todo o meu corpo. Eu não aguento quatro horas com essa dor. Você consegue imaginar o quanto está doendo?
- Não, não sei o quanto isso dói. Só sei que algumas pessoas não revidam, logo não devem causar todo esse sofrimento físico. Pense nisso com calma. Talvez uma dor na consciência por um curto tempo até a sua subida ao céu seja menos penosa que uma dor física por várias horas por 217 vezes. Ah, e não fique mal acostumado, pois não vou ficar aparecendo a cada dia completado. Assim eu espero.
O homem se foi mais uma vez e Gerson ficou mais confuso do que nunca. Já estava morto, o que fizesse naquele momento não seria mais considerado pecado, portanto teria acesso ao céu de qualquer forma. Talvez não fosse o momento de questionar as leis divinas e jogar de acordo com as regras. Se as condições permitiam maneiras de tornar tudo conveniente, por que não fazer?
Gerson então esperou o fim da madrugada e foi para o ponto final de uma linha de ônibus que iniciava pela manhã sempre lotada. Entrou com os trabalhadores ainda assonados e esperou o ônibus partir. No meio do caminho, sacou sua faca, atingiu um golpe bem dado no motorista e arrancou o seu corpo já inerte do banco. Assumindo o volante, sem dar chance aos passageiros que fugissem de dentro do ônibus, Gerson acelerou pela longa principal e, numa curva fechada, jogou o ônibus contra um enorme muro. Foi uma barbaridade.
- Estou impressionado, rapaz – a voz do homem e seu característico odor de cigarro despertaram Gerson que estava desacordado no box do seu banheiro. – Sessenta e seis mortos de uma tacada só. Está de parabéns!
- Ué, voltei ao meu banheiro?
- Aparentemente, você também morreu no acidente, então te trouxe de volta para cá.
- E cada um deles serviu como um dia completo?
- Sim, rapaz, cada morte no acidente serviu como um dia completo. Parece que você está finalmente entendendo como funciona.
Assim que o homem saiu, Gerson voltou para a rua em direção ao ponto final. Segundo seus cálculos, mais três ônibus daquele, ou dois um pouco mais cheios, e ele estará na paz eterna do céu. Chegando ao ponto, um policial estranhou aquele homem ansioso pela saída do ônibus. O policial então abordou o Gerson, fez a revista tradicional encontrando as facas e o prendeu.
Na prisão, Gerson foi colocado numa cela separada onde, na companhia de um senhorzinho preso por um pequeno furto, aguardava para ser transferido para uma das celas coletivas. Entendendo que não tinha o que perder e querendo ganhar tempo, ele aproveitou que seu companheiro de cela é uma pessoa frágil e partiu para cima dele. Golpeando a cabeça do senhorzinho contra as grades, Gerson conseguiu sucesso na sua ação. Somente bem depois que os guardas apareceram. Estupefato com o ocorrido, o diretor da penitenciária transferiu o Gerson para a solitária e o avisou que ficaria por lá por tempo indeterminado. Gerson se viu acuado. Ficar isolado naquelas condições atrapalhava seus planos. Constatando que sua caminhada rumo ao céu estava emperrada, ele entrou em desespero e enxergou apenas uma solução. Improvisando suas calças como uma corda, ele se matou enforcado.
- Mas é um suicidazinho por natureza mesmo – a voz do homem surgiu com seu tradicional cheiro de cigarro.
- Era a única solução que... Ei! Por que ainda estou aqui? Não deveria acordar no meu banheiro?
- Você que se meteu nesse problema. Agora você que se vire sozinho.
- Peraí! Eu preso aqui não é benefício algum para nenhum de nós dois. Só vai emperrar meus planos e ocupar seu tempo comigo.
- Se vira – disse o homem antes de ir embora atravessando o robusto portão maciço de ferro.
Gerson voltou a entrar em pânico. Aquilo era inadmissível para ele. Algo precisava ser feito. A única maneira naquele momento de tentar ajustar o placar a seu favor seria atacando os guardas quando entregassem as refeições. Todavia, com ou sem sucesso, isso só prolongaria mais ainda seu tempo pela solitária, comprometendo cada vez mais sua ascensão ao céu. Não se esquecendo de que após o primeiro incidente, eles teriam mais cautela com o Gerson tornando quase impossível um novo ataque. Sim, algo precisava ser feito e Gerson possuía limitações de ideias à sua disposição. Recorreu às calças como corda novamente.
- Além de suicidazinho, é um teimoso – disse o homem ressurgindo na escuridão.
- Onde estou? Ah, obrigado! Nunca fiquei tão feliz em voltar para o meu banheiro.
- É, mas não vai se acostumando. Foi desta vez apenas porque estava em uma sinuca de bico...
Gerson dessa vez nem esperou o homem terminar de falar e sair. Ele mesmo partiu em disparada agradecendo mais uma vez e depois se despedindo. Gerson foi correndo a uma conhecida loja de utensílios de construção na região que algumas pessoas sabiam que vendia armas ilegalmente nos fundos. Chegando lá, disse claramente suas intenções e um atendente o levou para os fundos. A loja estava quase fechando e só estava o tal atendente por lá. Gerson se desculpou e, antes que o atendente pudesse entender do que se tratava o pedido de desculpas, pulou com uma faca em cada mão na sua direção. Foi tudo muito rápido. Com o corpo do rapaz ainda quente estirado no chão, Gerson saiu com duas sacolas cheias de armas diretamente para casa. Somente uma coisa existia em sua mente, encerrar essa contagem o quanto antes.
Gerson estava mudado com tanta pressão por encerrar com tudo de vez. A influência do tal homem era evidente e crescente. Seu ar de depressivo e derrotado foi mudando para colérico e inconsequente. Não era mais um homem fracassado. As pessoas, ao se depararem com ele na rua, viam um homem claramente perigoso e instável. Imponente e decidido, Gerson voltou ao tal bairro perigoso em direção a uma conhecida boca-de-fumo. Os chamados soldados do tráfico, mesmo armados, foram surpreendidos por um homem louco com armas em mão atirando para todos os lados. O efeito surpresa foi favorável ao Gerson que não possuía uma mira muito boa, nem mesmo traquejo para o manuseio das armas. No primeiro minuto de tiros, confusos com o que acontecia, as vítimas foram alvos fáceis para o Gerson. Depois, o jogo mudou de cenário e começaram a revidar. Ao final, seis traficantes mortos, além do Gerson que foi alvejado.
- Boca-de-fumo com homens armados – disse a voz acompanhada pelo cheiro de cigarro acordando o Gerson. – Vou repetir. Boca-de-fumo com homens armados. Quando eu achava que você estava ficando esperto, você não dá um passo para trás regredindo. Você dá um pulo. Qual o seu problema, homem? O que você tinha em mente?
- As coisas não saíram como eu planejei... – Gerson foi interrompido pelo homem.
- Não saíram como planejou? O que tinha planejado? Seja honesto comigo, porque tudo que consigo imaginar era você morrendo logo cara.
- Minha expectativa era surpreender todos e não restar um sequer. Daí, sairia sem maiores problemas.
- Homem. Homem. Estou começando a achar que seu único talento é se matar. Qual a sua limitação cognitiva de entender que, procurando por pessoas ruins, elas revidarão dificultando o seu trabalho? Pare de se preocupar com consciência, inocência e pessoas boas. A morte é uma certeza que não tem para onde fugir. Imagine da seguinte forma. Você antecipando a morte de uma pessoa inocente, provavelmente ela terá menos tempo de vida, logo potencialmente terá cometido menos pecados. Fato que nos leva a concluir que ela precisará de menos tempo nessas condições que está agora. Veja que lindo! Você vai minimizar os problemas dessas pessoas no pós-morte. Facilite o seu lado, homem. Agilize as coisas. Você ainda tem 139 mortes pela frente. Ou dias, se prefere colocar dessa forma mais purista.
O homem se vai e mais uma vez Gerson fica confuso. A ordem do universo não podia ser algo tão equivocado como aquele homem dissera. Na cabeça de Gerson não fazia o menor sentido. Ele chegou a relembrar da vida real. De como as coisas eram de verdade. Sim, existiam loucos que aleatoriamente matavam pessoas. Pessoas más que só traziam maldade. Estaria então explicado de onde elas surgem e suas motivações? Sim, talvez estivesse. Só que na matemática a conta não fechava. Muitas pessoas precisariam pagar por seus pecados após morrer e, por isso, o número de pessoas más deveria ser proporcional a essa quantidade. Todavia, nem chegava perto. Será que poucas pessoas após morrer aceitavam o discurso que vale qualquer coisa para pegar os pecados? E se fossem poucas, o que as outras faziam? Aceitavam matar apenas as pessoas más? Ora, não existiam tantos relatos de justiceiros assim no mundo. Não, a conta não fechava. Para fazer sentido, era necessário entender que existia uma quantidade quase obscena de pessoas vagando por aí se negando a pagar pelos seus pecados naquelas condições. Bem, se fosse realmente isso, onde estariam? Não, as contas não fechavam.
- É isso! As contas não fecham – Gerson exclamou em voz alta.
O homem disse que Gerson precisava pagar por 217 pecados. Logo, pagaria com 217 dias ou 217 mortes, se assim preferisse falar. Antes de sair, o homem afirmou que ainda existia um débito de 139 mortes. Gerson, mesmo fracassado na vida profissional, sempre foi bom em matemática e em fazer contas rapidamente. Com esses valores, ele concluiu que o homem contabilizou 78 mortes. Foi ali que ele enxergou a sua brecha. Pelas suas contas, ele tinha matado um trombadinha na madrugada, sessenta e seis pessoas num ônibus, o idoso na cela e seis traficantes. Isso totalizava 74 pessoas. Faltavam quatro na contagem feita pelo homem. Esses mesmos quatro se referiam ao próprio Gerson que morrera quatro vezes durante esses processos. Isto é, qualquer morte valia, inclusive a própria. Gerson tinha sua solução. Bastava se matar mais 139 vezes. Contudo, tinha percebido que o homem nunca mencionara tal possibilidade, tampouco exposto a contagem. Portanto, precisava ser discreto quanto a isso. No início, foram pequenos suicídios leves com a desculpa de consultar o homem.
- Eu vou falar pela última vez – disse o homem em tom sério e intimidador. – Pare com isso! Está me irritando e você não quer me ver irritado. Se você tem mais alguma dúvida, que tire agora. Não aceitarei você ficar me invocando para perguntas tolas sobre poder encontrar as suas vítimas para fazer uma reunião de novos amigos de afazeres.
Gerson não inventou uma nova desculpa e o homem foi embora. A contagem, que agora era controlada minuciosamente por Gerson, tinha chegado em 93. Faltavam 124 ainda. Isto é, faltavam 124 maneiras criativas de se matar sem que o homem percebesse. A primeira já estava planejada e Gerson colocou em prática.
- Você é muito burro – falou o homem com seu inseparável cigarro acordando o Gerson mais uma vez. – O que você pensou desta vez? Por favor, seja sincero. Estou muito curioso em saber qual foi o seu plano mirabolante desta vez.
- A minha proposta era provocar uma briga generalizada numa torcida organizada e, assim, contabilizar várias vítimas ao final.
- Veja bem... – o próprio homem se interrompe para dar uma maior dramaticidade à sua fala. – Até faz sentido o seu plano. Faz mesmo. Preciso ser sincero. O problema foi você entrar no meio de uma torcida organizada com a camisa do time rival. Era óbvio que você seria espancado. Eles não tiveram dó de você mesmo. Preciso dar os parabéns a eles. Já a você... bem... a você só me resta rir. Sequer uma “mortezinha” junto da sua. O máximo que conseguiu foi machucar a mão dos que tanto te bateram. Eu vou embora para não rir na sua frente.
Lá estava Gerson só novamente no seu banheiro. Entretanto, o ambiente era completamente o oposto do que estava começando a se habituar. Se antes ele ficava cercado de agonia e indecisão sobre como resolver sua suposta evolução espiritual, agora ele estava aliviado e vendo as coisas andando a seu favor. A primeira simulação surtiu com sucesso. Só lhe restava prosseguir com o plano usando o máximo de imaginação possível.
- Não, não era uma ideia genial. Você é muito burro! Se jogar debaixo de um trem no intuito de provocar um descarrilamento é uma péssima ideia. Só uma mente confusa como a sua acharia que isso daria certo.
O roteiro seguia na maneira planejada. Gerson bolava as piores ideias para o tal homem, mas, na verdade, eram suicídios geniais. Ele pulou de um prédio querendo supostamente acertar uma massa de pessoas, porém, errou nos cálculo e caiu em cheio na marquise. Tentou roubar um tanque de um quartel e, obviamente como era esperado, foi alvejado nos primeiros passos. Apesar de muitas das suas ideias possuírem uma essência similar entre si, não se pode dizer que ele repetiu uma sequer.
- Como assim você engoliu gasolina e com um isqueiro tentou ser um dragão humano? Você não pode ser tão burro.
Não, Gerson não era burro. Seu fracasso profissional era culpa de sua baixa autoestima e falta de preparo. Todavia, nunca foi um cara burro. Era esperto até demais. Tanto que provou a si mesmo ao colocar em prática o mais louco plano na tentativa de se matar 139 vezes. E não eram 139 simples mortes. Eram 139 mortes diferentes e dissimuladas, por assim dizer. Em determinado momento, por mais estranho que isso possa soar, Gerson começou a achar divertida a brincadeira. As dores provocadas antes das mortes por pancadas e outros ferimentos nem o incomodava mais. Não seria surpresa se alguém visse Gerson com um baita sorriso estampado no rosto a caminho da sua suposta morte mais uma vez. A cada nova morte estapafúrdia, mais próximo da ascensão ele se encontrava. Por isso, era um momento de regozijo. Gerson poderia finalmente elevar sua alma.
- Você por aqui? – perguntou o Gerson espantado com a presença do homem no seu banheiro. – Tem tempo que não aparece para me receber. O que houve?
- Eu percebi o que estava fazendo. Eu sabia desde o início. Não se esqueça de quem eu sou e do que sou capaz de fazer.
- Isto significa que estou encrencado?
- Não, eu não vim para isso. Estou aqui para dizer que resta apenas uma um dia. Mais uma única morte e estará tudo encerrado.
- Então eu consegui?
- Sim, podemos dizer que conseguiu.
- Posso então encerrar de qualquer forma essa última?
- Não!
- Não?
- Não! Eu que irei fazer isso. A última será minha. Está pronto?
- Estou. – Gerson então mudou de ideia rapidamente e se interrompeu. – Espera! Quero lhe fazer uma pergunta.
- Pois faça.
- Tentei entender como as coisas funcionavam. Onde estavam todas as outras pessoas que morreram e precisavam pagar pelos seus pecados. O que elas decidiam fazer?
- Isso que você passou não serve para todos. É algo que só é feito aos suicidas. A proposta é testar até que ponto você consegue recuperar a sua humanidade que foi perdida ao ponto de dar cabo pela própria vida. Você precisou de pouco tempo para se sentir desconfortável com o que lhe foi oferecido e, no intuito de ser uma pessoa melhor, encontrou a uma solução razoável. Posso prosseguir?
O homem fez apenas um gesto com a mão à distância na direção de Gerson que apagou. Um tempo depois, Gerson acordou novamente em seu box sentado no chão e, por isso, nada entendeu. Tateou o corpo e estava vivo. Mais vivo do que nunca. Ele não tinha morrido. Sua primeira tentativa de se matar falhara. Ele caiu no chão e, com o impacto, desmaiou. Foi tudo um sonho. Foi um aviso. Foi um grande aprendizado e ele assimilou direito. Nunca mais ficaria para baixo. Lutaria até o fim pelo sua vida e o sucesso dela. A partir daquele momento, um novo homem surgiu. Confiante, determinado e otimista.
Gerson então se levantou e sentiu um peso. Na ponta da sua gravata estava amarrado o chuveiro. O cano não tinha aguentado seu peso e se rompeu, foi assim que ele caiu e desmaiou. Com o chuveiro e parte do cano em mãos, Gerson de frente para o espelhou quebrou a sua promessa de nova vida e se lamentou pela primeira vez:
- Droga! O proprietário vai descontar isso no meu aluguel.

Próximo capítulo da coleção: Neguinha

sábado, 5 de novembro de 2016

O fabuloso imaginário do absurdo

Conto anterior da coleção: Seu Cosme das florestas

Projeto Brazil YYY
Meu nome é Greg Limpzk e sou o atual comandante da Força Intergaláctica no planeta Arizla. Lembro bem quando fui nomeado pelo primeiro ministro Kravotz III. Tudo ocorreu em uma bela cerimônia onde minha nomeação foi feita com honras. Palavras do próprio primeiro ministro.
- Por fim, é uma enorme honra manter cargo tão importante sob os cuidados de uma tradicional família que seguidamente assume essa posição. Por diversos anos, a família Limpzk vem sendo um dos principais atores na evolução das descobertas intergalácticas da civilização Arizla. Suas contribuições são enormes, especialmente pelo comandante anterior que acaba de nos deixar, o grande comandante Theof Limpzk, pai de Greg Limpzk, a quem tenho a honra de nomeá-lo neste momento como comandante da Força Intergaláctica de Arizla.
Sim, sou filho do grande Theof Limpzk, o maior estudioso espacial da história de Arizla. Seu legado é tão grande, que transcende apenas informações, datas e fatos interplanetários. Como herança, ele também deixou técnicas de exploração jamais imaginadas antes. Sua eficiência era tamanha que precisou de apenas uma viagem para concluir que não existia coisa alguma em Vênus. Provando a eficácia de sua metodologia, ele mais uma vez, em apenas uma viagem, conseguiu demonstrar que em Mercúrio não somente não tinha coisa alguma, como também era quente para dedéu.
Papai sempre foi fascinado pela Via Láctea, em especial o planeta Terra. Lembro que desde pequeno o acompanhava em suas viagens. Foram muitas. Até o início da minha adolescência, ele me deixava descer em solo com ele. Depois, mudou de ideia por conta das minhas traquinagens. O que se esperava de um adolescente em um enorme planeta? Era óbvio que aprontaria alguma coisa. Comecei fazendo desenhos enormes em plantações de milho. Ele não se zangou com isso. Achava os desenhos bem bonitos, inclusive. Ficou um pouco preocupado quando comecei a roubar vacas. As naves de exploração tinham poucos espaços naquela época. Não bastante, o cheiro das fezes impregnava com facilidade todo o nosso ambiente até então estéril. A gota d’água foi quando comecei a abduzir humanos e colocar sondas no reto deles. Tentei explicar que seria um novo videogame para o povo de Arizla jogar à distância. Ele não somente odiou a proposta, como odiou também o nome do jogo que remetia ao do seu avô, o bisa Syms.
Assim que assumi o cargo, dei prosseguimento ao seu projeto Terra. Ele é subdivido em várias etapas. Algumas foram concluídas e outras não. Uma das etapas previamente pesquisada à distância foi sobre um grande país chamado Brasil. A muitos quilômetros de distância no céu, papai coletou hábitos, características e informações sobre o povo daquela região. Essa parte do projeto levou o nome de Brazil YKK. Em seguida, organizou essa enorme gama de informações em uma espécie de enciclopédia específica para orientar suas equipes. Essa segunda parte levou o nome de Brazil YYK. Restou apenas a terceira e última parte, Brazil YYY, em que entraria em contato direto com o povo local tentando estabelecer comunicação. Infelizmente, papai faleceu aos 439 anos e não pode dar prosseguimento. Morreu tão novo, vítima de uma doença adquirida naquele planeta hostil. Nem nossa medicina avançada foi capaz de tratar o que eles chamam de virose. Uma doença vaga, incapaz de ser diagnosticada com precisão, tratada geralmente com um mesmo medicamento que raramente funciona e que, ao final, se revela como outra doença completamente diferente colocando em xeque a perícia do profissional de saúde.
- Senhor, estamos nos aproximando – disse um dos pilotos da aeronave.
- Ok – respondi para depois perguntar. – A equipe já iniciou o processo de preparação da vestimenta?
- Eles estão quase no fim, senhor. Contudo, acha mesmo que seja necessário?
Talvez outro comandante tivesse interpretado como insubordinação o questionamento do piloto Droidgor. Eu não. Entendia a insegurança dele e da minha equipe quanto às vestimentas de exploração. Por mais confuso que isso possa parecer, elas foram desenvolvidas após meu pai, o grande comandante Theof Limpzk, assistir a uma quantidade enorme de gravações obtidas daquele planeta. Segundo seus estudos, os terráqueos esperam que visitantes de outros planetas vistam roupas prateadas com uma espécie de globo de vidro ao redor de suas cabeças.
- Mas não precisamos dessa proteção, senhor. Nós respiramos o mesmo ar que eles.
O argumento era válido tecnicamente. Contudo, na cultura local, estar dentro do modelo de expectativa criado por diversas gerações era uma condição básica para o sucesso da expedição. Inclusive quanto à epiderme ser de cor esverdeada. Sem se esquecer de olhos grandes e negros.
- Senhor, nossa pele é de cor semelhante à deles. Nossos olhos são idênticos aos deles. Essa maquiagem obstrui nossos poros, além de irritar a vista.
- Jovem, é necessário. Confie em mim.
Mesmo contrariado, o piloto seguiu viagem e deu a ordem para que a equipe prosseguisse com a minha determinação. Confesso que o barulho deles se vestindo com aquelas calças e casacos feitos com papel laminado era bem irritante. A equipe custou muito a se adaptar aos capacetes de vidro. As falas ficaram com eco. Fora o desagradável “embaçamento” interno. O curioso é que, na nossa língua, o termo “embaçamento”, oriundo de embaçar, não existe. Foi preciso criar um verbete em cima da hora por conta desse evento.
- Senhor, estamos próximo. Acredito que tem algo de estranho por lá – anunciou o piloto apontando para o monitor.
O que causava estranheza ao nosso piloto Droidgor não era algo em tela, mas exatamente o contrário, a falta de algo em tela. Ele apontou para a tela e exclamou pela falta de pessoas. A imagem era de uma enorme avenida onde não se via uma pessoa sequer andando. Estava tudo deserto e parado.
- Não se preocupe – falei acalmando o piloto. – Provavelmente estamos sobrevoando uma área chamada de Brasília em um dia de domingo.
Não tão tranquilo quanto imaginei que ficaria, o piloto Droidgor seguiu viagem. Por pouco tempo durou sua parcial inquietação. Alguns quilômetros à frente, o piloto Droidgor detectou algo que mais uma vez lhe provocou desconforto. Desta vez, uma tela cheia. Uma imagem preenchendo todo visor principal. Uma enorme rodovia com muitas faixas surgiu na tela. Era impossível ver a cor do asfalto de tantos veículos. O cenário se completava assustadoramente quando notamos que nada se movia. Estavam todos parados. O vídeo em tela parecia uma foto.
- Foi como lhe disse, Droidgor. Estamos em um domingo. Isso deve ser provavelmente um grupo de pessoas chamado de paulistanos voltando do que eles chamam de feriadão, o aumentativo para feriado.
Com as duas situações coincidindo em uma mesma explicação, o piloto Droidgor se sentiu mais seguro. Foi possível notar quando mudou seu semblante. As sobrancelhas levantadas ajudaram a enfatizar sua tranquilidade, mesmo com a maquiagem verde e olhos exageradamente negros. Contudo, conforme percorríamos o céu daquele país, o meu semblante que mudava. Comecei a notar determinado padrão que naquele momento me causava desconforto. As ruas em sua maioria estavam em uma miscelânea da área Brasília com a estrada na volta do tal feriado dos tais paulistanos. Resumindo, nada de pessoas nas ruas e veículos parados para todos os lados. Sim, indiscutivelmente algo de estranho estava no ar. Mediante tamanha dúvida, não hesitei e ordenei que três soldados fossem enviados à superfície para um reconhecimento local.
- Senhor, tem certeza que não é prematura esta decisão? – perguntou o piloto Droidgor. – Não acha mais prudente um reconhecimento prévio à distância?
O piloto Droidgor tinha razão ao preferir seguir a cartilha padrão. Entretanto, eu não tinha dúvidas do quanto essa ação seria segura. Jamais colocaria meus soldados em risco em uma atitude prematura. Confirmei que a decisão estava mantida. Eles então foram projetados por raios teletransportadores até a superfície. Ficamos, portanto, todos no aguardo de contato deles.
- Senhor – a voz de um dos soldados no rádio foi tranquilizadora, além de ter quebrado a gélida tensão em nossa nave. – Tem algo de muito estranho aqui. A cidade está deserta. Não existem sequer resquícios de vida humana. Tudo foi ou destruído, ou saqueado, ou abandonado.
Acompanhado de um frio na espinha e gosto de sangue na boca, um temor se apoderou dos meus pensamentos. Teria eu demorado tempo demais para reiniciar essa operação? Será que esperamos muito e agora era tarde? É possível que esse povo tenha entrado em extinção? Se sim, por qual motivo? Uma praga? Talvez uma doença como a que acometeu o meu pai. Ou quem sabe uma guerra? Muitas dúvidas pairavam no ar aumentando ainda mais o meu pavor. Pedi a equipe em solo que tentasse pesquisar por vestígios.
- Senhor, notamos que por aqui existe uma espécie de módulo onde as pessoas podem adquirir informação. Uma tal de banca de jornal. Talvez tenhamos pistas por lá.
Seria perda de tempo. Segundo anotações do meu pai, o grande comandante Theof Limpzk, a mídia daquela população não era confiável. Com motivações obscuras, posicionamento parcial e métodos questionáveis, tudo que ela fazia era manipular a grande massa em finalidade própria. Pedi que verificassem outra fonte de informações.
- Senhor – um dos soldados me respondeu um tempo depois. – Senhor, encontramos uma tal de biblioteca. Parece ser muito semelhante ao que chamamos de Grande Arquivo Geral do Conhecimento. Todavia, ela raramente era frequentada pelo povo local. A movimentação de arquivos por aqui chega perto de zero.
- Soldado, mesmo assim ela pode ser útil. Verifique pela quantidade de tiragens que cada exemplar possui. Um arquivo com muitas cópias tem muita distribuição, logo é muito importante, portanto possui conteúdo de valor.
- Senhor, levantamos os três maiores por aqui. Um, pelo que entendi, é sobre uma fada. Sua autora se chama Kefera, quase o nome da minha mãe Kezera. O outro é sobre a vida de um certo Felipe Neto. Não entendi ao certo a importância de retratar a vida dele, pois não foi político, estudioso ou alguma pessoa de valor para a prosperidade do povo local.
- Tudo muito estranho, soldado – comentei em voz alta mantendo contato. – E o terceiro? Do que se trata?
- É Paulo Coelho, senhor.
Ora, Paulo Coelho era um dos autores mais vendidos do universo, inclusive no meu planeta Arizla. Todo o meu povo conhecia seus livros. Até entendo a grande tiragem naquelas terras, mas, de fato, não teria importância para a nossa pesquisa.
- Soldado, segundo anotações do meu pai, o grande comandante Theof Limpzk, a maior fonte de informações fidedignas para esse povo era as chamadas redes sociais. Elas eram as maiores formadoras de opiniões para esse povo. Sem mencionar que nelas que aconteciam os debates mais acalorados e, ao mesmo tempo, profundos. Solicito que tentem se conectar a algum servidor local no intuito de fazer uma varredura por informações.
Passado um bom tempo, o soldado retornou contato com notícias. Eram notícias nada agradáveis. O país tinha entrado em uma guerra civil generalizada. Estados lutando entre si. Irmãos de pátria matando uns aos outros. O povo daquele país foi dizimado. Isso era motivo suficiente para abortar a missão de exploração daquela civilização e voltar para o meu planeta Arizla. Contudo, não me daria por satisfeito. Precisava entender a fundo como chegaram àquele ponto. Era necessário retornar à Arizla com informações completas e, dentre elas, como tudo isso aconteceu era uma delas. Pedi detalhes ao soldado que acessava a tal rede social que guiava o povo local.
- Senhor, aparentemente, o líder deles, o homem que levava o título de presidente, não passava muita confiança. Não sei ao certo se o termo correto é confiança. A tradução aqui não fica muito precisa. A ideia principal é que o tal presidente não era um grande líder, não tinha muita aceitação, tampouco sabia comandar uma nação. Sua chegada ao poder, parece ter sido um grande equívoco.
Acho que me recordo de algo parecido no diário do meu pai, o grande comandante Theof Limpzk. Lembro-me da história de uma reviravolta no poder desse povo. Algo que remetia a uma trama que sequer os maiores escritores poderiam imaginar. Um sucessor que apoiava desde o princípio o líder desse povo e que, em questão de pouco tempo, o derrubou e tomou o poder. O líder, que no caso era uma mulher, foi deposto. O povo contrariado se recusava a aceitar o que foi chamado de golpe. A governabilidade do tal traidor tornou-se insustentável. Sim, recordo-me disso e esse fato foi tema de diversos estudos no meu planeta Arizla quando meu pai, o grande comandante Theof Limpzk, trouxe esse relato ao voltar de uma expedição. Dentro da nossa cultura, é inadmissível um episódio como esse. O poder no planeta Arizla é direto à família que assumiu o comando. Isso é passado de pai para filho sempre. Atualmente, estamos sob o comando do primeiro ministro Kravotz III, filho do ex-primeiro ministro Kravotz II, neto do ex-primeiro ministro Kravotz I e bisneto do ex-primeiro ministro Krakrot IV. Somente com a morte do primeiro ministro que seu sucessor assume. Considerando que a expectativa de vida no planeta Arizla é de pouco mais de 900 anos, o poder perdura por bastante tempo sob o comando de um membro da família.
- Senhor – o soldado que fazia expedição em solo interrompeu meu pensamento. – Senhor, acreditamos que não se trata do mesmo homem. Pelo que checamos na tal rede social, ele foi deposto em seguida. O povo conseguiu que fizessem um novo processo para escolha do líder. O que estamos entendendo é que em meio a uma turbulência política, que somada à insatisfação geral do povo, um candidato encontrou brecha e se elegeu. Daí, a crise só se agravou quando constataram o grande erro cometido.
- Soldado, consultando anotações de meu pai...
- O grande comandante Theof Limpzk.
- Exato! Existia um ex-líder que ameaçava assumir o poder a qualquer momento. É deles que estávamos falando?
- Não, senhor! Estamos falando de outro. Uma personalidade exótica que, pelo visto, era completamente incompatível para o cargo em questão. Curiosamente, essa pessoa tem o mesmo nome muito comum em nossos animais de estimação.
- Bolsonaro?
- Não, Tiririca.
- Pelo generoso Houtrap, que destino tenebroso!
Mais do nunca era necessário fazer um enorme relatório da história daquele povo e como chegaram à sua ruína. Aliás, sobre a sua ruína, ainda não sabíamos como se iniciou a guerra. Sabíamos apenas que foi algo generalizado. Permaneci então aguardando novas atualizações da equipe em solo.
- Senhor, estamos procurando mais informações, contudo temos alguns detalhes que nos ajudam a montar esse quebra-cabeça. Ao que parece, a guerra teve princípio entre duas províncias que não identificamos ainda. Todavia, tudo alcançou maiores proporções quando uma região conhecida como sul tomou proveito da situação para declarar independência. Esse foi o estopim para que toda a nação se enfrentasse por motivos próprios e defendendo seus interesses.
Características como essas faziam nossos pesquisadores considerarem o povo desse planeta tão primitivo. Não eram leais aos seus líderes. Não existia uma hierarquia instituída desde o berço para ser seguida e determinar a posição de cada um nos pilares que sustentavam a sociedade. Meus soldados são filhos de soldados. Sua obediência e total devoção à nação estão em seu código genético. Sequer precisam ser lembrados disso. Tampouco necessitam ser orientados quanto a isso quando jovens. São como os felinos de estimação da Terra. Os felinos de estimação da Terra já nascem sabendo que precisam enterrar seus dejetos. Não precisam ser treinados em relação a isso. Nesse quesito, podemos considera-los mais evoluídos que os próprios homens. Aliás, muitos seres da fauna local devem ser considerados mais evoluídos que os humanos. Por incrível que pareça, existe uma ave que, instintivamente, utilizando apenas algo como terra molhada, constrói sua própria residência. Uma moradia mais resistente às forças da natureza que muitas construídas pelos humanos, mesmo após muitos anos de estudo e dedicação a esse tipo de arte. Sem falar nas ferramentas, tecnologias e materiais sofisticados que os humanos possuem à sua disposição.
Passado meu momento de reflexão, a equipe em solo informou que tinha feito uma considerável coleta de dados e pediu então permissão para voltar a bordo. Considerei que seria uma atitude apropriada para o momento. Não havia mais necessidade de expô-los naquele ambiente que poderia ser ocasionalmente tranquilo, mas, ao mesmo tempo, prestes a se tornar hostil a qualquer momento. Confiei na avaliação da minha equipe de considerar que já tinham coletado informações suficientes e autorizei o retorno para a nave.
Enquanto viajávamos de volta para o planeta Arizla, comecei a montar o relatório conforme ia organizando as informações coletadas. Era uma gama de informações impressionante. Muitas delas estavam codificadas em uma língua própria chamada Meme. Aparentemente, sarcasmos, indiretas e falsas informações eram as principais formas de se propagar conhecimento pela rede social. Eram tantas informações que, acredito eu, para uma maior capacidade de assimilação, os humanos sempre resumiam tudo a uma imagem com legenda. Qualquer coisa maior que isso recebia menos atenção, independentemente da sua real importância.
Após uma longa viagem até o planeta Arizla, finalmente encerrei o relatório de maneira completa. Além dele, uma ótima apresentação estava elaborada. Para completar, todo o texto explicativo estava decorado. Tudo pronto para contar ao primeiro ministro Kravotz III como aquela população foi dizimada em uma guerra civil. Uma triste história que se iniciou com a insatisfação de um povo com um golpe de estado e teve como principal estopim a desavença entre duas províncias, Rio de Janeiro e São Paulo, a cerca de um desacordo cultural sobre um termo técnico, biscoito ou bolacha.

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