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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A casa dos Malavazi 2.1

(Presente)
Era pouco mais de nove da noite quando Vagner chegou ao apartamento da Barra. Quando abriu a porta, se deparou com uma sala escura e uma casa em total silêncio. Televisão estava desligada, nenhum barulho de videogame, computador, brinquedos, bonecas, nem música. Era um cenário bem diferente do que estava acostumado a encontrar quando chegava em casa. O habitual era Sandra espalhada no sofá assistindo à novela, com Julia brincando no meio da sala com suas bonecas e kits de cozinha de plástico. Artur, como de costume, ficava no quarto jogando videogame, ouvindo música e conversando no computador, tudo ao mesmo tempo e sempre em um volume que, mesmo com a porta encostada, incomodava Sandra na sala, obrigando que a mãe aumentasse o volume da televisão. Não suficiente, Marlene nesse horário estaria adiantando a comida do dia seguinte, passando roupa e ouvindo aquele ruído conhecido de panela de pressão meio que ritmando suas ações. Só que nesta noite era um silêncio e uma escuridão, quase um mausoléu. Vagner atravessou a sala e foi direto à cozinha que estava igualmente escura e deserta. Saiu pelo corredor, passou pelo quarto de Artur que estava com a porta encostada, mas dava para perceber as luzes apagadas e silêncio absoluto, o mesmo no quarto de Julia. Parou em frente à porta do quarto do casal que estava totalmente fechada, tentou escutar algo, mas não veio um som sequer. Decidiu então abrir a porta:
- Com licença, moça. Essa é a minha casa?
- Oi?
Sandra, deitada na cama, está tão distraída com o mar de revistas, papéis e recortes em seu colo que nem escutara a gracinha feita pelo marido. Ele gesticula então com uma das mãos como se desistisse do que foi dito e se aproxima, afasta algumas folhas da beira da cama para poder criar um espaço e se senta ao lado da esposa dando-lhe um beijo na testa. Ela continua compenetrada no que está fazendo, então Vagner a interrompe:
- Brincando de fazer pout-porri?
Ela esboça um sorriso com a intenção de dizer que ouviu e ser simpática, só que não responde prolongando a conversa. Vagner percebe e muda o assunto perguntando pelas crianças. Sandra diz que Julia foi dormir cedo porque estava um pouco febril, tanto que voltou mais cedo do colégio. Depois, ela fala que Artur está na rua com uns amigos e que deveria ligar para o celular dele pedindo que voltasse para casa. Os dois ficam então em silêncio. Sandra olhando as revistas e recortando fotos, Vagner observando a esposa no seu afazer. O marido se levanta e pergunta se ela vai ligar para o Artur agora:
- Não – ela responde sem tirar os olhos do que está fazendo. – Você vai ligar.
- Mas estou doido por um banho para relaxar, amor.
- Vagner, são dois minutos no máximo. Pare de dramas e ligue.
- Sandra – ele faz uma pausa balançando os braços. – Você sabe muito bem que não são dois minutos. Ele vai chiar, resmungar, negociar, chiar de novo e depois chiar mais um pouco. Isso vai demorar uns vinte minutos no mínimo. Me ajuda, vai.
- Não, Vagner – ela tira pela primeira vez os olhos do que fazia e fita o marido com expressão séria. – É só falar o que tem de ser dito e ser rígido. Dois minutos é tempo até demais.
Ela volta em seguida para o que lhe ocupava, enquanto Vagner fica em pé parado como uma assombração no meio do quarto. O silêncio perdura, mas apenas ele fica desconfortável. Sandra permanece entretida no folhear das revistas e recortar das fotos e, ainda assim, sabe que o marido não somente está ali parado, como também está tentando enrola-la. Ele coça a cabeça, olha para o lado, pega uma foto na ponta da cama, depois coloca de volta e resolve então perguntar pela Marlene:
- E a Marlene? Notei que ela não está aqui.
- Vagner – ela para o que está fazendo e novamente séria fala cadenciadamente para ele. – Pa-re de en-ro-lar e li-gue pa-ra seu fi-lho.
- Não estou enrolando, querida – ele volta a sentar na beirada da cama como sinal de aproximação e tentativa de persuadi-la. – Simplesmente acho que vai ser todo um estresse. Ele não reage bem quando falo essas coisas. Para quê criar uma situação como essas?
- Querido, isso só acontece porque ainda não resolveu o que aconteceu lá trás. Você precisa acertar essa pendência. Não dá para continuar com essa convivência tensa em que tudo que você fala, ele reage intempestivamente e tudo que ele fala, você aceita passivamente. Você não são amigos...
- Peraí – Vagner interrompe. – Claro que somos amigos.
- Você entendeu o que quis dizer. A relação principal entre vocês dois não é a de amizade, é de pai e filho. É óbvio que precisam ser amigos, mas acima disso, é pai e filho, logo precisam ter uma relação baseada nisso. Se fossem apenas amigos, tudo bem. Ficam sem se falar, passam meses sem se ver e depois o tempo cura. Mas não é o caso! Aqui é pai e filho. Você deve trata-lo como tal e vice-versa. Ainda mais morando na mesma casa. Se um dia ele surtasse e fugisse, até entenderia esse distanciamento. Ou se você um dia nos desse a alegria de nos abandonar, também seria aceitável...
- Nossa – Vagner interrompe mais uma vez. – Não precisa ser tão cruel.
- Não estou sendo cruel, estou sendo enfática e me prendendo aos fatos. Enfim, está na hora de assumir novamente o papel de pai. Ele está precisando disso.
- Só que ele vai ficar mais irritado ainda.
- Não importa. Antes ele irritado porque o pai é presente e assume sua responsabilidade, do que você achando que está tudo bem, quando na verdade não está. Não existe relação entre vocês, logo não existe paz, nem convivência saudável, apenas um abismo interpessoal.
- Existe essa palavra abismo interpessoal?
- Não é uma palavra, é uma expressão – ela volta a olhar as revistas enquanto permanece falando. – E não sei se existe, mas você entendeu o que quis dizer, portanto não enche.
- Você não pode inventar expressões e achar que isso é um argumento.
- Posso, sim. Acabei de fazê-lo – ela responde recortando uma foto e ao mesmo tempo reparando que o marido está saindo do quarto. – Mas posso usar uma expressão que existe também. Quer ver? Não foge da raia. Gostou? Aqui vai outra: volta aqui e liga aqui do quarto que quero ouvir. Que tal essa?
- Muito boas, mas ligarei da sala.
Vagner sai do quarto, saca o celular do bolso de trás da calça e liga para o celular do filho. Ele não percebe que a Sandra, na ponta dos pés, foi atrás dele e está na porta do corredor vendo e ouvindo o marido na sala.
Ele precisa refazer a ligação umas quatro vezes, pois o filho desligou enquanto chamava nas três primeiras. Vagner fica impaciente e pela primeira vez, depois de muito tempo, a insubordinação do filho o incomoda. Ele bufa e desabotoa a camisa enquanto Artur não atende. Finalmente ele consegue:
- Por que está desligando na minha cara?
- Talvez porque não quero falar com você, não?
- Pois acredite, neste momento eu também não quero falar com você. Tudo que eu queria era tomar um banho e descansar depois de um dia inteiro de trabalho. Mas não! Eu tenho que ligar para o menino que pensa que é rebelde e fica na rua até a hora que quer porque acha que a casa é um hotel. Enfim, volte para casa, porque sua mãe está pedindo – ele se vira para trás e vê Sandra ali parada gesticulando negativamente. – Ouviu? Volte para casa porque eu estou pedindo.
- Tá bom – Artur responde com um ar desleixado. – Daqui a pouco estou aí.
- Artur, eu estou pedindo, não estou mandando. E nem vou mandar, pois você vai obedecer ao pedido de seu pai. Volte para casa. São nove e meia e vou avisar na portaria que se você aparecer depois das dez não é para te deixar entrar no prédio. Está entendido?
O rapaz não diz que sim, nem que não, apena desliga. Vagner coloca o celular de volta no bolso de trás da calça e mostra para Sandra que está com as mãos tremendo. Ela faz uma corrida de três passos para abraça-lo, sorri e diz que está orgulhoso dele. Ele diz que não gosta de ser assim, que não precisa ser assim.
- Não, não precisa. Mas às vezes é necessário – ela então o pega pela mão e puxa pelo corredor até o quarto. – Agora vem ver o que estou fazendo. Acho que vai adorar.
(Continua em 2.2)

quinta-feira, 24 de julho de 2014

A casa dos Malavazi 1.3




Vagner entra correndo na cozinha e vê Sandra e Marlene abraçadas encostadas no balcão. Ele pergunta o que aconteceu e elas respondem que tinha um homem no meio da cozinha, mas que ele voltou para a sala. Vagner então corre na direção da sala, mas para na porta e grita:
- AH PORRA! QUER ME MATAR DO CORAÇÃO?
Ele apoia as mãos sobre os joelhos e balança a cabeça negativamente. Elas nada entendem e perguntam se o tal homem ainda está ali. Vagner com um gesto de cabeça sinaliza para que elas se aproximem.
- Podem vir – diz ele. – Esse é o Seu Nogueira! Ele é quem faz a manutenção da casa. Quase que um caseiro, ou zelador, não sei o nome ao certo.
Seu Nogueira é um senhor baixo, de cor mulata, poucos cabelos ao redor da cabeça e nenhum no topo dela. Com o perdão de todo preconceito que isso pode soar, ele aparenta ser uma pessoa ignorante, falo de poucos estudos, não do jeito de lidar com as pessoas. Além disso, sua pele mastigada pelo tempo indica que teve uma vida muito difícil. Sua expressão é dócil, fraterna, mas mesmo assim assustou as duas simplesmente por estar em um local onde elas não imaginariam poder ter outra pessoa. Ele, depois de apresentado a elas, as cumprimenta com um toque de formalidade, e ainda assim elas permanecem um pouco constrangidas com a cena que protagonizaram.
- Ora, não precisa se encabular por isso – ele diz a elas. – Eu mesmo me assusto pela manhã quando me olho no espelho.
Elas riem de forma contida, talvez agradecendo a gentileza que ele faz ao tentar minimizar a situação. Vagner então, para ajudar a cena a cair no esquecimento, puxa assunto com Seu Nogueira perguntando o que ele fazia por lá.
- Tava no andar de cima tentando resolver umas coisinhas nos canos. A água não caía direito em algumas torneiras da casa.
- E acha que resolveu?
- Não – ele responde balançando a cabeça também. – Parei porque escutei um barulho cá embaixo. Daí desci para ver o que era. Se soubesse que era vocês, nem teria parado.
- Me desculpe, Seu Nogueira. Trouxe a trupe toda para ver a casa e, como é domingo, jamais imaginaria que você estaria aqui trabalhando. Bem, devia desconfiar com as marteladas que escutamos. Ah! – Vagner exclama ao ver Artur entrar na cozinha com Julia no colo. – Aqueles são meus filhos, Artur e Sandra.
- Olá, princesa!
- Olá, vovô.
Com todos novamente descontraídos, Vagner sugere que a visita prossiga para o segundo andar. Ele ainda convida Seu Nogueira para acompanhá-los, que aceita e brinca que será o guia turístico da casa. Os dois então vão na frente. Marlene e Sandra ficam paradas para Artur passar com Julia no colo. A mãe fala para o filho.
- Gostei de ver.
- Do que está falando, mãe?
- Você sabe – ela responde apontando com os lábios para Julia. – Assumindo o papel de irmão protegendo ela.
- Que nada, patroa – Marlene se intromete. – Ele é frouxo mesmo! Foi se proteger com a pequena.
- Ah tá – ele responde. – Ah tá!
Os dois então passam e as duas mulheres seguem atrás. Marlene fala no ouvido de Sandra que também achou bonita a ação de Artur. Sandra responde que o menino é bom na essência, apenas está passando por uma fase e nem por isso não podem deixar de dar umas sacudidas nele.
O passeio pelo segundo andar, logo após subir as escadas, começa em uma espécie de pequena sala que dá acesso a todos os cômodos do andar. Eles entram primeiro na suíte. Acontece a tradicional gracinha em que cada um diz que aquele vai ser seu quarto. Os argumentos são sempre estapafúrdios, não porque estão se esforçam atabalhoadamente para convencer os demais, mas porque querem fazer graça mesmo. Seu Nogueira não resiste e entra na brincadeira:
- Se for para brigar, eu fico nesse quarto. Tudo pela família feliz.
- Boa iniciativa, Seu Nogueira. – Vagner intervém colocando a mão sobre o ombro do velho. – Mas, aparentemente, você já fica na casa toda. Daí é covardia.
A família prossegue para o quarto exatamente em frente à suíte. Sandra anuncia que ali será o quarto de Julia. Marlene gosta da informação porque o quarto é aparentemente espaçoso o suficiente para que caiba uma cama para ela também. No apartamento atual, Marlene dorme naquelas camas de deslizar que fica embaixo da cama de Julia.
Eles em seguida passam rapidamente pelo segundo banheiro da casa e depois entram no último quarto. Artur não gosta da ideia de esse ser seu quarto. Na sua concepção, é o menor de todos.
- E onde que você precisa de um quarto maior? – Pergunta Sandra. – Você só tem essa bermuda esfarrapada que usa todos os dias, algumas camisas e seu celular maldito. Acho que podíamos até inverter, transformar o banheiro em seu quarto e o seu quarto em banheiro. Aí a Marlene terá um banheiro enorme para tomar banho e brincar de diva.
- Ah, eu acho muito justo, patroa.
- Vocês duas estão muito engraçadinhas hoje. Depois não sabem por que estou sempre de mal humor.
A família retorna à área comum de acesso a todos os quartos. Vagner vai em direção a uma porta que fica em frente à escada que leva ao térreo e saca o molho de chaves. Ele comenta que, quando foi conhecer a casa pela primeira vez, não estavam todas as chaves com o corretor, mas hoje, como pegou todas, vai poder abrir a tal porta. Sandra pergunta o que tem ali e, antes que Vagner responda, Seu Nogueira se antecipa dizendo que é uma escada dando acesso ao sótão, que nada tem ali e é perda de tempo.
- Seu Nogueira – diz Vagner. – Você que conhece a casa como ninguém, qual dessas trocentas chaves é a desta porta?
- Não sei, Seu Vagner. Não sei.
O velho muda o tom simpático, fica com a expressão séria e se afasta dizendo que tem outras coisas por fazer na rua. Ele então se despede de todos e desce as escadas, deixando a família ali esperando que Vagner finalmente acerte a chave da porta.
- Consegui – comemora Vagner.
Todos os cinco sobrem para o terceiro andar que é composto por um único salão do tamanho dos dois outros andares. O teto é baixo, o cheiro de poeira e de coisas velhas se sobressai e, para completar, é uma escuridão total. Vagner até tenta acender a luz apertando o interruptor, mas parece que está sem lâmpadas ou as lâmpadas estão queimadas.
- Que escuridão, Jesus – exclama, Marlene. – Alguém pega o celular para iluminar isso aqui.
Vagner pega o dele, mas está sem bateria. Ele pede o de Sandra, mas também está sem bateria. Artur não se conforma:
- Os dois sem bateria? Quantas vezes já falei para deixar o celular carregando durante a noite? Agora, se alguém quiser falar com vocês já era.
- Filho – Vagner responde. – Eu tenho o hábito de deixar o celular espetado no computador o dia todo no trabalho. Sua mãe também. Só que ontem foi sábado, não trabalhamos. Daí esquecemos e já viu.
- Eu não entendo como pode essa tamanha complicação dos velhos com eletrônicos.
- Filho – agora Sandra quem fala. – Pare de reclamar e nos dê a honra da luz do seu poderoso celular que carrega toda noite como se fosse uma usina nuclear.
Artur tira o celular do bolso de trás da bermuda e percebe que também está sem bateria. Os três implicam com ele que se justifica dizendo que passou a noite toda conversando por mensagens e acabou se esquecendo de colocar para carregar. A gozação com ele continua. Até Julia, sem saber do que se trata brinca:
- Cabeção!
Sem luz nas lâmpadas e o recurso alternativo de celular indisponível, Marlene toma a frente de todos e vai até uma das janelas para tentar abri-las.
- Não dá para abrir – ela diz. Estão lacradas com umas “táubuas”.
- Umas o quê, Marlene?
- Você entendeu, garoto. Larga de ser pentelho.
- Entendi não, Marlene. Qual a dificuldade de falar tábua? Ou falar registro?
- Qual a dificuldade em cicatrizar a testa do cascudo que vou te dar?
Artur fica rindo e vai na direção oposta a de Marlene tateando o caminho, pois nada consegue ver. Vagner e Sandra ficam parados na entrada com Julia ao lado deles. Os pais alertam para tomarem cuidado com pregos, farpas ou outras coisas que podem machucar. Marlene vai tateando em outra direção.
- Trombei em algo!
- O que, Marlene?
- Parece um monte de cano empilhado, patroa.
- Deve ser o tal conserto que o Seu Nogueira falou.
- Não, patroa. Não é cano não! São camas velhas de ferro. Uma sobre a outra.
Vagner comenta que no dia da primeira visita, o corretor disse que alguns móveis dos antigos proprietários estavam amontoados por lá e que deveriam ser jogados fora ou doados. Sandra estranha e retruca que não faz sentido tanta cama assim. Ele rebate dizendo que nem devem ser tantas assim, provavelmente o escuro enganou Marlene. Além disso, ele prossegue constatando que ali mesmo com eles serão quatro camas, portanto era possível outra família ter quatro ou cinco camas.
- Ih caralho – resmunga Artur. – Caguei a porra da mão toda.
- Olha o vocabulário, meu filho – sinaliza Sandra. – Sua irmã está aqui.
- Desculpa, mãe. Mas acabei me apoiando em um monte de caixas empoeiradas aqui. Parece que tem mais coisas da outra família para jogar fora.
Sandra anuncia que chega de passeio no escuro. Eles precisam ir embora porque ela ainda tem de fazer as compras para o almoço de domingo. A família então desce a escada, com Vagner por último comentando que precisa marcar as chaves.
- Coroa, larga de ser lerdo. É só deixar a portas de dentro abertas. Para quê tanta chave?
Vagner concorda com a observação do filho e segue com a família para o térreo. Eles saem da casa e, enquanto esperam o pai trancar a porta principal no pequeno pátio que separa a casa do muro, Artur coloca a mão no bolso de trás, saca o celular e fica parado olhando para ele.
- O que foi, garoto?
- Ele está vibrando, Marlene.
- Então atende! Qual o problema?
- É a bina! Olha – ele mostra o celular para ela. – Que número estranho! Zero, zero, zero, jogo da velha, zero, jogo da velha.
O celular para de vibrar. Vagner termina de trancar a porta e abre o portão que dá acesso à rua. Sandra é a primeira a sair e vai para o carro apressada pedindo que todos andem logo, pois o mercado fecha logo. A família vai atrás e, antes que Artur entre no carro, Marlene o segura pelo braço e comenta:
- Peraí, garoto. Seu celular não estava sem bateria?
(Continua em 2.1)

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A casa dos Malavazi 1.2



- Que sala grande!
A observação de Julia foi a mesma que provocou a reação de Sandra e Marlene fazendo com que exclamassem a mesma coisa juntas. Era uma sala enorme, maior que muito apartamento. Com boa vontade, era possível fazer até quatro ambientes separados sem deixar os móveis apertados. Obviamente estava vazia de mobília. Seu piso exigia um novo tratamento de sinteco, assim como as paredes urgiam de reboco e tinta.
- Isso é uma espelunca – esbravejou Artur assim que entrou por último.
- CHEGA, ARTUR – grita Sandra. – CHEGA! Estou cansada dessa rebeldia desnecessária. Nada te faz feliz, nada te satisfaz. Tudo que sabe é reclamar, colocar defeito, destratar os outros. Cansei! Se não tem algo de bom para falar, fique calado.
O clima fica ruim na sala. Marlene que, apesar de ser uma pessoa de pouca instrução, é bastante safa para as coisas do dia-a-dia, vai para outro cômodo com Julia no colo para que ela não veja a bronca que a mãe dava no Artur. Ela abre a primeira porta e entra, trata-se da cozinha e fica pasma com o que vê.
- Não sou obrigado a aceitar tudo que me impõem – rebate Artur. – A vida não funciona assim.
- Funcionam, sim – Sandra se impõe com o dedo em riste. – A vida não é como seu maldito videogame em que você aperta os botões e acontece exatamente o que você quer que aconteça. A vida, mocinho, não é como Facebook, em que você pode escrever qualquer porcaria e sua patotinha vai curtir e comentar dando corda. Não, não é mesmo. Acredite! A vida é muito pior e injusta. Muito mais do que imagina. E se acha que se mudar para um bairro longe dos seus amiguinhos, ou longe do shopping onde você gastava a tarde inteira fazendo nada, é a pior coisa que pode lhe acontecer, você está muito enganado. Existem coisas muito piores, como ser mãe, esposa, patroa e sensata ao mesmo tempo.
A fala de Sandra é interrompida por uma pancada seca e alta: TUM! Vagner e Sandra se assustam e correm na direção da porta em que Marlene entrou com Julia. Vagner é o primeiro a entrar perguntando se está tudo bem. Marlene responde que sim.
- Mas é que ouvimos – Vagner não consegue completar a frase porque Marlene está muito empolgada com o que vê.
- Patroa, olha essa cozinha – diz ela apontando para todos os lados conforme vai comentando. – Olha o tamanho deste fogão. Deve ser industrial. E a geladeira. Olha essa bancada! E ainda posso pendurar as panelas sobre a bancada que nem aqueles programas de chef.
Sandra concorda, mas sequer consegue balbuciar algo de tão espantada. A cozinha é enorme, com tudo nela tão grande quanto deveria ser. Era possível fazer comida para alimentar um batalhão ali. Ainda assim, ela retoma o fôlego do esporro, do susto e da boa surpresa com a cozinha:
- Marlene, seu sonho de fazer comida para fora e ganhar dinheiro extra vai se realizar.
Além de concordar com a patroa, Marlene se empolga com o cenário, com a possibilidade, com tudo. Tamanha é a sua empolgação, que ela deixa Julia sobre a bancada central da cozinha e começar a planejar coisas em voz alta. Cardápio, pratos, a logística de como vai funcionar, horários. Faz tudo isso de frente para o fogão, como se fosse um general em frente ao grande mapa da guerra planejando o próximo movimento de suas tropas. Vagner e Sandra, logo atrás dela, se cutucam concordando com a felicidade dela. A cena é ingênua, mas ao mesmo tempo cheia de emoção e sincera. Marlene chega ao auge do seu raciocínio quando é interrompida por uma sequência de novas pancadas secas e altas: Tum! Tum! Tum! Tum! Tum!
- ARTUR – grita Sandra. – AGORA ESTÁ SENDO INFANTIL. PARE DE ANDAR PELA CASA BATENDO OS PÉS NO CHÃO!
- Mas estou aqui – responde ele.
Os adultos se viram para trás e lá está ele, sentado em um balcão ao lado da porta por onde entraram. Os três então se entreolham assustados, enquanto Julia finalmente se vira também e, ao ver Artur, o chama pelo nome. Ele repete o próprio nome para ela em voz alta, mas prolongando a última sílaba como a sonoplastia de filmes de fantasmas de baixo orçamento.
- Pare, Artur. Pela sua irmã, pare – diz Sandra logo depois se virando para Vagner. – Será que veio daquela porta?
Ela se refere a uma pequena porta no meio de uma das paredes. Ela, além de pequena, é baixa. Vagner se aproxima dela e Sandra pergunta se ele sabe o que tem ali. Ele diz não saber, pois a primeira e única vez que esteve na casa, foi tudo muito rápido.
- É ali que escondem os corpos – fala Artur.
- Já disse para parar, Artur. Coisa mais estúpida.
- Estúpida, mãe? Vocês escutaram um barulho estranho, não sabem do que se trata, ao invés de fugir, querem ir atrás e minha brincadeira para tentar quebrar a tensão é estúpida?
- Sabe, patroa – diz Marlene enquanto pega Julia no colo e circula o balcão central da cozinha para se posicionar no ponto mais oposto possível da porta. – Isso me dói muito, mas tenho que concordar com o garoto problema.
- É garoto enxaqueca, Marlene – Sandra a corrige. – E não tem nada de estúpido em checar do que se trata. Provavelmente foi apenas um gato preso atrás dessa porta.
- Um gato, patroa? Com esse barulho, é mais fácil ter sido um touro.
Vagner gesticula com a mão para que façam silêncio. Ele está com a mão na maçaneta e quando vai começar a abrir, Artur fala: “Outro gato!”. Todos olham sérios para ele que batendo os ombros diz:
- Ih, esqueci que nunca assistiram Chaves na vida.
Vagner enfim abre a porta. Nada! É uma despensa, daquelas que você consegue entrar e dar uns três ou quatro passos dentro, com prateleiras por todos os lados. Está completamente vazia. Nem uma lata sequer.
As atenções então se voltam para a terceira porta na cozinha localizada na parede oposta da porta por onde entraram. É uma porta comum de acesso provavelmente a outro cômodo e, como todas as outras da casa, totalmente maciça, sem a chance de prever o que está por trás dela. Vagner, mesmo não querendo fazer suspense, se dirige até ela vagarosamente. Sandra então toma sua frente, coloca a mão na maçaneta e abre.
- MARLENE, MULHER! VENHA VER ISSO!
É um pátio enorme nos fundos da casa. Além de possuir o mesmo comprimento do muro da rua, ele deve ter, no mínimo, o dobro de largura. Ele tem o chão todo em cimento e diversas mesas de concreto com bancos também de concreto ao redor. Estranhamente, se olharmos como um todo, as mesas formam um círculo com um grande espaço ao meio, bem no centro do pátio. Nenhum deles se atenta para esse detalhe. Eles se espalham pelo quintal olhando as mesas. Marlene fala em voz alta que é possível fazer ali um bom restaurante popular a céu aberto. Sandra senta em uma das mesas e pergunta o que fazer com tantas. Vagner sugere abrir um bingo clandestino. Artur cogita sediar a copa do mundo de sueca. Julia apenas corre entre mesas e bancos.
- Vai voltar à caça de assombrações, mãe? – Pergunta Artur assim que a mãe se levanta da mesa e se encaminha para a porta por onde vieram.
- Não, seu bobo. Vou ver o resto da casa. Quero saber se ela consegue me surpreender mais ainda.
Ela finaliza a frase, abre a porta para voltar a cozinha e entra. Depois disso se escuta um grito de Sandra. Vagner e Marlene correm na direção da porta. Artur corre na direção de Julia. Marlene é a primeira a chegar à porta e também grita.
- O que foi? – Pergunta Vagner enquanto se aproxima às pressas. – O QUE FOI?
(Continua em 1.3)