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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Mais uma dose (shot 2.1)

Josias (Efeito Color Splash)



     Acordei com o barulho do telefone de casa tocando. Sabe quando você acorda subitamente, ficando assustado e perdido? Foi assim. Estava no sofá e quase caí dele. Demorei alguns segundos para entender que som era aquele. Ainda deitado, estiquei o braço e pequei o telefone na mesinha. Atendi. Do outro lado era o Negão.
     – Fala aí, patrão! – Ele sempre me chamou de patrão, nunca pelo nome. – Hoje é folga? Não vai abrir?
     A mente ainda está devagar. Fecho e abro os olhos com força para acordar. Coço a cabeça e sento-me na beirada do sofá.
     – Que horas são?
     – Já são seis e vinte – Disse ele. – A Carlinha está aqui também te esperando.
     Céus, perdi a hora. Estava muito lento. Olhei para baixo e vi que ainda estava com a mesma roupa. Precisava de um banho, café, roupas limpas e ir ao encontro deles.
     – Preciso de meia hora – Digo para o Negão. – Quem você disse que está aí?
     – A Carlinha – Minha filha estava lá à minha espera. – Você está bem, patrão?
     – Sim – Respondo seco e rápido. – Já estou chegando. Pede para ela me esperar.
     Enquanto tiro a roupa para entrar no banho, uma sequência de tossidos me perturba. Um, dois, três e pausa para respirar. É assim por umas cinco ou seis vezes. Até brinco falando em voz alta comigo mesmo que devia parar de fumar. E é só terminar a frase que os tossidos voltam. Entro no box, tusso mais umas quatro vezes e me sinto enjoado. Encosto a bunda na parede de frente ao chuveiro, apoio as mãos no joelho e solto mais uns dois tossidos. No final do segundo acabo vomitando. Ele sai com uma cor estranha. E olha que quem está falando é alguém que comumente inicia o dia vomitando. Tento enxergar melhor, mesmo do alto, mas outros dois jatos saem. Desisto. Ligo o chuveiro e fico empurrando a água com os pés para que o vômito escorra pelo ralo.
     Durante o banho e enquanto me vestia, continuei tossindo um pouco, mas só. Nada mais foi colocado para fora. Acho que também nem dava tempo tamanha a velocidade com que me enxuguei e vesti.
     Quando fui pegar a chave da moto na bancada próxima à porta principal, vejo que tem outro chaveiro. Lembrei. Era do tal carro que não sei a quem pertencia. E agora? Na dúvida, opto em ir de moto. Vai que o carro é roubado mesmo. Não vou dar a bobeira de ir para o trabalho com um carro roubado. Peguei a moto e fui.
     A Rua General Polidoro é uma das principais do bairro Botafogo. Ela começa praticamente na fronteira com os bairros Humaitá e Copacabana e vai até o Aterro. No seu início tem um grande cemitério, o São João Batista. Em frente ao cemitério, várias pequenas oficinas de carros e de motos, um grande supermercado, um breve sequência de floriculturas e um pub chamado Ni Knights. Era ali que eu ganhava a vida. O nome era uma homenagem aos cavaleiros que só falam ni do clássico filme Monty Phyton e o Cálice Sagrado. Não era muito grande. Na realidade, era bem estreito, com um longo balcão de madeira escura, algumas mesas ao comprido e um espaço no final onde tinha uma grande televisão para exibir shows e outras coisas.
     Cheguei pouco além dos trinta minutos que tinha pedido. Sentados à porta estavam Negão, Carlinha e mais dois clientes que comumente chegam cedo no sábado. Nunca soube o nome deles. Não que tenha esquecido, apenas acho que nunca falaram. Sempre chamava um pelo apelido de “Cabelo”, por causa dos longos cabelos escuros que quase batiam na cintura. O outro, eu chamava de “Amigo do Cabelo”. Era a preguiça de bolar um apelido para ele. Ambos atendiam por esses nomes e sempre riam quando os usava.
Encosto a moto de frente mesmo. Praticamente à porta do pub. Jogo as chaves para o Negão. Ele se levanta e começa a abrir as portas. Continuo na moto. Carlinha vem à minha direção com aquela cara de paisagem de sempre. Os outros dois se levantam e entram junto com o Negão. Carlinha se apoia no guidão e diz:
     – Ai, pai – Ela toma mais conta de mim do que eu dela. – O que foi dessa vez?
     – Quer a verdade?
     – Tenho medo – Ela diz, brincando de fazer careta com os olhos arregalados. – Vai conseguir se superar desta vez?
     – A verdade... – Faço uma pausa para rir e coçar os olhos. – A verdade é que não tenho a menor ideia.
     – Pai!
     – Ok – Falo me recostando na moto. – Eu sei apenas um breve resumo, mas sem detalhes. É sério! Não me lembro do que aconteceu, apenas do que me contaram.
     – Tá bom – Diz ela me dando um tapinha na perna. – Vamos! Me conta lá dentro. Estou morrendo de calor aqui fora.
     De fato, em janeiro, mesmo de noite, o calor aqui em Botafogo é infernal. Acho que o nome veio daí. Faria todo sentido. Entramos. Ela senta em um banco ao lado dos rapazes, eu vou para o outro lado do balcão e Negão está lá nos fundos iniciando os trabalhos na cozinha.
     – Cerveja? – Pergunto apontando para os dois rapazes.
     – Sim! – Respondem ao mesmo tempo os dois e Carlinha.
     Abro o refrigerador que fica abaixo do balcão e pego quatro garrafas de long-neck. Coloco uma na frente de cada um deles e a quarta eu mesmo abro para beber. Carlinha interrompe meu gole inicial.
     – E aí?
     – E aí, o quê? – Pergunto eu.
     – Não vai contar de ontem? – Ela insiste.
     – Sério que você quer mesmo saber? – Tento fazê-la esquecer dessa ideia. – Você não tem idade para tal história libidinosa.
     – Pai – Ela coloca a garrafa que estava em suas mãos no balcão e com um olhar sério fala. – Eu tenho dezessete anos! E, além disso, não acredito que sua história seja algo além de muita bebida, terminando sozinho no sofá da sala.
     – Você, definitivamente, pegou o lado cruel da sua mãe.
     – Anda – Agora é o Cabelo quem pede. – Conta logo que estou curioso também!
     – É – Fala o Amigo do Cabelo. – Nem dormi direito de tanta curiosidade.
     – Ei! – Digo apontando para eles com a garrafa na mesma mão. – Olha o deboche!
     Os dois começam a rir. Eu fico com cara de bobo sem entender do que se trata. Carlinha ri também, mas da risada deles. E Negão vem da cozinha na mão com um CD pedindo para colocar para testar, pois tinha acabado de comprar. Aceno que sim, e volto-me para os rapazes:
     – Qual a graça? – Falo sério. – Vocês sabem por acaso do que ela está falando?
     – Porra, Jim! – Cabelo responde quase babando a cerveja que acabara de beber. – Claro que sabemos da parada na Barra.
     – Peraí – Viro-me para Carlinha e pergunto. – Você contou alguma coisa para eles?
     – Eu não! – Ela responde gesticulando com as mãos levantadas. – Nem sabia que tinha ido para a Barra. Fala logo, pai!
     – Tem razão! – Digo para ela me afastando do balcão, encostando na bancada das bebidas “quentes” e voltando a perguntar ao Cabelo. – Como você sabe que fui para a Barra?
     Ele responde alguma coisa gesticulando com os braços, mas não entendo. Tudo porque nesse exato momento o CD do Negão começa a tocar em um som absurdamente alto. Era uma música de estilo rock progressivo. Na entrada, um teclado e um baixo acompanhados de uma virada de bateria, quase como um chute no meio dos peitos.
     – Diminui essa porra, Negão! – Grito para ele que está na outra ponta do balcão, quase ao fundo do pub. – Que som é esse?
     – Cab – Ele responde, diminui o volume e responde mais uma vez gritando. – CAB!
     – Troço bom – Falo apontando para ele. – Deixa isso tocando aí.
     Volto-me para os rapazes que estão rindo mais ainda. Que bobagem.
     – Não entendi o que você falou – Digo para o Cabelo que não para de rir com os outros dois. – Dá para repetir? Ei! Cabelo! Porra, Cabelo! Como sabe que fui para a Barra?
     Amigo do Cabelo colocou cerveja para fora pelo nariz. Agora que eles não vão mais parar de rir. Lá estão os três rindo freneticamente, eu com cara de bobo aqui e Negão tocando um baixo invisível a caminho da cozinha. Vou precisar de paciência.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Mais uma dose (shot 1.3)

Gôndola do dia seguinte (Efeito Walden)
     Entro pela porta do carona e rapidamente passo para o banco do motorista. Ela, parada com a mão na maçaneta, ainda do lado de fora, ri. Acena negativamente com a cabeça, dá a volta no carro, entra pela porta do carona e me entrega as chaves. Coloco-as na ignição, ligo o carro e pergunto: “Para onde, baby?”. Brincando de fazer cara de birra, ela apenas acena com as mãos como quem diz para seguir em frente.
     Saímos do condomínio, pegamos o único retorno disponível para cair na Avenida das Américas. Entramos em mais um retorno e, ainda pela mesma avenida, seguimos na direção da Zona Sul. Ela vai me orientando. Na realidade, ela apenas diz uma meia dúzia de vai seguindo em frente para depois falar que devo entrar na rua atrás da igreja. Andamos mais um pouco e paramos em frente a uma padaria. Vazia. Está abrindo. O cheiro do pão fresquinho é absurdo. Dá para sentir de longe.
     – Você vai adorar – Diz ela enquanto sai do carro. – Esse é o melhor pão que comi na minha vida!
     Faço uma nota mental de passar a ranquear os pães que como. Saio do carro e vejo uma farmácia do outro lado. Nela, uma pequena janela iluminada. Tem atendimento vinte e quatro horas. Digo para ela ir sentando na padaria que vou até a farmácia. Ela pede para que compre teste de gravidez. Paro no meio da rua e olho assustado para ela, que ri escandalosamente. Garota doida.
     Peço duas cartelas de Dipirona. O atendente me entrega, pago e vou para a padaria. Lá, ela está falando com o rapaz do balcão que toma nota do seu pedido. Interrompo.
     – Eles não têm KY – Digo eu, fazendo ambos me olharem estupefatos. – Mas me indicaram uma geléia de morango que além de escorregar tão bem quanto KY, as sementes do morango viram esfoliantes, tirando espinhas, cravos e badalhocas da sua bunda.
     O rapaz, visivelmente constrangido, deixa o caderninho no balcão e vai para o fundo da padaria. Ela precisa abaixar a cabeça de tanto rir. Perde o fôlego. Lacrimeja. Antes que possa falar algo, digo a ela:
     – Viu? Não é a única capaz de deixar os outros sem graça! Já pediu algo?
     – Claro que não! – Ela grita com um resto de fôlego. – O menino que ia anotar saiu daqui. Vai ver foi contar para o cozinheiro que você quer fazer da minha bunda o seu waffle.
     Ficamos rindo por mais alguns minutos. Ela é doida mesmo! Uma doida do bem. Gostei dela. Levanto-me, vou até uma geladeira, pego uma Coca-Cola para tomar o Dipirona. Pergunto se ela quer. Ela responde com uma pergunta. Odeio isso!
     – A Coca ou o remédio?
     – Escolhe!
     – Estou brincando – Diz ela acenando para que o menino ao fundo da padaria venha nos atender. – Não vou beber esse veneno cedo da manhã.
     – Olha, levando em consideração aquela vodka que bebi, acho que detergente seria limonada. – Logo após engulo dois comprimidos com um bom gole de Coca.
     O rapaz chega. Ela pede um pão na chapa, um café-com-leite e uma fatia de queijo minas separado. Eu peço um café puro em um copo grande de vidro, um Nescau gelado batido no liquidificador e um pão com ovo e queijo na chapa. O rapaz anota tudo e pergunta se queremos algo mais. Os dois respondem juntos:
     – A geléia de morango!
     Durante a espera ficamos jogando conversa fora. Coisas como vai fazer sol, observações sobre a padaria, preferência de remédios para dor de cabeça. Nada de muito especial. Confesso que estou incomodado. Foram tantas as surpresas nessa noite. Tantas informações incompletas que a insistência dela comigo me assusta. Também é possível que ela esteja me dando mole. Ela é bonitinha, engraçada, tem uma tatuagem pequena no pescoço e duas enormes bem coloridas, uma em cada braço. Mas ainda não sei ao certo qual é a dela. Prefiro deixar rolar.
     A comida chega. A fome é negra. Atacamos sem falar uma palavra sequer. O café puro quente desce rapidamente em três goles. Sem açúcar, nem adoçante. Precisava disso. O sanduíche acaba em cinco dentadas. O Nescau, bem cremoso, vai em duas etapas. Na primeira, rodando o copo, bebo apenas a espuma no topo. Já a segunda é composta de apenas um gole alvoroçado que é suficiente para esvaziar o copo por completo. Com uns cinco guardanapos na mão limpo a boca de forma brusca e rústica. Faço uma bolinha com eles, jogo dentro do copo e com as mãos no ombro dela digo:
     – Estou lá fora fumando um veneno!
     Saindo da padaria, já pego o maço, separo um cigarro, coloco na boca e acendo. Uma tragada para acender. Duas profundas, bem dadas, para relaxar. Nessa última, solto a fumaça bem devagar. Primeiro pela boca, depois o restante pelo nariz, levantando calmamente a cabeça para a direção do céu. Ele está azul, sem nuvens. Ao terminar de soltar a fumaça digo para mim mesmo em voz baixa: “Bom dia, sábado!”. Ela sai da padaria e fala:
     – Conversando sozinho, doido? – Sorrio e respondo.
     – Estou oficializando o início do dia – Esfrego os olhos com a região hipotenar das mãos. – Acabei de realizar que não vou conseguir dormir mais. Então, que o dia comece.
     – Mesmo sem o anterior terminar?
     – O anterior foi complicado – Encosto no capô do carro e pergunto. – Você pode me explicar o quê aconteceu?
     – Pode ser a versão resumida?
     – Pode!
     – Você chegou na festa muito louco, arrumou uma briga louca, bebeu uma loucura de bebida, ficou mais louco ainda, conheceu uma louca e aqui está! – Ela termina dando um pulinho com os braços abertos.
     Fico parado, sem expressão olhando para ela. Não pisco. Não mexo um músculo. Ela continua parada naquela posição metade Cristo Redentor, metade personagem de mangá. Isso demora quase dois minutos até que resolvo falar:
     – Você é uma demente!
     – Ei – Ela grita e ri. – Isso magoa!
     – Ahan, drama queen – Respondo com indiferença, jogando as chaves do carro para ela. – Vamos lá! Me leva para casa!
     – E como volto para minha depois, patrão?
     – De carro! – Digo apontando para o próprio.
     – Mas ele não é meu!
     – Não? – Pergunto enquanto entrava no carro. – Então de quem é?
     – Sei lá! Você que chegou com ele!
     – Eu? – Pergunto assustado. Sem encenações. Abro o porta-luvas, pegos os documentos e leio em voz alta. – Rodrigo Galeano Castrini. Rodrigo Galeano Castrini. Rodrigo...
     – Galeano Castrini – Ela me interrompe. – Já decorei! O que tem ele?
     – Não sei! Não sei quem é! – Enquanto falo, ela ri. Chega a engasgar.
     – Brigão, bêbado, aproveitador de desacordadas e agora ladrão de carros!
     – Não, porra! – Respondo rindo também. Mas acho que de nervoso. – Não sei quem é. Mas sei que não foi roubado.
     – E agora?
     – Ah, liga essa merda! Vai para sua casa que depois eu volto com ele para a minha.
     – Tá bom! Mais alguma coisa?
     – Sim! Como conseguiu as chaves se eu que cheguei com ele?
     – Elas caíram no chão na hora da briga e peguei.
     – Só isso que caiu?
     – Caiu um grampo de dinheiro também!
     – E cadê?
     – Como acha que paguei o nosso café-da-manhã?
     – Cretina – Exclamo para depois rir. – Vai! Dirige logo essa budega! E me devolve o grampo pelo menos.
     Ela prontamente faz o que peço. Reparo que está desfazendo o trajeto que percorremos para chegar até a padaria, mas pouco importa. A cabeça está voando longe. Acendo mais um cigarro. Ela faz uma pergunta.
     – Está querendo descobrir quem é o dono, não é?
     – Não faço a menor ideia ainda – Respondo rindo. Agora achando graça. – Nem me liguei que o carro poderia estar comigo. Aliás!
     – Aliás o quê?
     – Aliás – Faço uma pausa dramática. Proposital. Mas bem feita. – Por quê, raios, não vim com a minha moto?
     – Ah, se fode aí – Ela responde rindo – Algumas perguntas eu sei responder, outras não.
     – Mas então... – Ela não me deixar terminar.
     – Mas então coisa nenhuma. Chegamos. Tchau! Tchau!
     – Ei – Digo olhando ao redor – Esse é o condomínio de onde saímos!
     – Sim, eu sei – Ela responde saindo do carro.
     – Você mora na casa da festa?
     – Não! – Ela responde falando mais alto, já que está se afastando do carro. – Moro em uma casa no condomínio
     – E não vai me ajudar com as minhas dúvidas?
     – Sim! – Ela diz abrindo o portão do condomínio.
     – Mas quando?
     – Um dia! – Já está entrando no condomínio.
     – Mas como? – Estou gritando. – Não sei seu nome! Seu telefone! Nem você sabe os meus!
     – Vamos nos esbarrar – Ela berra de dentro do condomínio.
     – Como?
     – Sei lá!
     Ela some do meu campo de visão. Fico parado perdido. Tantas dúvidas. Tantas perguntas. Nem uma resposta sequer. Quero dizer, pelo menos sei que hoje é sábado. Em outras épocas desceria do carro e iria atrás dela até conseguir pelo menos a metade da história. Mas não tenho idade, nem paciência para joguinhos. Sou curioso e impulsivo, mas também sou experiente o suficiente para saber que esta merda que aconteceu aqui na Barra, vai morrer por aqui. E como nunca venho para Barra, o assunto está encerrado. Voltarei para casa.
     Chegando em casa, demoro um pouco para achar vaga na rua. Por isso que tenho moto. Estacionar no Catete já é um inferno. Imagine em um sábado. Deixo o carro em uma rua que fica a três quadras da minha vila. Entrando na vila, vejo a minha moto na estacionada na porta. Intacta e aparentemente sem um defeito que justifique precisar de um carro alheio. Nela, um bilhete:
     “Te procurei no bar, mas estava fechado! Em casa não está! Celular só fora de área! Pensei que faríamos algo hoje. Me liga estou preocupada. Te amo...”
     Entro em casa, pego o telefone e faço uma ligação. Ela atende, pela bina já sabe quem é. Diz um oi seco e rápido. Eu falo:
     – Ai, filha, desculpa. Seu pai é um merda. Depois te explico. Tudo que preciso agora é um banho e descansar.
     Desligo. Sento no sofá, apoio os braços sobre os joelhos e exclamo comigo mesmo: “Merda!”

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Mais uma dose (shot 1.2)

Garrafa azul (efeito Hudson)
 Acho que a única tragada que dei naquele cigarro foi a primeira. Uma tragada para acender e lá ficou ele acesso queimando na minha mão esquerda. Na direita, a garrafa intocada de vodka vagabunda. Por mais que estivesse com sede, seria muita estupidez dar outro gole naquela desgraça.
Fiquei olhando o quintal. Pelo canto do olho notei que ela ficava me encarando. Ignorei. Estava tão distante que o silêncio naquele momento não me incomodou. O cigarro continuava queimando. Do grupo de jovens que estava no meio do quintal, sai um garoto na direção da varanda. Alguém grita para ele: “Trás umas dez latinhas!”.
– Meu deus, eles vão beber mais ainda? – Perguntei em voz alta.
Ela riu, pude perceber. A menina deitada no colo do namorado encostado na árvore levantou a cabeça e pediu para o garoto trazer duas latinhas. Ele passou por mim fazendo uma corrente de ar que derrubou a cinza do cigarro sem apagá-lo, e entrou na cozinha. Acompanhei seu trajeto com o rosto e fiquei olhando para a porta esperando por ele. Menos de dois minutos depois ele sai carregando um monte de latinhas no colo como se fosse um bebê muito grande. Continuei acompanhando seu trajeto atentamente. Umas duas ou três latinhas caíram pelo caminho. O cigarro continuava queimando e a garrafa de vodka permanecia no mesmo nível.
Chegando ao grupo, a cena se parecia com caminhões de mantimentos no meio da África. Ele foi praticamente atacado por eles. Só sobraram duas latinhas. A menina se levantou do colo do namorado foi até ele, pegou as duas, dei um beijo no rosto dele e voltou para os pés da árvore. Fiquei ali parado acompanhando cada momento da cena. Desde o momento em que ele se levantou até agora, ali parado, todo molhado do suor das latinhas e de mãos vazias. Ele voltou para pegar uma das latinhas que caiu pelo caminho para beber. Ela sorriu rapidamente. Balancei negativamente a cabeça enquanto o cigarro chegava ao fim. A brasa, ao chegar perto do filtro, tocou meus dedos e me queimou. Joguei, por instinto, o cigarro longe e sacudi a mão por reflexo, exatamente quando nos queimamos. Senti dor. Não era da queimadura. Levantei a mão à frente do meu rosto e virei suas costas para meus olhos. Minha mão estava vermelha tendendo para roxa e um pouco inchada.
– É, mas ele mereceu – disse ela.
– Como? – Perguntei, enquanto ainda parado encarava a minha mão esquerda.
– O machucado! Foi por causa da briga! Veja a outra mão.
Assim que ela acaba de falar, olho para a mão direita. Tão machucada como a esquerda. Aliás, um pouco mais machucada que a esquerda. Sou destro.
– Que briga? – Pergunto, agora olhando para ela.
– Na realidade não foi uma briga – explica ela. – Para ser uma briga, assim como para ser um diálogo, são necessárias duas pessoas em ação. Aquilo foi uma surra! Um monólogo!
Não me lembro de coisa alguma. Até pouco tempo sequer sentia dor nas mãos. Fiquei preocupado. Só tinha moleque na casa. A faixa etária era entre 17 até 25 anos. Será que esmurrei um menino?
– Não esquenta – ela continuava falando. – Ele mereceu!
– Ele quem?
– O Vicente! Ele é um escroto!
– Não me diga que esse Vicente é um moleque de 17 anos – peço quase implorando por um não dela como resposta.
– Não! Galalau! Burro velho! Escroto toda vida!
Pelo visto ela não guardava bons sentimentos dele. Sua opinião seria tendenciosa. Pergunto se o cara ainda estava na casa, afinal era uma preocupação. Não sabia por qual motivo bati em alguém, tão pouco imagino como seria a cara dele. Se ainda estivesse na casa, não teria como evitar ser surpreendido por um revide dele.
– Ele saiu daqui carregado por dois amigos – disse ela. – Mas não sei dizer se eles voltam. Sabe como é esse pessoal, né?
– Como assim esse pessoal? Policial? Bandido? Viking?
– Não – ela grita e ri ao mesmo tempo. – Está com medinho?
– Conhece a história do não sei o motivo porque te bato, mas você sabe o motivo porque apanha? Então! Odeio ser a exceção da regra e acabar apanhando sem saber do que se trata.
– Relaxa – ela continua rindo um pouco – Eu quis dizer esse pessoal que só anda em grupinho. Playboys! Covardes! Gaivotas!
– Gaivotas? Você é doida – falo enquanto me levanto.
– Onde vai?
– O dia está amanhecendo – digo enquanto aponto para o céu acobreado ao fundo do quintal. – Vamos tomar café em uma padaria?
– E você sabe onde está?
Não sabia. Menor ideia. Que sensação horrorosa! Estou acostumado a acordar na minha cama sem me lembrar de como cheguei em casa. Às vezes tento, mas não consigo recordar como a pessoa ao meu lado foi parar ali também. Já tiveram momentos de sequer recordar como a noite anterior começou. Só que felizmente, para a minha sorte, isso sempre culminava comigo em casa! Local seguro, limpo, pacato e conhecido. Agora não sei onde estou, não sei como cheguei, não sei quem esmurrei, tão pouco o motivo. Tudo que sei é que vou sair dali para tomar café sabe-se lá onde na companhia dessa garota. Essa garota! Céus, nem o nome dela eu sei!
– Saint Tropez – diz ela.
– Seu nome é Saint Tropez?
– Meu nome? Sim, claro! Me chamo Saint Tropez da Silva – ela mesma se interrompe e começa a rir. – Como assim?
– Foi mal – coloco a mão no rosto de vergonha – Estava pensando aqui que sequer sei seu nome.
– Você está no Saint Tropez!
– Isso é um bairro? Parece bairro da Califórnia! Eu saí do Rio de Janeiro?
– Não – ela grita e ri novamente. – É o nome do condomínio! Você está no meio da Barra! Sorria, você está na Barra!
– Barra – solto um sorriso de canto de boca, meio que surpreso, meio que debochado. – Eu nunca vou para a Barra!
Ela se levanta, entra na cozinha primeiro do que eu e logo depois para. Coloca uma das mãos sobre a boca aberta e com a outra aponta para a bancada da pia. Está surpresa. Fica assim por alguns segundos, se vira para mim, ainda com uma das mãos sobre a boca e a outra apontada para a bancada e diz não acreditar no que está vendo. Faço cara de quem não está entendendo patavinas. E convenhamos, não estava entendendo patavinas, bulhufas e necas de bitibiriba. Então ela vai até a bancada e pega a garrafa azulada retangular. Ainda de boca aberta coberta por um das mãos e agora segurando a garrafa com a outra, ela fala: “Você bebeu tudo!”. Depois abaixa a cabeça, começa a rir e meio que exageradamente grita: “Você é doido!”.
Se antes já estava confuso na varanda, agora com uma garrafa a qual supostamente bebi todo o seu conteúdo desconhecido ficou melhor ainda. Pergunto para ela o que tinha na garrafa. Ela diz não saber e continua rindo. Acho que não dava para ela ser mais misteriosa ou vaga do que aquilo. Mesmo assim, passou por mim rindo e foi para a sala. Fui atrás. Confuso, é claro. E insisti em saber o que tinha ali. Ela responde:
– Não sei mesmo! Só sei que essa aí – disse enquanto apontava para a menina ainda desacordada atrás da mesa. – bebeu um bom gole antes de ficar assim.
Ela passa pela menina, abre a porta principal e fica ali a minha espera. Passo pela menina. O cheiro de vômito. É insuportável. Mesmo assim me aproximo e ajeito a blusa de tal forma que o peito ficasse coberto novamente. Depois me levanto e vejo que ela continua rindo para mim enquanto sai de vez da casa falando:
– Você deve ser um cara muito bonzinho mesmo!
– Que nada – respondo eu com cara de deboche. – Foi minha chance de passar a mão em um peitinho nesse fim de noite.
– Tem razão – ela concorda, rindo mais ainda. – Se fosse bonzinho mesmo, teria tentando acordá-la para saber se está bem.
– Ei – viro-me de volta para a casa e antes de entrar, ela me interrompe.
– Relaxa! Ela vai ficar bem. Você já a salvou do pior. Acredite!
– Como?
– Eu te conto no caminho – disse ela enquanto desarmava à distância o alarme de um Gol preto. – Entra aí que eu vou dirigindo.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Mais uma dose (shot 1.1)

Barraca de Festa Junina (efeito Sutro)


Não tenho certeza da primeira lembrança que tenho. Era de madrugada. Com certeza de madrugada. Estava em uma cozinha desconhecida. Uma cozinha de alguma residência. Não estava caído, nem sentado, nem deitado. Estava de pé com as mãos apoiadas na bancada da pia. De costas! Isso mesmo! De costas para a pia, com as mãos apoiadas na bancada. Exatamente naquelas posições que ficamos quando estamos pensando em algo. É isso! Essa era a minha primeira lembrança daquela noite. Estava tudo muito confuso na minha cabeça.
O curioso é que não estava acordando. Não! Era como se tivesse parado ali para me recompor, pensar em algo. Sei lá. Minha cabeça deve ter viajado longe e me dei conta somente a partir deste momento. Coisa estranha que não esclareci ainda.
Lembro de ter olhado ao meu redor. A cozinha era uma sujeira só. Muitos papéis, estilo guardanapos e embalagens de comida pelo chão. Copos plásticos e tampas de garrafas também. Ao centro tinha uma mesa. Imunda! Muitas guimbas de cigarro e uma miscelânea de cinzas com resto de cocaína.
Fiz uma rápida checagem pelo meu corpo. Documentos ainda estavam no bolso de trás. Celular no da frente, mas sem bateria. Estava completamente vestido, camisa abotoada, nenhuma mancha de qualquer tipo de resíduo que fosse. Isso já era um bom sinal.
Virei-me para a pia. Muitos copos, latas vazias, um prato com algo que parece ser restos de pedaços de frango e uma garrafa azulada de formato retangular. Abri a torneira, molhei minhas mãos e passei no rosto e nuca. A água era gelada como a bunda de um pinguim. Não dava para ficar mais acordado que aquilo. Resolvi sair dali.
Abri a porta que estava à minha esquerda. Estava na sala. Um sofá escuro, parecia ser de couro, estava repleto de pessoas. Umas dez, acredito eu. Não contei. Largadas seria a melhor maneira de definir como estavam amontoadas. Difícil saber onde começava uma pessoa e onde terminava a outra. Difícil também definir se estavam dormindo, desmaiadas, em coma. Mal me mexi.
Olhei para o lado, uma televisão ligada em um canal musical qualquer passava um show do Van Halen. Acho que estavam tocando Right Now. Sim, com certeza era essa música. Lembro que fiquei parado mais um pouco só para ouvir o solo que tanto gosto. Que desperdício! Os irmãos Van Halen dando o melhor deles e nenhuma daquelas pessoas sequer mexeu um músculo. Eram bem mais novos do que eu. Geração perdida.
Olhei mais à frente. Uma mesa de jantar repleta de copos, garrafas, guimbas de cigarro e algumas carreiras incompletas. Moleques imbecis. Apesar de novos, nessa mesma idade eu já sabia dosar as coisas. O contraditório nisso é que sequer sei como fui chegar neste local. Tão pouco sei o que fiz para ter uma amnésia recente dos fatos.
De trás de uma das portas, que parecia levar a um quarto, tocava um som barulhento. Talvez fosse Black Metal. Odeio esse som. Escroto. Incompreensível. Sem melodia. Pior ainda com as risadas e gritos que vinham do mesmo quarto. Nem me aventurei a descobrir o que lá se passava. Voltarei para a cozinha... Espere!
Atrás da mesa, caída no chão, parecia ser uma menina. Pois é, essa molecada de hoje em dia só quer saber de cabelo comprido e se vestir como andróginos. Não tenho como distinguir. Não quis me mexer! Não me aproximei. Aliás, sequer dei um passo além da porta. Apenas forcei a vista e a vi melhor. Sim, era uma menina. Supostamente bem mais nova que todos naquela sala. Ela, sim, posso dizer que estava desmaiada. Camisa mal vestida com um peito de fora e toda suja de vômito. Geração de merda! Se não estivesse tão confuso ou perdido, até reuniria energias para tentar ajudá-la. Fica para outro dia, menina.
Voltei para a cozinha. O cheiro da cozinha era horrível, mas perto do fedor da sala, era algo totalmente suportável. Poderia comparar com os perfumes baratos que minha mãe usava em uma fase da vida. O nome era Alfazema de Mauá. Como odiava aquele perfume, mas o suportava mesmo assim. Tentei de todas as formas convencê-la a parar de usá-lo. Nunca consegui. Um dia, do nada, ela de... Estou divagando. Preciso de um cigarro. Nada nos bolsos. Nada sobre a bancada. Nada sobre a mesa. Passei o dedo nos restos de cocaína ali espalhados e esfreguei na gengiva. Abri a geladeira. Garrafas de cerveja. Latas de cerveja. Uma garrafa de vodka pela metade. Uma jarra de leite com uma cor duvidosa. Fico com a garra de vodka. Vou para a outra porta.
É uma varanda! De frente para os fundos da casa. Um enorme quintal gramado, que igualmente ao resto da casa, está florido de copos, garrafas, guimbas e pessoas no chão. Encostado em uma árvore, um rapaz passa a mão nos cabelos de uma moça deitada em suas pernas. Mais para o meio do jardim um círculo de pessoas riem de algo que um rapaz de longos cabelos louros está contando. Ao fundo do quintal, alguns casais se agarram. Melhor não encarar. Não sei o que fazer. Ouço uma voz: “Oi!”. À minha direita, na varanda, um banco longo de madeira. Nele, uma garota de cabelo curto, bem batido, negros, está olhando para mim. Ela sorri e fala novamente: “Oi!”. Não a reconheço. Deve ter uns cinco anos a menos do que eu. Ela continua sorrindo e fala mais uma vez: “Oi!”. Sua roupa destoa de todas as pessoas, ou corpos, que vi pela casa. Calça jeans nada apertada contra o corpo. Todas as meninas, sem exceção, ou estavam de saia ou estavam de shorts. Camisa larga do tipo estampada, não dava para ver ao certo a estampa. Todas as meninas estavam de top ou camisetas decotadas. Ela desfaz o sorriso, levanta as sobrancelhas e diz: “Ok, agora você está me assustando!”. E depois volta a sorrir.
– Desculpe – eu digo e percebo o forte hálito de álcool que sai da minha boca.
– Vai beber essa vodka?
Não tenho mais certeza se irei. Pelo hálito, acho que já bebi tudo que devia naquele dia, mas minha boca estava muito seca. Abri a garrafa e dei um bom gole direto no gargalo. Fiz uma cara horrível, franzindo cada músculo do meu rosto. Devo ter envelhecido uns 30 anos naquele breve momento.
– É uma merda, né? – Pergunta ela.
– Ahn?
– Essa vodka! É uma merda, né?
– Deu para notar?
– Pela sua cara, sim! Mas nem precisava!
– Sério?
– Essas marcas vagabundas, eles compram apenas para misturar com refresco instantâneo.
– Claro! Por quê não piorar o que já é uma merda?
– Ou isso! Mas a ideia é fazer algo muito barato que os deixem bêbados rapidamente.
– Não sei se foi rápido, mas de fato funcionou. Inclusive comigo!
– Você não bebeu isto, pode ficar tranquilo.
– Menos mal – e passo a garrafa para ela, que dispensa instantaneamente.
– Não, obrigada!
– Você não quer?
– Claro que não! Ela é horrível!
– Então, por quê perguntou se iria beber?
– Perguntei em um tom desafiador mesmo. Meio como quem não acredita no que a pessoa vai fazer.
– Ah, mas que ótimo! – Um silêncio beira por alguns segundos até que o interrompo – Tem um cigarro?
– Ahan!
Ela me entrega um cigarro e uma caixa de fósforos para acender. Acendo. Dou uma boa tragada e me sento ao seu lado. O maldito gosto daquela merda de vodka não vai sair tão cedo da minha boca.