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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Histórias reais inventadas por mim

Fim de viagem em Londrina
Esta história na realidade é apenas um pedaço de algo maior. Ela começou na quinta-feira passada quando fui a Londrina para um casamento e está terminando hoje, terça-feira. Resumindo, é o final da história. Sãos as minhas últimas horas em Londrina
- Ih guri, não sei, não.
Com essa frase, o taxista meio que me preparou para a possibilidade de não conseguir voltar para casa. A cidade estava debaixo de um temporal pesado tinha horas. Segundo o mensageiro do apocalipse disfarçado de motorista de táxi, o aeroporto da cidade fechava com muita facilidade. Qualquer sutil alteração no tempo e pronto, ninguém entra, ninguém sai. Claro que com menos dramaticidade que a minha frase.
Quando entrei no aeroporto percebi que a premonição do taxista era acertada. Um mar de pessoas espalhado por um salão que parecia uma pista de kart por conta das malas e mochilas largadas pelo chão. O exagero aqui não é tão real quanto parece. O aeroporto de Londrina, ao menos a parte de circulação de passageiros, é ridículo de pequeno. Parece uma rodoviária de cidade do interior. Um salão nem tão grande assim, com, no máximo, dez guichês de despacho de malas, umas três lojas de companhias aéreas e uma banca de jornal. Existe ainda um mezanino com uma lanchonete e uma dúzia de mesas. Obviamente, lotar um local como esse não é uma tarefa muito difícil, ainda assim, a imagem era desanimadora.
- Senhor, infelizmente estamos sem previsão mesmo. Todos os voos estão cancelados. O avião do senhor sequer está em terra. Eu sinto muito.
O rapazinho até que foi simpático, mesmo respondendo a mesma coisa provavelmente há horas. Depois de uns quarenta minutos em uma fila aturando terceiros disputando entre si quem estava mais indignado e quem teria mais transtorno na vida por conta daquele atraso, até que fui bem paciente e retribui o bom atendimento com um sorriso ao final. E nem foi por conta do polpudo vale almoço, ou vale desculpas, de vinte e quatro reais que recebi da companhia. Sem muitas opções, resolvi me sentar em algum lugar para esperar pelo menos o temporal passar. Afinal, enquanto São Pedro mantivesse aquele chuveiro ligado igual a uma mangueira de bombeiros, os voos nem começariam a ser organizados. Sentei-me em uma das raras cadeiras disponíveis, mas antes precisei de toda a minha capacidade de argumentação e articulação para convencer um homem que as malas dele em um assento e uma pessoa em pé não configura o correto. Ele ficou ofendido claramente quando a única solução seria coloca-las ao chão, próximo ou no meio de suas pernas. Imagino que até hoje ele esteja indignado por ter conseguido convence-lo a cometer tamanha indelicadeza com seus pertences que merecem um local melhor. Existe uma grande possibilidade de em sua casa a televisão deve ficar no sofá e as visitas de pé encostadas na estante.
Ficar uma hora e meia sentado fazendo literalmente nada à espera do nada é muito pior do que imaginava. Senti muita inveja dos idosos que, mesmo acompanhados, ficavam olhando o vazio em uma paz quase fúnebre, todos imunes à agitação que os cercava. Inquietação, aliás, que só aumentava diferentemente do que era exatamente o oposto do que esperava. Imaginava que com o tempo passando, as pessoas iriam se cansando, diminuindo a movimentação, falariam menos, se ajeitariam em um canto e por lá ficariam até virarem um casulo, de onde sairiam depois transformados Hare Krishnas. Pelos menos era assim que achava que eles surgiam.
- Devido à forte nevasca, o aeroporto JFK está completando dois dias de interrupção no seu funcionamento. Autoridades estão especulando um surgimento de mais de dois mil novos Hare Krishnas em Nova York.
Aquela agitação estava de fato me incomodando. Pessoas ansiosas ao celular ligando para cancelar reunião, adiar encontro com cliente, dar satisfação para secretária entre outras situações, estavam me provocando canseira só de olhar. Não tinha o que fazer. Éramos reféns do clima, das companhias aéreas e do rapazinho da torre que provavelmente estava fazendo hora em alguma rede social torcendo para o turno dele acabar antes do temporal. Tamanha a nossa impotência, que não fazia sentido aquela preocupação com os dramas do cotidiano. Tudo que passava pela minha cabeça era a minha inconformidade com a ausência de qualquer opção de se comprar algo alcoólico.
- Isso é muito descaso – disse um engravatado sentado à minha frente. – Ei, você não acha isso muito descaso?
- Eu? – Ele respondeu que sim para a minha infelicidade. – O que seria descaso?
- Eles nos deixarem aqui mofando à mercê do capricho deles.
- Eu não tenho certeza se é muito exagero avaliar desta forma sabendo que os aviões sequer estão pousados para embarcarmos.
- Isso é balela! Estão todos estacionados em algum hangar. Isso é estratégia para vender mais passagens.
- Pelo que vejo ao meu redor, acredito que vender passagens não é o problema atual deles.
- Você não está vendo a grande figura. Veja fora da caixa. Eles criam esse cenário para que a pessoa desesperada não espere pelo próximo agendamento e acabe comprando qualquer outro voo.
- Olha só. Olha ali naquela televisãozinha. Todos os voos estão cancelados. TODOS! Não existe sequer outro voo com passagens para comprar.
- É exatamente isso que eles querem que você pense. Pois saiba que existem outros, sim. Eu ouvi uma pessoa falar que se você pedir no balcão, eles têm um pequeno avião que leva até Guarulhos. Tudo pela bagatela de quase mil reais por cabeça. Mil reais a cabeça. É uma grande sacanagem.
- E por qual motivo você ainda está aqui?
- Porque não vou cair no esquema deles. Isso é coisa para desesperado que mete as mãos pelos pés. Só um trouxa afobado cai nisso.
- Bem, me dê licença, mas vou ali em cima descontar esse vale lanchinho que ganhei. Acho que a minha taxa de glicose caiu drasticamente e está afetando meu discernimento.
Teve um pequeno rebuliço quando me levantei, pois algumas pessoas estavam de pé. Foi notória a insatisfação do homem ao meu lado ao perceber que ainda não poderia acomodar suas malas no assento como ele considerava digno. Subi para o mezanino e as mesas da lanchonete estavam lotadas de pessoas enrolando. Fui direto ao caixa na esperança de boas notícias para amenizar o pesadelo que não tinha ainda prazo para acabar.
- O que você tem de cerveja?
- Não temos cerveja, senhor.
- Hum – uma pausa coçando a cabeça e revisando a vida. – Vinho de caneca?
- Não temos bebida alcoólica, senhor.
- Cachacinha? Licor?
- Não temos beb...
- Eu sei! Eu entendi na primeira. Estava apenas tentando desafiar a realidade.
- Infelizmente, senhor, não temos bebidas alcoólicas.
- Sério? E como fazem os pilotos? Eles trazem em uma garrafa térmica em uma lancheira?
- Senhor, acredito que eles não possam beber em serviço.
- Eu também. É apenas uma piada velha. O que tem para comer?
- Temos quatro opções de pratos feitos. São aqueles ali no alto. Acompanham um copo de refresco. Custa vinte e quatro reais.
- Hum – outra pausa mais uma vez desperdiçada, pois a menina não sacou o deboche no meu rosto. – E se quisesse algo diferente de uma refeição?
- Temos um combo. Ele vem com dois salgados, pode ser croissant ou folhado, uma vitamina ou milk-shake e uma fatia de pudim ou de mousse.
- Deixe-me adivinhar. Custa vinte e quatro reais.
- Exatamente, senhor.
- Que mundo pequeno, não? Vamos fazer o seguinte. O que acha de eu te entregar esse vale qualquer promoção de vocês que custa vinte e quatro reais e você me dá vinte reais em dinheiro de volta?
- Tem gente pedindo vinte e quatro pelo vale.
- Não importa. Vinte redondo. Fechado?
Provavelmente me achando um idiota, a atendente trocou o vale. Claro que ela tem razão, mas esse não era o motivo mais apropriado para me julgar.
Com as mesas lotadas e a menor vontade de retornar àquele salão que mais parecia a arca de Noé, optei por ficar em uma enorme janela que dava para a pista de pouso e decolagem. Nada para ver. Apenas muita água caindo no asfalto. Talvez conseguiria uma pouco de paz.
- Então – uma mulher parada ao meu lado também olhando para o nada matou os poucos segundos de paz. – Eu te entendo perfeitamente.
- Ora, não se precipite. As chances de estar errada são grandes.
- Bobo – ela sorriu e foi a primeira bela imagem naquele dia horroroso. – Estou falando do seu drama para conseguir bebida alcoólica.
- Ah sim. Ajudaria muito na minha situação se eu conse... Ei! Que audição impecável. Você está de parabéns!
- Quando você apareceu, eu pensei na hora que seria alguém que estivesse doido por uma birita.
- Birita?
- Ah me deixa. Eu tenho umas gírias estranhas – outro sorriso lindo e o meu dia começava a melhorar ao poucos. – Daí apostei comigo mesma que iria pedir algo para beber. Fiquei daqui ouvindo e nem foi um esforço muito grande. Sua voz é grave, alta. Dá para ouvir daqui facilmente.
- Imagine de manhã ao pé do ouvido.
- Céus! Alto daquele jeito? Tipo acordar com corneta de quartel?
- Não, sua doida. Apenas o grave.
- Ah sim. Deve ser uma delícia. Até imagino você falando “acorda, benhê, entupi a privada.”.
- Que horror – caímos os dois na gargalhada. – Jamais falaria isso.
- Mas é bem a sua cara.
- Não. Acho cafona chamar alguém de benhê. - Ficamos rindo mais um pouco.
Ela aparentava ter um pouco mais de quarenta anos. Era bem bonita, alta, cabelos bem cuidados e o tal sorriso encantador que disse antes. Seu nome era Cristina, estava voltando para o Rio de Janeiro também, mas sem a menor pressa, pois já tinha avisado ao chefe e foi liberada. O meu drama não somente a comoveu, como também a assolava. Precisávamos de um plano e, segundo ela, nos arredores não existia uma opção sequer. Mesmo que tivesse, não nos podíamos nos dar ao luxo de sentar em uma mesa de bar. Sugeri pegar um taxi, deixar que ele nos levasse até algum local que vendesse a tal birita e voltaríamos para consumir enquanto esperávamos as coisas se reestabelecerem por aqui. Ela topou e ganhei mais um sorriso.
Quarenta minutos depois, dos quais a maior parte do tempo foi culpa de um taxista incompetente que sequer sabe onde se pode comprar vinho na própria cidade, estávamos de volta. Eu, Cristina e cinco garrafas de vinho. Todas com as rolhas previamente engatilhadas para facilitar as nossas vidas. Estávamos bastante pessimistas quanto ao nosso retorno ao Rio de Janeiro e otimista sobre nossa capacidade de absorver álcool.
- Baby, se me acompanhar direitinho com essas cinco, direi com certeza que você foi feita para mim.
- Baby? O cara que acha cafona falar benhê usa baby?
Cristina era muito mais que um sorriso lindo. Tinha respostas rápidas que me deixam sem palavras, era despojada e comprou o projeto encher a cara no aeroporto. Obviamente, assim que chegamos, não tinha mais lugar para sentar. Sem dramas, nos acomodamos no chão mesmo. Esticamos as pernas, colocamos as malas de lado, tiramos a rolha da primeira garrafa e nos revezamos com bons goles direto do gargalo. Os olhares recriminadores dos outros passageiros eram cruéis. Cheguei a me incomodar por alguns segundos. Daí, ela me entregou a garrafa, dei mais um gole e passou.
- Impressionante como as pessoas estão incrédulas com a nossa cena.
- É muita coisa para associar de uma só vez – respondi devolvendo-lhe a garrafa.
- Sério? Liste então.
- Dois adultos sentados no chão sem a menor cerimônia.
- Justo.
- Dois adultos bebendo vinho em pleno início de tarde de uma terça-feira.
- Bebendo do gargalo – ela enfatizou erguendo a garrafa como em um brinde.
- Sim, não vamos nos esquecer desse detalhe – peguei a garrafa, bebi e continuei. – E agora o principal de todos. O maior de todos.
- O maior de todos – ela pegou de volta a garrafa e a levantou ao ar. - Qual o maior de todos?
- Estamos nos divertindo enquanto os outros estão odiando este dia.
- Mas é porque temos álcool.
- Direto do gargalo. Não se esqueça.
- Direto do gargalo.
A primeira garrafa terminou em uma velocidade incrível mesmo para os meus padrões. Cristina tinha um potencial impressionante. Era melhor eu ficar atento com ela, pelos bons e maus motivos. Já na segunda garrafa, um funcionário do aeroporto veio recolher a primeira vazia. Ele fez um comentário que flertava com uma pergunta como quem quer saber se iriamos dar trabalho. Eu até tinha uma resposta cretina pronta, mas Cristina foi mais rápida dizendo que só teriam trabalho se nos incomodassem. Quietos no nosso canto, passaríamos despercebidos. Ouvi incrédulo tamanha franqueza, mas o que importava mesmo era o funcionário ter acreditado.
- O que veio fazer aqui?
- Não quero falar sobre isso – ela foi seca na resposta.
- Puxa, me desculpe. Não queria ser indelicado.
- Não foi indelicado. Foi sem graça. Perguntinha mais clichê. Ainda mais vindo de você.
- De mim? O que tem eu?
- Você com todo esse jeito de contornar a conversa e essa cara de safado...
- Essa o que?
- Você ouviu? E sua cara de safado é melhor que essa de cínico. Pode parar com a cena. Enfim, esperava algo melhor de você. Mais compatível com a imagem.
- Tipo o que?
- Tipo perguntar a cor da minha calcinha, se faço sexo com desconhecido, se já trepei em banheiros públicos, se transei a três ou se coloco energético em uísque.
- Energético em uísque?
- Pois é, uma putaria pesada fazer isso, não?
- Estou começando a achar que você é alguma irmã minha que foi roubada na maternidade.
Ela riu do meu comentário, mas não por ser engraçado, apenas por ser patético. Cristina achou curioso o meu desconforto lidando com uma mulher com boas respostas rápidas que me deixavam desconcertado. Não bastante, concluiu de imediato que eu só me relacionava com mulheres mais novas. Ora, que diabo de mulher era aquela? Só tinha uma maneira de fazê-la parar. Ou tentaria deixa-la apaixonada por mim, ou teria de tentar mata-la. Em ambas as opções, indiscutivelmente, não somente fracassaria, como seria o único a sair machucado. Onde fui me meter?
- Ok, você já está muito desconcertado. Vamos para perguntas lugares comum para você retomar o fôlego e a coragem. O que veio fazer aqui?
- Casamento.
- Percebo que esteja esquecendo algo, não? Tipo, a mulher com quem acabou de casar.
- Não, eu não me casei. Vim para um casamento.
- Entendi. Padrinho, né?
- Madrinha.
- Olhe só, já está voltando a ficar à vontade com as asinhas de fora.
- Não é piada, é sério mesmo.
Cristina não pode acreditar no que ouvia. No dia do casamento civil, a madrinha não pode comparecer e a única pessoa que o casal conseguiu chamar às pressas no cartório foi outro amigo. Chegando à hora, o juiz de paz se recusou a fazer um documento com dois padrinhos. Deve ter pensado que éramos um casal gay. Ele disse que só aceitaria se um dos dois assinasse como madrinha. Obviamente, para não empatar o momento, o idiota aqui aceitou a condição. Aliás, condição totalmente absurda, que na cabeça do juiz de paz fazia sentido.
- Ah, então você é gay mesmo?
- Não comece.
- Tudo bem – ela colocou a segunda garrafa já vazia de lado e abriu a terceira. – Veja pelo lado positivo, em casamentos sempre arrumamos alguém.
- Nada.
- Ninguém?
- Zero.
- Neca de bitibiriba?
- Está divertido para você?
Após um gole inaugural na terceira garrafa, ela se desculpou. Não acreditava que alguém pudesse sair de um casamento sem ao menos conhecer uma pessoa nova. Vai ver as minhas obrigações de madrinha ficaram tão extensas que nem tive tempo de interagir com outras pessoas. Ou apenas sou um fiasco nesse tipo de evento mesmo.
- E nos outros dias? Não saiu? Nada?
- Ah sim! Todas as noites.
- E conheceu alguém?
- Ah sim! No sábado conheci uma ruiva linda. Olhos claros. Rosto pintandinho de sardas. Ótimo passatempo.
- Passatempo?
- Sim, ficar contando sardas pela manhã.
- Pois saiba que minhas costas são cheias de sardas.
- Você quer ouvir a minha história ou ficar se gabando?
- Oh desculpe, senhor falador. Prossiga. Quem sou eu para te interromper agora que pegou no embalo.
- Era só isso mesmo. Conheci uma ruiva linda no sábado.
- E?
- E o que?
- Nada? Zero? Neca de bitibiriba? Fuém?
- Não! Ficamos no sábado e repetimos ontem.
- Ah seu cretino. Então quer dizer que estou aqui flertando com um homem compromissado?
- Estamos flertando?
- Não, claro que não! Você é um desastre nesse jogo.
Mesmo que estivéssemos, não era um homem compromissado. Ao final do segundo encontro, a ruiva já deixou claro que nada sairia dali. Aliás, preciso dizer que, no que se refere a ser enfática, ela é muito boa. Qualquer animação pelos dois dias com ela foi estraçalhada por pedidos como esquecer que ela existisse, apagar seu número do telefone e não achar que foi algo especial. Não quero me passar por dramático, mas ainda estava me sentindo mal por como aquilo terminou. E nem foi minha culpa dessa vez. Eu apenas fiquei boquiaberto ouvindo. Era óbvio que não iríamos para frente. Foi muito exagerado o sadismo dela em me comunicar isso.
Enquanto Cristina demonstrava solidariedade ao meu sofrimento recente, o sistema de som anunciou que o tráfego aéreo estava aberto novamente. Fomos para o guichê e, no tempo que esperamos na fila, a terceira garrafa foi embora. Estávamos prestes a completar nove horas naquele local já completamente bêbados. Conseguimos marcar nossos assentos, um ao lado do outro e seguimos para a sala de embarque onde ficamos menos de dez minutos. O pessoal do aeroporto estava disposto a colocar as coisas em dia mesmo. Entramos no avião, guardamos as malas no compartimento em cima das poltronas e nos sentamos. Com a quarta garrafa em mãos, Cristina sugeriu que pensássemos em um local para acabar com esta e a quinta, já que o tempo de viagem era curto. Deixei por conta dela, afinal era o macho alpha da relação. Ela sorriu quando ouviu isso e tirou a rolha. Logo em seguida o avião decolou. O que aconteceu em seguida não cabe mais aqui, pois como disse, essa era a história das minhas últimas horas em Londrina e não estava mais em solo londrinense.

domingo, 3 de abril de 2016

Histórias reais inventadas por mim

Cafajeste
Naquele primeiro momento não entendi ao certo qual era o intuito da corretora de imóveis ao me alertar sobre certo Leleco. Tantas coisas mais importantes para ela comentar, mas preferiu por dizer que na vizinhança tinha tal de Leleco que era um cafajeste. Preferia que ela tivesse me alertado sobre a feira de rua que acontecia toda terça. Sim, feira de rua em dias de semana são coisas que não devem ser apenas comentadas, precisam ser alertadas com antecedência. Ela não falou sobre, daí, na minha primeira semana morando aqui na Rua Jorge Rudge, uma rua conhecida de Vila Isabel, fiquei presa na minha própria garagem, proibida de sair de carro para trabalhar. Eram oito e quinze da manhã e deveria estar cruzando a Linha Vermelha rumo à Nova Iguaçu. Só que não! Estava negociando com tal de Belmiro a possibilidade de mover sua barraca de tomates para que pudesse sair com meu carro.
- Não vai rolar, não, madame – ele respondeu em definitivo. – E por mais que chegasse para o lado, você nem ia conseguir andar dois metros. Olhe quanta barraca! Olhe como está estreita a rua. Mal passam dois velhotes com carrinhos de feira ao mesmo tempo.
Ele tinha razão. Precisava de uma nova solução então. Ir de taxi estava fora de cogitação. Sou diretora da empresa, mas não sou rica. Até porque, se fosse, não moraria em Vila Isabel, mas na Tijuca. Existia a possibilidade de ir boa parte do caminho de trem e depois continuar de taxi. Que horror! Já me basta morar em Vila Isabel, agora tenho de andar de trem? Ficarei em casa e farei home office.
Como estava arrumada, aproveitarei para ir à padaria da esquina e tomar café. Não é a cafeteria da empresa, mas ao menos não vou sujar a louça de casa. Confesso que a ideia até foi divertida. Os olhares dos feirantes e vizinhos, os comentários e gracejos me fizeram bem ao ego. Carne nova na área. Estar com quarenta anos de idade e divorciada há um mês arrebenta com a estima de qualquer mulher. Preciso dizer que não tenho problemas com autoestima. Seja baixa, seja alta. Tenho consciência que sou uma mulher de quarenta, não mais uma garotinha. O fato é que me cuido, estou muito bem em forma e chamo a atenção. Tanto que os amigos do maldito do meu ex-marido estão me cercando doidos para me comer. Não vou fazer isso por vários motivos. Primeiro que o cadáver ainda está quente e, se eles não têm respeito pelo próprio amigo, eu ainda tenho este sentimento respeitoso por ele. Segundo, não sou piranha de ficar dando para todo mundo por aí. Terceiro, convenhamos, já passei da fase de aventuras. Talvez, neste momento, tudo que eu precise seja um período amoroso sabático.
Fiquei uns dez minutos na padaria e sequer o café recebi. Preciso dar um desconto porque, desses dez minutos, seis foram gastos para tentar explicar para a atendente que canoa é um termo muito comum para pão na chapa. Essa minha mania de querer ampliar o conhecimento alheio ainda vai me envelhecer precocemente. A espera pelo café e a canoa até que estava sendo agradável. Apesar de ser uma padaria pequena, fiquei analisando vários produtos que poderia comprar por ali em alguma emergência. Eles têm até alguns produtos de limpeza.
- BOM DIA, MEUS QUERIDOS!
Minha nossa senhora, que horror! Um homem acabara de entrar na padaria falando alto. Coisa desnecessariamente espaçosa. Típico de gentinha da Zona Norte. O pior foi a surpresa quando me virei e vi exatamente o oposto da imagem que tinha em mente. Era um homem bonito. Devia ser um pouco mais velho que eu. Alto, olhos claros, cabelos cheios e sedosos também claros, sem falar de um sorriso interessante. Mesmo assim tudo se estraga em segundos, não é mesmo? Ele estava de chinelos, bermuda e sem camisa. Minha gente! Os apartamentos por aqui são tão baratos, como não sobra dinheiro para comprar discernimento e bom gosto? Estava muito mal acostumada com a vida de casada no Flamengo. Esse negócio de dar dois passos para trás para pegar impulso depois do divórcio não foi uma boa. Sabia que deveria ter escolhido algo em uma área mais nobre. Fechando a cena com chave-de-ouro, os outros funcionários responderam com mais falatório alto. Uma algazarra desnecessária, mesmo se não fosse tão cedo. Quando pensei em falar para o atendente que o meu seria para viagem, assim comeria em casa longe daquele escarcéu, ele se vira para o homem e pergunta se seria o de sempre. Ao final da pergunta ele usa o vocativo Leleco:
- Ah Leleco – exclamei em voz alta como quem conclui que só poderia ser ele.
- Desculpe – ele ouviu e se aproximou para falar comigo. – Você me chamou?
- Eu? Não! Impressão sua!
- Vai ver foi – ele se aproximou mais um pouco. – Nos conhecemos?
- Não, não nos conhecemos. Nem tem uma semana que me mudei para esta rua.
- Tem razão – ele fez uma pausa e deu uma longa e detalhada conferida em mim da cabeça aos pés. – Com certeza me lembraria de você, broto.
Naquele momento, tudo que queria era ligar para a corretora. Precisava falar para ela que tinha conhecido o tal Leleco e que não concordava com ela. Não, ele não era cafajeste. Não! Não mesmo! Ele era cafona! Cafona, não! Piegas! Sim, piegas! Clichê! Quem usa o termo broto em pleno ano de 2016? Isso era coisa de vocabulário do falecido Armação Ilimitada. Broto não é usado nem mais pelo Evandro Mesquita.
Com seu sorriso que já tinha notado logo de início, ele se apresentou. Leleco. Brinquei perguntando que mãe colocaria aquele nome em uma criança e ele levou na esportiva bem demais. Usou a deixa para falar que seu nome era Alexandre, mas insistia em Leleco porque era a marca de roupa de praia que ele vendia. Claro! Leleco, o cafajeste do bairro, vendia biquínis e maiôs. A deixa perfeita para ver a mulherada trocando de roupa, elogiar seus corpos e comer, no mínimo, um terço da clientela. Ele criara uma nova categoria para o termo clichê.
- Você deveria ao menos tentar – ele falou quando sinalizei que não tinha interesse em conhecer sua nova linha. – Não precisa comprar. Quero apenas que entenda o que vou lhe falar. Até mulheres que têm um corpo bonito como o seu, quando experimentam um biquíni apropriado para o seu corpo, cor de pele e cabelos ficam estonteantes. É algo como uma massagem tailandesa no ego. Deixe-me fazer isso só para que entenda. Como disse, não precisa comprar. Sequer ligarei a minha máquina de cartão. Aposto que será uma manhã maravilhosa para você.
O cachorro era um baú sem fundo de cretinices. Já não iria trabalhar mesmo, topei então participar da brincadeira dele. Eu precisava apenas ter o controle da situação. Sugeri que levasse as peças para prová-las na minha casa. Ele topou imediatamente com aquele sorriso indecente no rosto e meia hora depois lá estava ele com uma bolsa enorme. Eram biquínis e maiôs de todas as cores, estampas e modelos. Pedi que nem perdesse o tempo com maiôs. Eu queria colocar os biquínis e esfregar meu corpo na sua cara. Não literalmente, claro! Apesar de ele ser uma gracinha, não daria esta vitória. A ideia era fazer dele o que fazia provavelmente com as outras mulheres.
Já tinha experimentado uns oito modelos e era sempre a mesma cena. Saía do quarto, ele me olhava pasmo, tentava disfarçar e depois disparava um elogio tão cafona que não colaria sequer com as meninas da minha recepção. Coloquei então um todo preto com uns detalhes metálicos puxados para o dourado o qual a parte de baixo era muito pequena. Nunca tinha usado um fio dental tão cavado. Estava me sentindo uma deusa e ele confirmou assim que viu. Pela primeira vez, ficou sem palavras. Quando voltou a falar, disse que estava torto. O cretino queria uma desculpa para passar a mão na minha bunda. Tadinho. Eu estava totalmente no controle da coisa e ele se achava capaz de tirar proveito de algo.
- Claro – virei-me para ele que se levantou do sofá. – Pode ajeitar.
De mão cheia, ele reposicionou o fio dental. Dava para perceber que ele queria tocar em mim, mas suas mãos tremiam de ansiedade. Um ordinário daqueles não fica nervoso. Empinei exageradamente minha bunda para ele e perguntei como ficou. Mais uma vez sem palavras, ele apenas se limitou a apontar para o espelho da sala como quem diz para ver por si próprio. Na virada então para o espelho dei uma esfregada proposital com a minha bunda em sua perna. Pelo volume, ele ficou excitado. Muito!
- Broto, não faz isso comigo – ele disse se aproximando.
- Não diga broto, por favor!
Afastei o Leleco apoiando a minha mão estrategicamente sobre seu pau. Ele estava muito duro e acabei o segurando com vontade por cima das calças. Leleco enlouqueceu e tentou uma nova aproximação. Apertei seu pau com mais vontade e neguei. Ele tentava encostar em mim enquanto eu reagia falando que não e apertando seu pau. O puto estava cada vez mais fora de si. Não conseguia me beijar, não pode me segurar pela cintura e nem tocar em outra parte do meu corpo. Em contrapartida, lá estava eu literalmente masturbando ele por cima das calças.
Depois de quase vinte minutos comigo o instigando e manuseando seu pau sem encostar nele de verdade, Leleco gozou como um adolescente. Tamanha foi a sujeira que ficou com uma bela mancha de molhado na bermuda. Ele pediu para ir ao banheiro para se limpar.
- Acho melhor não – respondi com uma ponta de sorriso cruel no rosto. – As coisas aqui saíram um pouco do controle. Não acredito que essa seja a relação esperada entre você e cliente. Melhor você ir embora mesmo.
Visivelmente constrangido, o famoso Leleco se foi com sua fama de cafajeste manchada. Bem, a bermuda também. Tamanho era seu embaraço que nem percebeu que me deixou por lá vestindo seu micro-biquini, sendo que não paguei um centavo por ele. Aquilo foi uma vitória grandiosa para mim. Estava com a autoestima abalada por conta do divórcio e, não somente me senti desejada, como consegui fazer o cara, que supostamente se achava o comedor do bairro, agir como um garoto nas mãos de uma verdadeira mulher. Ele, que estava acostumado a ser o macho alfa a cada abordagem a uma mulher, naquela manhã virara um passivo. Um objeto sendo manuseado por uma mulher dominadora e, o pior para ele, à prova do que ele considerava as melhores cantadas já vistas. Nunca uma folga foi tão prazerosa.
- Cuidado com o Leleco uma ova – disse depois que fechei a porta de casa.
No sábado daquela mesma semana encontrei com a corretora na fila do mercadinho ali da região. Brinquei com ela sobre não ter me alertado sobre a feira e o fato que me obrigou a não ir trabalhar. Ela pediu desculpas e alegou que provavelmente outra coisa a distraiu de algo tão importante:
- Ah sim – concordei com ela. – Você preferiu ficar me alertando sobre o tal Leleco. Acredite que já esbarrei com ele?
- Já?
- Já! Mas não foi nada daquilo que você me falou. Sabe como é, né? Sou uma mulher poderosa e que desestabiliza corações – brinquei com ela.
- Eu tinha percebido isso. Por isso o meu medo me fez esquecer da feira e lhe alertar para se manter distante do meu marido.
- Ah sua desgraçada!

domingo, 20 de março de 2016

Histórias reais inventadas por mim

Lorotas
Era uma sexta-feira de noite. Não! Sábado de madrugada. Já tinha passado de meia-noite. Quase uma da manhã e quando cheguei ao limite do entediado me levantei do sofá, peguei a minha toalha na varanda e fui para o banheiro. Meu amigo que divide o apartamento comigo perguntou o que estava acontecendo e respondi que iria na rua comprar cigarro. Ele estranhou o fato de tomar banho para apenas comprar cigarro, mas repliquei dizendo que iria de carro e não queria sentar suado no banco de couro.
- E precisa de carro para comprar cigarros no bar aqui debaixo?
- Não, mas eu vou comprar lá na principal. Aproveito e coloco gasolina para trabalhar durante a semana.
Não acreditando nos meus argumentos, ele franziu a testa, deu de ombros e voltou a jogar videogame. Entrei no banho e quinze minutos depois já estava atravessando a sala rumo à porta da rua. Meu amigo novamente questionou eu estar tão arrumado para comprar apenas cigarros. Ora, um tênis, uma calça jeans e uma camisa polo não é tão arrumado assim, certo? Tanto que nem dei muita trela e perguntei apenas se ele queria algo. Ele respondeu que queria que eu não mentisse tanto para ele. Vejam só! O cara divide o apartamento comigo e pensa que é minha esposa. Para o inferno! Saí e nem me despedi. Só não bati a porta porque teria de pagar o conserto depois.
Depois de penar à procura de uma vaga, lá estava no meu pub favorito, Drunk Duck, ou mais conhecido intimamente pelos seus frequentadores como DD. Apesar de estar em um continente do outro lado do oceano, o Daft Duck não fazia feio perto dos pubs europeus. Inclusive os britânicos. Um enorme balcão de madeira maciça ao comprido com os famosos bancos bunda de fora era o símbolo principal do pub. Como cheguei muito tarde, não consegui lugar ao balcão. Tampouco conseguiria pelas mesas altas espalhadas pelo resto da casa. A solução seria andar pela casa com a caneca de chope em mãos.
Depois de duas voltas sozinho vagando como um espírito, achei melhor ir para o andar de cima. No segundo andar tem uma pista de dança que toca rock inglês, na sua maioria dos anos 70 e 80. Tocadas duas ou três músicas, reparei em uma menina morena sozinha de canto. Estava deslocada como eu, seria uma boa chance de me dar bem. Parei ao seu lado, sorri, ela correspondeu e puxei assunto. Disse um breve olá e perguntei seu nome, só que em inglês. Ela me respondeu também em inglês.
- Meu nome é Graciane. Você não fala português?
- Oh não! Apenas inglês mesmo.
- Mas você é de onde? Seu inglês tem um sotaque diferente de todos que já ouvi.
Claro que era diferente de todos. Aprendi inglês ouvindo música pop nos anos 90 e vendo seriado de ficção científica sem legenda. Obviamente responder isso para ela acompanhado de que morava no Meier seria muito patético. Quem continuaria a falar com um carioca que em pleno Rio de Janeiro puxa assunto em inglês? Pois é! Achei melhor dizer que era da República Tcheca. Não é que ela já tinha visitado à República Tcheca? Quais as chances? Ao me perguntar de onde era, para não correr riscos, falei que vinha de uma cidade pequena do interior cujo nome inventado quando pronunciei foi basicamente uma pigarreada. Ela pediu que repetisse umas quatro vezes até entender. Vai ver não entendeu porque cada uma das vezes saía de uma maneira diferente.
- Puxa, nunca ouvi falar – ela exclamou o óbvio. – Como é a cidade?
Bem, fazia parte do cerimonial jogar um pouco de papo fora até a primeira tentativa de beijá-la. Então, por que não ocupar esse tempo descrevendo sua cidade natal imaginária? Falei da geografia, do povo, do clima e do comércio local. Descrevi até uma feirinha de artesanato e produtos rústicos. Se ela fosse uma pouco mais atenta ou tivesse viajado mais para dentro do país do que para o exterior, teria sacado que falei por longos minutos sobre Nova Friburgo. De tanto me aproximar dela para que pudesse me escutar por conta do som alto, notei que ela exalava cheiro de nicotina. Estava aí a deixa para sairmos da barulheira e ir para um local mais tranquilo.
- Topa dar um pulo lá fora para fumar um cigarro?
- Eu estou sem aqui. Acabou antes de entrar na casa.
- Eu tenho. Vamos?
Já lá fora, sem barulho e mais à vontade, comecei a desenvolver o papo dos elogios. Sorriso bonito! Ela abria um sorrisão agradecendo. Olhos enigmáticos! Ela envergonhada cobria o e depois agradecia mais uma vez. Na tentativa de cortar meus avanços, ela lamenta que o cigarro acabou. Saco um maço do bolso, entrego em suas mãos e pergunto se posso continuar me divertindo descobrindo seus atributos. Com um cigarro na boca, ela disfarça um sorriso tímido e acena com os olhos que sim. Aproveito e prossigo como uma metralhadora de galanteios. Adoro cabelos cacheados! Você tem uma altura boa! Acho tão sexy pintinhas no rosto! Quase todos exagerados ou incoerentes com a realidade. Exceto o sobre como é elegante a forma de segurar o cigarro. Ela não consegue mais disfarçar que está lisonjeada. Avanço ferozmente e a beijo. Ficamos nos beijando por longos minutos até que em uma breve pausa, falo com meu inglês peculiar:
- As pessoas estão começando a nos olhar. Acho que estamos empolgados demais. Vamos lá do outro lado da rua que está mais sossegado?
Ela aceitou e, assim que nos encostamos em um carro, já a peguei de jeito deixando clara minha intenção. Acompanhando minha pegada, ela foi fundo no calor da coisa e nos agarramos intensamente. Aquele pedaço da calçada era bem escuro por conta de uma lâmpada de rua queimada e muitas árvores ao redor. No meio da empolgação, Graciane pediu para que falasse alguma sacanagem na minha língua mãe. Fiz uma bela pigarreada recheada com vogais e ela ficou eufórica. Perguntou o que significava e respondi que era algo como vou te lamber toda. Excitada com o momento, ela pediu mais, só que em inglês. Fiquei bem aliviado, pois se pedisse para repetir o que tinha dito antes, não acertaria uma sílaba sequer:
- Vou te lamber toda da cabeça aos pés. E, ao final, fazer tudo novamente para ter certeza que não esqueci parte alguma.
- Nossa – ela me apertava. – Fale mais.
- Vou te dominar, mostrar quem manda. Farei de você minha putinha.
- Vai? Onde?
- Aqui e dentro do meu carro! No quarto do meu hotel! No banheiro do hotel! Na varanda, na piscina e no elevador. Na sua cama e no sofá da sua sala.
- Sério? Mas isso requer muito tempo.
- Eu vou ficar duas semanas por aqui e vou te comer todos os dias para nunca mais me esquecer.
Foi nesta hora que ela se descontrolou de vez, abriu minhas calças, colocou meu pau para fora e com a mão cheia começou a me masturbar. Não precisei de pouco mais de um minuto para gozar. Foi uma lambança enorme. Respingou nos dois e no carro. Muita atenciosa, ela limpou meu pau, colocou para dentro das calças e a fechou. Depois sugeriu para irmos para o hotel terminar as coisas. E agora? Poderia sugerir um motel com a conveniência logística. Estávamos na Lapa, ela morava em São Cristóvão e disse que o hotel ficava na Barra. Logo, leva-la para o hotel seria, supostamente, uma enorme contramão para ela depois ir embora. Tinha em mãos uma desculpa para optarmos por um motel fuleiro qualquer do centro da cidade. Contudo, a verdade é que não tinha mais coisa alguma para terminar. Tinha bebido uns chopes, fumado uns cigarros, beijado na boca, ganhei uma punheta e gozei com um desempenho olímpico. Tudo que queria na verdade era minha cama.
Sem que ela percebesse, derrubei a chave do meu carro para cair entre o meio-fio e a roda do carro que estávamos encostados. Ela caiu perfeitamente escondida onde mirei. Andamos até meu carro e lá fiz toda aquela cena de chave perdida. Convoquei Deus, Madre Vasconcelos, São Longuinho e outras personalidade cristãs voltadas para o milagre do aparecimento de objetos esquecidos em gavetas desarrumadas.
- E agora?
- Relaxa. Vamos fazer o seguinte, você pega um táxi e vai para casa. Eu vou ter de acionar a locadora do carro. Sabe como é, né? Turista só anda de carro alugado.
- Tem certeza?
- Tenho. Amanhã nos encontramos em frente ao hotel, pegamos uma praia e depois retomamos o que ficou incompleto aqui. Eu quero muito repetir isso. Você gostou?
- Uhum – ela respondeu meio seca. – Mas como faremos?
- É só me dar seu telefone. Digita aqui no meu celular e disca para ter uma chamada perdida.
- Está bem – ela pegou meu telefone, digitou os números e pressionou a tecla chamar.
- Está tocando?
- Sim, está vibrando aqui na minha bolsa.
- Tem certeza?
- Tenho!
Trocamos mais dois beijos de despedida, chamei um táxi e quando ela estava partindo disse que a ligaria pela manhã. Ela sorriu e foi embora para o meu alívio. Podia em paz voltar para casa. Peguei minha chave no mesmo local onde derrubei, fui até meu carro e antes de entrar tirei meu celular do bolso de trás como de hábito. Três ligações não atendidas. Era o mesmo número que a Graciane digitou. Menina ansiosa! Não ia retornar mesmo. Coisa chata. O celular volta a tocar. Que saco! Atendi:
- Oi, Graciane – falei em inglês.
- Quem está falando? – Perguntou uma voz masculina em português.
- É o taxista? – Perguntei desta vez em português.
- Que taxista, porra?
- Este celular não é da Graciane?
- Que Graciane, porra? Meu nome é Eduardo! Estava dormindo até me incomodarem. Quem está me ligando às quatro da manhã?
- Desculpe, Eduardo. Parece que uma filha da puta mentiu para mim.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Histórias reais inventadas por mim

Parceiro
Depois de dois meses de combate na floresta fechada, apenas Simon e Terence estavam vivos. Dentre os quarenta e cinco soldados do oitavo grupamento de infantaria, apenas eles sobreviveram. Já estavam na segunda semana vagando sozinhos mata adentro e a comida tinha acabado. Água não era problema, pois chovia muito na região. Pelos cálculos deles, mais seis dias andando quinze horas por dia em direção ao noroeste seriam suficientes para chegar a uma região onde outro grupamento estaria acampado.
Durante a segunda metade de caminhada daquele dia, eles foram surpreendidos com aviões procurando por soldados na região. Na tentativa de melhor identificar se eram aliados ou inimigos, acabaram sendo vistos. Eram aviões inimigos. Um deles retornou dando um rasante e disparou dezenas de tiros. Um acertou Terence no meio da barriga fazendo um grande estrago. O sangue não parava de jorrar pelo ferimento apesar dos esforços de Simon em tentar contê-lo.
- TERENCE, PORRA! PORRA! MAS QUE PORRA!
- Parceiro... Me... Desculpe...
- CARALHO! COREANOS FILHAS DA PUTA! MALDITOS SEJAM!
- Simon... Preciso que me escute... Por favor...
- Sim, claro! Pode falar, parceiro.
- Diga à minha esposa que... Que a amo... Diga que queria ter muitos... Muitos... Muitos filhos com ela... Obrigado.
- Pode deixar, parceiro. Assumo esta dívida agora com você e ela será a mais nova motivação para sair deste inferno. Que Deus esteja com você. Eu te amo.
Simon então fecha os olhos de Terence, faz o sinal da cruz, se levanta e inicia a caminhada. Seis ou sete passos depois ele escuta:
- Simon... Simon... Parceiro!
- Terence? – Ele retorna até o parceiro deitado no chão. – Terence?
- Eu não morri ainda.
- Mas sua fala estava fraca. Eu até fechei os seus olhos.
- É, eu sei. Achei bonitinho e achei melhor não estragar o seu momento.
- E como você está?
- Olha... Continuo sangrando bastante e o tiro está começando a arder para valer.
- Eu sei, parceiro. Que merda! QUE MERDA! Calma! Respire com calma, Terence. Você precisa ter paz neste momento. Feche os olhos. Pense em coisas boas.
- Simon?
- Sim, parceiro?
- Eu acho que ainda não vou morrer.
- Meu Deus, parceiro! Por favor! Por favor! Por favor, não me peça isso.
- Pedir... Pedir o quê, Simon?
- Pedir para te finalizar. Eu sou incapaz de fazer isso com você. Não quero conviver com isso o resto da minha vida.
- Não... Não, Simon! Não quero que me mate. Apenas fique comigo.
- Ah claro, parceiro! Pode contar comigo. Ficarei aqui ao seu lado o tempo todo. O que quer que eu faça?
- Aparentemente, nós... Nós não temos muitas opções, né? Apenas converse comigo.
- Sim! Sim, Terence. Tudo pelo seu conforto. O que quer falar?
- Ah... Simon... Qualquer coisa. Conversa comum. Apenas me ocupe a cabeça. Finja que acabamos de nos encontrar.
- OH MEU DEUS, TERENCE! VOCÊ FOI BALEADO! PUTA QUE...
- Não... Simon! Não... Finja que nos encontramos em uma situação normal. Preciso apenas jogar papo fora.
- Ah claro! Faz mais sentido. E aí, Terence? Como vai?
- Simon, como nunca notei que você era um idiota?
- Desculpe, Terence. Sinto muito mesmo. É que estou muito nervoso vendo você sangrando e agonizando à beira da morte.
- Bem, já que mencionou. Até que estou bem, Simon. Continuo sangrando como uma mula sacrificada, mas nem cheguei a agonizar ainda.
- Então não quer que te carregue e...
- Não! Simon, não! Eu vou morrer!
- OH CÉUS, TERENCE! EU NÃO QUERO VER ISSO! NÃO QUERO ESSA IMAGEM...
- Simon! Simon! Homem, eu vou morrer em breve, mas não agora. Não precisa me carregar.
- Ah sim! Agora entendi. Que alívio.
- Mas cedo ou tarde morrerei.
- Não diga isso, Terence! Isso atrai coisas ruins.
- Tipo o quê, Simon? Um contêiner cheio de médicos, gazes e curativos cair na minha cabeça?
- Claro! Que bobagem a minha.
- Pois é!
- E como está aí?
- Ainda sangrando.
- Demora, né?
- Mais do que eu esperava.
- Também estou achando isso. Nos filmes, normalmente o parceiro faz o último pedido e logo em seguida morre. Será que estamos fazendo algo errado? Será que esquecemos de algo?
- Com certeza, Simon. Com certeza nos esquecemos de algo. Eu esqueci de morrer.
- Poxa, Terence, estou preocupado. Não sei o que fazer enquanto está aí deitado sangrando sem parar como um chafariz – Simon coça a cabeça e segue falando. – Quer um pouco de água?
- Você falou em chafariz e ficou curioso para saber se, após beber a água, ela vai sair pela minha barriga?
- Sim, um pouco.
- Simon, eu não sou o Patolino.
- Eu sei. Eu sei, Terence. Tenha paciência.
- Ok... Me dê o cantil.
- Vai testar?
- Não, Simon. Estou com sede após sangrar uma cisterna de sangue.
- Ahn... Está aqui!
- Obrigado – Terence bebe um, dois, três goles. – Cof! Cof! Simon!
- Céus, Terence! É agora?
- Não, homem! Apenas engasguei.
- Desculpe, Terece. Preciso confessar que estou um pouco ansioso com isso. Essa morte que não chega está me deixando nervoso.
- Saia daqui, Simon.
- E agora?
- NÃO, SIMON! APENAS SAIA!
- E te deixar sozinho, parceiro?
- Não, Simon! Preciso apenas que se afaste um pouco. Essa água me deu gases.
- Peidar? Você quer peidar? Pare de bobagem, Terence. Ficarei do seu lado o tempo todo.
- Você está querendo ver se, na tentativa de peidar, farei bolinhas de sangue pelo tiro na barriga, não é?
- Sim!
- Cristo, eu não sou um desenho animado... Faz o seguinte, Simon. Por favor! Pegue aquela pistola e finalize logo comigo.
- Não! NÃO! JAMAIS!
- Simon, porra! Está escurecendo, você vai perder meio dia de caminhada e correr o risco de não encontrar com os aliados.
- Eu fico uma semana aqui com você, perco o ponto de encontro, mas não te sacrifico, parceiro.
- Larga de ser idiota, Simon! Preciso que você pegue o ponto de encontro para dar o recado à minha esposa. Por favor!
- Ok, Terence. É justo. Como prefere?
- Que tal um tiro na cabeça?
Simon então se virou de costas para Terence, puxou a pistola e apontou para trás na direção do seu parceiro. Os dois então fecharam os olhos juntos. Simon balbuciou algo que parecia uma breve prece e disparou. Ele fez o sinal da cruz e seguiu em frente com os olhos marejados. Tudo que ele queria agora era voltar para casa e dar o recado à esposa de Terence. Minutos depois ecoou pela floresta.
- SIMON, SEU IDIOTA! VOCÊ ERROU! E VOCÊ NÃO PEGOU O NOME E ENDEREÇO DA MINHA ESPOSA!