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quinta-feira, 30 de março de 2017

Volúvel

Carina
- Você quer ficar solteiro para sempre?
A pergunta da Carina percorreu todo meu sistema nervoso como se fosse um fantasma arrastando correntes por uma casa assombrada. Gelei e nenhuma outra reação era possível.
Nós homens nascemos com alguns defeitos de programação de fábrica que nos fazem reagir de maneira exagerada a algumas situações inocentes. É algo inerente por mais que reconhecemos. Basta fazer um teste com seu companheiro. Quando ele estiver na sala distraído, por exemplo, grite do quarto algo como:
- O QUE É ISSO, PEDRO HENRIQUE?
Estou supondo que ele se chame Pedro Henrique. Do contrário, aí você que vai ter um problema. Enfim, ao gritar isso, mesmo que o dito cujo não tenha culpa no cartório, instintivamente, sob efeito de algo mais forte, ele se tremerá todo, gaguejará e, não me surpreenderia caso chorasse pedindo desculpas enquanto se encaminha engatinhando para o quarto.
Algo do tipo já aconteceu comigo certa vez. Estava dando aula pela primeira vez para uma turma de primeiro período. Toda aula é sempre a mesma coisa, um aluno ou outro fica ao final para falar algo, útil ou não. Na maior parte das vezes, são lamentações gratuitas. Em turmas de primeiro período, inevitavelmente, por cautela ou excesso de respeito, os alunos costumam me chamar de senhor, professor, mestre ou algo do tipo. Naquele dia, uma aluna, mais velha que a média, algo em torno de uns vinte e cinco anos, ficou por último para falar comigo. Ela começou a conversa com:
- Preciso falar com você.
O pronome informal derrubou qualquer barreira que me deixaria ressabiado com as famosas lamentações de primeiro dia de aula. Pior ainda, criou um falso ar de intimidade entre os dois. À vontade, deixei que a aluna prosseguisse. Foi quando que ela sapecou:
- Estou grávida.
As minhas pernas fraquejaram. A pele, sempre branca, ficou da cor de uma vela. O suor surgiu abruptamente na testa. E dentro da minha cabeça ouvia a banda do Programa do Ratinho tocando “Parabéns pro papai!”. O desespero aflorava cada vez mais quando finalmente me toquei que nunca tinha visto aquela menina até então. Tudo não passava de mais uma reação exagerada por conta do nosso defeito de programação original.
Voltando à pergunta da Carina. Fui pego de surpresa. Não esperava que um dia ela tocasse nesse assunto. Quando a conheci, me alertavam que ela precisava de escolta. A garota não marcava bobeira. Chegava junto e na pressão. Era daquelas que se você piscasse, ela te sacudia e só se daria por si quando estivesse estirado em um motel, com ela sentada à beira da cama se penteando e te apressando para pedir a conta, pois não quer perder o capítulo da série sobre as Kardashians. É, ninguém é perfeito. Evitei-a em algumas oportunidades para não ter dor de cabeça, até que um dia foi inevitável. Numa madrugada de dia de semana, Carina apareceu bêbada debaixo da minha janela gritando meu nome. Algo precisava ser feito antes que os vizinhos reclamassem. Ou me chamassem de frouxo. Deixei que entrasse e obviamente que o bicho pegou. Sem cerimônias, ao final, ela tomou um banho e foi embora. Mantivemos até então uma relação que não sei ao certo como classificar. Era quase que um delivery reverso. Ela ligava, perguntava se estava disponível e vinha ao meu encontro. Satisfeita ou com a tarefa razoavelmente encerrada, pois não vou mentir que sempre dou conta da libido dela, ela ia embora e a vida seguia.
Era uma dinâmica tão bem resolvida e prática que não tinha motivos para mexer naquilo. Eu mesmo tentei dar um toque especial algumas vezes. Em uma delas, chamei a Carina para comer uma coisa na rua antes. Ela dispensou. Nada em público. Para ela, nossa relação se limitava ao meu quarto. Noutra, propus um vinho antes. Foi rapidamente colocado de lado por ela. A possibilidade de um dos dois cair bêbado ou ter de lidar com uma ereção capenga por motivos alcoólicos fizeram Carina manter o protocolo objetivo. Nada fugia da rotina que era chegar, um agarrava o outro, tirávamos a roupa, transávamos como dois babuínos no cio e, se ela estivesse com uma folga de tempo, um papinho depois, do contrário, banho e ia embora.
Por conta da sua personalidade e do implícito contrato sexual consentido por ambas as partes, a pergunta me causou pânico. Sem falar do famigerado defeito de programação já citado, obviamente. Não acreditava que chegaria ao ponto de ter de inventar uma desculpa para me desvencilhar dela. Era tudo ótimo como estava. Por qual motivo ela queria entrar em um relacionamento sério? Aliás, por que transformar em um relacionamento?
- Você está doido? De onde tirou que quero algo sério com você? Eu nunca quis algo sério com alguém. Imagine com você. – ela terminou a fala rindo.
- Não precisava me magoar também. Era só falar que entendi errado.
- Você entendeu MUITO errado. – Carina fez questão de enfatizar o muito. – Aliás, você sempre entende tudo errado. A única coisa que me interessa é se pretende ficar nessa por muito tempo ou corro risco de perder meu objeto sexual para alguém disposta a desenvolver uma relação com um pervertido incorrigível.
- Estou confuso se devo ficar mais magoado ou se isso foi um elogio.
- ANDA! – ela demonstrou um pouco de impaciência. – Responde logo!
- Responder o que, baby?
- Corro o risco de perder o meu brinquedinho por demanda?
- Não, não corre. Por quê? Posso saber?
- Porque estava pensando em dar um passo à frente nessa brincadeira. – vendo que meus olhos se arregalaram novamente, Carina se antecipou em me acalmar. – Não é o que está pensando, desesperado. Quero apimentar mais as coisas que estão começando a ficar monótonas.
Já tinha um tempo que a Carina dava sinais que ia pedir algo do tipo. Mesmo sendo bem resolvida, tinha a impressão que ela ficaria nas indiretas e dicas soltas no ar até que eu me tocasse e pedisse. Engano meu. Ela mandou na minha lata, direto e reto. Queria fazer um ménage à trois. Sim, meus caros. Ela propôs por iniciativa própria o Santo Graal da perversão masculina. A menor das surubas. Apenas uma condição foi imposta, eu quem deveria arrumar a terceira pessoa. A euforia dela com a minha pronta aceitação foi tamanha que desistiu de se vestir para ir embora e pediu mais umazinha.
- Tá, mas preciso de uns quinze minutos que ainda estou meio cansado. – eu tive de ser honesto.
Já tinham se passado dois dias e nada de chegar perto de ter um nome. Mesmo empolgado, ou ansioso, ou excitado mesmo, com a proposta, estava empacado na parte do arrumar a terceira pessoa. Na teoria, essa parece ser a parte mais fácil. Inocência da minha parte. A primeira coisa que me veio à cabeça foram as amigas lésbicas. Ora, é, no mínimo, ofensivo achar que a pessoa por ser lésbica tem um nível de perversão diferenciado ao ponto de topar uma surubinha. Por que uma amiga heterossexual não teria tal nível de perversão? E o pior? Por que acreditar que uma amiga lésbica está mais propensa a topar algo com um homem do que uma amiga heterossexual topar algo com uma mulher? Achei melhor abordar quatro amigas. Era sempre a mesma ladainha inicial. Comentava do meu dilema e perguntava se elas tinham uma conhecida para indicar. Notem que em nenhum momento convidava a própria amiga. Para enfatizar o desapego da proposta, não perguntava por amigas delas, mas por colegas. Tudo para deixar no ar uma falsa intenção de não ter intimidade com a presa que seria devorada por mim e pela Carina. Obviamente, era uma estratégia escalafobética para a pessoa se candidatar. Das quatro, três chegaram a pedir para ver uma foto da Carina. Não sei por qual motivo, mas pediram. De corpo inteiro e uma do rosto de perto. Nenhuma das quatro se propôs, tampouco indicaram alguém. Em compensação, todas pediram relatos caso eu conseguisse colocar em prática. Claro que daria relatos sensacionais, mesmo não acontecendo, inclusive.
Já estava com aquela missão nas mãos há mais de uma semana e nada. A solução mais óbvia de todas martelava minha cabeça toda vez que me lembrava dessa pendência. Carina começou a me cobrar e, num ato de desespero, segui com a famigerada solução. Contratei uma garota de programa. Claro que para ficar por cima, combinei com a profissional que ela deveria ser atriz, fato que fez com que tentasse me extorquir umas notas a mais. Não colou. Acordei com ela que fingisse ser minha amiga. Dei umas dicas para que ela tivesse histórias em comum comigo, dentre outras futilidades que denunciaria a nossa amizade fictícia.
No dia combinado, Angel, a garota de programa chegou bem antes do horário marcado. A ideia era fingir intimidade. Ela estaria descalça deitada no sofá como se fosse antiga frequentadora da casa. Pedi também que ficasse só de blusa e calcinha. Ah, e mudamos o nome dela. Porque, convenhamos, Angel era demasiadamente óbvio. Virou Patrícia mesmo.
- Mas já iniciaram os trabalhos na minha ausência? – Carina disse assim que entrou e encontrou a Patrícia refestelada seminua no meu sofá.
- Que nada – Patrícia tomou à frente. – Foram uns amassos de leve. Coisa de matar a saudade.
- Matar a saudade, é? – Perguntou a Carine.
- É, matar a saudade. – Concordei sem ter a mínima ideia do que a Patrícia falava e em seguida perguntei à própria. – Matar a saudade, né?
- Claro – Patrícia seguiu com seu roteiro inventado sobre algo que não combinamos. – Desde Cabo Frio, lembra? Devem ter uns seis meses que não nos vemos. Não é?
- Sim, imagino que seja isso. – Confirmei. – Não tinha noção de quanto tempo não nos víamos. Tanto que não comentei algo sobre com a Carina. Aliás, ainda bem, né? Digo... Aliás, esta é a Carina e esta é a Patrícia.
As duas se cumprimentaram e ficaram sentadas uma ao lado da outra no sofá. Fui à cozinha pegar uns copos para servir a tequila que a Carina exigiu para tirar a timidez. Seja lá o que ela chamava timidez. Enquanto buscava copos, garrafa, limão e sal, eu fiquei com os ouvidos ligados na conversa da sala. Sabe-se lá o que a boca descontrolada da Patrícia aprontaria. Ela deu sorte no assunto do tempo que não nos víamos. Nem queria imaginar o que aconteceria se tivesse dito para a Carina que eu tinha a visto recentemente ou algo que fosse contraditório à demência que ele resolveu improvisar.
- Você é muito mais bonita pessoalmente – ouvi da cozinha a Patrícia dizer para a Carina.
- Jura? O baby mostrou foto minha para você?
- Baby?
- Sim, ele é o baby.
- Nossa que apelido fofo. Por que disso?
- Porque ele chama todo mundo de baby. Nunca ouviu isso?
- Claro que ouviu! – Voltei da cozinha interrompendo o diálogo das duas. – Praticamente pontuo as frases com baby. Sua tequila.
- Carta ouro? – Carina perguntou num misto de exclamação e demonstração de ter ignorado a mancada. – Você capricha mesmo.
- Não é um dia qualquer, baby.
- Tem razão – Carina concordou para depois ponderar. – Ainda assim me senti meio desprivilegiada. Você mostrou foto minha para ela, mas não me mandou uma foto dela sequer.
- É como ela disse, baby. Tinha muito tempo que não nos víamos, então mandar uma foto antiga poderia criar uma ilusão.
- Exatamente – Patrícia interveio para o meu desespero. – E sem falar que seis meses atrás eu estava gordinha. Tipo inchada, sabe? Não foi uma época boa para mim.
- Nossa – Carina se espantou. – Nem diria que já foi gordinha. Você tem um baita corpão.
- Obrigada! Ah, obrigada! – Patrícia agradeceu à Carina pelo elogio e a mim pela dose de tequila que foi virada rapidamente. – Quem diria naquele dia em Ilha Grande em que nos conhecemos que iríamos um dia estar aqui nessa aventura?
- Ilha Grande? – Carina se espantou e eu, calado, também. – Baby, nunca te imaginaria em Ilha Grande.
- Que coisa, não? – Interagi com um sorriso artificial. – Foi uma única vez e foi suficiente só por encontrar essa pérola. Não é mesmo, meu anjo?
- Patrícia! – A infeliz não entendeu o meu sarcasmo e corrigiu o que não precisava.
- Esquece – Cortei o tema para evitar maiores problemas e já puxei outro com o intuito da Carina se expor, já que tinha acordado com a Patrícia alguns dias atrás que isso precisava ser combinado antes de começar a fodelança. – Que tal falarmos sobre preferências ou restrições para a atividade do dia?
- Então, que bom que tocou no tema – Patrícia, sabe-se lá o porquê, tomou a frente da conversa. – Vai ter de rolar uma restrição, sim. Sabe como é, né? Ontem tive relações com um cara...
- Um cara? – Carina a interrompeu espantada. – Você não é gay? Ela não é gay, baby?
- Sim, ela é. Digo, não! Quero dizer... – Tentei explicar, me enrolei e fui cortado pela Carina.
- Poxa, baby! Imaginei que traria uma amiga gay para interagir comigo. Você é muito egoísta mesmo. A ideia foi minha e você quem vai ficar com a atenção das duas.
- Não, não é isso – A Patrícia se meteu na conversa. – Você está confundindo as coisas, gata. É Marina, certo?
- Carina! – A própria respondeu.
- Então, Carina, eu topo qualquer parada. Meninas e meninos. Pode relaxar quanto a isso. Inclusive, acho que só vou te dar atenção hoje, pois, como estava querendo dizer, ontem transei com um cara e ele me deixou um pouco machucada. Ele era meio sem jeito, sabe? Daí, hoje não vai rolar anal.
- Patrícia – tentei intervir em vão.
- Pois vou te falar uma coisa, Carina. Tem bastante tempo que não vejo esse cachorro, mas parece que foi ontem. Lembro bem do estrago que ele me fez da última vez.
- Patrícia – insisti em interromper a improvisação não combinada dela.
- Aliás, – ela fez uma pausa para tomar um shot de tequila me dando a oportunidade de cortá-la, mas a desperdicei pasmo com o talento da menina para fazer merda. – da última uma pinoia. Todas às vezes. Impressionante como que, em toda vez que transo com o bebê, digo, o baby, ele arregaça o meu rabo.
- Ele o que? – Carina se espanta.
- Patrícia – faço mais uma intervenção, mas já sabendo que talvez seja tarde demais.
- Não! Peraí! – Carina se impõe. – Ele não gosta de cu. Nunca comeu cu na vida. Baby, quem é essa garota?
Até poderia contornar a situação, mas minha pausa com uma expressão de derrota acusou tudo. Em questão de segundos, a Carina ligou todas as mancadas que a Patrícia cometeu naquele pouco espaço de tempo e concluiu acertadamente que não éramos amigos como tínhamos nos apresentado. Foram necessários mais uns segundos para a Carina perceber que, se não era amiga, só podia ser uma garota de programa.
- Ok, você me descobriu. – Patrícia não sabia mesmo a hora de se calar. – Entenda que isso não tem problema algum. Sou profissional. Acredite, vai ser bem melhor do que com uma conhecida sem experiência.
Carina, segundo ela mesma, pouco se importava com experiência, desenvoltura ou traquejo para a coisa. A preocupação era higiene. Patrícia, ou Angel, tanto faz, obviamente fez uma cena se explicando sobre como era uma pessoa limpinha. Não era disso que Carina se referia. Ela estava preocupada com doenças. Não se sentia segura com uma pessoa que indiscutivelmente é considerada grupo de risco. A profissional se ofendeu sem motivos, ficou irritada e começou uma discussão com a Carina. Foi uma baixaria só. Nada perto da baixaria que esperava que fosse rolar no meu quarto. Carina, no auge da discussão, afirmou que não falaria mais com ela e decretou que nada mais aconteceria. Foi uma frustração terrível. Ao menos, ela tomou partido das coisas e colocou a rainha das gafes para fora da minha casa. Fato que agradeci, pois não precisei pagar pelos (des) serviços dela. Com a saída da garota de programa, as coisas se acalmaram um pouco. Tentei aproveitar a presença da Carina para não ficar na mão, literalmente. Ela ainda estava irada com a minha atitude. Minhas atitudes, diga-se de passagem. Contratar uma garota de programa e mentir para ela. Obviamente não rolou coisa alguma. Ainda bem que ela não foi embora brigada comigo. De quebra, manteve a proposta da mesa. Na saída, sacramentou:
- Semana que vem sem falta. E nem se dê ao trabalho de procurar alguém. Você pisou na bola. Agora quem vai arrumar a pessoa sou eu.
A semana não passou tão rapidamente como gostaria. Ao menos, pelo lado bom, tive bastante tempo para planejar uns movimentos e umas posições em que fosse possível dar atenção para as duas meninas ao mesmo tempo. Pude também me manter em forma com duas séries diárias de exercícios que prefiro chamar intimamente de punheta. No final de semana, que ficou bem no meio do período, não saí. Nada de desperdiçar energia. Fiquei em casa me concentrando fazendo uma maratona de filmes pornôs sobre o tema. Aproveitei também para providenciar as bebidas que iriam dar aquela animada nas meninas. Não pensava em outra coisa que não fosse o tal evento. Cancelei todos os compromissos do dia, dormi até tarde para estar bem descansado, dei uma aparada nos pelos do playground e me prostrei no sofá esperando a chegada das duas beldades.
Nunca tinha visto Carina com mulheres dando pinta de estar se relacionando com alguma delas. Inclusive, ela sempre comentava comigo que tinha vontade de ficar com meninas, mas não tinha conseguido. Não sabia ao certo se era uma confissão sincera, ou se ela estava apenas soltando uma deixa para que eu propusesse algo. Era algo contraditório se considerasse que ela, sempre que saía, ia para baladas GLS. Seu argumento era que a música era melhor e que podia dançar sem ser importunada por um hétero babaca. Argumento inclusive que todos sabemos ser verdade, infelizmente. O fato era que, sendo verdade ou não, alguém com o perfil dela sempre conhece mais mulheres, mas não somente mulheres.
- Oi, baby – ela disse assim que abri a porta. – Esse é o Mateus.
É possível uma pessoa morta ficar de pé sem apoios? Eu provei que é possível. Sim, podíamos me considerar morto naquele momento. Meu coração parou, o sangue não correu mais, meu cérebro cessou com seus sinais e meu pau entrou. Ok, a última informação não serve para classificar um indivíduo como morto, contudo, achei pertinente para ratificar a minha reação. Não sei quanto tempo fiquei ali atônito tentando processar a informação. Eu apenas fiquei e precisei de um tranco para retomar as atividades biológicas do meu corpo. Tamanha a porrada que o próprio corpo disparou que não houve comunicação do cérebro com a boca e no instinto falei:
- Você não vai comer o meu cu!
Carina e o rapazinho riram. Ela, em seguida, entrou puxando-o pela mão. Enquanto atravessava a sala, ela se vangloriava com ele do fato de ter acertado previamente que eu teria uma reação daquele tipo ao abrir a porta. Ela sempre foi uma cretina mesmo.
- Nunca imaginei que você fosse tão inseguro.
- Não é questão de ser inseguro. Eu apenas não esperava algo do tipo. Estava aqui todo ansioso aguardando por você e supostamente uma amiguinha. Alguém da sua idade, entende? Cinturinha fina. Peitinhos, se possível, menores que o seu, só para ter uma diversidade. Sabe do que estou falando? Abre o bocão para os seus, faz biquinho para os da amiguinha. Quem sabe uma loura para contrastar com seus cabelos negros? Mas não! Surge-me um caralhudo. Não que eu tenha reparado na sua virilha para constatar isso. Eu nem olhei para aí. Droga! Olhei agora apenas para enfatizar o que estava a dizer. Não pense que sou manja rola que fica encarando o pau dos outros. Caralhudo foi um termo aleatório para dar mais dramaticidade à coisa. O fato de ter pau grande para mim não é um drama. Não! Peraí! Não quero dizer que reparei naquela olhada o tamanho do seu pau pelo volume. Eu nem olhei direito. Foi uma olhada sem ver. Sequer conseguiria dizer se o seu zíper está aberto. Vejam só! Não está! Não! Porra! Aí é sacanagem! Ele deu maior ajeitadão. Daí fica impossível não olhar. Aí, olha! Jogou para esquerda! Pronto, olhei novamente. Já encarei mais o pau dele do que o próprio rosto. Enfim, por que estou falando do pau dele mesmo?
Terminei a pergunta e fui para a cozinha para não piorar a situação. Carina gargalhando respondeu à minha pergunta dizendo que eu era enrustido. Preferi ignorar. Ela prosseguiu me sacaneando à distância falando para não me preocupar, pois o pau dele não era maior que o meu. Todavia, era mais grosso. Sequer caberia na minha mão, ela completou. Depois, finalizou dizendo que era melhor eu tentar segurá-lo para tirar a dúvida. Eu permaneci na cozinha batendo a minha cabeça contra a geladeira enquanto aquela cretina se calava.
- Baby – Carina quebrou o silêncio quando retornei da cozinha. - Vamos ter calma? Ninguém vai fazer nada que o outro não queira.
- Acho justo – peguei a deixa da Carina. – Inclusive, na semana passada, antes de começar, íamos deixar claro os limites de cada um.
- Sim, é verdade. Bem, considerando que são dois homens hoje, minha única restrição vai ser dupla penetração. De resto, é festa – Carina encerrou a fala com sua tradicional risada de doida divertida.
- Bem, as minhas serão... – minha fala foi interrompida pelo Mateus.
- Além de não permitir que eu chegue perto da sua bunda, né?
- Ora, vejam só. Parou de coçar o pau para fazer piadinhas – fiz uma pausa, pois Carina me olhou atravessada recriminando minha reação. – Enfim, isso que você falou, obviamente, além de outras partes do meu corpo. Aliás, o meu corpo todo. Por favor, mantenha distância dele.
- Ih, baby – Carina se levantou do sofá para ir à cozinha e, no caminho, me deu um tapa na testa. – Homofóbico, é? Cada segundo uma surpresa. Pego cerveja na geladeira ou congelador?
- Congelador! E não sou homofóbico. Muito pelo contrário. Sabe bem disso. Vou cumprimentar o Mateus sempre que nos encontrarmos, o abraçarei quando conveniente, entretanto, com os dois pelados, quero distância. Não consigo me sentir à vontade. Não é uma questão de discriminar homens de uma maneira geral ou apena gays. Apenas me sinto exposto quando nu na presença de um homem e a proximidade com ele me deixa desconfortável. Para se que tenha uma noção, depois do futebol, quando iam todos para o chuveiro, eu ficava enrolando do lado de fora. Sei lá. Aquele monte de piroca e bunda cabeluda não era uma cena a qual queria fazer parte. Não era questão de desejos reprimidos, não me garantir caso alguém se aproximasse, ou complexo de comparar medidas. Trata-se de uma cena que não me apetece. Tipo animal sendo maltratado, escatologia ou pele de idoso um dia depois de uma pancada.
- O que acontece com a pele de idoso depois de uma pancada? – perguntou o Mateus.
- Fica roxo, mas não é como um hematoma. Apenas a pele mesmo. Coisa nojenta que depois descasca como plástico de capa de caderno vagabundo.
- Baby, – Carina voltou da cozinha. – é sério que de restrições sexuais, já está divagando sobre pele de velho?
- Pois é, acabei indo longe. Enfim, é isso que falei. Ah, e sem contato visual. Não me leve a mal, mas sem olhares cruzados.
- Vocês dois vão ficar transando comigo de cabeça baixa como dois submissos?
- Não precisa ser assim... – Carina não me deixou terminar a frase.
- Você está muito fresco, baby.
- Não é frescura, baby! É questão de não querer encarar outro homem na hora que estiver excitado de pau duro. Nem em filme pornô faço isso. Tem umas horas que eles filmam só o rosto do ator para mostrar a excitação dele. Tá doida? Bater uma punheta olhando para um macho contorcendo artificialmente o rosto à beira de estirar um músculo. Sem falar quando dão close na penetração. Estão lá, pau e boceta. Boceta paradinha e pau dentro, pau fora. Só que ele ocupa a tela toda. E eu balançando o meu encarando a rola de outro cara. Falta apenas eu comentar em voz alta “que rola lustrosa”. Não, não quero! Vou ficar olhando para você o tempo todo. Seu rosto, seus peitos, sua boceta. Se estiver de costas, fico encarando seu rabo. Caso não tenha ângulo para ver alguma coisa, fecho os olhos e imagino a Penélope Cruz.
- Sério? – Mateus pareceu, inicialmente, não aprovar meu comentário num todo. – Ela tem cara de suja.
- Não ouse falar assim dela. Bem, mas que seja! Então me dê um nome. Se fechasse os olhos, em quem pensaria?
- Pierce Brosnan vestido de James Bond.
- Não prefere o Sean Cornery? Peraí! Você é gay?
- Sim, claro! Por quê?
- Gay ou bi?
- Gay! Por quê?
- Você já transou com alguma mulher antes?
- Não, nunca. Mas é que tenho tanta intimidade com a Carina que acho que não será problema.
- Acha? Você... – eu mesmo me interrompi. – Carina, ele acha. Sabe o que acho? Que ele não vai conseguir e, como não cedi coisa alguma que lhe favorecesse, ficamos com poucas opções. Ou os três ficam apenas conversando, ou apenas transarei com você como sempre e ele ficará ao redor da cama... sei lá... cantando La Vie En Rose para dar um toque romântico a mais um ménage fracassado.
- Nossa, que cafona. Não tem outra música melhor?
- MATEUS – eu e Carina gritamos juntos.
Ficou claro naquele momento que nosso plano tinha ido por água abaixo. Pelo menos eu e Carina estávamos quites. Cada um fez uma lambança numa semana. Mesmo assim, não perdemos totalmente a viagem. Largados pela sala, consumimos tudo que tinha preparado enquanto falávamos as mais diversificadas putarias. Mateus foi embora com uma imagem diferente de mim. Percebeu que não era preconceituoso com gays em geral, mas que apenas tinha restrições próprias com o mesmo sexo nu na minha companhia tão compreensíveis quanto a incapacidade dele de ter relações sexuais com mulheres. Carina tentou, com a ajuda dele, fazer um levantamento de nomes em comum para convocar para uma terceira tentativa. Ao final, nos demos por vencidos e deixamos o projeto na gaveta. Na próxima semana, seríamos apenas nós dois, assim ficou combinado. Sem invenções, sem peripécias. Apenas o sexo conveniente e objetivo de sempre. Até mesmo porque, já estávamos há duas semanas sem.

Outro conto da coleção? Leia Anita

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

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Viviane
- Pode sentar logo e desembuchar essa história.
Foi assim que a Julia me recebeu no bar. Sem entrar no mérito de ela estar na metade de um chope, mesmo eu não estando atrasado. A Julia não aguentava mais as minhas lamentações em doses homeopáticas por mensagem de celular. Na ânsia de curar a sua curiosidade mórbida pela minha desgraça, ela marcou aquele encontro para conversarmos pessoalmente. Obviamente, ela também queria me ajudar, mas, convenhamos, essa era uma motivação secundária.
- Eu quero saber do início – ela me interrompeu quando falava de um fato já no meio da cronologia. – Vai contando que peço outro chope para mim e um para você.
O início foi numa noite que estava andando por Laranjeiras. Não lembro ao certo o que estava a fazer por lá. Só sei que me sentei em uma lanchonete para comer alguma coisa rapidamente quando senti uma mão no meu ombro. Era a Viviane. Tinha sido minha aluna e se formou recentemente. Convidei-a para se sentar do meu lado e ficamos jogando papo fora. Aquela coisa de sempre. Como estão as coisas? Saudades da faculdade? Está trabalhando? Lugares comuns para ver se a conversa fluía. Cedo ou tarde, um dos dois teria de se levantar para seguir a vida mesmo.
- Tá, e o que aconteceu? – perguntou a Julia.
A conversa fluiu. Principalmente quando perguntei sobre a carreira de cantora que ela sempre levou em paralelo. Era evidente que a faculdade seria usada por ela como uma segunda opção para dar suporte financeiro e, assim, permitir que se dedicasse mais à carreira musical. Viviane ficou impressionada por ter me lembrado desse detalhe de sua vida e desandou a falar sobre a carreira. Aparentemente, ela era mais iludida por propostas vazias que qualquer outra coisa. Vira e mexe aparecia alguém dizendo estar impressionado com a voz dela, ou que pretendia montar um projeto no qual ela se encaixaria perfeitamente. Dias depois, sumiam ou desconversavam com alguma mudança repentina de planos. Todavia, ela sempre foi patologicamente otimista e, por isso, não se abalava.
- Poxa que chato para ela – a Julia lamentou.
Ela era feliz assim e isso que importava. De qualquer maneira, senti que o tom que ela deu era um pouco carregado de lamentação. Achei então que cortar repentinamente o assunto e ir embora, porque já tinha terminado o que tinha para fazer na lanchonete, seria indelicado. Perguntei se ela queria esticar a conversa em um bar do outro lado da rua e ela topou. É incrível como tudo muda quando se sai de uma lanchonete e vai para um bar. O ar é mais convidativo para conversar. O papo fica mais leve.
- Não se esqueça do álcool que começa a entrar para a verdade sair. – Julia foi pontual.
Falamos sobre vida pessoal, família, problemas com o proprietário do apartamento e antigos namorados. Tudo regado a alguns chopes e uma dose de tequila que pedi para brindarmos a sua formatura, coisa que jamais tinha feito com ela. Nunca tinha conversado tão abertamente com a Viviane, mesmo com quatro anos de faculdade. Isso foi algo que os dois notaram em determinado momento e tentamos entender o porquê disso. A versão dela era sustentada pelo fato de ser tímida. Tanto que raramente me procurava para tirar dúvidas, inclusive. Já o meu motivo, ela não compreendia. Eu sempre fui o irreverente, despojado e falador. Pois a verdade era que, com ela, eu travava. Sempre tive um problema sério com ela. Desde o primeiro período, a Viviane era a mais madura da turma em um nível muito acima das outras meninas da turma. E isso não era apenas porque ela era um pouco mais velha. Isso ficava discrepante se comparássemos com as que estavam se formando na mesma época. Não bastante, ela sempre foi uma graça. Toda pequena, mignon e com uns olhos claros capazes de fazer a Medusa virar pedra se os encarasse.
- Você disse exatamente isso para ela?
- Aham.
- E ela?
Houve aquele momento de silêncio. Não sabia ao certo o que esperar dela e, ao mesmo tempo, tampouco o que realmente gostaria de ouvir. Ela ficou parada com aqueles olhos enormes na minha direção. Até que, em certo momento, abaixou a cabeça, esboçou um sorriso e, ao voltar os olhos para mim, reclamou que era um absurdo, depois de quatro anos, só naquele momento estava anunciando aquilo para ela. Ora, falar isso para uma aluna pode soar como assédio sexual até para o juiz mais machista. Ela riu, me chamou de bobo e bebeu o resto de chope em um gole só. Junto com o folego que é retomado após um longo gole, surgiu a coragem para que me dissesse que adoraria ter ouvido aquilo desde o primeiro período. Pronto. Estava travado de vez. Abaixei a cabeça e não sabia como reagir.
- Como, seu pateta? – Julia disse indignada. – Você deveria ter se levantado e lascado um beijo nela.
Eram muitos fatores desfavoráveis naquele momento. Não bastante estar travado, estávamos em um local público com bastantes olhos ao redor. Para completar, a geografia da coisa não ajudava muito. Estávamos em uma mesa quadrada, um de frente para o outro. O que deveria ter feito? Debruçar-me sobre a mesa e beijar a Viviane? Pareceria uma atitude esganada da minha parte. Sem citar no desconforto que potencialmente faria o beijo durar segundos. Deveria me levantar, dar a volta na mesa e, de pé, beijar a Viviane ainda sentada? Uma coisa meio Bela Adormecida, meio enfermeiro atendendo paciente em ambulatório? Deveria ter feito com que ela ficasse de pé e a beijado em seguida? Seria uma cena de filme. Ainda mais se durante o beijo o gerente do bar gritasse que sairia uma rodada por conta da casa. Não, nada disso aconteceu.
- Você é um lerdo mesmo – Julia se revoltou. – Você deveria ter beijado a menina. Como, eu não sei. Mas deveria. De qualquer jeito que fosse, era deixa e você, lerdo como sempre, desperdiçou.
Não tinha como argumentar. A oportunidade talvez não fosse a mais apropriada, contudo era real. Foi desperdiçada. Ao menos, pelo resto da noite, continuamos especulando sobre nós dois. Flertarmos até demais da conta e, ao fim, não existia dúvida. O interesse era mútuo e grande. Tanto que, mesmo tendo deixado claro umas três vezes que precisaria acordar muito cedo no dia seguinte, ela ficou até tarde comigo por lá. Quando finalmente o bar fechou, acompanhei a Viviane até a porta do seu prédio. Algo por volta de umas duas quadras de onde estávamos. Lá, em uma rua deserta, em plena madrugada carioca, finalmente rolou nosso beijo. Ele encaixou e é ótimo quando isso acontece. Movimento, intensidade, pressão. Tudo alinhado, quase que ensaiado. Depois, nos despedimos e combinamos de nos vermos assim que ela voltasse.
- Você é muito mané mesmo.
- O que eu fiz desta vez?
- O que? Não sabe? Você não pode ser tão burro – Julia para a surra por alguns minutos e se dirige ao garçom. – Mais dois chopes, por favor.
- O meu é com pouco colarinho.
- Até nisso é bunda mole. Enfim, a menina deixou claro que te queria. Você queria. E, ao invés de saírem de lá para outro lugar, ficaram horas falando sobre o que um adoraria fazer com o outro.
- Ah, não era bem assim.
- Era para você estar sentando o pau nela. Aposto que ficaria gamadinha de primeira.
- Não fala assim, menina doida.
- Não fala assim, menina doida? Por quê? Estou manchando a imagem imaculada dela? Não acredito que você está endeusando ela.
- Não, não estou coisa... – a Julia me interrompe.
- Você está romanceando esta história. Eu sabia! Você está endeusando ela.
- Para!
- Paro nada! Eu te conheço. Se fosse outra, teria a convencido a transar no banheiro do bar mesmo. Como endeusou a menina, vai trata-la como se fosse uma boneca.
- Que exagero!
- Eu conheço umas dez histórias suas trepando em locais públicos.
- Mas não era o caso, né, Julia?
- Tudo bem. Só que também poderia ter ido para outro lugar ou aproveitado melhor a noite.
- Eu travei. Travei! Entendeu? Travei! A de amor, bê de baixinho, cê de caralho eu travei.
- Idiota – a Julia riu e recebeu os chopes do garçom. – E aí? Se viram depois?
Fomos ao cinema. Ela curtia um programa alternativo e escolheu um dos piores filmes que já vi na vida. Era um documentário sobre uma desconhecida que tinha uma vida mais entediante que a pilha do meu controle remoto. Nada acontecia no filme. Era um tédio. Talvez a lição do filme fosse sobre refletirmos nossas vidas e percebemos que estamos reclamando desnecessariamente. Ou era um teste coletivo para potenciais suicidas. Não tive muita certeza.
- Ótimo! Grande desculpa para agarrar a menina de jeito.
- Eu não queria atrapalhar o filme que ela escolheu.
- Como uma deusa... você me mantém.
- Eu não estou endeusando ela.
Ora, eu não sabia se ela ainda estava interessada no filme ou se podia aproveitar o tédio para nos agarrarmos. Isso é muito ruim em início de relacionamento que não temos intimidade o suficiente. E quando o filme é bom, mas tem um momento de pausa na trama? Dá para se distrair com uns amassos? E se os amassos estão bons e o filme volta a ficar animado? É ruim perder o filme? Ou devemos cortar o barato? É um sensível código de postura que não queria demonstrar desconhecimento logo no segundo encontro. Deixei o filme o rolar sem interrupções. Ou, melhor dizendo, continuei sendo torturado sem distrações.
- Eu não acredito que logo você está racionalizando isso. Ela quer mais é ser agarrada. A menina provavelmente estava desejando que você virasse um polvo e caísse para cima dela. E o que o bobão aí fez? Ficou fazendo cara de intelectual ao lado dela. Você devia ter chamado a menina de massa de pizza e enchido a mão.
- Que horror, Julia.
- Horror é você parado como se fosse o tio dela. Apesar de que, dependendo do tio, era bem possível que estivesse bolinando a menina.
- QUE HORROR, JULIA!
- Estou ofendendo mais uma vez a moral da sua deusa?
Eu entendia o que a Julia tentava me dizer. Obviamente, ela estava pesando a mão no argumento. Apesar de saber que, para muitas pessoas, aquilo era o mínimo. Inclusive eu. Todavia, não adiantava. Respeitei os intermináveis cento e dezoito minutos de filme sem uma interrupção sequer. O desejo de agarrar a Viviane era enorme e esperava que por parte dela fosse o mesmo também, mesmo com ela dando raros sinais disto. Aliás, é preciso registrar que Viviane era uma menina de muitos atributos, contudo não tinha o menor talento para demonstrar emoções. Sua frieza era próxima a uma interpretação do Nicholas Cage com má vontade. Era impossível saber se estava feliz, chateada, interessada na conversa ou viva. Em diversos encontros, cogitei me levantar e ir embora. Era desesperador e frustrante.
Saindo do cinema, era necessário levar a Viviane para outro lugar. Não conseguiria encerrar o encontro tão cedo, mesmo para um dia de semana. O meu lado pervertido sussurrou ao meu ouvido a ideia de irmos para um motel. A ideia de levar para a minha casa também soaria interessante. O problema foi que meu lado alcoólatra gritou por um bar. Como só funciono sob pressão, a vontade do grito prevaleceu. Lá estávamos nós sentados um de frente para o outro em um bar.
- Você é muito burro!
- Você sabe bem que não sou, Julia.
- Exato! Por isso estou estranhando. Eu não acredito que seja você nessa história – ela complementou e depois levantou a tulipa vazia. – Garçom, mais dois, por favor.
De fato, estava desajeitado em um nível muito além do meu normal. Contudo, existiram evidências naquele encontro que fariam qualquer um me reconhecer. Topando a minha proposta, Viviane aceitou fechar todos os bares naquela madrugada de quarta-feira. Não suficiente, ela me mostrava um novo talento, conseguir me acompanhar na bebida. Algo sempre consideravelmente impressionante para qualquer pessoa, além de ser uma notória característica para quem quisesse se candidatar ao posto de Senhora Traste.
Quatro bares foram fechados. O último, cinco e quinze da manhã sob olhares fatais de trabalhadores a caminho de suas fontes pagadoras. Estávamos bêbados em um nível fora do imposto pela sociedade para dias úteis. Não tinha a menor condição de pegar a moto que foi deixada pela zona sul mesmo. Tínhamos duas opções. Ou esperávamos o Metrô abrir, ou pegaríamos um táxi. De qualquer forma, dois copos de 500 ml cheios até a boca foram providenciados. Seja para a espera, seja para o trajeto, a dose não seria suficiente. Escolhemos o táxi e, alguns quarteirões antes da minha casa, os copos estavam vazios. Depois de saltar do táxi e atravessar a rua para entrar em casa, reparei que a Viviane estava sem um dos sapatos. Ela estava literalmente com um dos pés no chão. Gritamos para o táxi que parou. Checamos todo o seu interior e nada do outro pé do sapato dela. Viviane estava tão bêbada que perdeu um dos sapatos em Botafogo e sequer percebeu. Talvez tivesse perdido antes de o quarto bar fechar. Ou até mesmo antes. Ela não se lembrava. E seria impossível de se lembrar pois, além de completamente bêbada, ela teve uma crise de riso com aquilo que sequer conseguia falar. Nunca tinha a visto daquela forma, completamente à vontade. Ela estava solta, leve e divertida. Estava mais sexy do que nunca.
- Imagino que tenha entrado e trepado com ela.
Subimos para a minha casa com muita dificuldade. A escada é íngreme e em curva. Se estando bêbado já é um desafio, imagine estando bêbado com uma crise de risos. Não somente conseguimos, como também nos agarramos por lá mesmo. Era indiscutível como o álcool me destrava em situações como aquelas. Talvez não precisasse de uma dosagem tão alta, todavia era eficiente. Entramos e fomos direto para o quarto. Uma blusa ficou na escada, uma camisa no corredor, uma meia aqui, outra acolá, calça perto da porta do quarto e o resto ao redor da cama. Embolados, quase como uma pessoa só, caímos nus sobre a cama.
- FINALMENTE – gritou a Julia assustando pessoas em mesas próximas à nossa.
- Dormimos.
- O QUE?
- Exato! Desmaiamos bêbados e caímos no sono – levantei então minha tulipa. – Garçom, mais dois, por favor.
- Isso é inacreditável!
Inacreditável mesmo era a imagem que tive ao acordar. Mesmo sendo destruído por dentro por uma ressaca provocada provavelmente pelos meus órgãos querendo me abandonar, fiquei pasmo com aquela cena. Viviane dormia nua ao meu lado. Por estar de bruços, sua bunda ficava perfeita, além de ser do tamanho exato para uma menina daquele tamanho. Seus braços estavam abertos sobre a cabeça com os cabelos desarrumados, o que a deixava mais sexy ainda. E, pela primeira vez, aquele rosto sem expressão estava de acordo com o todo. Viviane transmitia uma serenidade sem perder a sua sensualidade. Era um dos raros momentos da minha vida que valeu a pena acordar cedo.
Ao voltar do banheiro, depois de vomitar uma quantidade de coisas que desconhecia que meu corpo fosse capaz de armazenar, voltei ao quarto. Viviane ainda dormia, inabalada. Aproveitei que estava na mesma posição e comecei a beijar todo seu corpo. Pernas, costas, bunda, pescoço, lateral do corpo. Fiquei um pouco assustado com a demora dela para acordar. Talvez minha abordagem fosse insignificante a esse ponto. Eis que ela finalmente acordou. Esticou os braços lateralmente e voltou à mesma posição para que continuasse fazendo o que fazia antes. Poderia ficar o dia todo fazendo aquilo. Ainda mais com ela acordada reagindo aos meus beijos. Claro que sua reação era dentro da apatia habitual. Ainda assim, era possível saber onde estava acertando, principalmente. Como a coisa foi ficando mais animada, deitei-me sobre ela, concentrei os beijos em seu pescoço e o resto da energia ficava por conta dos movimentos me esfregando nela. Conforme esquentava, os movimentos e intensidade dos beijos também aumentavam. Até que, em certo momento, perguntei se queria ouvir uma sacanagem. Viviane apenas movimentou assertivamente a cabeça. Aproximei minha boca de seu ouvido e perguntei se ela queria ouvir uma putaria. Ela em um tom de voz bem baixo, quase miando, disse que sim. Então falei sem hesitar que precisava me levantar e ir para o trabalho.
- AH VAI SE FUDER – Julia deu mais um susto nas poucas pessoas que resistiam no bar.
- Eu tinha uma reunião com a diretoria. Foi até por isso que marcamos um cinema cedo. Pelo menos... – Julia me interrompe.
- Pelo menos o que? Passou o dia todo de pau duro com o saco doendo? A menina passou o dia todo excitada subindo pelas paredes?
- Não é para tanto.
- Não é para tanto? Eu, só de ouvir isso, fiquei toda molhada aqui.
- Garçom, mais dois chopes e uma porção de guardanapos, por favor – disse para o garçom que se aproximava e provavelmente ouviu a fala da Julia. – Pelo menos, a coisa destravou. E destravou no dia seguinte, comigo sóbrio. No próximo encontro as coisas fluiriam melhor.
- Tá, tá bom. Então fala do encontro seguinte.
Antes que pudesse falar do encontro seguinte, o garçom trouxe os dois chopes pedidos e a conta. Tínhamos perdido completamente a noção do tempo e o bar estava prestes a fechar. Sugeri à Julia que fossemos para outro local, entretanto, naquela madrugada de segunda-feira, poucas opções estariam funcionando. E, de fato, não tínhamos outra opção à nossa disposição. Pedimos ao garçom então meia dúzia de garrafas de cerveja geladas e seguimos para a minha casa.
- Já tem outras na geladeira – disse a Julia enquanto guardava as seis garrafas que levamos para a viagem.
- Eu sei. Achei que seria pouco, daí, peguei mais seis.
- Não basta dormir no meio do sexo com a sua deusa, vai dormir no meio da conversa comigo?
- Claro que não, baby. Você consegue me manter acordado.
- Não fala isso. Não fala isso porque ainda estou molhada daquela descrição – Julia então riu, abriu a primeira, serviu em dois copos e, se sentindo mais em casa do que nunca, tirou os sapatos e se jogou no sofá. – Vai! Prossiga! Depois da foda interrompida pelo desmaio e o corta tesão pela manhã, teve ou não teve outro encontro?
Era mútua a incapacidade dos dois passarem o resto da semana com aquele fogo acumulado. Postergar um próximo encontro colocaria em risco qualquer tentativa da coisa andar para frente. Sem citar no embalo de já estarmos mais a vontade um com o outro. Foi marcado um novo encontro então na sexta daquela mesma semana. Isto é, menos de quarenta e oito horas depois.
Viviane queria alguma coisa fora da cerveja. Sugeri um vinho na minha casa. Minha ideia era sair dos lugares-comuns de antes que nos forçavam a ficar de papo, quando, na verdade, tudo que precisávamos era de ação. O vinho ajudaria a criar um clima, soltaria um pouco a conversa, afetaria a inibição inicial e, depois, já estaríamos a sós para darmos prosseguimento ao que estava pendente.
- Finalmente estou te reconhecendo. Criando o ambiente certo para o abate – Julia comentou de maneira contundente.
- Levar para casa, oferecer uma bebida e depois tirar a blusa?
- Isso! Agora está falando a minha língua.
- E por que ainda está de blusa?
- Já disse para parar com isso. A coisa está a perigo aqui – ela riu e prosseguiu. – Continue, por favor.
A Viviane chegou e abri a primeira garrafa de vinho. Branco. Foi a pedido de dela. Três garrafas de vinho branco por toda uma noite. Um pesadelo para mim. Não apenas pela parte da preferência do meu paladar. Confesso que o vinho branco está na linha mais baixa da minha lista de predileções alcoólicas. O problema residia também no fato de ser uma bebida que comigo costuma descer com mais velocidade por considerar fraca. Eu e minha mão nervosa de virar copos, taças no caso, faríamos um estrago naquela noite. Com menos de uma hora de conversa, Viviane permanecia com sua pequena taça ainda ocupada pela mesma primeira dose que servi. Ao mesmo tempo, o resto da garrafa tinha sido terminado por mim em goles longos. O vinho estava estupidamente gelado, a noite estava quente e tudo que queria era encerrar logo as três garrafas para darmos prosseguimento aos planos agendados. O ritmo assim foi mantido por exatas duas horas e meia. Viviane falando muito e bebendo o seu vinho em doses homeopáticas, enquanto eu numa crise de camelo chique secava uma garrafa atrás da outra.
Quando levei a terceira garrafa vazia para a cozinha, gritei para que a Viviane me ajudasse a escolher outra coisa da geladeira. Na realidade, não queria que ela escolhesse coisa alguma. Era apenas uma desculpa para que se levantasse da mesma posição que se prostrou na cadeira assim que chegou. Mesmo após três taças consumidas em uma velocidade sonolenta, ela permanecia com a expressão indiferente que tanto me deixava desconfortável. Precisava ignorar aquilo e dar prosseguimento aos planos da noite na expectativa que ela acompanharia meio que pegando no tranco. E foi o que fiz. Assim que entrou na cozinha, encostei a Viviane na parede da cozinha e a agarrei. Nada de beijo romântico, com parcimônia e cautela. Foi já no mesmo calor que interrompemos naquela manhã recente. Ela me acompanhou fazendo surgir uma nova mulher naquela casa. Com os braços cruzando a minha nuca, ela trazia minha cabeça para mais perto da dela, dando pressão ao beijo e deixando entender que não era para interromper tão cedo. E não pararia mesmo. Com uma das mãos em sua nuca e a outra em sua cintura, puxava a Viviane para mais perto ainda. Sempre com a mão cheia e fazendo pressão. Meu quadril, em sentido oposto, pressionava o quadril dela e, por consequência, ela toda contra a parede. Por sorte morava em uma casa antiga de alvenaria resistente. Caso fosse num desses apartamentos modernos com cômodos separados por drywall, já teríamos atravessado as paredes do corredor e teríamos caído no meu escritório. Naquela pressão descontrolada, um quase devorando o outro, posicionei uma das minhas pernas entre as dela. A minha coxa sarrando a Viviane foi a gota d’água para que ela se “desmontasse”. Seus braços perderam a pressão, sua boca descolou da minha e seu rosto se virou para o alto. Com o pescoço me sendo oferecido, esfreguei a barba por ele todo. Completamente ofegante, ela se soltou, jogando todo seu peso sobre a minha coxa e ampliando a esfregação. Naquele momento, Viviane não oferecia mais reação. Estava toda à minha disposição. A barba que antes estava no pescoço, desceu por um dos ombros derrubando a alça da blusa. Depois, seguiu por seu colo até que, entre seus peitos, a boca voltou ao serviço. Ao mesmo tempo, com as mãos segurando sua cintura com força, movimentava o quadril de Viviane contra a minha coxa. Ato que a fez reagir, parar de ficar passiva às minhas investidas e começar a rebolar no ritmo que a mexia. Estava tão focado na ação que ali rolava, que não tinha notado que a Viviane sequer estava com os pés no chão. Seu corpo naquele momento estava todo apoiado pela virilha na minha coxa. Suas mãos apoiadas firmemente na parte de trás da minha cabeça mantinha a minha boca presa aos seus seios e confesso que a última coisa que queria era tirá-la de lá. Todavia, a volúpia da situação somada à vontade acumulada urgia por mais. Aproveitei que os pés de Viviane não tocavam mais o chão mesmo e entrelacei suas pernas na minha cintura. Ela tentou falar algo porém, tudo que saiu com gemido cheio de ar. Nessa hora que abri os olhos e tudo estava turvo. O álcool estava batendo com força e ficar de pé por mais tempo seria correr riscos de algo constrangedor. Com a Viviane ainda pendurada em mim, andei até o quarto. Caminho o qual ambos notaram que não foi feito em linha reta, tampouco em segurança. Mesmo assim, chegamos inteiros ao meu quarto, onde a deixei sobre a cama de frente para mim. Afoito e voraz, tirei toda a sua roupa e, mesmo com todo fogo acumulado quase explodindo literalmente em minhas calças, parei por alguns segundos para contemplar aquela cena como se fosse a primeira vez. Se ela de bruços dormindo nua tranquilamente era uma das cenas mais sexys que tinha presenciado pessoalmente, ela completamente pelada de frente para mim de maneira convidativa era a imagem mais excitante de todas. Era impossível fazer qualquer negativa para aquela cena. Tirei a minha roupa na mesma velocidade que fiz com a dela e tudo que queria era penetrá-la. Queria fazê-lo com intensidade e controle ao mesmo tempo. Contudo, sabia que tudo que conseguiria era provocar um estrago igual a uma Kombi sem freio descendo uma ladeira em dia de feira. Resolvi cair de boca na boceta dela. Viviane estava tão excitada que no primeiro momento que encostei a língua, ela se contorceu. Instintivamente, me afastei. Foi quando ela segurou a minha cabeça e me trouxe de volta, praticamente esfregando a boceta na minha boca. Ela definitivamente sabia o que queria e igualmente sabia do que eu gostava. Estava tudo muito molhado e ficava cada vez mais por conta dela e da minha saliva. A língua escorregava e tocava todas as partes da vagina dela. Segurei suas pernas pela parte debaixo das coxas e as empurrei para trás, deixando-a toda empinada para que pudesse colocar minha língua a fundo. Foi quando ela gozou. Deu para sentir sua boceta se contraindo com força em minha língua. Com o corpo todo se tremendo e um rio escorrendo por suas pernas, ela se afastou e me chamou para sua direção. Foi nessa hora que me levantei e tudo rodou. Cambaleei dois passos para trás e acabei me escorando no armário. Percebi que estava completamente bêbado. Escorri pelo armário até repousar sentado no chão. Não estava mais rígido. Enquanto isso, Viviane estava se contorcendo alheia ao que acontecia à sua frente. Quando percebeu, perguntou se eu estava bem. Respondi que estava nada bem e precisava de um tempo. Ela então se virou de lado e tudo que lembro foi de acordar no chão no dia seguinte.
- PUTA QUE PARIU – Julia gritou e provavelmente acordou algum vizinho. – Puta que pariu duas vezes.
- Mais uma vez frustrante, né?
- Sim, mas o antes disso. Minha nossa senhora! Estou encharcada aqui.
- Pelo menos parou de me sacanear sobre endeusar a menina.
- Ah, sim.
- Mas frustrante ainda assim.
- Honestamente – Julia fez uma pausa dramática dando um longo gole e secando seu copo. – Se ela for uma menina maneira, só o que você fez foi ótimo. Claro que ela queria mais. Isso não se discute, mas, ao menos, mostrou que você tem potencial. Tudo bem que não precisa mostrar esse potencial aos poucos em eventos de finais catastróficos, não é mesmo?
- Sim. Claro. E sendo insistente, frustrante, né?
- É! É! É frustrante, está satisfeito? Só que ao mesmo tempo deve ter ser sido ótimo. Só de ouvir, veja só como estou – Julia se levanta do sofá, pega a minha mão e a põe por debaixo do seu vestido. – Acredita agora que ao vivo deve ter sido impressionante?
- Baby, que coisa linda.
- É! Linda! Só não se empolgue muito aí, não. Vou na cozinha pegar mais cerveja. Vai contando aí enquanto estou em uma distância segura.
Lá estava eu recobrando a consciência na manhã seguinte, deitado no chão, escorado no armário do quarto e completamente nu. Viviane estava dormindo na cama e também permanecera nua. Isto é, sequer acordou depois que apagamos em lugares diferentes após o coito interrompido mais uma vez por motivos lamentáveis. A cena, na teoria, era igualmente linda a de outra manhã quando acordei com ela nua ao meu lado. Contudo, existia naquele momento todo um ar de fracasso por conta das inúmeras tentativas de transar com ela. Existia algo que maculava a imagem, algo que não me permitia apreciá-la com a mesma fascinação de antes. Ali, depois de seguidos fiasco, estava apenas mais uma menina bonita. Não era mais uma das cenas mais lindas que presenciara na vida.
- Finalmente – disse a Julia enquanto voltava da cozinha carregando dois copos cheios de cerveja em uma mão e uma garrafa de cerveja em outra. – Até que enfim conseguiu tirar o endeusamento por ela. Agora não tinha mais desculpas, já dava para bagunçar a mocinha, né?
- Para de falar besteira e senta logo essa boceta molhada aqui do meu lado.
- Ih, tá uma piscina – ela se sentou, me entregou um dos copos, colocou a garrafa no chão, jogou uma das pernas por cima das minhas e prosseguiu. – Vai! Fala! Agarrou a menina?
Fui primeiro ao banheiro. Sentado no vaso, aproveitei para me certificar se existia algum resquício de ressaca. Estranhamente estava novo. Zero ressaca. Terminei o que tinha por fazer, tomei um banho, escovei os dentes e voltei para o quarto. Viviane permanecia intocada na mesma posição de lado enviesada na cama. Deitei-me ao seu lado, abraçando-a por trás. Colei meu corpo no dela com todas as partes niveladas. Em seguida, puxei Viviane para perto de mim e, enfiando meu rosto por debaixo do seu cabelo, invadi seu pescoço. Minha respiração foi suficiente para acordá-la. Ela deu uma discreta gemida de espreguiçar, soltou um sorriso de canto de boca e jogou o quadril para trás pressionando-o mais ainda contra a minha pélvis. Fiz o mesmo em sua direção e aos poucos estávamos nos esfregando.
- Pode parar com esse momento Cine Privê – a Julia me interrompeu. – Você vai começar com toda essa descrição de sacanagem e eu não estou mais em condições de lidar com isso. É verdade! Estou a perigo, homem. Se continuar assim, vai ter de dar um jeito nisso.
- Pare antes que eu pense besteira.
- Então conta, mas sem detalhismo – ela pediu rindo e provocando gargalhadas em mim.
Era como se tudo tivesse sido reiniciado. Tivemos um leve aquecimento, ali abraçados e depois uma preliminar comandada por ela. Não sei se foi por complexo de culpa, ou iniciativa para se ter a certeza que faria dar certo, que Viviane tomou a iniciativa de me chupar. Estava mais duro do que nunca. Em certos momentos, ela me olhava com um sorriso no rosto. Podia ser um sorriso se vangloriando do que ela mesma tinha conseguido, ou um sorriso de alívio por algo finalmente estar no caminho certo. Seguro, então tomei as rédeas da situação, virei a Viviane e me posicionei sobre ela. Seus olhos denotavam expectativa. Era a hora! Na minha cabeça, tudo que pensava era que estava de volta ao jogo. Finalmente, retornei à minha programação normal. Quando comecei a penetrá-la, algo me desconcentrou e o pensamento vitorioso de antes se transformou em preocupação. Apenas pensamentos sobre não falhar passaram a povoar a minha cabeça então. Parei de ser instintivo e virei neurótico. Ficava refletindo cada movimento. Não estou sentindo total contato, pensei. Será que estou mesmo dentro, questionei-me depois. Não conseguia sequer dizer se estava ainda ereto. Estando ou não, o óbvio aconteceu. Broxei. Ele abaixou, murchou, encolheu e se aquietou de vez. Viviane tentou fazer algo, todavia, isso costuma deixar a situação ficar mais constrangedora ainda. Com notório desconforto, ela me manuseava com as mãos. Depois, apelou para a boca. Nada! Permaneceu assim por um bom tempo. A situação era patética. Em uma analogia às técnicas de primeiros socorros, era como se a Viviane estivesse fazendo massagem cardíaca e respiração boca-a-boca em uma pessoa que morreu horas atrás. Era um caso sem salvação.
- Quando disse para não me deixar com mais fogo, não precisava também ser um balde de água fria – a Julia comentou tentando segurar o riso.
- Pode rir. Qualquer coisa diferente daquilo não faria sentido com todo histórico até então. E, convenhamos, nada superaria isso.
- É, posso dizer que fechou com chave de ouro.
Antes fosse um fechamento. Por sorte, aquele constrangimento foi interrompido pela chegada da faxineira. Ela ia sempre aos sábados por ser um dia mais fácil de quebrar um galho para mim. Com a chegada dela, tomamos vergonha na cara e desistimos do que não tinha solução. Entramos no banho e fomos para rua. A proposta seria tomar um café-da-manhã, contudo, já tinha passado do meio dia, portanto decidimos almoçar mesmo. Foi uma tarde de casal enquanto éramos reféns da faxineira. Almoço, cinema, volta no shopping e um barzinho. Por quatro anos, quis fazer isso com ela. Durante todo o período que foi minha aluna, pensava como seria sair com ela. Naquele momento, finalmente tinha a oportunidade de descobrir. No passado, imaginava que um programa com uma menina tão interessante deveria algo divertido e fácil de levar. Deveria, exceto quando se tem nas costas alguns fracassos seguidos. Viviane até estava bem à vontade, menos inexpressiva e mais comunicativa que o habitual. Dizem que as mulheres levam isso de boa e relevam com naturalidade, pois o que importa é a companhia. Comigo era diferente. Parecia carregar um fardo nas costas que, a cada palavra, interpretava como indireta ou um constrangimento associado. No almoço, ao comentar que as batatas fritas estavam murchas, me ressenti. Quando a fila do cinema estava demorando, ela disse que era por conta da funcionária ser muito mole e eu vesti a carapuça. No shopping, com aquele mar de pessoas praticamente se arrastando à nossa frente, Viviane, ao tentar ver algo em uma vitrine, comentou comigo que ficava impaciente com essas pessoas que não fodem nem saem de cima. Aquilo me desmoronou.
- Ah baby – Julia precisou fazer uma pausa para conter as gargalhadas. – Sua neurose até faz sentido. Só que mulher não tem disso. Ela não estava te dando alfinetada. Ela estava muito tranquila. Com certeza, não estava encanada com o histórico, do contrário, ela escolheria as palavras ou demonstraria desconforto após terem sido ditas.
- De fato, ela estava numa boa, falando como se não pensasse no ocorrido. A não ser que ela fosse lesada ao ponto de não conseguir associar uma coisa à outra.
- Bem, depois do bar se despediram?
Chamei Viviane para voltar para a minha casa. Ela perguntou se tinha certeza. Respondi que sim sem hesitar. Engoli seco e pensei que não tinha a menor certeza para dizer a verdade. Não estávamos bêbados, principalmente se considerássemos minha média de consumo. Foram, no máximo, oito chopes para cada um. Cheguei determinado e com coragem. Agarrei Viviane na escada deixando claro que a volta para a minha casa era unicamente para sanarmos aquela dívida que só crescia. Ela correspondeu. A coisa pegou fogo na escada, no corredor e no quarto. Dentro dele, tiramos a roupa e foi aquela volúpia descontrolada de filme. Sem preliminar, sem preparo, sem paciência. Tiramos a roupa, nos jogamos na cama e, segundo o linguajar nada erudito da Julia, foi pau dentro. Tecnicamente, não era a primeira vez que a penetrava. Contudo, para mim, foi. Era como se ela fosse feita no meu número. Tudo se encaixou sob medida. A lubrificação e o calor dela completavam com perfeição. A sensação era espetacular. Algo como o prazer de colocar um bom pedaço de lasanha na boca que não está quente o suficiente para queimar a língua, todavia não está frio também. Ou a agradável satisfação de se deitar em uma cama quentinha sob o edredom em uma tarde de chuva. Era tão bom que, com tudo que tinha acumulado, em menos de meio segundo, veio uma vontade louca de gozar que não consegui resistir. Gozei e muito. Ela pediu para ir ao banheiro e se levantou. Eu, aliviado e em êxtase, sequer conseguia me abalar com o meu catastrófico desempenho em tempo olímpico. Relaxei e, antes que Viviane voltasse do banheiro, peguei no sono.
- Numa boa – Julia colocou seu copo vazio no chão e, aproveitando que uma de suas pernas estava sobre as minhas, se ajeitou, ficando sentada no meu colo de frente para mim. – Eu não consigo acreditar que você seja esse desastre todo.
Julia então me beijou e não relutei. Éramos adultos. Ligeiramente bêbados, mas adultos cientes do que estávamos fazendo. O beijo foi longo, com pegada e cheio de fogo. Apenas algum tempo depois que notei que a Julia já estava rebolando se esfregando no meu colo. Segurando sua cintura, forcei Julia para que se afastasse da minha boca e pudesse chupar seus seios. Ela foi mais rápida, apoiou-se nos meus ombros e se levantou. Eu estava sentado no sofá e ela de pé também no sofá, de frente para mim. Julia então abaixou a calcinha, levantou o vestido e, segurando minha cabeça pela parte de trás, se aproximou colocando minha boca no meio de suas pernas. Ela estava encharcada. Era como comer um prato de espaguete com muito molho. Escorria pelos cantos da boca, pelo queixo, pelas pernas dela, por todos os lados. Levei um dedo até sua boceta piorando, ou não, a situação. Como em um comum acordo feito implicitamente, ficamos naquela até Julia gozar. Quando conseguimos que ela gozasse, suas pernas fraquejaram e ela desabou em meu colo. Ainda se tremendo um pouco e ofegante, ela pediu para que a levasse para o quarto. Lá, transamos num ritmo frenético, como se desejássemos um ao outro há tempos. Ela gozou mais duas vezes, sendo a última junto comigo, com ela de quatro. Depois, desabou na cama mole, exausta e satisfeita, ao meu lado em igual estado. Era possível ouvir os pensamentos do vizinho de baixo agradecendo pelo silêncio definitivo na casa.
Na manhã seguinte, acordei com a Julia dando um pulo da cama. Ela foi correndo para o banheiro. Perguntei o que tinha acontecido e, aos berros, ela respondeu que precisava trabalhar. Fui, com calma, atrás dela e entrei no banheiro enquanto ela tomava banho.
- Quer um café?
- Não tenho tempo. Preciso ir para casa ainda mudar de roupa e pegar o meu material.
- Quer carona?
- Não, vou de taxi. Relaxa.
- Quer alguma coisa?
- Sim, conte o que aconteceu. Você pegou no sono enquanto Viviane tinha ido ao banheiro e aí?
Provavelmente, voltando do banheiro, ao me ver dormindo, Viviane vestiu uma calcinha e uma blusa. Depois se deitou ao meu lado e dormiu também. Na manhã seguinte, acordei e a cena dela dormindo ao meu lado já não era tão fria quando na manhã anterior. Todavia, não era tão linda quanto da primeira vez. A cena não tinha mais o fardo de antes, quando acordei no chão do quarto. Contudo, carregava uma faísca de vergonha da noite anterior. Depois ela se arrumou e pediu que a levasse em casa. Coisa que fiz com maior prazer. No caminho, refleti muito se queria ver a Viviane novamente. Sim, queria com certeza. Não sei se ela gostaria depois de tudo que aconteceu. Então deixei sob a decisão dela. Pedi que me ligasse pela semana para marcarmos algo. Ela respondeu que ligaria, sim, virou as costas e foi embora.
Assim que acabei de contar, Julia saiu do banho em disparada para o quarto para se vestir. Pediu que eu continuasse, mas não tinha mais o que falar, a história tinha acabado. Ela então se vestiu e descemos juntos até a rua para chamar um táxi. Em menos de dois minutos já tinha um parado à nossa frente.
- Pode falar a verdade agora, você já comeu muita mulher com essa história que me contou, né? – a Julia perguntou e prosseguiu antes mesmo que pudesse responder. – Existiu alguma Viviane mesmo?
- Claro que sim. A história é verdadeira e recente.
- E onde ela está?
- Como disse, deixei por conta dela que entrasse em contato comigo quando quisesse me ver novamente. Nunca mais tive notícias.
- Ninguém a condenaria, não é mesmo? Faz o seguinte, coloque o orgulho de lado, entre em contato com ela e marque um encontro. Você não quer endeusa-la novamente? Faça isso. Vai ver ela espera por uma nova demonstração de confiança por sua parte. E que fique claro... no que depender de mim, quero que você passe vários fracassos com ela e, quando estiver bem acumulado, me procure novamente. Você é ótimo quando está precisando reafirmar a sua virilidade.
Julia entrou no táxi e foi embora. No portão de casa, peguei o celular, passeei pela agenda telefônica e, ao fim, hesitei. Guardei-o no bolso e entrei em casa. Ao deitar na cama, tirei o celular do bolso e, enquanto o colocava na cabeceira, sorri de canto de boca. Em algo, a Julia tinha razão. Em um único ponto, talvez ela tivesse razão. Mudança de planos. Mais uma vez peguei o celular, abri a agenda telefônica e apertei o botão de chamar. Dois toques depois:
- Alô! Priscila? Tudo bem? O que vai fazer nesse final de semana? Estou precisando do ombro de uma amiga. As coisas não andam bem comigo.

Outro conto da coleção? Leia Carina