sábado, 22 de outubro de 2016

Cai na real: Contos sobre a rotina para quem acabou de chegar

Conto anterior da coleção: Artimanhas

Uma história com conteúdo
Dificilmente não se cria a mesma imagem de policiais na cabeça. Principalmente quando se trata de alguém que consome muita informação vinda dos Estados Unidos. A imagem é sempre a mesma, dois policiais ligeiramente fora de forma dentro de uma patrulha, copos de isopor cheios até a boca de café e uma caixa com algumas rosquinhas dentro. De clichê, isso virou um tabu. Encontrar uma viatura por lá e a cena não ser igual a esta chega a ser frustrante. Imagino, inclusive, que isso deve ser algo ensinado nas academias de polícia. Por aqui, as coisas não são tão diferentes. O consumo de calorias é quase igual, apenas a forma em que elas se apresentam que é um pouco diferente.
Lá estava a viatura 687 do sexto batalhão da Tijuca na sua sétima hora de plantão. Como rotina, passavam sempre pela Rua Barão de Mesquita, uma longa rua que liga o Grajaú à Praça da Bandeira cortando o bairro da Tijuca. No trajeto, sempre paravam pela lanchonete Sorriso da Saens Peña, um antigo ponto comercial que precisava se reinventar a cada cinco anos. O procedimento era sempre o mesmo. Paravam e cumprimentavam o dono, seu Arnaldo, sessenta e seis anos de vida com trinta e dois de comércio. Depois, faziam perguntas corriqueiras sobre o dia, família, negócios e assim ia enrolando até o seu Arnaldo oferecer aos dois policiais um lanche. O roteiro era idêntico todos os dias, inclusive na parte em que eles relutavam duas vezes e acabavam aceitando na terceira tentativa do seu Arnaldo. Uma lata de refrigerante e dois salgados para cada um. Agradeciam, davam dois tapinhas no balcão saudando os funcionários e iam embora. Alguns metros à frente, na estreita e pouco movimentada Rua Pareto, eles paravam para comer o lanche.
- Estou preocupado com o Salgado – disse o policial sentado ao volante.
- Qual o problema? – perguntou o policial no banco do carona. – Comemos todos os dias e nunca passamos mal.
- Não estou falando desse salgado. É o major Salgado. Ele disse que quer ter uma conversa comigo ao final do plantão.
- Hum. Entendi. Quer catchup?
- Não. Você ouviu o que te falei?
- Uhum. Você acha que eu deveria ter um animal de estimação?
- O que?
- Um animal de estimação. Algo para me entreter nas folgas.
- Acabei de falar que estou preocupado com o major Salgado que me chamou para conversar e você quer saber sobre um cãozinho?
- Não necessariamente um cãozinho. A Telma acha que devo começar por algo menor. Ela acha que é muita responsabilidade para um iniciante como eu. Chegou a alugar um filme com aquela atriz americana. Esqueci o nome.
- Nome do filme ou da atriz.
- Da atriz. Ela fez aquele filme sobre concurso de miss. A Telma assiste uns dois filmes por dia. Acabo acompanhando com ela. Essa atriz ganhou um Oscar e logo depois o marido dela deu um pé na bunda dela.
- Julia Roberts.
- Não, não é a Julia Roberts.
- Tem razão. Ela nunca ganhou o Oscar.
- Ela já ganhou, sim.
- Tem razão. Aquele filme da linda mulher foi famoso mesmo.
- Ela não ganhou por aquele filme. Você entende alguma coisa de cinema?
- Não, não entendo de cinema. Entendo de segurança pública. Entendo que, quando o major diz que quer ter uma conversa séria com algum soldado, tem merda por vir.
- Sandra Bullock.
- O que?
- A atriz que estava falando. A que fez o filme sobre concurso de miss.
- Qual o seu problema, Almeida? Estou preocupado com a tal conversa... – o policial no banco do carona interrompe a fala do policial ao volante.
- O filme era Miss Simpatia. Não o que a Telma me colocou para ver, mas o que disse sobre concurso de miss. O que vi com a Telma não vou me lembrar do nome mesmo. Enfim, no filme, ela fazia uma mulher que bebia muito e foi internada em uma clínica dessas de tratamento. Qual o nome que dão hoje em dia?
- Alcoólicos anônimos? AA?
- Não! Tem um termo específico muito usado hoje em dia. É até nome de uma música daquela cantora que morreu de overdose recentemente.
- A Madonna?
- Madonna, Bastos? Madonna? Você quer matar a Madonna?
- Eu quero matar você, Almeida. Que papo é esse de filme, cantora, cãozinho?
- Eu estou tentando te contar uma história com conteúdo. É assim que se mantém um papo interessante. Você traz elementos para preencher a conversa e assim ela flui por mais tempo. Eu vi isso em um programa na GNT com a Telma. Você acredita que, quando bem feita, uma conversa sobre a chuva pode durar até três horas?
- Almeida, estou preocupado com você. Que papo é esse de assistir GNT? Isso é canal de mulher. Vai assistir Superbonita também?
- Amy! Lembrei. Amy alguma coisa. O sobrenome era complicado. Você tem mais guardanapos aí? Os meus acabaram. Acho que o grande segredo de uma lanchonete para obtenção de lucros é contenção de custos. Você sabia que guardanapos podem configurar quase dez por cento dos custos de uma lanchonete. Eu vi outro dia no Pequenas Empresas Grandes Negócios...
- Com a Telma. Já sei, Almeida!
- Isso. Estou com a mão toda melecada agora. Winehouse! Era esse o sobrenome. Amy Winehouse. O engraçado é que, em inglês, wine é vinho e house é casa. Casa do vinho. Winehouse. Casa do vinho. Winehouse.
- Casa do vinho, Almeida. O que tem de engraçado nisso?
- A mulher que tem de sobrenome casa do vinho morreu de um pileque.
- Muito engraçado, Almeida. Muito mesmo. Não vem com essa mão suja de gordura para cima de mim, não. Limpa aí na lateral do seu coturno.
- Eu queria mexer no celular para descobrir o tal nome da música.
- Para quê, Almeida?
- Porque a música tem o nome que quero lembrar.
- Eu estou me lixando para o nome, Almeida. Minha preocupação é o que o major Salgado quer falar comigo.
- Então, ela vai para a clínica...
- Quem vai para onde, Almeida?
- A Sandra Bullock. Ela vai para clínica porque bebe muito. O filme começa com ela estragando o casamento da irmã de tão bêbada que estava.
- Almeida, criatura do inferno, por que está falando ainda nisso?
- Eu quero explicar o que a Telma disse sobre ter um cãozinho.
- Ah, sim. Esqueci. Uma história profunda.
- Com conteúdo.
- Que seja. Vai beber tudo?
- Sim, mas pode beber um gole, só não pode matar. Onde estava mesmo?
- Na parte que demonstra total desinteresse pela minha aflição sobre ter sido chamado pelo major Salgado para conversar depois do plantão.
- Você já falou isso umas três vezes, Bastos. Como você é repetitivo.
- Ah, tá. Desculpa, né?
- Bem, o filme é dela na clínica... REHAB!
- Que susto, Bastos! O que houve?
- Rehab.
- Comida árabe?
- Não, Almeida. Almeida, você é muito ignorante. Rehab é o nome da música da Amy. Amy Winehouse.
- A casa de vinhos de que morreu bêbada?
- Isso! Rehab é o nome da música dela que também é muito usado para essas clínicas. No filme, a Sandra Bullock é levada para o Rehab.
- Você está muito estranho com esse vocabulário, Bastos.
- Disse o policial machão com nojo de mãos engorduradas.
- Não estaria com nojo se você não tivesse acabado com todos os guardanapos. Nunca vi uma pessoa gastar tanto guardanapo como você, Almeida. Cada vez que vai ao banheiro deve ser um rolo de papel higiênico.
- Eu não tenho culpa disso. O salgado é extremamente gorduroso. Não bastante, o seu Arnaldo é muito malandro. Ele age nas duas possibilidades de contenção de custos. Primeiro, fornece pouco guardanapo. Segundo, compra guardanapo de baixa qualidade. Olhe só isso! Não absorve quase nada. Ele precisa entender que, quando se reduz os custos de maneira grosseira como essa, a qualidade do serviço cai. E, assim, afasta a clientela, abalando a receita.
- Almeida, de onde você está tirando essas coisas? Você está me assustando.
- Bastos, se estivesse me deixando falar tranquilamente, o assunto ficaria mais objetivo.
- Você é muito cara-de-pau mesmo. Se dependesse de mim, estaríamos falando... – Bastos, o policial ao volante é interrompido pelo Almeida.
- Eu já sei o que vai falar. O major Salgado. Você precisa ser menos egocêntrico, Bastos. Nem sempre dá para falar sobre os seus problemas ou aflições. Eu também tenho as minhas.
- Almeida, você vai ter a cara-de-pau de dizer que sua aflição sobre ter um cãozinho ou não é maior que a minha?
- Eu já disse que não é sobre ter um cãozinho. É algo muito maior. É sobre responsabilidade. Por isto que estava querendo falar do filme.
- Então, está bem, Almeida. Fale do maldito filme em que a Julia Roberts vai para a casa de vinho.
- Impressionante, Bastos. Simplesmente impressionante. Você não prestou atenção a uma palavra sequer do que falei, não é mesmo?
- Então, fala, Almeida. Vai! Fala! Engole esse salgado e fala.
- Obrigado – o Almeida engole o salgado, dá um gole em seu refrigerante e prossegue. – Como dizia, a Sandra Bullock, não a Julia Roberts, vai para o Rehab...
- O tratamento que leva o nome da música da pinguça com nome de ironia.
- Respeite os mortos.
- PROSSIGA, ALMEIDA!
- Bem, ela vai para a... para a clínica. Lá tem um todo um tratamento sustentado em um programa. Nesse programa, eles precisam desenvolver o senso de responsabilidade. Para tal, começam por baixo. Eles começam cultivando uma samambaia.
- Olha que ótimo! Incrível, Almeida. Uma samambaia. Ela vai poder ouvir você falar o dia todo sobre suas histórias. Imagine ter uma samambaia que vai te ouvir falando sobre a chuva por quatro horas igual ao programa da GNT.
- Três horas, Bastos.
- Ora, Almeida, sabemos que você consegue melhorar esse tempo. Já consigo imaginar essa samambaia estimulando o melhor em você. Almeida nas olimpíadas representando o Brasil na categoria prolixo.
- Não vai ter samambaia, Bastos.
- Por que não, Almeida? Aposto que a Telma acha uma boa ideia.
- Claro que ela acha uma boa ideia. Tanto que ela me colocou para ver o filme no intuito de ajudar a me convencer.
- Viu? A Telma é incrível. Aposto que verão vários programas na Discovery sobre como criar samambaias. Quais assuntos elas mais gostam de ouvir. Que tipo de água para regar uma samambaia. E também... – o Almeida interrompe o Bastos.
- Pode parando. Não vai ter samambaia.
- Por que, Bastos? Estávamos tão próximos de encerrar esse assunto.
- Porque não existe interação com uma samambaia. Por mais que ela possa me ouvir, uma geladeira também pode. Eu preciso de algo que me proporcione interação também. Algo de baixa responsabilidade, mas com interação.
- Que tal um peixe?
- Um peixe, Bastos? Como se interage com um peixe? Já viu alguém fazendo cafuné em um peixe? Já viu alguém sentado no sofá vendo televisão com um aquário no colo?
- Justo. Que tal um papagaio?
- São muito perigosos.
- O QUE? De onde tirou que papagaios são perigosos, Almeida?
- Eu vi em um programa...
- Com a Telma.
- Exato! Aqueles programas policiais, sabe? Sempre tem uma história interessante. Certa vez, um crime aconteceu numa cidade. Condado de alguma coisa. Lá nos Estados Unidos as cidades se chamam condado alguma coisa. É engraçado. De qualquer forma, um homem apareceu morto. Uma coisa horrorosa. Sangue para todo o lado. A perícia suspeitava de uma luta brutal que ele travou com seu algoz.
- Algoz?
- É algoz!
- Você é uma caixa de surpresas mesmo, Almeida.
- Enfim... Esse refrigerante está sem gás. Como dizia, a perícia acreditou em uma luta brutal. Tinha sangue pela casa toda. A vítima estava cheia de feridas pelo corpo, principalmente no rosto. Quando estavam dando por concluídas as investigações, descobriram que o homem era um pervertido e tinha câmeras pela casa toda para filmar seus encontros.
- Vejam só! Está aí algo que não encontramos todos os dias.
- Aí que você se engana, Bastos. Mais de vinte por cento da população sexualmente ativa costuma filmar suas relações. Eu vi isso num programa com a Telma de madrugada no canal...
- O CRIME, ALMEIDA! O CRIME!
- Ok. O crime! Daí, encontraram as câmeras. Você acredita que foi o papagaio dele?
- Jesus!
- Pois escute. O papagaio fugiu da gaiola enquanto ele dormia e o atacou. Foi primeiro em um dos olhos. Praticamente arrancou o olho em uma bicada só. O homem não conseguiu fugir.
- Como não conseguiu fugir?
- Ele estava cego!
- De um olho apenas. E o outro?
- Ele usava óculos e, antes do ataque, o papagaio derrubou os óculos da mesa de cabeceira.
- Que demônio!
- Eu te disse. Desnorteado e sem enxergar, o homem foi presa fácil para o papagaio. O animal o comeu vivo praticamente. Está louco que vou criar um animal daquele tipo.
- Veja pelo lado positivo. Ele pode ser um bom animal de guarda para a sua casa.
- Animal de guarda? Você se esqueceu que moro na Pavuna? Aqueles viciados vão comer o papagaio vivo. Duas dentadas e pronto, nem sobram penas para contar história.
- É, Almeida. Voltamos ao cãozinho então.
- Pois é. Sempre que reflito sobre o assunto, acabo caindo no cãozinho. O problema é que a Telma considera muita responsabilidade. Ela não concorda e, por estar tão convicta disto, acabo concordando com ela.
- Deixe-me pensar aqui. Você quer um animal de estimação para te fazer companhia?
- Isso!
- Para fazer cafuné nele?
- Sim!
- Para assistir televisão com ele no colo?
- Exato!
- Já parou para pensar que a Telma pode estar com ciúmes?
- Sabe, Bastos? Preciso te falar uma coisa.
- Diga.
- Eu estaria preocupado se o major Salgado me chamasse para conversar.
- Não é mesmo, Almeida?

Próximo conto da coleção: Tráfico de órgãos

domingo, 16 de outubro de 2016

Cai na real: Contos sobre a rotina para quem acabou de chegar

Conto anterior da coleção: Canelinha

Artimanhas
Costuma-se falar que no desespero sempre revisitamos nossas ações para entender como fomos parar naquela situação. Só que não é a vida toda, não. A vida toda passa em flashback em nossas cabeças apenas quando estamos correndo sérios riscos de morte. Aqui é diferente, trata-se de um caso de punição por ter cometido um erro. Ou um crime, como as pessoas lá do lado de fora preferem afirmar. Nestes casos, as únicas coisas que passam em nossas cabeças são os atos que nos levaram até aquele ponto. Bem, no meu caso acaba sendo flashback da vida toda mesmo, porque isso tudo começou na minha infância.
Assim que cheguei ao jardim de infância, percebi que as coisas seriam complicadas. Era filho da secretária de um colégio frequentado por bacanas da Zona Sul e por isso não pagava mensalidade. Entretanto, era difícil acompanhar os coleguinhas mantendo um mesmo patamar em relação ao material. Eles tinham os melhores gizes de cera, canetinhas coloridas e potinhos de guache. Enquanto isso, eu tinha de me contentar com três canetas esferográficas, uma azul, uma vermelha e uma verde, que mamãe desviara do balcão de atendimento da escola. Tinha vergonha dos meus desenhos quando comparados com os dos outros alunos. Os deles eram borrões combinados com traços aleatórios, mas que, com tantas cores e diversidade de texturas, pareciam verdadeiras obras de arte. Já os meus eram redemoinhos e rabiscos uniformemente finos em três cores. Eram quase ilustrações para jogos de Atari.
- Vejam só – diziam os pais ao olhar os desenhos dos outros alunos expostos. – Eles estão se esforçando para valer.
- Ah tá – exclamavam os mesmos pais ao verem os meus desenhos expostos. – É aqui então que testo se a caneta do balcão da secretaria está funcionando.
Algo precisava ser feito e não demorei muito para bolar um plano e colocá-lo em prática. Juntei-me a um tal de Valter, menino rechonchudo que era sempre excluído das brincadeiras pelos outros alunos por ser meio bruto. Isso para não falar da discriminação que ele sofria na hora da merenda. Formamos uma dupla e começamos a fazer com o que os outros alunos me emprestassem o material e dessem para o Valter o pudim da sobremesa. Eles sempre perguntavam no início por que deveriam fazer aquilo:
- Porque caso contrário vou fazer pipi no seu colchonete na hora da sonequinha e vão pensar que você precisa voltar a usar fraldas – disse para o Marcinho.
- Porque vou contar para todas as professoras que você anda mostrando a calcinha para os meninos, arruinando assim sua fama na alta sociedade para conseguir um marido, lhe restando apenas a carreira de modelo de catálogo de lingerie por atacado – falei para a Aninha mostrando o meu lado mau precoce.
- Porque eu vou te morder todo – afirmou o Valter deixando transparecer que seu humor não era dos melhores antes da merenda.
Nosso projeto foi um sucesso. Em menos de dois meses, meus desenhos pareciam obras de Monet com tamanha diversidade à minha disposição. Já o Valter morreu de uma crise hiperglicêmica que ninguém soube explicar, pois a alimentação da escola era balanceada conforme orientações de um nutricionista que acabou demitido. Ainda assim, eu estava convencido que essa seria a melhor forma de obter qualquer coisa que quisesse.
Passados alguns anos, ainda criança, lá estava eu tramando novamente, agora no pracinha do bairro. Meu objetivo não era mais material escolar, mas as tão desejadas caixinhas de estalinhos. Mamãe raramente me dava dinheiro para comprar estalinhos, enquanto as mães das outras crianças que lá frequentavam torravam uma grana abastecendo verdadeiros arsenais. Tanto que era possível escutar a praça de quase três quarteirões de distância por conta da enormidade do som dos estalos.
Daquela vez montei um plano mais complexo, só que para dar início a ele, precisaria de mais do que um parceiro. Arrumei então dois comparsas da mesma idade que a minha. Jeferson era um menino que vivia com o nariz escorrendo e quase não curtia estalinhos, porque, ao manuseá-los com seus dedos cheios de meleca, eles não estouravam. Mariana era uma menina histérica que não suportava que jogassem estalinhos perto dos seus pés. Fizemos então um movimento digno de planejamento militar. Primeiro, tomamos posse da casamata da praça. Ela era uma casinha que ficava em um patamar elevado com alguns brinquedos embaixo. Para chegar nela, existiam três escadas. Para descer, tinham seis tipos diferentes de escorregas. Era o objeto de consumo de toda criança. Elas ficavam subindo por um lado e descendo pelo outro incansavelmente, como se fosse uma linha de produção frenética. A criança entrava ofegante na forma de matéria-prima na casinha que era a máquina, depois saía do outro lado histérica, deslizando escorrega abaixo, como um produto acabado barulhento.
A conquista aconteceu da seguinte forma: coloquei a Mariana dando chilique no topo de uma das escadas, obrigando assim as crianças a subirem pelas outras duas escadas. Ao subirem, elas se deparavam com o Jeferson ameaçando passar a mão emporcalhada com suco de meleca caso não dessem estalinhos. Rapidamente conseguimos uma boa quantidade de estalinhos para brincar por um dia. Contudo não era suficiente, precisávamos de mais e a maior parte deles estava com as crianças que não gostavam tanto assim de subir na casinha. Foi aí que iniciei a segunda parte do plano. Enquanto Mariana e Jeferson agiam no topo das escadas, comecei a usar uma parte dos estalinhos que eles conseguiam como munição nas crianças que ficavam no chão. Elas não tinham força para revidar, por conta da altura em que eu estava, e passaram a implorar para que parasse com aquilo. Foi aí que começamos a condicionar o fim dos ataques ao fornecimento de estalinhos, criando um círculo vicioso em que somente eu saía ganhando.
Infelizmente, o plano durou apenas um mês. Tive severas baixas na minha equipe. Primeiro foi a Mariana que não pode mais ir, pois teve de operar a garganta. Acho que ela estourou as cordas vocais de tanto gritar. Depois foi o Jeferson que, de tanto assoar o nariz, arrebentou a cartilagem daquela região e ficou com a sua torneirinha nojenta pendurada. Dizem que ele fez uma plástica que o deixou parecido com o Michael Jackson, mas nunca confirmei.
Não sei foi crise de culpa ou trauma, mas o fato é que fiquei um bom tempo sem maquinar planinhos daquele tipo até o fim da minha adolescência. Já estava no cursinho preparatório para o vestibular quando estourou a maior febre de álbum de figurinhas da Copa do Mundo. Eu não somente precisava colecionar, como era uma obrigação completar aquele álbum. O único porém era que continuava duro como nunca. Não tinha dinheiro para o álbum, sequer para um envelope de figurinhas. Todavia, em um curso pré-vestibular ameaças de pracinha e colégio não costumavam funcionar com tanta facilidade. Precisava então de algo mais enfático. Foi aí que surgiu o Arnaldo, um cara burro como uma gaveta empenada, mas amedrontador como um ônibus sem freio em uma ladeira. Ele nem curtia tanto assim álbum de figurinhas, mas era tão sádico, que topou de primeira com um sorriso demente no rosto.
Definida a dupla, o próximo passo seria determinar qual grupo de alunos em um pré-vestibular seria submisso a uma sequência de ameaças. Assumo que foi simples, o alvo seria os alunos dedicados aos cursos de exatas, mais precisamente, os retardados tarados por matemática. Só que ali residia um pequeno problema, eles não curtiam álbum de figurinhas. Eles colecionavam gibis, bonequinhos de super-herói, assistiam desenhos animados japonês, mas álbum de figurinhas para eles era coisa de criança. Da necessidade de alcançar a meta surgiu a sofisticação do plano. Passamos a ameaçar os retardados estranhos para obter a resolução das questões de física e matemática das provas mais difíceis. Depois trocávamos a nossa aquisição por figurinhas com os alunos que tinham enorme dificuldade nessas disciplinas, os que iriam concorrer às vagas para direito. Era perfeito. Completei o álbum em uma semana. Depois completei mais doze álbuns os quais vendi no mercado paralelo para fazer uma poupancinha e por fim encerrei as atividades nessa área. Já o Arnaldo, frustrado que tudo terminou sem uma turbulência qualquer, optou por seguir por conta própria em carreira solo. Agora ele continua achacando os estranhos das calculadoras para receber as questões resolvidas, as quais ele troca com alunos candidatos à medicina por remédios tarja preta que eles desviam com ajuda dos pais médicos.
Sucesso nos esquemas, fracasso total no vestibular. Passei o resto da vida com um diploma de ensino médio e disputando empregos de qualidade duvidosa. Especialmente para quem teve a oportunidade de desde cedo estudar em uma das melhores escolas da cidade. Por muitos anos me contentei trabalhando no controle de tíquetes de estacionamento de um grande shopping da região. Os lojistas de lá não tinham direito a estacionamento gratuito. Se quisessem parar o carro lá dentro, pagariam como qualquer cliente. Já os seguranças da noite, diferentemente dos seguranças do dia, não ganhavam vales para usar na praça de alimentação, ganhavam marmita. Bem, cada um com o seu problema. O meu era a total ausência de charme para recorrer caso quisesse conquistar alguma garota. Convenhamos, existia ali uma perfeita equação matemática de fácil resolução e total equilíbrio entre suas variáveis.
O novo esquema começou então de uma maneira que remetia à ingenuidade e a uma simples camaradagem. Durante duas semanas, ofereci adulterar os tíquetes de estacionamento dos lojistas, colocando o período mínimo que dava direito à gratuidade. O resultado foi 78 lojistas com o tíquete de um dia apenas adulterado. Quem notasse algo, diria que foi apenas uma “quebrada de galho”. E, convenhamos, teria sido se a ação parasse ali. Só que o meu plano se iniciou oficialmente na terceira semana, quando os seguranças da noite, sob minha coordenação, começaram a abordar os 78 lojistas na hora da saída dizendo que sabiam que houve uma fraude no tíquete deles na semana anterior. Os lojistas assustados me procuravam pedindo para limpar a barra deles, pois, assim como eu, não podiam se dar ao luxo de perder aquele emprego por pior que fosse. Com todos os atores devidamente absorvidos pela trama, o esquema se prolongou por diversos anos. Uma vez por semana adulterava o tíquete de cada lojista, em troca eles me dava um vale-lanche que era repassado para os seguranças da noite. Com o tempo, alguns lojistas iam embora para outros empregos, mas sempre aumentava a quantidade de participantes conforme os novos chegavam. Alguns no momento da entrevista já eram avisados do esquema. Coisa linda, não?
A sutileza da coisa naquele esquema residia no fato que a parte frágil, os lojistas, não imaginava onde eu obtinha vantagem. Essa era a chave do sucesso, pois meu pacto era com os seguranças, pessoas de confiança que jamais me deixariam na mão. O meu ganho na história era total o acesso ao shopping depois do encerramento de suas atividades. Levava uma vez por semana uma garota para lá. Era tudo nosso. Elas ficavam boquiabertas em ter tamanha exclusividade e, ao mesmo tempo, a minha suposta influência era um afrodisíaco. Ainda assim, combinava com os seguranças que por mês, abriríamos apenas três lojas para desviar uma pequena peça para presentear as meninas. Eu sei que eles faziam coisas piores, mas a genialidade do meu plano era não deixar rastros notáveis. Ninguém percebia a subtração de uma calça jeans ou vestido. Até porque o inventário era feito uma vez por semana e o desvio acontecia em uma data distante para assim parecer um furto de cliente.
O plano cedeu quando os seguranças foram demitidos por estarem muito além do peso exigido para a função. Os novos não pareciam facilmente corruptíveis. Como consequência, tinha uma vasta lista de lojistas insatisfeitos por terem de voltar a pagar o estacionamento integralmente. Eram como uma horda de viciados que teve seu fornecimento de drogas interrompido repentinamente. Daí aconteceu o inevitável, me denunciaram e fui mandado embora. Como não recebi sequer uma carta de recomendação, foi duro arrumar novas oportunidades.
Fiquei desde então pulando de emprego em emprego, sendo que na maioria não durava mais do que quatro anos. Passei por uma empresa de contabilidade na qual, com a ajuda de um faxineiro com problemas psiquiátricos, usávamos os e-mails particulares dos contadores para obter vantagens no contracheque. Depois fiquei em uma empreiteira que, graças a dois operários ex-presidiários incorrigíveis, consegui material suficiente para reformar a minha casa toda. Já coloquei pelo de rato em pote de sorvete para depois descobrir “acidentalmente” e chantagear o dono da fábrica. Quando fiquei em uma clínica médica, mudava os exames para que as esposas estivessem grávidas de uma suposta traição e tirar então vantagem com essa informação privilegiada.
Hoje tenho 63 anos e estou internado em uma espécie de asilo psiquiátrico. Meus parentes, cansados dos meus intermináveis planinhos e tramoias, aqui me deixaram para tratamento. Neste exato momento estou trancafiado em um quarto escuro de ridículos 4 metros quadrados enquanto o diretor decide o que fazer comigo. Ele descobriu que, com a ajuda dos enfermeiros da madrugada, montei um novo projeto para obter vantagem sobre os outros internos. Provavelmente ele vai entrar em alguns minutos perguntando qual vantagem estava obtendo agora. Estou em dúvida em qual mentira contarei para ele. Já pensei em falar que é para conseguir dinheiro para os enfermeiros comprarem coisas para mim lá fora, mas sabemos bem que os internos não têm dinheiro. Cogitei em alegar que pedia cigarros, só que todos sabem que não fumo. Outra hipótese foi conseguir os comprimidos deles, contudo não faz sentido, pois os mais pesados eu já ganho. Acho que terei de contar a verdade para ele, mesmo sabendo que não acreditará em mim ao falar que estava apenas entediado e coagia os internos para poder espremer aqueles cravos enormes que eles têm nas costas.

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sábado, 15 de outubro de 2016

O fabuloso imaginário do absurdo

Senhora Neves
Toda manhã de sábado era a mesma coisa. Eu e os meninos da rua íamos para um terreno baldio bater uma bolinha. O tal terreno baldio, para ser preciso, era quase um quarteirão inteiro se não fosse por uma única casa velha. Lá morava a senhora Neves, uma mulher idosa famosa pela antipatia. Morou só a vida toda. Várias lendas sobre ela eram conhecidas pela vizinhança. Ninguém tinha coragem de comprar um lote próximo a casa dela para morar por conta disso. Dentre as lendas mais famosas estava a que ela era uma bruxa. Uma delas era a do Armandinho Molha Selo. Ele assim ficou famoso depois  de uma tentativa de recuperar uma pipa que caiu no telhado da senhora Neves. A lenda dizia que a senhora Neves, quando viu que ele estava no telhado dela, transformou o Armandinho em um sapo. Ela passou a deixar o Armandinho em sua mesa de escrivaninha e toda vez que precisava mandar uma carta, ela umedecia os selos no corpo gosmento dele.
Certa manhã de sábado estava pelo terreno jogando bola com mais dois colegas, o Toninho e o PH. A brincadeira era a tradicional altinha. Usando somente os pés, peito e cabeça, não podemos deixar a bola cair no chão. Em um determinado momento, para fazer graça, o Toninho deu uma bicuda para o alto. Era um recurso para atrapalhar os outros e assim a bola cair no chão. Ela foi por cima de mim. Não me dei por derrotado. Continuei correndo de costas para ficar debaixo da bola e aterrissá-la no meu peito. Enquanto estava correndo apenas olhando para a bola, perdi a noção de perspectiva e dei uma trombada no muro da senhora Neves. Apaguei.
- Você está bem, cara? – perguntou o Toninho enquanto recobrava a consciência. – Você deu uma senhora pancada de cabeça.
- Acho que sim – respondi enquanto apalpava a cabeça à procura de galos ou ferimentos.
- Que bom! Porque a bola caiu por cima do muro da senhora Neves.
Segundo a regra da galera, quem deixava a bola sair que tinha de resgatá-la. Eu achava que a culpa era do Toninho, mas, como ainda estava um pouco desorientado por conta da pancada, acabei aceitando sem relutar. Pedi apenas uma ajuda para subir no muro e lá fui eu entrar no quintal da senhora Neves. Aquele era um local sagrado que, segundo as histórias, poucas pessoas já pisaram e depois saíram com vida.
A cena era algo bem próximo do meu imaginário. Um jardim com mato alto indicando descuido. Alguns vasos quebrados, um banco de madeira apodrecido e caindo aos pedaços, a parede da casa estava com a pintura descascada e as janelas estavam enferrujadas. Gastei um bom tempo reparando naquele cenário. Tanto que cheguei a esquecer de procurar a bola.
- Moleque enxerido, vai se arrepender de ter entrado aqui.
Antes que pudesse me virar para trás, senti sua mão pesando em meu ombro. Para uma senhora tão idosa e com aparência de debilitada, aquela mão pesava tanto quanto a de um caminhoneiro. Tentei me desvencilhar, mas ela era incrivelmente forte. Implorei pela minha vida e que me soltasse. Ela então arregalou seus olhos de maneira macabra como nunca tinha visto antes em filmes de terror e disse:
- Nem mais um pio. Passarinho meu só canta quando eu mando.
Assim que ela terminou a frase, eu tinha me transformado em um passarinho. Lá estava eu, um passarinho indefeso na mão da senhora Neves. Com aquela mão firme, a senhora Neves me levou para dentro da sua casa. Tentava me debater, mas era impossível. Se na forma de um garoto de doze anos não consegui fazer com que ela me soltasse, imagine agora como um pardalzinho fuleiro.
Fiquei por dias preso em uma gaiola na sala da senhora Neves. Toda tarde, ela me levava para a varanda e dava a ordem para cantar. Caso não obedecesse, ela enfiava a mão na gaiola e me dava um peteleco. Isso só aconteceu nos primeiros dias. Depois cansei de levar petelecos e passei a obedecer. Cantava de tudo. Qualquer música que me vinha à cabeça. Com o tempo, ela me ensinou algumas músicas do Ataúlfo Alves. Sempre que as cantava, ganhava um gomo de tangerina. Era bem melhor que aquele alpiste seco e sem graça.
Certa tarde cansei daquilo tudo. Precisava fugir. Não sabia como iria viver na forma de passarinho, mas ali não ficaria mais. Bolei um plano e resolvi colocá-lo em prática. Quando a senhora Neves estava carregando a minha gaiola para a varanda, me joguei na vasilha onde ela colocava água para mim. Pulei na vasilha batendo as asas freneticamente. Foi água para todos os lados, inclusive na senhora Neves que, com o susto, deixou a gaiola cair de suas mãos. Com o impacto no chão, as varetas de bambu da gaiola se partiram. Mesmo atordoado com a queda, saí da gaiola e disparei a voar. Parti na direção do quintal com a velha bruxa me seguindo. Estava com uma das asas machucadas e batendo em menor velocidade que a outra. Minha vantagem de distância da senhora Neves não era tão grande. Ainda assim, fugi. Reuni minhas forças e consegui subi a uma altura suficiente para passar por cima do muro. Assim que o cruzei no ar, como se o feitiço só tivesse efeito na casa da senhora Neves, voltei a ser menino. Estava a uns três metros de altura quando o pardalzinho frágil se transformou no menino que vos fala. Caí me espatifando no chão e desmaiei.
- Você está bem, cara? – perguntou o Toninho enquanto recobrava a consciência. – Você deu uma senhora pancada de cabeça.
- Cara, você não vai acreditar. Aquela velha maluca da senhora Neves me transformou em passarinho e me colocou para cantar para ela. Devo ter ficando uns...
- Você está doido? Tem uns vinte minutos que você está aí desacordado. Estávamos quase indo na sua casa chamar os seus pais.
- Ué! Será que sonhei isso?
- Claro que sim, seu doido.
- Que bom então, né?
- Bom nada! Você ainda tem de pegar a bola lá.
- Droga – fiz uma pausa para procurar galos ou ferimentos na cabeça. – Só quero te pedir uma coisa. Chamem imediatamente a polícia caso me escutem cantando Ataulfo Alves.

Próximo conto da coleção: Invocação danada

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Amargura por extenso

 Papo de bar
Por um tempo, tive a oportunidade de viajar pelo Brasil a trabalho. Pisei em quase todos os estados. Fui a capitais, cidades do interior, pequenas cidades conhecidas e outras esquecidas pela evolução da civilização ocidental. Uma das coisas que notei foi que, independentemente de onde estivesse, sempre encontrava algum bar com referências ao Rio de Janeiro. Bar Samba e Praia. Copacabana Bar. Malandragem Carioca, petiscos e bebidas. Rio 40º e cerveja gelada. O curioso era que sempre que pisava em um deles e abria a boca, um garçom me identificava:
- Você é carioca, né?
- Sim, sou. Percebeu pelo chiado na pronúncia ou pelo sumiço da sua carteira?
Raramente entendiam a gracinha. Comumente perguntavam o que achava da ambientação. Chão fingindo ser de pedra portuguesa com desenho igual ao calçadão de Copacabana. Pandeiros, bandeiras de times de futebol e chapéus brancos pendurados na parede. Fotos de sambistas espalhadas por todos os cantos. O esforço para tentar parecer algo autenticamente carioca era enorme. Ainda assim, passavam longe.
- Como assim, nada se parece com um bar carioca?
Nenhum carioca gosta de ficar sentado em uma mesa dentro de um recinto fechado com ar condicionado. Carioca gosta de beber em pé. Se possível, usando um barril com um tampo de madeira como mesa. Para ficar perfeito, tem de ser no meio da rua atrapalhando o trânsito.
Parece meio hipócrita falar de clichês em outras cidades. Ainda mais vindo de uma pessoa que mora onde se tem um shopping com uma réplica da Estátua da Liberdade. Ao menos, não temos ainda franquias das lojas Havana. Ou, melhor ainda, não descobriram o shopping Barra World no Recreio dos Bandeirantes. Daí, seríamos chacota nacional.
Voltando à moda carioca de se frequentar bares, é preciso se lembrar da existência do ponto negativo nesse hábito de ficar do lado de fora. Os ambulantes que tanto nos perturbam noite adentro. No início, lá no século passado, só existiam dois tipos de ambulantes. Os clássicos baleiros que, na maior parte das vezes, eram crianças. Apareciam nos chamando de tio e repetindo a mesma frase:
- Vai uma bala aí, tio?
A outra categoria, a mais presente e com raras chances de se extinguir, era dos vendedores de amendoim torrado.  Talvez a maior afronta ao questionável rigor de fiscalização da Vigilância Sanitária. Amostras de amendoins eram oferecidas em um pedaço de papel pardo comprado em qualquer papelaria. Sempre repousadas sobre uma mesa que, até o início da tarde, horário em que o movimento do bar é escasso, servia de passarela para pombos. Talvez esse fosse o segredo do tempero.
O equilíbrio entre o carioca boêmio à beira da calçada e o ambulante sempre foi mantida por diversos anos. Comprava quem queria. Quem não queria, bastava uma negativa para que o ambulante seguisse sua procissão mercantil. Com o passar dos anos, o nicho de ambulante nas portas dos bares foi ficando diversificado. Chegaram os vendedores de miçanga e brincos com penas de pombo. Depois, anéis de arame “com um brinde grátis, madame”. A variedade culinária também foi aumentando e se sofisticando. Brownies, cupcakes, bolinhos space e brigadeiros gourmet. Por fim, surgiram os autores alternativos com suas obras nunca compreendidas pela sociedade.
- Vai uma poesia aí, gente boa?
- Cara, eu não entendo de poesia.
- Poesia não se entende. Poesia só se sente. Poesia seduz gente. Tanto a alma como a mente...
- Ah não começa, por favor...
- Para quem é impaciente, a poesia calmamente...
- Ok, eu compro.
- São quinze reais.
- Quinze reais por algumas folhas de caderno com frases soltas amarradas por um barbante?
- Rústico sou, da simplicidade que sobrou...
- Ah, me dá duas!
Não, o mercado que flerta com uma Torre de Babel e passa por toda porta de bar cheio não me incomoda. O desconforto surgiu quando a forma de se desvencilhar de algum deles, quando não se tem interesse em comprar algo, começou a ficar cansativa. Nos padrões básicos da sociedade, sempre me considerei uma pessoa educada. Dou bom dia ao porteiro, cumprimento as pessoas quando chego em qualquer lugar, chamo os garçons pelo nome e sempre espero a mulher gozar primeiro. No que diz respeito a negar algo, uso como balizador a possibilidade de estar na companhia da minha mãe na casa de uma amiga dela.
- Quer uma língua de gato da Kopenhagen?
- Oh senhora, parecem apetitosos, mas vou dispensar. – obviamente, se dependesse de mim, comeria a caixa inteira sozinho.
Se, ao término da cena, a imagem da minha mãe disparando um olhar repreendedor em minha direção não surgisse, era sinal que neguei com educação. Infelizmente, mesmo como esse treinamento, ou trauma se assim preferirem classificar, os ambulantes não se dão por satisfeitos. A cada dia que se passa, ao invés deles se reinventarem com novos produtos, os clientes que precisaram ser criativos com as desculpas.
- Repare que esta pulseira de couro pode ser ajustada para caber perfeitamente no seu pulso...
- Eu entendi, mas não tenho interesse...
- Tente colocar. Vai perceber que ela combina...
- Prefiro não. Ela me traz recordações da minha avó que morreu recentemente durante uma mal sucedida sessão de sadomasoquismo.
Pouco importa se o produto comercializado é de fato desejado por qualquer indivíduo na face da terra. Por mais inútil que seja, o vendedor vai insistir. E, caso dispense, ele ficará ofendido, questionará seu gosto e inteligência. Não adianta. Esses em especial são os mais complicados de se desvencilhar.
- É que me chamo Fernando Francisco.
- Preste atenção, pois eu gravo seu nome no arroz mesmo sendo composto.
- Muito obrigado. É impressionante seu talento, mas dispenso.
- Então, é a oportunidade de ter...
- Eu sei, mas não posso.
- Ora, por que não?
- Porque... Porque... Porque eu tenho o hábito de colocar as coisas no nariz. Daí, vou acabar perdendo ele.
- Colocar coisas no nariz? Quantos anos você tem?
- Eu tenho 37. Que coisa não? Só não fale alto, pois o casal da mesa ao lado está até agora procurando o isqueiro deles. Imagine só onde ele...
- Você é estranho.
Se pudesse, voltaria a todas as cidades que estive e venderia consultoria para os chamados bares temáticos cariocas. Tiraria as mesas e colocaria os clientes na calçada e meio-fio. Treinaria os garçons para demorarem com os pedidos, errarem na contagem dos chopes e passarem a impressão que estão lhe prestando um favor. Contrataria atores para se passarem por ambulantes. Chegariam cutucando, fingindo intimidade e tentando disfarçar o evidente desconforto. Seriam inconvenientes e tomariam o seu tempo com o mesmo talento que sua mãe quando entra em seu quarto. Por fim, para completar a ambientação, deixaria uns taxistas à porta do estabelecimento para negar todas as corridas.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Volúvel

Mariana
- Merda!
Coloquei a chave na fechadura e nem precisei girar, ela já estava aberta. A cabeça não andava boa já tinha um tempo, mas sair de casa e não trancar a porta era muita bobeira. Não estava voltando de mais uma noitada inesperada que justificasse sair tão afobado. Não, muito pelo contrário. Quando fui para a rua disposto a resolver algumas coisas nem eram onze da manhã. Como não estava apressado, não fazia sentido ter cometido esse deslize. Talvez a hora explique a distração, afinal estar acordado tão cedo é sempre uma boa desculpa. Ok, dez da manhã não é muito cedo, só que, para os meus padrões, o horário é equivalente ao de um assalariado convencional.
Pois bem, lá estava eu seis horas depois que deixei a minha casa inteiramente vulnerável. Afinal, para quem não sabe, o trinco da maçaneta está quebrado, logo, ou você tranca com chave, ou qualquer sopro faz a porta se abrir. Como não tranquei, com o mínimo esforço, empurrei a porta com a ponta do dedo indicador. A sala que agora se revelava era bem diferente da que quando saí pela manhã.
- Merda!
Bagunça e caos na minha sala. Era exatamente o que esperava encontrar, porém me deparei com o oposto, uma sala com tudo no lugar. Nada de cobertor largado no sofá, livros entreabertos por todos os lados, garrafa de vinho vazia no chão e camisas no encosto da poltrona. Alguém esteve por aqui. Ou melhor, alguém ainda estava por aqui, pois nenhum daqueles dois quadrúpedes louros que moram comigo estavam à porta me esperando. Talvez fosse a faxineira. Não, era uma terça-feira e ela só aparece às quartas-feiras.
Talvez não devesse dizer isso, pois todos diriam que era algo previsível, mas eu tenho um péssimo hábito de dar cópias da chave da minha casa para metade da cidade. Portanto, cedo ou tarde era esperado que alguém aparecesse na minha casa sem ser chamado. Bem, poderia ser pior. Alguém sem ser chamado chegar à minha casa em um momento inoportuno. Não era o caso, o qual confesso que ainda assim pode ser pior ainda. Essa pessoa ser alguém que eu não queria ver em hipótese alguma. Pois é, não bastante o complexo de São Pedro solidário, tenho o terrível defeito de não pedir de volta a chave quando não faz mais sentido. Isto é, alguns desafetos meus, que provavelmente desejam muito o meu mal, podem com facilidade entrar na minha casa. Fui para o quarto esperando o menos pior, algo como uma cabeça de cavalo em minha cama.
- Merda
- Você é muito desbocado!
A cena era impressionante. Acho que, assim que terminei de pronunciar a última vogal, fiquei com a boca aberta por quase dois minutos. Frio na barriga, pernas tremendo, a terrível sensação de não saber o que fazer e um instantâneo flashback na cabeça para entender por qual motivo seria merecedor daquilo. Lá estava ela deitada na minha cama. À primeira vista, era uma imagem Nabokoviana. De bruços, com os pés cruzados para o alto e com o corpo posicionado de maneira invertida em relação à cabeceira, era a personificação da tentação que ela sempre foi para mim. Um dos meus gatos dormia ao seu lado, o outro, acordado, recebia cafunés na barriga. Que inveja dele. As unhas dela têm poderes inexplicáveis.
- Você – fiz uma pausa para ainda me recuperar da cena. – Você arrumou a minha sala?
Ela se levantou da cama e a covardia se fez por completa. Short jeans desfiado curto, apenas meias nos pés e uma T-Shirt com golas, mangas e barra cortadas, bem larga e despojada. A tatuagem ao lado do peito escapando pela lateral da blusa como um sol que invade pela fresta da cortina foi o golpe de misericórdia. Ela estava do jeito que adorava e assim me quebrava as pernas. Aliás, do jeito que ela sabia que eu adorava e assim, propositalmente, me quebrava as pernas. Mesmo sendo uma das melhores cenas da minha vida, sabia que em poucos minutos estaria totalmente fodido. Nada sai impune ao ver sua musa te esperando de uma maneira rusticamente sexy em sua cama. Não comigo, pelo menos.
- Você demorou muito, seu wi-fi estava ruim e o sinal do meu celular estava fraco. Fiquei sem ter o que fazer, então acabei arrumando sua sala.
- Você tinha dois gatos para interagir e ainda assim optou por colocar ordem em um apartamento que era um total caos? E, pelo que vejo pendurado no banheiro, foi suficiente para ficar suada. Então tomou banho, se arrumou novamente e ficou estonteante à minha espera. Pois bem, então imagino que tenha algo bem violento vindo em minha direção. Como estou sem a menor noção do que se trata, considerarei que sou uma lambreta com o farol quebrado em um túnel indo de encontro a um caminhão carregado de ogivas nucleares.
- Sabe o que sempre mais admirei em você?
- Hum.
- Sabe o que me chamou a atenção e me cativou?
- Desculpe, mas o hum foi exatamente uma deixa para responder.
- A sua inteligência e capacidade de perceber as coisas.
- E o caminhão acelera... – ela me interrompe.
- Cala boca – quero dizer, ela me interrompe com vontade. – E sabe o que mais odeio em você?
- Eu quero saber?
- Só os idiotas respondem uma pergunta com outra pergunta.
- Esqueci que, mesmo mais nova, você também é da geração Chaves.
- Bem mais nova!
- A minha idade é o que mais odeia?
- Não, não é! Odeio o fato de você não saber quando usar essa inteligência e sagacidade. Insiste em só usar em sarcasmo e respostas ácidas. Na maior parte das vezes nos momentos errados. Nos momentos certos, você se cala. Ou pior, some! Aliás, corrigindo, você só usa nos momentos errados.
- Mas esse é o meu charme!
- É, mas na página doze começa a irritar.
Já tinha esquecido como odiava quando ela abria a boca. Não, ela não é daquelas de sempre, com a cabeça vazia que a cada palavra pronunciada você reflete a real necessidade de estar com ela. Ela sabe me ler e dar respostas que fico sem reação. Por que, raios, ela não podia ser apenas um rostinho bonito em um corpo perfeito? O pior nessa história é que apesar do rostinho, do corpo e do jeito sonso de ser, foi exatamente esse talento odioso que ela tinha que me chamou a atenção. Obviamente, se ela tivesse acesso a este meu pensamento diria que é mentira. Sim, não deixa de ser em partes. A primeira vez que a vi pensei que se tratava de uma dor de cabeça que tive alguns anos atrás. A única menor de idade que me relacionei. Ela tinha 17 e eu 25, mas não é assunto para agora. O fato é que cedo ou tarde ela se revelaria o que é hoje, causando assim a mesma fascinação que disse antes. O problema é que, para se ter uma musa, faz-se necessário ser um poeta, um pintor, um músico ou um sábio. Eu sou apenas um idiota com alguns dotes capazes de impressionar meninas que ficam fascinadas com diálogos de filmes água com açúcar. E isso nem chega perto de ser uma característica dela.
- Baby, o que você está fazendo aqui? Por que arrumou a minha casa?
- Não sei.
- Você não sabe o motivo de estar aqui há pelo menos umas duas horas...
- Quatro – ela me interrompe.
- Que seja! Você não sabe o motivo por estar quatro horas aqui?
- Isso eu sei! Não sei te explicar sobre ter arrumado sua casa. Talvez seja meu subconsciente que queria muito arrumar sua vida. Ou quem sabe um antecipado complexo de culpa querendo compensar o que vim fazer.
- O que você veio fazer?
Eu não tinha certeza se queria saber, mesmo tendo uma ligeira suspeita. Havia quase uma semana que não nos falávamos. A última vez foi naquela traumática noite que as poucas lembranças que tenho indicam que potencialmente devo ter sido um escroto com ela. Estava em um evento na Lagoa quando a Biazinha me ligou dizendo estar com a Mariana no Só Kana, um bar famoso na Tijuca. Como de costume, já tinha bebido além da conta e meu discernimento tinha sido eliminado em algumas mijadas atrás. Não pensei duas vezes, abandonei o evento, peguei a moto e fui ao encontro delas. Cheguei mais louco do que nunca. O sacolejo do trajeto com a adrenalina da alta velocidade exacerbou o álcool que em mim residia. Lá estavam as duas na mesa acompanhadas de outros dois caras. Era óbvio que isso não ia dar certo. Sou competitivo e a Biazinha sabia que me morderia de ciúmes ao ver alguém dando em cima da Mariana. Sem a menor cerimônia, sentei-me à mesa e comecei a minar a cantada dos garotões. Não durou sequer quinze minutos. Essa geração bunda mole é muito suscetível.
Ficamos apenas os três na mesa. Biazinha, com aquela sensação de missão cumprida, disse que iria ver o namorado do momento e nos abandonou na mesa. Agora era só eu e ela, minha cena favorita. Para melhorar, ela parecia contrariada com tudo aquilo. Eu, como estava bêbado como sempre, abstraí sua deflagrada expressão de insatisfação e prossegui no que poderia ser considerada uma ação de marcação de território. Ela odiou. Foram mais algumas horas de cerveja. Eu no meu ritmo Mad Max e ela ao som de Rain Drops Keep Falling on My Head. Não sei por que estou falando sobre isso. Foi um dia que deveria ser esquecido por mim. Fiz tudo errado e ainda assim ela ficou do meu lado. Dormi desmaiado no meio do sexo e ela não tentou me matar asfixiado com o travesseiro. Acordei algumas horas depois com ela vestida dizendo que tinha de ir embora. Ainda estava completamente bêbado com tudo rodando, ofereci dinheiro para ela ir de taxi e sou grato por ela não ter devolvido aquela nota de cinquenta pelo meu reto. Desde então nunca mais a vi ou trocamos uma mensagem.
- Baby – a demora dela em responder estava me agoniando, então resolvi dar prosseguimento. – Você veio pelo que aconteceu naquele dia? Se foi, me desculpa mesmo. Era um dia para nunca ter existido, ainda mais com você. Vou te entender se veio aqui para discutir comigo, fazer barraco e quebrar tudo.
- Arrumar a casa para depois quebrar? Não sou tão sádica assim. Nem estou com tanta raiva quanto imagina.
- Vai ver arrumar a casa seja exatamente o equivalente a quebrar tudo na minha conturbada casa.
- O patético é que isso faz até sentido. Pior vai ser quando descobrir que não somente arrumei seus livros, como o fiz em uma ordem totalmente aleatória.
Olhei em pânico para a estante e ela riu. A desgraçada me conhece. Lá estavam bibliografias misturadas com livros de contos e livros técnicos. Sem falar que alguns estavam de cabeça para baixo, em posição invertida ou deitados sob livros de pé. Ela fez isso de propósito e pensando em cada detalhe. O que ela quer? Que eu fique mais apaixonado ainda?
- Pare de rir. Isso não tem graça – disse enquanto ajeitava um ou dois livros. – Você ao invés de perder tempo com isso, deveria aproveitar e extravasar essa raiva fazendo sexo selvagem comigo até me levar a exaustão.
- Dois minutos não serão suficientes para mim.
- Você está com raiva mesmo. Ir na ferida é seu diferencial que sempre gostei, mas nunca foi de mentir.
- Está bem! Quatro minutos!
Cretina. Ficamos nos encarando por alguns minutos. Ela estava com aquela expressão de xeque-mate que eu habitualmente cortava avançando no lábio inferior dela. Infelizmente o momento não era oportuno para isso. Tudo que me restava era apenas admirar aquela cena que provavelmente seria a última vez.
- Você está indo embora, não é?
- Sim – ela me abraçou como sempre, criando uma sensação confusa na minha cabeça. – Eu era louca por você. Você me tinha na mão e preferiu me usar como diversão. Uma peteca.
- Mas como resistir se a vontade de dar uns tapas na sua bunda é mui... – ela me interrompe.
- Lembra-se de quando falei sobre usar a inteligência de maneira errad... – eu que a interrompo agora.
- Ah, eu sei! É que nas horas de constrangimento isso dispara.
- Então fica calado, tá?
- Me ajude a ficar calado. Me beije.
- É, você não é tão inteligente assim.
De fato eu só comprovava isso. Burradas atrás de burradas me fizeram perde-la. Não suficiente, no que será o último dia, eu insisto em ser espirituoso ao ver de lutar na tentativa de reverter a situação. Não, não é que eu não seja inteligente. É que sou um idiota ao mesmo tempo.
Ela chegou cedo e esperava me encontrar dormindo provavelmente no sofá para me acordar de forma gentil. Só que viu o apartamento vazio e, confusa sem ter como fazer a boa ação que antecederia ao meu pé na bunda, decidiu arrumar a sala. Isso acabou soando patético e nada parecido com ela. Se tivesse que adivinhar esta cena novamente, seria com a sala ainda toda desarrumada e ela deitada no sofá bebendo a última garrafa da minha cerveja favorita. Ficaria infinitamente mais sexy se ela estivesse bebendo algum vinho premiado da minha adega, mas ela não é tão fã de vinho a este ponto. Entretanto, era um dia de semana, e ela jamais tocaria em uma garrafa de cerveja no início da tarde. Viu como sou de fato inteligente?
- Ok, já consigo imaginar o motivo de ter arrumado a sala. Quero entender por que se deslocar até aqui.
- Você ainda não sabe o que estou fazendo aqui?
- Sexo!
- Estou falando sério! Você tem ideia do que eu vim fazer aqui?
- Sexo!
- Por que não consigo falar ser... – ela se interrompe, me solta e se afasta. – Você está de pau duro?
- Desde o primeiro segundo que te vi.
- E isso não dá gangrena?
- Agora está preocupada? Quando ficava me usando por longos quatro minutos nem se comovia.
- Você é muito cretino – ela voltou a me abraçar. – Eu vim para dizer tchau. É a coisa certa. Começou no portão da minha casa, nada mais justo que terminar na sua.
- Começou no portão da sua casa com a minha mão por debaixo da sua saia. Você poderia ao menos terminar com a mão dentro das minhas calças.
- Ok – ela de fato a colocou me deixando sem reação. – Posso continuar agora?
- Pode continuar o que você quiser agora, baby.
- Obrigada – ela cerrou um pouco mais a mão de uma maneira que entendi como um recado para não abrir mais a boca. – Estou indo embora. Você teve todas as chances do mundo comigo e as jogou fora. Eu entendo que, dentro das circunstâncias atuais, me assumir publicamente seria catastrófico para sua carreira. Nunca te pedi isso. Só que mesmo em sigilo tínhamos potencial para dar certo. Fazíamos os nossos programas de maneira discreta como sempre. Voltávamos para sua casa e enrolávamos o resto do dia na cama. Você não quis. Eu queria. Queria muito e para valer. Agora não quero mais.
Ela tirou a mão de dentro das minhas calças e, na ponta dos pés, laçou seus braços por trás do meu pescoço. Engoli a sua cintura fina com meus braços e ficamos ali por alguns minutos. Rosto lado a lado. Apenas a respiração próxima ao ouvido. Ela mexeu a cabeça para trás, ensaiou que me daria um beijo, mas refugou. Logo em seguida se afastou.
- Eu era doida por você, mas você é um idiota – ela disse de uma maneira tão gentil que parecia até um elogio. – E você é péssimo em geografia.
Ela foi embora. Não tinha o que falar. Sequer teria motivos para tentar refazer um contato em breve. A velha desculpa de aparecer para entregar as coisas que foram esquecidas na minha casa não poderia ser usada. Não existiam coisas dela por lá. Nunca dei a abertura para chegar a esse ponto. Ela foi embora. A minha musa foi embora e sequer relutei um minuto. Não discuti, não fiquei zangado, não quebrei copo, não demonstrei tristeza. Tudo que fiz foi alguns comentários cretinos no início e depois uma passividade que não fazia jus ao quanto não queria que ela fosse embora. Eu sou um idiota mesmo.
- MERDA!
Outro conto da coleção? Leia Viviane