quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Volúvel

Anita
- Você está viajando! Não faz o menor sentido!
Apesar da afirmação de Anita, a Gabi não estava viajando. E, sim, fazia total sentido. Os sinais ficavam cada vez mais evidentes. Qualquer pessoa mais próxima dela era capaz de notar o que Gabi tinha dito. Com um mínimo de esforço e alguma memória, era possível ligar os pontos.
- Anita, por favor, seja razoável. A cada cinco frases, em uma delas você fala o nome dele. Você muda totalmente quando ele está por perto. Até seu comportamento em sala de aula é diferente quando é com matéria dele.
- Para, Gabi! Você está vendo coisas onde não tem. Somos amigos. Amigos, não! É muito forte. Temos uma relação bacana. Gosto de estar com ele. Admiro a inteligência dele. A conversa é sempre interessante. Além de ele ser divertido comigo. Mais nada.
Anita estava convicta que era tudo sempre coisa da cabeça da Gabi. Inclusive durante esta conversa que aconteceu quando estavam no terceiro período da faculdade. No primeiro período, os sinais eram fracos. Contudo, uma pessoa com um olhar mais atencioso perceberia algo de estranho no ar.
- Quem é ele?
Anita perguntou para a Gabi quando um professor interrompeu a aula delas para conversar no corredor algo com a professora. Obviamente a Gabi não tinha a menor ideia de quem se tratava. Afinal, não tinha nem duas semanas que elas estavam na faculdade. Por sorte, uma aluna repetente que estava por perto ouviu e tentando ser simpática respondeu. Era o professor Guilherme, mais conhecido como Gui.
- Ele faz um tipo bonito, não? – Perguntou em seguida a própria veterana.
Meio embaraçada com a pergunta feita, Anita disfarçou. Disse que ficou curiosa pelo fato de ele interromper a aula e a professora ser tão solícita ao seu pedido de conversar em particular. Ela insistiu na teoria que ficou intrigada achando que se tratava de algum cargo maior na instituição, tipo o coordenador ou reitor. A veterana riu da suspeita da Anita. O professor Guilherme nem chegava perto de ser uma autoridade na instituição. Mesmo assim, era mais famoso que o próprio reitor. Ele era talvez o professor mais popular da faculdade e, por isso, existiam várias histórias sobre ele. Ou era ao contrário, ele era famoso por conta das histórias.
- E vamos ter aulas com ele? – Anita continuava perguntando sobre o tal professor.
Antes que a veterana pudesse responder ou que a Gabi conseguisse notar algo de estranho no incansável questionamento de Anita, a professora retornou à sala e deu prosseguimento a aula. Frustrada e ainda curiosa, Anita se virou para trás e olhou para a veterana como quem cobra o que ficou faltando. A resposta veio na forma de um malicioso piscar de olho e um gesto com a mão indicando que teria muitas aulas.
- Mas eu guardei lugar para você aqui.
A Gabi estranhou quando Anita, no primeiro dia de aula do segundo semestre, escolheu se sentar na primeira fileira. Elas nunca foram do grupo do fundo da sala, todavia não eram de ocupar as primeiras fileiras. O estranhamento seria respondido quando o professor da disciplina entrou em sala. Era o Guilherme com suas tradicionais calças jeans surradas e justas. Gabi achou aquela imagem tão interessante que cogitou se sentar também na primeira fileira. Depois refugou. Afinal, ele era bem mais velho que ela. Nunca curtiu homens mais velhos. Com esse mesmo pensamento, Gabi achou que a escolha da Anita de se sentar na primeira fileira era muito mais para ter foco que o professor em si. Por conta disso então, não enxergou o segundo sinal.
- Você teria um minutinho?
Assim que acabou a aula, Anita foi falar com o Guilherme. Ela, supostamente, tinha algumas dúvidas a tirar. Normalmente, ao final da aula, raramente alguém ficava para tirar dúvidas. Tudo que os alunos queriam no segundo período era pular fora da sala e ir para algum bar nas proximidades. Assim, ter alguém ao final para tirar dúvidas era estranho, ainda mais no primeiro dia de aula quando poucas coisas foram ministradas. De qualquer forma, o Guilherme, sempre simpático com os alunos, respondeu tudo de forma atenciosa para a Anita que não continha o rubor do seu rosto.
- E qualquer coisa você pode tirar dúvidas na minha sala também. Fica no oitavo andar perto da sala de vídeo.
Pronto! A deixa foi dada e Anita não permitiria que ela escapasse. O problema é que ela interpretou isso como um sinal, quando, na verdade, era um procedimento comum do Guilherme. Ele diariamente recebia alunos em sua sala para tirar dúvidas ou apenas para conversar amenidades. Muitos iam para pedir conselhos sobre carreira. Outros queriam a opinião dele sobre relacionamentos, mesmo se tratando de um solteiro convicto. A sua sala, sem sombra de dúvidas, ela uma parte menor e separada do pátio central da universidade onde os alunos socializavam. Talvez por isso ele fosse tão famoso.
- Amiga, hoje não vai dar para voltar com você. Tenho de fazer uns negócios aqui. Amanhã nos vemos, tá?
Com essa desculpa, Anita se desvencilhou de Gabi que costumava voltar com ela. Apenas dois dias tinham se passado da primeira aula e lá ia a Anita para a sala do Guilherme. Em sua cabeça, era algo que a amiga não podia saber.
- Olá, mocinha! Sente aí!
A simpatia de Guilherme era algo indiscutível. Na cabeça de uma aluna desacostumada com o jeito dele, isso poderia fazer as conexões neurais pifarem. Foi isso que aconteceu. Anita se sentiu mais acolhida do que devia e por lá ficou por quase duas horas. Sua certeza de que era algo além do que exatamente estava acontecendo era tão grande que sequer falou das dúvidas que tinha inventando para ir até a sala do Guilherme. Falaram sobre várias coisas. Desde o ensino médio dela até as relações familiares. Filmes, música, comida e tipos de programa para se distrair foram temas da conversa. Uma das características da simpatia do Guilherme residia na sua capacidade de ouvir e demonstrar interesse no interlocutor, seja este interesse real ou não. Anita praticamente fez um monólogo e ele interagiu de tal maneira que, se dependesse dela, ela ficaria ali por dias falando. Tanto que, quando um aluno chegou para falar de um trabalho e acabou interrompendo a sua fala, Anita se despediu dizendo se lamentar por não ter escutado nem uma curiosidade sobre o Guilherme.
- Ah nem grila com isso. Qualquer dia você volta aqui e eu fico falando horas sobre mim. Combinado?
Claro que ele estava apenas sendo simpático. É óbvio que ela entendeu errado e voltou à sua sala no primeiro dia da semana seguinte. E dois dias depois. E na semana seguinte. Era uma rotina que estava tanto no automático que Anita se esqueceu de disfarçar e a Gabi percebeu. Pelo menos, duas vezes por semana ela ficava um bom tempo na sala do Guilherme de conversa com ele. Durante a aula, Anita sempre chegava bem antes, se sentava na primeira fileira, era participativa, saía por último e ainda assim ficava um pouco de papo com ele ao final.
Ele sabia de tudo sobre ela de tanto que Anita falava. Em contrapartida, ela pouco sabia sobre ele. O pouco que ouviu Guilherme falar foi suficiente para constatar que eram incompatíveis em vários quesitos. Não gostavam do mesmo estilo de música e, por consequência, não frequentavam os mesmos lugares na noite. Filmes era outro tema que discordavam em predileção. Mesmo diante de tal sinal, Anita acreditava que existia uma conexão naquela incompatibilidade. Ela achava que a curiosidade de um querer conhecer o outro só existia por conta das diferenças. Na verdade, Guilherme estava sendo apenas um bom ouvinte. Ele poderia até ter algum interesse em saber um pouco sobre a vida da aluna. Contudo isso não denotava interesse propriamente nela.
- E como vou viver nas férias?
Anita brincou ao se despedir de Guilherme no final do semestre. Obviamente, ele não deu corda para a brincadeira, o que fez Anita insistir. Dessa vez, ela fingiu que teria algumas entrevistas de emprego no período de férias e gostaria de alguns conselhos dele quando estivesse mais perto das datas. Guilherme cedeu e deixou que ela tomasse nota do número do seu celular. Bastaram duas semanas:
- E aí, moço? Está curtindo as férias?
Foi com essa abordagem chapa branca que se iniciou o maior diálogo de todos. A conversa entre eles nunca mais terminou. Não estou dizendo que ficaram dias de papo ininterruptamente. Digo apenas que a conversa ia fluindo manhã, tarde e noite como se não tivesse fim. Em alguns momentos, ficavam horas a fio se falando pelo celular. Em outras ocasiões, a resposta demorava horas. Foi assim durante todo o período de férias. Era algo tão contínuo que até a postura de Guilherme mudou um pouco. O que era antes um homem ouvinte, agora estava mais falante. Ele, indiscutivelmente, se sentia mais à vontade para falar de sua intimidade e particularidades com Anita. Agora, não era apenas ela quem dava iniciativa a conversa. Guilherme passou a puxar o assunto também. Em alguns casos, ele até brincava de se lamentar quando ela se despedia e não podia dar prosseguimento no momento. Quando faltava menos de um mês para o retorno às aulas, os dois começaram a deixar claro que estavam com saudades das conversas pela faculdade.
- Ora, não precisamos esperar as aulas voltarem. Podemos nos ver hoje.
A forma como Anita propôs provocou certo desconforto no Guilherme. Tanto que ele recuou e pode notar o que estava acontecendo. Algo ali lhe desagradou. Guilherme teve pensamentos que não o deixou confortável com a situação. Sua escolha foi a de ficar na defensiva.
- Você está chateado comigo? – Com essa pergunta, Anita entrou na sala de Guilherme no primeiro dia de aula do semestre seguinte.
- Não, não estou. Por que pergunta isso?
- Você ficou frio nas últimas semanas. Quase não responde mais as minhas mensagens e, quando o faz, demora muito tempo, inclusive dias.
- Andei ocupado e outras coisas ocuparam a minha cabeça.
Mentira. Guilherme percebeu que aquela menina despertou algo em sua cabeça e isso era a última coisa que ele queria no momento. Para ele, tratava-se de algo tão inapropriado ou inoportuno, que o distanciamento era a melhor solução. Todavia, ele tinha uma forma muito franca de lidar com os alunos. Logo, mudar a maneira de lidar com a Anita deixava bem claro que algo estava errado. Ele então tentou voltar a ser com a Anita o mesmo Guilherme que era com os demais alunos. Fatalmente ele falharia e acabou falhando. Com as visitas frequentes de Anita em sua sala e a troca de mensagens que até então estavam acontecendo de maneira contida por Guilherme, ele acabou cedendo e, quando percebeu, já estava envolvido novamente. As mensagens começaram a ficar frequentes, assim como as visitas dela que passaram a acontecer todos os dias. Foi aí que a Gabi desconfiou de algo maior e chamou a Anita para a tal conversa.
- Amiga, preste atenção no que estou falando. Saia da defensiva. Você nem tem aula hoje e veio para a faculdade para ficar na sala dele de papo. Como que você quer sustentar qualquer teoria diferente de o Guilherme ter um efeito sobre você?
- Gabi, estou te falando. Apenas gostamos de conversar. A companhia dele é legal. Não estou entendendo a sua preocupação.
- Anita, você conhece as histórias dele desde o primeiro período. Ele é famoso por pegar várias alunas. Cedo ou tarde vai te pegar. Se não te pegou ainda. E minha preocupação é exatamente você estar gostando dele. Você vai se machucar com algo que estou tentando prever para te ajudar.
- Eu não estou gostando dele. Por que não acredita em mim?
- Porque nunca mais te vi dando trela para outra pessoa. Desde as festas do primeiro período que não te vejo flertando com outra pessoa ou insinuando estar interessada em alguém. Quando foi a última vez que ficou com alguém?
Anita não respondeu, desconversou e depois se levantou. Era gritante o que estava acontecendo. Naquele semestre, as coisas foram crescendo em proporções injustificadas. Eram visitas quase diárias. Mais tarde, quando chegavam em casa, trocavam mensagens pelo celular. O dia seguinte sempre começava com a mensagem de um deles. Esse ritmo durante a semana não era mais suficiente. Começaram a se ver aos domingos. Davam voltas pela orla, se deitavam na grama do parque ou apenas andavam de ponta a ponta de uma feira de rua provando frutas. Falavam sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Assuntos rasteiros, divagações profundas sobre carreira e outras masturbações verbais. Apenas sobre uma coisa eles não falavam, vida amorosa. Guilherme nunca perguntou ou insinuou com indiretas ter interesse em saber dessa parte da vida de Anita. Ela, por sua parte, nunca quis saber da dele. Na realidade, sempre quis saber, principalmente depois que ouviu de Gabi que ele pegava várias alunas. O que ela não queria era ouvir a verdade.
Já para o final do semestre, teve o aniversário da Anita. Ela marcou com as amigas e parentes em um bar pequeno próximo de casa. Foi aquela mesa enorme. Falatório alto, risadas e muitas bebidinhas e comidinhas. Apesar de a noite ter sido bastante divertida e animada, Anita não estava satisfeita por completo. Vez ou outra ela esticava o olhar para a outra ponta da mesa e via uma cadeira vazia. Estava faltando uma pessoa. Guilherme não foi. Gabi percebeu que ela estava um pouco chateada e conseguia entender facilmente o motivo. Para ela, aquela seria uma oportunidade de ouro, pois tinha ido à festa com um plano traçado. Gabi apresentaria um amigo à Anita naquela noite. Ela precisava começar a se interessar por outra pessoa.
- Amiga, esse é o Fernando. Aquele menino que te falei que faz engenharia civil lá na faculdade.
Gabi nem esperou os dois terminarem os dois beijinhos tradicionais de cumprimento de cariocas. Ela se virou e foi se sentar longe dos dois. Até que eles se deram bem. O Fernando tinha uma conversa boa. Em poucos minutos, ele conseguiu deixar a Anita confortável a ponto de rir de comentários engraçadinhos. As horas passavam, os convidados iam embora e lá estavam os dois de conversa em uma ponta da mesa. Já para o final, após fechada a conta da mesa, Fernando propôs à Anita que fossem para outro lugar. Ela topou. Andaram até o carro dele e, antes que colocasse a chave na ignição, Fernando a beijou. Foi curto, foi bem morno, foi esquecível. Anita sorriu sem graça.
- Olha, Fernando. Você parece ser um cara bem legal. Acontece que infelizmente a minha cabeça está em outro lugar. Peço que me desculpe. Adoraria ter te conhecido no ano passado noutra época. Posso te pedir apenas uma coisa? Se não for pedir muito, me dê uma carona até um local?
Com a carona do solícito Fernando, Anita chegou a um pub chamando On The Rocks. Era daqueles pubs que as pessoas compram as bebidas e ficam na rua mesmo porque no espaço interno mal os garçons conseguem se locomover. Com a sensação de ter o coração preso na garganta, ela começou a procurar pelo Guilherme. Aquele era o lugar favorito dele. Ela sabia disso, mesmo nunca tendo sido levada por ele para lá. Seu receio era encontrar o Guilherme com outra mulher. Ou pior do que isso, com outra aluna. Como uma assombração, ela vagou entre pequenos grupos, casais e bêbados solitários. Em certo momento, Anita viu o Guilherme e respirou aliviada. Ele estava só.
- Você não foi ao meu aniversário. Por quê?
- Não sei.
- Como não sabe? Você deixou de ir ao meu aniversário para ficar aqui escorado em um poste bebendo sozinho. Qual a razão disso?
- Já disse, não sei.
- Você ao menos refletiu sobre? Ficou mais de dois minutos pensando se deveria ir ou não?
- Anita, por favor...
- Não tem por favor, Guilherme. Eu te chamei para o meu aniversário. Você sabia que estava muito empolgada para ele e queria que estivesse lá.
- Ah, Anita, estamos lá todos os dias. Digo, estamos juntos todos os dias.
- EXATO! Estamos juntos todos os dias. Todo santo dia! E logo no meu aniversário você resolve sumir?
- Eu não sumi. Tanto que me achou com facilidade.
- EU TE ACHEI! Eu tive de te achar porque você sumiu. Você não apareceu onde pedi. Sequer mandou uma justificativa. Aliás, ainda nem se desculpou por isso.
- Anita, tente entender...
- Não, Guilherme! Não tem o que entender. É tudo muito pior porque você sequer mandou uma mensagem de feliz aniversário. Qual é a sua desculpa de não ter enviado uma mensagem de feliz aniversário? Nós nos falamos todos os dias. Se pegar o seu celular aí, você verá a conversa de ontem. Se eu te pedir para me falar qual foi a última palavra que foi dita anteontem você vai demorar uma eternidade para responder. Sabe por quê? Porque nossas conversas são intermináveis. Ficamos horas e horas nos falando todos os dias. Você vai precisar de quase uma hora para passar toda nossa conversa de ontem até achar a de anteontem. Daí eu te pergunto, como pode uma pessoa que fica tanto tempo conversando com outra, dia após dia, não ter enviado uma mensagem de feliz aniversário? Apenas uma maldita e curta mensagem escrito feliz aniversário. Não faço questão de um texto enorme, como você já mandou algumas vezes para me consolar nas minhas fases cabisbaixa por conta de nota. Nem mesmo exijo a escolha de palavras bonitas como costuma fazer para me descrever quando fico boquiaberta com as coisas que me apresenta. Queria apenas um feliz aniversário. Queria apenas você sentado do outro lado de uma mesa com trezentas pessoas. Podia até estar calado como está agora. Mas estaria lá e isso me faria muito feliz. A sua ausência hoje, a sua indiferença e sua passividade mediante a minha exposição aqui machuca. Ela joga fora tudo que convivemos. Tantas conversas, tanta cumplicidade, tanto companheirismo. É como se nada tivesse acontecido antes. Estou me sentindo uma estranha à sua frente. Vamos fazer o seguinte. Vamos fingir que esteve ocupado o dia todo e marcamos aqui para comemorar o meu aniversário. Estou acabando de chegar e você me dá os parabéns.
- Feliz aniversário.
- Ah, mas nem a pau que você vai me dar essa merda de feliz aniversário borocoxô. Em dia de ressaca você me recebe muito mais empolgado em sua sala. É mocinha, gatinha, minha linda. Até quando quer implicar comigo me chamando de mala e carrapata, você fica mais fofo e autêntico. Pode tentar novamente.
- Feliz...
- Ah, espere! Eu quero um beijo também.
- ANITA!
- Anita o quê?
- Você está bêbada?
- Não, não estou bêbada. E, se estivesse, não teria te pedido isso. Já teria feito. Anda! Um feliz aniversário amável terminado com um beijo melhor que a coisa sem graça que acabei de receber do menino que me deu carona.
- Você beijou outra pessoa?
- Se aquilo pode ser chamado de beijo, sim. Por quê? Está com ciúmes? Te incomoda imaginar outra pessoa encostando a boca na minha? Nossas línguas se tocando, quentes e molhadas, é ruim de imaginar? A ideia de saber que desejei beijar outra pessoa te dá náuseas?
- Anita...
- Relaxa. Você está branco. Era um amigo que a Gabi tentou empurrar para cima de mim. Ele veio me dar um beijinho. Foi uma merda de cinco segundos. Nem deu para molhar a língua. Anda! Para de drama e rodeios. Feliz aniversário e aquele beijo que nunca mais esquecerei.
- Não, eu não vou te beijar. Ainda mais depois de ter beijado um moleque qualquer.
- Ah, mas você é muito ordinário mesmo. Beijou várias por aí. Deve ter uma coleção de saliva de aluninhas na sua boca e quando é comigo quer bancar o correto.
- Não é querer bancar o correto. É que com você não posso fazer.
- Por que não pode?
- Porque você está apaixonada por mim.
Anita não respondeu. Se fosse a Gabi no lugar do Guilherme falando a mesma coisa, ela teria várias respostas e argumentos prontos para tentar negar o inegável. Contudo, aquela mesma frase vindo do Guilherme era uma verdade que surgia como uma mordaça que não dava a oportunidade de rebater. A quem Anita queria enganar? Se tentar mentir para a Gabi era complicado, imagine para ele. Não, para ele não era possível mentir. Ainda mais porque tudo que Anita queria era confirmar isso para ele. Ela precisava externar aquilo. Era preciso expor todo aquele sentimento tolhido que ela secretamente cultivava em uma relação de amizade estranhamente intensa.
- É isso, Anita. Eu não posso. Você não é uma menina que age como uma pipa avoada como eu. Não seria capaz de sair com você e no dia seguinte fingir que nada aconteceu. Seria bastante constrangedor te receber na minha sala na manhã seguinte e ter de falar para a pessoa que está apaixonada por mim que foi apenas uma noite. Você acha que conseguiria manter o contato comigo depois disso?
- CLARO QUE NÃO! Assim como não vou conseguir depois de hoje. Acha que é fácil seguir como se nada tivesse acontecido depois de ouvir de você que sabe que estou apaixonada, mas a recíproca não é verdadeira? Acha mesmo que, depois desse discurso, eu vou conseguir manter contato com você? Você acaba de me dar o pior aniversário da minha vida. Você é capaz de entender isso?
- Anita, isso que disse foi unicamente para o seu bem. Preciso que entenda que...
- Para o meu bem? Se fosse para o meu bem, você não continuaria dando corda até hoje. Se fosse mesmo para o meu bem, você sabendo que estava apaixonada, iria cortando aos poucos. Exatamente como fez quando te chamei a primeira vez para uma volta nas férias e você sumiu até o início das aulas. Não, Guilherme, não é para o meu bem. É para o seu bem. É para a sua maldita covardia. Porque isso que você é! Você é um covarde que tem medo de se envolver comigo. Fica me mantendo por perto. Deixa que eu fique ao redor massageando seu ego. Sou o seu relacionamento perfeito. Só que na hora de satisfazer seus desejos, prefere procurar pessoas desapegadas aleatórias. Você quis sair como o correto, mas escute, o que você está fazendo é muito pior do que dar um beijo de feliz aniversário em uma pessoa apaixonada. Isso que você faz não é legal, machuca e torna a minha vida muito mais difícil.
- E você acha que as coisas são fáceis para mim? Você acha que é tranquilo ter uma diabinha como você no meu ombro todo dia? O que você acha que passa na minha cabeça? Nada? Exato! Nada! Porque não tem espaço para mais coisas alguma. Tudo que penso dia e noite é você. Sonho com você. Acordo e vou correndo para o celular esperando ter alguma mensagem sua. Se não tem, eu mando porque não consigo esperar. Conto os minutos para você aparecer na minha sala e me tirar horas de produtividade para falar nada. Eu não faço mais coisa alguma da vida a não ser pensar em Anita. Só que eu não consigo me livrar disso. Até porque eu não quero. Ainda assim, sei que isso não é saudável ou recomendado.
- Como não é saudável? Somos duas pessoas que se gostam. Qual o problema nisso?
- Como vou ter um relacionamento com uma menina de 19 anos? Como posso assumir um relacionamento com uma aluna de 19 anos?
- Guilherme, a universidade toda fala de nós dois. O dia que assumir algo comigo não será surpresa alguma para as outras pessoas.
- Mesmo assim! Você tem 19 anos.
- Qual o problema nisso?
- Sabe quantos homens da minha idade se relacionam com meninas da sua idade? Sabe quantos desses homens que se relacionam não se passam por pervertidos? Nenhum! Porque todo mundo sabe que um homem da minha idade saindo com uma menina da sua é perversão. Não existe compatibilidade. É uma diferença de gerações.
- Você está doido, Guilherme. Até concordo que, na maioria, relacionamento com essa diferença de idade fica parecendo perversão. Só que no nosso caso é diferente. Nós temos compatibilidade. Como ficaríamos horas nos falando se não tivéssemos? Saímos junto todo final de semana. Não existe diferença de cabeça ou de gerações aqui. Pare de tentar sustentar seu medo em desenvolver um relacionamento comigo na nossa diferença de idade.
- Não é a diferença, Anita. É a sua idade. Você é muito nova. Você ter 19 anos é muito assustador para um homem da minha idade.
- O que você sugere? Que vamos ficar nessa convivência louca e agora assumida até eu completar... sei lá... até meu aniversário de 21 anos? É uma boa idade para você?
- Não sei. Tudo que eu queria era que você fosse uma veterana prestes a se formar. Tornaria tudo mais fácil.
- Só que eu não sou. Para piorar, o curso de engenharia demora 5 anos. Temos 3 anos e meio pela frente. Como vamos fazer? Porque agora que tudo isso foi dito, nada será mais como antes. Lembra-se de quando disse estar preocupado em como agir naturalmente no dia seguinte caso me desse o beijo? Agora é muito pior. Acha que consegue me receber na segunda-feira depois disso tudo dito? Acha que teremos qualquer outro assunto que não seja esse? O cenário mudou, Guilherme. Precisamos tomar uma decisão agora. Não tem mais volta. Não dá mais para agirmos indiferentes ao que foi falado aqui.
- Eu sei, Anita. Eu sei. Podemos ao menos tentar...
- Tentar o quê, Guilherme?
- Tentar seguir como estávamos antes. Aguardar o tempo passar. Esperar o momento certo.
- Você quer me manter em banho-maria até o final da faculdade? É isso mesmo que entendi? Guilherme, na sua cabeça existe algum botão chamado stand by? Porque na minha não tem. Não existe. Eu vou enlouquecer se tiver que passar mais um semestre com você desse jeito. Sabe o que vai acabar acontecendo? Vai aparecer outro Fernando como hoje. Só que dessa vez ele vai ter pegada, vai despertar algo em mim e você vai me perder.
- Ótimo!
- ÓTIMO?
- CLARO QUE NÃO! Odiaria te perder e me culparia pelo resto da vida. Todavia, não posso negar que solucionaria essa aflição. Seria uma solução dolorosa, mas solucionaria.
- Aflição? Não existe aflição, Guilherme. Existe essa teoria de merda que você colocou na cabeça que não pode se relacionar com uma menina de 19 anos mesmo sendo assumidamente louco por ela.
- Eu sei disso. Eu sei! Só que eu não consigo. Não adianta. Só nos cabe esperar e ver o que acontece.
- Não, não nos cabe esperar coisa alguma. Cabe a você esperar. Eu não quero esperar. Isso é uma decisão sua. APENAS SUA! Isso não é justo. Eu não vou esperar. Eu não vou ficar à sua disposição por conta de uma teoria maluca. Eu não sou capaz de lidar com isso. Assim como não estou sendo capaz de lidar com essa merda de aniversário que você acabou de estragar. Escute, Guilherme. Nunca pensei que você fosse me decepcionar. Nunca mesmo. Sempre te achei um cara fascinante e por isso me apaixonei por você no primeiro minuto que te vi. Ainda assim você conseguiu. Você me decepcionou. Você acabou de me decepcionar e da maneira mais horrível que existe. Você destruiu o meu coração. Espero que o tempo que você precise para me superar seja, no mínimo, a metade do tempo que precisarei para cicatrizar o meu coração. Porque se for isso, você vai gastar o resto da sua vida. Adeus, Guilherme.
- Anita... Anita... ANITA!
Anita se foi e Guilherme não correu atrás. Na semana seguinte, ela não apareceu uma vez sequer na sala dele. Foram longos dias com o Guilherme olhando celular na expectativa de uma mensagem dela. Nada! Na sexta-feira, ele se esbarrou com a Gabi pelo campus. Tentando parecer descolado, ele perguntou pela irmã siamesa dela.
- Você não soube, né? Então, Guilherme, ela trancou a faculdade. Vai tentar transferência para outra no semestre que vem.
Guilherme nem agradeceu pela resposta da Gabi. Ele apenas se afastou e pouco mais à frente se sentou em um dos bancos de concretos do pátio. Pegou o celular e foi até o contato da Anita. Algo precisava ser feito. Aquilo não podia continuar daquela forma. Anita tinha tomado uma grande decisão na sua vida por conta de uma teoria dele. Guilherme se sentia culpado por ter permitido que ela se envolvesse, que ele se envolvesse e que o ápice tenha sido daquela forma desastrosa. Sem enxergar outras opções, Guilherme não hesitou e apagou o contato de Anita. Na cabeça dele, a vida precisava seguir com cada um sofrendo em caminhos diferentes.


Outro conto da coleção? Leia Fátima

sábado, 30 de julho de 2016

Pedaços de uma vida encenada

Mercenário
Cena externa em uma rua de madrugada. Um homem [Mercenário] faz sinal para um táxi que para. Ele está com duas grandes bolsas esportivas.
Cena interna simulando a parte interna de um taxi em movimento.
[Mercenário] Rua José Henrique Afonso, por favor.
[Taxista] É aquela rua do morro...
[Mercenário] Sim, essa mesma.
Alguns segundos de silêncio.
[Taxista] Senhor, aquele é um morro muito violento. Inclusive durante o dia. Imagine agora em plena...
[Mercenário] Meu senhor, não vou lhe pedir para entrar na favela e subir aquelas ruas. Você vai parar na entrada e ir embora. Pode ficar tranquilo.
[Taxista] Ainda assim, senhor. É um local ermo e que mesmo naquela rua...
[Mercenário] Quando fica uma corrida até lá?
[Taxista] Ah não sei. Talvez uns 35 ou 40.
[Mercenário] Acha que passa de 50?
[Taxista] Com certeza não.
[Mercenário] Ótimo. Tome aqui 50. Pode ficar com o troco. Chegando lá nem precisaremos perder tempo para que não se sinta que esteja em risco. Basta parar, eu desço e você vai logo embora.
Alguns segundos de silêncio.
[Taxista] Senhor, desculpe-me insistir, mas tem certeza que deseja ir para lá? É realmente necessário?
[Mercenário] Meu senhor, sinto que esteja muito aflito com o meu destino.
[Taxista] Sim, estou bastante. São anos trabalhando na madrugada e não tem ideia do que já vimos ou ouvimos.
[Mercenário] Acredite, meu senhor, eu sei de tudo isso e um pouco mais. Pode ficar tranquilo.
[Taxista] Tranquilo é impossível. Você não se parece nem um pouco com uma pessoa que frequentaria uma favela de madrugada. Muito menos a...
[Mercenário] Não tenho cara de quem frequenta favela?
[Taxista] Oh não! Nem um pouco.
[Mercenário] E tenho cara de que frequenta que tipo de lugar?
[Taxista] Eu diria uma academia com certeza. Você tem um biótipo atlético. É alto, forte e bem apessoado.
[Mercenário] Bem apessoado?
[Taxista] Ah sim, bem apessoado. Caso contrário, jamais pararia para você numa hora dessas.
[Mercenário] Bom argumento. Quer dizer que pareço aqueles caras fúteis que vivem em uma academia?
[Taxista] Não, não quis dizer isso. Você parece mais um professor de academia. Tem o biótipo de profissional de educação física. Imaginei que fosse isso por conta da camisa justa na manga deixando os braços mais fortes. Sem falar nessas duas bolsas.
[Mercenário] O que tem as bolsas?
[Taxista] São bolas, certo? Para atividades esportivas, não?
[Mercenário] Talvez. Talvez. Quem sabe, não?
[Taxista] Então acertei, correto?
[Mercenário] Para quem já viu muito e ouviu demais sobre a madrugada, você pergunta muito.
[Taxista] Oh me desculpe, senhor. Não quis ser inconveniente.
[Mercenário] Esqueça sobre ser inconveniente. Você está sendo imprudente. Fazer muitas perguntas para estranhos na madrugada é bastante arriscado. Ainda mais para um cara que está indo para a favela mais perigosa da cidade.
[Taxista] Tem sentido o que disse. Tem sentido. Mas o que quero dizer é que você me pareceu uma pessoa do bem. Logo eu não estaria correndo riscos fazendo essas perguntas. Por outro lado, uma pessoa do bem como você, naquela favela, correria muitos riscos.
[Mercenário] Por que estaria correndo riscos por lá? Você acha que uma pessoa de bem é alvo fácil por lá? Você acredita que iria me envolver com os bandidos de lá?
[Taxista] Não, por favor! Oh não! Jamais imaginaria algo do tipo. Exatamente por ser alguém de boa índole, tenho certeza que está indo para lá por outros propósitos. Como disse, deve ser um professor de educação física levando bolas para alguma atividade de recuperação dos jovens da comunidade. Claro que sua ida de madrugada é estranha e arriscada. Ainda assim, acredito que seu intuito é bom.
[Mercenário] Então, já que tem a certeza que não irei me envolver com os bandidos de lá e que minha ida é motivada por boas intenções, qual a sua preocupação?
[Taxista] Ah nunca se sabe, não é mesmo, senhor? Não viu semana passada o que aconteceu na Favela da Serrinha? Houve uma invasão por lá e mataram todos os traficantes de lá. Encontraram vários corpos. Uma chacina que, mesmo envolvendo marginais, é de chocar. Agora imagine você está subindo a favela na mesma hora que acontece isso. Não tem essa de quem é de boa índole, quem é bem intencionado ou quem é coisa ruim. Todo mundo vira alvo, todo mundo vira escudo. É cada um por si. Se carta que tem CEP vai parar em casa errada, imagine bala que é anônima.
[Mercenário] O senhor parece ser um bom homem. Não sei quanto tempo trabalha na madrugada, mas ela, sem dúvidas, te afetou e moldou uma nova pessoa. Deveria cogitar voltar para o dia.
[Taxista] Sim, são muitos anos. Mesmo assim, nunca mais volto para o dia. Engarrafamento, pessoas estressadas, muita concorrência...
[Mercenário] Meu senhor, acredite em mim. Acredite no homem que trabalha na madrugada também. Volte para o dia o quanto antes. Você não tem ideia do que a madrugada pode fazer com um homem.
[Taxista] Como assim? O que você quis dizer com...
[Mercenário] Apenas pense no que disse. Pode parar ali do lado daquela caçamba. Muito obrigado e boa noite.
[Taxista] Boa noite e tome cuidado. Por favor, senhor, tome muito cuidado.
[Mercenário] Deixa comigo.
Cena externa em uma rua escura de comunidade. O Mercenário sobre uma rua íngreme da favela. A rua é escura e deserta. À frente tem duas motos com um jovem sobre cada uma delas e mais um terceiro [Soldado] de pé ao lado segurando uma metralhadora.
[Soldado] Opa! Opa! Opa! Onde tu pensa que vai, mermão?
[Mercenário] Vou bater um papo com seu chefe.
[Soldado] Bater papo com o meu... [risos do Soldado] Está pensando que isso aqui é supermercado que pode ir falar com o responsável por qualquer motivo? O que foi? O que tá pegando? Comprou pó e não deu onda? Foi isso? Que reclamar que esse nariz de tamanduá não dá mais conta e precisa de algo mais forte?
[Mercenário] Rapaz, você...
[Soldado] Rapaz é o cacete. Preste atenção que só vou falar uma parada contigo e se não entender vou te colocar para conversar com esse cano aqui, entendido? Quer pó? É comigo! Que algo mais forte? É comigo! Agora, se for para fazer reclamaçãozinha de bunda mole, é com a puta que o pariu. Entendido? Entendido? Então, qual vai ser?
[Mercenário] Rapaz, até que você é bastante comprometido com seu trabalho e tenho certeza que o Feijão deve ter muito orgulho de você na linha de frente. Ainda assim, também tenho certeza que se ele souber que estive aqui e não pude falar com ele porque você me impediu... ou me embarrerou como costumam falar... Ah rapaz... De funcionário do mês, vai para carvão do micro-ondas do mês. Entendido? Entendido? E então, qual vai ser? Vai continuar na posição de cão de guarda que só late e não pensa ou vai deixar o chefe orgulhoso?
[Soldado] Tu é abusado mermo? Deve ter o colhão maior que o cérebro. O que você quer com o Feijão?
[Mercenário] Tenho uma entrega e uma proposta para ele.
[Soldado] Essas bolsas aí?
[Mercenário] É, as bolsas aqui.
[Soldado] Abre aí.
[Mercenário] Não.
[Soldado] Então não sobe.
[Mercenário] Rapaz, reflita mais uma vez.
[Soldado] Mermão, ou tu mostra ou você não sobe. Tu acha que sou otário? Vai que isso está cheio de arma, você chega lá e dizima geral.
[Mercenário] Rapaz, mais uma vez, pense. Você está com essa arma aí na mão. Até eu abrir a bolsa, pegar uma arma e começar a atirar, você já me matou três vezes e rezou um pai nosso.
[Soldado] Porra, mermão, não dificulta a parada. Isso aqui não é uma pracinha com recreação.
[Mercenário] Ok, vou facilitar para você. Eu tenho apenas uma arma na minha cintura aqui atrás. Pode pegar. Nas bolsas não tem armas. Se mesmo assim você duvida de mim, faremos de uma forma mais segura. Eu vou de garupa naquela moto com as bolsas. Você vai de garupa na outra apontando a sua arma para mim. Caso eu seja burro e apronte alguma, você larga o dedo. Simples.
[Soldado] Estou pensando em outra possibilidade. Se essas bolsas são tão importantes assim para o Feijão, o que acha de dar um tiro no meio da sua cabeça e eu subir apenas com as bolsas?
[Mercenário] Rapaz, não seja burro. Você não me conhece. Eu sou tão importante quanto as bolsas. Assim que o Feijão souber que me matou, ele vai te mandar para a mesma vala que você me mandou. Pegue aqui a minha pistola. Vai logo. Vamos agilizar logo essa merda que eu não tenho a madrugada toda, nem o Feijão. Chegando lá, se não for exatamente o que estou falando, pode ter certeza que o Feijão vai ser o primeiro a estourar os meus miolos.
[Soldado] Puta que o pariu. Isso vai dar merda. Vai dar merda mesmo. Vamos lá mesmo assim. Sobe naquela ali. Vambora, seus molengas. Vamos subir para bunker.
[Mercenário] Sabia que você era um cara esperto.
[Soldado] Cara esperto era meu pai que me fez. Sem gracinhas, entendeu? Sem gracinhas.
[Mercenário] Deixa comigo, filho de um cara esperto.
Cena externa pelas ruas da favela acima. As duas motos emparelhadas. Mercenário na garupa de uma com as duas bolsas e o soldado na garupa da segunda moto o tempo todo com a arma apontada para o outro. A cena se encerra quando eles param em frente a um portão de garagem de ferro grande.
Cena interna. Uma grande sala com mesas com drogas sendo pesadas em embaladas. Pó, dinheiro, armas e pacotes sobre as mesas. No total são onze pessoas dentro da sala mais o Feijão. Os quatro que subiram nas motos entram e fecham a porta.
[Feijão] QUE PORRA É ESSA? QUEM É ESSE CARA?
[Soldado] Desculpe, Feijão. Ele disse que tinha uma encomenda do seu interesse. Já revistei e só estava com essa arma.
[Feijão] MESMO ASSIM, CARALHO! COMO QUE VOCÊ ME SOBRE COM A PORRA DE UM ESTRANHO ASSIM? VOCÊ NEM SABE QUEM É, SEU MERDA!
[Mercenário] Preciso dizer que o erro dele foi influenciado por...
[Feijão] VOCÊ CALA A BOCA QUE AINDA NÃO ESTOU FALANDO COM VOCÊ. REPONDE, SEU MERDA! O QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA PARA SUBIR COM UM ESTRANHO...
[Mercenário] Olha só. Eu não vou ficar ouvindo você dar esporro no seu cão de guarda. Estou aqui para negócios e meu tempo é curto. Guarde o esporro para mais tarde e trate de se acalmar que o que tenho para você é do seu interesse e vai me agradecer.
[Feijão] AH PUTA QUE PARIU. O ESTRANHO AGORA QUER ME DAR ORDEM E ASSUMIR O CONTROLE DA CONVERSA AQUI NA MINHA ÁREA. NO MEU BUNKER. VOCÊ TEM MERDA NA CABEÇA?
[Mercenário] Massacre da Serrinha.
[Feijão] O que? Massacre da Serrinha? Do que está falando?
[Mercenário] Semana passada aconteceu um massacre na Favela da Serrinha e...
[Feijão] Isso eu sei, porra! Do que está falando? Por que está falando isso para mim?
[Mercenário] Porque assim que terminou o massacre, a favela ficou quase vinte quatro horas sem nenhum grupo tomando conta da região. Até que o pessoal do Maré Mansa chegou e tomou conta do morro. Se você soubesse com antecedência, teria tomado conta do morro antes deles e teria mais uma comunidade sob seu controle, aumentando seus territórios na cidade.
[Feijão] O Maré Mansa assumiu a Favela da Serrinha porque foram eles que invadiram e mataram todos por lá. Não existia a possibilidade de a favela ficar sob o meu comando.
[Mercenário] Errado. Eles não deram um tiro, uma facada, um soco sequer. Eles apenas souberam que a favela foi invadida, que todos do grupo do Nonô morreram e subiu o morro com a maior tranquilidade do mundo. Foi a coisa mais fácil da história para eles.
[Feijão] Claro que não! Foram eles que invadiram. Você acha que sou idiota?
[Mercenário] Não, não te acho um idiota. Mesmo assim, afirmo para você que não foram os caras do Maré Mansa.
[Feijão] Ah não? Então quem foi? A polícia? Os porcos invadiram, mataram todos como se fossem açougueiros e depois deixaram tudo à disposição do primeiro grupo que aparecesse?
[Mercenário] Não, errado novamente. Quem fez o serviço foi apenas um homem. Ele entrou, matou todos para mostrar que pode e agora está aqui disponível para vender seus serviços para você.
[Feijão] Você está... Quer dizer que [Feijão gargalha e os outros o acompanham em seguida] Você acha que sou idiota, seu desgraçado? Você está subestimando muito a minha inteligência.
[Mercenário] Ok, te entendo perfeitamente. É complicado acreditar nisso. Por isto trouxe as duas bolsas. Aceite-as como se fosse um cartão de visitas meu.
Feijão abre uma das bolsas enquanto outro homem abre a outra. Tiram sacos pretos de dentro, cada um com um objeto grande e pesado dentro.
[Feijão] PUTA QUE PARIU, SEU PSICOPATA DE MERDA! [Feijão abre um dos sacos e é uma cabeça] SEU MANÍACO DE MERDA! VOCÊ É MUITO MAIS MALUCO QUE IMAGINEI. SÃO TODOS ELES?
[Mercenário] Ora, abra as sacolas.
[Feijão] Olhem isso! [Feijão vai abrindo as sacolas, cabeças são reveladas e ele ri de euforia] Isso é incrível. Olhem aqui aquele desgraçado magrelo que matou o Fabinho. Filho de uma puta. Se fudeu.
[Mercenário] Podemos prosseguir?
[Feijão] Você pode o que quiser agora. Bem que reparei que você tem uma cara de assassino. Mulambo, fez bem em não matar esse doido e trazer ele vivo para mim.
[Soldado] Viu, chefe? Sabia que não iria dar uma bola fora. Nunca te decepcionaria.
[Mercenário] Não te disse, funcionário do mês?
[Soldado] Percebi que você podia não ser apenas um maluco. Tinha de ter algo por trás.
[Feijão] Foi sorte. Você precisa saber que foi sorte, mulambo. Enfim, pode voltar para lá com o novinho para a subida da ladeira não ficar abandonada. Leva a arma desse psicopata também. Quando ele sair, você devolve para ele.
[Soldado] Deixa comigo, chefe.
[Feijão] Agora me responda uma coisa. Por que a Favela da Serrinha?
[Mercenário] Precisava de dinheiro. Dos seis territórios deles, a Favela da Serrinha era a que tinha maior movimentação de dinheiro e maior facilidade para uma intervenção minha. Fui lá, executei todos e peguei a grana para mim.
[Feijão] Quanto tinha?
[Mercenário] Não passou de duzentos.
[Feijão] Eles são muito fracos. Aquele tal de Nonô sempre fui ruim de negócios. [Feijão e seus comparsas começam a rir] Duzentos mil é o que fazemos em uma semana por aqui.
[Mercenário] Não duvido disso. Por isto vim até aqui para oferecer meus serviços.
[Feijão] Você quer que eu te pague para matar o resto da galera do Nonô?
[Mercenário] Não, jamais pediria isso. Tenho certeza que você e seus homens são capazes de fazer isso. Estou vendendo outro serviço. A informação antecipada de uma favela totalmente desocupada de organização adversária. Zero. Ela estará lá vazia esperando pela sua entrada. E, o melhor de tudo, vocês sequer sujarão as mãos de sangue.
[Feijão] Sem sujar as mãos?
[Mercenário] Na realidade, se vocês pudesses apenas dar conta dos corpos, eu agradeceria por ser apenas eu.
[Feijão] Ok, acho justo. Deixe-me ver se entendi então. Você vai a uma favela da minha escolha, invade, apaga todos e vai embora deixando tudo de bandeja para mim e meus homens?
[Mercenário] Não será exatamente assim.
[Feijão] Então como?
[Mercenário] A favela não será da sua escolha. Eu preciso decidir qual será de acordo com a facilidade de invasão que detectar. Imagino que talvez não ajude nos seus planos estratégicos de expansão, mas é questão de tempo apenas.
[Feijão] Tá! Tá bom! Só isso?
[Mercenário] Não, tem mais. Não ficará tudo de bandeja para você. A grana que lá estiver, eu levo. Drogas, armas, equipamentos ou qualquer outra coisa podem ficar. Não faço questão.
[Feijão] Tudo bem! Também acho justo. Mais alguma coisa?
[Mercenário] Apenas isso.
Feijão fica pensando por alguns segundos.
[Feijão] E como você pode me garantir que depois não vai querer rifar minha cabeça para o Maré Mansa?
[Mercenário] Feijão, sejamos espertos. Atualmente, mesmo sem você conquistar os próximos territórios do Nonô, você tem muito mais poder que o Maré Mansa. Você acha que vou te ajudar a crescer para vender depois a sua cabeça para um cara que pode pagar menos?
[Feijão] Você então quer fazer parceria comigo porque a cada conquista conseguirá tirar mais dinheiro de mim, certo?
[Mercenário] Tirar dinheiro tem uma entonação que não concordo. Prefiro dizer que a cada vitória nossa, consigo ser mais bem pago por você. Ora, isso é estratégia de negócios.
[Feijão] Isso é ser mercenário.
[Mercenário] Quem não é mercenário nesse bunker, Feijão?
[Feijão] Que seja. Quanto mais dinheiro eu passar a ganhar, mais você vai levar. É isso que quis dizer.
[Mercenário] Você continua enxergando nossa parceria de forma invertida. Pense assim, quanto mais dinheiro investir em mim, mais dinheiro vai fazer depois. O valor que pagar por um novo território vai ser exatamente o quanto vai fazer no mesmo território em um mês. Qual negócio que se paga em um mês?
[Feijão] É, parece um bom negócio mesmo. E como são as condições?
[Mercenário] Você paga e eu te entrego os cinco territórios restantes. Caso permaneça interessado nos meus serviços, renegociaremos as áreas do Maré Mansa.
[Feijão] Você quer adiantado? ELE QUER ADIANTADO! VOCÊ ACHA QUE SOU IDIOTA? VOCÊ PENSA QUE SOU UM OTÁRIO?
[Mercenário] Feijão, exijo que me respeite. Sou um mercenário, não um trambiqueiro. Se fosse para pegar o seu dinheiro e fugir, não me daria ao trabalho de vir até aqui, gastar minha saliva e ainda correr o risco de levar uma bala na cabeça de algum cão de guarda seu precipitado. Era mais prático invadir como fiz na Serrinha e levar a grana, sem correr o risco de ser seguido por vocês, caso desse o golpe como falou.
[Feijão] Mais prático? MAIS PRÁTICO? Você está pensando que isso aqui é a Favela da Serrinha que um homem sozinho invade?
[Mercenário] Feijão, não me leve a mal, mas sua favela possui pontos frágeis de segurança onde fica fácil chegar até você.
[Feijão] AH É? POIS ENTÃO FALE AGORA ONDE É FÁCIL ENTRAR AQUI?
[Mercenário] No ponto que entrei, estava apenas seu cão de guarda e dois motoboys.
[Feijão] Mas eles te viram chegar de longe. Nem teria chances.
[Mercenário] Imagino que esteja certo disso. Só que, caso fosse invadir essa região, jamais subiria a rua como fiz hoje.
[Feijão] Não tem outra maneira, espertalhão. Qualquer uma das quatro ladeiras que dão acesso ao topo tem o mesmo esquema.
[Mercenário] Sim, eu sei disso. Por isso os alcançaria por trás.
[Feijão] Como por trás se não tem outro acesso? Não ouviu o que acabei de falar?
[Mercenário] Sim, ouvi. O problema é que tem outro acesso, sim. Logo na rua principal no início da favela tem aquele bar, meio que um restaurante, que passando pela cozinha dá em uma área externa. Ali tem um muro que, pulando, você chega a uma espécie de corredor que liga os fundos de várias casas. Basta seguir o corredor até o final, entrar na última casa e, quando sair pela porta principal, você estará após o seu cão de guarda.
[Feijão] Eu nunca tinha pensado nisso.
[Mercenário] Pois acredite no profissional que é especialista em invasões. Como te disse, se fosse para sumir com sua grana, faria desta forma. Zero risco e gastaria metade do tempo que estou perdendo aqui.
[Feijão] VOCÊS SABIAM DA PORRA DESSE ACESSO? ESTAMOS COM A MERDA DO CU ARREGANHADO PARA OS OUTROS E NINGUÉM REPARA NISSO? POR QUE ESTOU PAGANDO VOCÊS AINDA? IDIOTAS! INCOMPETENTES! SÓ QUEREM SABER DE FICAR NA VIDA BOA AQUI EMBALANDO AS COISAS, VENDENDO NAS RUAS E COMENDO PLAYBOYZINHA NO BAILE. O ESSENCIAL, O PRIMORDIAL, A NOSSA RETAGUARDA, NINGUÉM SE PREOCUPA. PUTA QUE O PARIU.
[Mercenário] Ei! Feijão! Ei! Foco! Não tenho a noite toda. Vamos ou não vamos fazer negócios?
[Feijão] NÃO ME INTERROMPA QUE ESTOU PUTO.
[Mercenário] Sim, tem todo direito, mas, como já disse quando cheguei, guarde para depois. Não tenho a noite toda.
[Feijão] Você também é um sociopata apressado mesmo. Nunca vi um assassino de aluguel tão ansioso quanto você.
[Mercenário] Não sou assassino de aluguel. Não me confunda. Sou apenas um facilitador territorial. Meus métodos podem não ser os mais tradicionais, mas são eficientes.
[Feijão] Que seja. Já estou de saco cheio de olhar para a sua cara mesmo. Vamos fechar esse negócio então. Quanto quer pelos cinco territórios?
[Mercenário] Quanto você tem aí?
[Feijão] Você quer toda a minha grana?
[Mercenário] Não, quero saber apenas quanto tem neste momento.
[Feijão] No máximo uns quinhentos, quinhentos e cinquenta.
[Mercenário] Impossível. Você mesmo disse que faz duzentos por semana. Reveja esses números.
[Feijão] Ai porra! Mas você é abusado mesmo. Quanto que temos hoje?
[Homem à mesa do dinheiro] Uns quinhentos e cinquenta no máximo.
[Mercenário] Não minta!
[Feijão] Não minta! Pode falar a verdade logo para ele.
[Homem à mesa do dinheiro] Pouco mais de setecentos. Uns setecentos e vinte.
[Mercenário] Fechado!
[Feijão] PORRA! TUDO?
[Mercenário] Você acha que os cinco territórios restantes não valem isso?
[Feijão] Claro que valem! Valem até mais! Esperava apenas que pudesse fazer os pagamentos aos poucos.
[Mercenário] Você quer financiar os meus serviços? Está achando que sou Casas Bahia?
[Feijão] Você é muito abusado mesmo. Eu devia meter uma bala na sua cabeça.
[Mercenário] Eu sei disto. E é por conta dessa certeza que quero o pagamento de uma só vez. Somente assim terei a certeza que não vai tentar me apagar antes de terminar o serviço. Vai precisar fazer com que valha a pena tamanho pagamento.
[Feijão] Sim, faz sentido. E depois? Quem te garante que não irei te apagar depois?
[Mercenário] Dando tudo certo? Você vai ser meu fã número um e ainda implorará para eu aceitar fazer o mesmo com os territórios do Maré Mansa.
[Feijão] Vejam só que coisa. O calhorda além de ser bom no que faz, é esperto e pensa certo.
[Mercenário] Uma coisa está ligada da na outra. Podem colocar o dinheiro nas bolsas?
[Feijão] E as cabeças?
[Mercenário] São meus cartões de visita, se esqueceu?
[Feijão] Ah foda-se mesmo. Iremos praticar tiro ao alvo com elas. Vocês dois podem encher as bolsas. Sabe, nunca achei que uma cabeça fosse tão pesada. Por que elas estão com o topo e as bocas costuradas?
[Mercenário] As coisas nunca acontecem como se espera, daí costurei para ficarem de uma maneira mais apresentável. É melhor assim do que despedaçada ou caindo aos pedaços.
[Feijão] Você é doente! Estão aqui as bolsas. Pegue esse celular para falar comigo. O único número salvo é um que fica aqui comigo. Como vamos fazer?
[Mercenário] Na próxima terça-feira de noite te ligo confirmando onde atuarei. Provavelmente será na Favela do Arruda. Sendo lá, entro na madrugada de quarta para quinta. Você junta uma galera e fica nas redondezas pronto para entrar antes do amanhecer.
[Feijão] Combinado.
[Mercenário] E minha arma?
[Feijão] Está lá embaixo com o vacilão. Ele vai te entregar.
[Mercenário] Ok. Até terça.
[Feijão] Até terça, seu maníaco abusado.
Cena externa. O Mercenário sobe na moto que o esperava e desce a favela até o ponto inicial onde está o Soldado e o outro motoboy.
[Mercenário] Feijão disse para me entregar a minha arma.
[Soldado] Tudo bem lá em cima?
[Mercenário] Tudo encerrado perfeitamente. Não te disse que era do interesse dele?
[Feijão] É! Ele ficou orgulhoso de mim. Está aqui a arma.
Mercenário assim que recebe a arma, atira matando o Soldado e os dois motoboys. Em seguida, pega o celular, abre um aplicativo e aperta alguns botões.
Cena interna. Bunker do Feijão. Ele e seus comparsas estão festejando o acordo. Eles brincam com as cabeças que começam a fazer som de bipe. O som vai acelerando rapidamente. Eles não conseguem reagir. As cabeças explodem e toda a sala vai para os ares.
Cena externa. O Mercenário já na rua que fica no início da favela faz sinal, um táxi para e ele entra.
Cena interna simulando o interior de um táxi.
[Taxista] Boa noite. Para onde?
[Mercenário] Rua Francisco Albuquerque, por favor.
[Taxista] Não é a rua da favela do...
[Mercenário] Sim, é ela mesma. Sem perguntas, por favor. Nada de ruim vai acontecer com você. [Mercenário pega o celular e faz uma ligação] Alô? Maré Mansa? Pode pedir para o menino descer com a minha sacola, sua encomenda já foi entregue no inferno.