terça-feira, 12 de julho de 2016

Notícias do front

Capítulo anterior O dia seguinte
- Não, não é um bom dia – Tatiana estava relutante. – Já te falei que é final de mês e isso aqui fica uma loucura. Sem sair para almoçar, eu normalmente só vou para casa depois das dez, imagine se queimar uma hora de almoço com você. Vamos deixar para a sexta? Eu durmo aí, enchemos a cara ao seu estilo e você me conta o que provavelmente eu já sei.
Não, ela não sabia. Na cabeça dela, a festa de formatura deve ter sido mágica. Eu arrumado, Juliana linda, não aguentamos a onda, nos agarramos e começamos um relacionamento no mesmo dia. Claro que ela estava pensando nisso. Por mais que me conhecesse como poucos e soubesse que comigo as coisas menos improváveis são as mais corriqueiras, ela estava convincente de que foi um episódio em que tudo deu certo com um final feliz. Analisando com calma, até teve um final relativamente feliz, mas não como imaginava.
De qualquer forma, Tatiana tinha razão em relutar ao meu convite de almoço. Cansei de sair tarde da noite de casa para busca-la só para que não voltasse sozinha. Era uma rotina escrota de todo fim de mês. Algumas das vezes foram no meio da madrugada. Isso sem falar da possibilidade de colocar o emprego em risco ao demonstrar falta de dedicação nessa época tão atribulada.
- Só vou te disser uma coisa... Está me ouvindo? Juliana ficou com um cara na minha frente e voltei para casa de mãos abanando.
- AHÁ! SE FUDEU! TROUXA – ela emendou uma rápida gargalhada e prosseguiu. – Passe aqui uma e meia da tarde. Quero cada detalhe dessa história.
Para o inferno, né? Jamais aguentaria até a sexta-feira. Precisava contar para alguém o que tinha acontecido no último final de semana. Deixar para falar com qualquer outra pessoa, soaria como uma adolescente apaixonada que não aguenta com a língua entre os dentes e, convenhamos, sou um adulto maduro. Sem risos, por favor. Para a Tatiana não teria problema algum, afinal somos confidentes um do outro. O que importa é que, antecipando o fato da Juliana e o rapaz na festa, surgiu a curiosidade e, logo, foi ela quem desistiu de esperar até sexta. Portanto, não tem mais como ela ficar resmungando que a convenci a fazer algo contra a sua vontade. Mal sabe ela que a tendência é piorar.
De imediato, ela se indignou com a escolha do restaurante. Ela queria ir a pé até um pequeno restaurante a quilo quase na esquina da rua da sua empresa. Além de ser a quilo, era um lixo de local. Não bastante, teria de passar boa parte da conversa na fila para se servir. Todos sabem que isso não tem funcionalidade alguma, exceto em novela para fazer marcação de cena. Subimos na moto e fomos para outro restaurante um pouco distante. Nada mais que cinco quadras ou seis. Entramos, pegamos a primeira mesa que estava disponível e Tatiana já acenou ansiosa para o garçom. Eu fui mais rápido quando ele chegou:
- Uma cerveja, dois copos e o cardápio.
- Dois copos? Você está bêbado?
- Não, mas pretendo começar nesse momento.
- Pois fique apenas você. Já não basta me foder, quer enfiar o dedo no meu cu?
- Ainda bem que não estamos na fila do restaurante a quilo com pessoas ao redor – interrompi para o garçom entregar o cardápio à Tatiana e servir a cerveja nos dois copos. – Larga de palhaçada. Vai saber de um evento histórico de boca seca? É um copinho apenas! Depois você enche a boca de bala de hortelã.
Escolhido os pratos, brindamos e demos um bom gole cada. Voltei a encher os dois copos e ela nem percebeu. Iniciamos a ação automática de beber.
Comecei a contar a história da formatura com detalhismo de causar inveja a Kerouac. Roupas, músicas, pessoas e até nas falas fui cirúrgico. Momentos pontuais eram interrompidos por reflexões ou devaneios complementares. Algo que já devem ter visto em algum lugar por aqui. Tamanho foi o cuidado em contar o ocorrido que, quando finalmente chegaram os pratos, tinha acabado de contar apenas sobre ter pegado a melancia no balcão de bebidinhas coloridas. No momento que diria sobre avistar Juliana beijando o outro rapaz, fiz uma pausa dramática e aproveitei para pedir uma segunda garrafa de cerveja.
- E rápido – completou a Tatiana. – O assunto aqui na mesa está fervendo.
Falei do momento quando a garrafa chegou. Tatiana vibrava e ria da minha desgraça. Eu escolhi dar um gole vagarosamente. Um gole de quem está no controle de tudo e pode esperar pelo seu momento. Prossegui falando que procurei a Verônica e flagrei aquela cena dela transando nos fundos da cozinha. Tatiana bateu na mesa. Alguns clientes ao redor se assustaram. Era como um segundo gol logo após o primeiro para ela. Eu dei meu segundo gole de senhor do momento, só que dessa vez antecedido por um brinde no ar. Terminado, com a boca ainda molhada com a cerveja, encerrei a parte da formatura.
- Porra, baby. Você me prometeu que não voltaria de moto bêbado. Larga de ser irresponsável. Um dia você morre e não terei de quem rir das desgraças.
Achei melhor nem responder com uma gracinha. Correria o risco de ela ter uma súbita crise de consciência e decidir parar de me acompanhar na cerveja. Segui falando do dia seguinte. Ela achou muito fofo da parte da Juliana ir até a minha casa para me receber, como também a minha decisão de não recebê-la com a minha casa naquele estado. A cada instante, Tatiana ficava mais fã da Juliana. Para seus parâmetros, ela era a pessoa ideal, no momento certo, para me recolocar nos trilhos. Era, supostamente, a motivação que tanto precisaria para sossegar e pensar em alguns objetivos que não deram certo em um passado recente, como família, principalmente.
- Se ela fosse um bom partido mesmo, não teria assistido passiva ao momento que me resetei assim que chegamos ao motel.
- Você fez isso na frente dela? Você é mais idiota que eu imaginava.
- Era necessário – acenei para o garçom pedindo mais uma garrafa. – Era muito necessário.
- Não podia ter sido no banheiro escondido?
- Podia. Nem pensei nisso. Ou meu subconsciente sabotador pensou e escolheu exatamente assim. O fato é que fiz e ela não interrompeu, sequer recriminou.
- Claro que não! Naquela condição de redenção dela, a última coisa que faria era se intrometer nas suas ideias de merda. Assistir e entender melhor no que está se metendo é melhor que interromper qualquer ritual bizarro. Inclusive se resolvesse coçar o céu da boca com um cabo de vassoura enfiado pelo cu.
Preciso confessar que em certas falas da Tatiana eu me via claramente. Tantos anos na minha companhia estavam começando a moldar o seu jeito de se expressar, de pensar e se comportar publicamente. Meu pequeno broto de feijão estava crescendo rapidamente no tufo de algodão umedecido com álcool e já ofendia gratuitamente o ânus de todos no jardim que lhe cercava.
- Tá, você então apagou por conta da resetada. Entendi. Daí acordou mais tarde, abraçou a Juliana e voltaram a dormir novamente agarradinhos. Você e essa mania fofa de ser. Acaba derretendo qualquer uma e, ao final, elas se esquecem do escroto que você é. Enfim... Prossiga... Uma hora acordaram de vez. E aí? Até agora não teve beijo, agarradas, sexo ou despedida melancólica. O que aconteceu? Que horas começa o conto de fadas?
Imagino que ela estivesse ansiosa esperando a parte em que tudo começou para valer, quando a Juliana acordou em definitivo e eu estava no banho expulsando de vez a ressaca. Ao sair do banheiro, apenas enrolado na toalha, lá estava ela, apenas de calcinha e camiseta básica. Era uma cena linda que não me considerava merecedor. Juliana estava de pé, em frente a um espelho ajeitando os cabelos. Tem coisa mais sexy do que mulher mexendo nos cabelos? Ela os prendeu com um rabo de cavalo bem alto sem ser no topo da cabeça. Adoro quando prendem os cabelos assim. Pescoço de fora é o meu fraco. Aproximei-me por trás e, em ser muito invasivo, cheirei seu pescoço. Ela consentiu oferecendo mais Juliana para ser explorada. Entrei no jogo. Sem pressa, continuei passeando pelo seu pescoço e nuca. Cheirava um pouco aqui, uma respiração quente sendo solta ali e barba roçando de leve acolá. Minhas mãos que antes estavam em sua cintura começaram a entrar no jogo também. A primeira desceu pela lateral da sua coxa. Estava toda arrepiada. De maneira sincronizada, abri bem a mão e apertei sua coxa enquanto passava com um pouco mais de intensidade a barba na junção do pescoço com o ombro de Juliana. Tudo do lado esquerdo dela que ficou ouriçado de ponta a ponta. Ela, instintivamente, se contorceu de leve para essa direção. O lado direito ficou esquecido e exposto. Sem mudar o que já tinha iniciado, subi a mão direita de uma só vez e a enchi com seu peito direito. O mamilo estava muito enrijecido. Quando o envolvi por inteiro com minha mão, ela arqueou a cabeça para trás. Sua respiração estava ofegante, sua pele quente e o corpo beirando a total sensibilidade. Mexi novamente a mão esquerda e, sem firulas, a posicionei no meio de suas pernas. A calcinha já estava molhada. Bem molhada. Juliana não tinha mais controle sobre o corpo. Laçou um dos braços por trás da minha cabeça pressionando mais ainda minha boca em seu pescoço. Contorceu a cintura para trás pressionando sua bunda contra o meu corpo que estava nu, pois a toalha caiu tinha tempo. Ela estava acesa, com cada parte do seu corpo excitado, e sequer tínhamos nos beijado. Foi quando a virei de frente para mim e a coloquei encostada no espelho. Segurei firme sua cintura com ambas as mãos que depois desceram até a parte logo abaixo de sua bunda. Enchi minhas mãos com firmeza e a levantei. Ela cruzou minha cintura com suas pernas e meu pescoço com seus braços. Primeiro beijo. Intenso, ofegante e descontrolado. Sim, descontrolado. Aquele beijo que os dois tanto querem e estão tão excitados que não têm mais controle sobre os movimentos, pressão da boca, ritmo da língua ou mordiscadas de lábios. Tudo de uma só vez e ao mesmo tempo querendo ser protagonista na ação. Em alguns momentos, saía de sua boca para morder de leve seu queixo, para esfregar minha barba em seu rosto e para respirar forte em seu pescoço. Juliana se contorcia e se entregava cada vez mais, mesmo parecendo impossível, pois já estava aparentemente totalmente entregue. O que antes eram sons discretos, agora viravam gemidos de reação a cada movimento meu. Sem sair daquele nó de pessoas, levei-a até a cama. Juliana ficou por baixo de frente para mim. Parecia que nunca mais iríamos nos desenroscar. Nenhum dos dois tinha pressa, mesmo em uma cena claramente afoita. Era intensidade, volúpia e excitação, mas nada de afobação. Em determinado momento, Juliana interrompeu aquele duelo de esgrimas que nossas cabeças faziam. Segurou meu rosto com as duas mãos, afastou um pouco do dela, olhou-me com um olhar fatal que foi até a alma e disse:
- Promete que vai me dar isso todos os dias.
- MEU DEUS! QUE INVEJA! – Gritou a Tatiana que depois sinalizou ao garçom para trazer mais uma cerveja. – Você é mesmo bom nisso! Bem, em alguma coisa tinha de ser bom, né? Acho que fiquei excitada. Então foi muito bom mesmo, né?
- Que nada! Foi uma merda.
- Como assim?
Pois é, foi uma merda. Queria muito que tivesse acontecido daquele jeito. Infelizmente foi o oposto. Juliana deve ter acordado com um som ecoando pelo quarto. Era eu que estava vomitando tudo que me restava dentro do corpo no banheiro. Pude ouvir quando ela gritou com a voz ainda embolada perguntando se estava tudo bem. Respondi, com uma voz meio afogada, que iria ficar. Era um diálogo bem peculiar. Quando saí do banheiro, Juliana estava literalmente largada de bruços na cama. Rosto enfiado no espaço entre os dois travesseiros, cabelos para todos os lados e uma calcinha meio enfiada na bunda deixando apenas uma nádega inteira exposta. Preciso reconhecer que não era uma imagem muito sensual, tão pouco se aproximava da cena ideal, contudo era a Juliana. Pela primeira vez ela estava por inteira só para mim. Pelo menos o corpo, pois desconfio que naquele momento ela tinha voltado a cair no sono. Deitei-me ao seu lado com o rosto próximo ao dela. Juliana estava apenas sonolenta.
- Você está com bafo de vômito – ela disse e depois riu.
- Não estou, nada! Eu fiz gargarejo por um bom tempo.
- Você então está com bafo de vômito aguado.
- Pior você com esse bafo de bom dia.
- O que seria um bafo de bom dia?
- É uma mistura de boca seca, com resto de baba, cheiro de leite velho e um toque de pigarro esquecido na garganta.
- QUE HORROR! – Juliana saiu em disparada para o banheiro enquanto fiquei na cama rindo sozinho.
Já de volta ao quarto, ela se sentou ao meu lado. Ficamos nos olhando por um tempo em silêncio, até que nos beijamos. Foi uma coisa dessincronizada. Eu tentava algo com intensidade e fervor, ela agia com lentidão e carinho. Queria aperta-la, toma-la de vez, fazê-la acender. Em contrapartida, Juliana vinha com toques leves, poucos movimentos e uma aparente falta de empolgação. Quando ela finalmente percebeu que poderia ir mais adiante e colocar mais calor na coisa, eu já não era mais capaz de corresponder. Estava com um dos braços dormentes e o pescoço doendo de tanto levantar a cabeça para beijá-la. Desistimos. Ficou um clima frustrante no ar.
- Não está encaixando, né? – Ela perguntou meio que sacramentando.
- Calma. Eu sou melhor que isso.
Trouxe Juliana para se deitar na cama e me posicionei sobre ela entre suas pernas. Voltamos a nos beijar e a coisa fluiu com mais naturalidade. Ainda não era aquela coisa desesperadora que pretendia, todavia já rolava mais interação. Os dois estavam em uma mesma sintonia finalmente. As mãos começavam a explorar os corpos, assim como pescoço e colos eram desbravados pelas bocas. Um ritmado movimento de quadris começou a se coordenar. Nossas pélvis se friccionavam e a respiração se tornava ofegante aos poucos. Tirei sua blusa e lá estavam seus peitos. Lindos, firmes, enrijecidos e do tamanho exato da minha boca. Não sabia por qual começar. Revezava minha boca entre eles para não provocar ciúmes. Queria que ambos fossem os meus favoritos. Ela com a mão por de trás da minha cabeça me pressionava contra eles pedindo mais. Sim, finalmente bons ventos ao nosso favor. Desci pelo seu corpo beijando sua barriga e cintura. Nenhum espaço foi esquecido. Enquanto beijava o topo da sua coxa e parte da virilha, comecei a tirar sua calcinha. Juliana já estava bem à vontade e emitia sons que reforçavam isso. Ao indicar que iria cair de boca no meio de suas pernas, ela me puxou pela cabeça de volta para cima.
- Não!
- Por que não?
- Não tomo banho desde ontem pela manhã quando saí para ir ao seu encontro.
- Larga de frescura.
- Não!
Seria perda de tempo continuar tentando argumentar com ela. Mesmo que quisesse, ela já tinha me prendido com as pernas na cintura novamente. Estava com a movimentação limitada. Para garantir que não tentaria novamente, ela, com o pouco espaço que tinha, começou a retirar a minha cueca, única peça de roupa que estava vestindo. Tentei ajudar com as mãos, mesmo sem poder me levantar por estar preso por suas pernas. Ela com um dos pés empurrou a cueca para baixo que saiu totalmente. Era aquele o momento. Os dois estavam ansiosos por isso há meses. Continuamos obviamente nos agarrando, pois não somente o desejo era enorme, como precisávamos dar um ar de naturalidade à coisa. Tentei só com o movimento do quadril e não consegui. Não achava o buraco. Péssima frase, eu sei. Insisti mais uma vez confiando apenas na movimentação dos corpos. Cheguei a parar de beijar a Juliana para melhor me concentrar na sensibilidade do meu pau e entender onde ele estava. Como se existissem muitas opções de lugares, não? Ainda assim, nada. E nem era porque ela estava seca, muito pelo contrário. Juliana estava encharcada e receptiva. Na terceira tentativa, que deveria ter sido feita com a ajuda da minha mão depois de duas tentativas fracassadas, aconteceu um novo fiasco causando evidentes expressões de frustração em nossos rostos. Juliana então ressecou e eu fiquei não tão duro quanto antes.
- Ok, pode repetir a frase – disse para ela.
- Qual frase?
- Não está encaixando – os dois riram e o clima foi apagado como uma ducha de água fria.
- MAS VOCÊ É MUITO MAIS IDIOTA DO QUE IMAGINAVA – Tatiana não se conformou, virou seu copo e acenou por mais uma garrafa para o garçom. – Quando finalmente consegue o clima, resolve fazer graça?
Ela tinha razão. Não tinha motivos para se espantar comigo, mas tinha razão. Minha boca sempre teve vontade própria em relação ao cérebro. Como já disseram uma vez e não canso de repetir, meu maior defeito é a boca que comumente comete insubordinação ao cérebro. Principalmente em situações que me deixam desconfortável. E aquela era uma situação clássica de me deixar incomodado e abrir a boca. O pior é que não tinha motivo para isso. É algo comum acontecer essa dificuldade na penetração, especialmente em primeiras transas. Existem pessoas e pessoas. Já aconteceu de estar com alguém não tão excitada assim, com uma quase total ausência de lubrificação, e, ainda assim, achar o acesso e entrar de primeira com a facilidade que um Fusca sem freio desce uma ladeira. Em contrapartida, exatamente como foi com a Juliana, a pessoa está molhada, disposta e acessível, todavia parece aqueles “organiza fila” em bancos no quinto dia útil do mês. Simplesmente não flui.
- Tá – Tatiana pegou a nova garrafa, serviu nos dois copos e prosseguiu. – E tentaram depois?
Até esbocei que iria tentar, mas Juliana cortou. Alegou que precisava voltar para casa. A mãe deveria estar preocupada. Não suficiente, tinha uma entrevista de emprego de tarde na zona sul. Mesmo assim, ela combinou que a buscasse em Copacabana no início da noite. De lá, sairíamos para comer algo, beberíamos uma cerveja e recomeçaríamos de onde terminamos, mas agora na minha casa. Topei, ela foi embora e o resto Tatiana já sabia.
- Peraí. Você então veio direto do motel almoçar comigo?
- Sim – respondi enquanto contava discretamente quantas garrafas já tínhamos na mesa. – Liguei para você enquanto ela tomava banho.
- Não conseguiu aguentar um minuto sequer para me contar – Tatiana ria. – Você é muito carente mesmo. Não sei como ainda fico impressionada com isso.
- Não sei como ainda fico impressionado conosco. Olhe só quantas garrafas esvaziamos. Isso em... Sei lá... Quanto tempo mesmo?
- Deixe-me ver as horas – Tatiana pegou o celular da bolsa, fitou o visor e arregalou os olhos. – FILHO DA PUTA! SÃO QUATRO DA TARDE. Meu caralho, oito ligações perdidas. Ai o que eu vou fazer agora.
Tatiana se levantou, sei lá por qual motivo, e percebeu que estava bêbada. Nenhuma surpresa. Falou consigo em voz alta que estava bêbada algumas vezes. Ok, eu iria ouvir muito naquele momento. E ouvi. Merecido, eu sei. Ela então, entre um sermão e outro sobre como sempre acabo fudendo com a vida dela, ficou tentando pensar em alguma solução para aquela situação. Quase três horas de almoço e ainda estava bêbada. Não bastante, era final de mês. Tatiana, você está de parabéns!
- Parabéns está o seu cu, seu desgraçado – Tatiana se sentou para tentar colocar um pouco de ordem em sua cabeça. – Como eu deixo você fazer essas coisas comigo? Sério? Por que você faz isso comigo? E agora?
Não tinha motivos para pânico. Bem, claro que ela tinha. Como não era o meu que estava na reta, não achava que tinha motivos para tal. Dei uma sugestão para ela que topou na hora. Com o meu celular liguei para o trabalho dela e pedi para falar com o chefe. Expliquei quem eu era, que tínhamos ido almoçar e que provavelmente algo caiu muito mal. Tanto que Tatiana começou a vomitar logo após sair do restaurante. Para dar mais credibilidade, disse que tínhamos ido ao tal restaurante a quilo, o que ela sugeriu logo de início, e que de cara achei o lugar um lixo. O chefe concordou e complementou falando que sempre ficou inconformado com ela indo naquele lugar. Fechei dizendo que estava levando Tatiana a uma emergência para fazer lavagem ou algo do tipo, antes que fosse tarde demais. O chefe devia ser um paspalho por comprar a minha conversa mole. Literalmente mole, inclusive, pela fala de língua já meio boba.
- Pronto – sorri para Tatiana. – Resolvido. Não precisa de pânico.
- É fácil falar isso quando não é você que amanhã vai virar a noite para colocar tudo em dia.
- Por isso que hoje, já antecipando a merda que vai ser amanhã, vamos tomar um porre hoje.
- Encher a cara até tarde em uma segunda-feira faltando ao trabalho. Veja a que ponto chegamos.
- Até tarde não! Até as seis horas no máximo. Não se esqueça que tenho um compromisso com a Juliana.
- Para o caralho com esse compromisso. Pode cancelar agora e pouco me importa que seja com ela. É o mínimo que pode fazer nesse momento.
Não retruquei. Ficamos apenas nos encarando. Tatiana queria levantar uma das sobrancelhas para enfatizar a sua posição de definir algo, só que estava tão bêbada que tudo que conseguiu foi ficar com um olho mais arregalado que o outro. Vendo que não tinha para onde correr, peguei o celular e liguei para Juliana. Ela ainda estava esperando ser chamada para a entrevista. O que foi ótimo. Mandar apenas uma mensagem soaria frio, sem cogitar que na cabeça dela poderia passar a ideia que achei uma merda a nossa manhã e já estava correndo. Expliquei uma história em que a Tatiana estaca com problemas pessoais e precisava de um ombro amigo para conversar. Juliana tinha certa relutância em assimilar a minha amizade com a Tatiana. Ao fim entendeu, sugeriu algumas coisas e pediu que reservasse na minha agenda o início da sexta-feira até a manhã da segunda-feira só para ela. Claro que não negaria.
- Pronto – falei para Tatiana guardando o celular no bolso. – Cancelei com ela. Está satisfeita? Ela ainda me obrigou a ficar com você o resto do dia, inclusive te hospedar lá em casa. Está feliz agora? Você só fode com a minha vida mesmo.
- E você é um grande filho da puta mesmo.
Próximo capítulo Enfim, primeiro encontro

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Histórias reais inventadas por mim

Fim de viagem em Londrina
Esta história na realidade é apenas um pedaço de algo maior. Ela começou na quinta-feira passada quando fui a Londrina para um casamento e está terminando hoje, terça-feira. Resumindo, é o final da história. Sãos as minhas últimas horas em Londrina
- Ih guri, não sei, não.
Com essa frase, o taxista meio que me preparou para a possibilidade de não conseguir voltar para casa. A cidade estava debaixo de um temporal pesado tinha horas. Segundo o mensageiro do apocalipse disfarçado de motorista de táxi, o aeroporto da cidade fechava com muita facilidade. Qualquer sutil alteração no tempo e pronto, ninguém entra, ninguém sai. Claro que com menos dramaticidade que a minha frase.
Quando entrei no aeroporto percebi que a premonição do taxista era acertada. Um mar de pessoas espalhado por um salão que parecia uma pista de kart por conta das malas e mochilas largadas pelo chão. O exagero aqui não é tão real quanto parece. O aeroporto de Londrina, ao menos a parte de circulação de passageiros, é ridículo de pequeno. Parece uma rodoviária de cidade do interior. Um salão nem tão grande assim, com, no máximo, dez guichês de despacho de malas, umas três lojas de companhias aéreas e uma banca de jornal. Existe ainda um mezanino com uma lanchonete e uma dúzia de mesas. Obviamente, lotar um local como esse não é uma tarefa muito difícil, ainda assim, a imagem era desanimadora.
- Senhor, infelizmente estamos sem previsão mesmo. Todos os voos estão cancelados. O avião do senhor sequer está em terra. Eu sinto muito.
O rapazinho até que foi simpático, mesmo respondendo a mesma coisa provavelmente há horas. Depois de uns quarenta minutos em uma fila aturando terceiros disputando entre si quem estava mais indignado e quem teria mais transtorno na vida por conta daquele atraso, até que fui bem paciente e retribui o bom atendimento com um sorriso ao final. E nem foi por conta do polpudo vale almoço, ou vale desculpas, de vinte e quatro reais que recebi da companhia. Sem muitas opções, resolvi me sentar em algum lugar para esperar pelo menos o temporal passar. Afinal, enquanto São Pedro mantivesse aquele chuveiro ligado igual a uma mangueira de bombeiros, os voos nem começariam a ser organizados. Sentei-me em uma das raras cadeiras disponíveis, mas antes precisei de toda a minha capacidade de argumentação e articulação para convencer um homem que as malas dele em um assento e uma pessoa em pé não configura o correto. Ele ficou ofendido claramente quando a única solução seria coloca-las ao chão, próximo ou no meio de suas pernas. Imagino que até hoje ele esteja indignado por ter conseguido convence-lo a cometer tamanha indelicadeza com seus pertences que merecem um local melhor. Existe uma grande possibilidade de em sua casa a televisão deve ficar no sofá e as visitas de pé encostadas na estante.
Ficar uma hora e meia sentado fazendo literalmente nada à espera do nada é muito pior do que imaginava. Senti muita inveja dos idosos que, mesmo acompanhados, ficavam olhando o vazio em uma paz quase fúnebre, todos imunes à agitação que os cercava. Inquietação, aliás, que só aumentava diferentemente do que era exatamente o oposto do que esperava. Imaginava que com o tempo passando, as pessoas iriam se cansando, diminuindo a movimentação, falariam menos, se ajeitariam em um canto e por lá ficariam até virarem um casulo, de onde sairiam depois transformados Hare Krishnas. Pelos menos era assim que achava que eles surgiam.
- Devido à forte nevasca, o aeroporto JFK está completando dois dias de interrupção no seu funcionamento. Autoridades estão especulando um surgimento de mais de dois mil novos Hare Krishnas em Nova York.
Aquela agitação estava de fato me incomodando. Pessoas ansiosas ao celular ligando para cancelar reunião, adiar encontro com cliente, dar satisfação para secretária entre outras situações, estavam me provocando canseira só de olhar. Não tinha o que fazer. Éramos reféns do clima, das companhias aéreas e do rapazinho da torre que provavelmente estava fazendo hora em alguma rede social torcendo para o turno dele acabar antes do temporal. Tamanha a nossa impotência, que não fazia sentido aquela preocupação com os dramas do cotidiano. Tudo que passava pela minha cabeça era a minha inconformidade com a ausência de qualquer opção de se comprar algo alcoólico.
- Isso é muito descaso – disse um engravatado sentado à minha frente. – Ei, você não acha isso muito descaso?
- Eu? – Ele respondeu que sim para a minha infelicidade. – O que seria descaso?
- Eles nos deixarem aqui mofando à mercê do capricho deles.
- Eu não tenho certeza se é muito exagero avaliar desta forma sabendo que os aviões sequer estão pousados para embarcarmos.
- Isso é balela! Estão todos estacionados em algum hangar. Isso é estratégia para vender mais passagens.
- Pelo que vejo ao meu redor, acredito que vender passagens não é o problema atual deles.
- Você não está vendo a grande figura. Veja fora da caixa. Eles criam esse cenário para que a pessoa desesperada não espere pelo próximo agendamento e acabe comprando qualquer outro voo.
- Olha só. Olha ali naquela televisãozinha. Todos os voos estão cancelados. TODOS! Não existe sequer outro voo com passagens para comprar.
- É exatamente isso que eles querem que você pense. Pois saiba que existem outros, sim. Eu ouvi uma pessoa falar que se você pedir no balcão, eles têm um pequeno avião que leva até Guarulhos. Tudo pela bagatela de quase mil reais por cabeça. Mil reais a cabeça. É uma grande sacanagem.
- E por qual motivo você ainda está aqui?
- Porque não vou cair no esquema deles. Isso é coisa para desesperado que mete as mãos pelos pés. Só um trouxa afobado cai nisso.
- Bem, me dê licença, mas vou ali em cima descontar esse vale lanchinho que ganhei. Acho que a minha taxa de glicose caiu drasticamente e está afetando meu discernimento.
Teve um pequeno rebuliço quando me levantei, pois algumas pessoas estavam de pé. Foi notória a insatisfação do homem ao meu lado ao perceber que ainda não poderia acomodar suas malas no assento como ele considerava digno. Subi para o mezanino e as mesas da lanchonete estavam lotadas de pessoas enrolando. Fui direto ao caixa na esperança de boas notícias para amenizar o pesadelo que não tinha ainda prazo para acabar.
- O que você tem de cerveja?
- Não temos cerveja, senhor.
- Hum – uma pausa coçando a cabeça e revisando a vida. – Vinho de caneca?
- Não temos bebida alcoólica, senhor.
- Cachacinha? Licor?
- Não temos beb...
- Eu sei! Eu entendi na primeira. Estava apenas tentando desafiar a realidade.
- Infelizmente, senhor, não temos bebidas alcoólicas.
- Sério? E como fazem os pilotos? Eles trazem em uma garrafa térmica em uma lancheira?
- Senhor, acredito que eles não possam beber em serviço.
- Eu também. É apenas uma piada velha. O que tem para comer?
- Temos quatro opções de pratos feitos. São aqueles ali no alto. Acompanham um copo de refresco. Custa vinte e quatro reais.
- Hum – outra pausa mais uma vez desperdiçada, pois a menina não sacou o deboche no meu rosto. – E se quisesse algo diferente de uma refeição?
- Temos um combo. Ele vem com dois salgados, pode ser croissant ou folhado, uma vitamina ou milk-shake e uma fatia de pudim ou de mousse.
- Deixe-me adivinhar. Custa vinte e quatro reais.
- Exatamente, senhor.
- Que mundo pequeno, não? Vamos fazer o seguinte. O que acha de eu te entregar esse vale qualquer promoção de vocês que custa vinte e quatro reais e você me dá vinte reais em dinheiro de volta?
- Tem gente pedindo vinte e quatro pelo vale.
- Não importa. Vinte redondo. Fechado?
Provavelmente me achando um idiota, a atendente trocou o vale. Claro que ela tem razão, mas esse não era o motivo mais apropriado para me julgar.
Com as mesas lotadas e a menor vontade de retornar àquele salão que mais parecia a arca de Noé, optei por ficar em uma enorme janela que dava para a pista de pouso e decolagem. Nada para ver. Apenas muita água caindo no asfalto. Talvez conseguiria uma pouco de paz.
- Então – uma mulher parada ao meu lado também olhando para o nada matou os poucos segundos de paz. – Eu te entendo perfeitamente.
- Ora, não se precipite. As chances de estar errada são grandes.
- Bobo – ela sorriu e foi a primeira bela imagem naquele dia horroroso. – Estou falando do seu drama para conseguir bebida alcoólica.
- Ah sim. Ajudaria muito na minha situação se eu conse... Ei! Que audição impecável. Você está de parabéns!
- Quando você apareceu, eu pensei na hora que seria alguém que estivesse doido por uma birita.
- Birita?
- Ah me deixa. Eu tenho umas gírias estranhas – outro sorriso lindo e o meu dia começava a melhorar ao poucos. – Daí apostei comigo mesma que iria pedir algo para beber. Fiquei daqui ouvindo e nem foi um esforço muito grande. Sua voz é grave, alta. Dá para ouvir daqui facilmente.
- Imagine de manhã ao pé do ouvido.
- Céus! Alto daquele jeito? Tipo acordar com corneta de quartel?
- Não, sua doida. Apenas o grave.
- Ah sim. Deve ser uma delícia. Até imagino você falando “acorda, benhê, entupi a privada.”.
- Que horror – caímos os dois na gargalhada. – Jamais falaria isso.
- Mas é bem a sua cara.
- Não. Acho cafona chamar alguém de benhê. - Ficamos rindo mais um pouco.
Ela aparentava ter um pouco mais de quarenta anos. Era bem bonita, alta, cabelos bem cuidados e o tal sorriso encantador que disse antes. Seu nome era Cristina, estava voltando para o Rio de Janeiro também, mas sem a menor pressa, pois já tinha avisado ao chefe e foi liberada. O meu drama não somente a comoveu, como também a assolava. Precisávamos de um plano e, segundo ela, nos arredores não existia uma opção sequer. Mesmo que tivesse, não nos podíamos nos dar ao luxo de sentar em uma mesa de bar. Sugeri pegar um taxi, deixar que ele nos levasse até algum local que vendesse a tal birita e voltaríamos para consumir enquanto esperávamos as coisas se reestabelecerem por aqui. Ela topou e ganhei mais um sorriso.
Quarenta minutos depois, dos quais a maior parte do tempo foi culpa de um taxista incompetente que sequer sabe onde se pode comprar vinho na própria cidade, estávamos de volta. Eu, Cristina e cinco garrafas de vinho. Todas com as rolhas previamente engatilhadas para facilitar as nossas vidas. Estávamos bastante pessimistas quanto ao nosso retorno ao Rio de Janeiro e otimista sobre nossa capacidade de absorver álcool.
- Baby, se me acompanhar direitinho com essas cinco, direi com certeza que você foi feita para mim.
- Baby? O cara que acha cafona falar benhê usa baby?
Cristina era muito mais que um sorriso lindo. Tinha respostas rápidas que me deixam sem palavras, era despojada e comprou o projeto encher a cara no aeroporto. Obviamente, assim que chegamos, não tinha mais lugar para sentar. Sem dramas, nos acomodamos no chão mesmo. Esticamos as pernas, colocamos as malas de lado, tiramos a rolha da primeira garrafa e nos revezamos com bons goles direto do gargalo. Os olhares recriminadores dos outros passageiros eram cruéis. Cheguei a me incomodar por alguns segundos. Daí, ela me entregou a garrafa, dei mais um gole e passou.
- Impressionante como as pessoas estão incrédulas com a nossa cena.
- É muita coisa para associar de uma só vez – respondi devolvendo-lhe a garrafa.
- Sério? Liste então.
- Dois adultos sentados no chão sem a menor cerimônia.
- Justo.
- Dois adultos bebendo vinho em pleno início de tarde de uma terça-feira.
- Bebendo do gargalo – ela enfatizou erguendo a garrafa como em um brinde.
- Sim, não vamos nos esquecer desse detalhe – peguei a garrafa, bebi e continuei. – E agora o principal de todos. O maior de todos.
- O maior de todos – ela pegou de volta a garrafa e a levantou ao ar. - Qual o maior de todos?
- Estamos nos divertindo enquanto os outros estão odiando este dia.
- Mas é porque temos álcool.
- Direto do gargalo. Não se esqueça.
- Direto do gargalo.
A primeira garrafa terminou em uma velocidade incrível mesmo para os meus padrões. Cristina tinha um potencial impressionante. Era melhor eu ficar atento com ela, pelos bons e maus motivos. Já na segunda garrafa, um funcionário do aeroporto veio recolher a primeira vazia. Ele fez um comentário que flertava com uma pergunta como quem quer saber se iriamos dar trabalho. Eu até tinha uma resposta cretina pronta, mas Cristina foi mais rápida dizendo que só teriam trabalho se nos incomodassem. Quietos no nosso canto, passaríamos despercebidos. Ouvi incrédulo tamanha franqueza, mas o que importava mesmo era o funcionário ter acreditado.
- O que veio fazer aqui?
- Não quero falar sobre isso – ela foi seca na resposta.
- Puxa, me desculpe. Não queria ser indelicado.
- Não foi indelicado. Foi sem graça. Perguntinha mais clichê. Ainda mais vindo de você.
- De mim? O que tem eu?
- Você com todo esse jeito de contornar a conversa e essa cara de safado...
- Essa o que?
- Você ouviu? E sua cara de safado é melhor que essa de cínico. Pode parar com a cena. Enfim, esperava algo melhor de você. Mais compatível com a imagem.
- Tipo o que?
- Tipo perguntar a cor da minha calcinha, se faço sexo com desconhecido, se já trepei em banheiros públicos, se transei a três ou se coloco energético em uísque.
- Energético em uísque?
- Pois é, uma putaria pesada fazer isso, não?
- Estou começando a achar que você é alguma irmã minha que foi roubada na maternidade.
Ela riu do meu comentário, mas não por ser engraçado, apenas por ser patético. Cristina achou curioso o meu desconforto lidando com uma mulher com boas respostas rápidas que me deixavam desconcertado. Não bastante, concluiu de imediato que eu só me relacionava com mulheres mais novas. Ora, que diabo de mulher era aquela? Só tinha uma maneira de fazê-la parar. Ou tentaria deixa-la apaixonada por mim, ou teria de tentar mata-la. Em ambas as opções, indiscutivelmente, não somente fracassaria, como seria o único a sair machucado. Onde fui me meter?
- Ok, você já está muito desconcertado. Vamos para perguntas lugares comum para você retomar o fôlego e a coragem. O que veio fazer aqui?
- Casamento.
- Percebo que esteja esquecendo algo, não? Tipo, a mulher com quem acabou de casar.
- Não, eu não me casei. Vim para um casamento.
- Entendi. Padrinho, né?
- Madrinha.
- Olhe só, já está voltando a ficar à vontade com as asinhas de fora.
- Não é piada, é sério mesmo.
Cristina não pode acreditar no que ouvia. No dia do casamento civil, a madrinha não pode comparecer e a única pessoa que o casal conseguiu chamar às pressas no cartório foi outro amigo. Chegando à hora, o juiz de paz se recusou a fazer um documento com dois padrinhos. Deve ter pensado que éramos um casal gay. Ele disse que só aceitaria se um dos dois assinasse como madrinha. Obviamente, para não empatar o momento, o idiota aqui aceitou a condição. Aliás, condição totalmente absurda, que na cabeça do juiz de paz fazia sentido.
- Ah, então você é gay mesmo?
- Não comece.
- Tudo bem – ela colocou a segunda garrafa já vazia de lado e abriu a terceira. – Veja pelo lado positivo, em casamentos sempre arrumamos alguém.
- Nada.
- Ninguém?
- Zero.
- Neca de bitibiriba?
- Está divertido para você?
Após um gole inaugural na terceira garrafa, ela se desculpou. Não acreditava que alguém pudesse sair de um casamento sem ao menos conhecer uma pessoa nova. Vai ver as minhas obrigações de madrinha ficaram tão extensas que nem tive tempo de interagir com outras pessoas. Ou apenas sou um fiasco nesse tipo de evento mesmo.
- E nos outros dias? Não saiu? Nada?
- Ah sim! Todas as noites.
- E conheceu alguém?
- Ah sim! No sábado conheci uma ruiva linda. Olhos claros. Rosto pintandinho de sardas. Ótimo passatempo.
- Passatempo?
- Sim, ficar contando sardas pela manhã.
- Pois saiba que minhas costas são cheias de sardas.
- Você quer ouvir a minha história ou ficar se gabando?
- Oh desculpe, senhor falador. Prossiga. Quem sou eu para te interromper agora que pegou no embalo.
- Era só isso mesmo. Conheci uma ruiva linda no sábado.
- E?
- E o que?
- Nada? Zero? Neca de bitibiriba? Fuém?
- Não! Ficamos no sábado e repetimos ontem.
- Ah seu cretino. Então quer dizer que estou aqui flertando com um homem compromissado?
- Estamos flertando?
- Não, claro que não! Você é um desastre nesse jogo.
Mesmo que estivéssemos, não era um homem compromissado. Ao final do segundo encontro, a ruiva já deixou claro que nada sairia dali. Aliás, preciso dizer que, no que se refere a ser enfática, ela é muito boa. Qualquer animação pelos dois dias com ela foi estraçalhada por pedidos como esquecer que ela existisse, apagar seu número do telefone e não achar que foi algo especial. Não quero me passar por dramático, mas ainda estava me sentindo mal por como aquilo terminou. E nem foi minha culpa dessa vez. Eu apenas fiquei boquiaberto ouvindo. Era óbvio que não iríamos para frente. Foi muito exagerado o sadismo dela em me comunicar isso.
Enquanto Cristina demonstrava solidariedade ao meu sofrimento recente, o sistema de som anunciou que o tráfego aéreo estava aberto novamente. Fomos para o guichê e, no tempo que esperamos na fila, a terceira garrafa foi embora. Estávamos prestes a completar nove horas naquele local já completamente bêbados. Conseguimos marcar nossos assentos, um ao lado do outro e seguimos para a sala de embarque onde ficamos menos de dez minutos. O pessoal do aeroporto estava disposto a colocar as coisas em dia mesmo. Entramos no avião, guardamos as malas no compartimento em cima das poltronas e nos sentamos. Com a quarta garrafa em mãos, Cristina sugeriu que pensássemos em um local para acabar com esta e a quinta, já que o tempo de viagem era curto. Deixei por conta dela, afinal era o macho alpha da relação. Ela sorriu quando ouviu isso e tirou a rolha. Logo em seguida o avião decolou. O que aconteceu em seguida não cabe mais aqui, pois como disse, essa era a história das minhas últimas horas em Londrina e não estava mais em solo londrinense.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Pedaços de uma vida encenada

Ombro amigo - Cena 1
Teo está dormindo. É tarde da madrugada e seu quarto está escuro, quando o celular toca. Ele atende com esforço. Tela se divide em duas: em uma metade Teo de bruços na cama, Luiza no sofá com cobertor na outra metade.
[Teo] Alô.
[Luiza] Acordado?
[Teo] Não!
[Luiza] Preciso de você.
[Teo] Ai porra.
[Luiza] Por favor. É sério. Preciso muito.
[Teo] Peraí.
Teo se ajeita na cama ficando recostado. Em seguida liga o abajur na cabeceira.
[Teo] Fala.
[Luiza] Preciso que me distraia.
[Teo] Luiza, são três da manhã. Amanhã... ou hoje... que seja... é segunda-feira. Ainda estou bêbado. É mais uma crise de carência?
[Luiza] Não. Desculpe-me, mas dessa vez é serio. Preciso de atenção.
[Teo] Tá! Fala. O que aconteceu?
[Luiza] O Gil me deu um corte.
[Teo] Ah caralho.
[Luiza] O que foi?
[Teo] Estava torcendo muito para ser um problema financeiro. Já tinha me preparado para abrir o notebook e fazer uma transferência para você.
[Luiza] Antes fosse. Ele me deu um pé na bunda mesmo.
[Teo] Como se leva um pé na bunda sem estar sequer namorando?
[Luiza] O Gil acha que estou envolvida demais ao mesmo tempo em que ele não está. Não se enxerga emocionalmente preparado.
[Teo] E por que não continuam do jeito que tudo estava até alguns minutos antes de me acordar? Qual o problema de continuarem se pegando sem compromisso e complicações?
[Luiza] Eu não me sinto à vontade sabendo que não quero ficar com mais ninguém, enquanto ele se mantém disponível para outras pessoas.
[Teo] Ai meu pai. Que complicação desnecessária. Onde que em um relacionamento sem compromisso se fala sobre essas coisas? A ideia era se comerem, checarem exames de doenças e gravidez esporadicamente. Pronto! Fórmula do sucesso. Quem colocou a carta do tema polêmico e inoportuno na mesa?
[Luiza] Eu.
[Teo] Ah porra, Luiza! Sempre falei que esse seu problema em não conseguir pegar no sono depois de transar ia dar em merda. Você fica acordada com esses olhos esbugalhados, só de canto de olho, implorando para a pessoa puxar algum assunto. Mas a pessoa não puxa. A pessoa quer dormir. O que você faz? Hein? Hein? Sapeca de surpresa um “você está querendo sair com outras pessoas?”. Aposto que o pau do rapaz nem deve ter abaixado até então.
[Luiza] Tão bom ter um amigo que me entende e fala as coisas certas no momento que mais preciso.
[Teo] Você sabe que eu falo o que precisa ser dito. Tanto que foi por isso que me ligou.
[Luiza] Não... Te liguei porque sei que era a única pessoa acordada para conversar nesta hora.
[Teo] Ah mas errou feio, hein?
[Luiza] Pois é. Se arrependimento matasse...
[Teo] Você nunca teria me dado pela primeira vez.
[Luiza] FILHO DA PUTA! [Luiza ri]
[Teo] Vejam só! Consegui te distrair.
[Luiza] Não é essa distração que preciso. Quero algo para acalmar o meu coração. Algo que me faça me sentir bem. Daí vem você falando que deveria abaixar o pau do Gil e deitar como um cadáver ao lado dele, só para o conforto de todo mundo.
[Teo] Todo mundo é muita gente. Mas o fato é que, se você não tivesse feito a pergunta, eu pelo menos estaria dormindo no meu conforto.
[Luiza] Escroto... Enfim, a pergunta foi feita, mas não... Não foi após o sexo. Muito menos foi a pergunta que você disse. Apenas comentei com ele que as coisas estavam esfriando. Não sentia mais aquela reciprocidade vindo dele para querer me ver, me beijar, me comer. Estava tudo meio no automático, em uma mesmice sem graça. Ele meteu um papo sobre estar sem grana, que com isso não sai mais e fica desmotivado.
[Teo] Tá, mas isso não tira tesão de homem. Cara que tem tesão na mulher, mas não tem grana, leva para trepar na escada do prédio, praia, carro, canil. Mentira! Canil só a Luciana Gimenez com o Mick Jagger.
[Luiza] Sério isso?
[Teo] Sei lá. Sempre rolou essa lenda de que ele a engravid...
[Luiza] Não, estou perguntando do tesão. Mesmo sem grana o tesão continua?
[Teo] Ah sim. Até porque é tesão. Não é vontadezinha de se ver apenas. Tesão por alguém quando bate, faz o cabra dar o jeito dele para conseguir.
[Luiza] Bem... Eu não sabia disso. Mesmo assim acabei perguntando se isso estava afetando apenas a maneira dele me ver. Isto é, se ele via outras meninas de maneira diferente, ou se via de maneira desinteressada também.
[Teo] E ele?
[Luiza] Não disse sim, nem não.
[Teo] Filho da puta. Ficou calado?
[Luiza] Não! Ele falou que não se achava um pegador, putão, sei lá o termo que usou. Daí não conseguia se imaginar olhando para outras mulheres para poder me responder. Depois falou que isso também não o impedia de se envolver ou ter atração por outras.
[Teo] Que filho da puta! Está tristinho porque a mesadinha acabou. Está tristinho e acha que isso está tirando a vontade dele em te ver. Legal! Mas ficar tristinho para querer pegar outras... ah aí é outra história... Vamos colocar a dúvida no ar, não é mesmo?
[Luiza] Pois é. Achei a mesma coisa. Cheguei a falar algo, mas ele me interrompeu. Disse que gostava de mim, que me curtia... Curtia! Rá! Sonho de toda mulher, um cara que diz “eu te curto”. Enfim, ele falou que gostava de mim, que o sexo não tinha mudado, apenas estava repensando as coisas, pois eu era a primeira pessoa que ele dava prosseguimento depois do término do namoro dele.
[Teo] Como assim dar prosseguimento?
[Luiza] Ele supostamente saiu com outras pessoas, mas só deu uma trepada aleatória e nada mais. Comigo ele prolongou. Entendeu?
[Teo] Ah tá! Estão saindo tem quanto tempo?
[Luiza] Desde agosto... Então... Umas sete semanas.
[Teo] E transaram quantas vezes?
[Luiza] No início não transamos, nem saíamos muito. Depois passamos a nos ver toda semana e transávamos sempre. Sei lá! Acho que umas cinco.
[Teo] É... Vou te falar então... De todo esse tempo que esteve com ele, a melhor coisa que lhe aconteceu foi aquela nossa trepada bêbados no aniversário na casa da sua prima.
[Luiza] FILHO DA PUTA! Sabia que ia falar isso. [risos dos dois]
[Teo] Desculpa, mas a deixa foi muito mais forte. Prossiga.
[Luiza] Ele disse que estava preocupado com o fato de que não queria ter um relacionamento sério. Achava que prolongar algo comigo sabendo disso seria sacanagem e poderia perder a minha amizade, algo que ele disse ter mais valor do que tudo.
[Teo] É, ele está querendo pular fora e está tentando ser fofo.
[Luiza] O argumento principal dele foi que tinha a certeza que eu queria algo e ele, em contrapartida, não. Ele acredita que esse impasse já é algo para não continuarmos juntos.
[Teo] É, ele quis ser fofo, mas é apenas covarde.
[Luiza] Covarde?
[Teo] Sim, covarde. Provavelmente já estava com isso em mente tinha algum tempo. E quando digo isso, me refiro a pular fora. Você veio puxar um assunto delicado, ele usou como ponto de partida.
[Luiza] Sério? Covarde?
[Teo, enquanto fala, se levanta e vai para a sala] Sim. O cara que quer pular fora tem a suas mãos vários recursos, sejam eles detestáveis ou não. Simplesmente sumir e fingir que nada aconteceu, por exemplo, requer muito culhão. Além de falta de caráter, obviamente. Precisa ter culhão para ignorar mensagens cobrando o sumiço, esbarrar na rua e ser indiferente, até mesmo não se incomodar com o outro lado. Como disse, existem diversos recursos e esse é um deles. O Gil foi covarde. Não tomou iniciativa no primeiro momento que cogitou pular fora. Esperou uma desculpa dada por você. É patético, clichê e ao final soa tão ruim quanto o detestável sumiço. Acredito que, na cabeça dele, tudo fez sentido e sua ação foi digna de ser elogiado na mesa de jantar com a família. Não é legal sinalizar para a outra pessoa que entendeu as intenções dela em querer um relacionamento quando não é recíproco. Até porque, quando a outra pessoa quer um relacionamento, a última coisa que ela precisa ouvir é que você não está na mesma vibe.
[Teo faz uma voz forçada] Veja bem, eu sei que você está doidinha por mim, só pensa em mim e está depositando várias fichas em mim, mas tchau. Acredite, é para o seu bem.
[Teo] Ora, fica parecendo que, no momento que era apenas sexo sem expectativas, a ideia era genial. Agora que ela quer algo... Opa... Cadê o botão ejetar?
[Luiza] É, talvez tenha sido isso.
[Teo] Pense da seguinte forma... Suponhamos que ele seja uma alma realmente evoluída... Desastrada na maneira de lidar com as coisas, mas evoluída... Ele percebeu que você está se apaixonando... Ele não está sequer perto de sentir isso por você... Então ele resolve que o melhor é matar o relacionamento. Ora, não se fala isso. O esperado é que...
[Luiza] Eu entendi. Agora já era. Só queria conversar. Achei muito babaca da parte dele, mesmo antes de conversar com você. A diferença é que agora existem mais argumentos para achar ele um babaca. Enfim, essas porradas que me cansam mais que o Gil propriamente dito. Tinha esperanças que saísse algo mais legal dali. Acabei levando na cabeça.
[Teo] Não me faça repetir Paulo Francis. Ele dizia que a vida só é democrática na desgraça.
[Luiza] É, na minha tem rolado muita democracia. Acho que vou diminuir o ritmo mesmo. Aliás, já tinha diminuído. Transei com três caras apenas este ano. Um no carnaval que não aguentei as pontas. Depois fiquei meses sem transar até conhecer o Gil. Além de, nesse meio tempo, um estrupício em uma festa recente.
[Teo] EU! EU!
[Luiza] E nem no canil foi! [risos dos dois]
[Teo] É bem possível que você estivesse indo direitinho no caminho com ele. Você é calejada. Vai ver faltou algo por parte dele. Tipo, ele mandou os sinais errados. Era para dar sinal amarelo e colocou um verde brilhante.
[Luiza] Analisando com calma tudo que disse, eu concordo.
[Teo] Com o que especificamente? Com a falta de calejamento? Que a melhor coisa do seu ano foi a nossa foda?
[Luiza] Também... [risos dos dois] Mas agora quero falar apenas de calejamento.
[Teo] Ok... Ele era amigo antes, não?
[Luiza] Era.
[Teo] Então. Território amigo. Zona segura. Isso cria uma falsa confiança que tira os pés atrás e nos colocam de quatro.
[Luiza] Ui que delícia.
[Teo] Olha só! Já está falando sacanagem! Viu como sou a melhor pessoa para conversar?
[Luiza] Não, você é péssimo! Você é uma alma estabanada, nada evoluída, mas que ao menos diverte falando merda.
[Teo] Isso magoa!
[Luiza] Aham... Que mude a direção das mágoas esta madrugada apenas uma vez.
[Teo] Ok, justo.
[Luiza] Se ele me procurar, você me ajuda?
[Teo] Ajudar como? Sou péssimo de briga. O máximo que posso fazer é preparar umas piadas sarcásticas para usar com ele.
[Luiza] Não, apenas me ajude no que devo fazer.
[Teo] Nada.
[Luiza] Não vai me ajudar?
[Teo] Não, lesada! É para fazer nada! Coisa alguma.
[Luiza] Mas é difícil.
[Teo] Vou te dar uma dica de algo que faço com frequência e é infalível. Apague ele dos seus contatos para não correr o risco de cair em tentação amém e mandar mensagem para ele. Quando ele mandar por conta própria, nem entre na conversa. Apague por fora mesmo. Vai constar eternamente que recebeu e nunca leu. Uma hora ele entende.
[Luiza] Vou tentar. Bem, obrigado. Agora pode voltar a dormir.
[Teo] Ah, já perdi o sono. Nem mais estou no quarto.
[Luiza] Hum... Desculpe-me. Vou tentar dormir então.
[Teo] Não.
[Luiza] Não?
[Teo] Não! Quero aproveitar e falar de outra coisa com você.
[Luiza] Diga então.
[Teo] Suelen.
[Luiza] O que tem a Suelen?
[Teo] Você tem certeza que ela é menina? [Luiza cai na gargalhada]
[Luiza] Claro! Sei lá! Por que está perguntando isso? Vocês não ficaram naquele dia no bar na sexta passada e foram para a sua casa?
[Teo] Sim.
[Luiza] Então? Ela pelada não é menina? Ou você não sabe diferenciar as coisas?
[Teo] Claro que sei diferenciar! Sim, ela pelada é uma menina. A pergunta é: ela sempre foi menina? Ela foi menina a vida toda?
[Luiza] Meu Deus! Sabia que você ia encrencar com isso. A Suelen talvez tenha uns traços rústicos. A voz não ajuda muito, é verdade. Ela é meio grande também. Ainda assim eu garanto que ela é menina. Por que dessa neura?
[Teo] Luiza, escute o que vou te falar. Aquilo que ela tem no meio das pernas não é uma boceta normal. [Luiza ri descontroladamente] Eu estou falando sério. Preste atenção em mim. Eu já vi muitas na minha vida e aquela coisa não era uma boceta natural.
[Luiza] Como não era normal? Era torta? Parecia um porta-níquel? Tinha dentes? [Luiza volta a rir alto]
[Teo] Estou falando sério. Era totalmente fora da posição normal. Não estava alinhada com o corpo.
[Luiza fala rindo] Vou pegou um par de esquadros para constatar isso, Teo?
[Teo] Luiza, pare de fazer graça com isso. Não era algo natural. Era muito áspera.
[Luiza] Vai ver estava seca.
[Teo] Como seca? Eu fiz as preliminares direitinho.
[Luiza] Vai ver você chupa boceta mal, né?
[Teo] Ei! Eu chupo mal?
[Luiza] Sei lá?
[Teo] Como sei lá? Já te chupei algumas vezes.
[Luiza] Teo, eu não vou fazer DR sobre a sua chupada. Vai ver ela não curtiu como você estava fazendo. Ou então não estava solta o suficiente para ficar lubrificada. Quem sabe você não a acendeu suficientemente?
[Teo] Como não? Ela que sugeriu ir para o meu apartamento.
[Luiza] Daí na hora H ela te viu pelado... [Luiza ri] É meio broxante mesmo.
[Teo] Para, porra! Podemos focar no ponto que estou querendo provar aqui?
[Luiza] Tá bom! Sei lá. Então... Sei lá... Você já tinha transado com negras antes?
[Teo] Nunca.
[Luiza] Então é isso! A boceta delas deve ser diferente. Ou demoram mais para entrar no clima.
[Teo] Hum... Talvez isso seja uma possib...
[Luiza] Sim, é uma possibilidade. Acabamos com a neura?
[Teo] Não!
[Luiza] O que foi agora?
[Teo] Preciso te confessar uma coisa.
[Luiza] Já estou com medo.
[Teo] Sonhei que saía com ela novamente.
[Luiza] Olha aí que bom sinal! É um indício que você curtiu.
[Teo] É, mas no sonho transamos novamente.
[Luiza] Pelo seu tom de voz, já vi que não conseguiu deixar a menina animadinha.
[Teo] Pior.
[Luiza] Broxou?
[Teo] Pior.
[Luiza] Desisto.
[Teo] Eu chupava o pau dela.
[Luiza tem uma crise de risos e vai para a cozinha pegar água para não se engasgar]
[Teo] Estou aqui abrindo uma confissão minha e você se diverte. Depois reclama de mim. Tomara que morra engasgada com sua saliva.
[Luiza] Melhor com saliva que com pau de travesti. [Luiza volta a rir]
[Teo] Filha da puta.
[Luiza] Ah relaxa, Teo. Você sempre foi meio viado mesmo. Aproveita e sai do guarda-roupas truculento.
[Teo] Não sei por qual motivo exponho isso para você?
[Luiza] Eu também não sei. Afinal de contas, fui EU quem ligou. E o fiz unicamente para te contar o quanto sou frouxa e o quanto tinha chorado. Levando em consideração o meu rosto naquele momento, eu era mais lubrificada que a xoxota da travesti que você comeu.
[Teo] TRAVESTI, NÃO! TRANSEXUAL! Respeite minha namorada. [Os dois caem na risada]
[Luiza] Ah a sua namorada da xoxota torta.
[Teo] Pois é, preciso levar a sua amiga na funilaria.
[Luiza] Ela não é minha amiga.
[Teo] Como não? Você me apresentou como sua amiga.
[Luiza] Eu dei uma forçada para te ajudar a ter assunto com ela. Eu a conheço lá de onde moro. Sempre morou em duas ruas acima da minha. Esbarrávamos pelas ruas e temos amigos em comuns há anos. E só!
[Teo] Droga. Contava com sua intimidade com ela para confirmar a minha desconfiança.
[Luiza] Para quê desconfiança? Você a viu pelada, Teo. Qual o problema?
[Teo] Presta atenção, Luiza. Eu entrei em vários sites de transexuais.
[Luiza] Meu pai, você é mais pervertido que imaginava.
[Teo] Sério! Sem perversão. Apenas curiosidade. Pesquisa de campo.
[Luiza] Pesquisa de campo? Tá, fala.
[Teo] Não tinha uma boceta que parecesse natural. Eram todas em formatos... Digamos... Como posso falar?
[Luiza] Não natural?
[Teo] Isso! E o pior.
[Luiza] Você ficou excitado?
[Teo] Não! Deixa eu falar, caceta!
[Luiza] Caceta quem tem é a sua namorada. Digo, tinha!
[Teo] Engraçadinha. O pior é que nenhuma é igual a outra. São todas estranhas e diferentes ao mesmo tempo. É tipo artesanato. Sabe aquelas banquinhas de artesanato que vende bonecas mucamas de argila? Então? São todas assim. Estranhas e diferentes entre si.
[Luiza] Ai, Teo. Você está me cansando. Se eu chamasse agora mais umas cinco amigas minhas e ficássemos todas peladas na sua frente, você veria que nenhuma é igual.
[Teo] Sim, isso é a essência da natureza. Mas sob as mãos de técnicas médicas as tendências é que fiquem sempre iguais, pois seguem o mesmo gabarito.
[Luiza] Gabarito, Teo? GABARITO? Você sabe que xoxota e prédios são coisas diferentes, né?
[Teo] Tá, eu me expressei mal. Só preciso ter a certeza se ela é uma transexual ou não.
[Luiza] Você quer sair de novo com ela se for transexual?
[Teo] Não!
[Luiza] E se for mulher?
[Teo] Também não! Não disse que o sexo foi estranho?
[Luiza] Porra! Que diferença faz então?
[Teo] Só quero acalmar essa ansiedade em mim. Eu tive pesadelos. PESADELOS! Eu sonhei que chupava um pau. Sabe quantas vezes já sonhei com isso?
[Luiza] Se me disser que aquela não foi a única vez, eu juro que você é viado.
[Teo] Então... Presta atenção...
[Luiza] Foi mais de uma? VOCÊ JÁ SONHOU ISSO ANTES?
[Teo] Luiza...
[Luiza] FALA!
[Teo] Já, já sonhei antes. Na época que jogava polo aquático no Hebraica, tinha aquele banho coletivo após o treino. Sempre que me sentava no banco para começara me vestir, um dos meninos do time ia pegar as coisas no armário e ficava com aquela piroca a dois palmos do meu rosto. Tentava ignorar, mas aquela jeba ficava balançando como um pêndulo de relógio. TIC TAC TIC TAC. Era impossível não olhar. É como um pombo atropelado. Ele está lá, você sabe que é nojento, mas acaba olhando.
[Luiza] Teo, eu nunca sonhei que estava comendo um pombo atropelado.
[Teo] Ah, experimente ficar toda terça e quinta por dois anos encarando um pombo atropelado tão perto. Você ia sonhar que ele era membro da sua família, chamaria de Tio Aloísio e até conseguiria imaginar ele fazendo a piada do Pavê no Natal.
[Luiza] Você é doente. Boa noite, manjador de pau alheio.
[Teo] Sério. Me ajuda.
[Luiza] Como vou te ajudar? Eu não sou amiga dela. Sequer tenho intimidade com ela. O Fábio disse que ela comentou que tinha curtido você naquele dia e pediu que intercedesse. Só isso.
[Teo] É que você falou sempre se esbarrava com ela pelas ruas desde nova. Vai que tinha algum indício.
[Luiza] Teo, ela sempre foi menina.
[Teo] Ela podia ser hermafrodita.
[Luiza] AI CARALHO! E como vou saber se ela era hermafrodita se nem falava com ela?
[Teo] Sei lá! Alguma pista. Sempre jogava bola?
[Luiza] Machista.
[Teo] Batia nos outros meninos?
[Luiza] Machista frouxo.
[Teo] Ela era masculina e sensual ao mesmo tempo?
[Luiza] Bicha enrustida.
[Teo] Quando se sentava, escapava o saco ou o pau?
[Luiza] Manjador de rola.
[Teo] É serio!
[Luiza] Estou falando sério também. Além de estar incrédula em ter essa conversa logo após expor todo o meu drama. Aliás, esqueça meu drama. O seu drama psiquiátrico é muito pior. Preciso dormir.
[Teo] Calma! Ela sempre jogava de zagueiro estilo Odvan? [Som de telefone desligado] Luiza? LUIZA? Merda! Será que tem algum travesti na Glória uma hora desta para consultar?