quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Histórias reais inventadas por mim

Sem solução
- Não! Não! Esquece! NÃO!
- A larga de ser chato. É para me ajudar. Por favor.
- Não, isso é patético.
- Patético é ter um amigo que não está disposto a te ajudar.
- Cadu, eu te ajudo com várias coisas. Vou te ajudar em tudo que pedir. Só que isso é demais.
- Por quê? O que tem de especial no que te pedi para ficar tão ofendido?
- Como não sabe? Não vou brincar de mulher.
- Não, Cesinha! Não quero que brinque de mulher. Quero apenas encenar um diálogo com você, no qual você finge que é a mulher. Eu não sei chegar em mulher na noite. Você é o rei da noite! Três palavras e a calcinha já caiu. Por favor! Diga-me onde estou errando.
- Quer saber onde está errando? Está errando ao ficar num sábado de noite com um macho na sua casa pedindo para ele fingir ser mulher.
- Eu não pedi isso. Para também, Cesinha! Vai! Colabora!
- Cara, isso é muito constrangedor. Vamos a um bar, chegamos em dupla em duas amigas e vemos como você se sai.
- Não, nem pensar! Eu vou falar besteira, gaguejar, te envergonhar e provavelmente provocar uma golfada nos seus pés.
- Como você pode provocar uma golfada puxando assunto?
- Uma vez esbarrei com uma mulher saindo do banheiro daquele pub irlandês. Ela estava tampando o nariz. Daí disse para ela: “Está reclamando do cheiro? Precisa ver o cagalhão boiando na privada do masculino.”.
- Porra, Cadu? Você mordeu o cagalhão? Comeu no café-da-manhã com Sucrilhos? Quem puxa assunto falando de merda?
- Pois é, eu sei! Eu fico nervoso e falo a primeira coisa que me vem à cabeça.
- Você deve ter alguma deficiência ou demência. Não é possível que, uma pessoa, ao se deparar com uma mulher, pense antes de qualquer outra coisa em merda.
- É que fazia sentido a deixa dela com as mãos cobrindo o nariz.
- NÃO! NÃO FAZIA SENTIDO! Fazia sentido oferecer uma bebida para ela aliviar o sofrimento. Fazia sentido comentar sobre seu pescoço cheiroso. Fazia sentido até falar para ela cheirar a sua virilha.
- Nossa que grosseria.
- Jura? Grosseria? Sério mesmo, senhor cagalhão boiando?
- Então! É isso que quero que me ensine. Quero ter um raciocínio rápido para situações em que me aproximar de uma mulher e puxar assunto de maneira adequada. Não quero falar de cagalhões, velório da minha avó, cálculo diferencial, tipos de animais que mais comumente são atropelados nas estradas ou possíveis doenças provocadas pelo consumo excessivo de amendoim.
- Quem puxa assunto falando sobre cálculo diferencial?
- Jura? Em uma lista com velório de avó e potenciais filhotes de patos atropelados, cálculo diferencial que chamou a sua atenção?
- Bem colocado.
- Então, por favor! Dá aquela ajuda. Vai! Vou chegar em você, tá?
- Hum...
- Estou chegando em você. Oi! Tudo bem?
- Sai fora, viado! Sou hétero!
- Colabora, Cesinha. Só hoje. Só para mim.
- Se disser isso novamente, te dou uma porrada.
- Tá! Ok! Pode entrar no jogo?
- Ok. Vai!
- Oi! Tudo bem?
- Tudo bem. E você?
- Tudo ótimo agora.
- Não, Cadu. Porra! Tudo ótimo agora? Só faltou dar aquela ajeitada no pau. Não precisa forçar tanto logo de início. Fala que está bem também.
- Qual seu nome?
- Ai, que grosso! Nem respondeu o que perguntei.
- Ah não sabia. Desculpe. Estou bem também.
- Agora não quero mais papo com você. Com licença.
- Porra, Cesinha. Vai na boa.
- Tá!
- Então?
- Então o quê?
- Cesinha! O seu nome! E se responder Cesinha vou ficar puto.
- Valricélia.
- Ah caralho! Colabora, Cesinha.
- Não, burro! Vai por mim. É uma boa deixa. Nomes exóticos são uma boa deixa para bons minutos de papo se mostrando interessado na garota.
- Boa! Não tinha pensado nisso. Então... Que diferente seu nome. Acho que já vi em algum lugar.
- Jura? Onde?
- Certa vez estudei com duas meninas. Uma se chamava Célia e a outra Valéria. Imagine que legal se fossem irmãs. Ou irmãs siamesas. Teria o seu nome.
- PORRA, CADU! Seus pais são primos? Qual o seu problema?
- Eu sei! Eu fico nervoso.
- Mas comigo?
- Pois é. Estou com aquele frio na barriga que tenho sempre que vou puxar assunto com uma mulher.
- MAS COMIGO?
- Vai ver eu sou inapto para este tipo de coisa. Tipo uma patologia.
- Não sabia que era tão grave assim. Temos de pensar em algo ou vai ficar mais... Mais... Há quanto tempo não transa?
- Conta puta?
- Não!
- Então sou virgem.
- PORRA, CADU! Como nunca falou comigo sobre isso? Que parada bizarra!
- Você não ia levar a sério. E até então, antes de ficar desesperado, tinha vergonha de falar sobre.
- Ah cara! Comigo? Logo eu que, até aceitar fingir que sou mulher, aceitei.
- Foi mal!
- Foi péssimo! Mal é sua situação.
- Ah obrigado.
- Desculpe. Então vamos fazer algo. Vamos montar um roteiro básico para você seguir e ver no que dá.
- Tipo decorar falas?
- É, tipo isso! Montamos algumas combinações e daí é só seguir que não vai ter erro.
- Não acho uma boa ideia.
- Por que não?
- Não sou bom nesse negócio de texto preparado.
- Como sabe disso? Você não é ator, apresentador, nem palestrante. De onde tirou isso?
- Eu sei. Tanto que pratiquei por dias essa nossa conversa de hoje e saiu tudo ao contrário.
- Ao contrário? Mas você explicou direitinho o seu problema e pediu minha ajuda de maneira razoável.
- Se fosse realmente este o problema que me trouxe aqui, né?
- Ah não é este o problema? Então qual é?
- Na realidade estou apaixonado por você, me enrolei todo e achei que com essa encenação poderia fazer coisas que iriam te conv...
- PERAÍ CARALHO! VOCÊ ESTÁ APAIXONADO POR MIM? DESDE QUANDO?
- Então... Tem uns dois ou três anos, desde que dividimos a cama naquela pousada vagabunda em Paty dos Alferes. Dormir do seu lado me ajud...
- CALMA AÍ, PORRA! VOCÊ É GAY E AINDA ESTÁ APAIXONADO POR MIM, CADU? QUE PORRA É ESSA?
- Não fala assim, Cesinha. Não me deixe nerv...
- Nervoso? Eu quero morrer! Eu prefiro estar morto a ouvir esta notícia bombástica.
- Bem, Cesinha, se você fosse uma cotia e estivesse atravessando uma estrada de Melbourne, suas chances seriam bem favoráveis.

- Cadu, você é mesmo uma tragédia. Não me faça te beijar por pena.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Cretinice homeopática

- Tem de ir para a cadeia mesmo!
- A cadeia só forma bandido!
- Então levem para o abrigo!
- Lá traumatiza e deixa violento!
- Que coloquem na escola!
- Já viu o estado das nossas escolas?
- Particular então!
- Os professores não têm mestrado!
- Têm, sim!
- Mas é da Estácio!
- Aí fudeu tudo! Solta a molecada!

sábado, 5 de setembro de 2015

Histórias reais inventadas por mim

Professorinha
- Pois não?
Confesso que, quando ela abriu a porta, fiquei uma mistura de surpresa com decepcionada. Ela era uma pessoa bem mais velha do que esperava. Ao invés dos vinte e poucos anos, estava beirando os cinquenta. Com certeza era mais velha do que eu. Não suficiente, a forma como me recebeu foi meio que um balde de água fria. Espera-se que em situações como essas, a pessoa te receba bem vestida. Não de maneira elegante, mas sexy, transbordando sedução. Afinal de contas, era o ganha-pão dela. O que vi era o oposto. Uma calça jeans surrada que estava faltando o botão, uma camisa de malha velha manchada de água sanitária e um casaco de moletom por cima. Ela era ao menos bonita. Bem, quero dizer, para alguém da sua idade, ela estava muito bem e aparentava ter sido no auge uma mulher bonita.
- Eu sou a Cássia. Liguei para você ontem e marquei hoje às três da tarde.
- Ah! Sim, Cássia! Você está só?
- Estou sim! É só para mim mesmo.
Dolores ficou bem surpresa quando confirmei que estava só, deu para notar no seu rosto. Perguntei se tinha algo de ruim naquilo e ela disse que não. Explicou que era muito estranho, normalmente o público dela era mais novo, mas que não tinha problema.
- Mais novos, né? Entendo. Eles são inseguros e precisam sempre de uma ajuda.
- Ah! Sim! Algumas vezes é falta de apoio familiar também, mas uma boa profissional ajuda e dá segurança para que continuem por contra própria.
- E eu ser do sexo feminino é uma exceção?
- Não! Imagine! Confesso que a maioria são meninos, mas aparecem meninas também. Sabe como é, né? Elas amadurecem mais cedo, ganham responsabilidade mais cedo e ficam mais determinadas.
Ela ter usado termos como meninos e meninos fez com que me sentisse mais velha ainda. Longe de mim criticar isso. Vai ver estava tão calejada da vida que certas coisas não a afetavam mais. Se ela recebia uma cliente daquela forma, quem sou eu para esperar um vocabulário mais apropriado. Como estava ainda insegura e sem graça, continuei com assuntos paralelos ao meu objetivo.
- E você trabalha com isso tem muito tempo?
- Uns 18 anos pelo menos.
- Hum, começou tarde. Como veio parar nesse ramo?
- Na verdade foram dois motivos. Primeiro foi o divórcio. Meu marido me largou. Sumiu. Fiquei com uma casa para manter, sendo que não tinha emprego, diploma, nem experiência. Era uma clássica “do lar”. – Ela fez as aspas com a mão. – Junto disto veio a crise. Nenhuma empresa estava contratando, não existia mercado para inexperientes, ainda mais com trinta e poucos anos. Então resolvi investir nessa carreira. Não tenho vergonha. Ganho meu dinheiro de maneira honesta.
- Claro! Honestíssima. E você é uma vencedora, pois diante do caos que virou sua vida, foi corajosa e tomou decisões duríssimas para poder se manter de pé.
Ela concordou comigo e me agradeceu por entender tão rapidamente a sua história. Depois me ofereceu uma bebida. Disse que não costumava fazer isso. O que fazia sentido, pois o papel de levar um drinque ou algo para sofisticar o atendimento é do cliente. Dolores percebeu que eu estava muito nervosa e travada e, por isso, justificou propor que bebêssemos algo. Dentre vodka, cerveja e vinho, optei pelo vinho branco. Ela brindou, sorrimos e descemos uma taça em um gole único. Enchemos novamente a taça e voltamos para o papo para descontrair um pouco mais.
- E você sempre atende em casa? Ou vai a domicílio?
- Eu sou muito rigorosa com isso. Sei que sou um ponto fora da curva. Só que na casa dos outros tem muita distração, além de não me dar uma sensação de segurança. Aqui, toda pessoa que entra e sai é filmada na portaria e os funcionários ficam atentos ao entra e sai.
- É grande o movimento?
- Ah sim! Por semana atendo uns 60. Tem dia que sequer consigo brecha para almoçar.
Era uma surpresa atrás da outra. Só que agora uma surpresa boa que se contrapunha à decepção inicial. Se esta mulher que assim me recebeu atende quase 60 clientes por semana, ela deve ser muito boa mesmo. Fiquei segura, com a certeza de que estava em boas mãos. Perguntei então se o habitual era pagar no início ou no final. Ela disse que ficava por minha conta. Optei por entregar logo o dinheiro, que ela guardou no quarto e voltou perguntando como iria me ajudar.
- Meu casamento está ruindo e tenho certeza que o problema está na cama. E, não, o problema não está com meu marido. Sou eu mesma o problema. O ato sexual não me apetece muito.
É óbvio que alguém que usa termos como ato sexual não gosta de sacanagem. Se incluir apetecer na frase então, fica pior ainda. Mas era verdade, não sou do tipo de mulher que curte sexo. Fazia apenas quando meu marido me pedia e torcia para acabar logo. Talvez fosse uma consequência da criação cristã fervorosa que meus pais me deram. Enfim, não curtia e vocês entenderam.
- Adoro quando ele sai para jogar bola com os amigos, quando vai ao Maracanã ou fica no bar o domingo todo. Assim tenho sossego e não preciso ficar inventando afazeres dentro de casa para fugir dele e sua pinta de pé em minha direção.
Pinta! Sou uma catástrofe de mulher de 44 anos. Falo ato sexual, pinta e, se a Dolores não me interrompesse rapidamente, previa que teria de falar sobre gozar, termo que costumo substitui por explodir dentro de mim. Aliás, que por mais patético que seja, fico envergonhada só de pensar.
- Quando não consigo escapar é aquela coisa de sempre. Ele monta em mim, fico parada como um cadáver deixando ele fazer todo o trabalho até chegar ao final. O máximo que acontece é uma leve mudança de posição que, seja qual for, dura poucos segundos porque sempre invento uma desculpa como câimbras, dormência nas pernas ou a máquina de lavar que parou de bater a roupa.
Acho que era a primeira vez que abria minha intimidade para alguém. Nunca sequer cogitei falar algo do tipo para uma amiga, imagine para uma total estranha. Talvez a Dolores, com toda sua experiência, passasse uma confiança para mim que me fazia falar com a mesma naturalidade que falava sobre o tempo com estranhos no elevador. Ela, ali sentada com os olhos arregalados, talvez espantada pela minha história, transmitia algo que facilitava as palavras fluírem pela minha boca.
- Então, tudo que quero é poder ser uma mulher normal. Curtir fazer sexo com meu marido. Poder ficar por cima e ficar confortável, sem parecer um filme de terror. Quero me mexer. Quero um orgasmo. Quero ter coragem para fazer um oral nele. Quero muita coisa.
- Ok. Só um minuto. Cássia, certo? Isso é muito diferente para mim.
Claro que era muito diferente. Inclusive para ela! Aquilo era um caso único na humanidade. A história da mulher com anos de casada, que passou a vida toda com o mesmo homem, mas nunca teve um orgasmo. A esposa que subia no marido e ficava tão desconfortável que seus movimentos se pareciam com os de alguém que, após horas aguardando sentada na sala de espera, está procurando uma posição que não lhe cansasse. A pessoa que nunca colocou a boca em uma pinta. Pinta? Não, nada de pinta! Chega de ser a Cássia pudica de antes. Se eu quero mudar, preciso começar pelos meus próprios pensamentos. A partir de agora é pau, rola, piroca, cacete. Quero coragem para chupar aquela pica dura dele até gastar. Quero sentar no caralho dele e cavalgar como uma lhama serelepe ao descobrir um novo gramado para pastar. Gente, de onde está saindo isso?
- Dolores, eu sei que é diferente. Não precisa dizer. Não me julgue. Apenas me ensine.
- Sim, ensino. Ensino muitas coisas, mas... – eu interrompi a Dolores.
- Já sei! Já sei! Nunca precisou ensinar isso.
- Exato, minha especialidade é... – e vem mais uma nova interrupção minha.
- Você não costuma ensinar pessoas tão cruas como eu. Crua não! Eu sou a vaca que ainda está no pasto e sequer não virou bife. Mas faça esse esforço, por favor. Aqui está – entreguei outro maço de dinheiros para ela. – Pago dobrado. Me ensine a chupar um pau de tal maneira que meu marido passe o resto do dia seguinte no trabalho pensando em voltar para casa e receber o mesmo.
Dolores pegou o dinheiro com uma expressão confusa em seu rosto. Foi até o quarto, voltou e se dirigiu até a cozinha. De lá gritou que estava procurando algo, mas não tinha banana, cenoura, abobrinha, nem berinjela, que inclusive não sei por que ela enfatizou que é com jota. Daí voltou com a garrafa de vinho. Encheu nossas taças, me entregou a garrafa e depois falou para que fingisse que era o pau do meu marido. Precisei de dez segundos para ela me interromper.
- Vamos lá! Primeiro, você precisa usar as mãos por alguns motivos. Um, você vai acabar derrubando a garrafa da mesa e acabar com o meu último vinho. Dois, você precisa mostrar com as mãos que quer aquele pau como nunca. Que não vai soltá-lo enquanto ele implorar para te penetrar ou gozar em sua boca como um bebê antílope. Segundo, não dá para ficar apenas mexendo com os lábios levemente no que seria a cabeça. Você está parecendo um peixe de aquário tentando respirar. Você precisa colocar ele todo na boca.
Um pau inteiro na minha boca? Aquele pau inteiro na minha boca? Nunca tinha parado para imaginar nisso. Deve ser agonizante. Provavelmente ficarei sufocada. Aquela coisa dura pulsante enchendo toda a minha boca.
- Dolores, pare de falar isso! Estou começando a ficar molhada. Eu nunca fico molhada. Meu marido reclama que estou sempre seca. Mantenho por anos a desculpa de uma patologia que me impede de ficar lubrificada. Será que estamos quebrando barreiras aqui?
Impressionada, imagino eu, com minha desenvoltura e descoberta, Dolores me pega pela mão e me posiciona sentada no braço do sofá. Ela diz para fingir que é meu marido e manda eu me mexer. Ela segura na minha cintura e força os movimentos. Com o tempo vou me soltando.
- Vai, sua safada – ela fala para mim e depois dá um leve tapa no meu rosto. – Mexe, sua putinha!

Eu agora era uma putinha. Nunca fui uma danadinha, imaginem uma putinha. Que delícia ser chamada assim. Continuava a me mexer cada vez mais. Subia as mãos pelo corpo, levantava o cabelo da nuca, fazia caras e bocas. Dolores claramente estava orgulhosa da cena. Eu era uma putinha e ela uma puta professora. Uma puta professorinha do sexo. Ao final, agradeci pela ajuda. Era uma nova mulher que saía da casa de Dolores naquele momento. Pedi desculpas pelo estrago que fiz no braço do sofá e ela riu. Disse que vai torcer para ficar uma mancha que a lembrará para sempre daquele dia. Enfim, ficamos felizes. Eu voltei para casa mais segura, determinada a animar minha vida sexual e salvar meu casamento. Dolores ficou satisfeita com mais um atendimento, mesmo achando um pouco estranho, mas como ganhou dobrado, relevou. Para dizer a verdade, nem todas ficamos felizes. Soraia ficou arrasada. Quem é Soraia? É a funcionária do jornal do bairro que foi demitida porque ao invés de colocar o anúncio “Professorinha Dolores, a salvação da sua família” na seção de anúncios pedagógicos, colocou na seção de acompanhantes e profissionais do sexo.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Cai na real: Contos sobre a rotina para quem acabou de chegar

Conto anterior da coleção: Silêncio

Idiota, hormonal e clichê

É aquela cena que todos já conhecemos. Duas amigas que há muito não se viam passam pela a mesma calçada. Uma está alterada por hormônios e distraída olhando para o celular, a outra é apenas uma idiota:
- Vera? VERA!
- Oi? Rebeca! Quanto tempo!
O clichê continuou. Dois beijinhos, uma mão apoiada levemente no ombro da outra, sorrisos e uma ajeitada de franja para melhorar o visual. O papo seguiu:
- Garota, você está grávida!
- É, está parecendo!
- Parecendo nada! Você está gravidíssima. Que barriga enorme!
- Não é? Imagine que constrangedor seria se não estivesse.
- Impossível! Ela está enorme! Redondinha! Muito grande mesmo!
- Sim, muito grande mesmo! E o bom é que nós, grávidas, quase não temos problemas com a autoimagem.
- Ah, pare de ser boba, garota! Está linda! Deve estar para nascer em breve, né?
- Na realidade, estou com apenas três meses, mas obrigada ainda assim.
- Apenas três? E deste tamanho?
- Sim, apenas três. Agora não sei se devo rever meu calendário ou meu espelho.
- Não, deixe de bobagem, menina. Algumas grávidas ganham mais barriga para o desenvolvimento do feto. É apenas um?
- Sim, apenas um e acho melhor mudarmos de assunto antes que insinue que é um rinoceronte.
Rebeca ficou rindo de nervoso e cobrindo os olhos. Vera ficou parada com cara de quem está com fome, mas o cara na fila do bufê à sua frente demora muito além de ainda estar na parte das saladas.
- Por falar nisso, você já sabe o que é?
- Então – Vera fez uma pausa, respirou e prosseguiu. – No início eu achava que era uma samambaia, mas fiz uns exames e confirmou que era uma criança mesmo. O que não teria problema se fosse uma samambaia. Iria amá-la da mesma forma. Regar, passar pente fino para tirar piolhos, digo lagartas, essas coisas de sempre.
- Pare de ser boba. Você entendeu o que quis dizer. É maneira de perguntar sobre o sexo.
- O sexo foi mais ou menos. Eu e o Bê estávamos bêbados. Espero que isso não comprometa a criança, né?
- Você não muda mesmo. Continua a mesma – Rebeca permaneceu com a risada descontrolada, sem perceber que era a melhor oportunidade para fingir um desmaio. – Você já fez o exame para saber se é menino ou menina?
- Decidimos que não iremos fazer isso. Vamos descobrir na hora mesmo.
- E isso não é arriscado?
- A ciência avançou muito, então imagino que o índice de mortalidade no parto por desconhecer o sexo deve ter reduzido drasticamente.
- Ai, Vera – mais risinhos. – Você está impossível hoje!
- É, eu estou – ela fez uma pausa dramática. – Eu estou impossível mesmo.
- Falo do risco de nascer sem saber o sexo. Não acha perigoso?
- Não, normalmente, ao nascer, o médico, dentro de todo conhecimento por ele adquirido em anos de faculdade, sacramenta que é um menino ao ver um pinto. Se tiver uma xereca, dirá que é uma menina. Ainda assim, em caso de dúvidas, tenho um amigo veterinário que faz testes para a sexualidade de periquitos, então deste risco não correremos.
- Se falar grosso também, né?
- Rebeca, recém-nascido não fala.
Rebeca reagiu de forma séria ao comentário de Vera sem perceber que foi apenas sarcasmo. Ela gesticulou, gaguejou, para depois insistir no mesmo assunto e linha de raciocínio.
- Estou falando do quarto, da decoração, das coisas. Como ficaria se só depois de nascido você descobrir o sexo? Não vai ter que mudar muito?
- Bem, estava preocupada antes de descobrir que era uma criança. Por que antes, né? Não sabia se comprava um berço, um xaxim ou uma jaulinha. Agora que sei que se trata de um ser humano bebê, ficou muito mais fácil ajeitar o quarto. Berço, aquela cômoda que trocamos as fraldas em cima, brinquedos e chão macio.
- Mas e o problema das cores?
- Ah Rebeca, se ele for daltônico, terá o meu amor mesmo assim.
- Você tirou o dia para implicar comigo, não foi?
- É, acho que foi isso mesmo, Vera.
Rebeca assimilou o comentário, refletiu e percebeu que estava pegando pesado. Talvez se tentasse ser um pouco menos reativa às perguntas idiotas de Vera fosse algo mais justo. Ela então recuou na sua postura e se explicou:
- Vera, me desculpe. São muitos hormônios na minha cabeça. Não sei mais como agir e reagir. É como se fosse uma montanha-russa em altíssima velocidade sem fim. São oscilações intermináveis. EU ODEIO, EU ADORO, ESTOU TRISTE, ESTOU FELIZ, VAMOS DE NOVO! Não sei mais o que fazer – disse a Rebeca antes de se debulhar em lágrimas. – Eu não sei mais o que fazer. Eu não sei se vou aguentar.
- Calma, amiga – falou a Vera abraçando a Rebeca. – Isso vai passar. Depois do parto, acaba isso tudo.
- Você promete?
- Claro que prometo. Com o parto, acaba a gravidez, logo acabam as bombas de hormônios que seu corpo está soltando com frequência.
- Ai, tomara.
- Sim, pode ficar tranquila. E, mesmo continuando, você nem notaria.
- Por que eu estaria calejada?
- Não – Vera se afastou, enxugou umas lágrimas no rosto de Rebeca e prosseguiu. – Você teria uma criança chorando sem parar. Praticamente uma máquina de fazer cocô infinito que vai sugar seus peitos até não poder mais, deixando os bicos doloridos e murchos. Sem falar da sua barriga e bunda que nunca mais serão as mesmas. E tem as olheiras! Ah, as olheiras! Você não terá noites tranquilas, pois ela vai acordar aos berros duas, três, quatro vezes na madrugada para mais cocô, mais peito, dor de ouvido, cólicas ou apenas pelo prazer sádico de te acordar. E tudo isso sem a ajuda do Bê que estará sempre jogado no sofá vendo tevê ou desmaiado babando na cama. Então, acredite, amiga, continuando a festa dos hormônios, isso será pinto e nem te incomodará.
- Vera, você é uma idiota!


Próximo conto da coleção: Canelinha

domingo, 5 de julho de 2015

Amargura por extenso

Vista seu uniforme
Toda pessoa tem sua gangue, ou turminha se assim preferir. E não falo necessariamente de se encontrar em grupos para bolar planos para destruir a gangue inimiga. Você apenas faz parte de uma parte da população que possui afinidades em comum, como predileção por um tipo de música, por uma forma de pensar e por aí vai.
Após reparar em alguns padrões na sociedade e em lojas voltadas para grupos específicos de pessoas, o Sorriso do Insano vai produzir camisas para que indivíduos com a mesma afinidade possam se reconhecer facilmente. Tudo muito simples, apenas uma camisa básica com uma estampa na frente. São elas:
Grupo dos cults: Imagem de Frida;
Grupo dos desCOOLados: Bandeira desbotada do Reino Unido;
Grupo dos intelectuais: Imagem de Imagem de Nietzsche;
Grupo dos intelectuais rebeldes: Imagem de Paulo Coelho com um xis vermelho sobre;
Grupo dos intelectuais modernos: A frase “Não preciso de mais nada, eu tenho Facebook”;
Grupo dos modinhas: Uma imagem de uma mandala em preto e branco para colorir;
Grupo dos retardados: Ilustração de memes, sendo quanto mais imagens melhor (para você apenas);
Grupo dos viciados em séries: Foto do careca de Breaking Bad explicando para o rei anão de Game of Thrones como ele Met a Mother dos seus filhos;
Grupo dos baladeiros: Uma montagem de um pendrive conectado a um copo de plástico vermelho;
Grupo dos esquerdistas: Imagem de Che;
Grupo dos direitistas: Imagem de FHC;
Grupo dos elitistas: Foto de Chico Buarque tomando café em Paris;
Grupo dos pobres com ideologia: Foto de Chico Buarque tomando café em Ipanema;
Grupo dos fanáticos por futebol: Logo do Cartola FC;
Grupo dos que acham que não são alienados: Logos da Rede Globo e da revista Veja rasurados;
Grupo dos que têm muita certeza que não são alienados: A frase “Eu leio pragmatismopolitico.com.br”;
Grupo dos chatos: Foto do Tico Santa Cruz;
Grupo dos muitos chatos: Foto do Gregório Duvivier;
Grupo dos chatos demais: A frase “Eu sou ateu”;
Grupo dos chatos para caralho: Uma tirinha do Armandinho;
Grupo dos que acabaram de comprar uma Harley: Símbolo do Sons of Anarchy;
Grupo das mulheres que estão grávidas: A frase “Keep Calm Que Vou Ser Mamãe”;
Grupo das mulheres com filhos até um ano: Manchas de vômito, papinha, leite e coriza;
Grupo de mulheres com filhos com mais de um ano: A frase “Keep Calm My Ass”;
Grupo das pessoas que acham que são nerds: O símbolo de qualquer super-heroí;
Grupo das pessoas que acham que são nerds e moderninhas: O cogumelo do Mario;
Grupo dos nerds de verdade: A frase “Eu sou nerd” escrita em código binário;
Grupo das mulheres que ainda não realizaram que têm mais de trinta anos: A frase “Sou dessas”;
Grupo dos homens que não realizaram que a adolescência acabou: Foto de um boné aba reta escrito John John;
Grupo das mulheres sem amor próprio: Uma foto de uma mulher ficando com um homem de boné na balada;
Grupo dos sertanejos universitários: Um homem de chapéu de cowboy e botas altas no vagão da linha vermelha do metrô de São Paulo;
Grupo dos pagodeiros: Foto do Belo na era pré-sidio (entenderam o trocadilho?);
Grupo dos sambistas de raiz: Imagem de um senhor vestindo camisa de umbanda, com cordões guia do candomblé, touquinha de muçulmano e segurando um caixa de fósforos;
Grupo dos funkeiros de classe-média: Uma mesa cheia de latinhas de Red Bull e uma garrafa de vodka que pisca no camarote do Barra Music;
Grupo dos funkeiros da favela: Foto da Regina Casé em sua cobertura na Zona Sul;
Grupo dos indies: Membros do Imagine Dragons e a Florence dançando nus ao redor de uma sequoia;
Grupo dos roqueiros: Uma camisa preta, com uma frase escrita na cor preta dentro de um quadrado preto;
Grupo dos vegetarianos: Uma bela plantação de alface com bois felizes ao redor;
Grupo dos carnívoros: Uma bela plantação de alface com bois felizes cagando nela;
Grupo das pessoas mais legais do mundo: Propaganda do blog Sorriso do Insano;
Grupo dos que bebem cerveja: Logo da Antártica;
Grupo dos que se dizem fãs de cerveja: Logo de uma cerveja belga que é a Nova Schin de lá;
Grupo dos cervejeiros de verdade: Mapa da residência para se entregue depois de apagar bêbado;
Grupo dos flamenguistas: O símbolo da Globo dentro de um coração;
Grupo dos que não são flamenguistas: A frase “Por favor, não me roube”;
Grupo dos burros: O símbolo de qualquer partido político;
Grupo dos que acham que entendem de economia: Ilustração comparando o preço de um carro no Brasil e em qualquer outro país;
Grupo dos marombeiros: Uma foto comparando o antes e depois de tirar uma selfie na academia;
Grupo dos que acham que precisam catequizar o resto da população não cristã: Imagem de Jesus pendurado na cruz ensanguentado e sofrendo;
Grupo dos cristãos de verdade: Camisa branca sem estampa.
Faça já sua reserva e entre na moda...