segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Cretinice homeopática

- Tem de ir para a cadeia mesmo!
- A cadeia só forma bandido!
- Então levem para o abrigo!
- Lá traumatiza e deixa violento!
- Que coloquem na escola!
- Já viu o estado das nossas escolas?
- Particular então!
- Os professores não têm mestrado!
- Têm, sim!
- Mas é da Estácio!
- Aí fudeu tudo! Solta a molecada!

sábado, 5 de setembro de 2015

Histórias reais inventadas por mim

Professorinha
- Pois não?
Confesso que, quando ela abriu a porta, fiquei uma mistura de surpresa com decepcionada. Ela era uma pessoa bem mais velha do que esperava. Ao invés dos vinte e poucos anos, estava beirando os cinquenta. Com certeza era mais velha do que eu. Não suficiente, a forma como me recebeu foi meio que um balde de água fria. Espera-se que em situações como essas, a pessoa te receba bem vestida. Não de maneira elegante, mas sexy, transbordando sedução. Afinal de contas, era o ganha-pão dela. O que vi era o oposto. Uma calça jeans surrada que estava faltando o botão, uma camisa de malha velha manchada de água sanitária e um casaco de moletom por cima. Ela era ao menos bonita. Bem, quero dizer, para alguém da sua idade, ela estava muito bem e aparentava ter sido no auge uma mulher bonita.
- Eu sou a Cássia. Liguei para você ontem e marquei hoje às três da tarde.
- Ah! Sim, Cássia! Você está só?
- Estou sim! É só para mim mesmo.
Dolores ficou bem surpresa quando confirmei que estava só, deu para notar no seu rosto. Perguntei se tinha algo de ruim naquilo e ela disse que não. Explicou que era muito estranho, normalmente o público dela era mais novo, mas que não tinha problema.
- Mais novos, né? Entendo. Eles são inseguros e precisam sempre de uma ajuda.
- Ah! Sim! Algumas vezes é falta de apoio familiar também, mas uma boa profissional ajuda e dá segurança para que continuem por contra própria.
- E eu ser do sexo feminino é uma exceção?
- Não! Imagine! Confesso que a maioria são meninos, mas aparecem meninas também. Sabe como é, né? Elas amadurecem mais cedo, ganham responsabilidade mais cedo e ficam mais determinadas.
Ela ter usado termos como meninos e meninos fez com que me sentisse mais velha ainda. Longe de mim criticar isso. Vai ver estava tão calejada da vida que certas coisas não a afetavam mais. Se ela recebia uma cliente daquela forma, quem sou eu para esperar um vocabulário mais apropriado. Como estava ainda insegura e sem graça, continuei com assuntos paralelos ao meu objetivo.
- E você trabalha com isso tem muito tempo?
- Uns 18 anos pelo menos.
- Hum, começou tarde. Como veio parar nesse ramo?
- Na verdade foram dois motivos. Primeiro foi o divórcio. Meu marido me largou. Sumiu. Fiquei com uma casa para manter, sendo que não tinha emprego, diploma, nem experiência. Era uma clássica “do lar”. – Ela fez as aspas com a mão. – Junto disto veio a crise. Nenhuma empresa estava contratando, não existia mercado para inexperientes, ainda mais com trinta e poucos anos. Então resolvi investir nessa carreira. Não tenho vergonha. Ganho meu dinheiro de maneira honesta.
- Claro! Honestíssima. E você é uma vencedora, pois diante do caos que virou sua vida, foi corajosa e tomou decisões duríssimas para poder se manter de pé.
Ela concordou comigo e me agradeceu por entender tão rapidamente a sua história. Depois me ofereceu uma bebida. Disse que não costumava fazer isso. O que fazia sentido, pois o papel de levar um drinque ou algo para sofisticar o atendimento é do cliente. Dolores percebeu que eu estava muito nervosa e travada e, por isso, justificou propor que bebêssemos algo. Dentre vodka, cerveja e vinho, optei pelo vinho branco. Ela brindou, sorrimos e descemos uma taça em um gole único. Enchemos novamente a taça e voltamos para o papo para descontrair um pouco mais.
- E você sempre atende em casa? Ou vai a domicílio?
- Eu sou muito rigorosa com isso. Sei que sou um ponto fora da curva. Só que na casa dos outros tem muita distração, além de não me dar uma sensação de segurança. Aqui, toda pessoa que entra e sai é filmada na portaria e os funcionários ficam atentos ao entra e sai.
- É grande o movimento?
- Ah sim! Por semana atendo uns 60. Tem dia que sequer consigo brecha para almoçar.
Era uma surpresa atrás da outra. Só que agora uma surpresa boa que se contrapunha à decepção inicial. Se esta mulher que assim me recebeu atende quase 60 clientes por semana, ela deve ser muito boa mesmo. Fiquei segura, com a certeza de que estava em boas mãos. Perguntei então se o habitual era pagar no início ou no final. Ela disse que ficava por minha conta. Optei por entregar logo o dinheiro, que ela guardou no quarto e voltou perguntando como iria me ajudar.
- Meu casamento está ruindo e tenho certeza que o problema está na cama. E, não, o problema não está com meu marido. Sou eu mesma o problema. O ato sexual não me apetece muito.
É óbvio que alguém que usa termos como ato sexual não gosta de sacanagem. Se incluir apetecer na frase então, fica pior ainda. Mas era verdade, não sou do tipo de mulher que curte sexo. Fazia apenas quando meu marido me pedia e torcia para acabar logo. Talvez fosse uma consequência da criação cristã fervorosa que meus pais me deram. Enfim, não curtia e vocês entenderam.
- Adoro quando ele sai para jogar bola com os amigos, quando vai ao Maracanã ou fica no bar o domingo todo. Assim tenho sossego e não preciso ficar inventando afazeres dentro de casa para fugir dele e sua pinta de pé em minha direção.
Pinta! Sou uma catástrofe de mulher de 44 anos. Falo ato sexual, pinta e, se a Dolores não me interrompesse rapidamente, previa que teria de falar sobre gozar, termo que costumo substitui por explodir dentro de mim. Aliás, que por mais patético que seja, fico envergonhada só de pensar.
- Quando não consigo escapar é aquela coisa de sempre. Ele monta em mim, fico parada como um cadáver deixando ele fazer todo o trabalho até chegar ao final. O máximo que acontece é uma leve mudança de posição que, seja qual for, dura poucos segundos porque sempre invento uma desculpa como câimbras, dormência nas pernas ou a máquina de lavar que parou de bater a roupa.
Acho que era a primeira vez que abria minha intimidade para alguém. Nunca sequer cogitei falar algo do tipo para uma amiga, imagine para uma total estranha. Talvez a Dolores, com toda sua experiência, passasse uma confiança para mim que me fazia falar com a mesma naturalidade que falava sobre o tempo com estranhos no elevador. Ela, ali sentada com os olhos arregalados, talvez espantada pela minha história, transmitia algo que facilitava as palavras fluírem pela minha boca.
- Então, tudo que quero é poder ser uma mulher normal. Curtir fazer sexo com meu marido. Poder ficar por cima e ficar confortável, sem parecer um filme de terror. Quero me mexer. Quero um orgasmo. Quero ter coragem para fazer um oral nele. Quero muita coisa.
- Ok. Só um minuto. Cássia, certo? Isso é muito diferente para mim.
Claro que era muito diferente. Inclusive para ela! Aquilo era um caso único na humanidade. A história da mulher com anos de casada, que passou a vida toda com o mesmo homem, mas nunca teve um orgasmo. A esposa que subia no marido e ficava tão desconfortável que seus movimentos se pareciam com os de alguém que, após horas aguardando sentada na sala de espera, está procurando uma posição que não lhe cansasse. A pessoa que nunca colocou a boca em uma pinta. Pinta? Não, nada de pinta! Chega de ser a Cássia pudica de antes. Se eu quero mudar, preciso começar pelos meus próprios pensamentos. A partir de agora é pau, rola, piroca, cacete. Quero coragem para chupar aquela pica dura dele até gastar. Quero sentar no caralho dele e cavalgar como uma lhama serelepe ao descobrir um novo gramado para pastar. Gente, de onde está saindo isso?
- Dolores, eu sei que é diferente. Não precisa dizer. Não me julgue. Apenas me ensine.
- Sim, ensino. Ensino muitas coisas, mas... – eu interrompi a Dolores.
- Já sei! Já sei! Nunca precisou ensinar isso.
- Exato, minha especialidade é... – e vem mais uma nova interrupção minha.
- Você não costuma ensinar pessoas tão cruas como eu. Crua não! Eu sou a vaca que ainda está no pasto e sequer não virou bife. Mas faça esse esforço, por favor. Aqui está – entreguei outro maço de dinheiros para ela. – Pago dobrado. Me ensine a chupar um pau de tal maneira que meu marido passe o resto do dia seguinte no trabalho pensando em voltar para casa e receber o mesmo.
Dolores pegou o dinheiro com uma expressão confusa em seu rosto. Foi até o quarto, voltou e se dirigiu até a cozinha. De lá gritou que estava procurando algo, mas não tinha banana, cenoura, abobrinha, nem berinjela, que inclusive não sei por que ela enfatizou que é com jota. Daí voltou com a garrafa de vinho. Encheu nossas taças, me entregou a garrafa e depois falou para que fingisse que era o pau do meu marido. Precisei de dez segundos para ela me interromper.
- Vamos lá! Primeiro, você precisa usar as mãos por alguns motivos. Um, você vai acabar derrubando a garrafa da mesa e acabar com o meu último vinho. Dois, você precisa mostrar com as mãos que quer aquele pau como nunca. Que não vai soltá-lo enquanto ele implorar para te penetrar ou gozar em sua boca como um bebê antílope. Segundo, não dá para ficar apenas mexendo com os lábios levemente no que seria a cabeça. Você está parecendo um peixe de aquário tentando respirar. Você precisa colocar ele todo na boca.
Um pau inteiro na minha boca? Aquele pau inteiro na minha boca? Nunca tinha parado para imaginar nisso. Deve ser agonizante. Provavelmente ficarei sufocada. Aquela coisa dura pulsante enchendo toda a minha boca.
- Dolores, pare de falar isso! Estou começando a ficar molhada. Eu nunca fico molhada. Meu marido reclama que estou sempre seca. Mantenho por anos a desculpa de uma patologia que me impede de ficar lubrificada. Será que estamos quebrando barreiras aqui?
Impressionada, imagino eu, com minha desenvoltura e descoberta, Dolores me pega pela mão e me posiciona sentada no braço do sofá. Ela diz para fingir que é meu marido e manda eu me mexer. Ela segura na minha cintura e força os movimentos. Com o tempo vou me soltando.
- Vai, sua safada – ela fala para mim e depois dá um leve tapa no meu rosto. – Mexe, sua putinha!

Eu agora era uma putinha. Nunca fui uma danadinha, imaginem uma putinha. Que delícia ser chamada assim. Continuava a me mexer cada vez mais. Subia as mãos pelo corpo, levantava o cabelo da nuca, fazia caras e bocas. Dolores claramente estava orgulhosa da cena. Eu era uma putinha e ela uma puta professora. Uma puta professorinha do sexo. Ao final, agradeci pela ajuda. Era uma nova mulher que saía da casa de Dolores naquele momento. Pedi desculpas pelo estrago que fiz no braço do sofá e ela riu. Disse que vai torcer para ficar uma mancha que a lembrará para sempre daquele dia. Enfim, ficamos felizes. Eu voltei para casa mais segura, determinada a animar minha vida sexual e salvar meu casamento. Dolores ficou satisfeita com mais um atendimento, mesmo achando um pouco estranho, mas como ganhou dobrado, relevou. Para dizer a verdade, nem todas ficamos felizes. Soraia ficou arrasada. Quem é Soraia? É a funcionária do jornal do bairro que foi demitida porque ao invés de colocar o anúncio “Professorinha Dolores, a salvação da sua família” na seção de anúncios pedagógicos, colocou na seção de acompanhantes e profissionais do sexo.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Cai na real: Contos sobre a rotina para quem acabou de chegar

Conto anterior da coleção: Silêncio

Idiota, hormonal e clichê

É aquela cena que todos já conhecemos. Duas amigas que há muito não se viam passam pela a mesma calçada. Uma está alterada por hormônios e distraída olhando para o celular, a outra é apenas uma idiota:
- Vera? VERA!
- Oi? Rebeca! Quanto tempo!
O clichê continuou. Dois beijinhos, uma mão apoiada levemente no ombro da outra, sorrisos e uma ajeitada de franja para melhorar o visual. O papo seguiu:
- Garota, você está grávida!
- É, está parecendo!
- Parecendo nada! Você está gravidíssima. Que barriga enorme!
- Não é? Imagine que constrangedor seria se não estivesse.
- Impossível! Ela está enorme! Redondinha! Muito grande mesmo!
- Sim, muito grande mesmo! E o bom é que nós, grávidas, quase não temos problemas com a autoimagem.
- Ah, pare de ser boba, garota! Está linda! Deve estar para nascer em breve, né?
- Na realidade, estou com apenas três meses, mas obrigada ainda assim.
- Apenas três? E deste tamanho?
- Sim, apenas três. Agora não sei se devo rever meu calendário ou meu espelho.
- Não, deixe de bobagem, menina. Algumas grávidas ganham mais barriga para o desenvolvimento do feto. É apenas um?
- Sim, apenas um e acho melhor mudarmos de assunto antes que insinue que é um rinoceronte.
Rebeca ficou rindo de nervoso e cobrindo os olhos. Vera ficou parada com cara de quem está com fome, mas o cara na fila do bufê à sua frente demora muito além de ainda estar na parte das saladas.
- Por falar nisso, você já sabe o que é?
- Então – Vera fez uma pausa, respirou e prosseguiu. – No início eu achava que era uma samambaia, mas fiz uns exames e confirmou que era uma criança mesmo. O que não teria problema se fosse uma samambaia. Iria amá-la da mesma forma. Regar, passar pente fino para tirar piolhos, digo lagartas, essas coisas de sempre.
- Pare de ser boba. Você entendeu o que quis dizer. É maneira de perguntar sobre o sexo.
- O sexo foi mais ou menos. Eu e o Bê estávamos bêbados. Espero que isso não comprometa a criança, né?
- Você não muda mesmo. Continua a mesma – Rebeca permaneceu com a risada descontrolada, sem perceber que era a melhor oportunidade para fingir um desmaio. – Você já fez o exame para saber se é menino ou menina?
- Decidimos que não iremos fazer isso. Vamos descobrir na hora mesmo.
- E isso não é arriscado?
- A ciência avançou muito, então imagino que o índice de mortalidade no parto por desconhecer o sexo deve ter reduzido drasticamente.
- Ai, Vera – mais risinhos. – Você está impossível hoje!
- É, eu estou – ela fez uma pausa dramática. – Eu estou impossível mesmo.
- Falo do risco de nascer sem saber o sexo. Não acha perigoso?
- Não, normalmente, ao nascer, o médico, dentro de todo conhecimento por ele adquirido em anos de faculdade, sacramenta que é um menino ao ver um pinto. Se tiver uma xereca, dirá que é uma menina. Ainda assim, em caso de dúvidas, tenho um amigo veterinário que faz testes para a sexualidade de periquitos, então deste risco não correremos.
- Se falar grosso também, né?
- Rebeca, recém-nascido não fala.
Rebeca reagiu de forma séria ao comentário de Vera sem perceber que foi apenas sarcasmo. Ela gesticulou, gaguejou, para depois insistir no mesmo assunto e linha de raciocínio.
- Estou falando do quarto, da decoração, das coisas. Como ficaria se só depois de nascido você descobrir o sexo? Não vai ter que mudar muito?
- Bem, estava preocupada antes de descobrir que era uma criança. Por que antes, né? Não sabia se comprava um berço, um xaxim ou uma jaulinha. Agora que sei que se trata de um ser humano bebê, ficou muito mais fácil ajeitar o quarto. Berço, aquela cômoda que trocamos as fraldas em cima, brinquedos e chão macio.
- Mas e o problema das cores?
- Ah Rebeca, se ele for daltônico, terá o meu amor mesmo assim.
- Você tirou o dia para implicar comigo, não foi?
- É, acho que foi isso mesmo, Vera.
Rebeca assimilou o comentário, refletiu e percebeu que estava pegando pesado. Talvez se tentasse ser um pouco menos reativa às perguntas idiotas de Vera fosse algo mais justo. Ela então recuou na sua postura e se explicou:
- Vera, me desculpe. São muitos hormônios na minha cabeça. Não sei mais como agir e reagir. É como se fosse uma montanha-russa em altíssima velocidade sem fim. São oscilações intermináveis. EU ODEIO, EU ADORO, ESTOU TRISTE, ESTOU FELIZ, VAMOS DE NOVO! Não sei mais o que fazer – disse a Rebeca antes de se debulhar em lágrimas. – Eu não sei mais o que fazer. Eu não sei se vou aguentar.
- Calma, amiga – falou a Vera abraçando a Rebeca. – Isso vai passar. Depois do parto, acaba isso tudo.
- Você promete?
- Claro que prometo. Com o parto, acaba a gravidez, logo acabam as bombas de hormônios que seu corpo está soltando com frequência.
- Ai, tomara.
- Sim, pode ficar tranquila. E, mesmo continuando, você nem notaria.
- Por que eu estaria calejada?
- Não – Vera se afastou, enxugou umas lágrimas no rosto de Rebeca e prosseguiu. – Você teria uma criança chorando sem parar. Praticamente uma máquina de fazer cocô infinito que vai sugar seus peitos até não poder mais, deixando os bicos doloridos e murchos. Sem falar da sua barriga e bunda que nunca mais serão as mesmas. E tem as olheiras! Ah, as olheiras! Você não terá noites tranquilas, pois ela vai acordar aos berros duas, três, quatro vezes na madrugada para mais cocô, mais peito, dor de ouvido, cólicas ou apenas pelo prazer sádico de te acordar. E tudo isso sem a ajuda do Bê que estará sempre jogado no sofá vendo tevê ou desmaiado babando na cama. Então, acredite, amiga, continuando a festa dos hormônios, isso será pinto e nem te incomodará.
- Vera, você é uma idiota!


Próximo conto da coleção: Canelinha

domingo, 5 de julho de 2015

Amargura por extenso

Vista seu uniforme
Toda pessoa tem sua gangue, ou turminha se assim preferir. E não falo necessariamente de se encontrar em grupos para bolar planos para destruir a gangue inimiga. Você apenas faz parte de uma parte da população que possui afinidades em comum, como predileção por um tipo de música, por uma forma de pensar e por aí vai.
Após reparar em alguns padrões na sociedade e em lojas voltadas para grupos específicos de pessoas, o Sorriso do Insano vai produzir camisas para que indivíduos com a mesma afinidade possam se reconhecer facilmente. Tudo muito simples, apenas uma camisa básica com uma estampa na frente. São elas:
Grupo dos cults: Imagem de Frida;
Grupo dos desCOOLados: Bandeira desbotada do Reino Unido;
Grupo dos intelectuais: Imagem de Imagem de Nietzsche;
Grupo dos intelectuais rebeldes: Imagem de Paulo Coelho com um xis vermelho sobre;
Grupo dos intelectuais modernos: A frase “Não preciso de mais nada, eu tenho Facebook”;
Grupo dos modinhas: Uma imagem de uma mandala em preto e branco para colorir;
Grupo dos retardados: Ilustração de memes, sendo quanto mais imagens melhor (para você apenas);
Grupo dos viciados em séries: Foto do careca de Breaking Bad explicando para o rei anão de Game of Thrones como ele Met a Mother dos seus filhos;
Grupo dos baladeiros: Uma montagem de um pendrive conectado a um copo de plástico vermelho;
Grupo dos esquerdistas: Imagem de Che;
Grupo dos direitistas: Imagem de FHC;
Grupo dos elitistas: Foto de Chico Buarque tomando café em Paris;
Grupo dos pobres com ideologia: Foto de Chico Buarque tomando café em Ipanema;
Grupo dos fanáticos por futebol: Logo do Cartola FC;
Grupo dos que acham que não são alienados: Logos da Rede Globo e da revista Veja rasurados;
Grupo dos que têm muita certeza que não são alienados: A frase “Eu leio pragmatismopolitico.com.br”;
Grupo dos chatos: Foto do Tico Santa Cruz;
Grupo dos muitos chatos: Foto do Gregório Duvivier;
Grupo dos chatos demais: A frase “Eu sou ateu”;
Grupo dos chatos para caralho: Uma tirinha do Armandinho;
Grupo dos que acabaram de comprar uma Harley: Símbolo do Sons of Anarchy;
Grupo das mulheres que estão grávidas: A frase “Keep Calm Que Vou Ser Mamãe”;
Grupo das mulheres com filhos até um ano: Manchas de vômito, papinha, leite e coriza;
Grupo de mulheres com filhos com mais de um ano: A frase “Keep Calm My Ass”;
Grupo das pessoas que acham que são nerds: O símbolo de qualquer super-heroí;
Grupo das pessoas que acham que são nerds e moderninhas: O cogumelo do Mario;
Grupo dos nerds de verdade: A frase “Eu sou nerd” escrita em código binário;
Grupo das mulheres que ainda não realizaram que têm mais de trinta anos: A frase “Sou dessas”;
Grupo dos homens que não realizaram que a adolescência acabou: Foto de um boné aba reta escrito John John;
Grupo das mulheres sem amor próprio: Uma foto de uma mulher ficando com um homem de boné na balada;
Grupo dos sertanejos universitários: Um homem de chapéu de cowboy e botas altas no vagão da linha vermelha do metrô de São Paulo;
Grupo dos pagodeiros: Foto do Belo na era pré-sidio (entenderam o trocadilho?);
Grupo dos sambistas de raiz: Imagem de um senhor vestindo camisa de umbanda, com cordões guia do candomblé, touquinha de muçulmano e segurando um caixa de fósforos;
Grupo dos funkeiros de classe-média: Uma mesa cheia de latinhas de Red Bull e uma garrafa de vodka que pisca no camarote do Barra Music;
Grupo dos funkeiros da favela: Foto da Regina Casé em sua cobertura na Zona Sul;
Grupo dos indies: Membros do Imagine Dragons e a Florence dançando nus ao redor de uma sequoia;
Grupo dos roqueiros: Uma camisa preta, com uma frase escrita na cor preta dentro de um quadrado preto;
Grupo dos vegetarianos: Uma bela plantação de alface com bois felizes ao redor;
Grupo dos carnívoros: Uma bela plantação de alface com bois felizes cagando nela;
Grupo das pessoas mais legais do mundo: Propaganda do blog Sorriso do Insano;
Grupo dos que bebem cerveja: Logo da Antártica;
Grupo dos que se dizem fãs de cerveja: Logo de uma cerveja belga que é a Nova Schin de lá;
Grupo dos cervejeiros de verdade: Mapa da residência para se entregue depois de apagar bêbado;
Grupo dos flamenguistas: O símbolo da Globo dentro de um coração;
Grupo dos que não são flamenguistas: A frase “Por favor, não me roube”;
Grupo dos burros: O símbolo de qualquer partido político;
Grupo dos que acham que entendem de economia: Ilustração comparando o preço de um carro no Brasil e em qualquer outro país;
Grupo dos marombeiros: Uma foto comparando o antes e depois de tirar uma selfie na academia;
Grupo dos que acham que precisam catequizar o resto da população não cristã: Imagem de Jesus pendurado na cruz ensanguentado e sofrendo;
Grupo dos cristãos de verdade: Camisa branca sem estampa.
Faça já sua reserva e entre na moda...

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Cai na real: Contos sobre a rotina para quem acabou de chegar

Conto anterior da coleção: Almoço e mentiras

Silêncio
Não, eu não acho justo dizer que o Célio é uma má pessoa. Até entendo que muitas das situações desconfortáveis por ele criadas poderiam ter sido evitadas, mas ele não as fazia por mal. Era meio que um problema que ele tinha desde moleque. Não sei se posso dizer que era algo patológico, que envolve psiquiatria ou psicologia na história, poderia até talvez cogitar a criação. O fato é que nada daquilo era intencional. Ele apenas fazia e muitas das vezes sem sentir. Talvez vocês não o conheçam, então vou tentar explicar.
Desde criança o Célio teve o hábito de criar situações constrangedoras com suas perguntas que poderiam ser evitadas. Alguns chatos falavam que ele era apenas um cara sincero e as outras pessoas que tinham melindres para lidar com os questionamentos. Eu digo que isso não procede. Apenas garanto que o problema dele era um desconforto com o vazio nas conversas. E não é o vazio relacionado ao conteúdo, era vazio relacionado à ausência de falas mesmo. A primeira vez que notei isso éramos adolescentes e já estávamos no ensino médio no colégio Santa Angelina. Era o aniversário dele e a molecada fez uma vaquinha para comprar salgadinhos, refrigerante e um presente para ele. Organizamos a festa na sala de aula mesmo, tudo depois da aula de química do Geraldinho. Quando restavam apenas duas coxinhas na bandeja e um final de refrigerante, a diretora Reginão entrou na sala. Todos se calaram em respeito à autoridade presente. Não tínhamos motivos para temer aquele momento, pois foi tudo consentido, inclusive por ela. Eis que ela monta um sorriso, algo que nunca tínhamos visto, e saca um presente.
- Ah obrigado – falou o Célio enquanto o pegava.
Fez-se o silêncio então. Todos pensaram que ele precisava apenas abrir o embrulho, retirar o presente, olhar e agradecer novamente mesmo se ali contivesse a cabeça da sua própria mãe. Célio permaneceu parado com aquele embrulho intocado em mãos no meio de um círculo de pessoas. O desconforto era notório e isso tinha durado apenas cinco segundos. Eis que ele quebra o vazio no som e sapeca:
- Ah, mas é da C&A, né? - o desejo de morrer foi coletivo e só não se concretizou porque Reginão foi ágil falando que já poderíamos recolher tudo e ir embora, pois a turma da tarde estava para chegar.
Nem sempre acontecia das pessoas ficarem constrangidas. Muitas das vezes elas ficavam ofendidas mesmo. Foi o caso da Gabi que também estudava conosco. O Célio vivia a cercando, sempre jogando umas indiretas e denunciando um amplo interesse nela até que um dia deu em algo. Estávamos nós três na minha casa fazendo trabalho para escola. Fui à cozinha para pegar mais refresco de maracujá e ele aproveitou a oportunidade para lascar um beijo na Gabi. Foi um beijo razoável, se considerarmos que se iniciou em um momento sem preparo. Teve língua, não sobrou baba e rolaram alguns apertões sem que ela se sentisse ofendida. Quando me aproximei do quarto, eles ouviram meus passos e pararam de se beijar, mas ficaram com os rostos muito próximos se olhando. Basicamente aquele momento que as meninas acham fofo, de olhar no fundo dos olhos e “ler” a pessoa com quem está. Para o Célio isto era uma tortura e algo precisava ser dito:
- Por que você tem gosto de salame na boca?
Gabi se levantou, saiu correndo, trombou em mim, derrubou o refresco de maracujá, foi embora e nunca mais falou com o Célio. Ele não foi capaz de entender a relação entre a ação e a consequência daquele ato. Tanto que quando perguntado sobre o tal dia, ele dizia que no final das contas valeu a pena, pois derramaram o refresco de maracujá azedo que a minha mãe nunca soube adoçar e assim não precisou beber.
Foi assim a vida toda. Vinha o silêncio, saia um comentário desnecessário e avassalador. E se o evento do beijo foi patético, imagine a história com a Thais. Primeiro encontro, cinema, depois jantar. Os momentos iniciais no restaurante foram bem agradáveis. Como tinham acabado de sair do cinema, falaram bastante sobre as impressões que tiveram do filme. Com o tempo passando, o assunto foi se esgotando, breves silêncios foram surgindo, até que em uma hora os dois se calaram. Thais, para demonstrar total interesse em Célio e ansiedade para que ele puxasse uma nova conversa, parou e ficou sorrindo para ele. O Célio por sua vez, incomodado com aquilo, mandou outra bola fora:
- Seus dentes são bem amarelos e irregulares, né?
Muitas dessas histórias têm mais de 50 anos, sendo que algumas delas eu não revisitava por uns 20 anos. Lembrei-me de todas enquanto dirigia da minha casa até o hospital São Patrício. Tinha recebido uma ligação informando que Célio passara mal na rua, supostamente sofreu um AVC e foi levado às pressas para lá. Entrei no quarto e lá estava ele parado com olhos fechados e um tubo enfiado em sua garganta para ajudar na respiração. Tinha sido algo mais grave que suspeitaram e ele aparentemente entrou em coma. Fiquei de pé ao lado da cama olhando para meu amigo de muitos anos. Tive mais tempo de convivência com ele do que com meus próprios pais. Apesar de toda agonia presente em alguém em tal estado, estranhamente ele transmitia uma imagem de paz. Não sei o que se passou pela minha cabeça, mas disparei a relembrar em voz alta as tais histórias, como se estivesse conversando com ele. Falei da Reginão no seu aniversário, da Gabi, da Thais e outras mais. Foram quase trinta histórias, ou melhor, quase uma hora conversando sozinho com meu amigo. A última que contei foi sobre a festa de bodas de ouro do casal Arnaldo e Marlene, onde, depois de fazer seu discurso que terminou de maneira abrupta, confundindo os convidados que, por isto, não bateram palmas, Célio, ainda de microfone em mãos se virou para o Arnaldo e disparou:
- Mas é sério que nunca estranhou seus filhos não serem parecidos com você?
Assim que terminei de contar a história, parei por breves segundos para me despedir do Célio. Eis que ele se mexe e, com todo desconforto que uma pessoa pode ter com um tubo enfiado em sua garganta, disse:
- Você nunca sabe a hora de calar a boca, né?


Próximo conto da coleção: Idiota, hormonal e clichê

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A verdade sobre o fim da greve dos caminhoneiros

Interrompemos nossa programação para algo obscenamente pertinente e cretino ao mesmo tempo. Pois consideramos que vocês precisam saber a verdade sobre a rápida solução dada para terminar com a greve dos caminhoneiros e, por isto, ela será dita aqui em primeira mão.
Muito foi dito que a greve foi negociada com alto nível de prioridade, pois com os caminhoneiros parados, diversos segmentos que dependiam deles para o escoamento e distribuição dos seus bens comercializados estavam sendo prejudicados, existindo assim o risco de o país entrar em colapso. Isto é uma falácia! Todos sabem bem que o principal setor afetado com a paralização dos caminhoneiros foi o das prostitutas de beira de estrada. E é fato que, apesar de tudo que fazem por aí, nossos políticos sempre priorizaram os interesses de suas respectivas mãezinhas.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Cretinice homeopática

- E aí, cara? De tatuagem nova! Mandou!
- É, fiz na terça. Gostou?
- Tá maneira! Só que não manjo muito de inglês. O que significa?
- Está escrito “Stand-up para sempre!”.
- Stand-up? Aquela parada de ficar de pé na prancha sem onda, só remo?
- É, isso aí mesmo!
- Ih maneiro! Não sabia que andava disso.
- Mas não sei andar mesmo. As aulas começam semana que vem. Comprei a prancha só no domingo.
- Ué, e já é para sempre?
- Pô, cara, se você soubesse em quantas vezes tive de parcelar, iria entender a tatuagem.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Começa a colonização

Interrompemos a progr… buffering… amação para trazer a not… buffering… ícia que todo p... buffering... ovo da ilha de Cuba mais esperava. Com a abertura das portas após a parceria acordada com os EUA, hoje se inicia uma nova era no país com a chegada oficial do Netflix. Nosso repórter local Hermano Cabrón conseguiu em primeira mão os nomes dos títulos que estrearão já hoje por lá:

How I Meet Karl Marx
House of Cigars
Top Chefs: Caliente
Star Wars I: A ameaça capitalista
Star Wars II: Ataque da ONU
Star Wars III: A vingança dos traíras
Star Wars IV: Uma estranha democracia
Star Wars V: O comunismo contra-ataca
Star Wars VI: O retorno de Fidel
Férias Frustradas: De Havana até Miami em um pneu de caminhão
Pimp my banheira velha enferrujada
Batman: O companheiro das trevas
Game of Thrones: América Latina
House (a saga de um médico cubano trabalhando em uma UPA da Pavuna)
Walking Dead: não somos zumbis, somos o povo local mesmo
Better Call Morales
Prision Break: fugindo da ilha
Lie to me (todos os discursos da Dilma na última eleição)
O Poderoso Chefão: a vida de Fidel
O Silêncio dos Residentes
Gossip Girls (blogueiras locais difamando ilegalmente o governo pela internet)
Destaque especial para a regravação de Friends para o público local que levará o título A.M.I.C.H.E.S.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Histórias reais inventadas por mim

Fome e ereção
Devia ser a quarta ou quinta vez que a Márcia dizia ao Marcos que estava com fome. E pelo tempo que eles estavam juntos, ignorar esta informação não era algo muito esperto considerando que o mau humor dela sempre foi diretamente proporcional à sua fome. Não sei se vocês entenderam o que tentei falar. Não precisam ter vergonha, regra de três é algo que poucos aprenderam bem no ensino fundamental. O que quis dizer foi que conforme aumentava a fome, aumentava também o mau humor. Tudo bem, explicar para quem entendeu só expõe o meu lado patético. Assim como explicar para quem não entendeu só traumatiza o lado matemático da pessoa.
Enfim, Márcia se levantou e anunciou que iria pedir uma pizza, mesmo sabendo que o Marcos não aprovava este tipo de alimentação durante a semana. Ele era um chato metódico de quarenta e poucos anos com regras para tudo que possam imaginar. Dentre as regras, existia a que terça, aquele dia, era dia de sexo. Ele estava apenas esperando acabar o capítulo do seu seriado favorito sobre policiais que discutem a vida particular na viatura por cinquenta minutos e nos dez minutos finais resolvem um crime cabuloso. Por motivos óbvios, prestar atenção nos minutos finais era uma obrigação, mas pela condição de Márcia não seria uma tarefa fácil:
- Marcos, qual o sabor da sua metade – perguntou a Márcia, pois já era tradição entre eles que cada um pedisse uma metade do seu sabor e assim não brigavam. – Anda, homem! Tira esse olho da televisão! Ahn? Que acenar que nada! Responde ou vou pedir uma inteira de rúcula. Ah, quer me dar atenção agora, né? Fala logo que o rapaz aqui está esperando no telefone. Ahn? Aliche? Está doido, Marcos? Vai ficar com azia a noite toda e amanhã você acorda cedo para o RPG. Vou pedir Margerita para você.
Feito o pedido, Márcia foi à cozinha separar pratos, talheres, cortador de pizza, conferiu catchup e outras coisas na geladeira. Neste interim, ouviu que a série que Marcos assistia acabou e pensou no que estava por vir. Não foram necessários muitos minutos para que sua previsão se concretizasse. Assim que começou a música tema dos créditos, lá estava Marcos abraçando e se esfregando na Márcia por trás como fazia toda terça-feira. Um processo de acasalamento protocolar sem graça que só na cabeça dele parecia ser sexy e persuasivo.
- Pode parando, Marcos – falou a Marcia enquanto o expulsava dando uma bundada nele. – Já falei que estou com fome e irritada. Não vem com esse pau para cima de mim ou corto ele fora e faço um sanduíche. Ou melhor, um petisco, porque nem duro ele está.
O Marcos já estava naquela fase de ereções irregulares há um bom tempo. Não conseguia mais com a facilidade que tinha quando mais jovem, precisava de estímulos extras e talvez por isso passou a fixar datas, pois, quem sabe, forçando menos as tentativas seria mais fácil. Até que deu certo no início, mas era apenas tesão acumulado. Depois com o tempo ficou cada vez mais difícil e frustrante, para ambas as partes.
Expulso da cozinha, ele foi para a sala e ficou trocando os canais sem prestar atenção de fato o que passava. Na sua cabeça tudo que passava era que a terça seria desperdiçada. Márcia daria prioridade à pizza, os dois ficariam de barriga cheia e acabariam dormindo. Ele precisava de uma abordagem enfática imediatamente. Precisava ser naquele momento, nem um minuto a mais. O tempo para o entregador chegar era suficiente para toda a atividade, inclusive os minutinhos adicionais abraçadinhos ao final.
A ideia de ser algo com tempo estipulado causou algo em Marcos. Ele era uma pessoa bastante competitiva e a adrenalina de correr contra os minutos foi um afrodisíaco. Ele se imaginou agarrando a Márcia sobre a mesa da cozinha, a sacanagem já rolando solta e frenética quando toca o interfone. Atendemos ou não? Eles não parariam. Márcia entrelaçaria suas pernas em volta de sua cintura e os dois engatados iriam até a área de serviço para Marcos atender e autorizar a subida do entregador. Temos pouco tempo agora, diria a Márcia. É agora que você vai gozar, afirmaria Marcos enquanto aumentaria a intensidade do sexo, apertaria nos locais certos e faria Márcia arrepiar cada pelo do seu corpo. Quarenta segundos depois, após subir cinco andares de elevador, o entregador tocaria a campainha. Todavia, tudo que o prédio escutaria seria o gemido profundo de Márcia que ecoaria pelos corredores. Era isso!
- Márcia, vem fazer seu sanduíche que estou duro como um salame – disse Marcos da porta da cozinha.
Até a Márcia precisava concordar que era uma ereção impressionante. Talvez nem tanto pelo fato de o Marcos estar vestindo sua surrada calça de moletom amarela ovo, mas era um senhor pau duro. Ainda assim, o grito de fome que prevalecia dentro dela conteve qualquer tentativa de emanar um desejo sexual. Ela então apenas acenou simpaticamente para ele e voltou a dar atenção os talheres na pia.
- Como assim ok? Olhe para cá – disse um Marcos inconformado apontando para o mastro que se escondia em sua calça ilustrando o conceito de armar a barraca. – Querida, talvez esta seja a minha melhor ereção nos últimos anos, não podemos desperdiça-la.
- Esqueça, Marcos. O entregador vai chegar a qualquer momento.
- Exato, Márcia – naquele momento a empolgação de Marcos veio com força, literal e metaforicamente falando. – Vamos transar selvagemente neste meio tempo. Eu começo te jogando sobre a mesa da coz...
- Selvagemente, Marcos? Mesa da cozinha? São quase vinte anos de casados de “papai e mamãe” apenas, Marcos. O mais louco que já fez foi transar com os pés na cabeceira e a cabeça do outro lado da cama. Você reclama quando conseguimos desarrumar o lençol. Quer saber de uma coisa? Faz o seguinte – Márcia se interrompeu para desfazer seu rabo de cavalo. – Não quer perder a ereção? Está aqui! Coloca esse elástico de cabelo na base do seu pau e trava o sangue aí, mas não me encha o saco. Estou com fome!
Frustrado com a reação de sua esposa e um pouco abatido pelo choque de realidade, Marcos ficou preocupado com a possibilidade de perder aquela energia que emanava de sua pélvis e acabou acatando a sugestão. Lá estava ele com as duas mãos dentro da calça enquanto Márcia preferiu dar atenção ao cesto de roupas sujas. Colocado o torniquete peniano, o interfone toca, Márcia atende e diz para o marido que o entregador chegou.
- Manda ele subir, ora bolas.
- Já passou das dez, Marcos. Está sem porteiro lá em baixo. Você vai ter de ir buscar.
- ASSIM?
Era uma difícil decisão a ser tomada. Márcia disse logo de início que não desceria nem a pau, ou comeria tudo na portaria mesmo. Marcos precisava se decidir entre duas opções. Ou abdicaria daquela conquista e arruinava a sua tradicional terça, ou permanecia focado com o revés de passar vergonha na frente do entregador. Enquanto pensava, Márcia deu mais um chilique alegando fome e irritação, o que obrigou o Marcos a descer e optar por se decidir no elevador.
- Oh não! Logo comigo?
É bem possível que as mulheres tenham dificuldade para entender o real motivo do entregador se apavorar ao se deparar com o cliente de pau duro fazendo volume sob as calças. Não, o fato de um total estranho estar em completa ereção na sua frente nem é a principal razão. É algo muito mais clichê que possam imaginar.
Nós homens crescemos vendo filme pornô com uma frequência assustadora. Na sua maioria, esses filmes possuem sempre a mesma premissa: um homem chega à residência para entregar pizza, a gostosa abre a porta, não tem dinheiro e resolve pagar com favores sexuais. É claro que os roteiristas tentam variar substituindo o entregador de pizza por vendedores de enciclopédia, entregadores de jornal, carteiros, testemunha de Jeová, distribuidores de encartes do Guanabara, o cara da pamonha, instalador da NET dentre outros. Em alguns casos, quando querem algo mais arrojado e inovador, chegam a colocar o ator no papel do marido.
- O que foi, rapaz? Larga de drama e me dá logo essa pizza.
- Desculpe, senhor, mas sabe como é, né? Entregador de pizza, imaginação fértil, pensei estar em um filme pornô gay.
- Não, cacete! Você só chegou rápido demais.
- Óh céus! Nunca vi ninguém demonstrar tamanha felicidade com uma pizza que chegou rápido.
- Ahn? Não! Estava prestes a transar com a minha esposa quando você chegou.
- Ah tá! Ufa – faz-se uma pausa e o entregador volta a falar. – Preciso dizer que é uma considerável ereção.
- Obrigado. Por isto estou com pressa. Pode ficar com o troco.
O entregador foi embora e Marcos subiu de volta para casa. Assim que abriu a porta, ele foi atacado pela Márcia que lhe roubou a caixa de pizza de suas mãos e foi correndo para cozinha já mordendo a primeira fatia.
- Isso não é justo! Estou aqui com uma ereção de respeito e você dando preferência para esta pizza.
- Já te falei que estou com fome. Se quiser espere.
- Mas, Márcia, até o entregador elogiou meu pau duro. Não é possível que você não fique sensibilizada com isto.
- Ah Marcos, que viadagem, hein? Vai comer o entregador então!
- Isso não é justo! Tudo que eu queria era fazer um sexo selvagem, sujo e com um gostinho de errado com minha esposa.
- Era isso? Então faremos o seguinte – Marcia pegou duas fatias de uma só vez e foi rumo à sala. – Vou deitar ali no sofá e continuar comendo minha pizza paradinha sem esboçar reação. Daí você pode fazer o seu sexo selvagem comigo que vai foder com a sua coluna te obrigando a fazer uma dupla sessão de RPG amanhã. Vai poder fazer seu sexo sujo, porque vai cagar o sofá todo de gordura e molho de tomate. Vai poder fazer também seu sexo com gostinho de errado porque estarei na sua frente quebrando nossa dieta semanal.
Ao ouvir isso, Marcos teve uma ereção mais forte que qualquer uma em toda sua vida que chegou a arrebentar o elástico preso à base do seu pau. Ele pulou então na Márcia e transou loucamente com ela. Foi sem dúvida o melhor sexo de suas vidas. Márcia gozou freneticamente como um bebê arara fazendo seus gritos ecoar pelo quarteirão. Ao final, exausto, Marcos se levantou e, com um sorriso de vitória estampado no rosto, percebeu que ainda assim Márcia não aparentava estar totalmente satisfeita. Olhando o sofá coberto por algumas beiradas de pizza e diversos fluidos humanos, ele resolve perguntar como ela conseguia permanecer insatisfeita diante de um momento épico como aquele.
- Estou arrependida de não ter pedido a mousse também.