segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Cai na real: Contos sobre a rotina para quem acabou de chegar

Conto anterior da coleção: Silêncio

Idiota, hormonal e clichê

É aquela cena que todos já conhecemos. Duas amigas que há muito não se viam passam pela a mesma calçada. Uma está alterada por hormônios e distraída olhando para o celular, a outra é apenas uma idiota:
- Vera? VERA!
- Oi? Rebeca! Quanto tempo!
O clichê continuou. Dois beijinhos, uma mão apoiada levemente no ombro da outra, sorrisos e uma ajeitada de franja para melhorar o visual. O papo seguiu:
- Garota, você está grávida!
- É, está parecendo!
- Parecendo nada! Você está gravidíssima. Que barriga enorme!
- Não é? Imagine que constrangedor seria se não estivesse.
- Impossível! Ela está enorme! Redondinha! Muito grande mesmo!
- Sim, muito grande mesmo! E o bom é que nós, grávidas, quase não temos problemas com a autoimagem.
- Ah, pare de ser boba, garota! Está linda! Deve estar para nascer em breve, né?
- Na realidade, estou com apenas três meses, mas obrigada ainda assim.
- Apenas três? E deste tamanho?
- Sim, apenas três. Agora não sei se devo rever meu calendário ou meu espelho.
- Não, deixe de bobagem, menina. Algumas grávidas ganham mais barriga para o desenvolvimento do feto. É apenas um?
- Sim, apenas um e acho melhor mudarmos de assunto antes que insinue que é um rinoceronte.
Rebeca ficou rindo de nervoso e cobrindo os olhos. Vera ficou parada com cara de quem está com fome, mas o cara na fila do bufê à sua frente demora muito além de ainda estar na parte das saladas.
- Por falar nisso, você já sabe o que é?
- Então – Vera fez uma pausa, respirou e prosseguiu. – No início eu achava que era uma samambaia, mas fiz uns exames e confirmou que era uma criança mesmo. O que não teria problema se fosse uma samambaia. Iria amá-la da mesma forma. Regar, passar pente fino para tirar piolhos, digo lagartas, essas coisas de sempre.
- Pare de ser boba. Você entendeu o que quis dizer. É maneira de perguntar sobre o sexo.
- O sexo foi mais ou menos. Eu e o Bê estávamos bêbados. Espero que isso não comprometa a criança, né?
- Você não muda mesmo. Continua a mesma – Rebeca permaneceu com a risada descontrolada, sem perceber que era a melhor oportunidade para fingir um desmaio. – Você já fez o exame para saber se é menino ou menina?
- Decidimos que não iremos fazer isso. Vamos descobrir na hora mesmo.
- E isso não é arriscado?
- A ciência avançou muito, então imagino que o índice de mortalidade no parto por desconhecer o sexo deve ter reduzido drasticamente.
- Ai, Vera – mais risinhos. – Você está impossível hoje!
- É, eu estou – ela fez uma pausa dramática. – Eu estou impossível mesmo.
- Falo do risco de nascer sem saber o sexo. Não acha perigoso?
- Não, normalmente, ao nascer, o médico, dentro de todo conhecimento por ele adquirido em anos de faculdade, sacramenta que é um menino ao ver um pinto. Se tiver uma xereca, dirá que é uma menina. Ainda assim, em caso de dúvidas, tenho um amigo veterinário que faz testes para a sexualidade de periquitos, então deste risco não correremos.
- Se falar grosso também, né?
- Rebeca, recém-nascido não fala.
Rebeca reagiu de forma séria ao comentário de Vera sem perceber que foi apenas sarcasmo. Ela gesticulou, gaguejou, para depois insistir no mesmo assunto e linha de raciocínio.
- Estou falando do quarto, da decoração, das coisas. Como ficaria se só depois de nascido você descobrir o sexo? Não vai ter que mudar muito?
- Bem, estava preocupada antes de descobrir que era uma criança. Por que antes, né? Não sabia se comprava um berço, um xaxim ou uma jaulinha. Agora que sei que se trata de um ser humano bebê, ficou muito mais fácil ajeitar o quarto. Berço, aquela cômoda que trocamos as fraldas em cima, brinquedos e chão macio.
- Mas e o problema das cores?
- Ah Rebeca, se ele for daltônico, terá o meu amor mesmo assim.
- Você tirou o dia para implicar comigo, não foi?
- É, acho que foi isso mesmo, Vera.
Rebeca assimilou o comentário, refletiu e percebeu que estava pegando pesado. Talvez se tentasse ser um pouco menos reativa às perguntas idiotas de Vera fosse algo mais justo. Ela então recuou na sua postura e se explicou:
- Vera, me desculpe. São muitos hormônios na minha cabeça. Não sei mais como agir e reagir. É como se fosse uma montanha-russa em altíssima velocidade sem fim. São oscilações intermináveis. EU ODEIO, EU ADORO, ESTOU TRISTE, ESTOU FELIZ, VAMOS DE NOVO! Não sei mais o que fazer – disse a Rebeca antes de se debulhar em lágrimas. – Eu não sei mais o que fazer. Eu não sei se vou aguentar.
- Calma, amiga – falou a Vera abraçando a Rebeca. – Isso vai passar. Depois do parto, acaba isso tudo.
- Você promete?
- Claro que prometo. Com o parto, acaba a gravidez, logo acabam as bombas de hormônios que seu corpo está soltando com frequência.
- Ai, tomara.
- Sim, pode ficar tranquila. E, mesmo continuando, você nem notaria.
- Por que eu estaria calejada?
- Não – Vera se afastou, enxugou umas lágrimas no rosto de Rebeca e prosseguiu. – Você teria uma criança chorando sem parar. Praticamente uma máquina de fazer cocô infinito que vai sugar seus peitos até não poder mais, deixando os bicos doloridos e murchos. Sem falar da sua barriga e bunda que nunca mais serão as mesmas. E tem as olheiras! Ah, as olheiras! Você não terá noites tranquilas, pois ela vai acordar aos berros duas, três, quatro vezes na madrugada para mais cocô, mais peito, dor de ouvido, cólicas ou apenas pelo prazer sádico de te acordar. E tudo isso sem a ajuda do Bê que estará sempre jogado no sofá vendo tevê ou desmaiado babando na cama. Então, acredite, amiga, continuando a festa dos hormônios, isso será pinto e nem te incomodará.
- Vera, você é uma idiota!


Próximo conto da coleção: Canelinha

domingo, 5 de julho de 2015

Amargura por extenso

Vista seu uniforme
Toda pessoa tem sua gangue, ou turminha se assim preferir. E não falo necessariamente de se encontrar em grupos para bolar planos para destruir a gangue inimiga. Você apenas faz parte de uma parte da população que possui afinidades em comum, como predileção por um tipo de música, por uma forma de pensar e por aí vai.
Após reparar em alguns padrões na sociedade e em lojas voltadas para grupos específicos de pessoas, o Sorriso do Insano vai produzir camisas para que indivíduos com a mesma afinidade possam se reconhecer facilmente. Tudo muito simples, apenas uma camisa básica com uma estampa na frente. São elas:
Grupo dos cults: Imagem de Frida;
Grupo dos desCOOLados: Bandeira desbotada do Reino Unido;
Grupo dos intelectuais: Imagem de Imagem de Nietzsche;
Grupo dos intelectuais rebeldes: Imagem de Paulo Coelho com um xis vermelho sobre;
Grupo dos intelectuais modernos: A frase “Não preciso de mais nada, eu tenho Facebook”;
Grupo dos modinhas: Uma imagem de uma mandala em preto e branco para colorir;
Grupo dos retardados: Ilustração de memes, sendo quanto mais imagens melhor (para você apenas);
Grupo dos viciados em séries: Foto do careca de Breaking Bad explicando para o rei anão de Game of Thrones como ele Met a Mother dos seus filhos;
Grupo dos baladeiros: Uma montagem de um pendrive conectado a um copo de plástico vermelho;
Grupo dos esquerdistas: Imagem de Che;
Grupo dos direitistas: Imagem de FHC;
Grupo dos elitistas: Foto de Chico Buarque tomando café em Paris;
Grupo dos pobres com ideologia: Foto de Chico Buarque tomando café em Ipanema;
Grupo dos fanáticos por futebol: Logo do Cartola FC;
Grupo dos que acham que não são alienados: Logos da Rede Globo e da revista Veja rasurados;
Grupo dos que têm muita certeza que não são alienados: A frase “Eu leio pragmatismopolitico.com.br”;
Grupo dos chatos: Foto do Tico Santa Cruz;
Grupo dos muitos chatos: Foto do Gregório Duvivier;
Grupo dos chatos demais: A frase “Eu sou ateu”;
Grupo dos chatos para caralho: Uma tirinha do Armandinho;
Grupo dos que acabaram de comprar uma Harley: Símbolo do Sons of Anarchy;
Grupo das mulheres que estão grávidas: A frase “Keep Calm Que Vou Ser Mamãe”;
Grupo das mulheres com filhos até um ano: Manchas de vômito, papinha, leite e coriza;
Grupo de mulheres com filhos com mais de um ano: A frase “Keep Calm My Ass”;
Grupo das pessoas que acham que são nerds: O símbolo de qualquer super-heroí;
Grupo das pessoas que acham que são nerds e moderninhas: O cogumelo do Mario;
Grupo dos nerds de verdade: A frase “Eu sou nerd” escrita em código binário;
Grupo das mulheres que ainda não realizaram que têm mais de trinta anos: A frase “Sou dessas”;
Grupo dos homens que não realizaram que a adolescência acabou: Foto de um boné aba reta escrito John John;
Grupo das mulheres sem amor próprio: Uma foto de uma mulher ficando com um homem de boné na balada;
Grupo dos sertanejos universitários: Um homem de chapéu de cowboy e botas altas no vagão da linha vermelha do metrô de São Paulo;
Grupo dos pagodeiros: Foto do Belo na era pré-sidio (entenderam o trocadilho?);
Grupo dos sambistas de raiz: Imagem de um senhor vestindo camisa de umbanda, com cordões guia do candomblé, touquinha de muçulmano e segurando um caixa de fósforos;
Grupo dos funkeiros de classe-média: Uma mesa cheia de latinhas de Red Bull e uma garrafa de vodka que pisca no camarote do Barra Music;
Grupo dos funkeiros da favela: Foto da Regina Casé em sua cobertura na Zona Sul;
Grupo dos indies: Membros do Imagine Dragons e a Florence dançando nus ao redor de uma sequoia;
Grupo dos roqueiros: Uma camisa preta, com uma frase escrita na cor preta dentro de um quadrado preto;
Grupo dos vegetarianos: Uma bela plantação de alface com bois felizes ao redor;
Grupo dos carnívoros: Uma bela plantação de alface com bois felizes cagando nela;
Grupo das pessoas mais legais do mundo: Propaganda do blog Sorriso do Insano;
Grupo dos que bebem cerveja: Logo da Antártica;
Grupo dos que se dizem fãs de cerveja: Logo de uma cerveja belga que é a Nova Schin de lá;
Grupo dos cervejeiros de verdade: Mapa da residência para se entregue depois de apagar bêbado;
Grupo dos flamenguistas: O símbolo da Globo dentro de um coração;
Grupo dos que não são flamenguistas: A frase “Por favor, não me roube”;
Grupo dos burros: O símbolo de qualquer partido político;
Grupo dos que acham que entendem de economia: Ilustração comparando o preço de um carro no Brasil e em qualquer outro país;
Grupo dos marombeiros: Uma foto comparando o antes e depois de tirar uma selfie na academia;
Grupo dos que acham que precisam catequizar o resto da população não cristã: Imagem de Jesus pendurado na cruz ensanguentado e sofrendo;
Grupo dos cristãos de verdade: Camisa branca sem estampa.
Faça já sua reserva e entre na moda...

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Cai na real: Contos sobre a rotina para quem acabou de chegar

Conto anterior da coleção: Almoço e mentiras

Silêncio
Não, eu não acho justo dizer que o Célio é uma má pessoa. Até entendo que muitas das situações desconfortáveis por ele criadas poderiam ter sido evitadas, mas ele não as fazia por mal. Era meio que um problema que ele tinha desde moleque. Não sei se posso dizer que era algo patológico, que envolve psiquiatria ou psicologia na história, poderia até talvez cogitar a criação. O fato é que nada daquilo era intencional. Ele apenas fazia e muitas das vezes sem sentir. Talvez vocês não o conheçam, então vou tentar explicar.
Desde criança o Célio teve o hábito de criar situações constrangedoras com suas perguntas que poderiam ser evitadas. Alguns chatos falavam que ele era apenas um cara sincero e as outras pessoas que tinham melindres para lidar com os questionamentos. Eu digo que isso não procede. Apenas garanto que o problema dele era um desconforto com o vazio nas conversas. E não é o vazio relacionado ao conteúdo, era vazio relacionado à ausência de falas mesmo. A primeira vez que notei isso éramos adolescentes e já estávamos no ensino médio no colégio Santa Angelina. Era o aniversário dele e a molecada fez uma vaquinha para comprar salgadinhos, refrigerante e um presente para ele. Organizamos a festa na sala de aula mesmo, tudo depois da aula de química do Geraldinho. Quando restavam apenas duas coxinhas na bandeja e um final de refrigerante, a diretora Reginão entrou na sala. Todos se calaram em respeito à autoridade presente. Não tínhamos motivos para temer aquele momento, pois foi tudo consentido, inclusive por ela. Eis que ela monta um sorriso, algo que nunca tínhamos visto, e saca um presente.
- Ah obrigado – falou o Célio enquanto o pegava.
Fez-se o silêncio então. Todos pensaram que ele precisava apenas abrir o embrulho, retirar o presente, olhar e agradecer novamente mesmo se ali contivesse a cabeça da sua própria mãe. Célio permaneceu parado com aquele embrulho intocado em mãos no meio de um círculo de pessoas. O desconforto era notório e isso tinha durado apenas cinco segundos. Eis que ele quebra o vazio no som e sapeca:
- Ah, mas é da C&A, né? - o desejo de morrer foi coletivo e só não se concretizou porque Reginão foi ágil falando que já poderíamos recolher tudo e ir embora, pois a turma da tarde estava para chegar.
Nem sempre acontecia das pessoas ficarem constrangidas. Muitas das vezes elas ficavam ofendidas mesmo. Foi o caso da Gabi que também estudava conosco. O Célio vivia a cercando, sempre jogando umas indiretas e denunciando um amplo interesse nela até que um dia deu em algo. Estávamos nós três na minha casa fazendo trabalho para escola. Fui à cozinha para pegar mais refresco de maracujá e ele aproveitou a oportunidade para lascar um beijo na Gabi. Foi um beijo razoável, se considerarmos que se iniciou em um momento sem preparo. Teve língua, não sobrou baba e rolaram alguns apertões sem que ela se sentisse ofendida. Quando me aproximei do quarto, eles ouviram meus passos e pararam de se beijar, mas ficaram com os rostos muito próximos se olhando. Basicamente aquele momento que as meninas acham fofo, de olhar no fundo dos olhos e “ler” a pessoa com quem está. Para o Célio isto era uma tortura e algo precisava ser dito:
- Por que você tem gosto de salame na boca?
Gabi se levantou, saiu correndo, trombou em mim, derrubou o refresco de maracujá, foi embora e nunca mais falou com o Célio. Ele não foi capaz de entender a relação entre a ação e a consequência daquele ato. Tanto que quando perguntado sobre o tal dia, ele dizia que no final das contas valeu a pena, pois derramaram o refresco de maracujá azedo que a minha mãe nunca soube adoçar e assim não precisou beber.
Foi assim a vida toda. Vinha o silêncio, saia um comentário desnecessário e avassalador. E se o evento do beijo foi patético, imagine a história com a Thais. Primeiro encontro, cinema, depois jantar. Os momentos iniciais no restaurante foram bem agradáveis. Como tinham acabado de sair do cinema, falaram bastante sobre as impressões que tiveram do filme. Com o tempo passando, o assunto foi se esgotando, breves silêncios foram surgindo, até que em uma hora os dois se calaram. Thais, para demonstrar total interesse em Célio e ansiedade para que ele puxasse uma nova conversa, parou e ficou sorrindo para ele. O Célio por sua vez, incomodado com aquilo, mandou outra bola fora:
- Seus dentes são bem amarelos e irregulares, né?
Muitas dessas histórias têm mais de 50 anos, sendo que algumas delas eu não revisitava por uns 20 anos. Lembrei-me de todas enquanto dirigia da minha casa até o hospital São Patrício. Tinha recebido uma ligação informando que Célio passara mal na rua, supostamente sofreu um AVC e foi levado às pressas para lá. Entrei no quarto e lá estava ele parado com olhos fechados e um tubo enfiado em sua garganta para ajudar na respiração. Tinha sido algo mais grave que suspeitaram e ele aparentemente entrou em coma. Fiquei de pé ao lado da cama olhando para meu amigo de muitos anos. Tive mais tempo de convivência com ele do que com meus próprios pais. Apesar de toda agonia presente em alguém em tal estado, estranhamente ele transmitia uma imagem de paz. Não sei o que se passou pela minha cabeça, mas disparei a relembrar em voz alta as tais histórias, como se estivesse conversando com ele. Falei da Reginão no seu aniversário, da Gabi, da Thais e outras mais. Foram quase trinta histórias, ou melhor, quase uma hora conversando sozinho com meu amigo. A última que contei foi sobre a festa de bodas de ouro do casal Arnaldo e Marlene, onde, depois de fazer seu discurso que terminou de maneira abrupta, confundindo os convidados que, por isto, não bateram palmas, Célio, ainda de microfone em mãos se virou para o Arnaldo e disparou:
- Mas é sério que nunca estranhou seus filhos não serem parecidos com você?
Assim que terminei de contar a história, parei por breves segundos para me despedir do Célio. Eis que ele se mexe e, com todo desconforto que uma pessoa pode ter com um tubo enfiado em sua garganta, disse:
- Você nunca sabe a hora de calar a boca, né?


Próximo conto da coleção: Idiota, hormonal e clichê

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A verdade sobre o fim da greve dos caminhoneiros

Interrompemos nossa programação para algo obscenamente pertinente e cretino ao mesmo tempo. Pois consideramos que vocês precisam saber a verdade sobre a rápida solução dada para terminar com a greve dos caminhoneiros e, por isto, ela será dita aqui em primeira mão.
Muito foi dito que a greve foi negociada com alto nível de prioridade, pois com os caminhoneiros parados, diversos segmentos que dependiam deles para o escoamento e distribuição dos seus bens comercializados estavam sendo prejudicados, existindo assim o risco de o país entrar em colapso. Isto é uma falácia! Todos sabem bem que o principal setor afetado com a paralização dos caminhoneiros foi o das prostitutas de beira de estrada. E é fato que, apesar de tudo que fazem por aí, nossos políticos sempre priorizaram os interesses de suas respectivas mãezinhas.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Cretinice homeopática

- E aí, cara? De tatuagem nova! Mandou!
- É, fiz na terça. Gostou?
- Tá maneira! Só que não manjo muito de inglês. O que significa?
- Está escrito “Stand-up para sempre!”.
- Stand-up? Aquela parada de ficar de pé na prancha sem onda, só remo?
- É, isso aí mesmo!
- Ih maneiro! Não sabia que andava disso.
- Mas não sei andar mesmo. As aulas começam semana que vem. Comprei a prancha só no domingo.
- Ué, e já é para sempre?
- Pô, cara, se você soubesse em quantas vezes tive de parcelar, iria entender a tatuagem.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Começa a colonização

Interrompemos a progr… buffering… amação para trazer a not… buffering… ícia que todo p... buffering... ovo da ilha de Cuba mais esperava. Com a abertura das portas após a parceria acordada com os EUA, hoje se inicia uma nova era no país com a chegada oficial do Netflix. Nosso repórter local Hermano Cabrón conseguiu em primeira mão os nomes dos títulos que estrearão já hoje por lá:

How I Meet Karl Marx
House of Cigars
Top Chefs: Caliente
Star Wars I: A ameaça capitalista
Star Wars II: Ataque da ONU
Star Wars III: A vingança dos traíras
Star Wars IV: Uma estranha democracia
Star Wars V: O comunismo contra-ataca
Star Wars VI: O retorno de Fidel
Férias Frustradas: De Havana até Miami em um pneu de caminhão
Pimp my banheira velha enferrujada
Batman: O companheiro das trevas
Game of Thrones: América Latina
House (a saga de um médico cubano trabalhando em uma UPA da Pavuna)
Walking Dead: não somos zumbis, somos o povo local mesmo
Better Call Morales
Prision Break: fugindo da ilha
Lie to me (todos os discursos da Dilma na última eleição)
O Poderoso Chefão: a vida de Fidel
O Silêncio dos Residentes
Gossip Girls (blogueiras locais difamando ilegalmente o governo pela internet)
Destaque especial para a regravação de Friends para o público local que levará o título A.M.I.C.H.E.S.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Histórias reais inventadas por mim

Fome e ereção
Devia ser a quarta ou quinta vez que a Márcia dizia ao Marcos que estava com fome. E pelo tempo que eles estavam juntos, ignorar esta informação não era algo muito esperto considerando que o mau humor dela sempre foi diretamente proporcional à sua fome. Não sei se vocês entenderam o que tentei falar. Não precisam ter vergonha, regra de três é algo que poucos aprenderam bem no ensino fundamental. O que quis dizer foi que conforme aumentava a fome, aumentava também o mau humor. Tudo bem, explicar para quem entendeu só expõe o meu lado patético. Assim como explicar para quem não entendeu só traumatiza o lado matemático da pessoa.
Enfim, Márcia se levantou e anunciou que iria pedir uma pizza, mesmo sabendo que o Marcos não aprovava este tipo de alimentação durante a semana. Ele era um chato metódico de quarenta e poucos anos com regras para tudo que possam imaginar. Dentre as regras, existia a que terça, aquele dia, era dia de sexo. Ele estava apenas esperando acabar o capítulo do seu seriado favorito sobre policiais que discutem a vida particular na viatura por cinquenta minutos e nos dez minutos finais resolvem um crime cabuloso. Por motivos óbvios, prestar atenção nos minutos finais era uma obrigação, mas pela condição de Márcia não seria uma tarefa fácil:
- Marcos, qual o sabor da sua metade – perguntou a Márcia, pois já era tradição entre eles que cada um pedisse uma metade do seu sabor e assim não brigavam. – Anda, homem! Tira esse olho da televisão! Ahn? Que acenar que nada! Responde ou vou pedir uma inteira de rúcula. Ah, quer me dar atenção agora, né? Fala logo que o rapaz aqui está esperando no telefone. Ahn? Aliche? Está doido, Marcos? Vai ficar com azia a noite toda e amanhã você acorda cedo para o RPG. Vou pedir Margerita para você.
Feito o pedido, Márcia foi à cozinha separar pratos, talheres, cortador de pizza, conferiu catchup e outras coisas na geladeira. Neste interim, ouviu que a série que Marcos assistia acabou e pensou no que estava por vir. Não foram necessários muitos minutos para que sua previsão se concretizasse. Assim que começou a música tema dos créditos, lá estava Marcos abraçando e se esfregando na Márcia por trás como fazia toda terça-feira. Um processo de acasalamento protocolar sem graça que só na cabeça dele parecia ser sexy e persuasivo.
- Pode parando, Marcos – falou a Marcia enquanto o expulsava dando uma bundada nele. – Já falei que estou com fome e irritada. Não vem com esse pau para cima de mim ou corto ele fora e faço um sanduíche. Ou melhor, um petisco, porque nem duro ele está.
O Marcos já estava naquela fase de ereções irregulares há um bom tempo. Não conseguia mais com a facilidade que tinha quando mais jovem, precisava de estímulos extras e talvez por isso passou a fixar datas, pois, quem sabe, forçando menos as tentativas seria mais fácil. Até que deu certo no início, mas era apenas tesão acumulado. Depois com o tempo ficou cada vez mais difícil e frustrante, para ambas as partes.
Expulso da cozinha, ele foi para a sala e ficou trocando os canais sem prestar atenção de fato o que passava. Na sua cabeça tudo que passava era que a terça seria desperdiçada. Márcia daria prioridade à pizza, os dois ficariam de barriga cheia e acabariam dormindo. Ele precisava de uma abordagem enfática imediatamente. Precisava ser naquele momento, nem um minuto a mais. O tempo para o entregador chegar era suficiente para toda a atividade, inclusive os minutinhos adicionais abraçadinhos ao final.
A ideia de ser algo com tempo estipulado causou algo em Marcos. Ele era uma pessoa bastante competitiva e a adrenalina de correr contra os minutos foi um afrodisíaco. Ele se imaginou agarrando a Márcia sobre a mesa da cozinha, a sacanagem já rolando solta e frenética quando toca o interfone. Atendemos ou não? Eles não parariam. Márcia entrelaçaria suas pernas em volta de sua cintura e os dois engatados iriam até a área de serviço para Marcos atender e autorizar a subida do entregador. Temos pouco tempo agora, diria a Márcia. É agora que você vai gozar, afirmaria Marcos enquanto aumentaria a intensidade do sexo, apertaria nos locais certos e faria Márcia arrepiar cada pelo do seu corpo. Quarenta segundos depois, após subir cinco andares de elevador, o entregador tocaria a campainha. Todavia, tudo que o prédio escutaria seria o gemido profundo de Márcia que ecoaria pelos corredores. Era isso!
- Márcia, vem fazer seu sanduíche que estou duro como um salame – disse Marcos da porta da cozinha.
Até a Márcia precisava concordar que era uma ereção impressionante. Talvez nem tanto pelo fato de o Marcos estar vestindo sua surrada calça de moletom amarela ovo, mas era um senhor pau duro. Ainda assim, o grito de fome que prevalecia dentro dela conteve qualquer tentativa de emanar um desejo sexual. Ela então apenas acenou simpaticamente para ele e voltou a dar atenção os talheres na pia.
- Como assim ok? Olhe para cá – disse um Marcos inconformado apontando para o mastro que se escondia em sua calça ilustrando o conceito de armar a barraca. – Querida, talvez esta seja a minha melhor ereção nos últimos anos, não podemos desperdiça-la.
- Esqueça, Marcos. O entregador vai chegar a qualquer momento.
- Exato, Márcia – naquele momento a empolgação de Marcos veio com força, literal e metaforicamente falando. – Vamos transar selvagemente neste meio tempo. Eu começo te jogando sobre a mesa da coz...
- Selvagemente, Marcos? Mesa da cozinha? São quase vinte anos de casados de “papai e mamãe” apenas, Marcos. O mais louco que já fez foi transar com os pés na cabeceira e a cabeça do outro lado da cama. Você reclama quando conseguimos desarrumar o lençol. Quer saber de uma coisa? Faz o seguinte – Márcia se interrompeu para desfazer seu rabo de cavalo. – Não quer perder a ereção? Está aqui! Coloca esse elástico de cabelo na base do seu pau e trava o sangue aí, mas não me encha o saco. Estou com fome!
Frustrado com a reação de sua esposa e um pouco abatido pelo choque de realidade, Marcos ficou preocupado com a possibilidade de perder aquela energia que emanava de sua pélvis e acabou acatando a sugestão. Lá estava ele com as duas mãos dentro da calça enquanto Márcia preferiu dar atenção ao cesto de roupas sujas. Colocado o torniquete peniano, o interfone toca, Márcia atende e diz para o marido que o entregador chegou.
- Manda ele subir, ora bolas.
- Já passou das dez, Marcos. Está sem porteiro lá em baixo. Você vai ter de ir buscar.
- ASSIM?
Era uma difícil decisão a ser tomada. Márcia disse logo de início que não desceria nem a pau, ou comeria tudo na portaria mesmo. Marcos precisava se decidir entre duas opções. Ou abdicaria daquela conquista e arruinava a sua tradicional terça, ou permanecia focado com o revés de passar vergonha na frente do entregador. Enquanto pensava, Márcia deu mais um chilique alegando fome e irritação, o que obrigou o Marcos a descer e optar por se decidir no elevador.
- Oh não! Logo comigo?
É bem possível que as mulheres tenham dificuldade para entender o real motivo do entregador se apavorar ao se deparar com o cliente de pau duro fazendo volume sob as calças. Não, o fato de um total estranho estar em completa ereção na sua frente nem é a principal razão. É algo muito mais clichê que possam imaginar.
Nós homens crescemos vendo filme pornô com uma frequência assustadora. Na sua maioria, esses filmes possuem sempre a mesma premissa: um homem chega à residência para entregar pizza, a gostosa abre a porta, não tem dinheiro e resolve pagar com favores sexuais. É claro que os roteiristas tentam variar substituindo o entregador de pizza por vendedores de enciclopédia, entregadores de jornal, carteiros, testemunha de Jeová, distribuidores de encartes do Guanabara, o cara da pamonha, instalador da NET dentre outros. Em alguns casos, quando querem algo mais arrojado e inovador, chegam a colocar o ator no papel do marido.
- O que foi, rapaz? Larga de drama e me dá logo essa pizza.
- Desculpe, senhor, mas sabe como é, né? Entregador de pizza, imaginação fértil, pensei estar em um filme pornô gay.
- Não, cacete! Você só chegou rápido demais.
- Óh céus! Nunca vi ninguém demonstrar tamanha felicidade com uma pizza que chegou rápido.
- Ahn? Não! Estava prestes a transar com a minha esposa quando você chegou.
- Ah tá! Ufa – faz-se uma pausa e o entregador volta a falar. – Preciso dizer que é uma considerável ereção.
- Obrigado. Por isto estou com pressa. Pode ficar com o troco.
O entregador foi embora e Marcos subiu de volta para casa. Assim que abriu a porta, ele foi atacado pela Márcia que lhe roubou a caixa de pizza de suas mãos e foi correndo para cozinha já mordendo a primeira fatia.
- Isso não é justo! Estou aqui com uma ereção de respeito e você dando preferência para esta pizza.
- Já te falei que estou com fome. Se quiser espere.
- Mas, Márcia, até o entregador elogiou meu pau duro. Não é possível que você não fique sensibilizada com isto.
- Ah Marcos, que viadagem, hein? Vai comer o entregador então!
- Isso não é justo! Tudo que eu queria era fazer um sexo selvagem, sujo e com um gostinho de errado com minha esposa.
- Era isso? Então faremos o seguinte – Marcia pegou duas fatias de uma só vez e foi rumo à sala. – Vou deitar ali no sofá e continuar comendo minha pizza paradinha sem esboçar reação. Daí você pode fazer o seu sexo selvagem comigo que vai foder com a sua coluna te obrigando a fazer uma dupla sessão de RPG amanhã. Vai poder fazer seu sexo sujo, porque vai cagar o sofá todo de gordura e molho de tomate. Vai poder fazer também seu sexo com gostinho de errado porque estarei na sua frente quebrando nossa dieta semanal.
Ao ouvir isso, Marcos teve uma ereção mais forte que qualquer uma em toda sua vida que chegou a arrebentar o elástico preso à base do seu pau. Ele pulou então na Márcia e transou loucamente com ela. Foi sem dúvida o melhor sexo de suas vidas. Márcia gozou freneticamente como um bebê arara fazendo seus gritos ecoar pelo quarteirão. Ao final, exausto, Marcos se levantou e, com um sorriso de vitória estampado no rosto, percebeu que ainda assim Márcia não aparentava estar totalmente satisfeita. Olhando o sofá coberto por algumas beiradas de pizza e diversos fluidos humanos, ele resolve perguntar como ela conseguia permanecer insatisfeita diante de um momento épico como aquele.
- Estou arrependida de não ter pedido a mousse também.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O fracasso do ciclone do Dudu Paes

Colhemos alguns depoimentos que explicam o fiasco da tempestade do século prometida para cidade do Rio de Janeiro prometida pelo prefeito Eduardo Paes: 

“A rápida garoa de alguns minutos estava dentro do esperado segundo a margem de erro.” (Diretor do IBGE)
“Os dados do balanço apresentado talvez tenham sido superfaturados.” (Especialista da Petrobrás)
“O problema é que a água foi cortada por falta de pagamento.” (Roberto Dinamite)
“Isto é culpa da oposição coxinha que boicotou a tempestade para causar constrangimento no governo.” (Militante do PT no pátio da PUC)
“É óbvio que este governo bolivariano desviou a chuva para ajudar Cuba.” (Militante de direita do Facebook)
“Para a chuva virar tempestade seria necessário o consumo de anabolizantes e isto a comissão de Nevada não permite.” (Presidente do UFC)
“O temporal não aconteceu porque nós temos os direitos das patentes das nuvens no país.” (CEO da Apple)
“A chuva foi extraviada na central de distribuição de Curitiba.” (Diretor de Logística dos Correios)
"Foi por falta de verba." (Eike Batista)
“Ela não vai acontecer porque não foi licitada como todo processo público deveria ser.” (Procurador Geral)
“Infelizmente, antes do evento, recebemos uma ordem judicial dizendo que a chuva feria os direitos do Roberto Carlos.” (Advogado do Rei)
“O temporal foi suspenso porque não respeitaria o limite de litros diários por pessoa estabelecido nas novas regras do Big Brother Brasil.” (Pedro Bial)
“Sete gotas foi pouco.” (Luiz Felipe Scolari)