sexta-feira, 18 de julho de 2014

A casa dos Malavazi 1.2



- Que sala grande!
A observação de Julia foi a mesma que provocou a reação de Sandra e Marlene fazendo com que exclamassem a mesma coisa juntas. Era uma sala enorme, maior que muito apartamento. Com boa vontade, era possível fazer até quatro ambientes separados sem deixar os móveis apertados. Obviamente estava vazia de mobília. Seu piso exigia um novo tratamento de sinteco, assim como as paredes urgiam de reboco e tinta.
- Isso é uma espelunca – esbravejou Artur assim que entrou por último.
- CHEGA, ARTUR – grita Sandra. – CHEGA! Estou cansada dessa rebeldia desnecessária. Nada te faz feliz, nada te satisfaz. Tudo que sabe é reclamar, colocar defeito, destratar os outros. Cansei! Se não tem algo de bom para falar, fique calado.
O clima fica ruim na sala. Marlene que, apesar de ser uma pessoa de pouca instrução, é bastante safa para as coisas do dia-a-dia, vai para outro cômodo com Julia no colo para que ela não veja a bronca que a mãe dava no Artur. Ela abre a primeira porta e entra, trata-se da cozinha e fica pasma com o que vê.
- Não sou obrigado a aceitar tudo que me impõem – rebate Artur. – A vida não funciona assim.
- Funcionam, sim – Sandra se impõe com o dedo em riste. – A vida não é como seu maldito videogame em que você aperta os botões e acontece exatamente o que você quer que aconteça. A vida, mocinho, não é como Facebook, em que você pode escrever qualquer porcaria e sua patotinha vai curtir e comentar dando corda. Não, não é mesmo. Acredite! A vida é muito pior e injusta. Muito mais do que imagina. E se acha que se mudar para um bairro longe dos seus amiguinhos, ou longe do shopping onde você gastava a tarde inteira fazendo nada, é a pior coisa que pode lhe acontecer, você está muito enganado. Existem coisas muito piores, como ser mãe, esposa, patroa e sensata ao mesmo tempo.
A fala de Sandra é interrompida por uma pancada seca e alta: TUM! Vagner e Sandra se assustam e correm na direção da porta em que Marlene entrou com Julia. Vagner é o primeiro a entrar perguntando se está tudo bem. Marlene responde que sim.
- Mas é que ouvimos – Vagner não consegue completar a frase porque Marlene está muito empolgada com o que vê.
- Patroa, olha essa cozinha – diz ela apontando para todos os lados conforme vai comentando. – Olha o tamanho deste fogão. Deve ser industrial. E a geladeira. Olha essa bancada! E ainda posso pendurar as panelas sobre a bancada que nem aqueles programas de chef.
Sandra concorda, mas sequer consegue balbuciar algo de tão espantada. A cozinha é enorme, com tudo nela tão grande quanto deveria ser. Era possível fazer comida para alimentar um batalhão ali. Ainda assim, ela retoma o fôlego do esporro, do susto e da boa surpresa com a cozinha:
- Marlene, seu sonho de fazer comida para fora e ganhar dinheiro extra vai se realizar.
Além de concordar com a patroa, Marlene se empolga com o cenário, com a possibilidade, com tudo. Tamanha é a sua empolgação, que ela deixa Julia sobre a bancada central da cozinha e começar a planejar coisas em voz alta. Cardápio, pratos, a logística de como vai funcionar, horários. Faz tudo isso de frente para o fogão, como se fosse um general em frente ao grande mapa da guerra planejando o próximo movimento de suas tropas. Vagner e Sandra, logo atrás dela, se cutucam concordando com a felicidade dela. A cena é ingênua, mas ao mesmo tempo cheia de emoção e sincera. Marlene chega ao auge do seu raciocínio quando é interrompida por uma sequência de novas pancadas secas e altas: Tum! Tum! Tum! Tum! Tum!
- ARTUR – grita Sandra. – AGORA ESTÁ SENDO INFANTIL. PARE DE ANDAR PELA CASA BATENDO OS PÉS NO CHÃO!
- Mas estou aqui – responde ele.
Os adultos se viram para trás e lá está ele, sentado em um balcão ao lado da porta por onde entraram. Os três então se entreolham assustados, enquanto Julia finalmente se vira também e, ao ver Artur, o chama pelo nome. Ele repete o próprio nome para ela em voz alta, mas prolongando a última sílaba como a sonoplastia de filmes de fantasmas de baixo orçamento.
- Pare, Artur. Pela sua irmã, pare – diz Sandra logo depois se virando para Vagner. – Será que veio daquela porta?
Ela se refere a uma pequena porta no meio de uma das paredes. Ela, além de pequena, é baixa. Vagner se aproxima dela e Sandra pergunta se ele sabe o que tem ali. Ele diz não saber, pois a primeira e única vez que esteve na casa, foi tudo muito rápido.
- É ali que escondem os corpos – fala Artur.
- Já disse para parar, Artur. Coisa mais estúpida.
- Estúpida, mãe? Vocês escutaram um barulho estranho, não sabem do que se trata, ao invés de fugir, querem ir atrás e minha brincadeira para tentar quebrar a tensão é estúpida?
- Sabe, patroa – diz Marlene enquanto pega Julia no colo e circula o balcão central da cozinha para se posicionar no ponto mais oposto possível da porta. – Isso me dói muito, mas tenho que concordar com o garoto problema.
- É garoto enxaqueca, Marlene – Sandra a corrige. – E não tem nada de estúpido em checar do que se trata. Provavelmente foi apenas um gato preso atrás dessa porta.
- Um gato, patroa? Com esse barulho, é mais fácil ter sido um touro.
Vagner gesticula com a mão para que façam silêncio. Ele está com a mão na maçaneta e quando vai começar a abrir, Artur fala: “Outro gato!”. Todos olham sérios para ele que batendo os ombros diz:
- Ih, esqueci que nunca assistiram Chaves na vida.
Vagner enfim abre a porta. Nada! É uma despensa, daquelas que você consegue entrar e dar uns três ou quatro passos dentro, com prateleiras por todos os lados. Está completamente vazia. Nem uma lata sequer.
As atenções então se voltam para a terceira porta na cozinha localizada na parede oposta da porta por onde entraram. É uma porta comum de acesso provavelmente a outro cômodo e, como todas as outras da casa, totalmente maciça, sem a chance de prever o que está por trás dela. Vagner, mesmo não querendo fazer suspense, se dirige até ela vagarosamente. Sandra então toma sua frente, coloca a mão na maçaneta e abre.
- MARLENE, MULHER! VENHA VER ISSO!
É um pátio enorme nos fundos da casa. Além de possuir o mesmo comprimento do muro da rua, ele deve ter, no mínimo, o dobro de largura. Ele tem o chão todo em cimento e diversas mesas de concreto com bancos também de concreto ao redor. Estranhamente, se olharmos como um todo, as mesas formam um círculo com um grande espaço ao meio, bem no centro do pátio. Nenhum deles se atenta para esse detalhe. Eles se espalham pelo quintal olhando as mesas. Marlene fala em voz alta que é possível fazer ali um bom restaurante popular a céu aberto. Sandra senta em uma das mesas e pergunta o que fazer com tantas. Vagner sugere abrir um bingo clandestino. Artur cogita sediar a copa do mundo de sueca. Julia apenas corre entre mesas e bancos.
- Vai voltar à caça de assombrações, mãe? – Pergunta Artur assim que a mãe se levanta da mesa e se encaminha para a porta por onde vieram.
- Não, seu bobo. Vou ver o resto da casa. Quero saber se ela consegue me surpreender mais ainda.
Ela finaliza a frase, abre a porta para voltar a cozinha e entra. Depois disso se escuta um grito de Sandra. Vagner e Marlene correm na direção da porta. Artur corre na direção de Julia. Marlene é a primeira a chegar à porta e também grita.
- O que foi? – Pergunta Vagner enquanto se aproxima às pressas. – O QUE FOI?
(Continua em 1.3)

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A casa dos Malavazi 1.1



(Presente)
O carro parou exatamente em frente ao destino, quase como se a vaga estivesse reservada a eles. Foi apenas uma coincidência, pois era um domingo, dia de pouquíssimo movimento naquela pequena rua em Vila Isabel. Ela fica no que costumam referenciar como começo do bairro, pois está na altura do início da Avenida 28 de Setembro, maior avenida e referência do bairro. Para quem não o conhece, o bairro Vila Isabel possui duas ruas principais. A mais conhecida, a Avenida 28 de Setembro, começa na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, UERJ, e termina literalmente no chamado final do bairro, quase no Túnel Noel Rosa que leva para outros bairros da zona norte. A segunda rua é a Teodoro da Silva, a qual os moradores preferem pronunciar Tiodoro da Silva, mania que motivou o nome de um motel nela localizado: Te Adoro.
Assim que desligado o motor, Sandra, que estava no banco do carona, sai. Ela deu a volta no carro enquanto Vagner, que dirigia, saía também. Eles pararam lado a lado de costas para o carro. Nisso, Marlene saiu do banco de trás com Júlia no colo. Artur foi o último e, como de costume, estava com cara de emburrado. Todos fora do carro ficaram quase que perfilados de frente para o destino.
- Que muro alto – disse Julia.
De fato era um muro alto. Aliás, se me permitem opinar, era um muro exageradamente alto, sequer era possível ver o que estava por trás dele. Talvez os demais estivessem constrangidos de fazer esse comentário. Ou até mesmo coagidos por aquilo que era completamente diferente do que esperavam. Julia, por ser apenas uma criança de cinco anos, acabou falando a primeira coisa que lhe veio à cabeça, o que possivelmente foi o que os outros pensaram também.
- Pelo menos devia ser uma casa muito segura – ponderou Marlene tentando quebrar o silêncio.
- Casa? Casa que nada – disse Artur olhando ao redor como quem aponta as redondezas para os outros. – Era uma empresa. Não tem uma casa nessa ruazinha.
O diminutivo usado não era desprezo, apesar do temperamento sempre hostil de Artur. A rua era muito pequena, tinha no máximo 50 metros e ligava duas ruas transversais. À primeira vista, parecia uma rua agradável de casas. Daquele tipo de rua onde todos os vizinhos se conhecem, nos fins de semana as crianças brincam na rua e fazem decorações para festa junina. Apenas adentrando que é possível notar que as tais casas são todas na verdade empresas, pois seus letreiros são discretos. Tem um consultório veterinário, empresa de segurança privada, escritório de advocacia, firma de entregas expressas, uma gráfica e o tal muro alto como definido pela Julia.
O silêncio se restabelece. Marlene recrimina Artur com o olhar que, em troca, esboça uma careta de cansaço e tédio. Vagner, que estava tenso desde quando deu a partida no carro, sinaliza agradecimento para Marlene com uma expressão facial simpática. Sandra pega Julia do colo de Marlene como quem vai tomar iniciativa e começar a andar dando prosseguimento aos planos. Contudo, Julia faz mais um comentário deixando todos desconfortáveis novamente.
- Que muro branco.
Além de alto, era um muro inteiramente branco. Na realidade, era mais para marfim, mas isso porque estava escurecido e um pouco encardido. Ele não era pintado, era de azulejos retangulares colocados na vertical.
- Parece um banheiro – completou Julia para piorar ainda mais a situação.
- Banheiro nada – retrucou Artur. – Parece um lavabo de empresa furreca. Deve ter sido planejado por algum engenheiro dessas empresas mequetrefes daqui.
Desta vez foram todos que olharam recriminando Artur que, como todo adolescente rebelde, se sentiu vitorioso ao conseguir atenção da pior forma possível. Entretanto, a suposta vitória durou poucos segundos, pois logo após Marlene fez um comentário roubando sua atenção:
- Deve ser pela praticidade – ela disse apontando para o muro. – Com esse bando de pichadores por aí, um muro assim é fácil limpar e fica sempre bonito.
Todos se calaram como se engolissem o argumento de Marlene. Só que não tinha o que argumentar, o muro era muito alto, muito feio e realmente parecia um banheiro. Para piorar, ele tinha uma porta, como de acesso a pedestres, feita de metal pesado bem estilo de empresa mesmo, pintada toda de branco e um portão para carros do mesmo jeito. A primeira impressão era indiscutivelmente ruim. Sandra chega a olhar para Vagner como quem pergunta que tipo de furada é aquela que ele está arrumando. Ele, notadamente sem jeito, tenta desconversar:
- Vamos, gente – ele diz gesticulando e andando na direção da porta menor. – Vamos entrar. Tenho certeza que irão gostar do que vão ver.
Vagner se enrola com o molho de chaves que tem em mãos. São muitas e este é o argumento dele, mas não convence muito bem, ele está nervoso também. Depois de testar umas três das várias chaves, então a porta é aberta. Ele cede passagem a todos e entra por último. Fica até parecendo um anfitrião mesmo sendo a segunda vez que coloca os pés por lá.
Aparentemente, a primeira reação das pessoas não foi muito simpática. Aliás, para ser mais preciso, pode-se afirmar que a reação foi um coletivo sorriso amarelo. De início, o que se via era a casa, sua fachada tinha o mesmo comprimento do muro, isto é, não existiam corredores laterais externos para levar a um suposto quintal nos fundos, caso exista. Ela era toda em um azul bem claro com uma única porta de acesso e janelas indicando que possuía dois andares. Tanto a porta, quanto as janelas, todas eram brancas.
- Boa, coroa – diz Artur colocando a mão sobre um dos ombros de Vagner. – Realizou o sonho da mamãe de ter uma casa branca com as janelas azuis. Só que ao contrário.
Sandra coloca Julia no chão e abraça Vagner agradecendo a ele e dizendo que achou a casa bonita, mesmo sua expressão indicando o contrário. Julia corre pelo pátio cimentado que separa a casa do muro em toda a sua extensão. Marlene ensaia ir atrás de Julia, mas para com as mãos na cabeça:
- O que foi, Marlene?
- Nada, patroa – ela responde. – Apenas uma dorzinha de cabeça chata.
- Não é a sua pressão?
- Não, patroa. Estou tomando meus remédios como o Seu Vagner indicou. Foi só uma pontadinha enjoada que me deu agora.
Marlene enfim pega Julia no colo e Vagner coloca a chave na porta que dá acesso à casa. Sandra o abraça em expectativa para o que está por vir e recebe em troca dele um sorriso. Artur fica escorado na parede com os braços cruzados e com cara de desdém. A porta se abre:
- Oh meu deus!
(Continua em 1.2)

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Amargura por Extenso



O horror! O horror!
Romário esperou algumas horas para falar sobre, eu esperei alguns dias. Mentira! Não esperei coisa alguma, estava apenas tentando digerir esta massa que tanto fermentava na minha garganta. Algo que ruminei por dias, mas só me causava azia e refluxo.
Não deveria ter orgulho de falar isso, mas lido muito bem com ressaca química. Sei evitá-la com propriedade e, quando falha, no dia seguinte sei administrar, minimizando aquela horrorosa sensação que nos faz desejar a própria morte. Já a ressaca moral, esta sim é meu ponto fraco. Não sei como evitar, tampouco reduzir os traumas posteriores. Ela acaba comigo, me destruindo a ponto não somente de desejar a própria morte, mas de passar a acreditar em reencarnação só para morrer mais algumas vezes depois.
Não tinha a menor ideia de por onde começar, exceto pelo título do texto. Confesso que é muito clichê, contudo, o caso em questão implorava por essa referência à fala final do personagem Kurtz no clássico Coração das Trevas de Joseph Conrad: “O horror! O horror!”. Depois disso, estava totalmente perdido sobre como prosseguir no tema.
Obviamente, como em tudo na minha vida, lidei com bom humor. Fiz graça, debochei, coloquei pilha e até comemorei. Depois a sensação de anestesiado virou dormência, que em seguida passou apenas para dor. Era inacreditável tal fato. Fomos atropelados com um caminhão alemão e sequer anotamos a primeira letra da placa. Tinha tanta coisa ruim em um só evento que a única coisa boa era a certeza que algumas pessoas não estavam vivas para presenciá-la: Mario Filho, Nelson Rodrigues, João Saldanha, Armando Nogueira, meus avôs, dentre outros.
Imagino que alguém comentaria que se estivesse vivo, Barbosa ficaria, no mínimo, aliviado com a sova que levamos. Apesar de soar grosseiro, é inevitável não afirmar que, se você compara o estupro que a Alemanha nos deu nesta terça com o Maracanazzo, você não entende coisa alguma da história da Copa de 50.
A tragédia envolvida na final de 50 está ligada diretamente ao evento que beira o impossível, o acontecimento que ninguém esperava. Naquela Copa do Mundo, não teve final. Foi um quadrangular no qual todas as equipes se enfrentavam entre si e seria campeã a com mais pontos. Nosso primeiro adversário, a seleção da Suécia, foi destruída pelo sugestivo e coincidente placar de 7x1. Depois, enfrentamos a Espanha e a liquidamos por 6x1. Na última partida, bastava um simples empate com a seleção do Uruguai, time considerado mais fraco dos três. Durante a partida, foi um baile do Brasil. Mais de trinta chances de gol, além da que convertida. A seleção do Uruguai só teve duas e as converteu. A segunda, que sacramentou a nossa tragédia e crucificou Barbosa como grande culpado, foi um dos maiores eventos de sorte já visto. Ghighia erra o chute pegando mal na bola e surpreende Barbosa que fechava corretamente o ângulo visado no lance.
Para se ter uma ideia do quanto era inesperado aquele evento, Jules Rimet, ex-presidente da FIFA, em sua biografia fala sobre o ocorrido dizendo que, enquanto caminhava para o túnel e se preparava para fazer a entrega da taça, estranhou um silêncio geral no Maracanã tomado por mais de duzentos mil brasileiros. Ele não entendia o que podia ter acontecido para provocar o silêncio, pois derrota do Brasil era impensável. Não existem dúvidas que o Maracanazzo foi a maior tristeza de nossas vidas no que se refere ao futebol. Jogamos como deveríamos jogar, fizemos nosso papel e fomos destronados por um evento de sorte (para eles, claro).
O que aconteceu nesta terça sequer chega perto do Maracanazzo. É algo totalmente distante, que sequer provoca tristeza. Não foi uma euforia transformada em choro coletivo. Foi uma cogitada derrota transformada em humilhação histórica. A superioridade alemã em relação ao time do Brasil era notória, cabia apenas aos jogadores se esforçarem para, caso de derrota, honrar a camisa e minimizar o estrago ou, quem sabe, uma impensada e heroica vitória. Nada disso ocorreu. Aliás, no que se refere ao Brasil, literalmente nada ocorreu.
As pessoas (leia-se imprensa esportiva e entendida), na tentativa de achar uma explicação, insistem em procurar o Felipão, um dos principais culpados. E acreditem, na sua explicação, ele espalha culpa para todos os lados, inclusive dizendo que a torcida pode ter culpa também. Ora, a única culpa que a torcida possui é de não vaiar em peso depois do terceiro gol e gritar “vergonha, time sem vergonha”, para, quem sabe, os jogadores tentarem correr um pouquinho e sair da inércia.
Passado o trauma, com a cabeça mais fria, mas ainda desprovido de capacidade intelectual, Felipão desiste de distribuir culpa e fala em apagão geral por seis minutos. Sabemos bem que não foi um apagão de seis minutos que aconteceu. Todos viram que, de fato, o ocorrido foram sofridos sessenta minutos de benevolência da seleção alemã que, depois de trinta minutos e cinco gols feitos, desistiu de jogar para valer. No segundo tempo, inclusive, era notório o constrangimento deles em atacar e marcar mais dois gols.
Não sei quanto a vocês, mas, para mim, se a Alemanha continuasse naquele ritmo, alcançaria fácil o segundo dígito ainda no primeiro tempo. Fora a possibilidade do Müller quebrar o recorde do Klose e do Ronaldo na mesma partida.
O fato é que, desde o início da partida até o sétimo gol, a Alemanha manteve a mesma dedicação tática e o mesmo esforço em campo. Ironicamente o Brasil também, mas no nível zero. Um rombo no meio de campo, o rapaz famoso por ser avantajado fisicamente nos glúteos, mas inversamente provido de talento futebolístico insistia em ficar escondido em uma ponta do campo, um atacante que não corre, não se apresenta e sequer causa preocupação à zaga adversária, o suposto cérebro da equipe jogando atrás dos volantes e com uma preguiça notável, uma zaga composta por máquinas de emocionar sem capacidade de desarmar e laterais que não sabem cruzar ou marcar formavam a cena daquela partida. Aliás, cena comum em todas as partidas que a antecederam.
Sempre falei que temos um time fraco. Sim, falo time! Recuso-me a usar o termo seleção para esse bando de “inhos” e moleques preocupados com o penteado e/ou a roupa que usam. Ganham uma fortuna e acham que chorar durante o hino é a maior prova de patriotismo que podem dar. Fazem cara de mau quando entram em campo, dedicam amor incondicional um ao outro, usam o momento do hino para promover “a união” do grupo, inclusive com quem está fora por contusão, mas quando a bola rola, voltam a ser burocratas bem pagos. Estão longe de ser uma seleção, aliás, a última seleção brasileira que reconheço foi eliminada em 1986 com um improvável Zico perdendo pênalti. De lá para cá, temos bandos esforçados com um ou dois talentos perdidos ajudando. Por isso repito, é um time e nada além.
E como se não bastasse a procura por explicações, existe também a procura pelo herói, pelo pobre coitado, pelo que será absolvido da tragédia. Elegeram Davi Luiz, aquele que ao final da partida aos prantos disse que queria apenas trazer alegria ao povo dele. Pois bem, mas lembro-me que chorar depois dessa tragédia era o mínimo que se esperava. Todos choraram! De vergonha, de raiva, de rir (o caso dos argentinos, por exemplo). O Davi Luiz é um fofo por ter chorado tanto, mas o brutamontes espancado e algemado na delegacia é engraçado. Nosso povo, como diz o próprio Davi Luiz, é muito engraçado ao eleger heróis. Por mim, Davi Luiz não seria um herói, mas receberia o título de homem mais corajoso do mundo. Levar dois gols na sua marcação, sumir em outros três e depois aparecer para dar entrevista requer muito colhão. Ou total falta de discernimento, que seja.
Só nos resta agora torcer para não fecharmos a chamada Copa das Copas da maneira mais melancólica possível, tomando outra sova (agora da Holanda) e ainda ver a Argentina ser campeã mundial em pleno Maracanã. Ocorrendo isso, confesso que não aguento nem um dia, tenho uma morte por parada digestiva ou cometo um suicídio moral. Vejamos.

sábado, 5 de julho de 2014

Plantão da Copa



 “Interrompemos a folga na Copa do Mundo porque sabemos que estão perdidos sem ter o que fazer e nem irão se incomodar.”
Provavelmente repararam que antes do início de cada partida, logo após a execução dos hinos de cada time, os capitães se cumprimentam e trocam um singelo brinde: uma flâmula com o escudo da federação que defende. Isso é uma tradição antiga no futebol, mas que ainda assim podia ser quebrada para ficar mais interessante. Vamos imaginar que no lugar da flâmula, cada capitão deveria entregar alguma coisa simbólica sobre o seu respectivo país, como um presente quando vamos pela primeira vez à casa de alguém. Após algumas simulações feitas com computadores sofisticados que utilizam algoritmos cheios de preconceitos chegamos aos seguintes resultados:
Grupo A: México entregaria uma garrafa de tequila, Brasil retribuiria com uma garrafa de cachaça, Croácia levaria vaso de violetas comprados na floricultura da esquina e passaria despercebido porque ninguém conhece coisa alguma da cultura de lá. Camarões, que chegou atrasado sem a menor vontade de ir, apareceria de mãos abanando, mas, sem graça, elogiaria cada item da decoração da casa.
Grupo B: Austrália levaria um coala, Chile levaria uma lhama, Holanda levaria uma tradicional vaca holandesa e a Espanha devolveria sete prostitutas brasileiras que lá viviam ilegalmente.
Grupo C: Colômbia levaria belíssimas torcedoras, Costa do Marfim apresentaria a elas um voluptuoso negão afrorola causando um alvoroço. Constrangidos com a cena, o japoneses se limitariam a presentear com louças finas de cerâmica. Empolgados com a cena, os gregos comemorariam quebrando a louça no chão.
Grupo D: Uruguai entregaria um belo churrasco de costela de boi que seria retribuído pelos italianos com uma espetacular macarronada. Ao fundo, os ingleses esconderiam um sem-graça Yorkshire Pudding. Depois, os uruguaios entregariam uma bandeira deles que simboliza os vários belos e ensolarados dias do ano, os italianos entregariam um jarro cheio de rolhas de cortiça que simbolizaria os alegres dias regados a vinho, já os ingleses entregariam um encharcado sobretudo representando os 365 dias do ano com chuva. Por fim, a Costa Rica entregaria um cartão com a mensagem “Boa sorte na próxima Copa!”.
Grupo E: A Suíça traria deliciosos queijos suíços, a França saborosos vinhos Bordeux e o Equador uma ganhadora do Miss Universo. Já o capitão de Honduras comeria o queijo, beberia o vinho, perturbaria a paciência da Miss Universo e pediria asilo como médico cubano.
Grupo F: O Irã apareceria com uma bomba nuclear, a Bósnia-Herzegovina levaria um enferrujado míssil da antiga URSS, a Argentina entregaria uma bomba calórica conhecida como caixa com 24 unidades de Alfajor Havana. A Nigéria não apareceria, pois perdeu a hora depois de sete dias seguidos de caipirinha e Viagra na boate La Cicciolina.
Grupo G: A Alemanha prometeu não iniciar a Terceira Guerra Mundial, os Estados Unidos prometeu não participar de uma Terceira Guerra Mundial, os portugueses, querendo parecer superiores, prometeram não criar uma Quarta Guerra Mundial, mesmo não tendo ocorrido a terceira ainda, e Gana está até agora com a Nigéria no inferninho de Copacabana.
Grupo H: Bélgica levou um tonel de uma caprichada cerveja belga. Os russos beberam em um gole só, agradeceram pelo refresco de cevada e retribuíram com Vodka altamente inflamável, uma bebida típica para iniciar o dia de maneira cautelosa. A Coreia do Sul pediu ajuda à Rússia para interceder com os vizinhos de cima deles que são muito desordeiros. Por fim, a Argélia pagaria a todos um almoço no Hárabe de Botafogo com o dinheiro que ganhou vendendo suas lojas da Rua da Alfândega para a máfia chinesa.
Ainda assim, alguns confrontos que não aconteceram foram comemorados por alguns países, como é o caso do Uruguai, que não ganharia em troca do seu churrasco de costela um tenebroso churrasco da Grécia caso a enfrentasse. Ou o Irã, que suspeitava não gostar muito do que possivelmente receberia dos Estados Unidos. Já outros confrontos que não ocorreram foram lamentados. A Itália queria enfrentar o Brasil, não por vingança pela final de 1994, mas na esperança de ganhar uns travestis. A Inglaterra achava que enfrentando a Argentina poderia receber as Ilhas Malvinas de brinde, assim como a Rússia esperava algo parecido da Bósnia e Croácia. E, quase inocentemente, o Brasil lamentou não enfrentar a Bélgica, pois gostaria muito de retribuir a obscena caixa de chocolates Lindt e Godiva por uma sortida caixa de bombons Garoto.