segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Resumão do Rock In Rio 2013



Para quem acompanhou minha nada convencional cobertura do Rock In Rio 2013, eis finalmente o acumulado. Todas as resenhas juntas e eternizadas neste espaço patético.

Resumo do 1º Dia (13/09)
Pontos positivos:

- Living Colour!!! Os caras não envelhecem e só melhoram!!! Épico!!!
- Ney Matogrosso mostrando como ser diva;
- Os peitos da Maria Rita naquele decote;
- Selah Sue!!! Lindinha demais;
- Pernas da Ivete;
- Beyonce de short jeans e camiseta branca como quem vai andar de trem;
- Baterista da Selah Sue... Ai, Selah Sue... ai, ai, ai...
- Saída funcionou muito bem para mim;
- Pontualidade dos shows.
Pontos Negativos:
- Palco Sunset continua tendo os mesmo problemas da versão anterior. Microfone da Maria Rita com microfonia e do Corey Glover estava muito baixo;
- Porre de Heinikein é dose;
- Love of My Life pela Ivete é um despautério!!! E só piora com aquele choro armado;
- Os intermináveis minutos entre as 861 trocas de roupa da Beyonce;
- A minha ignorância em achar que o David Gueta tocou a mesma música do início ao fim do show;
- Apesar da praga rogada pelo Pedro Henrique, nenhuma bicha deu em cima de mim #chatiadu;
- Ter perdido o show do Belo no Citibank Hall.
Destaque da noite:
- Bebel Gilberto LOKA de DRUGS esquecendo que ia cantar outra música, chamando Jota Quest no lugar de Rogério Flausino, falando descontroladamente. Eu quero saber quem é o fornecedor dela??? É o mesmo da Torloni no ano passado.

Resumo do 2º Dia (14/09)
Pontos positivos:

- MARKY RAMONE, BITCHES!!!
- The Offspring sentando a porrada sem mimimi bububu;
- Começar o show do The Offspring em uma rodinha na frente da mesa de som e 15 minutos depois estar em uma mega roda colada na grade;
- Preferências de lado, a disposição e energia da Dona Florinda and The Machine e do Muse em fazer um show épico;
- Melhor Bolo de Chocolate do Mundo pelo mesmo preço do shopping;
- Derrubar três copos cheios de Heinikem no balcão da Casa do Pão de Queijo, fazendo com que os funcionários desliguem todos os caixas para evitar um curto por longos minutos, mas receber outros três copos cheios;
- Saída da Cidade do Rock muito tranquila mais uma vez.
- Não ter visto o show do Capital e, então com certeza, não ter ouvido o Dinho falando mais uma vez: "Caralho, cara, puta energia positiva... Vou tocar uma música da maior banda do Brasil que se chama Aborto Elétrico... 17 anos e fugiu de casa... Agora vou andar de costas e cair de cabeça ali embaixo..."
- Vários conhecidos por lá.
Pontos negativos:
- Atorzinho de Hollywood e suas estripulias com seus trapezistas mirabolantes fazendo show do Orlando Orfeu;
- Não ser evoluído o suficiente para entender (ou gostar) de tanta distorção nas guitarras do Muse;
- Um mamute de 800kg com camisa do Iron cair sobre meu dedão do pé na segunda música do The Offspring e ficar com o pé doendo até agora;
- Oh não! Não mesmo!!!
- Tico Chato Cruz não consegue nem cantar música do Raul sem desafinar;
- A última banda do Sunset;
- Mais um porre de Heinikem;
- Lei Seca everywhere;
- Pessoas maquiadas de David Bowie e Kiss na noite do Muse?!?!?!
Destaque da noite:
- Tio cheio de DORGAS querendo discursar no Sunset.

Resumo do 3º dia (15/09)
Pontos Positivos:

- Nando Reis, Samuel Rosa e J.Quest mostrando que é com sucessos que se anima uma plateia;
- They don't really care about us;
- Primeiro acorde do George Benson e eu já chorando como uma menina;
- Sorriso de SAFADYTA e DANADA da Alicia Keys;
- Aurea... Ahhhhhhuera;
- Maria Gadu pegou a Alicia e esfregou na cara de 100.000 pessoas, fora as que assistiam pela TV;
- Não ter visto o show da Jessie J;
- Homem completamente vestido de Homem-Aranha saindo do banheiro falando que só tem doido lá dentro;
- Shortinhos everywhere;
- Ser apresentado como "o cara que me reprovou em Cálculo";
- Cara do chopp da Casa do Pão de Queijo te reconhecer, entregar antes de pagar e ainda sacanear que estou devendo duas placas que queimei no dia anterior.
Pontos Negativos:
- Vestido feito com papel de maço de cigarro que a Alicia Keys usou para fechar o show #AgulhaDeOuro;
- Nando Reis provando que consegue piorar a afinação com o tempo;
- Justim Timberlake ser branco;
- Alicia Keys "ligando para o namorado" no meio do show quando sabemos que não pega celular perto do palco;
- Outro porre de Heinikem;
- Dores no pé;
- Pessoas que filmam o show pelo telão;
- Pessoas que ficam na porta da Cidade do Rock vendo o show pelo telão atrás da cabine da Globo;
- A impossibilidade do George Benson e Ivan Lins montarem um show maior e deixar rolar para quem não quisesse ver a Jessie J;
- Cabeças e mãos para serem pisados everywhere;
- Descobrir apenas hoje que a música que tanto aguardava para ser cantada pela Alicia é na verdade da Norah Jones.
Destaque do dia:
- Sem comentários: Kimbra!!! Baita surpresa...

Resumo do 4º dia (19/09)
Pontos Positivos:

- Metallica! Metallica! Metallica! Metallica!
- Vontade do Sebastian Bach em agradar e ser simpático;
- Show do Alice in Chains na teoria;
- Ficar no olho do furacão;
- Som do show do Sepultura;
- Saída mais uma vez sem estress.
Pontos Negativos:
- Perder o show do Dr.Sin (mas primeiro do dia não rola);
- Som do show do Sebastian Bach (padrão Sunset)
- Show do Alice in Chains na prática;
- Ghost BC (precisa algo mais?);
- Oh não! Não mesmo!
- Sebastian Bach incorporando o bobo da corte;
- Porre de Heinikem;
- Show inteiro do Metallica segurando xixi;
- Olodum de Paris cantando metal em francês: "ABAJOUR! CROISSANT! LA VIE EM ROSE!"
- Integrantes do Alice in Chains que são tão carismáticos quando o Eduardo Suplicy... em coma... em um quarto escuro... de um prédio distante!
- Aquela sensação que o Sepultura tocou a mesma música o show todo;
- Metallica não tocar Stone Cold Crazy.
Destaque da noite:
- Robie Zombie e seu circo escroto: Palhacinhos presepeiros com maquiagem estilo aborígenes do desenho Madagascar; Imagens loucas no telão; O próprio que, a cada dia que passa, parece mais uma mistura de Gentileza com mestre hindu recém saído do Rio Ganges; "MARS NEED WOMEN! ANGRY RED WOMEN!"

Resumo do 5º dia (20/09)
Pontos Positivos:

- Bon Jovaço o cara mais carismático do mundo desde Silvio Santos;
- Ben Harper e Musselwhite fizeram um show excelente, com direito a Led Zeppelin;
- Promoção: cesta com 12 pães de queijo e uma fatia do Melhor Bolo de Chocolate do Mundo por R$ 15,00;
- Metade da plateia me ouvir gritar no show do Nickelback: "FAZ UM FILHO EM MIM!"
- Terno roxo do Frejat;
- A mesma metade da plateia me ouvir gritar no show do Bon Jovi: "FAZ UMA NINHADA EM MIM!"
- The Rolling Stones 2 vezes!!!
Pontos Negativos:
- Som do Palco Sunset (eu sei repetitivo);
- O processo de clareamento dental do Bom Jovi, bem estilo Ross Geller;
- Frejat que a cada ano disputa ferrenhamente com o Hebert quem é o pior cantor;
- Muita baladinha no Nickelback e poucas porradas;
- Bon Jovi não tocar Born To Be My Baby;
- Porre de Heinikem;
- Bateria do celular acabar rapidamente e ficar incomunicável com outros mortais;
- Nickelback não ter atendido ao meu pedido;
- Tão pouco Bon Jovi;
- Achei ruim o som do show do Bon Jovi;
Destaque da noite:
- Ter encontrado Leonardo, um dos protagonistas da epopeia do RIR 2001. Não sabe do que se trata? Leia o meu último conto aqui.

Resumo do 6º dia (21/09)
Pontos Positivos:

- Bruce Springsteen: O maior espetáculo que o Rio de Janeiro já viu desde Sinatra, McCartney, Stones e Flamengo do Zico;
- John Mayer quando se mostrava um puta músico;
- Moleque Phillip Phillips que foi (para mim) a surpresa mais foda de todo o festival;
- Ruivas legítimas em manadas;
- 2 x a promoção Pão de Queijo + Melhor Bolo;
- Skank que mostrou como uma banda nacional deve montar um show (sucessos + sucessos + sucessos);
- O moleque cantando PARA o Bruce e depois chamando a banda: FODA!
- Não ter visto um show do Sunset;
- "BIBA! BIBA! BIBA A SOCIEDÁ ALTERNATIBA!"
- A saída que funcionou muito bem novamente.
Pontos Negativos:
- Mais da metade da público não conhecia direito o trabalho do Bruce esfriando em vários momentos;
- John quando tinha recaída e fazia números de músico de praça de alimentação;
- Porre de Heinikem;
- A escalação do Palco Sunset que claramente foi feita quando o dinheiro acabou;
- Oh não! Não mesmo!;
- Cabeleireiro do John;
- Não teve Because The Night;
- A sensação de frustração por não ter pedido autógrafo para as pessoas que andam como se fossem importantes só por possuírem uma credencial;
- Cusparada de cerveja na cara!
Destaque da noite:
- Trinca de ases: Phillip, John e Bruce vieram para fazer a melhor combinação da história do RIR. Três shows musicalmente preparados para mostrar a capacidade das bandas e provar que repetir a versão do disco é mole.

Resumo do 7º dia (22/09)
Pontos Positivos:
- Iron, que fazendo o básico de sempre, é foda!
- Todas as músicas que o Avenged Sevenfold tocou/cantou;
- Zépultura!!!
- Promoção Pão de Queijo + Torta;
- Obina!
- show do Slayer band, mesmo desfalcados de um guitarrista recém morto, um baterista preso, um baixista abduzido e um saxofonista que nunca existiu;
- Kiara Rocks com convidados e tocando cover do AC/DC, Ramones e Iron Maiden;
- Alguns chopes de graça.
Pontos Negativos:
- Foi uma merda para entrar. Fecharam a primeira revista por uns 20 minutos para varrer o chão!!! WTF!!!
- Perder o show do Helloween;
- Todo barulho produzido/gritado pelo Avenged Sevenfold;
- A cafonice de sempre do Iron;
- Porre de Heinikem;
- Muita menina estranha... Aliás, eram meninas mesmo?
Destaque da noite:
- O público que é tachado de assustador é ao mesmo tempo o mais apaixonado e o que raramente provoca brigas.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Um bloco uma caneta e o divã


Do êxtase à merda e vice-versa
 Tinha me fodido no primeiro final de semana do Rock in Rio 3. Achava que dava para ir para casa e voltar no dia seguinte, mas tudo que consegui foi me cansar mais ainda. A estrutura não era compatível com a grandiosidade do evento. Sair de lá era um martírio, chegar era uma batalha, tudo demorado e sofrido, muito engarrafamento, poucos ônibus e todos lotados. Ao final do show do Sting, no primeiro dia, não tinha ideia de como seria, então resolvemos ficar um pouco por lá bebendo para fazer hora e deixar o público dispersar. Não poderia ter sido pior. Tivemos de andar da Cidade do Rock até o Via Parque para conseguir um ônibus. Isso já era por volta de quase cinco da manhã. Estávamos bêbados e exaustos. Os passos eram lentos e penosos. Chegamos depois das seis, esperamos para pegar outro ônibus, fomos até o Terminal Alvorada, esperamos mais uma vez, pegamos um segundo ônibus, daí, depois da longa e vagarosa Estrada do Alto da Boa Vista, finalmente chegamos à Tijuca com o relógio quase batendo meio-dia.
Tivemos tempo apenas de tomar banho, mudar de roupa, comer algo e já voltar para a Cidade do Rock, pois REM e Foo Fighetrs nos aguardavam. Ou ao contrário. Ainda assim, só chegamos de noite. Não vimos os peitos murchos da Cassia Eller, nem a mala da Fernanda Abreu. Ignoramos o Barão para beber (eu sei, heresia minha), do almofadinha do Beck em diante vimos tudo. Alteramos, ao final do dia, a estratégia. Terminado o show, iríamos direto para casa. Não mudou muita coisa. Chegamos tão tarde quanto o dia anterior em casa, fizemos tudo correndo e, de qualquer forma, mais uma vez, não deu tempo. No domingo não chegamos a tempo de ver Pato Fu (que triste, não?), mas consegui jogar duas garrafas no Carlinhos Brown e, colado na grade, gritei algo quase ao seu pé do ouvido que ele, com certeza, escutou e nunca mais se esquecerá. Fora isso, vimos os demais shows. Ao final do dia, o consenso era único: foi uma maratona muito cansativa. Tomei a iniciativa e sacramentei que nos próximos dias não voltaria para casa. Daríamos um jeito, mas ficaríamos por lá. Levaríamos na mochila várias camisas para trocar e seria o suficiente. Os imbecis que me acompanhavam aprovaram a ideia de merda e assim seria no final de semana seguinte.
Era fato que isso daria errado, principalmente quando optamos em, além de usar essa estratégia, ir também na quinta-feira das boybands. A motivação era simples, estaria cheio de menininhas, faríamos a festa. Ledo engano. Não quando falo da quantidade de menininhas, isso foi um acerto. Parecia o encontro mundial de colegiais. O erro estava em achar que iríamos nos dar bem. Todas só davam atenção para o palco. Nenhuma estava no clima de pegação. Isso sem contar as que estavam acompanhadas da mamãe, madrinha, titia etc. A opção, como sempre, foi beber. Primeira noite de quatro seguidas e estávamos bêbados antes das 22 horas. Terminada a tortura de gritos, playbacks, infinitas trocas de roupas e coreografias, finalmente a Cidade do Rock estava vazia. E agora? Resolvemos nos juntar a alguns grupos que já faziam fila para o dia seguinte. Aparentemente se manter acordado bebendo com fãs de Iron, Sepultura e QOTSA não era uma boa ideia. Especialmente quando você já começa com várias doses de vantagem na largada. Obviamente antes do meio-dia estávamos desmaiados na calçada de cimento quente com sol sobre nossas cabeças. Acordamos com o tumulto da abertura dos portões. Nós deitados e vários trogloditas correndo ao nosso redor. Parecia que estávamos no meio do estouro de uma boiada. Não sabia se me encolhia, tentava desviar, me levantava, fingia de morto. Por fim, sobrevivemos, nos levantamos e entramos destruídos e ainda bêbados. Não estávamos prontos, mas era o que tinha de ser feito.
Com os shows da sexta foi mais fácil ver o dia passar. Muitas rodinhas, pula-pula, cantoria e bagunça. Em contrapartida, foi mais fácil ficar cansado, desidratado e com fome. Paramos na cerveja e resolvemos torrar uma grana em refrigerante e sanduíches. Isso por volta do final do show do Rob. Comemos como ogros, ficamos pesados e nos arrastávamos pela Cidade do Rock para o início do show do Iron. Ao término, o que mais temia aconteceu, precisava desesperadamente ir ao banheiro.
- Porra – disse o Leo. – Vai então, viado!
- Não tem como – respondi. – Não dá!
- Ah que fresco! Está com nojinho? Caga de pé sem encostar na privada.
- Não é esse o problema – expliquei. – Não tem condições para fazer.
- Relaxa – disse David. – Vou lá no Bob’s, pego uma porrada de guardanapo e você usa como papel higiênico.
- Caralho, seus merda – estava ficando enfezado literalmente. – Isso não resolve! Só sei cagar se tiver bidê, chuveirinho ou como tomar banho depois.
Se me recordo bem, eles ficaram rindo pelo chão por uns quinze minutos. Foi tempo de muitas pessoas terem ido embora e a Cidade do Rock ficar consideravelmente vazia. Nesse tempo a pressão estava maior e não teria como aguentar até chegar em casa, tão pouco ficar mais dois dias naquele estado. Resolvi bolar uma solução.
- Fiquem aí então – falei. – Vou ali comprar umas garrafas de água e dou meu jeito.
Eles riram mais ainda. Fui até o quiosque mais próximo e vi que estavam com uma queima de cervejas para fazer a troca do dia seguinte. O preço estava muito mais barato que a água. Não pensei muito e comprei cinco copos de cerveja. Passei por eles e, assim como vocês que não estão acreditando no que leem, eles não acreditavam no que viam. Mas o fato é que caguei e limpei a bunda com cerveja. Por conta disto, acredito que seja uma das poucas pessoas no mundo que bebeu Schincariol como deveria ser feito. Aquela merda tem de ser consumida pelo rabo. Sendo hoje, adoraria passar em uma blitz da Lei Seca só para testar o que aconteceria se peidasse no bafômetro. Acredito que os fiscais ficariam surpresos. Terminada a tarefa, notei que fiquei muito mais bêbado do que antes. Não sei se tinha alguma relação com a mucosa do reto absorvendo bebida alcoólica ou com a grande carga calórica que desperdicei, mas a realidade era que tinha ficado bêbado pelo cu. Saí do banheiro cambaleando e, com a ajuda deles, conseguimos sair da Cidade do Rock. Foi o tempo certo para deitar novamente naquela calçada dura e apagar. Lembro de alguns risos finais deles, ainda assim dormi como um bebê recém trocado pela mãe que passou lenço umedecido de cevada.
Acordei depois das dez da manhã. Falaram que me cocei a noite toda. Imagino que seja verdade, pois a combinação cerveja com bunda, calor e calça jeans não é muito convencional. Eles já estavam despertos e comendo uns biscoitos que, segundo me contaram, compraram de umas meninas que estavam na fila para o show de sábado. Peguei alguns, mal comi todos, já estava me coçando. Era desesperadora a coceira. Dava vontade de arrancar o cu fora. Levantei-me e saí do meio do grupo:
- Vai cagar novamente?
- Não – respondi. – Vou comer sua mãe.
- Não se esqueça de depois limpar o pau com guaraná.
Mandei se foder e fui atrás de um vendedor para comprar água. A ressaca era grande e ainda tinha a urgência de lavar uma bunda que foi lavada com cerveja. Acho que deu para entender. Depois de vinte minutos atrás de uma van de transmissão e três garrafas d’água, lá estava eu, novo e com a bundinha mais limpinha da Cidade do Rock. Reuni-me com eles e esperamos o abrir dos portões.
Não vou mentir ou querer bancar o durão. Por diversas vezes cogitamos ir embora e desistir do show daquele dia para descansar. Por sorte, ou infeliz coincidência, raramente cogitávamos isto ao mesmo tempo, então, quando um queria desistir, os demais convencia do contrário. Foi duro, mas entramos para o terceiro dia seguido e sexto de evento.
A programação do sábado era boa, mas ao mesmo tempo chata para quem estava no limite. David Matthews e Sherryl Crow criaram vários momentos soninho, Kid Abelha e Engenheiros do Hawaii criaram vários momentos para o suicídio. A solução era dar uma volta e tentar conhecer alguma gata.
Bruninha devia ser dois ou três anos mais velha do que eu na época. Provavelmente beirava os 25 anos. Tinha uma altura mediana, cabelos escuros lisos, pele bronzeada, olhos enormes de brilhantes e um sorriso que se assemelhava ao do gato do conto da Alice no País das Maravilhas. Dificilmente conseguiria se passar por normal, inclusive se esforçasse. Ela que puxou assunto comigo. Algo relacionado a estar dormindo de pé. De fato estava complicado permanecer acordado. Saímos da multidão e nos sentamos no chão, um com as costas apoiada na do outro. Parecia estranho conversar com alguém de costas para você, mas era confortável e, o fato de não olhar diretamente para ela, me dava mais coragem para falar besteira. Bruninha era muito interessante, tinha características que me fascinavam na época, dentre elas, ser mulher (obviamente), mais velha e falante (perdoem o pleonasmo), mas me dar atenção era a mais predominante da lista. Por mim, ignoraria totalmente os shows seguintes e ficaria de conversa com ela. Não queria mais sair de lá. A conversa fluía, ela entendia meu sarcasmo e eu acompanhava os deboches dela. Parecia que nos conhecíamos há anos. Queria muito beijá-la, mas por estar de costas não era possível e, além disto, estava suado e sem tomar um banho decente fazia dois dias. Continuamos conversando então.
- Acorda aí – disse Sergio me cutucando com os pés. – Acorda, cara!
- O que foi – perguntei, ainda sonado e deitado no chão. – Que foi?
- Está dormindo no chão! Cadê a moreninha?
Ela tinha ido embora. Peguei no sono no meio da conversa e ela foi embora. Fiquei ali na grama dormindo sonhando com o resto da nossa conversa.
- Peguei no sono.
- Estou vendo. Pegou ela pelo menos?
- Não. Peguei no sono.
- Você dormiu enquanto dava ideia na garota, seu merda?
- Estou cansado, porra!
- Ei, Leo – gritou o Sergio para o Leonardo que se aproximava. – Não é ele que tem aquela história de ter dormido no meio das preliminares com a namorada?
- Ele mesmo – concordou o Leonardo. – Por quê? Dormiu enquanto pegava a morena?
- Pior – respondeu o Sergio já rindo. – Dormiu antes de pegar. Enquanto dava ideia nela.
Eu sei, tinha me superado dessa vez. A história da namorada era verdadeira e agora essa. Para minha defesa, em ambos os casos estava bêbado e vindo de uma rotina cansativa. Ainda assim, dormi no meio da ação uma vez e, noutra, dormi enquanto batia o papo mais animado e entrosado da minha vida. Um merda sempre faz merda. Levantei-me e os acompanhei para o resto do dia.
Terminado o show do Neil Young, lá fomos para a calçada nos acomodar com outros dementes como nós. Eu sabia que dava para dormir mais uma noite na calçada, mas não suportaria mais uma manhã dormindo com sol forte e calçada quente. Foi quando avistei uma Blazer.
- Ei cara – falei com um homem encostado no carro. – É sua?
- Sim.
- Vai sair agora?
- Não, vou ficar para os shows de domingo.
- Cara, que ótimo. Preciso muito dormir.
- Ah, mas nem a porrada que vai dormir dentro do meu carro.
- Não. Não me entenda mal. Vou dormir debaixo do seu carro. Só preciso de sombra e a certeza de que não vai sair me arrastando por aí.
- Relaxa. Deita lá.
Comecei a me ajeitar para me enfiar sob o carro quando os meninos apareceram me chamando de doido por fazer aquilo. Expliquei meus motivos e eles argumentaram que debaixo do carro era praticamente terra, sequer tinha grama.
- Porra, pouco me importa. Estou com essa merda de calça há três dias. Trocamos de blusa após tomar um banho de gato com garrafa de água mineral. Acham mesmo que no último dia vou me importar em dormir na terra?
Deitei-me e dormi como um bebê guaxinim. As formigas que fizeram do meu corpo, principalmente o rosto, a sua Cidade do Rock não me deixaram desconfortável. O suor do calor que transformava a terra em um barro levemente fresco nem me abalou. Nada me incomodava. Era como dormir em casa. Fui de quase seis da manhã até duas da tarde. Acordei novo. Costas e pernas não doíam mais. Era possível finalmente, depois de tantos dias, suportar uma noite inteira de shows. Levantei-me tão empolgado que dei uma porrada com a cabeça no chassi do carro. Fez um galo que iria me incomodar o resto do domingo. Saí de debaixo do carro, vi os meninos suados, sofrendo no sol e eu com a pele praticamente imaculada de longas horas em uma sombra própria. Agradeci ao dono do carro que já estava acordado conversando com os amigos. Sacaneei os imbecis que ficaram no sol mais uma manhã, fui comprar algumas garrafas de água e repeti o ritual dos outros dias. Tirei a camisa, joguei água no peito, braços e axilas, sequei-me e troquei de camisa. Depois forcei o vômito até expulsar a última gota remanescente dentro de mim, fiz gargarejo com a água que restava para tirar o gosto ruim da boca e voltei. Comprei duas Cocas, um pacote de biscoito e lá estava preparado para o sétimo dia.
A última noite foi finalmente de diversão. Curti todos os shows do início ao fim, diferentemente dos que me acompanhavam que estavam mais mortos do que nunca. Não sei de onde tirei que seria uma boa ideia a maratona no formato que insistimos em manter, tampouco sei dizer por qual motivo não abortamos na primeira noite para refazer os planos. Talvez seja porque éramos muito novos e tudo era festa, ou apenas éramos imbecis mesmo, ou, a melhor das hipóteses, éramos jovens imbecis bêbados. De qualquer forma, minha relação de gratidão e amor ao Rock in Rio permaneceu inalterada. Continuo o mesmo menino que foi deixado na casa dos avós para que os pais pudessem ir à primeira edição e assistiu a tudo pela televisão boquiaberto. Permanece a magia do festival em que, ainda juvenil, tomei meu primeiro porre e perdi minha virgindade. Agora criara a marca de ser o festival no qual fiz a minha primeira maratona de shows, quatro dias diretos, “sem tirar”. Seria melhor se tivesse algum rastro da Bruninha, nenhum galo na cabeça ou mais shows aproveitados. No entanto, a experiência foi válida, pelo menos até a próxima versão.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Um bloco uma caneta e o divã


Ai que delícia! Ai que brinde! Ai que decepção!
Uma das polêmicas mais banais que já vi sobre comida, e nesse ponto leia-se gordices, é sobre o artifício de conquistar o consumidor infantil com brindes na compra de algo. Mc Donald’s usa frequentemente esse recurso e não é ali que está o problema, até mesmo porque, olhando para a minha timeline, só vejo galalau desesperado atrás de brindes do Mc Lanche Feliz supostamente esgotados para completar a coleção.
Engana-se quem pensa que com brindes você cria uma criança dependente de comidas ruins e açúcar. Uma família com má alimentação e dieta nada regrada de açúcar que cria uma criança assim. Eu sou um caso de que uma coisa nada tem a ver com a outra. Sempre tive uma relação ruim com brindes e ainda assim sou viciado em açúcar (chocolate principalmente), além de priorizar sempre a pior alimentação possível.
Na minha infância, a relação gordice e brinde não era tão sofisticada como é hoje em dia. A lembrança mais antiga que tenho remete ao biscoito de chocolate que hoje leva o nome de Bono. Naquela época, ele nem tinha nome, era apenas biscoito de chocolate da São Luiz. Já o brinde era um adesivo daqueles fofos (no sentido de apertar e afundar mesmo) da Turma do Snoopy. Confesso que comi muitos pacotes, mas nunca completei a coleção. Eram sempre os mesmo que apareciam: Lucy, Marcie e Paty Pimentinha. Como não ligava muito para brindes, só queria mesmo comer o biscoito, aquilo não me incomodava tanto.
Passado um tempo, veio o chocolate Surpresa. O nome é obviamente explicado por trazer uma surpresa, cuja, diga-se de passagem, era de uma pobreza sem tamanho: um cartão com a foto de um animal e informações sobre ele na parte de trás. Se fosse hoje em dia, isso seria motivo para um filho dessa geração bunda-mole justificar um trauma e sair matando todos os coleguinhas na escola, somente porque ganhou um brinde ridículo dos pais. Mais uma vez, minha relação com os brindes não era a melhor de todas. O brinde do chocolate Surpresa era voltado para algum assunto em específico em cada época do ano. Tivemos Feras da África, Animais do Cerrado, Mundo Marinho e por aí vai. Na época de Animais do Cerrado, sempre tirava o veado campeiro. Quando foi Feras da África, revezava entre gazela e antílope, mas esporadicamente aparecia um gnu, que nada mais do que uma gazela metrossexual bombada com chifres estilo Lady Gaga. Na época do Mundo Marinho era a minha chance de tirar algo um pouco diferente, mas, aparentemente, a diversidade dos setes mares também é grande o suficiente para me pregar peças. Quando achava se tratar da oportunidade de tirar um temido tubarão branco ou o cobiçado marlin azul, me apareciam a estrela-do-mar, a moréia e o peixe-espada (que nem é tão másculo quanto o nome sugere).
Na época em que o Kinder Ovo chegou ao mercado, eu já era suficientemente viciado em chocolate para me abalar com brindes ruins e, convenhamos, esses eram o piores. Não que sejam de baixa qualidade ou não existia interesse nos temas que eles escolhiam. Não! Muito pelo contrário! Vi diversos conhecidos colecionando miniaturas da Hanna-Barbera, veículos bem transados de todos os tipos, peças que quando reunidas formavam robôs irados e até personagens de mundos fantasiosos de elfos e ogros. Mas comigo, bem, comigo nada disto aparecia. Comigo era sempre peça para montar uma réplica da Barbie. Eu podia comprar uma caixa fechada com 50 Kinder Ovo (seria o plural Kinderes Ovos?) que não sairia, sequer, um brinde diferente de uma peça para montar a cópia fajuta da Barbie. Se comprasse por teimosia a caixa com 50 unidades, ao final teria uma Barbie feia de três metros de altura.
Era claro que alguma entidade relacionada a chocolate e brindes estava tentando me mandar alguma mensagem subliminar. Até mesmo para alguém da minha idade na época isso estava bem óbvio, tanto que passei a observar melhor a rotina das outras pessoas para tentar identificar em qual gordice teria mais sorte com os brindes. Foi então que notei os picolés de fruta da Kibon. Existiam quatro sabores: coco, limão, tangerina e uva. Ao final sempre era possível encontrar uma frase no palito, ou dizendo para ter mais sorte na próxima vez, ou anunciando que acabara de ganhar outro picolé grátis. A premissa ali envolvida era a ideal, não tinha surpresa desagradável. Existiam apenas duas opções e ambas, mesmo sendo uma delas nula, me agradavam. Passei então a notar o padrão da Kibon de influenciar a demanda dos picolés. Os sabores que tinham mais saída raramente eram premiados, já o de limão, o qual poucas pessoas compravam, sempre era premiado. Estratégia estabelecida, lá fui eu na padaria comprar o picolé de limão, somente pelo prazer de ganhar algo. Optei por comprar quatro de uma só vez, assim teria quatro palitos premiados, três deles trocaria pelos de outros sabores e o quarto trocaria por outro de limão para dar continuidade ao suposto fluxo infinito de sorvete de limão grátis. Chegando então em casa, terminado o primeiro veio a mensagem: “Não foi dessa vez. Kibon agradece!”. Fiquei um pouco frustrado, confesso, mas as chances permitiam essa possibilidade. Segui para o segundo com a certeza de ter mais chances: “Não foi dessa vez. Kibon agradece!”. Parecia que tinha conseguido comprar do único lote não premiado de picolés de limão, mas não desisti e segui para o terceiro certo da vitória: “Não foi dessa vez. Kibon agradece!”. Sobrou apenas um e nem pensei duas vezes, mesmo com a cabeça doendo de tanto gelo, fui voraz para chegar logo ao final e terminado me deparei com a mensagem: “Mas vai gostar de chupar assim lá em casa, hein?”.
Pois é, e aí, vai insistir em falar que brindes e má alimentação andam juntos? Só não entreguem este texto ao Feliciano, ou ele vai ligar os pontos e criar a relação entre brindes e homossexualidade.

sábado, 17 de agosto de 2013

Um bloco uma caneta e o divã





 
Fim de Ciclo (Cefet-RJ)

Aproximadamente oito anos atrás, lá estava eu entrando na antiga coordenação do curso de Administração Industrial no terceiro andar do Bloco E do Cefet. Logo na entrada, um balcão enorme, um funcionário me dá boa tarde (lembro que era bem perto de seis da tarde) e respondo que precisava falar com a professora Mirian. Após ser chamada por ele, ela aparece. Por breves segundos, ela me analisa da cabeça aos pés. Novo, em torno de 26 anos, All Star branco, uma calça de tecido mole (sou péssimo para essas coisas) de cor cinza, camisa polo branca, barba feita e cabelo curto com gel. Em suma, uma pessoa totalmente distinta do que sou hoje.
Pela imagem que tinha à sua frente, sua suposição de que se tratava de um aluno era potencialmente correta. Perguntou no que podia me ajudar e respondi com a cara de cretino que o tempo não muda e ainda tenho: “Não, eu estou aqui para te ajudar!”. Ela deu um largo sorriso, já sabia quem eu era, e me convidou para entrar. Ali se iniciava, quem diria, a minha, até hoje, mais longa experiência profissional. Tanto no meio acadêmico, como no meio corporativo.
Supostamente, como me foi apresentado, a necessidade da minha ajuda por lá era baseada na total incapacidade de um professor em lidar com as turmas de Cálculo I e Cálculo II do curso em questão. E isso era algo amplo, envolvia relações interpessoais, montagem do curso, transmissão do conteúdo etc. Enfim, eles tinham um problema que só poderia ser resolvido de duas maneiras: Ou trocava o professor, ou assumia o risco fazendo a turma ter de aprender a lidar com tal excentricidade. Escolheram a primeira.
Naquele mesmo dia montamos uma nova ementa para as duas disciplinas. Foram tantos os cortes que passou a ser imprescindível fornecer uma carga considerável de exercícios para suprir a carga horária. Após isso, foi combinado de retornar no dia seguinte para a primeira aula com a turma.
No dia seguinte, no Auditório 4-H, iniciava efetivamente a experiência. Confesso que não tive a menor maldade quando a Mirian disse que as aulas aconteceriam em um auditório. De qualquer forma, maldando ou não, lá estava eu e exatos 117 (CENTO E DESESSETE!!!) alunos. Este é um número que nunca mais esquecerei. Mesmo com já alguma experiência em sala de aula, seja com turmas grandes ou pequenas, um número como esse assusta. Com isso, no primeiro momento é inevitável ter a vontade de ser Moises, levantar os braços, separar a turma em duas partes e anunciar: “Turma da esquerda, estão todos aprovados! Podem sair! Turma da direita, vocês aprenderão cálculo!”. Mas não era possível, então tive de, literalmente, enfrentar os 117.
Naquela primeira turma podíamos separá-los em calouros que tinham acabado de entrar no curso (Cálculo I é uma disciplina do primeiro período) e repetentes. O grupo que mais me preocupava era o dos repetentes. Alguns estavam fazendo aquela disciplina pela terceira, quarta, quinta vez, e, convenhamos, independentemente de ter sido com um professor adequado ou não, muitos estariam fazendo novamente. O receio imediato era de que essa parcela de alunos se aproveitasse da turma grande que, por consequência, teria um controle limitado por mim, e utilizasse métodos escusos para conseguir a aprovação.
Enfim, a solução para isso era mais simples do que se imaginava: Tocar o foda-se! Não sou músico e nem tenho talentos musicais, mas se pudesse entrar para uma orquestra, pediria sem pestanejar o Foda-se. Toco o Foda-se como ninguém. Solos, arranjos sofisticados, improvisos, tudo bem fodido (literalmente). Talvez este seja o meu charme que faça grande parte dos alunos gostar de mim.
O curioso é que, mesmo estando em um ambiente novo, com características que tendem a um cenário hostil, consegui me adaptar e sobreviver. Aliás, um pouco acima do esperado. Aquele semestre transcorreu muito bem e, ao término, mesmo com poucos meses de casa, deixava já registrada a minha marca: Facilidade no relacionamento interpessoal com os alunos.
Nesses oito anos, ou dezesseis semestres, podemos estimar uns 1.300 alunos nas sete disciplinas diferentes que lecionei. Já tive de tudo, alunos excepcionalmente bons, zebras falantes, psicopatas, doidos, picaretas, almas polacas de tão puras e os dentro da média. Obviamente, o que se espera é que os extremos se destaquem de alguma forma, conservando alguma lembrança, enquanto que os aparentemente normais acabam sendo lembrados muito mais pela convivência.
Não vou cometer a injustiça de falar pontualmente de alguns alunos, tão pouco de turmas. Até mesmo porque nas vossas colações de grau já costumo falar sobre cada um, sem exceção.
A primeira coisa que fica clara quando se começa a dar aula por lá é que, apesar de ser em uma graduação, todos serem maiores de idade e pleitearem um tratamento de adulto, agem sempre como crianças perdidas esperando por algo na mão. É sempre mais fácil perguntar aleatoriamente algo do que pegar as informações no sistema ou procurar no mural do curso. A consequência imediata é um bando de alunos vagando pelos corredores até achar a sala de aula e, como nos meus primeiros anos por lá, as portas não tinham vidro, eles precisavam abrir. Era um inferno! A cada dez minutos um aluno abria a porta, via o que estava acontecendo dentro da sala e ia embora. Sabe aquela mania de que para espairecer um pouco a pessoa vai até a cozinha e abre a porta da geladeira para pensar? Então, me sentia como uma margarina na geladeira de um albergue para pessoas com problemas de concentração.
Com o tempo passaram a colocar vidros nas portas e, o curioso foi que, as pessoas que antes tinha cara-de-pau suficiente para abrir a porta e interromper uma aula, agora tinham vergonha de parar por cinco segundos para ver o que estava acontecendo. Resultado, a cada cinco minutos era um aluno passando devagar pelo corredor rente à porta, olhando para dentro da sala “de canto de olho” para tentar identificar que aula era aquela. Como se não bastasse, para alguns aquela “olhadela” não era suficiente para identificar, e, com isso, iam e vinham algumas vezes, naquela velocidade bem lenta, encarando a sala. Era aterrorizador! Parecia que tinha um serial killer escolhendo a sua vítima.
Dentre as diversas experiências que vivenciei, lá tive a oportunidade de conviver com relativa frequência com duas irmãs gêmeas: Carolina e Vanessa. Sempre tive a curiosidade sobre gêmeos. Acho assustador duas pessoas idênticas das quais, você não consegue saber quem é quem. Algumas pessoas afirmavam que era possível diferenciá-las. Para mim, eram idênticas e isso sempre revela aquela metáfora de conhecer a pessoa sem saber de fato quem é. Isto é, de rosto, sei quem você é, mas por dentro, não tenho tanta certeza. Agora imagine isso com gêmeos, troque a personalidade pelo nome. Pronto, fica bem clara essa dualidade.
Ainda sobre o mundo dos gêmeos, um dia, para saciar minha curiosidade, cogitei colocá-las sentadas em locais opostos da sala para fazer prova. Daí, em determinado momento de total concentração, beliscaria uma delas para ver se a outra gritaria de dor. Sei que é bizarro, mas já ouvi tanta coisa sobre gêmeos. Soube de uma mulher que, certa vez, teve uma longa crise de falta de ar com momentos ofegantes. Depois descobriram que sua irmã gêmea, que morava em outro estado, estava tendo uma intensa relação sexual naquela mesma hora. Ou o caso dos irmãos gêmeos da Pavuna, os quais quando um tomava banho, o outro que ficava limpo.
Nesta jornada pude comprovar duas teorias minhas. A primeira, que o aluno tem pacto com o diabo. Se existe uma pergunta que você não saberá responder, ele vai fazer. Se você estiver em uma situação constrangedora, ele vai aparecer. Se ele puder infernizar sua vida, ele o vai fazer.
A segunda, de que as meninas amadurecem muito mais rápido que os meninos, e, por consequência, ao final do curso, temos mais meninas que meninos se formando. Eu mesmo posso me usar como exemplo, pois, assumidamente, tenho a maturidade proporcional a de um garoto de 15 anos em uma loja de gibis. Ainda assim, existem casos de evolução que merecem ser destacados. Um deles é o do Túlio, cujo não me canso de falar, tanto para ele, quanto para os outros. Tulio entrou no Cefet com a mentalidade de um adolescente fútil. Nada queria com a vida, tanto que seu desempenho era uma prova disso. Hoje, 48 semestres depois, ele mudou muito. Está responsável e focado para se formar e seguir a carreira. Tudo bem que medindo com calma, talvez sua maturidade hoje bata com a de um guaxinim apaixonado que saiba usar o Instagram, mas a reconhecida evolução precisa ser dada.
Assim como tenho orgulho de falar que participei do processo de amadurecimento do Tulio, digo que tenho todas as fichas apostadas no João Otávio. Sei que vou perder feio por apostar naquele lambari comprido, mas vou me divertir muito enquanto isso pelo menos.
Em sala de aula tive todos os tipos de experiências possíveis. As mais inusitadas viraram histórias e aprendizado, as divertidas viraram lembranças, as tensas viraram assunto de sessão de terapia e todas, mesmo beirando o clichê, foram prazerosas.
Como disse, minha facilidade de relacionamento interpessoal com os alunos sempre foi uma vantagem. Ao mesmo tempo, foi um problema, pois algumas pessoas não entendiam muito bem aquela cena de o professor no meio do bosque do Cefet falando besteira como se fosse um deles. Para muitos dos medalhões ali presentes, o professor universitário precisa ter um posicionamento verticalizado e distanciado dos alunos. Aquilo que fazia era uma afronta e uma aberração. Bem, para eles. Para mim era normal. Construí minha carreira em colégio passando o recreio todo no pátio. Jogava bola com os alunos, ficava ouvindo as lamentações das meninas, discutia seriados, filmes e desenhos animados. Em suma, estava sempre no meio deles e sempre fiz questão de fazer com que se sentissem relativamente próximos de mim. Obrigado a todos os alunos.
Do outro lado da porta da sala de aula estavam alguns professores que tive o prazer de conviver cujos merecem, pelo menos, um parágrafo. Não falarei da Miriam por motivos óbvios (que é não parecer óbvio), tão pouco do Marcelo Nogueira que me atura por 15 longos anos de amizade torturosa. Mas outros, sim, precisam ser lembrados.
De todo o corpo docente, dois professores, para mim, são monstros: Manhães e Teylor. Ambos pela inconfundível capacidade de preparar uma aula, repassar o conhecimento e, antes disto tudo, dominar o conteúdo. O que os diferencia entre si está na personalidade deles.
Mario Manhães tem aquele jeito tranquilo, algo bem sulista, uma fala mansa, quase uma lábia. Quando se dá conta, ele já te ensinou uma grande carga de conteúdo e ainda passou a mão na sua bunda sem que percebesse. Já o Teylor é ácido, mordaz, está te sacaneando e você nem percebe. Talvez por isso ele viva nos extremos. O lema dos alunos com ele é 8 ou 80, ame-o ou deixe-o. Mas isso é compreensível quando, de um lado, temos com cara que por saber muito e ensinar muito, pode cobrar muito e do outro, temos alunos que estudam pouco, se dedicam pouco, mas querem reclamar muito.
Outros professores tiveram influência mais na minha forma de pensar sobre as coisas e refletir decisões. Foram praticamente orientadores profissionais e/ou pessoais. Mauricio Castanheira, o qual é impossível não se apaixonar pelo seu perfil de ursinho Pimpão. Na primeira vez que o vi tive vontade de colocá-lo na estante do meu quarto. Só não o fiz porque ela já estava lotada com o Manoel, Henrique e Laryssa. Ainda assim, tive o prazer de várias conversas com ele. Todas foram pautadas com determinados assuntos e falamos outros completamente diferentes. Beth entrou como o maestro da orquestra. Disse para que parasse de tocar o Foda-se e começasse a tocar a Cautela. Confesso que esse novo instrumento é complicado demais, mas tenho praticado bastante. Em tempo, nenhum dos dois passou a mão na minha bunda.
Dentre os professores cujos desenvolvi uma relação de coleguismo, o Fabio Simone é a prova viva de que desenho animado pode virar realidade. Ele é a versão em carne e osso do Charlie Brown e Linus em uma única pessoa. Já o Marcelo Maciel é o cara ideal para os dias nos quais estiver cabisbaixo. Ele ri de todas as suas piadas, fala que tudo dá certo e ainda te deixa comer os biscoitos do próprio armário. Sobre mão na bunda, o Fabio não sabe ao certo se passou ou se passaram, disse que depende, e o Maciel riu coçando a cabeça.
Mas de todos, o que mais ganha a minha admiração reconhecida é o professor Silvino, cujo sempre chamo de “Meu Herói”. Ele tem o perfil perfeito para os que querem uma desculpa para colocar o burro na sombra e ficar como inútil. Mesmo assim, continua dando aulas e participando ativamente de seus projetos de caráter de responsabilidade social e ambiental. Seu engajamento é tamanho que para conseguir um ponto nas suas disciplinas basta levar 10 latinhas de alumínio para reciclagem, levando uma garrafa pet com óleo de cozinha usado, você ganha dois pontos, e, para aprovação definitiva, basta levar um moleque da cracolândia ou um índio do Maracanã para casa.
Por fim, só tenho a agradecer a todos por tudo. Por terem me recebido de portas abertas, dado um tratamento igualitário e criado condições para que pudesse fazer o meu melhor. Sei que nos veremos por aí e espero que isto aconteça.