segunda-feira, 27 de março de 2017

A sarjeta do mundo

VÍTIMA
O artista Sidney Vaughn, conhecido como Sid V, estava curtindo o que considerava ser o auge da sua carreira. Sua fama era formada em partes pelo seu talento como cantor, que gerava shows históricos e discos memoráveis, e pela sua vida particular atribulada que frequentava as manchetes dos principais tabloides, na maioria das vezes por conta de festas de arromba na sua residência, tumultos em casas noturnas e romances breves com mulheres de fama igual à sua. Ele não somente acreditava estar no auge, como também tinha a certeza que seria incapaz de realizar qualquer feito que superasse as histórias inesquecíveis que protagonizou mundo a fora. Ledo engano. Para Sid V, nunca é o topo, o limite ou até mesmo o suficiente. Algo sempre pode ser superado. Esta história que vou contar talvez seja a situação mais improvável que ele conseguirá se meter, mesmo tendo pequena parcela de culpa. Fato esse que torna tudo ainda mais improvável, principalmente se considerarmos que sempre com ele é de autoria própria e única.
Sua presença em tribunais era mais que corriqueira. Tinha tempo que a cena deixou de ser sazonal. Todavia, ele sempre estava em tribunais de pequeno porte. Era apenas ele, um advogado, um juiz e uma sentença. Baderna, dirigir embriagado, destruição de quarto de hotel e, um dos casos mais recentes que já contei, quando foi flagrado desmaiado nu na companhia de uma mulher de menor importância no mundo do estrelato em um banheiro de uma casa noturna. Desta vez foi algo grandioso. Um enorme tribunal no condado de Ashby com juiz, equipe de advogados de defesa, equipe de procuradores do estado, dez membros da sociedade local escolhidos para cumprir a função de jurados, jornalistas e estudiosos na plateia como convidados, câmeras, taquígrafos e um mar de pessoas ao lado de fora.
- Senhor Vaugh, o senhor sabe o motivo de estar aqui? – perguntou o homem de terno escuro impecável à sua frente.
- Claro que sei – Sid V respondeu e em seguida disparou um olhar de deboche para os jurados. – O seu cliente tentou me matar.
- Por que diz isso, senhor Vaughn? – o homem emendou uma segunda pergunta à resposta de Sid V.
- Porque ele invadiu a minha casa com uma pistola em mãos e disparou diversos tiros em minha direção.
- Algum lhe acertou? – o homem prosseguiu com as perguntas.
- Não, até porque... – Sid V respondia quando foi interrompido pelo homem do terno impecável.
- Ahá! Então como pode me garantir que ele queria mesmo te matar?
- PROTESTO! – gritou uma mulher com um belo conjunto lilás sentada em uma bancada diferente ao do homem de terno impecável. – Todos sabemos bem...
- Negado – disse o juiz sem dar chances para que a mulher prosseguisse e, em seguida, se direcionado ao Sid V. – Responda a pergunta, por favor.
- Ora, porque todos os tiros vieram na minha direção e só não me acertaram porque me joguei atrás de um sofá. Aliás, um belo sofá de couro que tem muita história nele. Sabem quantas mulheres já se deitaram nuas naquele sofá? Sabe quantas pessoas importantes já desmaiaram bêbadas naquele sofá? Pois saibam que aquele sofá tem mais importância para o mundo artístico que aquela casa de show com péssima acústica que vocês insistem em manter nesta cidade. Eu exijo ser indenizado também pela enorme perda que foi ter de jogar aquele sofá fora.
- SENHOR VAUGHN – gritaram ao mesmo tempo o juiz, o homem de terno impecável e a mulher de conjunto lilás.
- Ora, mas que coisa – Sid V prosseguiu como a sua comum incapacidade de se calar. – Eu fico nervoso com isso tudo. Ainda mais quando tentam me censurar. Ninguém censura Sid V! Isso é um absurdo. Aquele descontrolado tentou me matar! Ninguém tem dúvida disso! E, ainda assim, eu quem estou sentado aqui como se fosse um criminoso, um marginal, um delinquente, um coisa-ruim. Eu já cometi muitos erros na vida, mas nunca a ponto de precisar ocupar este assento. Você quem deveria estar sentado aqui, seu débil mental! Aquele psicopata... Olha! Olha! Ele está rindo! Eu aqui sentado e ele ali rindo. Está tudo invertido.
O tal homem que Sid V se referia era o rapper Diggy Bass, tão famoso quanto o próprio Sid V, contudo ocupavam áreas diferentes. Enquanto um dominava o mercado do rock and roll, o outro era o rei do hip-hop. Conhecido por suas músicas polêmicas que falam de sexo, drogas e formas nada agradáveis de lidar com as mulheres, Diggy Bass vendia a imagem de um gangster, sempre acompanhado de um ou outro guarda-costas e ostentando uma vida de luxo sem restrições. Em determinado momento da carreira, ele assumiu um relacionamento com a atriz de cinema Jo Quin, mulher belíssima desejada por todo o mundo e que reforçava essa imagem a cada filme em que insistia na necessidade de uma cena de nudez ou erotismo leve. Foram chamados de o casal do século XXI. A vida sexual do casal era especulada semanalmente nos programas matinais e telejornais de notícias duvidosas. Formaram um casal tão impressionante e famoso pelo mundo que chegava a parecer uma marca, algo criado intencionalmente para gerar audiência e atrair as atenções das câmeras. Todas queriam ser Jo Quin e todos queriam ser Diggy Bass.
É fato conhecido que astros do rock não se dão muito bem com astros do hip-hop, entretanto, Sid V e Diggy Bass demonstravam publicamente uma relativa proximidade. Sid V foi visto algumas vezes em festas na casa de Diggy Bass ou no camarote VIP que ele mantinha na mais famosa casa noturna do estado. Já foram flagrados voltando juntos na mesma limusine. No casamento dos dois, chegaram a cogitar que ele seria um dos padrinhos. Contudo, no que foi divulgado como uma estratégia de marketing, no altar só estavam padrinhos negros como o noivo e madrinhas louras como a noiva.
A história do julgamento pode ser resumida pelas manchetes dos jornais em três dias seguidos. No primeiro dia, elas diziam que Sid V tinha sido visto entrando cedo pela manhã acompanhado de Jo Quin em sua casa de praia e só saíram de lá no início da madrugada seguinte. No segundo dia, as capas dos jornais estampavam que Diggy Bass, que estava em Londres para gravações do seu novo disco, cancelou sua agenda e estava voltando às pressas para casa. O terceiro e último dia era o fechamento da história com a polícia invadindo a casa de Sid V, onde foram escutados tiros logo após Diggy Bass invadi-la.
- Senhor Vaughn, não vou adverti-lo novamente – o juiz interrompeu a fala de Sid V mais uma vez. – Na próxima, mandarei lhe prender por desacato.
Com um olhar enfadonho, Sid V encarou os jurados como quem não acredita no que está acontecendo. Em seguida, direcionou seu olhar para a mulher do conjunto lilás que retribuiu com uma expressão pacífica. Ela pedia parcimônia ao astro. Em uma cena impressionante, ele acatou o pedido implícito e se acalmou. Após uma longa inspirada de ar, Sid V se direcionou para o juiz lhe pedindo desculpas e, em seguida, para o homem do terno elegante dizendo que poderia prosseguir.
- Senhor Vaughn – o homem terno elegante retomou a palavra. – você teve relações com a senhora Quin?
- Se você pretende associar a ação do seu cliente a um momento irracional de ciúmes dele, aconselho a ser mais preciso na sua pergunta. Não queremos que a minha resposta seja vaga, não é mesmo? O que considera como relação?
- Senhor Vaughn – o homem de terno elegante pareceu impaciente. –, quantos tipos de relações você conhece?
- Ah, meu senhor, se frequentasse as festas na minha casa, saberia que existem muitos tipos. Alguns, inclusive, que nem na parte mais perturbadora da bíblia foram previstos.
- Ok, senhor Vaughn! Ok! Vamos entrar nos detalhes se é isso que tanto deseja. – o homem de terno elegante fez uma pausa dramática olhando para os jurados. – Naquela manhã na sua casa de praia, você beijou a senhora Quin?
- Seja específico, por favor – Sid V demonstrava tranquilidade e um ar jocoso ao mesmo tempo. – Beijar é muito vago. De qual parte da senhora Quin está falando?
- EXCELÊNCIA! – gritou o homem do terno elegante demonstrando o fim de sua paciência. – ASSIM FICA DIFÍCIL...
- EXCELÊNCIA! – foi a vez da mulher no conjunto lilás gritar interrompendo o homem do terno elegante. – O senhor Vaughn tem toda a razão.
- Doutores – o juiz em um tom ameno tentou colocar panos quentes. – Por favor, vamos manter a tranquilidade nos trabalhos. Senhor Vaughn, apenas responda sim ou não à resposta.
- Excelência – Sid V, em um tom igualmente ameno, se dirigiu ao juiz. – Se o advogado deseja montar a cena para insinuar que seu cliente agiu tomado pelos ciúmes, que ele pergunte ao próprio quais a motivações. Só que este não é o caso. Este homem, contratado por aquele psicopata, está aqui por um único propósito. Todos nós sabemos que ele não tem como escapar. Mesmo assim, ele está usando este circo com o intuito de saciar a curiosidade mórbida de seu cliente. Tudo que eles querem é que eu detalhe o que aconteceu. Aquele homem é doente! Ele sabe o que aconteceu e ainda assim quer ouvir de mim. Ele precisa ser internado. Onde já se viu uma coisa dessas?
- RESPONDA, SEU VERME! – Diggy Bass se levantou e gritou indignado, não bastante com tudo que vinha acontecendo, mas também com o fato de Sid V estar roubando a cena mais uma vez. – RESPONDA! RESPONDA! VOCÊ ME TRAIU!
- Eu te traí? Você é mais louco do que eu imaginava. Como te traí? Eu nunca fui seu amigo. Nunca fomos amigos. Sempre fomos dois caras que frequentavam as mesmas festas e nada mais. Quantas vezes lhe confidenciei um segredo? Nenhuma! E ao contrário? Nenhuma também! Quantas vezes lhe pedi um favor? Quantas vezes você fez o mesmo? Nenhuma! Nunca! Tudo que sabe de mim é o que leu em jornais. Frequentávamos as mesmas festas, bebíamos na mesma conta e o máximo de proximidade que tínhamos era comentar um com ou outro sobre o rabo de alguma mulher ao nosso redor. Mais nada! Não pense que sou seu amigo. Tampouco exagere nessa avaliação para se fazer de vítima. Sabe muito bem que não sou seu amigo. Aliás, sabe muito bem que quase não tem amigos. Se pararmos para pensar, a única pessoa que pode ser considerada sua amiga é o Gardahall. O resto, ou é seu funcionário ou alguém com uma relação como a minha. E, não se esqueça que o Gardahall só é seu amigo porque você dá mesada para ele. Não, não pense que estou insinuando que ele é interesseiro. Muito pelo contrário! Ele é uma das poucas pessoas de bom coração dentre as que lhe cercam. O fato é que sem a mesada, ele seria obrigado a continuar lá no subúrbio de onde você saiu e abandonou seus amigos da época que não era famoso. Ele, sem sua mesada, seria obrigado a trabalhar como um desgraçado para manter as contas de casa em dia, com isso, sequer sobraria tempo para se encontrar com você e manter laços estreitos. Era isso que queria dizer, não pense que faço mal juízo dele.
- Senhor Vaughn – o juiz, agora em um tom firme, interrompeu a fala de Sid V. – estou por um triz para lhe prender por desacato. Responda a pergunta que o doutor lhe fez.
- Desculpe-me, excelência. Não era minha intenção desrespeitá-lo. Irei responder à pergunta, mas não a esse almofadinha. Responderei a quem de fato está a me perguntar. É com você mesmo que estou falando, Diggy Bass. Você quer saber o que de fato aconteceu, então se sente que direi detalhe por detalhe. Taquígrafo, por favor, não perca uma palavra, pois potencialmente a revista Penthouse vai precisar desse documento para publicar depois. – Sid V fez uma pausa, bebeu um pouco da água que estava à sua disposição e depois prosseguiu. – Sim, eu a beijei. Não foi imediatamente assim que chegamos à minha casa. Demorou um pouco. Abri uma garrafa de vinho branco e bebemos duas taças. Eu odeio vinho branco. Só bebi para acompanhar a Jo. Ela estava mais falante do que nunca. Ambos sabíamos o que estávamos fazendo por lá, mas, aparentemente, ela precisava desabafar um pouco. Claro que o tema era você, seu grande pedaço de merda ambulante. Você é o maior cagalhão que já pisou nessa Terra. Depois de externar o que tanto a afligia, Jo mudou de aparência. Ela demonstrou certa paz e, talvez, um total conforto na minha companhia. Ficamos próximos. Bem próximos. Era possível um sentir a respiração do outro. Encostei meu rosto ao dela e a beijei no encontro do seu maxilar com o pescoço. Ela se encolheu sem me afugentar. Fui percorrendo seu pescoço em direção à nuca enquanto ela ia se girando me oferecendo as costas. Eu a abracei por trás e, enquanto percorria o outro lado do pescoço, aproveitei para desabotoar sua blusa. Em seguida, abri seu sutiã. Lá estava ela. Jo Quin seminua como em vários filmes que já vi. O mundo conhece seus seios de cor. Poucos tiveram a oportunidade de vê-los ao vivo. Eu os vi. Eu os toquei. Eu os beijei. Está anotando taquígrafo? Por enquanto a resposta é sim para pescoço, nuca e seios. Enquanto tentava dar igual atenção aos dois com a minha boca, abri sua saia e deixei que a gravidade fizesse o resto. Ia descendo a minha boca por seu abdômen e minhas mãos, à frente do serviço, desciam com sua calcinha. Sentei aquele monumento de mulher na bancada de mármore da minha cozinha. Jo estava tão confortável com tudo aquilo que sequer reclamou a gélida peça de pedra sob ela. Seu olhar pedia o que já sabia o que ela queria. Ela também já sabia o que queria fazer desde o primeiro momento com ela. Era como um acordo intuitivo entre os dois. Sabe o que eu fiz, Diggy? Fiz aquilo que você nunca fez. Eu a chupei. Sim, cai de boca dela. Vai anotando, taquígrafo. Dois anos, quase três de casamento, e nunca chupou a própria esposa. O grande Diggy Bass. O fodão! O maior comedor da música negra da atualidade. Nunca chupou uma mulher. O cara tem a fama de maior comedor e ninguém contesta, pois sabe-se que é verdade. O que poucos sabem é que, igualmente em suas letras de música, na hora H, ele trata mulher como lixo. Tira a roupa, enfia o pau de qualquer jeito e, assim que satisfeito, vira as costas e vai embora. Deve existir uma horda de mulheres mundo a fora que só não está arrependida por ter dado para você, apenas porque você é quem você é. Fora isso, você é um merda que não respeita nenhuma delas. Trata todas como objeto e agora quer se fazer de vítima porque um cara que você conhece lhe traiu comendo sua esposa. Aliás, isso é o que você quer que as pessoas pensem. Na verdade, eu sei bem o que te motivou a ir até minha casa e tentar me matar. Você estava colérico porque eu não transei com ela. Eu apenas fiz o que nunca fez. Eu dei prazer para ela. Você sabe bem que eu a fiz...
- CHEGA! – Diggy Bass se levantou gritando e jogou seu copo de água na direção de Sid V.
Apesar de o copo não ter chegado perto de Sid V, o juiz precisou intervir. Ele ordenou que o rapper fosse imediatamente preso por desacato e que não participaria mais do julgamento até que fosse necessário seu testemunho. Era evidente que, durante o depoimento de Sid V, o juiz tinha perdido o controle do seu tribunal. Ele precisou ser contundente para que todas as partes entendessem que, ou as coisas andassem dentro da normalidade, ou mais medidas duras seriam tomadas. Todos entenderam o recado e o julgamento prosseguiu como se era esperado. Diggy Bass pegou mais de dez anos de cadeia por tentativa de homicídio. Seus discos ficaram mais valorizados depois disso. Pessoas que sequer sabiam do seu trabalho passaram a comprar seus álbuns para analisar as letras das suas músicas com o discurso de Sid V. Aliás, o discurso do Sid V foi um dos pontos altos dessa história. Foi a oportunidade de mostrar que ele era mais do que um rock star desmiolado famosos pela carreira e pelas atitudes inconsequentes na vida privada. Se antes ele achava que estava no auge, agora ele tinha certeza que chegara ao topo. Além de vender milhões de discos e construir uma imagem que beirava um estilo de vida, agora ele transparecia ser uma pessoa capaz de destruir qualquer situação opositora com argumentos ferinos. Tanto que, no dia seguinte, ele pediu para seu assessor comprar todos os tabloides na esperança de manchetes que idolatrassem seu novo lado, o intelectual. Depois de folhear todos eles, sua frustração era evidente. Ao contrário do que ele esperava, todos focavam em um único argumento, a confirmação de que de fato teve relações com a mulher mais desejada do mundo. É, ele chegara ao topo do topo, não foi como ele queria e, pela primeira vez, isso o incomodou.

Próximo conto da coleção em breve

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Que sacanagem!

Um dos temas que mais tem ocupado as principais páginas da mídia é o tal muro do Trump. Não sei ao certo como ele vai funcionar porque tive preguiça de pesquisar a fundo. Aliás, na minha cabeça, seu funcionamento já está definido e se encaixa perfeitamente nessa crônica. Então, por motivos de conveniência, vai a minha versão como a oficial.
Agora que colocaram o doido do Trump como presidente dos Estados Unidos, o inevitável e tão falado muro está por vir. A proposta, que só faz sentido naquela cabeça que usa um topete sem sentido, é proteger o país de estrangeiros ilegais. Obviamente que isso vai dar uma merda do cacete e o próprio povo estadunidense vai pagar por isso também. E não falo da parte financeira de montar o muro. Estou me referindo a sofrer revés depois de erguida a parede da discórdia. Todo dia centenas de estadunidenses cruzam a fronteira por algum motivo particular. Com o muro, é possível que isso acabe por conta de alguma retaliação vinda do outro lado. Nada mais justo, diplomaticamente falando. Para o povo, é uma puta sacanagem. Imagine não poder mais cruzar a fronteira para comprar tequila legítima de primeira por preço de cachaça de botequim? Nem me venham falar que na terra do Tio Sam se encontra José Cuervo ou Sauza por preços módicos. Não é a mesma coisa. É como se fossemos obrigados a nos contentar com cachaça Pitu porque nos proibiram de pegar cachaça artesanal em Minas Gerais. Apesar de não corrermos o risco de ter um muro erguido na fronteira do Rio de Janeiro com Minas Gerais. Já na fronteira de São Paulo com o Paraná é algo que eu não colocaria a minha mão no fogo.
Se a perda do acesso à bebida já é algo suficientemente grave para se rever a tal ideia estapafúrdia, imagine quando analisamos a perda cultural. Imagine não poder cruzar a fronteira e desfrutar do Dia de Los Muertos em Tijuana? Trata-se de um evento fantástico que mistura religião, carnaval e adrenalina. Afinal, acontece na cidade mais violenta daquele país. Portanto, você pode estar em um momento venerando os mortos e, minutos depois, estar sendo venerado pela multidão.
Ainda sobre a parte cultural, é impossível deixar de falar sobre a maior referência artística do país das tortilhas. É quase uma tradição para os pós-adolescentes estadunidenses cruzar a fronteira para ver o clássico show The Lady And The Burro. Explico para os que desconhecem a tradição. O show é basicamente isso mesmo que o nome diz. No palco entram uma bela mocinha e um jegue. O que acontece depois é a maior bizarrice da história. Sim, eles transam ao vivo na frente de todos. Filha de uma família de mágicos, a bela jovenzinha, igualmente às caixas dos seus pais, tem fundo falso e manda ver com o quadrupede que faz um esporro de corar aquela vizinha escandalosa que finge orgasmos toda noite de terça-feira. Pensando bem, com a construção do muro, privar os jovens desse show de horrores talvez seja o único ponto positivo da proposta autoritária do biruta do Trump.
Eu, para ser honesto, sequer sei se já começaram a construir o muro. Será que eles precisam de licitação? Vai ter superfaturamento? Aceitariam a Odebrecht como concorrente na disputa dentre as empresas de engenharia envolvidas? Os tijolos serão posicionados de pé ou deitados? Ou nem tijolos usarão? Não posso responder a essas perguntas, pois sou muito desinformado em diversos assuntos. Um deles que mais me aflige e que está diretamente ligado ao muro é a tal da Sol. Talvez vocês se lembrem da protagonista da novela América que pretendia ultrapassar a fronteira ilegalmente. Ela já conseguiu? Porque, caso negativo, é importante que ela agilize essa cruzada ou vai dar de cara na parede. Ou muro, melhor dizendo.
Vale lembrar que a tal protagonista de desenterrei do fundo do baú das novelas era interpretada pela atriz Débora Secco. Essa mesma atriz que na semana passa declarou que tinha problemas com fidelidade e mentiras. Isto é, ela assumiu publicamente que pula o muro, digo a cerca, com a maior naturalidade possível e não hesita em manter a mentira dentro da sua conveniência. Realista como sou, sei que não existe números suficientes para representar a probabilidade de ela cometer uma traiçãozinha de leve comigo. Todavia, ela podia me mandar uma mentirinha ao menos. Ser chamado de lindo por ela seria tão fabuloso quanto poder dizer aos quatro cantos que sou o corno oficial dela. Não, não ligo para essas coisas. Fazendo em casa o dobro do que apronta na rua, a contabilidade me sai favorável. Claro que, para outros cabras, isso soa extremamente ofensivo. Alguns, imagino eu, mesmo com a espetacular oportunidade de ter algo com ela, rejeitariam a proposta por conta da sua declaração. Outros, até aceitariam, mas acredito que sob a condição de construir uma espécie de muro do Trump ao seu redor.


Que sacanagem! é uma rapidinha semanal só para manter o interesse.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Que sacanagem!

Assim como Mel Brooks tem respaldo para avacalhar com os judeus e o Chris Rock possui abertura para debochar dos costumes dos negros, eu tenho licença poética para falar de tatuagens, principalmente as escrotas. Grande estudioso do assunto, seja ele sobre tatuagens, seja ele sobre escrotidão, exibo em meu corpo algumas delas, dentre as quais duas se adequam no quesito escrotidão.
Uma das maneiras mais fáceis de obter sucesso (ou seria vergonha?) com o tema tatuagens escrotas está na ideia de homenagem. Tratando-se de futebol então, as chances de dar uma bola fora são enormes. Se for torcedor do Manchester City, aí nem se fala. Aparentemente, eles são campeões em fazer cagadas (bem, em alguma coisa precisavam ser campeões). Talvez o mais famoso seja um Simon Hart que tatuou um enorme Wayne Rooney nas suas costas com os dizeres “Lenda do City”. Com um enorme macho de braços abertos nas costas e a notícia (na época) que a lenda tinha renovado com seu maior rival (Manchester United), Simon protagonizou uma vergonha imensurável. Bem, na verdade, é possível medir, sim, a cagada do torcedor afobado. Afinal de contas, ele pagou a bagatela de 500 libras por esta façanha patética. Como disse, foram vários casos, inclusive o caso do torcedor que tatuou a taça da Liga dos Campeões dando o título ao time no ano em que acabou eliminado nas oitavas-de-final. Bem, o que esperar quando o próprio clube resolve aprontar com todos os torcedores mudando o próprio escudo? Menos pior que o próprio se prontificou a bancar as sessões de remoção das tatuagens com o escudo antigo.
Recentemente, coisa já desde ano, tivemos um novo episódio de cagada envolvendo tatuagens. Não, não foi com torcedor do City, muito menos sobre futebol. Foi com um brasileiro mesmo e envolvendo uma atriz pornô. Um jovem punheteiro brasileiro, Fernando alguma coisa, se empolgou com a frase “Vou homenagear fulana” e lascou uma tatuagem do rosto da atriz pornô Mia Khalifa na própria coxa. Com o intuito da sua estupidez chegar até a homenageada, o rapaz postou uma foto do feito na internet e marcou a danadinha. Deu certo. Bem, em partes. A imagem chegou até ela, mas a reação não foi a esperada. Mia, que pelos filmes topa tudo, não gostou do que viu e desceu um esporro toda puta (puta no sentido de zangada, longe de mim julgar essa bela profissão) no rapaz.
Se na minha cabeça (não literalmente) tatuar um jogador de futebol não faz o menor sentido, o que direi de uma atriz pornô? Aliás, vou mais a fundo (não na atriz, infelizmente), não entendo o conceito de conhecer as atrizes pelo nome. Longe de mim dizer que não são dignas disso. Apenas estou me baseando no fato que homem quando vai ver filme pornô só dá uma olhadinha no início e pula direto para o final para agilizar as coisas. Quando prestar a atenção em todo um filme de dezesseis minutos é algo impossível, imagine se atentar a créditos e acompanhar a “fodabiografia” da atriz. As coisas, de fato, estão diferentes do meu tempo. Naquela época, não recebíamos vídeo de putaria a cada cinco minutos em grupos de Whatsapp, até porque nem existia celular. Não existia computador para acessar site de sacanagem. Sim, a punheta já existia. A tarefa era complexa. Tinha de soltar uns gracejos, tipo por fora, com o coroa da banca de jornal para vender revista de sacanagem. Era uma coisa de dez páginas com algumas fotos, poucos closes e zero enredo para não corrermos o risco de nos distrairmos. Os poucos que conseguiam a façanha emprestavam para o resto da rapaziada menos afortunada. Afinal, ninguém quer viver cercado de amigos andando com balas na agulha o tempo todo. Uma vez ou outra, um novato dava aquela chamada “garoteada” e colavas as páginas das revistas comprometendo parte do material. Tirando isso, tudo corria dentro da normalidade da putaria compartilhada à moda antiga. A ansiedade era tamanha ao receber o material inspirador que sequer líamos a legenda das fotos ou dávamos atenção para a capa. Íamos direto para as páginas que nos interessava, homenageávamos (manualmente, sem agulhas e tintas) a gostosona em pelos e seguíamos com a troca arcaica de sacanagem entre amigos.
Voltando à malfada homenagem. A mocinha não somente esculhambou com o menino, como o fez por tópicos. Sim! Quem diria que uma tatuagem de um rosto na coxa faria uma atriz pornô escrever um post tão longo (até porque a especialidade delas é com outro tipo de coisa longa). Mia começou o post chamando o rapaz de idiota, para qualquer um, isso seria suficientemente claro para que ela registrasse seu ponto de vista em relação à homenagem. Contudo, como disse, ela foi adiante e fez barba, cabelo e bigode (ou boquete, boceta e cuzinho). Reclamou do alinhamento das sobrancelhas, odiou a arte do nariz, alegou que parecia mais velha, dentre outras coisas. Por fim, talvez na única parte sensata em toda essa história, ela desejou boa sorte ao rapaz quando tentasse explicar aquela tatuagem para alguém especial. Ora convenhamos que um rapaz que faz isso já deixa implícito que arrumar alguém não é o seu forte, não é mesmo? Aliás, a Mia pode até ter ficado irritada com a história, mas nada vai se comparar com a ira do tal Fernando quando descobrir que tem marmanjo batendo uma pensando na coxa dele.

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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Que sacanagem!

Vocês devem ter visto a história que ocorreu nesta semana do técnico de futebol que foi dado como desaparecido provocando rebuliço na internet. Provavelmente viram também que o cidadão foi encontrado em um motel no meio de uma pelada, literalmente assim espero. Ou então sofrendo um revés durante a pelada tomando de quatro, dependendo da opção sexual dele que, aliás, não nos diz respeito. Não se sabe ao certo como encontraram o profissional das bolas. E não digo do estado, se estava pelado, em plena ação, dormindo ou refletindo se valia mesmo a pena pagar quinze reais em um saquinho de amendoim do frigobar. Estou me referindo aos meios mesmo, talvez o telefone tocou insistentemente até que ele atendesse, encontraram o arisco técnico pelo carro estacionado nas instalações da arena fodal, ou alguém muito íntimo o localizou pelo cheiro. O fato é que em um motel reside um código de conduta implícito que as pessoas parecem não respeitar. Já notaram que não existe em motel plaquinha de não perturbe na porta? Pois é! Isso porque é óbvio que ninguém quer ser importunado naquele local. Tanto que pedidos de comidas e bebidas são deixados em uma antessala quase que em um esquema de presídio de bacana.
O que importa na história do técnico que estava escondido no meio de alguém é que, mais uma vez, a humanidade se intrometeu em um dos lugares mais sagrados da civilização moderna. Obviamente que existem casos drásticos que devem ser tratados como exceção. Um deles é o do falecido marido da atriz, cantora, musa e Paquita Susana Vieira. O garotão arrastou uma donzela (não a esposa, mas a amante no caso) para um motel e enfiou o nariz onde não devia. Duas vezes! A primeira vez na donzela e a segunda em uma generosa carreira de cocaína que o fez bater as botas por lá, mesmo estando descalço vestindo apenas uma sunga branca. Numa situação como essa, a impenetrabilidade do quarto de um motel, que diferentemente não se aplica a quem o frequenta, precisa ser rompida. Afinal, o homem já estava durinho quando chegaram. Digo, quando eles, a polícia e os bombeiros, chegaram, o pulador de cerca estava todo duro. No sentido de eles, o marido intrépido e a donzela, apenas uma parte estava dura quando chegaram.
Casos de infidelidade são os mais delicados. Alguns cônjuges, tomados pela ira de terem sido traídos, descumprem o trato internacional contra violação dos quartos de motel e invadem abruptamente o recinto para flagrar os fornicadores infiéis. Segundo vovó, isso é muito arriscado. Trata-se de uma combinação perigosa. O susto de ser surpreendido somado ao vento da porta aberta pode resultar no casal ficar preso naquela posição para sempre.
Não se tem conhecimento de um método adequado para se portar quando pretende flagrar seu cônjuge no motel com outra pessoa. Diversos estudos de casos se mostraram falhos em algum artifício pelo menos. Um caso que me recordo é o do marido que, desconfiado da esposa, decidiu seguir a moçoila. Ela tinha dito que iria ao salão fazer as unhas, mas, na verdade, estava com um amigo do casal no motel. Respeitando o código do “não entrarás, feladaputa”, o marido esperou no estacionamento. Talvez aqui ele tenha cometido um óbvio equívoco, pois deu tempo do par fura-olho desenvolver os trabalhos com calma. Quando finalmente saía do motel, a dupla foi surpreendida pelo marido furioso que sentou o cacete no falso amigo, não da mesma maneira que o fura-olho fez com a esposa. Sei apenas que foi uma baixaria sem fim. O marido irado quebrando tudo, o amante bem calminho (sabemos bem o porquê) e a esposa aos prantos que, para piorar a cena, estava com as unhas por fazer.
Voltando ao professor, como os técnicos costumam ser chamados pelos seus atletas, inclusive pelos que não o respeitam, ele não estava em impedimento. Sua situação era legal (não usei o termo posição porque ficaria dúbio mediante a história). Fico na torcida que ele não precise, em ocasiões futuras, avisar ao seu contratante quando for bater uma bolinha em território profano discreto. Como disse, isso é da conta dele, até ficarmos sem assunto por aqui, obviamente.

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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Cai na real: Contos sobre a rotina para quem acabou de chegar

Conto anterior da coleção: Barbearia à moda antiga
Amiga de verdade
Quando a Sandra viu no identificador de chamadas quem estava lhe ligando percebeu na hora que coisa séria estava por vir. Carla foi sua colega de faculdade na extinta Gama Filho. Viraram amigas naquela época criando laços muito fortes. Depois da formatura, projetos particulares, como família e trabalho, acabaram afastando uma da outra. Ainda assim, mantinham contato esporádico por e-mail. Permanecia viva entre as duas uma forte ligação de afinidade. Carla ligar para Sandra era sinal de que precisava falar algo com urgência. De fato, era.
Durante o fim do seu casamento, Carla se viu numa sequência interminável de frustrações. A primeira foi com o próprio ex-marido que se mostrou um canalha. Ela a traiu com a professora de hidroginástica da academia. Naquele mesmo dia, por conta do adultério prolongado, suas duas filhas ficaram até quase nove da noite na escola esperando pelo pai. Dado o divórcio, ela se decepcionou novamente com o ex-marido. Com o ego ferido por ter acesso limitado às filhas depois daquele episódio, ele começou a complicar os pagamentos de pensão. Por fim, sem a ajuda financeira do marido, Carla começou a ter sérios problemas com grana. Cortou uns luxos próprios para que o momento não atingisse às filhas. Depois teve de cortar prazeres das meninas, como clube, televisão por assinatura e idas ao teatro infantil aos sábado. A sua situação só piorava a cada mês que se passava.
Sandra sabia da situação de Carla por conta de outras pessoas em comum com quem mantinha mais contato. Na hora que viu o telefone tocando, não pensou duas vezes para tirar tal conclusão. Ela ia pedir dinheiro emprestado. Carla não se prolongou muito na conversa, tampouco entrou no assunto grana. Foi sucinta e objetiva. Queria marcar de conversar com Sandra pessoalmente. Entendendo que seria algo necessário a se fazer, a amiga topou se encontrar. Sandra sempre achou meio delicado esse negócio de emprestar dinheiro, mas um encontro com Carla para ouvir suas mazelas e dar um ou outro conselho já seria alguma coisa ao menos.
Quando Sandra chegou ao barzinho que marcaram, Carla já a aguardava e aparentava estar por lá por algum tempo. Seu semblante era um misto de preocupação com ansiedade. Mesmo assim, quando avistou a amiga adentrando, abriu um enorme sorriso. Não se viam há muito tempo. Abraçaram-se, trocaram beijinhos e, antes de se sentarem, cada uma comentou quase que ao mesmo tempo algo sobre o cabelo da outra. Riram e, enfim, se sentaram.
- Sabe, Sandra? Quero agradecer por vir. Sei que existem coisas que nos colocam em berlindas, mas a necessidade fala mais alto. E, de verdade, preciso fazer isso. Não é algo nada fácil. Não é mesmo. Precisei de muita coragem para fazer isso. E saiba que só estou aqui porque é você. Jamais faria isso com outra pessoa. Talvez, somente uma pessoa com uma relação de carinho recíproco tão grande quanto você conseguia entender o motivo de chegar a este ponto.
Sandra, que até então só acenava assertivamente com a cabeça e concordava com sons abafados pela garganta, interrompeu a Carla. Ela pediu para a amiga ser paciente porque as coisas precisam ser feitas com calma. Com Carla calada, ela prosseguiu dizendo que deveriam pedir algo para beber primeiro. Uma bebidinha de leve para relaxar. Palavras da própria. A amiga relutou e, em seguida, preferiu dizer que a bebida seria para dar coragem. Sandra concordou, riu e pediu dois cosmopolitan.
- Nossa – a Sandra interrompeu o próprio primeiro gole. – Isto lembra muito a época da faculdade, não é?
- Sim, bastante!
- Época boa! Saíamos da aula e íamos direto para o bar do Azevedo. Ficava lotado de aluno da educação física. Bando de homem sarado enchendo a cara de cerveja.
- É mesmo! E nós duas bancando as estilosas circulando com cosmopolitan em mãos.
- Éramos chiquérrimas. Chamávamos mais a atenção que aquelas pé-de-cana bebendo cerveja em copo de botequim.
- Além do fato que nenhum homem se oferece para pagar uma cerveja. Mas um drinque. Ah, um drinque todo homem quer pagar. Ainda mais para duas meninas finas e bonitas como nós duas.
- Nossa – Sandra se interrompeu para mais um gole e depois prosseguiu. – Saímos completamente bêbadas sem gastar um tostão. Época boa. Era tudo mais barato, por assim dizer.
As duas caíram na gargalhada. Quando os risos pararam, ficou um silêncio constrangedor que foi disfarçado com longos goles terminando os drinques. Sandra pediu mais dois. Carla voltou a puxar o assunto delicado. Temendo pelo que vinha, Sandra abriu o cardápio e disse que precisavam escolher algo para comer. A amiga transpareceu aflição com a nova interrupção. Então a Sandra se justificou dizendo que era melhor pedir a comida naquele momento e, enquanto esperavam, conversariam. As opções eram limitadas por se tratar de um bar simples. De qualquer forma, era uma deixa para a Sandra procrastinar a tal conversa. Até que surtiu certo efeito. Dentre as opções, existiam coisas que uma não comia e coisas que quebravam a dieta da outra. Era uma tarefa complexa encontrar algo que não se encaixasse nas restrições das duas e as apetecesse ao mesmo tempo. Feito finalmente o pedido, assim que o garçom saiu em direção da cozinha, Carla engoliu seco e deu entender que tomava coragem para prosseguir. Sandra foi mais rápida.
- Você vai adorar a porção de minis hambúrgueres. Não são enormes como os que estão na moda. São bem pequenos. Além de serem bem leves.
- É, Sandra – Carla parou de falar para dar um gole no seu segundo drinque. – Eu tenho evitado bastante comida com pão...
- Bobagem – Sandra interrompeu a Carla. – O pão daqui além de fininho é macio. Não é como aqueles pães tradicionais de hambúrguer que são massudos. Você vai adorar.
- Entendi. Bem, falando assim, fico até mais animada. Sabe como é, né? Pão massudo, carne processada...
- Não! – Sandra interrompeu a amiga novamente. – Aqui é artesanal. Eles compram a carne, moem, montam e tudo. Tudo feito na casa. Nada de carne de hambúrguer pronta de supermercado.
- Isso faz uma grande diferença mesmo. Dá um ar diferencial à coisa, não?
- Claro! E oh – Sandra fez uma pausa dramática. – O molho é sensacional. Ele tem um toque picante que fica na ponta da língua sem arder demais. É ótimo.
O silêncio constrangedor acompanhado dos goles em seus respectivos drinques retornou à mesa. Sandra foi a primeira a terminar o seu drinque. Repousou o copo sobre a mesa e jogou um olhar perdido para a decoração no alto do bar. Parecia que estava admirando apesar de já ter perdido as contas de quantas vezes já pisara por lá. Carla terminou o seu em seguida, arrumou os cabelos, passou a mão no rosto, ajeitou umas pulseiras em um braço, coçou o outro e assim seguiu demonstrando inquietação. Mesmo sem olhar diretamente para a amiga, Sandra percebeu a movimentação de Carla. Optou então por continuar admirando o que já conhecia de longa data. O desconforto de Carla permanecia notório. Era evidente que a qualquer momento ela tocaria no assunto. Evitando mais uma vez o que estava por vir, Sandra propôs uma foto para registro.
- Amiga, precisamos publicar uma foto nossa. Tem um monte de gente da Gama no meu Facebook. Eles vão adorar nos ver juntas.
Com um sorriso amarelo, Carla se aproximou de Sandra. Não era possível identificar se era má vontade, frustração ou cansaço com a dificuldade em fazer o que tinha planejado. Ainda assim, a foto foi tirada. Sandra não gostou do resultado. Tinha saído um homem andando ao fundo. Ela queria que a decoração aparecesse. Carla então topou uma segunda foto. As duas aprovaram. Enquanto Carla voltava para sua cadeira, Sandra mudou de ideia. Sugeriu que uma foto com as geladeiras abarrotadas de cerveja ao fundo ficaria mais divertida. Lá se foram as duas até o balcão. Pediram para um garçom tirar a foto das duas. Ele tirou. Tira mais três para garantir, pediu a Sandra. Carla já mostrava cansaço. Voltaram para a mesa. Sandra olhava o celular passando foto para cá e para lá. Carla com semblante apreensão. Enquanto uma tomava coragem para falar, a outra ofereceu o celular. Pediu para escolher uma foto dentre as duas que supostamente ficaram boas. Carla não queria fazer aquilo. Mesmo assim, foi simpática. Analisou uma e depois a outra. Preferiu a segunda, na qual estava com um sorriso mais natural, além de não parecer tão rechonchuda quanto na primeira. Sandra fez uma exclamação de alegria. Ia publicar finalmente a foto. Enquanto a amiga mexia minuciosamente no celular, a outra se preparava para finalmente falar. Recolheu fôlego como quem toma coragem e, quando ia começar, Sandra voltar a interrompê-la. Mudou de ideia. Elas nunca foram de cerveja. Não fazia o sentido para ela uma foto com as duas próximas a uma enorme geladeira com cervejas. A foto deveria ser com as duas brindando os seus tradicionais e saudosistas cosmopolitans. A pobre da Carla (sem ofender a situação financeira dela) estava mais uma vez sendo obrigada a postergar por alguns minutos o que pretendia fazer. Sentaram-se novamente lado a lado, pegaram seus drinques, montaram o sorriso e seguraram posição. Seis fotos. Uma vai prestar, brincou a Sandra. Dessa vez, a Carla sequer voltou a seu lugar. Preferiu permanecer ao lado de Sandra analisando as fotos. Tinha entendido que era um mal necessário e que participar talvez tornasse as coisas mais fáceis. Gastaram um bom tempo decidindo a melhor das fotos. Uma foi descartada porque a Sandra parecia que estava sem um dente. Era sombra, concluiu a Carla. Sorrisos falsos, drinques cobrindo o rosto e falta de foco foram as desculpas para descartar outras até chegar à conclusão da vencedora. A foto que seria digna de registrar aquele encontro em que cada uma delas tinha planejado algo e apenas uma delas conseguira êxito até então, a Sandra e sua procrastinação. Ao menos, com a escolha da foto, Carla teria a oportunidade de falar, pois sua amiga ficaria quieta publicando a foto. Enganou-se. Chegaram os minis hambúrgueres. Sandra colocou o celular de lado e atacou um deles. Ao mesmo tempo começou a fazer comentários sobre a suculência e a harmonização dos ingredientes. Carla percebeu que não teria a deixa que precisava, deixou então para depois. Preferiu comer e ficar trocando elogios sobre os pequenos sanduíches. Voltou-se então para o seu lugar.
Finalmente encerrado os hambúrgueres, Carla não sabia mais como conduzir a situação. Ela sentia a necessidade de colocar o assunto na mesa e ao mesmo tempo achava que não cabia mais ao momento. Provavelmente iriam beber os drinques que chegaram junto com os sanduíches e depois pediriam a conta. Era uma situação bastante delicada que ela não queria estar passando, mas se fazia necessária. Durante esse tempo de reflexão, e quem sabe agonia, de Carla, Sandra continuava alheia aos evidentes sinais de que a amiga lhe passava a cada instante. De forma silenciosa, Carla praticamente gritava pela atenção de Sandra que permanecia passiva àquilo tudo. Para piorar, contudo sem o conhecimento da amiga, Sandra estava fazendo tudo intencionalmente. A situação beirava a um jogo mental em que, em algum momento, alguém sucumbiria entregando os pontos. Carla não podia permitir isso Não, ela não podia sair de lá com a situação sem estar finalizada. Provavelmente, caso acontecesse, ela voltaria arrasada para casa. Coragem não era mais necessário. Carla precisava também se impor à mesa. Ela tinha de tomar a conversa para si e conduzir de acordo com o que pretendia. Era necessário que ela repetisse exatamente o que ensaiou algumas vezes na frente do espelho e outras durante o banho.
- Então, amiga – Carla iniciou a sua fala, mas foi com um tom passivo, o que permitiu que Sandra a interrompesse.
- Então – Sandra mostrou o celular para a amiga. – Precisamos escolher a legenda da foto.
- Ah, Sandra. Por favor... – Carla disse de forma passiva e foi novamente interrompida pela Sandra.
- Sem A, Nem Be. Pode matutando alguma coisa. Estava pensando em algo como “A irmã que meus pais não me deram”. O que acha?
- Meio forçado, né?
- Pode ser – Sandra fez uma pausa para refletir. – Ao menos vai ficar fofo. Dá uma ideia então.
- Não sei, Sandra. A minha cabeça está zonza de tão ocupada com outra coisa.
- Outra coisa? – Sandra percebeu que estava escorregando em uma casca de banana da Carla e se fez de desentendida. – Pare de bobagem. Estamos aqui para nos divertir. Sem esse negócio de trazer problemas do dia-a-dia para cá hoje. Que tal “E lá se vão quinze anos de amizade”?
- Lá se vão? Parece que eu morri e acabou.
- Ai, que horror, Carla – Sandra riu um pouco. – Tem razão. Não faz muito sentido. Vou colocar então “Da faculdade para a vida”.
- Que tal colocar “A amiga que pode sempre contar comigo”?
Sandra não sentiu apenas uma alfinetada, mas uma espada atravessando seu peito. Instalou-se um clima tenso na mesa. Carla esperava que Sandra reagisse de tal maneira que permitisse que continuasse com o que pretendia. Sandra, por sua parte, se fez de rogada e aproveitou a deixa para fechar a cara não dando margem à Carla para prosseguir. Aproveitando ainda o clima na bom, Sandra pediu a conta. Quando o garçom chegou com a bendita, Sandra deu um único gole final no seu drinque, deixou o dinheiro na conta, disse para o garçom ficar com o troco e se levantou. Em seguida, armou um falso sorriso e se despediu de Carla dizendo que desta vez a conta ficaria por sua conta. A amiga não queria aceitar de jeito algum. Marque uma próxima para ser a sua vez de pagar, disse a Sandra que saiu apressadamente.
Na beira da calçada, à espera de um táxi qualquer, Sandra foi surpreendida por Carla. Ela queria se desculpar. Disse que precisava muito conversar algo com ela, mas que não teve a oportunidade naquela noite. Depois, agradeceu, pois acreditava que acabaria estragando a noite criando uma situação embaraçosa desnecessária. Sandra disse que entendia e, com a maior cara deslavada, falou ela era uma grande amiga e, por isso, não precisava ficar de melindres. Carla fez uma mea culpa. Por fim, Carla tirou um envelope da bolsa. Explicou que já imaginava que talvez não conseguiria falar e decidiu então ter uma segunda opção, uma carta explicando tudo. Pediu para a amiga ler em casa com calma e que, caso achasse que deveria, entrasse em contato com ela. Sandra consentiu, pegou a carta, deu dois beijinhos na Carla seguidos de um longo abraço e entrou no táxi.
Já em casa, enquanto tomava banho, Sandra foi interrompida pelo marido. Ele perguntou como tinha sido o tal encontro. Antes de sair, Sandra tinha contado o que esperava e como pretendia se comportar. Sandra então respondeu ao marido contando detalhe por detalhe. O marido se divertiu bastante com a cara-de-pau da esposa. Quando terminou o banho, Sandra também terminou a história e o marido fez uma piada:
- Sacanagem, amor. A mulher está toda complicada com grana e você ainda a leva num bar caro para beber drinques acompanhados de sanduíches sofisticados?
- Minis sanduíches!
- Que seja – o marido riu da ponderação da esposa. – Você só aumentou a dívida dela.
- Que nada! Eu paguei a conta toda.
- A conta toda? SANDRA! Quanto deu essa brincadeira?
- Pouco mais de duzentos.
- Ah Sandra – o marido se interrompeu para coçar a cabeça. – Resolveu fazer caridade?
- Meu bem, quanto você acha que ela ia pedir emprestado? Eu imagino uns mil. Por baixo, uns oitocentos. Gastei duzentos, entretive a Carla à noite toda e fiquei livre de um prejuízo maior.
- Até parece. E a carta?
- Ah, nem li e nem vou ler para não ficar com remorso. Fiz o que podia.
- Posso ler?
- Pode! Pega lá na bolsa.
O marido de Sandra foi até a sala, pegou a carta na bolsa e voltou para a porta do banheiro. Enquanto Sandra secava as pernas apoiando um pé por vez na privada, o marido recostado na porta lia a carta. Seu semblante era péssimo. Quando terminou, ao ser perguntado pela esposa se era tão ruim assim, ele respondeu que ela não iria querer saber. Foi embora, rasgou a carta e a jogou fora.
Naquela noite, certa de que fez a ação certa, Sandra dormiu com a consciência limpa. Já o marido, ficou a noite toda acordado. Era difícil pegar no sono com a certeza de que a amiga da esposa sabe que ele está a traindo com a fisioterapeuta.

Próximo conto da coleção em breve

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O fabuloso imaginário do absurdo

Conto anterior da coleção: Projeto Brasil YYY

217 dias
Com passos pesados e arrastados, Gerson subiu as escadas do seu prédio que não tinha elevador. Ele morava no último andar, na cobertura, onde era o apartamento do zelador que o alugou para fazer uma grana extra. Ao entrar em casa, foi recebido por um ar carregado que já impregnava a casa há dias e por algumas cartas ao chão que foram passadas por deixado da porta. Mesmo sabendo do que se tratava, ele se abaixou para pegá-las. Avisos de cobranças, ameaças de corte de serviço e novas faturas que igualmente às demais não seriam cumpridas. Era o fechamento com chave-de-ouro de um dia de merda. Passou dez horas na rua à procura de emprego e o máximo que conseguiu foi gastar o final de sola do seu sapato velho que tinha sido presente de três natais atrás. Entrou no banheiro, lavou as mãos e o rosto, apoiou-se na bancada e fitou o próprio rosto no espelho. Estava mais envelhecido do que nunca. Sua aparência era péssima. Gerson era o símbolo da derrota em pessoa. Ninguém daria uma chance para aquele homem. Pensou em ligar para os seus filhos, mas sabia que a ex-esposa não o atenderia. Depois esboçou um sorriso. Não tinha créditos no celular mesmo e o telefone da casa ainda fora cortado. Olhou-se no espelho mais uma vez e em voz alta disse para si que era suficiente. Estava na hora. Entrou no box, pegou a ponta da gravata e a amarrou bem firme no cano do chuveiro. Olhou pela última vez para uma saboneteira escurecida por musgo com quem se despede do pouco que tem e soltou o corpo deixando-o desabar.
Um início de cheiro de cigarro entrou no nariz de Gerson provocando incômodo. Ele acordou. O banheiro estava escuro e o cheiro de cigarro era forte. Instintivamente, ele se levantou e, ao sair do box, se deparou com um homem de pé à porta do banheiro fumando. Ele vestia um alinhado terno negro, com camisa cinza escuro e uma bela gravata escarlate. Não era possível ver seu rosto, pois pendia sua cabeça para frente e assim o deixava encoberto pelo impecável chapéu negro que usava. Gerson ficou parado e calado olhando o homem que calmamente levava o cigarro à boca, tragava e depois soltava seguidas baforadas pequenas. O silêncio permaneceu por alguns minutos até que Gerson o quebrou:
- Você é quem eu estou pensando?
- Sim.
- Como sabe em quem estou pensando?
- Porque sou quem está pensando, logo sei o que está pensando.
- Você veio me buscar?
- Eu não busco pessoas, Gerson. Eu castigo pessoas.
- Você vai me provocar dor e sofrimento então?
- Não, eu já passei dessa fase de sadismo gratuito. Isso perdeu a graça depois que lançaram 50 Tons de Cinza. Agora uso a vulnerabilidade de vocês a meu favor. Facilitando para você, porque não tenho o dia todo, coloco vocês para trabalharem para mim.
- E o que você... – Gerson iniciava a pergunta quando foi cortado pelo homem.
- Veja bem, eu não tenho tempo de sobra, então vou agilizar tudo por aqui. Você em vida cometeu 217 pecados. Foram 217 pecados. Foram 217 atitudes condenáveis que você precisa pagar agora para poder subir aos céus. Para cada pecado seu, você terá de viver um dia extra neste mundo. Contudo, você não é mais uma pessoa qualquer. Você morreu. Aliás, morreu nada! Se matou. Atitude dos fracos. Confesso que sou fã de vocês, pois são os mais fáceis de convencer. Enfim, são 217 dias vagando por este mundo, interagindo com pessoas que não desenvolverão mais laços com você. Inclusive, para elas, você nem terá mais esse rosto. Você estará vivo, mas não será você. Será outra pessoa completamente diferente, apenas com a mente que sempre teve. E nem é uma mente qualquer, né? É uma mente atordoada, não é, suicidinha?
- Então, resumindo, preciso apenas existir por mais 217 dias? Quero dizer, mais 5.208 horas iguais às minhas últimas, com a exceção de que não terei mais as obrigações mundanas de antes?
- Não é bem assim. Pode ser mais rápido, como pode ser mais demorado do que calculou. Aliás, estou impressionado com a sua habilidade. Enfim, o meu calendário funciona de maneira diferente. Para mim, o dia não acaba quando o relógio bate meia-noite. Não! O que determina um dia completo para mim, no seu caso, será quando você matar uma pessoa. Passados os 217 dias completos que me deve, sua alma poderá subir aos céus livre de todos os pecados e ficar em fim aliviada.
O homem virou-se de costas e foi embora. Gerson ficou parado no meio do banheiro ainda assimilando aquela gama de informações. Ele queria dar fim a tudo e o que acabou conseguindo foi iniciar uma considerável sequência de tarefas das quais duvidava ser capaz de efetuar.
Passado um tempo refletindo hipóteses e soluções, Gerson foi à cozinha, pegou algumas facas e um grande garfo, guardou todos na cintura da calça e seguiu escada abaixo. Chegando à rua, viu que era tarde da noite e poucas pessoas estavam pelas redondezas. Ele entrou numa rua deserta e viu uma mulher gorda que devia ter quase cinquenta anos andando só. Ela carregava várias sacolas de supermercado. Em passos pesados e com pouco ar, ela seguia rua acima como uma locomotiva cansada de viagem. Gerson apertou o passo se aproximando dela por trás. Segurou a faca pelo cabo e se posicionou melhor para enfiar no pescoço da fácil vítima. Não conseguiu. Tinha cometido 217 pecados em vida, mas não achava justo usar uma mulher inocente para pagar por um deles dentro de um conceito de justiça distorcido de uma entidade. Resolveu voltar para casa e se sentou no chão. Ficou sentado por muito tempo. Olhando o relógio na mesinha da sala calculou que permaneceu no mesmo local por uns dois dias ao menos. Não sentiu fome, nem sono. Percebeu que ficar ali parado, por mais que não resolvesse o seu problema, ao menos não criava novos.
- Você é muito burro – a voz do homem ressurgiu da cozinha junto com o cheiro do cigarro. – Existem maneiras mais inteligentes de quitar a sua dívida comigo sem entrar em dilemas morais. Ninguém lhe disse que seria fácil. A dificuldade vai se manifestar de duas maneiras distintas e cabe a você escolher com qual delas quer lidar. A dificuldade de saber que escolheu pessoas inocentes porque não ofereceram resistência é uma delas. Vai pesar na sua consciência hipócrita, mas pelo menos será prático. A outra é a dificuldade física que, ao escolher marginais, pessoas ruins e pecadores em um nível mais baixo que o seu, terá resistência, pois irão lutar e revidar até a última gota de vida, mas em contrapartida não pesarão na sua consciência. Qual vai escolher? A eternidade nas suas condições cedo ou tarde afetará seu senso crítico e escolher qualquer coisa será questão de tempo. Decida-se e ponha um fim nisso.
O homem foi embora deixando Gerson com a cabeça confusa. Ainda sentado no chão, Gerson provocava em sua cabeça uma luta ardilosa entre seus princípios e as ideias do homem. Ele refletiu por muito tempo enquanto esperava anoitecer mais uma vez. Quando a escuridão tomou a cidade, ele voltou à rua e foi em direção a uma parte do bairro que era bastante perigosa. Ficou andando sem direção e sem pressa até que foi abordado por um rapaz que lhe pediu a carteira. Era o que Gerson procurava. Sem hesitar, sacou uma das facas e partiu para cima do rapaz que não fugiu. Durante o combate, algumas de suas facas caíram e o rapaz pode pegar uma delas tornando a luta mais igual. Ao final, Gerson conseguiu matar o rapaz, mas o saldo era péssimo. Cortes e perfurações por várias partes do seu corpo. Enquanto avaliava o estrago, o cheiro de cigarro voltou ao ar.
- Parabéns – disse o homem chegando sorrateiramente por trás de Gerson. – Você conseguiu encerrar finalmente seu primeiro dia.
- Mas a que custo? Estou todo arrebentado!
- Não se preocupe. Você é diferenciado dos demais. Isso vai curar numa velocidade absurda. Em menos de quatro horas normais você estará inteiro e novo.
- QUATRO HORAS? Você tem ideia do quanto isso dói? É dor por todo o meu corpo. Eu não aguento quatro horas com essa dor. Você consegue imaginar o quanto está doendo?
- Não, não sei o quanto isso dói. Só sei que algumas pessoas não revidam, logo não devem causar todo esse sofrimento físico. Pense nisso com calma. Talvez uma dor na consciência por um curto tempo até a sua subida ao céu seja menos penosa que uma dor física por várias horas por 217 vezes. Ah, e não fique mal acostumado, pois não vou ficar aparecendo a cada dia completado. Assim eu espero.
O homem se foi mais uma vez e Gerson ficou mais confuso do que nunca. Já estava morto, o que fizesse naquele momento não seria mais considerado pecado, portanto teria acesso ao céu de qualquer forma. Talvez não fosse o momento de questionar as leis divinas e jogar de acordo com as regras. Se as condições permitiam maneiras de tornar tudo conveniente, por que não fazer?
Gerson então esperou o fim da madrugada e foi para o ponto final de uma linha de ônibus que iniciava pela manhã sempre lotada. Entrou com os trabalhadores ainda assonados e esperou o ônibus partir. No meio do caminho, sacou sua faca, atingiu um golpe bem dado no motorista e arrancou o seu corpo já inerte do banco. Assumindo o volante, sem dar chance aos passageiros que fugissem de dentro do ônibus, Gerson acelerou pela longa principal e, numa curva fechada, jogou o ônibus contra um enorme muro. Foi uma barbaridade.
- Estou impressionado, rapaz – a voz do homem e seu característico odor de cigarro despertaram Gerson que estava desacordado no box do seu banheiro. – Sessenta e seis mortos de uma tacada só. Está de parabéns!
- Ué, voltei ao meu banheiro?
- Aparentemente, você também morreu no acidente, então te trouxe de volta para cá.
- E cada um deles serviu como um dia completo?
- Sim, rapaz, cada morte no acidente serviu como um dia completo. Parece que você está finalmente entendendo como funciona.
Assim que o homem saiu, Gerson voltou para a rua em direção ao ponto final. Segundo seus cálculos, mais três ônibus daquele, ou dois um pouco mais cheios, e ele estará na paz eterna do céu. Chegando ao ponto, um policial estranhou aquele homem ansioso pela saída do ônibus. O policial então abordou o Gerson, fez a revista tradicional encontrando as facas e o prendeu.
Na prisão, Gerson foi colocado numa cela separada onde, na companhia de um senhorzinho preso por um pequeno furto, aguardava para ser transferido para uma das celas coletivas. Entendendo que não tinha o que perder e querendo ganhar tempo, ele aproveitou que seu companheiro de cela é uma pessoa frágil e partiu para cima dele. Golpeando a cabeça do senhorzinho contra as grades, Gerson conseguiu sucesso na sua ação. Somente bem depois que os guardas apareceram. Estupefato com o ocorrido, o diretor da penitenciária transferiu o Gerson para a solitária e o avisou que ficaria por lá por tempo indeterminado. Gerson se viu acuado. Ficar isolado naquelas condições atrapalhava seus planos. Constatando que sua caminhada rumo ao céu estava emperrada, ele entrou em desespero e enxergou apenas uma solução. Improvisando suas calças como uma corda, ele se matou enforcado.
- Mas é um suicidazinho por natureza mesmo – a voz do homem surgiu com seu tradicional cheiro de cigarro.
- Era a única solução que... Ei! Por que ainda estou aqui? Não deveria acordar no meu banheiro?
- Você que se meteu nesse problema. Agora você que se vire sozinho.
- Peraí! Eu preso aqui não é benefício algum para nenhum de nós dois. Só vai emperrar meus planos e ocupar seu tempo comigo.
- Se vira – disse o homem antes de ir embora atravessando o robusto portão maciço de ferro.
Gerson voltou a entrar em pânico. Aquilo era inadmissível para ele. Algo precisava ser feito. A única maneira naquele momento de tentar ajustar o placar a seu favor seria atacando os guardas quando entregassem as refeições. Todavia, com ou sem sucesso, isso só prolongaria mais ainda seu tempo pela solitária, comprometendo cada vez mais sua ascensão ao céu. Não se esquecendo de que após o primeiro incidente, eles teriam mais cautela com o Gerson tornando quase impossível um novo ataque. Sim, algo precisava ser feito e Gerson possuía limitações de ideias à sua disposição. Recorreu às calças como corda novamente.
- Além de suicidazinho, é um teimoso – disse o homem ressurgindo na escuridão.
- Onde estou? Ah, obrigado! Nunca fiquei tão feliz em voltar para o meu banheiro.
- É, mas não vai se acostumando. Foi desta vez apenas porque estava em uma sinuca de bico...
Gerson dessa vez nem esperou o homem terminar de falar e sair. Ele mesmo partiu em disparada agradecendo mais uma vez e depois se despedindo. Gerson foi correndo a uma conhecida loja de utensílios de construção na região que algumas pessoas sabiam que vendia armas ilegalmente nos fundos. Chegando lá, disse claramente suas intenções e um atendente o levou para os fundos. A loja estava quase fechando e só estava o tal atendente por lá. Gerson se desculpou e, antes que o atendente pudesse entender do que se tratava o pedido de desculpas, pulou com uma faca em cada mão na sua direção. Foi tudo muito rápido. Com o corpo do rapaz ainda quente estirado no chão, Gerson saiu com duas sacolas cheias de armas diretamente para casa. Somente uma coisa existia em sua mente, encerrar essa contagem o quanto antes.
Gerson estava mudado com tanta pressão por encerrar com tudo de vez. A influência do tal homem era evidente e crescente. Seu ar de depressivo e derrotado foi mudando para colérico e inconsequente. Não era mais um homem fracassado. As pessoas, ao se depararem com ele na rua, viam um homem claramente perigoso e instável. Imponente e decidido, Gerson voltou ao tal bairro perigoso em direção a uma conhecida boca-de-fumo. Os chamados soldados do tráfico, mesmo armados, foram surpreendidos por um homem louco com armas em mão atirando para todos os lados. O efeito surpresa foi favorável ao Gerson que não possuía uma mira muito boa, nem mesmo traquejo para o manuseio das armas. No primeiro minuto de tiros, confusos com o que acontecia, as vítimas foram alvos fáceis para o Gerson. Depois, o jogo mudou de cenário e começaram a revidar. Ao final, seis traficantes mortos, além do Gerson que foi alvejado.
- Boca-de-fumo com homens armados – disse a voz acompanhada pelo cheiro de cigarro acordando o Gerson. – Vou repetir. Boca-de-fumo com homens armados. Quando eu achava que você estava ficando esperto, você não dá um passo para trás regredindo. Você dá um pulo. Qual o seu problema, homem? O que você tinha em mente?
- As coisas não saíram como eu planejei... – Gerson foi interrompido pelo homem.
- Não saíram como planejou? O que tinha planejado? Seja honesto comigo, porque tudo que consigo imaginar era você morrendo logo cara.
- Minha expectativa era surpreender todos e não restar um sequer. Daí, sairia sem maiores problemas.
- Homem. Homem. Estou começando a achar que seu único talento é se matar. Qual a sua limitação cognitiva de entender que, procurando por pessoas ruins, elas revidarão dificultando o seu trabalho? Pare de se preocupar com consciência, inocência e pessoas boas. A morte é uma certeza que não tem para onde fugir. Imagine da seguinte forma. Você antecipando a morte de uma pessoa inocente, provavelmente ela terá menos tempo de vida, logo potencialmente terá cometido menos pecados. Fato que nos leva a concluir que ela precisará de menos tempo nessas condições que está agora. Veja que lindo! Você vai minimizar os problemas dessas pessoas no pós-morte. Facilite o seu lado, homem. Agilize as coisas. Você ainda tem 139 mortes pela frente. Ou dias, se prefere colocar dessa forma mais purista.
O homem se vai e mais uma vez Gerson fica confuso. A ordem do universo não podia ser algo tão equivocado como aquele homem dissera. Na cabeça de Gerson não fazia o menor sentido. Ele chegou a relembrar da vida real. De como as coisas eram de verdade. Sim, existiam loucos que aleatoriamente matavam pessoas. Pessoas más que só traziam maldade. Estaria então explicado de onde elas surgem e suas motivações? Sim, talvez estivesse. Só que na matemática a conta não fechava. Muitas pessoas precisariam pagar por seus pecados após morrer e, por isso, o número de pessoas más deveria ser proporcional a essa quantidade. Todavia, nem chegava perto. Será que poucas pessoas após morrer aceitavam o discurso que vale qualquer coisa para pegar os pecados? E se fossem poucas, o que as outras faziam? Aceitavam matar apenas as pessoas más? Ora, não existiam tantos relatos de justiceiros assim no mundo. Não, a conta não fechava. Para fazer sentido, era necessário entender que existia uma quantidade quase obscena de pessoas vagando por aí se negando a pagar pelos seus pecados naquelas condições. Bem, se fosse realmente isso, onde estariam? Não, as contas não fechavam.
- É isso! As contas não fecham – Gerson exclamou em voz alta.
O homem disse que Gerson precisava pagar por 217 pecados. Logo, pagaria com 217 dias ou 217 mortes, se assim preferisse falar. Antes de sair, o homem afirmou que ainda existia um débito de 139 mortes. Gerson, mesmo fracassado na vida profissional, sempre foi bom em matemática e em fazer contas rapidamente. Com esses valores, ele concluiu que o homem contabilizou 78 mortes. Foi ali que ele enxergou a sua brecha. Pelas suas contas, ele tinha matado um trombadinha na madrugada, sessenta e seis pessoas num ônibus, o idoso na cela e seis traficantes. Isso totalizava 74 pessoas. Faltavam quatro na contagem feita pelo homem. Esses mesmos quatro se referiam ao próprio Gerson que morrera quatro vezes durante esses processos. Isto é, qualquer morte valia, inclusive a própria. Gerson tinha sua solução. Bastava se matar mais 139 vezes. Contudo, tinha percebido que o homem nunca mencionara tal possibilidade, tampouco exposto a contagem. Portanto, precisava ser discreto quanto a isso. No início, foram pequenos suicídios leves com a desculpa de consultar o homem.
- Eu vou falar pela última vez – disse o homem em tom sério e intimidador. – Pare com isso! Está me irritando e você não quer me ver irritado. Se você tem mais alguma dúvida, que tire agora. Não aceitarei você ficar me invocando para perguntas tolas sobre poder encontrar as suas vítimas para fazer uma reunião de novos amigos de afazeres.
Gerson não inventou uma nova desculpa e o homem foi embora. A contagem, que agora era controlada minuciosamente por Gerson, tinha chegado em 93. Faltavam 124 ainda. Isto é, faltavam 124 maneiras criativas de se matar sem que o homem percebesse. A primeira já estava planejada e Gerson colocou em prática.
- Você é muito burro – falou o homem com seu inseparável cigarro acordando o Gerson mais uma vez. – O que você pensou desta vez? Por favor, seja sincero. Estou muito curioso em saber qual foi o seu plano mirabolante desta vez.
- A minha proposta era provocar uma briga generalizada numa torcida organizada e, assim, contabilizar várias vítimas ao final.
- Veja bem... – o próprio homem se interrompe para dar uma maior dramaticidade à sua fala. – Até faz sentido o seu plano. Faz mesmo. Preciso ser sincero. O problema foi você entrar no meio de uma torcida organizada com a camisa do time rival. Era óbvio que você seria espancado. Eles não tiveram dó de você mesmo. Preciso dar os parabéns a eles. Já a você... bem... a você só me resta rir. Sequer uma “mortezinha” junto da sua. O máximo que conseguiu foi machucar a mão dos que tanto te bateram. Eu vou embora para não rir na sua frente.
Lá estava Gerson só novamente no seu banheiro. Entretanto, o ambiente era completamente o oposto do que estava começando a se habituar. Se antes ele ficava cercado de agonia e indecisão sobre como resolver sua suposta evolução espiritual, agora ele estava aliviado e vendo as coisas andando a seu favor. A primeira simulação surtiu com sucesso. Só lhe restava prosseguir com o plano usando o máximo de imaginação possível.
- Não, não era uma ideia genial. Você é muito burro! Se jogar debaixo de um trem no intuito de provocar um descarrilamento é uma péssima ideia. Só uma mente confusa como a sua acharia que isso daria certo.
O roteiro seguia na maneira planejada. Gerson bolava as piores ideias para o tal homem, mas, na verdade, eram suicídios geniais. Ele pulou de um prédio querendo supostamente acertar uma massa de pessoas, porém, errou nos cálculo e caiu em cheio na marquise. Tentou roubar um tanque de um quartel e, obviamente como era esperado, foi alvejado nos primeiros passos. Apesar de muitas das suas ideias possuírem uma essência similar entre si, não se pode dizer que ele repetiu uma sequer.
- Como assim você engoliu gasolina e com um isqueiro tentou ser um dragão humano? Você não pode ser tão burro.
Não, Gerson não era burro. Seu fracasso profissional era culpa de sua baixa autoestima e falta de preparo. Todavia, nunca foi um cara burro. Era esperto até demais. Tanto que provou a si mesmo ao colocar em prática o mais louco plano na tentativa de se matar 139 vezes. E não eram 139 simples mortes. Eram 139 mortes diferentes e dissimuladas, por assim dizer. Em determinado momento, por mais estranho que isso possa soar, Gerson começou a achar divertida a brincadeira. As dores provocadas antes das mortes por pancadas e outros ferimentos nem o incomodava mais. Não seria surpresa se alguém visse Gerson com um baita sorriso estampado no rosto a caminho da sua suposta morte mais uma vez. A cada nova morte estapafúrdia, mais próximo da ascensão ele se encontrava. Por isso, era um momento de regozijo. Gerson poderia finalmente elevar sua alma.
- Você por aqui? – perguntou o Gerson espantado com a presença do homem no seu banheiro. – Tem tempo que não aparece para me receber. O que houve?
- Eu percebi o que estava fazendo. Eu sabia desde o início. Não se esqueça de quem eu sou e do que sou capaz de fazer.
- Isto significa que estou encrencado?
- Não, eu não vim para isso. Estou aqui para dizer que resta apenas uma um dia. Mais uma única morte e estará tudo encerrado.
- Então eu consegui?
- Sim, podemos dizer que conseguiu.
- Posso então encerrar de qualquer forma essa última?
- Não!
- Não?
- Não! Eu que irei fazer isso. A última será minha. Está pronto?
- Estou. – Gerson então mudou de ideia rapidamente e se interrompeu. – Espera! Quero lhe fazer uma pergunta.
- Pois faça.
- Tentei entender como as coisas funcionavam. Onde estavam todas as outras pessoas que morreram e precisavam pagar pelos seus pecados. O que elas decidiam fazer?
- Isso que você passou não serve para todos. É algo que só é feito aos suicidas. A proposta é testar até que ponto você consegue recuperar a sua humanidade que foi perdida ao ponto de dar cabo pela própria vida. Você precisou de pouco tempo para se sentir desconfortável com o que lhe foi oferecido e, no intuito de ser uma pessoa melhor, encontrou a uma solução razoável. Posso prosseguir?
O homem fez apenas um gesto com a mão à distância na direção de Gerson que apagou. Um tempo depois, Gerson acordou novamente em seu box sentado no chão e, por isso, nada entendeu. Tateou o corpo e estava vivo. Mais vivo do que nunca. Ele não tinha morrido. Sua primeira tentativa de se matar falhara. Ele caiu no chão e, com o impacto, desmaiou. Foi tudo um sonho. Foi um aviso. Foi um grande aprendizado e ele assimilou direito. Nunca mais ficaria para baixo. Lutaria até o fim pelo sua vida e o sucesso dela. A partir daquele momento, um novo homem surgiu. Confiante, determinado e otimista.
Gerson então se levantou e sentiu um peso. Na ponta da sua gravata estava amarrado o chuveiro. O cano não tinha aguentado seu peso e se rompeu, foi assim que ele caiu e desmaiou. Com o chuveiro e parte do cano em mãos, Gerson de frente para o espelhou quebrou a sua promessa de nova vida e se lamentou pela primeira vez:
- Droga! O proprietário vai descontar isso no meu aluguel.

Próximo capítulo da coleção: Neguinha