sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Volúvel

Viviane
- Pode sentar logo e desembuchar essa história.
Foi assim que a Julia me recebeu no bar. Sem entrar no mérito de ela estar na metade de um chope, mesmo eu não estando atrasado. A Julia não aguentava mais as minhas lamentações em doses homeopáticas por mensagem de celular. Na ânsia de curar a sua curiosidade mórbida pela minha desgraça, ela marcou aquele encontro para conversarmos pessoalmente. Obviamente, ela também queria me ajudar, mas, convenhamos, essa era uma motivação secundária.
- Eu quero saber do início – ela me interrompeu quando falava de um fato já no meio da cronologia. – Vai contando que peço outro chope para mim e um para você.
O início foi numa noite que estava andando por Laranjeiras. Não lembro ao certo o que estava a fazer por lá. Só sei que me sentei em uma lanchonete para comer alguma coisa rapidamente quando senti uma mão no meu ombro. Era a Viviane. Tinha sido minha aluna e se formou recentemente. Convidei-a para se sentar do meu lado e ficamos jogando papo fora. Aquela coisa de sempre. Como estão as coisas? Saudades da faculdade? Está trabalhando? Lugares comuns para ver se a conversa fluía. Cedo ou tarde, um dos dois teria de se levantar para seguir a vida mesmo.
- Tá, e o que aconteceu? – perguntou a Julia.
A conversa fluiu. Principalmente quando perguntei sobre a carreira de cantora que ela sempre levou em paralelo. Era evidente que a faculdade seria usada por ela como uma segunda opção para dar suporte financeiro e, assim, permitir que se dedicasse mais à carreira musical. Viviane ficou impressionada por ter me lembrado desse detalhe de sua vida e desandou a falar sobre a carreira. Aparentemente, ela era mais iludida por propostas vazias que qualquer outra coisa. Vira e mexe aparecia alguém dizendo estar impressionado com a voz dela, ou que pretendia montar um projeto no qual ela se encaixaria perfeitamente. Dias depois, sumiam ou desconversavam com alguma mudança repentina de planos. Todavia, ela sempre foi patologicamente otimista e, por isso, não se abalava.
- Poxa que chato para ela – a Julia lamentou.
Ela era feliz assim e isso que importava. De qualquer maneira, senti que o tom que ela deu era um pouco carregado de lamentação. Achei então que cortar repentinamente o assunto e ir embora, porque já tinha terminado o que tinha para fazer na lanchonete, seria indelicado. Perguntei se ela queria esticar a conversa em um bar do outro lado da rua e ela topou. É incrível como tudo muda quando se sai de uma lanchonete e vai para um bar. O ar é mais convidativo para conversar. O papo fica mais leve.
- Não se esqueça do álcool que começa a entrar para a verdade sair. – Julia foi pontual.
Falamos sobre vida pessoal, família, problemas com o proprietário do apartamento e antigos namorados. Tudo regado a alguns chopes e uma dose de tequila que pedi para brindarmos a sua formatura, coisa que jamais tinha feito com ela. Nunca tinha conversado tão abertamente com a Viviane, mesmo com quatro anos de faculdade. Isso foi algo que os dois notaram em determinado momento e tentamos entender o porquê disso. A versão dela era sustentada pelo fato de ser tímida. Tanto que raramente me procurava para tirar dúvidas, inclusive. Já o meu motivo, ela não compreendia. Eu sempre fui o irreverente, despojado e falador. Pois a verdade era que, com ela, eu travava. Sempre tive um problema sério com ela. Desde o primeiro período, a Viviane era a mais madura da turma em um nível muito acima das outras meninas da turma. E isso não era apenas porque ela era um pouco mais velha. Isso ficava discrepante se comparássemos com as que estavam se formando na mesma época. Não bastante, ela sempre foi uma graça. Toda pequena, mignon e com uns olhos claros capazes de fazer a Medusa virar pedra se os encarasse.
- Você disse exatamente isso para ela?
- Aham.
- E ela?
Houve aquele momento de silêncio. Não sabia ao certo o que esperar dela e, ao mesmo tempo, tampouco o que realmente gostaria de ouvir. Ela ficou parada com aqueles olhos enormes na minha direção. Até que, em certo momento, abaixou a cabeça, esboçou um sorriso e, ao voltar os olhos para mim, reclamou que era um absurdo, depois de quatro anos, só naquele momento estava anunciando aquilo para ela. Ora, falar isso para uma aluna pode soar como assédio sexual até para o juiz mais machista. Ela riu, me chamou de bobo e bebeu o resto de chope em um gole só. Junto com o folego que é retomado após um longo gole, surgiu a coragem para que me dissesse que adoraria ter ouvido aquilo desde o primeiro período. Pronto. Estava travado de vez. Abaixei a cabeça e não sabia como reagir.
- Como, seu pateta? – Julia disse indignada. – Você deveria ter se levantado e lascado um beijo nela.
Eram muitos fatores desfavoráveis naquele momento. Não bastante estar travado, estávamos em um local público com bastantes olhos ao redor. Para completar, a geografia da coisa não ajudava muito. Estávamos em uma mesa quadrada, um de frente para o outro. O que deveria ter feito? Debruçar-me sobre a mesa e beijar a Viviane? Pareceria uma atitude esganada da minha parte. Sem citar no desconforto que potencialmente faria o beijo durar segundos. Deveria me levantar, dar a volta na mesa e, de pé, beijar a Viviane ainda sentada? Uma coisa meio Bela Adormecida, meio enfermeiro atendendo paciente em ambulatório? Deveria ter feito com que ela ficasse de pé e a beijado em seguida? Seria uma cena de filme. Ainda mais se durante o beijo o gerente do bar gritasse que sairia uma rodada por conta da casa. Não, nada disso aconteceu.
- Você é um lerdo mesmo – Julia se revoltou. – Você deveria ter beijado a menina. Como, eu não sei. Mas deveria. De qualquer jeito que fosse, era deixa e você, lerdo como sempre, desperdiçou.
Não tinha como argumentar. A oportunidade talvez não fosse a mais apropriada, contudo era real. Foi desperdiçada. Ao menos, pelo resto da noite, continuamos especulando sobre nós dois. Flertarmos até demais da conta e, ao fim, não existia dúvida. O interesse era mútuo e grande. Tanto que, mesmo tendo deixado claro umas três vezes que precisaria acordar muito cedo no dia seguinte, ela ficou até tarde comigo por lá. Quando finalmente o bar fechou, acompanhei a Viviane até a porta do seu prédio. Algo por volta de umas duas quadras de onde estávamos. Lá, em uma rua deserta, em plena madrugada carioca, finalmente rolou nosso beijo. Ele encaixou e é ótimo quando isso acontece. Movimento, intensidade, pressão. Tudo alinhado, quase que ensaiado. Depois, nos despedimos e combinamos de nos vermos assim que ela voltasse.
- Você é muito mané mesmo.
- O que eu fiz desta vez?
- O que? Não sabe? Você não pode ser tão burro – Julia para a surra por alguns minutos e se dirige ao garçom. – Mais dois chopes, por favor.
- O meu é com pouco colarinho.
- Até nisso é bunda mole. Enfim, a menina deixou claro que te queria. Você queria. E, ao invés de saírem de lá para outro lugar, ficaram horas falando sobre o que um adoraria fazer com o outro.
- Ah, não era bem assim.
- Era para você estar sentando o pau nela. Aposto que ficaria gamadinha de primeira.
- Não fala assim, menina doida.
- Não fala assim, menina doida? Por quê? Estou manchando a imagem imaculada dela? Não acredito que você está endeusando ela.
- Não, não estou coisa... – a Julia me interrompe.
- Você está romanceando esta história. Eu sabia! Você está endeusando ela.
- Para!
- Paro nada! Eu te conheço. Se fosse outra, teria a convencido a transar no banheiro do bar mesmo. Como endeusou a menina, vai trata-la como se fosse uma boneca.
- Que exagero!
- Eu conheço umas dez histórias suas trepando em locais públicos.
- Mas não era o caso, né, Julia?
- Tudo bem. Só que também poderia ter ido para outro lugar ou aproveitado melhor a noite.
- Eu travei. Travei! Entendeu? Travei! A de amor, bê de baixinho, cê de caralho eu travei.
- Idiota – a Julia riu e recebeu os chopes do garçom. – E aí? Se viram depois?
Fomos ao cinema. Ela curtia um programa alternativo e escolheu um dos piores filmes que já vi na vida. Era um documentário sobre uma desconhecida que tinha uma vida mais entediante que a pilha do meu controle remoto. Nada acontecia no filme. Era um tédio. Talvez a lição do filme fosse sobre refletirmos nossas vidas e percebemos que estamos reclamando desnecessariamente. Ou era um teste coletivo para potenciais suicidas. Não tive muita certeza.
- Ótimo! Grande desculpa para agarrar a menina de jeito.
- Eu não queria atrapalhar o filme que ela escolheu.
- Como uma deusa... você me mantém.
- Eu não estou endeusando ela.
Ora, eu não sabia se ela ainda estava interessada no filme ou se podia aproveitar o tédio para nos agarrarmos. Isso é muito ruim em início de relacionamento que não temos intimidade o suficiente. E quando o filme é bom, mas tem um momento de pausa na trama? Dá para se distrair com uns amassos? E se os amassos estão bons e o filme volta a ficar animado? É ruim perder o filme? Ou devemos cortar o barato? É um sensível código de postura que não queria demonstrar desconhecimento logo no segundo encontro. Deixei o filme o rolar sem interrupções. Ou, melhor dizendo, continuei sendo torturado sem distrações.
- Eu não acredito que logo você está racionalizando isso. Ela quer mais é ser agarrada. A menina provavelmente estava desejando que você virasse um polvo e caísse para cima dela. E o que o bobão aí fez? Ficou fazendo cara de intelectual ao lado dela. Você devia ter chamado a menina de massa de pizza e enchido a mão.
- Que horror, Julia.
- Horror é você parado como se fosse o tio dela. Apesar de que, dependendo do tio, era bem possível que estivesse bolinando a menina.
- QUE HORROR, JULIA!
- Estou ofendendo mais uma vez a moral da sua deusa?
Eu entendia o que a Julia tentava me dizer. Obviamente, ela estava pesando a mão no argumento. Apesar de saber que, para muitas pessoas, aquilo era o mínimo. Inclusive eu. Todavia, não adiantava. Respeitei os intermináveis cento e dezoito minutos de filme sem uma interrupção sequer. O desejo de agarrar a Viviane era enorme e esperava que por parte dela fosse o mesmo também, mesmo com ela dando raros sinais disto. Aliás, é preciso registrar que Viviane era uma menina de muitos atributos, contudo não tinha o menor talento para demonstrar emoções. Sua frieza era próxima a uma interpretação do Nicholas Cage com má vontade. Era impossível saber se estava feliz, chateada, interessada na conversa ou viva. Em diversos encontros, cogitei me levantar e ir embora. Era desesperador e frustrante.
Saindo do cinema, era necessário levar a Viviane para outro lugar. Não conseguiria encerrar o encontro tão cedo, mesmo para um dia de semana. O meu lado pervertido sussurrou ao meu ouvido a ideia de irmos para um motel. A ideia de levar para a minha casa também soaria interessante. O problema foi que meu lado alcoólatra gritou por um bar. Como só funciono sob pressão, a vontade do grito prevaleceu. Lá estávamos nós sentados um de frente para o outro em um bar.
- Você é muito burro!
- Você sabe bem que não sou, Julia.
- Exato! Por isso estou estranhando. Eu não acredito que seja você nessa história – ela complementou e depois levantou a tulipa vazia. – Garçom, mais dois, por favor.
De fato, estava desajeitado em um nível muito além do meu normal. Contudo, existiram evidências naquele encontro que fariam qualquer um me reconhecer. Topando a minha proposta, Viviane aceitou fechar todos os bares naquela madrugada de quarta-feira. Não suficiente, ela me mostrava um novo talento, conseguir me acompanhar na bebida. Algo sempre consideravelmente impressionante para qualquer pessoa, além de ser uma notória característica para quem quisesse se candidatar ao posto de Senhora Traste.
Quatro bares foram fechados. O último, cinco e quinze da manhã sob olhares fatais de trabalhadores a caminho de suas fontes pagadoras. Estávamos bêbados em um nível fora do imposto pela sociedade para dias úteis. Não tinha a menor condição de pegar a moto que foi deixada pela zona sul mesmo. Tínhamos duas opções. Ou esperávamos o Metrô abrir, ou pegaríamos um táxi. De qualquer forma, dois copos de 500 ml cheios até a boca foram providenciados. Seja para a espera, seja para o trajeto, a dose não seria suficiente. Escolhemos o táxi e, alguns quarteirões antes da minha casa, os copos estavam vazios. Depois de saltar do táxi e atravessar a rua para entrar em casa, reparei que a Viviane estava sem um dos sapatos. Ela estava literalmente com um dos pés no chão. Gritamos para o táxi que parou. Checamos todo o seu interior e nada do outro pé do sapato dela. Viviane estava tão bêbada que perdeu um dos sapatos em Botafogo e sequer percebeu. Talvez tivesse perdido antes de o quarto bar fechar. Ou até mesmo antes. Ela não se lembrava. E seria impossível de se lembrar pois, além de completamente bêbada, ela teve uma crise de riso com aquilo que sequer conseguia falar. Nunca tinha a visto daquela forma, completamente à vontade. Ela estava solta, leve e divertida. Estava mais sexy do que nunca.
- Imagino que tenha entrado e trepado com ela.
Subimos para a minha casa com muita dificuldade. A escada é íngreme e em curva. Se estando bêbado já é um desafio, imagine estando bêbado com uma crise de risos. Não somente conseguimos, como também nos agarramos por lá mesmo. Era indiscutível como o álcool me destrava em situações como aquelas. Talvez não precisasse de uma dosagem tão alta, todavia era eficiente. Entramos e fomos direto para o quarto. Uma blusa ficou na escada, uma camisa no corredor, uma meia aqui, outra acolá, calça perto da porta do quarto e o resto ao redor da cama. Embolados, quase como uma pessoa só, caímos nus sobre a cama.
- FINALMENTE – gritou a Julia assustando pessoas em mesas próximas à nossa.
- Dormimos.
- O QUE?
- Exato! Desmaiamos bêbados e caímos no sono – levantei então minha tulipa. – Garçom, mais dois, por favor.
- Isso é inacreditável!
Inacreditável mesmo era a imagem que tive ao acordar. Mesmo sendo destruído por dentro por uma ressaca provocada provavelmente pelos meus órgãos querendo me abandonar, fiquei pasmo com aquela cena. Viviane dormia nua ao meu lado. Por estar de bruços, sua bunda ficava perfeita, além de ser do tamanho exato para uma menina daquele tamanho. Seus braços estavam abertos sobre a cabeça com os cabelos desarrumados, o que a deixava mais sexy ainda. E, pela primeira vez, aquele rosto sem expressão estava de acordo com o todo. Viviane transmitia uma serenidade sem perder a sua sensualidade. Era um dos raros momentos da minha vida que valeu a pena acordar cedo.
Ao voltar do banheiro, depois de vomitar uma quantidade de coisas que desconhecia que meu corpo fosse capaz de armazenar, voltei ao quarto. Viviane ainda dormia, inabalada. Aproveitei que estava na mesma posição e comecei a beijar todo seu corpo. Pernas, costas, bunda, pescoço, lateral do corpo. Fiquei um pouco assustado com a demora dela para acordar. Talvez minha abordagem fosse insignificante a esse ponto. Eis que ela finalmente acordou. Esticou os braços lateralmente e voltou à mesma posição para que continuasse fazendo o que fazia antes. Poderia ficar o dia todo fazendo aquilo. Ainda mais com ela acordada reagindo aos meus beijos. Claro que sua reação era dentro da apatia habitual. Ainda assim, era possível saber onde estava acertando, principalmente. Como a coisa foi ficando mais animada, deitei-me sobre ela, concentrei os beijos em seu pescoço e o resto da energia ficava por conta dos movimentos me esfregando nela. Conforme esquentava, os movimentos e intensidade dos beijos também aumentavam. Até que, em certo momento, perguntei se queria ouvir uma sacanagem. Viviane apenas movimentou assertivamente a cabeça. Aproximei minha boca de seu ouvido e perguntei se ela queria ouvir uma putaria. Ela em um tom de voz bem baixo, quase miando, disse que sim. Então falei sem hesitar que precisava me levantar e ir para o trabalho.
- AH VAI SE FUDER – Julia deu mais um susto nas poucas pessoas que resistiam no bar.
- Eu tinha uma reunião com a diretoria. Foi até por isso que marcamos um cinema cedo. Pelo menos... – Julia me interrompe.
- Pelo menos o que? Passou o dia todo de pau duro com o saco doendo? A menina passou o dia todo excitada subindo pelas paredes?
- Não é para tanto.
- Não é para tanto? Eu, só de ouvir isso, fiquei toda molhada aqui.
- Garçom, mais dois chopes e uma porção de guardanapos, por favor – disse para o garçom que se aproximava e provavelmente ouviu a fala da Julia. – Pelo menos, a coisa destravou. E destravou no dia seguinte, comigo sóbrio. No próximo encontro as coisas fluiriam melhor.
- Tá, tá bom. Então fala do encontro seguinte.
Antes que pudesse falar do encontro seguinte, o garçom trouxe os dois chopes pedidos e a conta. Tínhamos perdido completamente a noção do tempo e o bar estava prestes a fechar. Sugeri à Julia que fossemos para outro local, entretanto, naquela madrugada de segunda-feira, poucas opções estariam funcionando. E, de fato, não tínhamos outra opção à nossa disposição. Pedimos ao garçom então meia dúzia de garrafas de cerveja geladas e seguimos para a minha casa.
- Já tem outras na geladeira – disse a Julia enquanto guardava as seis garrafas que levamos para a viagem.
- Eu sei. Achei que seria pouco, daí, peguei mais seis.
- Não basta dormir no meio do sexo com a sua deusa, vai dormir no meio da conversa comigo?
- Claro que não, baby. Você consegue me manter acordado.
- Não fala isso. Não fala isso porque ainda estou molhada daquela descrição – Julia então riu, abriu a primeira, serviu em dois copos e, se sentindo mais em casa do que nunca, tirou os sapatos e se jogou no sofá. – Vai! Prossiga! Depois da foda interrompida pelo desmaio e o corta tesão pela manhã, teve ou não teve outro encontro?
Era mútua a incapacidade dos dois passarem o resto da semana com aquele fogo acumulado. Postergar um próximo encontro colocaria em risco qualquer tentativa da coisa andar para frente. Sem citar no embalo de já estarmos mais a vontade um com o outro. Foi marcado um novo encontro então na sexta daquela mesma semana. Isto é, menos de quarenta e oito horas depois.
Viviane queria alguma coisa fora da cerveja. Sugeri um vinho na minha casa. Minha ideia era sair dos lugares-comuns de antes que nos forçavam a ficar de papo, quando, na verdade, tudo que precisávamos era de ação. O vinho ajudaria a criar um clima, soltaria um pouco a conversa, afetaria a inibição inicial e, depois, já estaríamos a sós para darmos prosseguimento ao que estava pendente.
- Finalmente estou te reconhecendo. Criando o ambiente certo para o abate – Julia comentou de maneira contundente.
- Levar para casa, oferecer uma bebida e depois tirar a blusa?
- Isso! Agora está falando a minha língua.
- E por que ainda está de blusa?
- Já disse para parar com isso. A coisa está a perigo aqui – ela riu e prosseguiu. – Continue, por favor.
A Viviane chegou e abri a primeira garrafa de vinho. Branco. Foi a pedido de dela. Três garrafas de vinho branco por toda uma noite. Um pesadelo para mim. Não apenas pela parte da preferência do meu paladar. Confesso que o vinho branco está na linha mais baixa da minha lista de predileções alcoólicas. O problema residia também no fato de ser uma bebida que comigo costuma descer com mais velocidade por considerar fraca. Eu e minha mão nervosa de virar copos, taças no caso, faríamos um estrago naquela noite. Com menos de uma hora de conversa, Viviane permanecia com sua pequena taça ainda ocupada pela mesma primeira dose que servi. Ao mesmo tempo, o resto da garrafa tinha sido terminado por mim em goles longos. O vinho estava estupidamente gelado, a noite estava quente e tudo que queria era encerrar logo as três garrafas para darmos prosseguimento aos planos agendados. O ritmo assim foi mantido por exatas duas horas e meia. Viviane falando muito e bebendo o seu vinho em doses homeopáticas, enquanto eu numa crise de camelo chique secava uma garrafa atrás da outra.
Quando levei a terceira garrafa vazia para a cozinha, gritei para que a Viviane me ajudasse a escolher outra coisa da geladeira. Na realidade, não queria que ela escolhesse coisa alguma. Era apenas uma desculpa para que se levantasse da mesma posição que se prostrou na cadeira assim que chegou. Mesmo após três taças consumidas em uma velocidade sonolenta, ela permanecia com a expressão indiferente que tanto me deixava desconfortável. Precisava ignorar aquilo e dar prosseguimento aos planos da noite na expectativa que ela acompanharia meio que pegando no tranco. E foi o que fiz. Assim que entrou na cozinha, encostei a Viviane na parede da cozinha e a agarrei. Nada de beijo romântico, com parcimônia e cautela. Foi já no mesmo calor que interrompemos naquela manhã recente. Ela me acompanhou fazendo surgir uma nova mulher naquela casa. Com os braços cruzando a minha nuca, ela trazia minha cabeça para mais perto da dela, dando pressão ao beijo e deixando entender que não era para interromper tão cedo. E não pararia mesmo. Com uma das mãos em sua nuca e a outra em sua cintura, puxava a Viviane para mais perto ainda. Sempre com a mão cheia e fazendo pressão. Meu quadril, em sentido oposto, pressionava o quadril dela e, por consequência, ela toda contra a parede. Por sorte morava em uma casa antiga de alvenaria resistente. Caso fosse num desses apartamentos modernos com cômodos separados por drywall, já teríamos atravessado as paredes do corredor e teríamos caído no meu escritório. Naquela pressão descontrolada, um quase devorando o outro, posicionei uma das minhas pernas entre as dela. A minha coxa sarrando a Viviane foi a gota d’água para que ela se “desmontasse”. Seus braços perderam a pressão, sua boca descolou da minha e seu rosto se virou para o alto. Com o pescoço me sendo oferecido, esfreguei a barba por ele todo. Completamente ofegante, ela se soltou, jogando todo seu peso sobre a minha coxa e ampliando a esfregação. Naquele momento, Viviane não oferecia mais reação. Estava toda à minha disposição. A barba que antes estava no pescoço, desceu por um dos ombros derrubando a alça da blusa. Depois, seguiu por seu colo até que, entre seus peitos, a boca voltou ao serviço. Ao mesmo tempo, com as mãos segurando sua cintura com força, movimentava o quadril de Viviane contra a minha coxa. Ato que a fez reagir, parar de ficar passiva às minhas investidas e começar a rebolar no ritmo que a mexia. Estava tão focado na ação que ali rolava, que não tinha notado que a Viviane sequer estava com os pés no chão. Seu corpo naquele momento estava todo apoiado pela virilha na minha coxa. Suas mãos apoiadas firmemente na parte de trás da minha cabeça mantinha a minha boca presa aos seus seios e confesso que a última coisa que queria era tirá-la de lá. Todavia, a volúpia da situação somada à vontade acumulada urgia por mais. Aproveitei que os pés de Viviane não tocavam mais o chão mesmo e entrelacei suas pernas na minha cintura. Ela tentou falar algo porém, tudo que saiu com gemido cheio de ar. Nessa hora que abri os olhos e tudo estava turvo. O álcool estava batendo com força e ficar de pé por mais tempo seria correr riscos de algo constrangedor. Com a Viviane ainda pendurada em mim, andei até o quarto. Caminho o qual ambos notaram que não foi feito em linha reta, tampouco em segurança. Mesmo assim, chegamos inteiros ao meu quarto, onde a deixei sobre a cama de frente para mim. Afoito e voraz, tirei toda a sua roupa e, mesmo com todo fogo acumulado quase explodindo literalmente em minhas calças, parei por alguns segundos para contemplar aquela cena como se fosse a primeira vez. Se ela de bruços dormindo nua tranquilamente era uma das cenas mais sexys que tinha presenciado pessoalmente, ela completamente pelada de frente para mim de maneira convidativa era a imagem mais excitante de todas. Era impossível fazer qualquer negativa para aquela cena. Tirei a minha roupa na mesma velocidade que fiz com a dela e tudo que queria era penetrá-la. Queria fazê-lo com intensidade e controle ao mesmo tempo. Contudo, sabia que tudo que conseguiria era provocar um estrago igual a uma Kombi sem freio descendo uma ladeira em dia de feira. Resolvi cair de boca na boceta dela. Viviane estava tão excitada que no primeiro momento que encostei a língua, ela se contorceu. Instintivamente, me afastei. Foi quando ela segurou a minha cabeça e me trouxe de volta, praticamente esfregando a boceta na minha boca. Ela definitivamente sabia o que queria e igualmente sabia do que eu gostava. Estava tudo muito molhado e ficava cada vez mais por conta dela e da minha saliva. A língua escorregava e tocava todas as partes da vagina dela. Segurei suas pernas pela parte debaixo das coxas e as empurrei para trás, deixando-a toda empinada para que pudesse colocar minha língua a fundo. Foi quando ela gozou. Deu para sentir sua boceta se contraindo com força em minha língua. Com o corpo todo se tremendo e um rio escorrendo por suas pernas, ela se afastou e me chamou para sua direção. Foi nessa hora que me levantei e tudo rodou. Cambaleei dois passos para trás e acabei me escorando no armário. Percebi que estava completamente bêbado. Escorri pelo armário até repousar sentado no chão. Não estava mais rígido. Enquanto isso, Viviane estava se contorcendo alheia ao que acontecia à sua frente. Quando percebeu, perguntou se eu estava bem. Respondi que estava nada bem e precisava de um tempo. Ela então se virou de lado e tudo que lembro foi de acordar no chão no dia seguinte.
- PUTA QUE PARIU – Julia gritou e provavelmente acordou algum vizinho. – Puta que pariu duas vezes.
- Mais uma vez frustrante, né?
- Sim, mas o antes disso. Minha nossa senhora! Estou encharcada aqui.
- Pelo menos parou de me sacanear sobre endeusar a menina.
- Ah, sim.
- Mas frustrante ainda assim.
- Honestamente – Julia fez uma pausa dramática dando um longo gole e secando seu copo. – Se ela for uma menina maneira, só o que você fez foi ótimo. Claro que ela queria mais. Isso não se discute, mas, ao menos, mostrou que você tem potencial. Tudo bem que não precisa mostrar esse potencial aos poucos em eventos de finais catastróficos, não é mesmo?
- Sim. Claro. E sendo insistente, frustrante, né?
- É! É! É frustrante, está satisfeito? Só que ao mesmo tempo deve ter ser sido ótimo. Só de ouvir, veja só como estou – Julia se levanta do sofá, pega a minha mão e a põe por debaixo do seu vestido. – Acredita agora que ao vivo deve ter sido impressionante?
- Baby, que coisa linda.
- É! Linda! Só não se empolgue muito aí, não. Vou na cozinha pegar mais cerveja. Vai contando aí enquanto estou em uma distância segura.
Lá estava eu recobrando a consciência na manhã seguinte, deitado no chão, escorado no armário do quarto e completamente nu. Viviane estava dormindo na cama e também permanecera nua. Isto é, sequer acordou depois que apagamos em lugares diferentes após o coito interrompido mais uma vez por motivos lamentáveis. A cena, na teoria, era igualmente linda a de outra manhã quando acordei com ela nua ao meu lado. Contudo, existia naquele momento todo um ar de fracasso por conta das inúmeras tentativas de transar com ela. Existia algo que maculava a imagem, algo que não me permitia apreciá-la com a mesma fascinação de antes. Ali, depois de seguidos fiasco, estava apenas mais uma menina bonita. Não era mais uma das cenas mais lindas que presenciara na vida.
- Finalmente – disse a Julia enquanto voltava da cozinha carregando dois copos cheios de cerveja em uma mão e uma garrafa de cerveja em outra. – Até que enfim conseguiu tirar o endeusamento por ela. Agora não tinha mais desculpas, já dava para bagunçar a mocinha, né?
- Para de falar besteira e senta logo essa boceta molhada aqui do meu lado.
- Ih, tá uma piscina – ela se sentou, me entregou um dos copos, colocou a garrafa no chão, jogou uma das pernas por cima das minhas e prosseguiu. – Vai! Fala! Agarrou a menina?
Fui primeiro ao banheiro. Sentado no vaso, aproveitei para me certificar se existia algum resquício de ressaca. Estranhamente estava novo. Zero ressaca. Terminei o que tinha por fazer, tomei um banho, escovei os dentes e voltei para o quarto. Viviane permanecia intocada na mesma posição de lado enviesada na cama. Deitei-me ao seu lado, abraçando-a por trás. Colei meu corpo no dela com todas as partes niveladas. Em seguida, puxei Viviane para perto de mim e, enfiando meu rosto por debaixo do seu cabelo, invadi seu pescoço. Minha respiração foi suficiente para acordá-la. Ela deu uma discreta gemida de espreguiçar, soltou um sorriso de canto de boca e jogou o quadril para trás pressionando-o mais ainda contra a minha pélvis. Fiz o mesmo em sua direção e aos poucos estávamos nos esfregando.
- Pode parar com esse momento Cine Privê – a Julia me interrompeu. – Você vai começar com toda essa descrição de sacanagem e eu não estou mais em condições de lidar com isso. É verdade! Estou a perigo, homem. Se continuar assim, vai ter de dar um jeito nisso.
- Pare antes que eu pense besteira.
- Então conta, mas sem detalhismo – ela pediu rindo e provocando gargalhadas em mim.
Era como se tudo tivesse sido reiniciado. Tivemos um leve aquecimento, ali abraçados e depois uma preliminar comandada por ela. Não sei se foi por complexo de culpa, ou iniciativa para se ter a certeza que faria dar certo, que Viviane tomou a iniciativa de me chupar. Estava mais duro do que nunca. Em certos momentos, ela me olhava com um sorriso no rosto. Podia ser um sorriso se vangloriando do que ela mesma tinha conseguido, ou um sorriso de alívio por algo finalmente estar no caminho certo. Seguro, então tomei as rédeas da situação, virei a Viviane e me posicionei sobre ela. Seus olhos denotavam expectativa. Era a hora! Na minha cabeça, tudo que pensava era que estava de volta ao jogo. Finalmente, retornei à minha programação normal. Quando comecei a penetrá-la, algo me desconcentrou e o pensamento vitorioso de antes se transformou em preocupação. Apenas pensamentos sobre não falhar passaram a povoar a minha cabeça então. Parei de ser instintivo e virei neurótico. Ficava refletindo cada movimento. Não estou sentindo total contato, pensei. Será que estou mesmo dentro, questionei-me depois. Não conseguia sequer dizer se estava ainda ereto. Estando ou não, o óbvio aconteceu. Broxei. Ele abaixou, murchou, encolheu e se aquietou de vez. Viviane tentou fazer algo, todavia, isso costuma deixar a situação ficar mais constrangedora ainda. Com notório desconforto, ela me manuseava com as mãos. Depois, apelou para a boca. Nada! Permaneceu assim por um bom tempo. A situação era patética. Em uma analogia às técnicas de primeiros socorros, era como se a Viviane estivesse fazendo massagem cardíaca e respiração boca-a-boca em uma pessoa que morreu horas atrás. Era um caso sem salvação.
- Quando disse para não me deixar com mais fogo, não precisava também ser um balde de água fria – a Julia comentou tentando segurar o riso.
- Pode rir. Qualquer coisa diferente daquilo não faria sentido com todo histórico até então. E, convenhamos, nada superaria isso.
- É, posso dizer que fechou com chave de ouro.
Antes fosse um fechamento. Por sorte, aquele constrangimento foi interrompido pela chegada da faxineira. Ela ia sempre aos sábados por ser um dia mais fácil de quebrar um galho para mim. Com a chegada dela, tomamos vergonha na cara e desistimos do que não tinha solução. Entramos no banho e fomos para rua. A proposta seria tomar um café-da-manhã, contudo, já tinha passado do meio dia, portanto decidimos almoçar mesmo. Foi uma tarde de casal enquanto éramos reféns da faxineira. Almoço, cinema, volta no shopping e um barzinho. Por quatro anos, quis fazer isso com ela. Durante todo o período que foi minha aluna, pensava como seria sair com ela. Naquele momento, finalmente tinha a oportunidade de descobrir. No passado, imaginava que um programa com uma menina tão interessante deveria algo divertido e fácil de levar. Deveria, exceto quando se tem nas costas alguns fracassos seguidos. Viviane até estava bem à vontade, menos inexpressiva e mais comunicativa que o habitual. Dizem que as mulheres levam isso de boa e relevam com naturalidade, pois o que importa é a companhia. Comigo era diferente. Parecia carregar um fardo nas costas que, a cada palavra, interpretava como indireta ou um constrangimento associado. No almoço, ao comentar que as batatas fritas estavam murchas, me ressenti. Quando a fila do cinema estava demorando, ela disse que era por conta da funcionária ser muito mole e eu vesti a carapuça. No shopping, com aquele mar de pessoas praticamente se arrastando à nossa frente, Viviane, ao tentar ver algo em uma vitrine, comentou comigo que ficava impaciente com essas pessoas que não fodem nem saem de cima. Aquilo me desmoronou.
- Ah baby – Julia precisou fazer uma pausa para conter as gargalhadas. – Sua neurose até faz sentido. Só que mulher não tem disso. Ela não estava te dando alfinetada. Ela estava muito tranquila. Com certeza, não estava encanada com o histórico, do contrário, ela escolheria as palavras ou demonstraria desconforto após terem sido ditas.
- De fato, ela estava numa boa, falando como se não pensasse no ocorrido. A não ser que ela fosse lesada ao ponto de não conseguir associar uma coisa à outra.
- Bem, depois do bar se despediram?
Chamei Viviane para voltar para a minha casa. Ela perguntou se tinha certeza. Respondi que sim sem hesitar. Engoli seco e pensei que não tinha a menor certeza para dizer a verdade. Não estávamos bêbados, principalmente se considerássemos minha média de consumo. Foram, no máximo, oito chopes para cada um. Cheguei determinado e com coragem. Agarrei Viviane na escada deixando claro que a volta para a minha casa era unicamente para sanarmos aquela dívida que só crescia. Ela correspondeu. A coisa pegou fogo na escada, no corredor e no quarto. Dentro dele, tiramos a roupa e foi aquela volúpia descontrolada de filme. Sem preliminar, sem preparo, sem paciência. Tiramos a roupa, nos jogamos na cama e, segundo o linguajar nada erudito da Julia, foi pau dentro. Tecnicamente, não era a primeira vez que a penetrava. Contudo, para mim, foi. Era como se ela fosse feita no meu número. Tudo se encaixou sob medida. A lubrificação e o calor dela completavam com perfeição. A sensação era espetacular. Algo como o prazer de colocar um bom pedaço de lasanha na boca que não está quente o suficiente para queimar a língua, todavia não está frio também. Ou a agradável satisfação de se deitar em uma cama quentinha sob o edredom em uma tarde de chuva. Era tão bom que, com tudo que tinha acumulado, em menos de meio segundo, veio uma vontade louca de gozar que não consegui resistir. Gozei e muito. Ela pediu para ir ao banheiro e se levantou. Eu, aliviado e em êxtase, sequer conseguia me abalar com o meu catastrófico desempenho em tempo olímpico. Relaxei e, antes que Viviane voltasse do banheiro, peguei no sono.
- Numa boa – Julia colocou seu copo vazio no chão e, aproveitando que uma de suas pernas estava sobre as minhas, se ajeitou, ficando sentada no meu colo de frente para mim. – Eu não consigo acreditar que você seja esse desastre todo.
Julia então me beijou e não relutei. Éramos adultos. Ligeiramente bêbados, mas adultos cientes do que estávamos fazendo. O beijo foi longo, com pegada e cheio de fogo. Apenas algum tempo depois que notei que a Julia já estava rebolando se esfregando no meu colo. Segurando sua cintura, forcei Julia para que se afastasse da minha boca e pudesse chupar seus seios. Ela foi mais rápida, apoiou-se nos meus ombros e se levantou. Eu estava sentado no sofá e ela de pé também no sofá, de frente para mim. Julia então abaixou a calcinha, levantou o vestido e, segurando minha cabeça pela parte de trás, se aproximou colocando minha boca no meio de suas pernas. Ela estava encharcada. Era como comer um prato de espaguete com muito molho. Escorria pelos cantos da boca, pelo queixo, pelas pernas dela, por todos os lados. Levei um dedo até sua boceta piorando, ou não, a situação. Como em um comum acordo feito implicitamente, ficamos naquela até Julia gozar. Quando conseguimos que ela gozasse, suas pernas fraquejaram e ela desabou em meu colo. Ainda se tremendo um pouco e ofegante, ela pediu para que a levasse para o quarto. Lá, transamos num ritmo frenético, como se desejássemos um ao outro há tempos. Ela gozou mais duas vezes, sendo a última junto comigo, com ela de quatro. Depois, desabou na cama mole, exausta e satisfeita, ao meu lado em igual estado. Era possível ouvir os pensamentos do vizinho de baixo agradecendo pelo silêncio definitivo na casa.
Na manhã seguinte, acordei com a Julia dando um pulo da cama. Ela foi correndo para o banheiro. Perguntei o que tinha acontecido e, aos berros, ela respondeu que precisava trabalhar. Fui, com calma, atrás dela e entrei no banheiro enquanto ela tomava banho.
- Quer um café?
- Não tenho tempo. Preciso ir para casa ainda mudar de roupa e pegar o meu material.
- Quer carona?
- Não, vou de taxi. Relaxa.
- Quer alguma coisa?
- Sim, conte o que aconteceu. Você pegou no sono enquanto Viviane tinha ido ao banheiro e aí?
Provavelmente, voltando do banheiro, ao me ver dormindo, Viviane vestiu uma calcinha e uma blusa. Depois se deitou ao meu lado e dormiu também. Na manhã seguinte, acordei e a cena dela dormindo ao meu lado já não era tão fria quando na manhã anterior. Todavia, não era tão linda quanto da primeira vez. A cena não tinha mais o fardo de antes, quando acordei no chão do quarto. Contudo, carregava uma faísca de vergonha da noite anterior. Depois ela se arrumou e pediu que a levasse em casa. Coisa que fiz com maior prazer. No caminho, refleti muito se queria ver a Viviane novamente. Sim, queria com certeza. Não sei se ela gostaria depois de tudo que aconteceu. Então deixei sob a decisão dela. Pedi que me ligasse pela semana para marcarmos algo. Ela respondeu que ligaria, sim, virou as costas e foi embora.
Assim que acabei de contar, Julia saiu do banho em disparada para o quarto para se vestir. Pediu que eu continuasse, mas não tinha mais o que falar, a história tinha acabado. Ela então se vestiu e descemos juntos até a rua para chamar um táxi. Em menos de dois minutos já tinha um parado à nossa frente.
- Pode falar a verdade agora, você já comeu muita mulher com essa história que me contou, né? – a Julia perguntou e prosseguiu antes mesmo que pudesse responder. – Existiu alguma Viviane mesmo?
- Claro que sim. A história é verdadeira e recente.
- E onde ela está?
- Como disse, deixei por conta dela que entrasse em contato comigo quando quisesse me ver novamente. Nunca mais tive notícias.
- Ninguém a condenaria, não é mesmo? Faz o seguinte, coloque o orgulho de lado, entre em contato com ela e marque um encontro. Você não quer endeusa-la novamente? Faça isso. Vai ver ela espera por uma nova demonstração de confiança por sua parte. E que fique claro... no que depender de mim, quero que você passe vários fracassos com ela e, quando estiver bem acumulado, me procure novamente. Você é ótimo quando está precisando reafirmar a sua virilidade.
Julia entrou no táxi e foi embora. No portão de casa, peguei o celular, passeei pela agenda telefônica e, ao fim, hesitei. Guardei-o no bolso e entrei em casa. Ao deitar na cama, tirei o celular do bolso e, enquanto o colocava na cabeceira, sorri de canto de boca. Em algo, a Julia tinha razão. Em um único ponto, talvez ela tivesse razão. Mudança de planos. Mais uma vez peguei o celular, abri a agenda telefônica e apertei o botão de chamar. Dois toques depois:
- Alô! Priscila? Tudo bem? O que vai fazer nesse final de semana? Estou precisando do ombro de uma amiga. As coisas não andam bem comigo.

Outro conto da coleção? Leia Carina

sábado, 22 de outubro de 2016

Cai na real: Contos sobre a rotina para quem acabou de chegar

Conto anterior da coleção: Artimanhas

Uma história com conteúdo
Dificilmente não se cria a mesma imagem de policiais na cabeça. Principalmente quando se trata de alguém que consome muita informação vinda dos Estados Unidos. A imagem é sempre a mesma, dois policiais ligeiramente fora de forma dentro de uma patrulha, copos de isopor cheios até a boca de café e uma caixa com algumas rosquinhas dentro. De clichê, isso virou um tabu. Encontrar uma viatura por lá e a cena não ser igual a esta chega a ser frustrante. Imagino, inclusive, que isso deve ser algo ensinado nas academias de polícia. Por aqui, as coisas não são tão diferentes. O consumo de calorias é quase igual, apenas a forma em que elas se apresentam que é um pouco diferente.
Lá estava a viatura 687 do sexto batalhão da Tijuca na sua sétima hora de plantão. Como rotina, passavam sempre pela Rua Barão de Mesquita, uma longa rua que liga o Grajaú à Praça da Bandeira cortando o bairro da Tijuca. No trajeto, sempre paravam pela lanchonete Sorriso da Saens Peña, um antigo ponto comercial que precisava se reinventar a cada cinco anos. O procedimento era sempre o mesmo. Paravam e cumprimentavam o dono, seu Arnaldo, sessenta e seis anos de vida com trinta e dois de comércio. Depois, faziam perguntas corriqueiras sobre o dia, família, negócios e assim ia enrolando até o seu Arnaldo oferecer aos dois policiais um lanche. O roteiro era idêntico todos os dias, inclusive na parte em que eles relutavam duas vezes e acabavam aceitando na terceira tentativa do seu Arnaldo. Uma lata de refrigerante e dois salgados para cada um. Agradeciam, davam dois tapinhas no balcão saudando os funcionários e iam embora. Alguns metros à frente, na estreita e pouco movimentada Rua Pareto, eles paravam para comer o lanche.
- Estou preocupado com o Salgado – disse o policial sentado ao volante.
- Qual o problema? – perguntou o policial no banco do carona. – Comemos todos os dias e nunca passamos mal.
- Não estou falando desse salgado. É o major Salgado. Ele disse que quer ter uma conversa comigo ao final do plantão.
- Hum. Entendi. Quer catchup?
- Não. Você ouviu o que te falei?
- Uhum. Você acha que eu deveria ter um animal de estimação?
- O que?
- Um animal de estimação. Algo para me entreter nas folgas.
- Acabei de falar que estou preocupado com o major Salgado que me chamou para conversar e você quer saber sobre um cãozinho?
- Não necessariamente um cãozinho. A Telma acha que devo começar por algo menor. Ela acha que é muita responsabilidade para um iniciante como eu. Chegou a alugar um filme com aquela atriz americana. Esqueci o nome.
- Nome do filme ou da atriz.
- Da atriz. Ela fez aquele filme sobre concurso de miss. A Telma assiste uns dois filmes por dia. Acabo acompanhando com ela. Essa atriz ganhou um Oscar e logo depois o marido dela deu um pé na bunda dela.
- Julia Roberts.
- Não, não é a Julia Roberts.
- Tem razão. Ela nunca ganhou o Oscar.
- Ela já ganhou, sim.
- Tem razão. Aquele filme da linda mulher foi famoso mesmo.
- Ela não ganhou por aquele filme. Você entende alguma coisa de cinema?
- Não, não entendo de cinema. Entendo de segurança pública. Entendo que, quando o major diz que quer ter uma conversa séria com algum soldado, tem merda por vir.
- Sandra Bullock.
- O que?
- A atriz que estava falando. A que fez o filme sobre concurso de miss.
- Qual o seu problema, Almeida? Estou preocupado com a tal conversa... – o policial no banco do carona interrompe a fala do policial ao volante.
- O filme era Miss Simpatia. Não o que a Telma me colocou para ver, mas o que disse sobre concurso de miss. O que vi com a Telma não vou me lembrar do nome mesmo. Enfim, no filme, ela fazia uma mulher que bebia muito e foi internada em uma clínica dessas de tratamento. Qual o nome que dão hoje em dia?
- Alcoólicos anônimos? AA?
- Não! Tem um termo específico muito usado hoje em dia. É até nome de uma música daquela cantora que morreu de overdose recentemente.
- A Madonna?
- Madonna, Bastos? Madonna? Você quer matar a Madonna?
- Eu quero matar você, Almeida. Que papo é esse de filme, cantora, cãozinho?
- Eu estou tentando te contar uma história com conteúdo. É assim que se mantém um papo interessante. Você traz elementos para preencher a conversa e assim ela flui por mais tempo. Eu vi isso em um programa na GNT com a Telma. Você acredita que, quando bem feita, uma conversa sobre a chuva pode durar até três horas?
- Almeida, estou preocupado com você. Que papo é esse de assistir GNT? Isso é canal de mulher. Vai assistir Superbonita também?
- Amy! Lembrei. Amy alguma coisa. O sobrenome era complicado. Você tem mais guardanapos aí? Os meus acabaram. Acho que o grande segredo de uma lanchonete para obtenção de lucros é contenção de custos. Você sabia que guardanapos podem configurar quase dez por cento dos custos de uma lanchonete. Eu vi outro dia no Pequenas Empresas Grandes Negócios...
- Com a Telma. Já sei, Almeida!
- Isso. Estou com a mão toda melecada agora. Winehouse! Era esse o sobrenome. Amy Winehouse. O engraçado é que, em inglês, wine é vinho e house é casa. Casa do vinho. Winehouse. Casa do vinho. Winehouse.
- Casa do vinho, Almeida. O que tem de engraçado nisso?
- A mulher que tem de sobrenome casa do vinho morreu de um pileque.
- Muito engraçado, Almeida. Muito mesmo. Não vem com essa mão suja de gordura para cima de mim, não. Limpa aí na lateral do seu coturno.
- Eu queria mexer no celular para descobrir o tal nome da música.
- Para quê, Almeida?
- Porque a música tem o nome que quero lembrar.
- Eu estou me lixando para o nome, Almeida. Minha preocupação é o que o major Salgado quer falar comigo.
- Então, ela vai para a clínica...
- Quem vai para onde, Almeida?
- A Sandra Bullock. Ela vai para clínica porque bebe muito. O filme começa com ela estragando o casamento da irmã de tão bêbada que estava.
- Almeida, criatura do inferno, por que está falando ainda nisso?
- Eu quero explicar o que a Telma disse sobre ter um cãozinho.
- Ah, sim. Esqueci. Uma história profunda.
- Com conteúdo.
- Que seja. Vai beber tudo?
- Sim, mas pode beber um gole, só não pode matar. Onde estava mesmo?
- Na parte que demonstra total desinteresse pela minha aflição sobre ter sido chamado pelo major Salgado para conversar depois do plantão.
- Você já falou isso umas três vezes, Bastos. Como você é repetitivo.
- Ah, tá. Desculpa, né?
- Bem, o filme é dela na clínica... REHAB!
- Que susto, Bastos! O que houve?
- Rehab.
- Comida árabe?
- Não, Almeida. Almeida, você é muito ignorante. Rehab é o nome da música da Amy. Amy Winehouse.
- A casa de vinhos de que morreu bêbada?
- Isso! Rehab é o nome da música dela que também é muito usado para essas clínicas. No filme, a Sandra Bullock é levada para o Rehab.
- Você está muito estranho com esse vocabulário, Bastos.
- Disse o policial machão com nojo de mãos engorduradas.
- Não estaria com nojo se você não tivesse acabado com todos os guardanapos. Nunca vi uma pessoa gastar tanto guardanapo como você, Almeida. Cada vez que vai ao banheiro deve ser um rolo de papel higiênico.
- Eu não tenho culpa disso. O salgado é extremamente gorduroso. Não bastante, o seu Arnaldo é muito malandro. Ele age nas duas possibilidades de contenção de custos. Primeiro, fornece pouco guardanapo. Segundo, compra guardanapo de baixa qualidade. Olhe só isso! Não absorve quase nada. Ele precisa entender que, quando se reduz os custos de maneira grosseira como essa, a qualidade do serviço cai. E, assim, afasta a clientela, abalando a receita.
- Almeida, de onde você está tirando essas coisas? Você está me assustando.
- Bastos, se estivesse me deixando falar tranquilamente, o assunto ficaria mais objetivo.
- Você é muito cara-de-pau mesmo. Se dependesse de mim, estaríamos falando... – Bastos, o policial ao volante é interrompido pelo Almeida.
- Eu já sei o que vai falar. O major Salgado. Você precisa ser menos egocêntrico, Bastos. Nem sempre dá para falar sobre os seus problemas ou aflições. Eu também tenho as minhas.
- Almeida, você vai ter a cara-de-pau de dizer que sua aflição sobre ter um cãozinho ou não é maior que a minha?
- Eu já disse que não é sobre ter um cãozinho. É algo muito maior. É sobre responsabilidade. Por isto que estava querendo falar do filme.
- Então, está bem, Almeida. Fale do maldito filme em que a Julia Roberts vai para a casa de vinho.
- Impressionante, Bastos. Simplesmente impressionante. Você não prestou atenção a uma palavra sequer do que falei, não é mesmo?
- Então, fala, Almeida. Vai! Fala! Engole esse salgado e fala.
- Obrigado – o Almeida engole o salgado, dá um gole em seu refrigerante e prossegue. – Como dizia, a Sandra Bullock, não a Julia Roberts, vai para o Rehab...
- O tratamento que leva o nome da música da pinguça com nome de ironia.
- Respeite os mortos.
- PROSSIGA, ALMEIDA!
- Bem, ela vai para a... para a clínica. Lá tem um todo um tratamento sustentado em um programa. Nesse programa, eles precisam desenvolver o senso de responsabilidade. Para tal, começam por baixo. Eles começam cultivando uma samambaia.
- Olha que ótimo! Incrível, Almeida. Uma samambaia. Ela vai poder ouvir você falar o dia todo sobre suas histórias. Imagine ter uma samambaia que vai te ouvir falando sobre a chuva por quatro horas igual ao programa da GNT.
- Três horas, Bastos.
- Ora, Almeida, sabemos que você consegue melhorar esse tempo. Já consigo imaginar essa samambaia estimulando o melhor em você. Almeida nas olimpíadas representando o Brasil na categoria prolixo.
- Não vai ter samambaia, Bastos.
- Por que não, Almeida? Aposto que a Telma acha uma boa ideia.
- Claro que ela acha uma boa ideia. Tanto que ela me colocou para ver o filme no intuito de ajudar a me convencer.
- Viu? A Telma é incrível. Aposto que verão vários programas na Discovery sobre como criar samambaias. Quais assuntos elas mais gostam de ouvir. Que tipo de água para regar uma samambaia. E também... – o Almeida interrompe o Bastos.
- Pode parando. Não vai ter samambaia.
- Por que, Bastos? Estávamos tão próximos de encerrar esse assunto.
- Porque não existe interação com uma samambaia. Por mais que ela possa me ouvir, uma geladeira também pode. Eu preciso de algo que me proporcione interação também. Algo de baixa responsabilidade, mas com interação.
- Que tal um peixe?
- Um peixe, Bastos? Como se interage com um peixe? Já viu alguém fazendo cafuné em um peixe? Já viu alguém sentado no sofá vendo televisão com um aquário no colo?
- Justo. Que tal um papagaio?
- São muito perigosos.
- O QUE? De onde tirou que papagaios são perigosos, Almeida?
- Eu vi em um programa...
- Com a Telma.
- Exato! Aqueles programas policiais, sabe? Sempre tem uma história interessante. Certa vez, um crime aconteceu numa cidade. Condado de alguma coisa. Lá nos Estados Unidos as cidades se chamam condado alguma coisa. É engraçado. De qualquer forma, um homem apareceu morto. Uma coisa horrorosa. Sangue para todo o lado. A perícia suspeitava de uma luta brutal que ele travou com seu algoz.
- Algoz?
- É algoz!
- Você é uma caixa de surpresas mesmo, Almeida.
- Enfim... Esse refrigerante está sem gás. Como dizia, a perícia acreditou em uma luta brutal. Tinha sangue pela casa toda. A vítima estava cheia de feridas pelo corpo, principalmente no rosto. Quando estavam dando por concluídas as investigações, descobriram que o homem era um pervertido e tinha câmeras pela casa toda para filmar seus encontros.
- Vejam só! Está aí algo que não encontramos todos os dias.
- Aí que você se engana, Bastos. Mais de vinte por cento da população sexualmente ativa costuma filmar suas relações. Eu vi isso num programa com a Telma de madrugada no canal...
- O CRIME, ALMEIDA! O CRIME!
- Ok. O crime! Daí, encontraram as câmeras. Você acredita que foi o papagaio dele?
- Jesus!
- Pois escute. O papagaio fugiu da gaiola enquanto ele dormia e o atacou. Foi primeiro em um dos olhos. Praticamente arrancou o olho em uma bicada só. O homem não conseguiu fugir.
- Como não conseguiu fugir?
- Ele estava cego!
- De um olho apenas. E o outro?
- Ele usava óculos e, antes do ataque, o papagaio derrubou os óculos da mesa de cabeceira.
- Que demônio!
- Eu te disse. Desnorteado e sem enxergar, o homem foi presa fácil para o papagaio. O animal o comeu vivo praticamente. Está louco que vou criar um animal daquele tipo.
- Veja pelo lado positivo. Ele pode ser um bom animal de guarda para a sua casa.
- Animal de guarda? Você se esqueceu que moro na Pavuna? Aqueles viciados vão comer o papagaio vivo. Duas dentadas e pronto, nem sobram penas para contar história.
- É, Almeida. Voltamos ao cãozinho então.
- Pois é. Sempre que reflito sobre o assunto, acabo caindo no cãozinho. O problema é que a Telma considera muita responsabilidade. Ela não concorda e, por estar tão convicta disto, acabo concordando com ela.
- Deixe-me pensar aqui. Você quer um animal de estimação para te fazer companhia?
- Isso!
- Para fazer cafuné nele?
- Sim!
- Para assistir televisão com ele no colo?
- Exato!
- Já parou para pensar que a Telma pode estar com ciúmes?
- Sabe, Bastos? Preciso te falar uma coisa.
- Diga.
- Eu estaria preocupado se o major Salgado me chamasse para conversar.
- Não é mesmo, Almeida?

Próximo conto da coleção: Tráfico de órgãos

domingo, 16 de outubro de 2016

Cai na real: Contos sobre a rotina para quem acabou de chegar

Conto anterior da coleção: Canelinha

Artimanhas
Costuma-se falar que no desespero sempre revisitamos nossas ações para entender como fomos parar naquela situação. Só que não é a vida toda, não. A vida toda passa em flashback em nossas cabeças apenas quando estamos correndo sérios riscos de morte. Aqui é diferente, trata-se de um caso de punição por ter cometido um erro. Ou um crime, como as pessoas lá do lado de fora preferem afirmar. Nestes casos, as únicas coisas que passam em nossas cabeças são os atos que nos levaram até aquele ponto. Bem, no meu caso acaba sendo flashback da vida toda mesmo, porque isso tudo começou na minha infância.
Assim que cheguei ao jardim de infância, percebi que as coisas seriam complicadas. Era filho da secretária de um colégio frequentado por bacanas da Zona Sul e por isso não pagava mensalidade. Entretanto, era difícil acompanhar os coleguinhas mantendo um mesmo patamar em relação ao material. Eles tinham os melhores gizes de cera, canetinhas coloridas e potinhos de guache. Enquanto isso, eu tinha de me contentar com três canetas esferográficas, uma azul, uma vermelha e uma verde, que mamãe desviara do balcão de atendimento da escola. Tinha vergonha dos meus desenhos quando comparados com os dos outros alunos. Os deles eram borrões combinados com traços aleatórios, mas que, com tantas cores e diversidade de texturas, pareciam verdadeiras obras de arte. Já os meus eram redemoinhos e rabiscos uniformemente finos em três cores. Eram quase ilustrações para jogos de Atari.
- Vejam só – diziam os pais ao olhar os desenhos dos outros alunos expostos. – Eles estão se esforçando para valer.
- Ah tá – exclamavam os mesmos pais ao verem os meus desenhos expostos. – É aqui então que testo se a caneta do balcão da secretaria está funcionando.
Algo precisava ser feito e não demorei muito para bolar um plano e colocá-lo em prática. Juntei-me a um tal de Valter, menino rechonchudo que era sempre excluído das brincadeiras pelos outros alunos por ser meio bruto. Isso para não falar da discriminação que ele sofria na hora da merenda. Formamos uma dupla e começamos a fazer com o que os outros alunos me emprestassem o material e dessem para o Valter o pudim da sobremesa. Eles sempre perguntavam no início por que deveriam fazer aquilo:
- Porque caso contrário vou fazer pipi no seu colchonete na hora da sonequinha e vão pensar que você precisa voltar a usar fraldas – disse para o Marcinho.
- Porque vou contar para todas as professoras que você anda mostrando a calcinha para os meninos, arruinando assim sua fama na alta sociedade para conseguir um marido, lhe restando apenas a carreira de modelo de catálogo de lingerie por atacado – falei para a Aninha mostrando o meu lado mau precoce.
- Porque eu vou te morder todo – afirmou o Valter deixando transparecer que seu humor não era dos melhores antes da merenda.
Nosso projeto foi um sucesso. Em menos de dois meses, meus desenhos pareciam obras de Monet com tamanha diversidade à minha disposição. Já o Valter morreu de uma crise hiperglicêmica que ninguém soube explicar, pois a alimentação da escola era balanceada conforme orientações de um nutricionista que acabou demitido. Ainda assim, eu estava convencido que essa seria a melhor forma de obter qualquer coisa que quisesse.
Passados alguns anos, ainda criança, lá estava eu tramando novamente, agora no pracinha do bairro. Meu objetivo não era mais material escolar, mas as tão desejadas caixinhas de estalinhos. Mamãe raramente me dava dinheiro para comprar estalinhos, enquanto as mães das outras crianças que lá frequentavam torravam uma grana abastecendo verdadeiros arsenais. Tanto que era possível escutar a praça de quase três quarteirões de distância por conta da enormidade do som dos estalos.
Daquela vez montei um plano mais complexo, só que para dar início a ele, precisaria de mais do que um parceiro. Arrumei então dois comparsas da mesma idade que a minha. Jeferson era um menino que vivia com o nariz escorrendo e quase não curtia estalinhos, porque, ao manuseá-los com seus dedos cheios de meleca, eles não estouravam. Mariana era uma menina histérica que não suportava que jogassem estalinhos perto dos seus pés. Fizemos então um movimento digno de planejamento militar. Primeiro, tomamos posse da casamata da praça. Ela era uma casinha que ficava em um patamar elevado com alguns brinquedos embaixo. Para chegar nela, existiam três escadas. Para descer, tinham seis tipos diferentes de escorregas. Era o objeto de consumo de toda criança. Elas ficavam subindo por um lado e descendo pelo outro incansavelmente, como se fosse uma linha de produção frenética. A criança entrava ofegante na forma de matéria-prima na casinha que era a máquina, depois saía do outro lado histérica, deslizando escorrega abaixo, como um produto acabado barulhento.
A conquista aconteceu da seguinte forma: coloquei a Mariana dando chilique no topo de uma das escadas, obrigando assim as crianças a subirem pelas outras duas escadas. Ao subirem, elas se deparavam com o Jeferson ameaçando passar a mão emporcalhada com suco de meleca caso não dessem estalinhos. Rapidamente conseguimos uma boa quantidade de estalinhos para brincar por um dia. Contudo não era suficiente, precisávamos de mais e a maior parte deles estava com as crianças que não gostavam tanto assim de subir na casinha. Foi aí que iniciei a segunda parte do plano. Enquanto Mariana e Jeferson agiam no topo das escadas, comecei a usar uma parte dos estalinhos que eles conseguiam como munição nas crianças que ficavam no chão. Elas não tinham força para revidar, por conta da altura em que eu estava, e passaram a implorar para que parasse com aquilo. Foi aí que começamos a condicionar o fim dos ataques ao fornecimento de estalinhos, criando um círculo vicioso em que somente eu saía ganhando.
Infelizmente, o plano durou apenas um mês. Tive severas baixas na minha equipe. Primeiro foi a Mariana que não pode mais ir, pois teve de operar a garganta. Acho que ela estourou as cordas vocais de tanto gritar. Depois foi o Jeferson que, de tanto assoar o nariz, arrebentou a cartilagem daquela região e ficou com a sua torneirinha nojenta pendurada. Dizem que ele fez uma plástica que o deixou parecido com o Michael Jackson, mas nunca confirmei.
Não sei foi crise de culpa ou trauma, mas o fato é que fiquei um bom tempo sem maquinar planinhos daquele tipo até o fim da minha adolescência. Já estava no cursinho preparatório para o vestibular quando estourou a maior febre de álbum de figurinhas da Copa do Mundo. Eu não somente precisava colecionar, como era uma obrigação completar aquele álbum. O único porém era que continuava duro como nunca. Não tinha dinheiro para o álbum, sequer para um envelope de figurinhas. Todavia, em um curso pré-vestibular ameaças de pracinha e colégio não costumavam funcionar com tanta facilidade. Precisava então de algo mais enfático. Foi aí que surgiu o Arnaldo, um cara burro como uma gaveta empenada, mas amedrontador como um ônibus sem freio em uma ladeira. Ele nem curtia tanto assim álbum de figurinhas, mas era tão sádico, que topou de primeira com um sorriso demente no rosto.
Definida a dupla, o próximo passo seria determinar qual grupo de alunos em um pré-vestibular seria submisso a uma sequência de ameaças. Assumo que foi simples, o alvo seria os alunos dedicados aos cursos de exatas, mais precisamente, os retardados tarados por matemática. Só que ali residia um pequeno problema, eles não curtiam álbum de figurinhas. Eles colecionavam gibis, bonequinhos de super-herói, assistiam desenhos animados japonês, mas álbum de figurinhas para eles era coisa de criança. Da necessidade de alcançar a meta surgiu a sofisticação do plano. Passamos a ameaçar os retardados estranhos para obter a resolução das questões de física e matemática das provas mais difíceis. Depois trocávamos a nossa aquisição por figurinhas com os alunos que tinham enorme dificuldade nessas disciplinas, os que iriam concorrer às vagas para direito. Era perfeito. Completei o álbum em uma semana. Depois completei mais doze álbuns os quais vendi no mercado paralelo para fazer uma poupancinha e por fim encerrei as atividades nessa área. Já o Arnaldo, frustrado que tudo terminou sem uma turbulência qualquer, optou por seguir por conta própria em carreira solo. Agora ele continua achacando os estranhos das calculadoras para receber as questões resolvidas, as quais ele troca com alunos candidatos à medicina por remédios tarja preta que eles desviam com ajuda dos pais médicos.
Sucesso nos esquemas, fracasso total no vestibular. Passei o resto da vida com um diploma de ensino médio e disputando empregos de qualidade duvidosa. Especialmente para quem teve a oportunidade de desde cedo estudar em uma das melhores escolas da cidade. Por muitos anos me contentei trabalhando no controle de tíquetes de estacionamento de um grande shopping da região. Os lojistas de lá não tinham direito a estacionamento gratuito. Se quisessem parar o carro lá dentro, pagariam como qualquer cliente. Já os seguranças da noite, diferentemente dos seguranças do dia, não ganhavam vales para usar na praça de alimentação, ganhavam marmita. Bem, cada um com o seu problema. O meu era a total ausência de charme para recorrer caso quisesse conquistar alguma garota. Convenhamos, existia ali uma perfeita equação matemática de fácil resolução e total equilíbrio entre suas variáveis.
O novo esquema começou então de uma maneira que remetia à ingenuidade e a uma simples camaradagem. Durante duas semanas, ofereci adulterar os tíquetes de estacionamento dos lojistas, colocando o período mínimo que dava direito à gratuidade. O resultado foi 78 lojistas com o tíquete de um dia apenas adulterado. Quem notasse algo, diria que foi apenas uma “quebrada de galho”. E, convenhamos, teria sido se a ação parasse ali. Só que o meu plano se iniciou oficialmente na terceira semana, quando os seguranças da noite, sob minha coordenação, começaram a abordar os 78 lojistas na hora da saída dizendo que sabiam que houve uma fraude no tíquete deles na semana anterior. Os lojistas assustados me procuravam pedindo para limpar a barra deles, pois, assim como eu, não podiam se dar ao luxo de perder aquele emprego por pior que fosse. Com todos os atores devidamente absorvidos pela trama, o esquema se prolongou por diversos anos. Uma vez por semana adulterava o tíquete de cada lojista, em troca eles me dava um vale-lanche que era repassado para os seguranças da noite. Com o tempo, alguns lojistas iam embora para outros empregos, mas sempre aumentava a quantidade de participantes conforme os novos chegavam. Alguns no momento da entrevista já eram avisados do esquema. Coisa linda, não?
A sutileza da coisa naquele esquema residia no fato que a parte frágil, os lojistas, não imaginava onde eu obtinha vantagem. Essa era a chave do sucesso, pois meu pacto era com os seguranças, pessoas de confiança que jamais me deixariam na mão. O meu ganho na história era total o acesso ao shopping depois do encerramento de suas atividades. Levava uma vez por semana uma garota para lá. Era tudo nosso. Elas ficavam boquiabertas em ter tamanha exclusividade e, ao mesmo tempo, a minha suposta influência era um afrodisíaco. Ainda assim, combinava com os seguranças que por mês, abriríamos apenas três lojas para desviar uma pequena peça para presentear as meninas. Eu sei que eles faziam coisas piores, mas a genialidade do meu plano era não deixar rastros notáveis. Ninguém percebia a subtração de uma calça jeans ou vestido. Até porque o inventário era feito uma vez por semana e o desvio acontecia em uma data distante para assim parecer um furto de cliente.
O plano cedeu quando os seguranças foram demitidos por estarem muito além do peso exigido para a função. Os novos não pareciam facilmente corruptíveis. Como consequência, tinha uma vasta lista de lojistas insatisfeitos por terem de voltar a pagar o estacionamento integralmente. Eram como uma horda de viciados que teve seu fornecimento de drogas interrompido repentinamente. Daí aconteceu o inevitável, me denunciaram e fui mandado embora. Como não recebi sequer uma carta de recomendação, foi duro arrumar novas oportunidades.
Fiquei desde então pulando de emprego em emprego, sendo que na maioria não durava mais do que quatro anos. Passei por uma empresa de contabilidade na qual, com a ajuda de um faxineiro com problemas psiquiátricos, usávamos os e-mails particulares dos contadores para obter vantagens no contracheque. Depois fiquei em uma empreiteira que, graças a dois operários ex-presidiários incorrigíveis, consegui material suficiente para reformar a minha casa toda. Já coloquei pelo de rato em pote de sorvete para depois descobrir “acidentalmente” e chantagear o dono da fábrica. Quando fiquei em uma clínica médica, mudava os exames para que as esposas estivessem grávidas de uma suposta traição e tirar então vantagem com essa informação privilegiada.
Hoje tenho 63 anos e estou internado em uma espécie de asilo psiquiátrico. Meus parentes, cansados dos meus intermináveis planinhos e tramoias, aqui me deixaram para tratamento. Neste exato momento estou trancafiado em um quarto escuro de ridículos 4 metros quadrados enquanto o diretor decide o que fazer comigo. Ele descobriu que, com a ajuda dos enfermeiros da madrugada, montei um novo projeto para obter vantagem sobre os outros internos. Provavelmente ele vai entrar em alguns minutos perguntando qual vantagem estava obtendo agora. Estou em dúvida em qual mentira contarei para ele. Já pensei em falar que é para conseguir dinheiro para os enfermeiros comprarem coisas para mim lá fora, mas sabemos bem que os internos não têm dinheiro. Cogitei em alegar que pedia cigarros, só que todos sabem que não fumo. Outra hipótese foi conseguir os comprimidos deles, contudo não faz sentido, pois os mais pesados eu já ganho. Acho que terei de contar a verdade para ele, mesmo sabendo que não acreditará em mim ao falar que estava apenas entediado e coagia os internos para poder espremer aqueles cravos enormes que eles têm nas costas.

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sábado, 15 de outubro de 2016

O fabuloso imaginário do absurdo

Senhora Neves
Toda manhã de sábado era a mesma coisa. Eu e os meninos da rua íamos para um terreno baldio bater uma bolinha. O tal terreno baldio, para ser preciso, era quase um quarteirão inteiro se não fosse por uma única casa velha. Lá morava a senhora Neves, uma mulher idosa famosa pela antipatia. Morou só a vida toda. Várias lendas sobre ela eram conhecidas pela vizinhança. Ninguém tinha coragem de comprar um lote próximo a casa dela para morar por conta disso. Dentre as lendas mais famosas estava a que ela era uma bruxa. Uma delas era a do Armandinho Molha Selo. Ele assim ficou famoso depois  de uma tentativa de recuperar uma pipa que caiu no telhado da senhora Neves. A lenda dizia que a senhora Neves, quando viu que ele estava no telhado dela, transformou o Armandinho em um sapo. Ela passou a deixar o Armandinho em sua mesa de escrivaninha e toda vez que precisava mandar uma carta, ela umedecia os selos no corpo gosmento dele.
Certa manhã de sábado estava pelo terreno jogando bola com mais dois colegas, o Toninho e o PH. A brincadeira era a tradicional altinha. Usando somente os pés, peito e cabeça, não podemos deixar a bola cair no chão. Em um determinado momento, para fazer graça, o Toninho deu uma bicuda para o alto. Era um recurso para atrapalhar os outros e assim a bola cair no chão. Ela foi por cima de mim. Não me dei por derrotado. Continuei correndo de costas para ficar debaixo da bola e aterrissá-la no meu peito. Enquanto estava correndo apenas olhando para a bola, perdi a noção de perspectiva e dei uma trombada no muro da senhora Neves. Apaguei.
- Você está bem, cara? – perguntou o Toninho enquanto recobrava a consciência. – Você deu uma senhora pancada de cabeça.
- Acho que sim – respondi enquanto apalpava a cabeça à procura de galos ou ferimentos.
- Que bom! Porque a bola caiu por cima do muro da senhora Neves.
Segundo a regra da galera, quem deixava a bola sair que tinha de resgatá-la. Eu achava que a culpa era do Toninho, mas, como ainda estava um pouco desorientado por conta da pancada, acabei aceitando sem relutar. Pedi apenas uma ajuda para subir no muro e lá fui eu entrar no quintal da senhora Neves. Aquele era um local sagrado que, segundo as histórias, poucas pessoas já pisaram e depois saíram com vida.
A cena era algo bem próximo do meu imaginário. Um jardim com mato alto indicando descuido. Alguns vasos quebrados, um banco de madeira apodrecido e caindo aos pedaços, a parede da casa estava com a pintura descascada e as janelas estavam enferrujadas. Gastei um bom tempo reparando naquele cenário. Tanto que cheguei a esquecer de procurar a bola.
- Moleque enxerido, vai se arrepender de ter entrado aqui.
Antes que pudesse me virar para trás, senti sua mão pesando em meu ombro. Para uma senhora tão idosa e com aparência de debilitada, aquela mão pesava tanto quanto a de um caminhoneiro. Tentei me desvencilhar, mas ela era incrivelmente forte. Implorei pela minha vida e que me soltasse. Ela então arregalou seus olhos de maneira macabra como nunca tinha visto antes em filmes de terror e disse:
- Nem mais um pio. Passarinho meu só canta quando eu mando.
Assim que ela terminou a frase, eu tinha me transformado em um passarinho. Lá estava eu, um passarinho indefeso na mão da senhora Neves. Com aquela mão firme, a senhora Neves me levou para dentro da sua casa. Tentava me debater, mas era impossível. Se na forma de um garoto de doze anos não consegui fazer com que ela me soltasse, imagine agora como um pardalzinho fuleiro.
Fiquei por dias preso em uma gaiola na sala da senhora Neves. Toda tarde, ela me levava para a varanda e dava a ordem para cantar. Caso não obedecesse, ela enfiava a mão na gaiola e me dava um peteleco. Isso só aconteceu nos primeiros dias. Depois cansei de levar petelecos e passei a obedecer. Cantava de tudo. Qualquer música que me vinha à cabeça. Com o tempo, ela me ensinou algumas músicas do Ataúlfo Alves. Sempre que as cantava, ganhava um gomo de tangerina. Era bem melhor que aquele alpiste seco e sem graça.
Certa tarde cansei daquilo tudo. Precisava fugir. Não sabia como iria viver na forma de passarinho, mas ali não ficaria mais. Bolei um plano e resolvi colocá-lo em prática. Quando a senhora Neves estava carregando a minha gaiola para a varanda, me joguei na vasilha onde ela colocava água para mim. Pulei na vasilha batendo as asas freneticamente. Foi água para todos os lados, inclusive na senhora Neves que, com o susto, deixou a gaiola cair de suas mãos. Com o impacto no chão, as varetas de bambu da gaiola se partiram. Mesmo atordoado com a queda, saí da gaiola e disparei a voar. Parti na direção do quintal com a velha bruxa me seguindo. Estava com uma das asas machucadas e batendo em menor velocidade que a outra. Minha vantagem de distância da senhora Neves não era tão grande. Ainda assim, fugi. Reuni minhas forças e consegui subi a uma altura suficiente para passar por cima do muro. Assim que o cruzei no ar, como se o feitiço só tivesse efeito na casa da senhora Neves, voltei a ser menino. Estava a uns três metros de altura quando o pardalzinho frágil se transformou no menino que vos fala. Caí me espatifando no chão e desmaiei.
- Você está bem, cara? – perguntou o Toninho enquanto recobrava a consciência. – Você deu uma senhora pancada de cabeça.
- Cara, você não vai acreditar. Aquela velha maluca da senhora Neves me transformou em passarinho e me colocou para cantar para ela. Devo ter ficando uns...
- Você está doido? Tem uns vinte minutos que você está aí desacordado. Estávamos quase indo na sua casa chamar os seus pais.
- Ué! Será que sonhei isso?
- Claro que sim, seu doido.
- Que bom então, né?
- Bom nada! Você ainda tem de pegar a bola lá.
- Droga – fiz uma pausa para procurar galos ou ferimentos na cabeça. – Só quero te pedir uma coisa. Chamem imediatamente a polícia caso me escutem cantando Ataulfo Alves.

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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Amargura por extenso

 Papo de bar
Por um tempo, tive a oportunidade de viajar pelo Brasil a trabalho. Pisei em quase todos os estados. Fui a capitais, cidades do interior, pequenas cidades conhecidas e outras esquecidas pela evolução da civilização ocidental. Uma das coisas que notei foi que, independentemente de onde estivesse, sempre encontrava algum bar com referências ao Rio de Janeiro. Bar Samba e Praia. Copacabana Bar. Malandragem Carioca, petiscos e bebidas. Rio 40º e cerveja gelada. O curioso era que sempre que pisava em um deles e abria a boca, um garçom me identificava:
- Você é carioca, né?
- Sim, sou. Percebeu pelo chiado na pronúncia ou pelo sumiço da sua carteira?
Raramente entendiam a gracinha. Comumente perguntavam o que achava da ambientação. Chão fingindo ser de pedra portuguesa com desenho igual ao calçadão de Copacabana. Pandeiros, bandeiras de times de futebol e chapéus brancos pendurados na parede. Fotos de sambistas espalhadas por todos os cantos. O esforço para tentar parecer algo autenticamente carioca era enorme. Ainda assim, passavam longe.
- Como assim, nada se parece com um bar carioca?
Nenhum carioca gosta de ficar sentado em uma mesa dentro de um recinto fechado com ar condicionado. Carioca gosta de beber em pé. Se possível, usando um barril com um tampo de madeira como mesa. Para ficar perfeito, tem de ser no meio da rua atrapalhando o trânsito.
Parece meio hipócrita falar de clichês em outras cidades. Ainda mais vindo de uma pessoa que mora onde se tem um shopping com uma réplica da Estátua da Liberdade. Ao menos, não temos ainda franquias das lojas Havana. Ou, melhor ainda, não descobriram o shopping Barra World no Recreio dos Bandeirantes. Daí, seríamos chacota nacional.
Voltando à moda carioca de se frequentar bares, é preciso se lembrar da existência do ponto negativo nesse hábito de ficar do lado de fora. Os ambulantes que tanto nos perturbam noite adentro. No início, lá no século passado, só existiam dois tipos de ambulantes. Os clássicos baleiros que, na maior parte das vezes, eram crianças. Apareciam nos chamando de tio e repetindo a mesma frase:
- Vai uma bala aí, tio?
A outra categoria, a mais presente e com raras chances de se extinguir, era dos vendedores de amendoim torrado.  Talvez a maior afronta ao questionável rigor de fiscalização da Vigilância Sanitária. Amostras de amendoins eram oferecidas em um pedaço de papel pardo comprado em qualquer papelaria. Sempre repousadas sobre uma mesa que, até o início da tarde, horário em que o movimento do bar é escasso, servia de passarela para pombos. Talvez esse fosse o segredo do tempero.
O equilíbrio entre o carioca boêmio à beira da calçada e o ambulante sempre foi mantida por diversos anos. Comprava quem queria. Quem não queria, bastava uma negativa para que o ambulante seguisse sua procissão mercantil. Com o passar dos anos, o nicho de ambulante nas portas dos bares foi ficando diversificado. Chegaram os vendedores de miçanga e brincos com penas de pombo. Depois, anéis de arame “com um brinde grátis, madame”. A variedade culinária também foi aumentando e se sofisticando. Brownies, cupcakes, bolinhos space e brigadeiros gourmet. Por fim, surgiram os autores alternativos com suas obras nunca compreendidas pela sociedade.
- Vai uma poesia aí, gente boa?
- Cara, eu não entendo de poesia.
- Poesia não se entende. Poesia só se sente. Poesia seduz gente. Tanto a alma como a mente...
- Ah não começa, por favor...
- Para quem é impaciente, a poesia calmamente...
- Ok, eu compro.
- São quinze reais.
- Quinze reais por algumas folhas de caderno com frases soltas amarradas por um barbante?
- Rústico sou, da simplicidade que sobrou...
- Ah, me dá duas!
Não, o mercado que flerta com uma Torre de Babel e passa por toda porta de bar cheio não me incomoda. O desconforto surgiu quando a forma de se desvencilhar de algum deles, quando não se tem interesse em comprar algo, começou a ficar cansativa. Nos padrões básicos da sociedade, sempre me considerei uma pessoa educada. Dou bom dia ao porteiro, cumprimento as pessoas quando chego em qualquer lugar, chamo os garçons pelo nome e sempre espero a mulher gozar primeiro. No que diz respeito a negar algo, uso como balizador a possibilidade de estar na companhia da minha mãe na casa de uma amiga dela.
- Quer uma língua de gato da Kopenhagen?
- Oh senhora, parecem apetitosos, mas vou dispensar. – obviamente, se dependesse de mim, comeria a caixa inteira sozinho.
Se, ao término da cena, a imagem da minha mãe disparando um olhar repreendedor em minha direção não surgisse, era sinal que neguei com educação. Infelizmente, mesmo como esse treinamento, ou trauma se assim preferirem classificar, os ambulantes não se dão por satisfeitos. A cada dia que se passa, ao invés deles se reinventarem com novos produtos, os clientes que precisaram ser criativos com as desculpas.
- Repare que esta pulseira de couro pode ser ajustada para caber perfeitamente no seu pulso...
- Eu entendi, mas não tenho interesse...
- Tente colocar. Vai perceber que ela combina...
- Prefiro não. Ela me traz recordações da minha avó que morreu recentemente durante uma mal sucedida sessão de sadomasoquismo.
Pouco importa se o produto comercializado é de fato desejado por qualquer indivíduo na face da terra. Por mais inútil que seja, o vendedor vai insistir. E, caso dispense, ele ficará ofendido, questionará seu gosto e inteligência. Não adianta. Esses em especial são os mais complicados de se desvencilhar.
- É que me chamo Fernando Francisco.
- Preste atenção, pois eu gravo seu nome no arroz mesmo sendo composto.
- Muito obrigado. É impressionante seu talento, mas dispenso.
- Então, é a oportunidade de ter...
- Eu sei, mas não posso.
- Ora, por que não?
- Porque... Porque... Porque eu tenho o hábito de colocar as coisas no nariz. Daí, vou acabar perdendo ele.
- Colocar coisas no nariz? Quantos anos você tem?
- Eu tenho 37. Que coisa não? Só não fale alto, pois o casal da mesa ao lado está até agora procurando o isqueiro deles. Imagine só onde ele...
- Você é estranho.
Se pudesse, voltaria a todas as cidades que estive e venderia consultoria para os chamados bares temáticos cariocas. Tiraria as mesas e colocaria os clientes na calçada e meio-fio. Treinaria os garçons para demorarem com os pedidos, errarem na contagem dos chopes e passarem a impressão que estão lhe prestando um favor. Contrataria atores para se passarem por ambulantes. Chegariam cutucando, fingindo intimidade e tentando disfarçar o evidente desconforto. Seriam inconvenientes e tomariam o seu tempo com o mesmo talento que sua mãe quando entra em seu quarto. Por fim, para completar a ambientação, deixaria uns taxistas à porta do estabelecimento para negar todas as corridas.