quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Volúvel

Mariana
- Merda!
Coloquei a chave na fechadura e nem precisei girar, ela já estava aberta. A cabeça não andava boa já tinha um tempo, mas sair de casa e não trancar a porta era muita bobeira. Não estava voltando de mais uma noitada inesperada que justificasse sair tão afobado. Não, muito pelo contrário. Quando fui para a rua disposto a resolver algumas coisas nem eram onze da manhã. Como não estava apressado, não fazia sentido ter cometido esse deslize. Talvez a hora explique a distração, afinal estar acordado tão cedo é sempre uma boa desculpa. Ok, dez da manhã não é muito cedo, só que, para os meus padrões, o horário é equivalente ao de um assalariado convencional.
Pois bem, lá estava eu seis horas depois que deixei a minha casa inteiramente vulnerável. Afinal, para quem não sabe, o trinco da maçaneta está quebrado, logo, ou você tranca com chave, ou qualquer sopro faz a porta se abrir. Como não tranquei, com o mínimo esforço, empurrei a porta com a ponta do dedo indicador. A sala que agora se revelava era bem diferente da que quando saí pela manhã.
- Merda!
Bagunça e caos na minha sala. Era exatamente o que esperava encontrar, porém me deparei com o oposto, uma sala com tudo no lugar. Nada de cobertor largado no sofá, livros entreabertos por todos os lados, garrafa de vinho vazia no chão e camisas no encosto da poltrona. Alguém esteve por aqui. Ou melhor, alguém ainda estava por aqui, pois nenhum daqueles dois quadrúpedes louros que moram comigo estavam à porta me esperando. Talvez fosse a faxineira. Não, era uma terça-feira e ela só aparece às quartas-feiras.
Talvez não devesse dizer isso, pois todos diriam que era algo previsível, mas eu tenho um péssimo hábito de dar cópias da chave da minha casa para metade da cidade. Portanto, cedo ou tarde era esperado que alguém aparecesse na minha casa sem ser chamado. Bem, poderia ser pior. Alguém sem ser chamado chegar à minha casa em um momento inoportuno. Não era o caso, o qual confesso que ainda assim pode ser pior ainda. Essa pessoa ser alguém que eu não queria ver em hipótese alguma. Pois é, não bastante o complexo de São Pedro solidário, tenho o terrível defeito de não pedir de volta a chave quando não faz mais sentido. Isto é, alguns desafetos meus, que provavelmente desejam muito o meu mal, podem com facilidade entrar na minha casa. Fui para o quarto esperando o menos pior, algo como uma cabeça de cavalo em minha cama.
- Merda
- Você é muito desbocado!
A cena era impressionante. Acho que, assim que terminei de pronunciar a última vogal, fiquei com a boca aberta por quase dois minutos. Frio na barriga, pernas tremendo, a terrível sensação de não saber o que fazer e um instantâneo flashback na cabeça para entender por qual motivo seria merecedor daquilo. Lá estava ela deitada na minha cama. À primeira vista, era uma imagem Nabokoviana. De bruços, com os pés cruzados para o alto e com o corpo posicionado de maneira invertida em relação à cabeceira, era a personificação da tentação que ela sempre foi para mim. Um dos meus gatos dormia ao seu lado, o outro, acordado, recebia cafunés na barriga. Que inveja dele. As unhas dela têm poderes inexplicáveis.
- Você – fiz uma pausa para ainda me recuperar da cena. – Você arrumou a minha sala?
Ela se levantou da cama e a covardia se fez por completa. Short jeans desfiado curto, apenas meias nos pés e uma T-Shirt com golas, mangas e barra cortadas, bem larga e despojada. A tatuagem ao lado do peito escapando pela lateral da blusa como um sol que invade pela fresta da cortina foi o golpe de misericórdia. Ela estava do jeito que adorava e assim me quebrava as pernas. Aliás, do jeito que ela sabia que eu adorava e assim, propositalmente, me quebrava as pernas. Mesmo sendo uma das melhores cenas da minha vida, sabia que em poucos minutos estaria totalmente fodido. Nada sai impune ao ver sua musa te esperando de uma maneira rusticamente sexy em sua cama. Não comigo, pelo menos.
- Você demorou muito, seu wi-fi estava ruim e o sinal do meu celular estava fraco. Fiquei sem ter o que fazer, então acabei arrumando sua sala.
- Você tinha dois gatos para interagir e ainda assim optou por colocar ordem em um apartamento que era um total caos? E, pelo que vejo pendurado no banheiro, foi suficiente para ficar suada. Então tomou banho, se arrumou novamente e ficou estonteante à minha espera. Pois bem, então imagino que tenha algo bem violento vindo em minha direção. Como estou sem a menor noção do que se trata, considerarei que sou uma lambreta com o farol quebrado em um túnel indo de encontro a um caminhão carregado de ogivas nucleares.
- Sabe o que sempre mais admirei em você?
- Hum.
- Sabe o que me chamou a atenção e me cativou?
- Desculpe, mas o hum foi exatamente uma deixa para responder.
- A sua inteligência e capacidade de perceber as coisas.
- E o caminhão acelera... – ela me interrompe.
- Cala boca – quero dizer, ela me interrompe com vontade. – E sabe o que mais odeio em você?
- Eu quero saber?
- Só os idiotas respondem uma pergunta com outra pergunta.
- Esqueci que, mesmo mais nova, você também é da geração Chaves.
- Bem mais nova!
- A minha idade é o que mais odeia?
- Não, não é! Odeio o fato de você não saber quando usar essa inteligência e sagacidade. Insiste em só usar em sarcasmo e respostas ácidas. Na maior parte das vezes nos momentos errados. Nos momentos certos, você se cala. Ou pior, some! Aliás, corrigindo, você só usa nos momentos errados.
- Mas esse é o meu charme!
- É, mas na página doze começa a irritar.
Já tinha esquecido como odiava quando ela abria a boca. Não, ela não é daquelas de sempre, com a cabeça vazia que a cada palavra pronunciada você reflete a real necessidade de estar com ela. Ela sabe me ler e dar respostas que fico sem reação. Por que, raios, ela não podia ser apenas um rostinho bonito em um corpo perfeito? O pior nessa história é que apesar do rostinho, do corpo e do jeito sonso de ser, foi exatamente esse talento odioso que ela tinha que me chamou a atenção. Obviamente, se ela tivesse acesso a este meu pensamento diria que é mentira. Sim, não deixa de ser em partes. A primeira vez que a vi pensei que se tratava de uma dor de cabeça que tive alguns anos atrás. A única menor de idade que me relacionei. Ela tinha 17 e eu 25, mas não é assunto para agora. O fato é que cedo ou tarde ela se revelaria o que é hoje, causando assim a mesma fascinação que disse antes. O problema é que, para se ter uma musa, faz-se necessário ser um poeta, um pintor, um músico ou um sábio. Eu sou apenas um idiota com alguns dotes capazes de impressionar meninas que ficam fascinadas com diálogos de filmes água com açúcar. E isso nem chega perto de ser uma característica dela.
- Baby, o que você está fazendo aqui? Por que arrumou a minha casa?
- Não sei.
- Você não sabe o motivo de estar aqui há pelo menos umas duas horas...
- Quatro – ela me interrompe.
- Que seja! Você não sabe o motivo por estar quatro horas aqui?
- Isso eu sei! Não sei te explicar sobre ter arrumado sua casa. Talvez seja meu subconsciente que queria muito arrumar sua vida. Ou quem sabe um antecipado complexo de culpa querendo compensar o que vim fazer.
- O que você veio fazer?
Eu não tinha certeza se queria saber, mesmo tendo uma ligeira suspeita. Havia quase uma semana que não nos falávamos. A última vez foi naquela traumática noite que as poucas lembranças que tenho indicam que potencialmente devo ter sido um escroto com ela. Estava em um evento na Lagoa quando a Biazinha me ligou dizendo estar com a Mariana no Só Kana, um bar famoso na Tijuca. Como de costume, já tinha bebido além da conta e meu discernimento tinha sido eliminado em algumas mijadas atrás. Não pensei duas vezes, abandonei o evento, peguei a moto e fui ao encontro delas. Cheguei mais louco do que nunca. O sacolejo do trajeto com a adrenalina da alta velocidade exacerbou o álcool que em mim residia. Lá estavam as duas na mesa acompanhadas de outros dois caras. Era óbvio que isso não ia dar certo. Sou competitivo e a Biazinha sabia que me morderia de ciúmes ao ver alguém dando em cima da Mariana. Sem a menor cerimônia, sentei-me à mesa e comecei a minar a cantada dos garotões. Não durou sequer quinze minutos. Essa geração bunda mole é muito suscetível.
Ficamos apenas os três na mesa. Biazinha, com aquela sensação de missão cumprida, disse que iria ver o namorado do momento e nos abandonou na mesa. Agora era só eu e ela, minha cena favorita. Para melhorar, ela parecia contrariada com tudo aquilo. Eu, como estava bêbado como sempre, abstraí sua deflagrada expressão de insatisfação e prossegui no que poderia ser considerada uma ação de marcação de território. Ela odiou. Foram mais algumas horas de cerveja. Eu no meu ritmo Mad Max e ela ao som de Rain Drops Keep Falling on My Head. Não sei por que estou falando sobre isso. Foi um dia que deveria ser esquecido por mim. Fiz tudo errado e ainda assim ela ficou do meu lado. Dormi desmaiado no meio do sexo e ela não tentou me matar asfixiado com o travesseiro. Acordei algumas horas depois com ela vestida dizendo que tinha de ir embora. Ainda estava completamente bêbado com tudo rodando, ofereci dinheiro para ela ir de taxi e sou grato por ela não ter devolvido aquela nota de cinquenta pelo meu reto. Desde então nunca mais a vi ou trocamos uma mensagem.
- Baby – a demora dela em responder estava me agoniando, então resolvi dar prosseguimento. – Você veio pelo que aconteceu naquele dia? Se foi, me desculpa mesmo. Era um dia para nunca ter existido, ainda mais com você. Vou te entender se veio aqui para discutir comigo, fazer barraco e quebrar tudo.
- Arrumar a casa para depois quebrar? Não sou tão sádica assim. Nem estou com tanta raiva quanto imagina.
- Vai ver arrumar a casa seja exatamente o equivalente a quebrar tudo na minha conturbada casa.
- O patético é que isso faz até sentido. Pior vai ser quando descobrir que não somente arrumei seus livros, como o fiz em uma ordem totalmente aleatória.
Olhei em pânico para a estante e ela riu. A desgraçada me conhece. Lá estavam bibliografias misturadas com livros de contos e livros técnicos. Sem falar que alguns estavam de cabeça para baixo, em posição invertida ou deitados sob livros de pé. Ela fez isso de propósito e pensando em cada detalhe. O que ela quer? Que eu fique mais apaixonado ainda?
- Pare de rir. Isso não tem graça – disse enquanto ajeitava um ou dois livros. – Você ao invés de perder tempo com isso, deveria aproveitar e extravasar essa raiva fazendo sexo selvagem comigo até me levar a exaustão.
- Dois minutos não serão suficientes para mim.
- Você está com raiva mesmo. Ir na ferida é seu diferencial que sempre gostei, mas nunca foi de mentir.
- Está bem! Quatro minutos!
Cretina. Ficamos nos encarando por alguns minutos. Ela estava com aquela expressão de xeque-mate que eu habitualmente cortava avançando no lábio inferior dela. Infelizmente o momento não era oportuno para isso. Tudo que me restava era apenas admirar aquela cena que provavelmente seria a última vez.
- Você está indo embora, não é?
- Sim – ela me abraçou como sempre, criando uma sensação confusa na minha cabeça. – Eu era louca por você. Você me tinha na mão e preferiu me usar como diversão. Uma peteca.
- Mas como resistir se a vontade de dar uns tapas na sua bunda é mui... – ela me interrompe.
- Lembra-se de quando falei sobre usar a inteligência de maneira errad... – eu que a interrompo agora.
- Ah, eu sei! É que nas horas de constrangimento isso dispara.
- Então fica calado, tá?
- Me ajude a ficar calado. Me beije.
- É, você não é tão inteligente assim.
De fato eu só comprovava isso. Burradas atrás de burradas me fizeram perde-la. Não suficiente, no que será o último dia, eu insisto em ser espirituoso ao ver de lutar na tentativa de reverter a situação. Não, não é que eu não seja inteligente. É que sou um idiota ao mesmo tempo.
Ela chegou cedo e esperava me encontrar dormindo provavelmente no sofá para me acordar de forma gentil. Só que viu o apartamento vazio e, confusa sem ter como fazer a boa ação que antecederia ao meu pé na bunda, decidiu arrumar a sala. Isso acabou soando patético e nada parecido com ela. Se tivesse que adivinhar esta cena novamente, seria com a sala ainda toda desarrumada e ela deitada no sofá bebendo a última garrafa da minha cerveja favorita. Ficaria infinitamente mais sexy se ela estivesse bebendo algum vinho premiado da minha adega, mas ela não é tão fã de vinho a este ponto. Entretanto, era um dia de semana, e ela jamais tocaria em uma garrafa de cerveja no início da tarde. Viu como sou de fato inteligente?
- Ok, já consigo imaginar o motivo de ter arrumado a sala. Quero entender por que se deslocar até aqui.
- Você ainda não sabe o que estou fazendo aqui?
- Sexo!
- Estou falando sério! Você tem ideia do que eu vim fazer aqui?
- Sexo!
- Por que não consigo falar ser... – ela se interrompe, me solta e se afasta. – Você está de pau duro?
- Desde o primeiro segundo que te vi.
- E isso não dá gangrena?
- Agora está preocupada? Quando ficava me usando por longos quatro minutos nem se comovia.
- Você é muito cretino – ela voltou a me abraçar. – Eu vim para dizer tchau. É a coisa certa. Começou no portão da minha casa, nada mais justo que terminar na sua.
- Começou no portão da sua casa com a minha mão por debaixo da sua saia. Você poderia ao menos terminar com a mão dentro das minhas calças.
- Ok – ela de fato a colocou me deixando sem reação. – Posso continuar agora?
- Pode continuar o que você quiser agora, baby.
- Obrigada – ela cerrou um pouco mais a mão de uma maneira que entendi como um recado para não abrir mais a boca. – Estou indo embora. Você teve todas as chances do mundo comigo e as jogou fora. Eu entendo que, dentro das circunstâncias atuais, me assumir publicamente seria catastrófico para sua carreira. Nunca te pedi isso. Só que mesmo em sigilo tínhamos potencial para dar certo. Fazíamos os nossos programas de maneira discreta como sempre. Voltávamos para sua casa e enrolávamos o resto do dia na cama. Você não quis. Eu queria. Queria muito e para valer. Agora não quero mais.
Ela tirou a mão de dentro das minhas calças e, na ponta dos pés, laçou seus braços por trás do meu pescoço. Engoli a sua cintura fina com meus braços e ficamos ali por alguns minutos. Rosto lado a lado. Apenas a respiração próxima ao ouvido. Ela mexeu a cabeça para trás, ensaiou que me daria um beijo, mas refugou. Logo em seguida se afastou.
- Eu era doida por você, mas você é um idiota – ela disse de uma maneira tão gentil que parecia até um elogio. – E você é péssimo em geografia.
Ela foi embora. Não tinha o que falar. Sequer teria motivos para tentar refazer um contato em breve. A velha desculpa de aparecer para entregar as coisas que foram esquecidas na minha casa não poderia ser usada. Não existiam coisas dela por lá. Nunca dei a abertura para chegar a esse ponto. Ela foi embora. A minha musa foi embora e sequer relutei um minuto. Não discuti, não fiquei zangado, não quebrei copo, não demonstrei tristeza. Tudo que fiz foi alguns comentários cretinos no início e depois uma passividade que não fazia jus ao quanto não queria que ela fosse embora. Eu sou um idiota mesmo.
- MERDA!
Outro conto da coleção? Leia Viviane

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Cai na real: Contos sobre a rotina para quem acabou de chegar

Conto anterior da coleção: Idiota, hormonal e clichê

Canelinha
Eu sei que vocês vão me recriminar por isto, mas tenho os meus motivos. Faz parte do senso comum que falar mal de outra pessoa é algo deselegante e recriminável. Eu discordo. Ainda mais depois de saber que Ariano Suassuna também pensava igual a mim. Ele dizia que o problema não era falar mal da pessoa, mas fazer isso na presença dela. Afinal, criar-se-ia um clima desagradável. Caso a pessoa não estivesse por perto para ouvir, daí, sim, podia falar mal à vontade. Até porque é algo revigorante. Palavras dele. E, agora, minhas também.
O que irei falar é sobre o Canelinha. Provavelmente vocês não o conheçam, mas eu sim. Convivo com ele desde os oito anos de idade, época em que ele recebeu esse apelido. Tenho tantos anos de amizade com o Canelinha que posso dizer com propriedade que ele é um idiota.
Seu nome é Ricardo. No ano em que nos conhecemos, nossos pais disputavam uma pelada toda terça-feira à noite em um campo de futebol na região da Penha Circular. Nossos pais costumavam nos levar e, enquanto jogavam futebol, ficávamos do lado de fora chutando bola um para o outro. Eventualmente, parávamos o que estávamos fazendo para ficar no alambrado com os outros adultos da “de fora” assistindo à partida. Como de hábito, esses adultos adoravam incendiar a partida com gritos de ordem do tipo “Vai!”, “Lança!”, “Chuta!” e por aí ia. Em outros momentos, para desconcentrar os adversários, eles gritavam coisas como “Pega!”, “Quebra!”, “Dá no meio dele!”, dentre outros incentivos que deveriam ser tolerados em debates políticos na televisão. Canelinha, ainda Ricardo na época, curtia esses momentos e gritava junto com os outros adultos. Como se tratava de uma criança de oito anos, ele era muito fofinho e ingênuo, logo, tudo que ele gritava era “Na canelinha! Na canelinha dele!” e assim surgiu o apelido.
Com o tempo, Canelinha foi deixando de ser fofinho e ingênuo para então começar a dar sinais de ser idiota. Aos dez anos, já colecionávamos álbuns de figurinhas. Contudo, para o Canelinha, a óbvia lógica implícita naquela tarefa parecia complexa. Ele ignorava números e as coleções. Em sua cabeça, fazia total sentido ir colando as primeiras figurinhas nas primeiras páginas conforme ia comprando. Quando a primeira página estivesse completa, ele finalmente começava a colar as novas figurinhas que chegavam na segunda página e assim por diante. O resultado era caótico, absurdo e, ainda assim, ele parecia ser incapaz de perceber que algo não fazia sentido ali. Inclusive quando tinha em seu álbum da Copa do Mundo de 1990 uma seleção da União Soviética com três louros, dois ruivos, dois orientais, quatro goleiros, três negros, um Homem-Aranha e uma Ferrari. Como tinha dito, sequer as coleções ele respeitava.
Já no início da segunda fase do ensino fundamental, época que era chamada de ginásio também, Canelinha foi se aprofundando na arte de ser idiota. Ele precisou faltar por uma semana à escola por um motivo qualquer e, na semana seguinte, quando voltou, pegou várias matérias pela metade. Uma delas foi história, que estava falando sobre a Segunda Guerra Mundial. A parte que ele ouviu foi a que dizia sobre as invasões do exército alemão e a liderança de Hitler. Canelinha ficou fascinado com aquela personalidade. Achou impressionante a eloquência do fuhrer e sua capacidade de mobilizar uma população inteira em prol de sua luta. Para ele, Hitler era um líder nato que deveria ser copiado pelos principais chefes de estado, técnicos de esportes e gestores de grandes corporações. Eu só soube disso no mesmo dia que o restante da nossa turma e professora de história, senhora Creuza, também souberam. Em uma apresentação valendo ponto, ele desenvolveu um longo texto sobre suas convicções e o leu na frente de todos. Ao final, com a turma ainda boquiaberta, a senhora Creuza disse que talvez não fosse uma boa ideia que, particularmente, ele idolatrasse o líder alemão. Quando questionado pelo Canelinha por qual motivo não deveria fazê-lo, a senhora Creuza respondeu dizendo “Porque provavelmente, pelo seu sobrenome Schultzartz, você deve ser judeu.”. Canelinha então se calou e achou melhor pesquisar sobre as aulas que tinha faltado.
Já no meio da adolescência, uma das coisas que mais afligia o Canelinha era a sensação de se sentir um estranho fora do ninho. Como se isso fosse exclusivo dele, não é, não? De qualquer forma, a sua sensação de exclusão era baseada em um motivo idiota, como era de se esperar. Ele achava que não tinha uma risada que desse uma personalidade a ele. Considerava sua risada muito comum e, por isso, não se destacava dentre os demais. Ainda mais quando o Mauricinho estava por perto. O Mauricinho era um dos maiores contadores de piadas do colégio. Bastava ele parar em uma roda de pessoas e as gargalhadas eram ininterruptas. Ocasionalmente, quando estava por perto, o Canelinha se sentia constrangido de rir, mesmo que fosse uma piada sensacional. Por isso, decidiu testar várias risadas até achar uma que combinasse com sua personalidade. Começou com uma risada com os dentes serrados escapando o ar. Depois, foram tentativas com risadas de bocas escancaradas. As que usavam as vogais u e o foram rapidamente descartadas porque considerava que harmonizavam melhor vilões de desenho animado. Tentou imitar risadas famosas, dentre elas a do Eddie Murphy. Mas não a risada original do ator, mas a da dublagem da Hebert Richards. Depois de tanto trabalho, achou a sua risada. Ela revezava as vogais a e i em uma frequência tremida. Finalmente, se sentindo identificado com o resultado final, Canelinha mal esperava a hora para estrear sua risada. Foi quando viu uma rodinha com o Mauricinho no meio falando. Lá vem uma piada das boas, pensou o Canelinha. Ele foi se aproximando do grupo e, quando finalmente chegou, Mauricinho terminou a última frase. Canelinha soltou sua nova risada e ganhou a atenção de todos na roda. Depois de retomar o fôlego, ele perguntou qual era o problema e se eles não tinham gostado na nova risada dele. Foi então que o Mauricinho respondeu “Cara, estou contando aqui da minha avó que está no hospital com câncer.”. Desde então Canelinha começou a pesquisar novas maneiras de chorar.
A esperança de que, com o tempo, Canelinha ficasse menos idiota foi sendo descartada. Mais velho, já na faculdade, ele começou a tender para a esquerda. Não, não estou insinuando que isso é sinal de que ele é idiota. Você precisa ser menos ansioso. Como dizia, ele começou a tender para a esquerda e desenvolver um gosto pelas teorias do comunismo. Resolveu então escrever uma tese relacionando o comunismo com a comunidade de formigas da espécie Ranheira, muito comum no estado de Minas Gerais nas proximidades da cidade de Muriaé. Canelinha acreditava que se a organização social fosse estruturada da mesma forma que as formigas Ranheiras, o comunismo seria infalível. Na sua teoria, ele reforçava que não existia hierarquia entre as formigas. Todas eram iguais e, assim, com direitos iguais na comunidade. Inclusive a formiga principal, que não levava o nome de rainha, pois Canelinha era contra a monarquia. No dia da sua defesa, ele recebeu nota dez da banca avaliadora que considerou o trabalho muito bem escrito e a relação entre comunismo e comunidade de formigas impecável. Todavia, Canelinha acabou abandonando o projeto quando soube por um dos membros da banca que as formigas Ranheiras, assim como as formigas de qualquer outra espécie trabalhavam dia e noite à vida toda.
Uma das coisas que mais afetava o Canelinha por ele ser idiota era o seu senso de compatibilidade. Ele nunca entendia quando uma coisa não era compatível com outra. Ele não conseguia ver a coerência nas situações e entender que certas ações não combinavam com determinados eventos. Isso ficou bem claro quando ele chegou atrasado num encontro da galera em uma churrascaria rodízio. Ao ser perguntado sobre o motivo do atraso, ele disse que perdeu muito tempo almoçando.
Com quase vinte e cinco anos, Canelinha resolveu se aventurar na carreira de pintor. Antes fosse pintando casas, apartamentos e fachadas. Não, ele queria ser pintor artístico e expressar seus sentimentos em telas, quadros e painéis. Ele, de fato, tinha certo talento para o desenho. Infelizmente, não era isso que ele queria. Canelinha queria inovar. Pretendia lançar um novo estilo de pintura. Dizia que se sentia muito atraído pelo estilo de Polok, mas não pretendia imitá-lo. Não queria jogar tinta direto do balde na tela ou respingar a tinta a partir dos pinceis. Canelinha queria inventar a técnica da pintura por arremesso. Ela seria feita com objetos mergulhados na tinta que depois seriam arremessados na tela formando então a arte. Na quarta tela ele desistiu, pois tinha constatado que usar pedras portuguesas não seria uma boa ideia.
Com tantos anos sendo idiota, e mesmo sem saber disso, Canelinha foi ficando com a autoestima abalada. Estava já em um patamar que fazia a carência de outrora por uma risada com identidade parecer uma frescura. E era, né? Ele tinha uma necessidade de se sentir parte das coisas que aconteciam ao seu redor. A falta de histórias significativas em sua vida e experiências marcantes, fez com que ele começasse a desenvolver um cacoete mentiroso. As pessoas contavam um episódio de suas vidas e ele concordava dizendo “Sei bem como é. Passei por isso recentemente e senti na pele.”. Certo dia, a galera estava reunida na casa do Zeca. Quando Canelinha chegou, o Mauricinho estava contando uma história. Todos o ouviam atentamente. Calejado pelo lamentável episódio lá na adolescência, Canelinha esperou o fim da história e a reação do pessoal para, enfim, se aproximar. Quando ele terminou, ninguém riu. Canelinha então percebeu que não era piada e entrou na roda de amigos dizendo seu cacoete mentiroso. O grupo espantado olhou para ele que, antes que pudesse dizer algo, foi questionado pelo próprio Mauricinho como era possível. Canelinha persistiu dizendo que tinha acontecido de verdade com ele. Mauricinho então rebateu “Como aconteceu com você se estou contando que a minha avó acabou de perder a luta contra o câncer essa semana?”.
Pois bem, como dizia, sou da filosofia que se falarmos mal de uma pessoa na ausência dela, não existe coisa alguma de errado. Portanto, vou aproveitar que o Canelinha não está por aqui para dizer uma coisa sobre ele. Eu posso até estar enganado, mas acho que ele nunca gostou da avó do Mauricinho.

Próximo conto da coleção: Artimanhas

domingo, 28 de agosto de 2016

Volúvel

Fátima
- EU VOU TE MATAR! ESTÁ ME OUVINDO? VOU TE MATAR, SEU FILHO DA PUTA!
Foi basicamente isso. Atendi ao telefone, falei alô e o cara gritou sem parar, logo depois desligando na minha cara. No início me assustei, até porque era de madrugada. Telefonemas de madrugada são sempre assustadores, mesmo quando você não é médico, mas matemático. Quando o pai da minha mãe beirava os 95 anos, cada ligação de madrugada era uma ida urgente ao hospital. Hoje, ele não é mais vivo, mas o pai do meu pai sim, e ele anda em um estado que a qualquer momento teremos ligações de madrugada. Passado então o susto da ligação, me acalmei e voltei a dormir.
- Como assim, doido? – Perguntou o Cadu assim que contei para ele no dia seguinte. – Te ligam dizendo que vão te matar e não está preocupado?
Não tinha motivos para me preocupar. Apenas um pequeno grupo de pessoas tinha o telefone lá de casa: minha mãe, avó, duas amigas e o zelador do prédio que me ligava constantemente pelas manhãs para se certificar que não tinha morrido por alguma estupidez etílica. Imagino que isso não tinha nenhuma relação com preocupação direta comigo, mas apenas prevenir que os vizinhos não reclamassem primeiro do cheiro de cadáver pelo prédio. De qualquer forma, tinha certeza que era engano.
- Que engano, que nada – exclamou Cadu. – Ninguém liga para a casa dos outros de madrugada por engano e fala que vai matar a pessoa. Um cara que quer matar o outro, primeiro pega todas as informações para ter certeza e depois liga.
De fato, essa teoria fazia sentido. Mas como sabia bem, poucas pessoas tinham o meu número, então era impossível ser comigo. Talvez não fosse alguém querendo de fato matar outra pessoa, que nesse caso era o inofensivo eu. É possível que fosse apenas um trote. Eu mesmo adorava passar trotes de madrugada. Ligava para um número aleatório e deixava tocar. Às vezes, tocava tanto que a ligação caía. Daí ligava de novo até o infeliz atender. Quando finalmente atendiam, fazia a mesma pergunta: “Bom dia, eu acordei para beber água e o senhor?”. Na maioria das vezes, sempre recebia como resposta algo parecido como a ligação daquela madrugada. Aliás, uma bela coincidência, não?
- É, pode ter sido trote mesmo. – Cadu concordara com a minha segunda teoria.
No outro dia, assim que nos encontramos, a primeira coisa que Cadu perguntou foi se alguém ligou novamente. Disse que não. Ninguém ligou mesmo. Concluímos que era apenas uma situação pitoresca que passei e seguimos com as banalidades de sempre.
- EU VOU TE MATAR! ESTÁ ME OUVINDO? VOU TE MATAR, SEU FILHO DA PUTA!
Passados três dias o cara ligou novamente. Mais uma vez de madrugada. Levantei assustado esperando o pior como já disse antes. Quando vi que não era algo sério, relaxei. A voz era mesma. Aparentemente de um homem por volta de quarenta e poucos anos. Dessa vez ele não desligou. Assim que terminou de gritar a mesma mensagem, ficou mudo por alguns segundos calado ou recuperando o fôlego, dando assim brecha para que eu pudesse falar. Calmamente perguntei quem era.
- É O MARIDO DA MULHER QUE VOCÊ ANDOU COMENDO, SEU FILHO DA PUTA!
Já tinha perdido o sono mesmo e a certeza que era trote ou engano me levou a dar corda na irritação do traído. Continuei falando calmamente. Dessa vez, disse que como comia muitas esposas por aí, ficaria difícil saber de quem estava falando. Então perguntei se poderia pelo menos dizer o nome dela.
- NÃO VOU FALAR PORRA NENHUMA. EU VOU É TE MATAR! E QUANDO TE MATAR, FALAREI O NOME DELA NO SEU OUVIDO, SEU MERDA!
Realmente consegui irritar mais ainda o cara. Se ele estivesse na Tijuca, seria possível ouvir pela janela ele gritando, seja qual fosse a rua que ele morava. Decidi então meter o dedo na ferida e dar aquela giradinha para a dor ficar insuportável. Disse que, como não iria falar o nome dela, ficaria difícil saber de quem se tratava para poder, pelo menos, pedir sinceras desculpas. Essa fala das desculpas é um truque velho para o cara dar uma pequena acalmada e te conceder mais uns segundos para prosseguir com o golpe final sem te interromper. Como funcionou, logo em seguida pedi que desse uma pista sobre a esposa. Foi então que sugeri que ele falasse se, quando ela goza, ela geme, grita, mia ou fala o nome de quem está com ela.
- DESGRAÇADO! DESGRAÇADO! EU VOU TE DESGRAÇADO!
Ele ficou tão irritado que não conseguiu mais construir frases. Começou a enrolar as palavras, me chamar de matar e dizer que iria me desgraçado. Virou uma sequência de gritos sem sentido e ameaças tão confusas que chegaram a ficar engraçadas. Eu ri, ele ouviu e logo depois desligou. Nem deu tempo de perguntar se ela estava por perto.
- Maluco, você tem merda na cabeça – Cadu constatou o óbvio assim que disse o episódio daquela madrugada. – É claro que não é trote! E você ainda fica dando corda!
Ele tinha razão, devíamos abandonar a hipótese de ser trote. O cara respondeu de forma passional às minhas provocações. Voltei a cogitar ser engano.
- Sim, pode ser engano mesmo – concordou Cadu. – Mas quem não garante que era para você? Você sai enfiando esse pau em tudo que é buraco pela frente.
Exageros à parte, mesmo que tivesse, como o próprio Cadu disse, enfiado o pau no buraco de uma mulher casada, era impossível que o marido tivesse o meu telefone. Portanto, a teoria do engano era irrefutável. Provavelmente o marido descobriu a traição, pressionou a esposa que, com medo, deu um telefone aleatório para ele. Nesse caso, o aleatório coincidiu de ser o meu. Sendo matemático, sei muito bem que as chances são raras disto acontecer, mas, ainda assim, sempre acontecem comigo.
Nas madrugadas seguintes não soube se meu telefone tocou. Foram algumas viradas de noite na rua chegando pela manhã. Como não tinha secretária eletrônica, nem um telefone que registrasse as ligações perdidas, ficava apenas na curiosidade. Um pouco de frustração passava por mim também, pois já estava com algumas ideias para irritar ainda mais o cara.
- VOCÊ ACHA QUE ME ESQUECI DE VOCÊ, SEU FILHO DE UMA PUTA? NÃO ESQUECI DO QUE FEZ E QUE AINDA DEBOCHOU DE MIM. VOCÊ ESTÁ FUDIDO! FUDIDO! FUDIDO!
Lá estava o meu colérico amigo das madrugas silenciosas me ligando novamente. Não sei se ele estava me testando, se era sádico ou outra coisa qualquer, mas, novamente, ele deu tempo para que eu falasse bobagem. Obviamente não desperdicei. Perguntei se ele não teria medo de vir me matar na Pavuna. Assim, estaria testando se ele de fato sabe onde moro e, ao mesmo, tempo debochando dele com o meu bairro favorito para todas as ocasiões.
- PAVUNA É O CARALHO, SEU MERDA! EU SEI QUE VOCÊ MORA NA TIJUCA!
Não vou mentir. Por alguns segundos meu sangue congelou e tive aquela péssima sensação que temos na barriga quando algo dá muito errado. Como ainda estava consideravelmente no controle da situação, consegui reorganizar a cabeça e pensar de forma clara. Respondi que era fácil saber onde eu morava, pois bastava fazer uma rápida pesquisa na internet com o telefone da minha casa e o endereço seria descoberto. Não tinha pensado nisso antes. A brincadeira tinha ficado séria, mesmo sabendo que não existia a possibilidade de que eu fosse o cara. Estava agora provocando a ira de uma pessoa com motivos suficientes para querer matar alguém. Uma pessoa que tinha o endereço da minha casa. Logo, por mais que eu não fosse o cara, descontar toda a raiva em mim seria, no mínimo, satisfatório para ele. Estava na hora de contornar as coisas. Falei então para ele que provavelmente era um engano, eu não era de fato a pessoa com quem a esposa dele o traiu. Prossegui dizendo que ainda assim queria pedir desculpas pela provocação, mas que entendesse que era de madrugada e cada pessoa reage de uma forma diferente.
- DESCULPA É O CARALHO! NÃO TEM ENGANO NESSA MERDA, SEU FILHO DA PUTA! É VOCÊ MESMO!
Na brecha seguinte, prossegui com o discurso de engano, que ele estava perdendo o tempo dele. Mas ele novamente me interrompeu afirmando que era eu mesmo. Para provar, ele disse meu nome e sobrenome. Deveria me assustar com aquilo, mas a parte do endereço foi suficientemente surpreendente para uma única noite. Depois daquilo, fiquei de prontidão para o rebate rápido. Falei que, se ele conseguiu meu endereço na internet usando meu telefone, era óbvio que conseguiria o meu nome também. Ele então rebateu descrevendo uma tatuagem que tenho no corpo que dificilmente outra pessoa teria. Outra resposta que deveria me assustar, mas a sequência de movimentos deles já estava bem previsível.
- Cara, na boa. Você recebeu meu telefone achando que era do tal cara que quer matar. Pegou o meu nome e endereço na internet, fuçou minha conta no Facebook que não é bloqueada e viu as fotos das minhas tatuagens. Ainda assim, pode ficar tranquilo, não fui eu. Você está seguindo por pistas indicadas por uma primeira informação errada.
Ele se calou. O silêncio durou quase um minuto, mas a sensação foi de uma eternidade. Nem uma palavra. Sequer o som de respiração ofegante que ele soltava enquanto eu falava dava para escutar. Provavelmente ele parou para ouvir o que tinha dito e estava repensando tudo naquele momento. Até que ele quebrou o silêncio falando com uma calma que assustava mais que a gritaria a qual estava acostumado.
- Aqui no meu apartamento tem um livro seu com uma dedicatória para a minha esposa com seu telefone ao final com os dizeres me liga. Não me faça de idiota. Eu vou te matar. – Ele desligou.
Merda!
- Você é um imbecil mesmo – Cadu tentava falar entre uma crise de risos e uma sequência de gargalhadas. – Não era engano, nem trote. Era com você mesmo! E ainda ficou provocando o cara que já estava possesso. Foi bom te conhecer, doido.
Odeio quando o Cadu tem razão. E fica mais difícil ter contra-argumentos com uma pessoa emitindo risadas tão honestas de chegar a chorar. Acabei rindo algums vezes também e boa parte delas, preciso confessar, era de nervosismo. Nunca omiti que não tenho talento algum para briga ou qualquer tipo de confronto. Mesmo que a minha vida esteja em jogo. Para ser totalmente honesto, no que se refere à briga, meu maior talento é apanhar. Sei levar sequências de murros e pontapés e não cair como ninguém. Sem querer soar prepotente ou exibicionista, é claro.
- Doido, sei que vou me arrepender disso, mas tenho uma arma guardada lá em casa desde quando entrei para a polícia. Quer emprestada? Não para andar na rua, porque você vai ser preso. Para ficar em casa mesmo, caso o cara apareça por lá.
Respondi que pelo menos naquela noite não seria preciso, pois tinha um programa e voltaria apenas no dia seguinte mesmo. Seria um encontro com a Fátima, ela era uma raridade na minha vida. Por volta de dez anos mais velha do que eu, ela me atraía pela capacidade de acompanhar meu raciocínio quando eu desandava a falar besteira, sabia discernir quando estava sendo sarcástico e tinha aqueles impressionantes peitos nunca retocados. Já ela dizia que o meu melhor era fazê-la rir e ser um pervertido ambulante. Estranhamente nunca elogiou os meus peitos também nunca retocados. Era difícil encontrar alguém na idade dela tão bem resolvida com um relacionamento aberto. Nossos encontros eram uma vez por semana, quando dava. Falávamos muito por email e mensagem de celular. De manhã, de tarde, de noite, não tinha hora. Metade era bobagem gratuita e a outra era putaria igualmente gratuita. Os encontros não fugiam muito de um padrão, restaurante para comer algo, depois um pub para encher a cara e terminava na minha ou na casa dela. Quando era na zona norte, íamos para a minha casa, quando era zona sul, o destino final era a casa dela. Apesar de parecer algo rotineiro, sempre acontecia uma loucura que fazia a noite ser diferente. Foi o que também aconteceu naquele tal encontro que comentei com o Cadu.
Jantamos em um restaurante na Tijuca. Nossos horários sempre foram ruins e, por isso, quando chegamos, o restaurante já estava bem vazio. Por ser cliente habitual da casa, o garçom não se incomodou e nos atendeu como sempre. Tivemos entrada, janta, sobremesa e algumas garrafas de vinho. Tudo feito na maior calma. Foi possível conversar, colocar as notícias em dia, incomodar os poucos clientes com nossas gargalhadas e comentários inapropriados. Esvaziada a última taça de vinho, pedi a conta um pouco constrangido, pois éramos os dois únicos clientes na casa. Fátima se levantou, disse que iria ao banheiro e me aguardaria lá fora. O garçom voltou com a conta, paguei e avisei que se por algum motivo ela procurasse por mim, eu teria ido ao banheiro, mas que iria de fato encontrar com ela lá fora. O garçom pegou o comprovante do cartão, disse que daria o recado, me desejou uma boa noite e se retirou. Por ser em uma casa muito antiga, aquele restaurante tinha um desenho interno um pouco incomum. Muitas colunas, paredes cortando os salões e, para chegar até os banheiros, era obrigado a encarar um pequeno labirinto em um corredor estreito. Chegando finalmente na parte onde tem as duas opções de portas (banheiro masculino e banheiro feminino), lá estava Fátima com a cara de cínica de sempre:
- Pensei que não entenderia o recado.
Essa era uma das nossas vantagens, sempre entendíamos muito bem as entrelinhas. Respondi com um sorriso tão cínico quanto e nos agarramos ali mesmo. Ela começou a me conduzir para o banheiro masculino. Disse que era melhor o feminino, pois algum garçom poderia precisar ir ao banheiro. Ela fez um elogio cretino envolvendo raciocínio, sangue no cérebro e pau duro e em seguida entramos no banheiro nos agarrando e rindo um pouco.
Sem dúvidas, Fátima era uma mulher impressionante, mesmo que pelos parâmetros mais distorcidos. Ela sempre topava, quando não sugeria antes, essas aventuras de adolescentes. Tal fato já é suficiente, mas ela também era capaz de depois sair com a maior naturalidade do mundo, como se nada tivesse acontecido. Jamais conheci alguém que fosse tão merecedora do título de cretina, seja qual for a aplicação deste.
Passados uns vinte minutos, estávamos pronto para sair do banheiro. Sugeri que saíssemos de mãos dadas. Ela fez uma piada sobre ter nojo de tocar na minha mão suja de sexo e foi na frente. Alguns segundos depois escutei uma gargalhada dela. Imaginei que, ao sair do tal labirinto, ela deu de cara com todos os garçons e não aguentou, transbordando numa gargalhada. Era a minha vez. Segui pelo labirinto imaginando toda a equipe à minha espera. Na verdade só estava o nosso garçom encostado na parede:
- Parece que vocês se encontraram, né?
- Parece que terei de caprichar na gorjeta na semana que vem – respondi.
Ele ficou rindo, eu saí rindo e lá fora estava Fátima rindo e balançando a cabeça como quem discordava de algo. Subi na moto e entreguei o capacete para ela que me perguntou se tinha condições de dirigir. Respondi que sim porque o pau tinha abaixado. Ela deu um tapa na minha cabeça me chamando de doente e disse para irmos para um bar ali perto beber umas cervejas, onde ficamos até a metade da madrugada bebendo e falando besteira. De lá, seguimos para a minha casa. De manhã cedo, mesmo sabendo que odeio estar vivo antes das dez, ela me acorda. Era oito e alguma coisa. Resmunguei, ela debochou do meu resmungo e pediu que a levasse ao trabalho. Resmunguei mais ainda, mas acabei topando, pois assim aproveitaria que ela trabalhava em Ipanema para caminhar na praia. Na verdade, não sei dizer não a pedidos feitos por alguém de calcinha e camiseta preta, minha no caso. A camiseta, não a calcinha. Enquanto descíamos no elevador, notei que ela estava inquieta. Perguntei o motivo e ela respondeu que estava nervosa. Perguntei novamente o motivo e ela respondeu:
- Sei lá. Vai que meu marido está na sua portaria à nossa espera e mata nós dois.
- Marido? Você tem marido?
- Sim! Claro que tenho! Quem você acha que quer te matar?
- Mas você me disse que era solteira!
- Eu nunca disse que era solteira, tão pouco falei que era casada para você.
Era verdade. Nunca tinha falado sobre o estado civil dela. Nosso relacionamento era tão aberto e prático que não precisava desse tipo de detalhe. Tinha também o fato de trocarmos mensagem a qualquer hora do dia e a parte que algumas vezes dormi na casa dela. Isso provavelmente me levou a concluir que ela era solteira. Nunca reparei se tinha fotos do casal pelo apartamento. Chegávamos bêbados, íamos direto para o quarto, de lá só saíamos pela manhã de ressaca. A última coisa que repararia seria em fotos. Se me perguntassem, jamais saberia responder a cor do sofá da casa dela.
- E ainda com essa caralha toda você continua saindo comigo? Você tem merda na cabeça?
- Disse o cara que provocou o homem que queria matá-lo.
Mas que merda, todos usavam o mesmo argumento contra as minhas tentativas de dizer algo recriminador. Não que estivessem sem razão. Só achava que era a hora de mudar o disco. Ou pelo menos deixar as coisas se acalmarem um pouco na minha cabeça. Todavia, aparentemente, não existia essa opção. Restava apenas levá-la ao trabalho olhando para todos os lados possíveis. A ideia de colocar uns dez retrovisores extras na moto parecia ser genial naquele momento.
- Merda – falei enquanto nos aproximávamos da moto. – Aquele guarda babaca multou a minha moto.
- Mas quando chegamos de madrugada você fez questão de parar na vaga de motos, mesmo que com isso tivéssemos que nos arrastar bêbados por alguns metros até seu prédio.
- Eu sei. Mas olhe lá o adesivo de autuado no tanque.
- Não parece ser um adesivo de autuado. Parece um bilhete.
De fato era um bilhete colado no tanque da minha moto. Nele estava escrito: “Você tem uma moto muito bonita, adoraria desmontá-la. Mas prefiro fazer isso com você!”. Merda ao quadrado!
- Doido, esquece a arma – disse Cadu com seu tom de desesperado de sempre. – Você precisa de escolta. Quer que eu fale com uns caras do CORE?
Não era necessário. Naquele dia, tinha ido até a zona sul, rodei por lá, voltei e ninguém me abordou. E nem tenho como dizer que era algo difícil de acontecer, pois depois de conhecer a minha moto, não tem como não enxergá-la no meio do trânsito. Estava na cara que ele iria me procurar quando fosse conveniente. Só me restava esperar.
Esta não era a primeira vez que alguém me ameaçava. Claro que as anteriores não eram com tamanha dimensão ou níveis de psicopatia explícitos. Era sempre um menino da rua que ficou zangado por algo, um colega do colégio que recebeu cola errada e por aí em diante. Algumas caíam no esquecimento, outras não. E com meu talento para apanhar, é possível prever como terminavam as que não caíam no esquecimento.
A primeira ameaça que recebi foi no meio da minha adolescência. Naquela época morava em um prédio onde tinha uma quadra poliesportiva que permitia jogar futebol de salão, vôlei, basquete, taco etc. A molecada da rua ia com frequência para lá aos sábado e domingos. Basicamente era a rapaziada do meu prédio, uma galera de um prédio que ficava do outro lado da rua e um grupo de pessoas da rua de trás. Todo sábado, tínhamos futebol e depois basquete. Aos domingos era apenas futebol. Certo sábado, bem antes do habitual horário do futebol, João Carlos ligou me chamando para bater uma bolinha de basquete. Disse que podia vir que encontraria com ele na quadra. João Carlos era um dos que morava no prédio da frente, em uma cobertura que ficava de frente para a quadra. Ainda assim, era uma grande distância, pois estávamos falando de um prédio de dez andares mais a cobertura. Cheguei à quadra e fiquei batendo bola sozinho. Arremessos, bandejas, corridas, algumas enterradas com ridículos centímetros de dedo, até que cansei. Dei uma diminuída no ritmo e resolvi olhar para o alto. Eis que lá estava na janela da cobertura o João Carlos. Acenei com o braço como quem pergunta “e aí, como é?”. Ele respondeu com o mesmo gesto. Repeti o gesto e ele idem. Como ele parecia estar de palhaçada, resolvi com os dedos indicadores de cada mão desenhar um enorme coração para ele no ar, sendo que o coração terminava bem no meu pau. Ele gesticulou como quem pergunta “está maluco?”. Resolvi fazer o mesmo gesto. Ao terminar escutei uma voz:
- Que porra é essa, cara? – Era o João Carlos entrando na quadra.
Fiquei sem entender. Como era possível gesticular para uma pessoa na cobertura no décimo primeiro andar de um prédio do outro lado da rua e, ao terminar o gesto, essa mesma pessoa estava entrando no mesmo local onde eu estava? Repeti a pergunta que João Carlos fez assim que chegou, só que dessa vez eu fiz para ele, e, me certificando que não estava louco, olhei para ele na porta da quadra e para ele também na cobertura. Não, não estava. João Carlos acabara de entrar na quadra e estava ao mesmo tempo na cobertura gesticulando que ia me enfiar a porrada.
- É meu irmão mais velho, cara – explicou João Carlos rindo.
Tinha mais de dois anos que jogava bola com ele e nunca soube de um irmão mais velho, tão pouco de um irmão mais velho idêntico. Que merda! Mexi com quem estava quieto e arrumei um problema. Tanto que no domingo, quando voltou para jogar futebol, João Carlos disse que seu irmão estava puto da vida comigo e queria matar o moleque abusado que debochou da cara dele. Foram estas exatas palavras que ele me passou. Por sorte, este foi um dos vários casos que caíram no esquecimento.
Voltando ao presente, no dia seguinte Fátima me ligou. Contou que tentou conversar com o marido, explicar que eu não sabia de coisa alguma, que era apenas culpa dela e outras coisas para tentar livrar a minha barra. Agradeci o seu esforço, pois, afinal, eu não sabia mesmo que ela era casada. Toda minha culpa nesta história era ter provocado um cara que queria de fato me matar, ou pelo menos fazia menção a isso, mas que achava que era um trote. O mote inicial da ameaça era desconhecido para mim, portanto, naquela circunstância, eu tecnicamente não tinha culpa. Perguntei o que ele fez. Ela contou que ele disse que deveria dar uma surra nela, mas que não era bobo, nem burro, por isso não iria encostar em um fio de cabelo dela, apenas falar algumas verdades e, ao final, acabou fazendo algo muito pior, mandou que passasse o resto da semana na casa da mãe em Miguel Pereira.
Dias depois, eu estava dando aula. Na instituição onde lecionava, existem alguns blocos nos quais a frequência de pessoas pelas salas e corredores era bastante pequena, inclusive professores e funcionários em geral. Neles, quando era de noite, a frequência ficava menor ainda. Era em um deles que eu estava e, como a aula não era somente de noite, mas também uma sexta-feira, é óbvio que o bloco estava um mausoléu. Sim, não preciso dizer que era um corno por marcar aula sexta de noite, mas isso fica para outros parágrafos.
Alguns anos atrás, os alunos possuíam um hábito que era bastante curioso. Eles não se preocupavam em antecipadamente se informar em qual sala a aula deles seria ministrada. Eles apenas iam de sala em sala, abriam a porta, olhavam quem estava dentro e iam embora até achar a correta. Esse hábito eu costumava chamar de Síndrome da Geladeira, remetendo à mania que, particularmente, eu tenho de ir à geladeira, abrir a porta, apenas olhar o seu interior e sair. Passado um tempo, imagino que motivado por esta síndrome e, ao mesmo tempo, pela certeza que os alunos nunca irão ganhar o desprezível hábito de se informar com antecedência sobre as aulas, colocaram pequenas janelas de vidro nas portas das salas. Daí, extinguiu-se a Síndrome da Geladeira, mas surgiu uma nova síndrome, a Síndrome do Serial Killer. Os mesmos alunos, que tinham coragem de abrir uma porta no meio de uma aula, olhar o que tem dentro e ir embora, agora ficavam com vergonha de parar por míseros cinco segundos na janela para ver qual era o professor ou se reconhecia algum colega dentre a classe. A cena que agora surgia era de alunos andando pelo corredor, fingindo que seguiam o caminho deles, mas em passos lentíssimos, com o pescoço virado para a janela da porta e rosto rente ao vidro encarando quem estivesse lá dentro. Eles passavam uma, duas, três, até dez vezes, todas bem devagar até conseguir identificar algo. Jamais paravam, era sempre em movimento. Pareciam de fato psicopatas cercando a vítima e mostrando para ela: “Estou aqui fora! Estou à sua espera!”. Por conta dessa síndrome, era bastante comum ver alunos dentro de sala olhando para a tal janela da porta. Afinal, como sabemos, eles têm naturalmente a concentração de uma criança hiperativa após duas colheres de açúcar puro. Isto nunca me incomodou, aliás, achava divertido. Contudo, naquele dia, as atenções para a janela estavam especialmente frequentes. Lembro que em certo momento brinquei com eles: “Senhores, não acredito que lá fora tenha algo que consiga ser mais interessante do eu.”. Mesmo com um sinal gritante desse tipo, não me toquei no fato de que o bloco estava deserto e ainda assim tinha alguém lá fora constantemente na janela.
Terminada a aula, é comum que fiquem alguns alunos em sala. Sempre são dois para tirar uma dúvida ou comentar algo sobre o conteúdo, um ou outro para falar de eventos profanos tribais que acontecerão no final de semana, fora os que ficam para falar besteira mesmo. Por ser uma sexta-feira de noite, saíram todos em manada. Não ficou um aluno sequer para que me mandasse à merda pelo menos. Assim que saíram os últimos, entrou um homem aparentando ter mais de quarenta anos. Logo que bati os olhos nele, já sabia quem era. A presença dele ali não me surpreendeu. Ele já tinha meu nome completo, endereço, telefone e mais outras informações provavelmente. Achar onde dava aula era absolutamente fácil. Apenas com meu nome, ele conseguiria achar meu site em que mantenho relação acadêmica com os alunos, lá constam todas as instituições, disciplinas, dias, horários e salas de aula. Eu estava acabando de arrumar meu material quando ele entrou. Ficamos de frente um para o outro a uma distância de menos de um metro. Sequer tivemos dois segundos de silêncio, pois assim que parou, ele me perguntou:
- Você é o professor de lógica?
- Não, é a gordinha de blusa listrada que acabou de sair.
Mal tive tempo de armar o sorriso de deboche, ele me deu um soco no rosto. Tecnicamente não foi um bom soco. Pegou na bochecha, quase na costeleta. Ele conseguiu errar o meu enorme e erótico nariz. Ainda assim foi um soco forte o suficiente para que me virasse e caísse sobre a mesa. Papéis, canetas e apagador caíram no chão. O computador ficou preso sob meu peito. Poderia me levantar já partindo para cima dele. Ou poderia ao menos me levantar para me proteger de possíveis novos golpes. Não fiz um, nem outro. Permaneci parado na mesma posição que caí sobre a mesa. Fiquei esperando qual seria o próximo movimento dele. Ele disse:
- Venha! Levante-se!
Levantei-me devagar com uma das mãos sobre o rosto que latejava com a pancada. Sem pressa, disse para que ele fizesse logo o que pretendia, pois não iria revidar. Assumi que errei ao provocá-lo quando achava que as ameaças não eram comigo, mas afirmei que não iria me desculpar pelo resto. Não tinha culpa daquilo. Sequer sabia que ela era casada.
- Você deve se desculpar, sim – disse ele enfaticamente com o dedo em riste. – Você comeu minha esposa!
- Cara, se for por isso, eu precisarei pedir desculpas várias vezes para você.
Era fato que ele não sabia bater muito bem, entretanto preciso admitir que o desgraçado era bem rápido. Mal terminei a frase e ele me acertou um chute que pegou no joelho esquerdo. Caí nas carteiras e fui parar no chão sobre os papéis que ali já estavam. Acredito que por conta do barulho de carteiras sendo reviradas com a minha queda, dois alunos apareceram na porta da sala. Não eram da minha turma, deveriam estar perdidos por lá, ou simplesmente estavam aproveitando o bloco deserto para fazer uma tradicional saliência nas salas escuras. Ao se depararem com a cena daquele homem de pé e eu no chão, eles perguntaram se estava tudo bem.
- Não, relaxem – eu disse ainda caído no chão e gesticulando com as mãos tentando passar um ar de controle total da situação. – É apenas um aluno pedindo revisão de prova final que não concorda com a nota que dei.
Não tenho certeza se eles entenderam o meu sarcasmo, mas o fato é que eles foram embora e voltei a ficar a sós com o homem que queria me matar. Levantei-me, pela segunda vez, calmamente e me prostrei à sua frente com uma postura de quem diz que nada vai fazer.
- VAMOS! – Ele gritou. – FAÇA ALGO! CADÊ SUA VALENTIA?
- Eu nunca disse que sou valente.
- E suas respostas espertinhas para mim são o quê?
- Isso é uma deficiência que tenho. Minha boca não costuma obedecer muito ao meu cérebro. Ela faz o que quer.
- MENTIRA! Isso é você querendo esfregar na minha cara que não tem medo de mim!
- Eu? – Apontei para o meu próprio peito, parecendo ser um pouco mais dramático do que a situação pedia. – Claro que tenho!
- MENTIRA!
- Como mentira? Você descobriu tudo sobre a minha pessoa. Achou meu endereço. Deixou bilhete na minha moto. Aliás, podia ter sabotado meu freio. Você a qualquer momento poderia me surpreender e me matar. Sequer sabia como era a sua cara, logo nem teria como prever. Como não ter medo disso?
- E ainda assim não se preocupou. Não foi cauteloso. Ficou dando bobeira por aí. Não, você não pode ser tão burro assim.
- Não, não sou burro mesmo.
- Então por que insistia em provocar?
- Acredito que seja algo relacionado à demência, ser inconsequente ou instinto auto-destrutivo.
Terminada a minha frase, franzi o rosto esperando mais alguma porrada. Ele nem se mexeu. Foram breves segundos de silêncio até que resolvi pedir desculpas novamente. Falei que não era pessoal, que foi uma coisa sobre a qual não tinha controle e sequer sabia dos detalhes conjugais. Comentei ainda que se ele quisesse uma chance de salvar o casamento dele, não era ali o local dele, era ao lado da esposa que estava provavelmente procurando comigo algo que não tinha com ele. Mas se ele estivesse ali apenas para tentar curar o ego ferido, me matar talvez resolveria momentaneamente o problema, só que com o tempo, ele olharia para ela e continuaria a me ver. Aliás, a traição só passou a ter um rosto porque ele procurou e correu atrás de mim, disse também. Voltamos ao silêncio. Fiquei esperando uma resposta dele, mas não tive. Ele ficou calado olhando para o chão. Sua expressão era péssima. Provocava em mim uma sensação de pena misturada com constrangimento. Era necessária coragem demais para chegar até aquele ponto que ele estava e não encontrar o que procurava. Tenho quase certeza que tudo que ele queria era que eu revidasse. Ele iria brigar como se estivesse defendendo a própria vida e, independentemente de sair vitorioso, ao final teria a sensação de purgar aquilo que tanto doía por dentro.
- Pois bem – quebrei novamente o silêncio colocando meus pertences na mochila. – Caso não tenha mais o que falar ou fazer, eu preciso ir. Uma gatinha espera por mim em um bar aqui perto.
- Espere – ele disse enquanto passava ao seu lado a caminho da porta. – Ela está na casa da mãe.
- Eu sei. Em Miguel Pereira.
- Vocês se falaram?
- Sim, ela me ligou para pedir desculpas.
- Vai encontrar com ela novamente?
- Você pretende salvar seu casamento?
- Sim, gostaria muito.
- Então não – respondi e caminhei até a porta quando parei e perguntei. – Você trouxe uma arma?
- Não – ele respondeu ensaiando um riso. – Seria uma cena patética te matar. Logo após eu desmaiaria já que não posso ver sangue.
- Deveria vencer esse medo. Passe a fazer sexo com ela menstruada. Pessoas com nojo disso era algo que ela reclamava bastante.
- Isso foi cruel. Não precisava comentar.
- Desculpe, não foi intencional. Foi com boas intenções.
- É – ele falou apontando para mim. – Você é bastante inconsequente mesmo, devia se tratar.
Não respondi. Fui embora em seguida e não sei o que ele fez em seguida. Alguns meses depois Fátima entrou em contato agradecendo por não ter piorado a situação quando ele foi ao meu encontro. Falei que não foi pensado, apenas fui covarde mesmo.
- Não – ela retrucou. – Você foi sensato!
- Baby, eu nunca sou sensato.
Ela riu e fez um silêncio para ouvir a voz masculina ao fundo que falava com ela. Em seguida, disse que o marido pedia para avisar que ainda tinha o meu endereço e que iria me fazer uma visita. Respondi que dissesse a ele que seria tão bem-vindo, que iria servir de almoço uma picanha bem sangrenta. Em seguida desliguei e mudei na minha agenda o nome Fátima para Risco de Morte.


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