segunda-feira, 25 de julho de 2016

Volúvel

Luciana – Parte I
Não dava mais! Estava precisando reduzir o ritmo havia um tempo. Aquela rotina estava me levando para o colapso em uma velocidade altíssima. Eu já estive em colapso e, acredite, não quero voltar lá. Era cada vez mais necessário ter um final de semana sossegado. Nem digo colocar trabalhos, leitura ou alguma atividade doméstica em dia. Só precisava frear o frenesi. Coincidentemente com essa minha decisão, descobri que minha ex-cunhada viajaria no final de semana para comemorar o aniversário de casamento e, com isso, os meninos ficariam com avó. Aproveitei então para ter a desculpa de fazer, finalmente, um programa que não terminasse ébrio e, ao mesmo tempo, mataria a saudade dos meninos, além de dar as caras, pois, segundo a própria mãe, eles perguntavam por mim com frequência.
No sábado então, quase no final da tarde, cheguei à casa deles. Paulinho abriu a porta só de cueca e com um tablet na mão. Pedrinho, no colo da avó, chorava. Ok, terei de lidar com uma criança de cinco anos com um apetrecho tecnológico e outra de um ano irritada com algo:
- Titio, posso andar na sua motoca?
Paulinho possuía uma crescente relação de perguntas quando me encontrava. Primeiro sobre a motoca, depois o baixo, os gatos, as tatuagens e por aí vai. Respondi todas pacientemente. Pelo menos ele largou o tablet. Já tinha notado que, apesar de gostar de estar com eles, aquilo seria um martírio se permanecêssemos por lá. Poucas opções de entretenimento, uma televisão ligada gritando pela minha atenção e minha ex-sogra com diversos assuntos que não conseguiria dar conta. Pois bem, algo precisava ser feito:
- Festa junina – Exclamei em voz alta e depois falei perguntei à avó das crianças – Zezé, onde tem uma festa junina por aqui?
- Tem a da escola da Marianinha – respondeu Paulinho mais rápido.
Ótimo! Era alguma coisa. Festa de escola tem opções para crianças, bebidas para mim e comidas farelentas para deixar a ex-sogra com a boca fechada por um bom tempo. Arrumei Paulinho rapidamente e ao pegar Pedrinho, Zezé me disse que era melhor levar só o primeiro, pois Pedrinho estava irritado de sono e assim seria um transtorno. Ok, vamos eu e Paulinho:
- De motoca, titio?
Após uma eternidade para percorrer quatro quarteirões com uma criança na moto, enfim, chegamos. Festa de escola pequena de classe média alta. Pessoas de boa aparência, tudo bem arrumado e nada de pré-adolescentes irritantes. Comprei vários tíquetes de brincadeiras, comida, bebida, estalinhos, rifa, meu dinheiro todo foi embora. Não tenho muita certeza, mas deveria ficar feliz por eles não aceitarem cartão. Paulinho não conseguia se decidir por onde começar de tantas opções disponíveis. Pescaria, Boca do Palhaço, Argola e outras com luzes e barulho que sequer consegui entender como funcionavam. Cinco minutos passados e ele não se decidiu ainda. Pedi que esperasse ali que iria pegar uma cerveja e já voltava. Comprei, abri, bebi um gole e voltei. Lá estava ele no mesmo lugar me olhando com uma expressão engraçada. Ele é muito bom fazendo caras e bocas:
- Você me deixou aqui sozinho!
- Nada disso – respondi. – Te dei espaço para pensar com calma por qual brincadeira vamos começar.
Acho que não o convenci muito bem. Aliás, pelo olhar atravessado, nem a senhorinha que ouvia a nossa conversa se convenceu. Mas convenhamos, era uma festa fechada, pessoas civilizadas, famílias, funcionários por todos os lados. Que mal poderia acontecer? Ok, admito que só um irresponsável faria isso. Com muito esforço então, ele optou por uma das brincadeiras cheias de luzes que aparentemente não fazia sentido algum. Ela consistia em uma parede com muitas lâmpadas coloridas e alguns botões em um painel. Atrás do balcão, uma jovem de aproximadamente 23 anos, cabelos curtos e com pinta de que era uma das professoras do colégio. Para não passar vergonha, resolvi perguntar como funcionava. Ela pacientemente explicou algo como ele tem de apertar um botão, então acende uma luz azul, daí ela aperta outro botão e acende uma luz vermelha. Ganha quem tiver mais luzes da própria cor no final. É, eu acho que era isso. Não prestei muita atenção no que ela falava, apesar de ter ficado um bom tempo encarando o sorriso natural dela enquanto me explicava.
- E aí, entendeu? – Perguntei a ele.
- Sim – ele respondeu enfaticamente.
- Então tá – falei olhando para a professorinha. – Porque acho que não entendi muito bem.
- Mas ele é um rapaz muito esperto – disse ela. – Não é mesmo?
- É igual ao jogo das bolinhas do meu “tlabet” – ele conseguia pronunciar da maneira mais difícil de todas.
Pois bem, iniciaram a partida e tentei me manter o mais distante possível para não atrapalhar, até porque sabia que ajudar não seria possível. Paulinho apertava os botões aleatoriamente, ou então existia uma lógica implícita ali impossível de se decifrar. A professorinha também apertava os botões em um aparente padrão indefinido. Ao menos ela sorria, o que já fazia valer a pena ver aquelas várias luzes acendendo e apagando freneticamente sem um propósito definido. A cena remetia àquelas varandas no Natal que o dono comprou vários jogos diferentes de lâmpadas decorativas, prendeu tudo na grade e o resultado final é uma fachada de estabelecimento que nunca sabemos se é uma casa de forró, puteiro ou painel de nave espacial de filme da década de sessenta. E com isso, a cena de acende e apaga foi se prologando por intermináveis e convulsivos dez minutos, até que, como esperado, aleatoriamente, a professorinha ergueu os braços e anunciou Paulinho como vencedor. Foi algo tão estranho e picareta que não me contive:
- Olhe só! Você ganhou e ninguém aqui nunca vai saber explicar o motivo.
A professorinha riu e, logo depois, me encarando, reforçou que ele ganhou e era isso que importava. Não era eu que iria discordar dela, até porque uma revanche naquele ritmo poderia provocar um apagão no quarteirão. Apesar de a vontade de continuar naquela barraca ser maior, uma partida naquela noite era o suficiente. Então, definido o vencedor, ela entregou para ele o prêmio, um daqueles clássicos jogos de boliche de plástico que são tão leves que, para os pinos permanecerem de pé, é necessário colar no chão.
- Muito bem – disse. – Agora agradeça à titia.
- Obrigado, titia.
- Não, Paulinho – falei para ele. – Agradeça direito. Pergunte o nome dela e agradeça.
- Qual seu nome, titia?
- Meu nome é Bruna – ela respondeu dando um sorriso irresistível.
- Obrigado, titia Bruna.
- Muito bem – falei passando a mão na cabeça dele. – Agora pergunte o telefone dela e se ela tem planos para mais tarde.
- Ora, ora – disse ela. – Quer dizer que seu pai gosta de usar você para dar cantadas.
- Ele não é meu papai – respondeu o Paulinho. – Ele era casado com a minha dindinha.
- Que coisa – ela responde olhando para mim com olhar de deboche. – Não é mais casado com sua dindinha? Será que ele não pediu para você falar isso? O que sua dindinha diria sobre isso?
- A minha dindinha diz que agora o meu titio só anda bêbado e cercado de piranhas.
Vamos revisar então. O plano original era fazer um programa tranquilo para desacelerar. Naquele espaço de tempo, já tinha deixado o Paulinho em uma situação passível de se perder, dado em cima de uma pessoa, passado a primeira vergonha e caminhava para a segunda lata de cerveja. Será que existe uma competição de quem faz essas merdas em menos tempo? Enfim, vamos pegar outra cerveja e tentar uma brincadeira diferente.
Sugeri a pescaria. De longe vi que na barraca estava uma pessoa que fugia totalmente dos meus padrões e por isso não existia o risco de soltar gracinhas ou entrar em mais uma situação constrangedora. Não obtive sucesso. Ele escolheu aquela de jogar a bolinha por um labirinto inclinado. Na barraca, mais uma professorinha encantadora. Estou ligeiramente desconfiado que esse puto faz isso de sacanagem comigo.
- Boa noite – falei para a professorinha loura. – Este é Paulinho, meu sobrinho. Eu era casado com a madrinha dele, mas atualmente passo a maior parte do meu tempo bêbado na companhia de jovens com pouca autoestima e muita volúpia, ou como minha ex-mulher prefere chamar intimamente, piranhas.
- Ok – disse ela assustada. – E por que está me falando isso?
- Ah acredite, cedo ou tarde isso viria à tona – respondi. – Uma partida para ele, por favor.
Aparentemente, tanto esta partida como as seguintes transcorreram normalmente. Em pouco tempo ele torrou todas as fichas de brincadeiras e ganhou diversos brinquedos que nunca irá tocar na vida depois que chegar em casa. Quem era eu para julgar algo? Precisávamos comer, quero dizer, ele precisava comer. Eu só precisava de mais uma cerveja. Pelas minhas contas, estava indo para a sexta.
- Boa noite – disse para uma senhorinha sentada. – Poderia tomar conta do meu sobrinho enquanto compro comida?
- Claro – ela respondeu. – Sente ele aqui.
- Vou tentar ser o mais rápido possível. Ele já está na fase de comer meleca para matar a fome.
Ela não entendeu muito bem a piada e ficou olhando com uma cara estranha para o Paulinho. Ainda mais porque ele ficou rindo do que falei. Como pode uma criança acompanhar o meu sarcasmo, mas uma pessoa tão vivida não? Enfim, precisava ser rápido e fui. Cinco minutos depois estava de volta. Mate, cerveja, salsichão, pipoca, milho e churrasquinho. Viva o fast food de festa típica! Enquanto comíamos, ouvi uma voz feminina vindo por trás perguntando se era meu filho. Respondi que não sem olhar para quem perguntava. Logo depois ela comentou que ele era uma gracinha. Fiz um barulho parecido como concordando, mas permaneci virado. Descrevendo dessa forma parecia que estava fazendo charme, mas não era isso. Comer salsichão é muito complicado e requer muita atenção. Principalmente quando se está na parte mais delicada, a segunda metade. Nessa hora, uma mordida mal calculada pode culminar com ele caindo inteiro do palito. Não suficiente, ainda tinha farinha espalhada pela minha camisa, calça, sapatos, chão. A qualquer momento poderia ser atacado por diversos pombos famintos. Trata-se de fato de um momento complexo. Para piorar, dei a pior mordida que se pode dar. Aquela que é suficiente para soltar o recheio, mas que não corta a pele do salsichão. Daí você puxa e fica meio que desenrolando como um rolo de papel higiênico do diabo. A tal pele não se parte e vai desenrolando, desenrolando, desenrolando. Você fica com o corpo inclinado para frente, voa farinha para todos os lados e não termina jamais. A cena remete a uma cirurgia de fimose feita por um canibal em alguém que acabou de sair da praia. É absurdamente constrangedora! Não tinha como dar atenção a quem falava comigo.
- Está bastante enrolado aí – disse a voz feminina.
Virei-me para trás. Era uma mulher de aparentemente quarenta anos, bem vestida, cabelos louros, sobrancelha preta (acredite, é um detalhe importante), pouca maquiagem, aliança na mão esquerda, lata de cerveja na direita e roupa não muito justa para, possivelmente, não delinear o corpo que já foi um dia mais em forma.
- Seu sobrinho – disse ela apontando para o Paulinho. – Ele estuda aqui? Nunca o vi.
- Não – respondeu o próprio Paulinho. – Quem estuda aqui é a minha amiga Marianinha.
- Nossa, que rapaz mais comunicativo – ela disse daquele jeito retardado que todo mundo usa para se comunicar com crianças. – Você deve falar muito!
- Até demais – eu disse para ela. – Até demais.
- Ah, não seja rabugento – disse ela. – Aposto que adora.
- Sim, adoro. Mas normalmente só cinco minutos depois que ele fala. Na hora mesmo, é bastante constrangedor.
A partir daí se desenrolaram aquelas conversas típicas que apenas quem tem filho gosta. Falar como as crianças são espontâneas, que aprendemos muito com elas e vai muito da criação. Enfim, apesar de adorar meus sobrinhos, esse tipo de conversa não me apetece nem um pouco. E, como tinha colocado na cabeça que iria me comportar até o final do dia, não dei muita trela. Ainda assim, ela se apresentou como Luciana, apesar de achar que o nome não era verdadeiro. Sei lá, parecia algo esperado de uma mulher casada puxando assunto com um cara dez anos mais novo em uma festa. Sabe quando a pessoa tem essas atitudes só para medir se ainda está no mercado, ou receber uma resposta positiva que será encarada como um elogio? Fazia sentido. Provavelmente estava na fase entediante do casamento, o marido não a elogiava mais e ela, ao mesmo tempo, não tinha coragem de ter um caso. O mais inteligente nessas horas é tentar flertar com alguém apenas para levantar a moral.
- E o maridão? Deve estar com as crianças por aí – disse na maldade para ver se caía como um balde de água fria e ela percebesse o que estava fazendo.
- Nada – respondeu sem parecer sequer um pouco abalada. – Ficou em casa vendo o jogo.
- Optou por ver um bando de marmanjo correndo atrás de uma bola ao invés de sair com a esposa? Depois reclama que caem em cima e não sabe o motivo.
Pronto, três erros graves em menos de meio minuto. O primeiro foi essa atitude pedante de quem recrimina um homem por escolher futebol como primeira opção. Todos já tivemos essa fase babaca de priorizar futebol. O segundo, fazer um comentário com suposta margem para ela pensar maldade e achar que estou flertando com ela. O terceiro e pior de todos, inconscientemente ter iniciado de fato um flerte com ela. Precisava corrigir pelo menos um deles, mas ela foi mais rápida, ergueu a lata e propôs um brinde:
- Aos maridos bundões!
- Às esposas bem resolvidas!
Está bem, eu admito, sou um cagalhão. Fiz exatamente o oposto. E para piorar, bebemos nossas latas em um gole só. Rumo à oitava lata na companhia de uma mulher casada que aparentemente não estava blefando. Ah, ainda tinha o Paulinho. Aliás, cadê o Paulinho?
- Pensei que tinha o visto indo naquela direção – Luciana respondeu apontando para uma grande piscina de bolas.
- Ai caceta – levantei-me às pressas resmungando. – Já volto!
- Traz cerveja!
Mulher maluca. Ainda ficou rindo da cena. Quando cheguei na piscina de bolas, olhei novamente para trás, ela deu um tchauzinho e gesticulou como quem bebe algo. Estava fudido, mais uma louca na minha vida.
- Ôh rapaz – disse para o Paulinho no meio da piscina de bolas. – O que está fazendo aí?
- Aqui, titio! Essa é a Marianinha!
Eu já conhecia a Marianinha. Ela é filha de uma amiga da minha ex-mulher e mora na mesma rua que eu morava quando era casado. Falei com ela que respondeu mostrando os dentes. A mãe veio falar comigo:
- Ué, você aqui?
- É, estou com o Paulinho.
- Mas sozinho?
- Sim.
- Que coragem!
- Nada. Nos damos bem e ele se comporta comigo.
- Não, digo coragem da...
Ela não completou a frase e nem era preciso. Entendi o que queria dizer e não poderia julgá-la. Acabara de chegar correndo na piscina procurando por ele dando a entender que não sabia ao certo onde estava. Não suficiente, estava com forte hálito de álcool. O mais irônico é que pelo pouco que a conheço, ela é tão escangalhada como eu. Mas enfim, a vida segue sapateando na minha imagem.
- Deixa ele aqui brincando com a Marianinha – ela disse para mim. – Depois eu o levo até você!
Vocês entenderam, não? De uma maneira muito sutil, ela pediu para que me mantivesse afastado dele e depois me entregaria são e salvo. Que coisa. Só me restava pegar a cerveja e voltar a falar com a esposa doida. Peguei um balde com seis latas e voltei para onde estava. Luciana estava com duas meninas e ao me ver soltou um sorriso. Não podia negar que ela era bastante simpática.
- Suas filhas?
- Sim – respondeu apontando para cada uma delas enquanto as apresentava. – Essa é a Malu, ela tem 5 anos. E essa é a Duda, ela tem 6 anos.
- Olá, meninas!
Elas me responderam rapidamente e se voltaram para a mãe. Pareciam implorar por algo, mas não consegui decifrar o que era. As duas pulavam com as mãos juntas seguidamente implorando pela aprovação da mãe. Depois de um bom tempo nessa cena angustiante, achei que seria interessante intervir:
- Posso ajudar?
- Claro – Luciana respondeu com um sorriso. – Meninas, quem vai decidir é o tio aqui.
- Vamos lá – falei para elas. – Digam qual é o dilema.
- Mamãe não quer nos deixar dormir na casa da Bianca – disseram as duas quase que simultaneamente.
Droga! Achava que seria alguma coisa mais fácil se de decidir. Algo como se elas podiam comprar mais um doce, começar a fumar, fazer uma tatuagem. Precisava das consequências imediatas daquela decisão e Luciana não hesitou em explicar:
- Bem – ela disse olhando apenas para mim com um olhar muito sugestivo. – Elas indo agora dormir na casa da Bianca, passaria a ficar com o resto da noite livre, sozinha, sem crianças penduradas no pescoço ou sequer hora para voltar.
- Meninas, arrumem os pijamas, vocês vão e é agora!
As meninas, obviamente, saíram correndo aos berros comemorando. Luciana deu uma risada honesta e em seguida disse que eu era terrível. Eu abri mais duas latas e sugeri um brinde à Bianca. Ela sugeriu um brinde ao Paulinho. Céus, o Paulinho! Ele estava demorando muito a voltar. Sai correndo atrás dele e deixei Luciana mais uma vez rindo.
Uns dez minutos depois estava de volta carregando Paulinho no ombro. Luciana ainda me esperava com o balde no qual restavam três latas. Prendi Paulinho no meio das minhas pernas e ele pensou que era brincadeira de luta. Podemos dizer que criei uma nova categoria de esporte: rodeio de criança de cinco anos, bebendo cerveja ao mesmo tempo. Confesso que tenho talento para a coisa. Derramei poucas gotas e ainda consegui conversar um pouco mais com Luciana. Comigo nas olimpíadas, garantiria uma medalha de ouro nesse esporte sem esforço.
Restava apenas uma lata e optamos por dividir. Obviamente não tínhamos copos e, com isso, cada hora um dava um gole na lata. Foi nesse momento que me toquei que algumas pessoas nos encaravam. Estávamos agindo como em um botequim, falando besteira, rindo alto, compartilhando da mesma lata. Bem, por mim não tinha o menor problema, contudo para Luciana a coisa deveria ser estranha, pois suas filhas estudam naquele colégio, sabem que ela é casada e algumas pessoas supostamente devem conhecer o marido dela. Era uma boa hora para sairmos.
- Nossa, uma Harley – falou Luciana enquanto deslizava a ponta do dedo indicador pela moto. – Cheia de caveiras!
- Pois é, caveira me faz parecer mais magro.
- Praticamente um motoqueiro selvagem – disse enquanto terminava de passar o dedo pelo guidão e depois o colando nos meus lábios. – Imagino que seja muito malvado.
- Baby, alguns pais estão olhando.
Pela careta que fez, parecia não se importar muito. Pois bem, liguei a moto, fez o esporro de sempre, Luciana, como imaginava, reagiu dando um grito de euforia, os pais arregalaram mais ainda os olhos e lá fomos nós deixar Paulinho em casa. Estão notando que cada vez fico mais responsável? Agora alcoolizado em uma moto com mais duas pessoas, sendo ela uma criança, cuja, diga-se de passagem, dava menos trabalho que a outra pessoa adulta que me acompanhava. Enfim, seguindo, ao chegar, fui recebido por Zezé já de pijama. Devia ser pouco mais do que dez da noite:
- Essa sua moto esporrenta acordou o Pedrinho – disse Zezé. – Você bebeu?
- Vovó, o titio quando bebe é muito mais divertido!
- Ai, meu filho – Zezé me deu um tapinha na testa. – Olha o exemplo!
- Desculpa – falei já me despedindo com dois beijos. – Mas ele se divertiu muito. É verdade!
- Imagino, seu irresponsável. Imagino.
Desci a escada repensando a minha proposta do início do dia e como estava terminando a noite. Vai ver isso não tem mais volta. Abriram a caixa de Pandora e jogaram o cadeado fora. Talvez, em casos como esses, tentar ir de um extremo ao outro pode ser a pior das opções. De fato, não é possível sair de dias turbulentos com bebedeira sem fim e começar logo em seguida com noites tranquilas em casa tomando chá e lendo Agatha Christie. Quem sabe ter um mínimo controle das coisas já possa ser um grande avanço? Para isso, acho que vou tentar começando com uma boa noite de sono.
 - Oh fuck! - Falei em voz alta comigo mesmo.
Ao sair da portaria vi Luciana sentada na moto ajeitando o sutiã. Tinha esquecido totalmente dela. Lá vamos nós...


Segunda parte em breve

terça-feira, 12 de julho de 2016

Notícias do front

Capítulo anterior O dia seguinte
- Não, não é um bom dia – Tatiana estava relutante. – Já te falei que é final de mês e isso aqui fica uma loucura. Sem sair para almoçar, eu normalmente só vou para casa depois das dez, imagine se queimar uma hora de almoço com você. Vamos deixar para a sexta? Eu durmo aí, enchemos a cara ao seu estilo e você me conta o que provavelmente eu já sei.
Não, ela não sabia. Na cabeça dela, a festa de formatura deve ter sido mágica. Eu arrumado, Juliana linda, não aguentamos a onda, nos agarramos e começamos um relacionamento no mesmo dia. Claro que ela estava pensando nisso. Por mais que me conhecesse como poucos e soubesse que comigo as coisas menos improváveis são as mais corriqueiras, ela estava convincente de que foi um episódio em que tudo deu certo com um final feliz. Analisando com calma, até teve um final relativamente feliz, mas não como imaginava.
De qualquer forma, Tatiana tinha razão em relutar ao meu convite de almoço. Cansei de sair tarde da noite de casa para busca-la só para que não voltasse sozinha. Era uma rotina escrota de todo fim de mês. Algumas das vezes foram no meio da madrugada. Isso sem falar da possibilidade de colocar o emprego em risco ao demonstrar falta de dedicação nessa época tão atribulada.
- Só vou te disser uma coisa... Está me ouvindo? Juliana ficou com um cara na minha frente e voltei para casa de mãos abanando.
- AHÁ! SE FUDEU! TROUXA – ela emendou uma rápida gargalhada e prosseguiu. – Passe aqui uma e meia da tarde. Quero cada detalhe dessa história.
Para o inferno, né? Jamais aguentaria até a sexta-feira. Precisava contar para alguém o que tinha acontecido no último final de semana. Deixar para falar com qualquer outra pessoa, soaria como uma adolescente apaixonada que não aguenta com a língua entre os dentes e, convenhamos, sou um adulto maduro. Sem risos, por favor. Para a Tatiana não teria problema algum, afinal somos confidentes um do outro. O que importa é que, antecipando o fato da Juliana e o rapaz na festa, surgiu a curiosidade e, logo, foi ela quem desistiu de esperar até sexta. Portanto, não tem mais como ela ficar resmungando que a convenci a fazer algo contra a sua vontade. Mal sabe ela que a tendência é piorar.
De imediato, ela se indignou com a escolha do restaurante. Ela queria ir a pé até um pequeno restaurante a quilo quase na esquina da rua da sua empresa. Além de ser a quilo, era um lixo de local. Não bastante, teria de passar boa parte da conversa na fila para se servir. Todos sabem que isso não tem funcionalidade alguma, exceto em novela para fazer marcação de cena. Subimos na moto e fomos para outro restaurante um pouco distante. Nada mais que cinco quadras ou seis. Entramos, pegamos a primeira mesa que estava disponível e Tatiana já acenou ansiosa para o garçom. Eu fui mais rápido quando ele chegou:
- Uma cerveja, dois copos e o cardápio.
- Dois copos? Você está bêbado?
- Não, mas pretendo começar nesse momento.
- Pois fique apenas você. Já não basta me foder, quer enfiar o dedo no meu cu?
- Ainda bem que não estamos na fila do restaurante a quilo com pessoas ao redor – interrompi para o garçom entregar o cardápio à Tatiana e servir a cerveja nos dois copos. – Larga de palhaçada. Vai saber de um evento histórico de boca seca? É um copinho apenas! Depois você enche a boca de bala de hortelã.
Escolhido os pratos, brindamos e demos um bom gole cada. Voltei a encher os dois copos e ela nem percebeu. Iniciamos a ação automática de beber.
Comecei a contar a história da formatura com detalhismo de causar inveja a Kerouac. Roupas, músicas, pessoas e até nas falas fui cirúrgico. Momentos pontuais eram interrompidos por reflexões ou devaneios complementares. Algo que já devem ter visto em algum lugar por aqui. Tamanho foi o cuidado em contar o ocorrido que, quando finalmente chegaram os pratos, tinha acabado de contar apenas sobre ter pegado a melancia no balcão de bebidinhas coloridas. No momento que diria sobre avistar Juliana beijando o outro rapaz, fiz uma pausa dramática e aproveitei para pedir uma segunda garrafa de cerveja.
- E rápido – completou a Tatiana. – O assunto aqui na mesa está fervendo.
Falei do momento quando a garrafa chegou. Tatiana vibrava e ria da minha desgraça. Eu escolhi dar um gole vagarosamente. Um gole de quem está no controle de tudo e pode esperar pelo seu momento. Prossegui falando que procurei a Verônica e flagrei aquela cena dela transando nos fundos da cozinha. Tatiana bateu na mesa. Alguns clientes ao redor se assustaram. Era como um segundo gol logo após o primeiro para ela. Eu dei meu segundo gole de senhor do momento, só que dessa vez antecedido por um brinde no ar. Terminado, com a boca ainda molhada com a cerveja, encerrei a parte da formatura.
- Porra, baby. Você me prometeu que não voltaria de moto bêbado. Larga de ser irresponsável. Um dia você morre e não terei de quem rir das desgraças.
Achei melhor nem responder com uma gracinha. Correria o risco de ela ter uma súbita crise de consciência e decidir parar de me acompanhar na cerveja. Segui falando do dia seguinte. Ela achou muito fofo da parte da Juliana ir até a minha casa para me receber, como também a minha decisão de não recebê-la com a minha casa naquele estado. A cada instante, Tatiana ficava mais fã da Juliana. Para seus parâmetros, ela era a pessoa ideal, no momento certo, para me recolocar nos trilhos. Era, supostamente, a motivação que tanto precisaria para sossegar e pensar em alguns objetivos que não deram certo em um passado recente, como família, principalmente.
- Se ela fosse um bom partido mesmo, não teria assistido passiva ao momento que me resetei assim que chegamos ao motel.
- Você fez isso na frente dela? Você é mais idiota que eu imaginava.
- Era necessário – acenei para o garçom pedindo mais uma garrafa. – Era muito necessário.
- Não podia ter sido no banheiro escondido?
- Podia. Nem pensei nisso. Ou meu subconsciente sabotador pensou e escolheu exatamente assim. O fato é que fiz e ela não interrompeu, sequer recriminou.
- Claro que não! Naquela condição de redenção dela, a última coisa que faria era se intrometer nas suas ideias de merda. Assistir e entender melhor no que está se metendo é melhor que interromper qualquer ritual bizarro. Inclusive se resolvesse coçar o céu da boca com um cabo de vassoura enfiado pelo cu.
Preciso confessar que em certas falas da Tatiana eu me via claramente. Tantos anos na minha companhia estavam começando a moldar o seu jeito de se expressar, de pensar e se comportar publicamente. Meu pequeno broto de feijão estava crescendo rapidamente no tufo de algodão umedecido com álcool e já ofendia gratuitamente o ânus de todos no jardim que lhe cercava.
- Tá, você então apagou por conta da resetada. Entendi. Daí acordou mais tarde, abraçou a Juliana e voltaram a dormir novamente agarradinhos. Você e essa mania fofa de ser. Acaba derretendo qualquer uma e, ao final, elas se esquecem do escroto que você é. Enfim... Prossiga... Uma hora acordaram de vez. E aí? Até agora não teve beijo, agarradas, sexo ou despedida melancólica. O que aconteceu? Que horas começa o conto de fadas?
Imagino que ela estivesse ansiosa esperando a parte em que tudo começou para valer, quando a Juliana acordou em definitivo e eu estava no banho expulsando de vez a ressaca. Ao sair do banheiro, apenas enrolado na toalha, lá estava ela, apenas de calcinha e camiseta básica. Era uma cena linda que não me considerava merecedor. Juliana estava de pé, em frente a um espelho ajeitando os cabelos. Tem coisa mais sexy do que mulher mexendo nos cabelos? Ela os prendeu com um rabo de cavalo bem alto sem ser no topo da cabeça. Adoro quando prendem os cabelos assim. Pescoço de fora é o meu fraco. Aproximei-me por trás e, em ser muito invasivo, cheirei seu pescoço. Ela consentiu oferecendo mais Juliana para ser explorada. Entrei no jogo. Sem pressa, continuei passeando pelo seu pescoço e nuca. Cheirava um pouco aqui, uma respiração quente sendo solta ali e barba roçando de leve acolá. Minhas mãos que antes estavam em sua cintura começaram a entrar no jogo também. A primeira desceu pela lateral da sua coxa. Estava toda arrepiada. De maneira sincronizada, abri bem a mão e apertei sua coxa enquanto passava com um pouco mais de intensidade a barba na junção do pescoço com o ombro de Juliana. Tudo do lado esquerdo dela que ficou ouriçado de ponta a ponta. Ela, instintivamente, se contorceu de leve para essa direção. O lado direito ficou esquecido e exposto. Sem mudar o que já tinha iniciado, subi a mão direita de uma só vez e a enchi com seu peito direito. O mamilo estava muito enrijecido. Quando o envolvi por inteiro com minha mão, ela arqueou a cabeça para trás. Sua respiração estava ofegante, sua pele quente e o corpo beirando a total sensibilidade. Mexi novamente a mão esquerda e, sem firulas, a posicionei no meio de suas pernas. A calcinha já estava molhada. Bem molhada. Juliana não tinha mais controle sobre o corpo. Laçou um dos braços por trás da minha cabeça pressionando mais ainda minha boca em seu pescoço. Contorceu a cintura para trás pressionando sua bunda contra o meu corpo que estava nu, pois a toalha caiu tinha tempo. Ela estava acesa, com cada parte do seu corpo excitado, e sequer tínhamos nos beijado. Foi quando a virei de frente para mim e a coloquei encostada no espelho. Segurei firme sua cintura com ambas as mãos que depois desceram até a parte logo abaixo de sua bunda. Enchi minhas mãos com firmeza e a levantei. Ela cruzou minha cintura com suas pernas e meu pescoço com seus braços. Primeiro beijo. Intenso, ofegante e descontrolado. Sim, descontrolado. Aquele beijo que os dois tanto querem e estão tão excitados que não têm mais controle sobre os movimentos, pressão da boca, ritmo da língua ou mordiscadas de lábios. Tudo de uma só vez e ao mesmo tempo querendo ser protagonista na ação. Em alguns momentos, saía de sua boca para morder de leve seu queixo, para esfregar minha barba em seu rosto e para respirar forte em seu pescoço. Juliana se contorcia e se entregava cada vez mais, mesmo parecendo impossível, pois já estava aparentemente totalmente entregue. O que antes eram sons discretos, agora viravam gemidos de reação a cada movimento meu. Sem sair daquele nó de pessoas, levei-a até a cama. Juliana ficou por baixo de frente para mim. Parecia que nunca mais iríamos nos desenroscar. Nenhum dos dois tinha pressa, mesmo em uma cena claramente afoita. Era intensidade, volúpia e excitação, mas nada de afobação. Em determinado momento, Juliana interrompeu aquele duelo de esgrimas que nossas cabeças faziam. Segurou meu rosto com as duas mãos, afastou um pouco do dela, olhou-me com um olhar fatal que foi até a alma e disse:
- Promete que vai me dar isso todos os dias.
- MEU DEUS! QUE INVEJA! – Gritou a Tatiana que depois sinalizou ao garçom para trazer mais uma cerveja. – Você é mesmo bom nisso! Bem, em alguma coisa tinha de ser bom, né? Acho que fiquei excitada. Então foi muito bom mesmo, né?
- Que nada! Foi uma merda.
- Como assim?
Pois é, foi uma merda. Queria muito que tivesse acontecido daquele jeito. Infelizmente foi o oposto. Juliana deve ter acordado com um som ecoando pelo quarto. Era eu que estava vomitando tudo que me restava dentro do corpo no banheiro. Pude ouvir quando ela gritou com a voz ainda embolada perguntando se estava tudo bem. Respondi, com uma voz meio afogada, que iria ficar. Era um diálogo bem peculiar. Quando saí do banheiro, Juliana estava literalmente largada de bruços na cama. Rosto enfiado no espaço entre os dois travesseiros, cabelos para todos os lados e uma calcinha meio enfiada na bunda deixando apenas uma nádega inteira exposta. Preciso reconhecer que não era uma imagem muito sensual, tão pouco se aproximava da cena ideal, contudo era a Juliana. Pela primeira vez ela estava por inteira só para mim. Pelo menos o corpo, pois desconfio que naquele momento ela tinha voltado a cair no sono. Deitei-me ao seu lado com o rosto próximo ao dela. Juliana estava apenas sonolenta.
- Você está com bafo de vômito – ela disse e depois riu.
- Não estou, nada! Eu fiz gargarejo por um bom tempo.
- Você então está com bafo de vômito aguado.
- Pior você com esse bafo de bom dia.
- O que seria um bafo de bom dia?
- É uma mistura de boca seca, com resto de baba, cheiro de leite velho e um toque de pigarro esquecido na garganta.
- QUE HORROR! – Juliana saiu em disparada para o banheiro enquanto fiquei na cama rindo sozinho.
Já de volta ao quarto, ela se sentou ao meu lado. Ficamos nos olhando por um tempo em silêncio, até que nos beijamos. Foi uma coisa dessincronizada. Eu tentava algo com intensidade e fervor, ela agia com lentidão e carinho. Queria aperta-la, toma-la de vez, fazê-la acender. Em contrapartida, Juliana vinha com toques leves, poucos movimentos e uma aparente falta de empolgação. Quando ela finalmente percebeu que poderia ir mais adiante e colocar mais calor na coisa, eu já não era mais capaz de corresponder. Estava com um dos braços dormentes e o pescoço doendo de tanto levantar a cabeça para beijá-la. Desistimos. Ficou um clima frustrante no ar.
- Não está encaixando, né? – Ela perguntou meio que sacramentando.
- Calma. Eu sou melhor que isso.
Trouxe Juliana para se deitar na cama e me posicionei sobre ela entre suas pernas. Voltamos a nos beijar e a coisa fluiu com mais naturalidade. Ainda não era aquela coisa desesperadora que pretendia, todavia já rolava mais interação. Os dois estavam em uma mesma sintonia finalmente. As mãos começavam a explorar os corpos, assim como pescoço e colos eram desbravados pelas bocas. Um ritmado movimento de quadris começou a se coordenar. Nossas pélvis se friccionavam e a respiração se tornava ofegante aos poucos. Tirei sua blusa e lá estavam seus peitos. Lindos, firmes, enrijecidos e do tamanho exato da minha boca. Não sabia por qual começar. Revezava minha boca entre eles para não provocar ciúmes. Queria que ambos fossem os meus favoritos. Ela com a mão por de trás da minha cabeça me pressionava contra eles pedindo mais. Sim, finalmente bons ventos ao nosso favor. Desci pelo seu corpo beijando sua barriga e cintura. Nenhum espaço foi esquecido. Enquanto beijava o topo da sua coxa e parte da virilha, comecei a tirar sua calcinha. Juliana já estava bem à vontade e emitia sons que reforçavam isso. Ao indicar que iria cair de boca no meio de suas pernas, ela me puxou pela cabeça de volta para cima.
- Não!
- Por que não?
- Não tomo banho desde ontem pela manhã quando saí para ir ao seu encontro.
- Larga de frescura.
- Não!
Seria perda de tempo continuar tentando argumentar com ela. Mesmo que quisesse, ela já tinha me prendido com as pernas na cintura novamente. Estava com a movimentação limitada. Para garantir que não tentaria novamente, ela, com o pouco espaço que tinha, começou a retirar a minha cueca, única peça de roupa que estava vestindo. Tentei ajudar com as mãos, mesmo sem poder me levantar por estar preso por suas pernas. Ela com um dos pés empurrou a cueca para baixo que saiu totalmente. Era aquele o momento. Os dois estavam ansiosos por isso há meses. Continuamos obviamente nos agarrando, pois não somente o desejo era enorme, como precisávamos dar um ar de naturalidade à coisa. Tentei só com o movimento do quadril e não consegui. Não achava o buraco. Péssima frase, eu sei. Insisti mais uma vez confiando apenas na movimentação dos corpos. Cheguei a parar de beijar a Juliana para melhor me concentrar na sensibilidade do meu pau e entender onde ele estava. Como se existissem muitas opções de lugares, não? Ainda assim, nada. E nem era porque ela estava seca, muito pelo contrário. Juliana estava encharcada e receptiva. Na terceira tentativa, que deveria ter sido feita com a ajuda da minha mão depois de duas tentativas fracassadas, aconteceu um novo fiasco causando evidentes expressões de frustração em nossos rostos. Juliana então ressecou e eu fiquei não tão duro quanto antes.
- Ok, pode repetir a frase – disse para ela.
- Qual frase?
- Não está encaixando – os dois riram e o clima foi apagado como uma ducha de água fria.
- MAS VOCÊ É MUITO MAIS IDIOTA DO QUE IMAGINAVA – Tatiana não se conformou, virou seu copo e acenou por mais uma garrafa para o garçom. – Quando finalmente consegue o clima, resolve fazer graça?
Ela tinha razão. Não tinha motivos para se espantar comigo, mas tinha razão. Minha boca sempre teve vontade própria em relação ao cérebro. Como já disseram uma vez e não canso de repetir, meu maior defeito é a boca que comumente comete insubordinação ao cérebro. Principalmente em situações que me deixam desconfortável. E aquela era uma situação clássica de me deixar incomodado e abrir a boca. O pior é que não tinha motivo para isso. É algo comum acontecer essa dificuldade na penetração, especialmente em primeiras transas. Existem pessoas e pessoas. Já aconteceu de estar com alguém não tão excitada assim, com uma quase total ausência de lubrificação, e, ainda assim, achar o acesso e entrar de primeira com a facilidade que um Fusca sem freio desce uma ladeira. Em contrapartida, exatamente como foi com a Juliana, a pessoa está molhada, disposta e acessível, todavia parece aqueles “organiza fila” em bancos no quinto dia útil do mês. Simplesmente não flui.
- Tá – Tatiana pegou a nova garrafa, serviu nos dois copos e prosseguiu. – E tentaram depois?
Até esbocei que iria tentar, mas Juliana cortou. Alegou que precisava voltar para casa. A mãe deveria estar preocupada. Não suficiente, tinha uma entrevista de emprego de tarde na zona sul. Mesmo assim, ela combinou que a buscasse em Copacabana no início da noite. De lá, sairíamos para comer algo, beberíamos uma cerveja e recomeçaríamos de onde terminamos, mas agora na minha casa. Topei, ela foi embora e o resto Tatiana já sabia.
- Peraí. Você então veio direto do motel almoçar comigo?
- Sim – respondi enquanto contava discretamente quantas garrafas já tínhamos na mesa. – Liguei para você enquanto ela tomava banho.
- Não conseguiu aguentar um minuto sequer para me contar – Tatiana ria. – Você é muito carente mesmo. Não sei como ainda fico impressionada com isso.
- Não sei como ainda fico impressionado conosco. Olhe só quantas garrafas esvaziamos. Isso em... Sei lá... Quanto tempo mesmo?
- Deixe-me ver as horas – Tatiana pegou o celular da bolsa, fitou o visor e arregalou os olhos. – FILHO DA PUTA! SÃO QUATRO DA TARDE. Meu caralho, oito ligações perdidas. Ai o que eu vou fazer agora.
Tatiana se levantou, sei lá por qual motivo, e percebeu que estava bêbada. Nenhuma surpresa. Falou consigo em voz alta que estava bêbada algumas vezes. Ok, eu iria ouvir muito naquele momento. E ouvi. Merecido, eu sei. Ela então, entre um sermão e outro sobre como sempre acabo fudendo com a vida dela, ficou tentando pensar em alguma solução para aquela situação. Quase três horas de almoço e ainda estava bêbada. Não bastante, era final de mês. Tatiana, você está de parabéns!
- Parabéns está o seu cu, seu desgraçado – Tatiana se sentou para tentar colocar um pouco de ordem em sua cabeça. – Como eu deixo você fazer essas coisas comigo? Sério? Por que você faz isso comigo? E agora?
Não tinha motivos para pânico. Bem, claro que ela tinha. Como não era o meu que estava na reta, não achava que tinha motivos para tal. Dei uma sugestão para ela que topou na hora. Com o meu celular liguei para o trabalho dela e pedi para falar com o chefe. Expliquei quem eu era, que tínhamos ido almoçar e que provavelmente algo caiu muito mal. Tanto que Tatiana começou a vomitar logo após sair do restaurante. Para dar mais credibilidade, disse que tínhamos ido ao tal restaurante a quilo, o que ela sugeriu logo de início, e que de cara achei o lugar um lixo. O chefe concordou e complementou falando que sempre ficou inconformado com ela indo naquele lugar. Fechei dizendo que estava levando Tatiana a uma emergência para fazer lavagem ou algo do tipo, antes que fosse tarde demais. O chefe devia ser um paspalho por comprar a minha conversa mole. Literalmente mole, inclusive, pela fala de língua já meio boba.
- Pronto – sorri para Tatiana. – Resolvido. Não precisa de pânico.
- É fácil falar isso quando não é você que amanhã vai virar a noite para colocar tudo em dia.
- Por isso que hoje, já antecipando a merda que vai ser amanhã, vamos tomar um porre hoje.
- Encher a cara até tarde em uma segunda-feira faltando ao trabalho. Veja a que ponto chegamos.
- Até tarde não! Até as seis horas no máximo. Não se esqueça que tenho um compromisso com a Juliana.
- Para o caralho com esse compromisso. Pode cancelar agora e pouco me importa que seja com ela. É o mínimo que pode fazer nesse momento.
Não retruquei. Ficamos apenas nos encarando. Tatiana queria levantar uma das sobrancelhas para enfatizar a sua posição de definir algo, só que estava tão bêbada que tudo que conseguiu foi ficar com um olho mais arregalado que o outro. Vendo que não tinha para onde correr, peguei o celular e liguei para Juliana. Ela ainda estava esperando ser chamada para a entrevista. O que foi ótimo. Mandar apenas uma mensagem soaria frio, sem cogitar que na cabeça dela poderia passar a ideia que achei uma merda a nossa manhã e já estava correndo. Expliquei uma história em que a Tatiana estaca com problemas pessoais e precisava de um ombro amigo para conversar. Juliana tinha certa relutância em assimilar a minha amizade com a Tatiana. Ao fim entendeu, sugeriu algumas coisas e pediu que reservasse na minha agenda o início da sexta-feira até a manhã da segunda-feira só para ela. Claro que não negaria.
- Pronto – falei para Tatiana guardando o celular no bolso. – Cancelei com ela. Está satisfeita? Ela ainda me obrigou a ficar com você o resto do dia, inclusive te hospedar lá em casa. Está feliz agora? Você só fode com a minha vida mesmo.
- E você é um grande filho da puta mesmo.
Próximo capítulo Enfim, primeiro encontro

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Histórias reais inventadas por mim

Fim de viagem em Londrina
Esta história na realidade é apenas um pedaço de algo maior. Ela começou na quinta-feira passada quando fui a Londrina para um casamento e está terminando hoje, terça-feira. Resumindo, é o final da história. Sãos as minhas últimas horas em Londrina
- Ih guri, não sei, não.
Com essa frase, o taxista meio que me preparou para a possibilidade de não conseguir voltar para casa. A cidade estava debaixo de um temporal pesado tinha horas. Segundo o mensageiro do apocalipse disfarçado de motorista de táxi, o aeroporto da cidade fechava com muita facilidade. Qualquer sutil alteração no tempo e pronto, ninguém entra, ninguém sai. Claro que com menos dramaticidade que a minha frase.
Quando entrei no aeroporto percebi que a premonição do taxista era acertada. Um mar de pessoas espalhado por um salão que parecia uma pista de kart por conta das malas e mochilas largadas pelo chão. O exagero aqui não é tão real quanto parece. O aeroporto de Londrina, ao menos a parte de circulação de passageiros, é ridículo de pequeno. Parece uma rodoviária de cidade do interior. Um salão nem tão grande assim, com, no máximo, dez guichês de despacho de malas, umas três lojas de companhias aéreas e uma banca de jornal. Existe ainda um mezanino com uma lanchonete e uma dúzia de mesas. Obviamente, lotar um local como esse não é uma tarefa muito difícil, ainda assim, a imagem era desanimadora.
- Senhor, infelizmente estamos sem previsão mesmo. Todos os voos estão cancelados. O avião do senhor sequer está em terra. Eu sinto muito.
O rapazinho até que foi simpático, mesmo respondendo a mesma coisa provavelmente há horas. Depois de uns quarenta minutos em uma fila aturando terceiros disputando entre si quem estava mais indignado e quem teria mais transtorno na vida por conta daquele atraso, até que fui bem paciente e retribui o bom atendimento com um sorriso ao final. E nem foi por conta do polpudo vale almoço, ou vale desculpas, de vinte e quatro reais que recebi da companhia. Sem muitas opções, resolvi me sentar em algum lugar para esperar pelo menos o temporal passar. Afinal, enquanto São Pedro mantivesse aquele chuveiro ligado igual a uma mangueira de bombeiros, os voos nem começariam a ser organizados. Sentei-me em uma das raras cadeiras disponíveis, mas antes precisei de toda a minha capacidade de argumentação e articulação para convencer um homem que as malas dele em um assento e uma pessoa em pé não configura o correto. Ele ficou ofendido claramente quando a única solução seria coloca-las ao chão, próximo ou no meio de suas pernas. Imagino que até hoje ele esteja indignado por ter conseguido convence-lo a cometer tamanha indelicadeza com seus pertences que merecem um local melhor. Existe uma grande possibilidade de em sua casa a televisão deve ficar no sofá e as visitas de pé encostadas na estante.
Ficar uma hora e meia sentado fazendo literalmente nada à espera do nada é muito pior do que imaginava. Senti muita inveja dos idosos que, mesmo acompanhados, ficavam olhando o vazio em uma paz quase fúnebre, todos imunes à agitação que os cercava. Inquietação, aliás, que só aumentava diferentemente do que era exatamente o oposto do que esperava. Imaginava que com o tempo passando, as pessoas iriam se cansando, diminuindo a movimentação, falariam menos, se ajeitariam em um canto e por lá ficariam até virarem um casulo, de onde sairiam depois transformados Hare Krishnas. Pelos menos era assim que achava que eles surgiam.
- Devido à forte nevasca, o aeroporto JFK está completando dois dias de interrupção no seu funcionamento. Autoridades estão especulando um surgimento de mais de dois mil novos Hare Krishnas em Nova York.
Aquela agitação estava de fato me incomodando. Pessoas ansiosas ao celular ligando para cancelar reunião, adiar encontro com cliente, dar satisfação para secretária entre outras situações, estavam me provocando canseira só de olhar. Não tinha o que fazer. Éramos reféns do clima, das companhias aéreas e do rapazinho da torre que provavelmente estava fazendo hora em alguma rede social torcendo para o turno dele acabar antes do temporal. Tamanha a nossa impotência, que não fazia sentido aquela preocupação com os dramas do cotidiano. Tudo que passava pela minha cabeça era a minha inconformidade com a ausência de qualquer opção de se comprar algo alcoólico.
- Isso é muito descaso – disse um engravatado sentado à minha frente. – Ei, você não acha isso muito descaso?
- Eu? – Ele respondeu que sim para a minha infelicidade. – O que seria descaso?
- Eles nos deixarem aqui mofando à mercê do capricho deles.
- Eu não tenho certeza se é muito exagero avaliar desta forma sabendo que os aviões sequer estão pousados para embarcarmos.
- Isso é balela! Estão todos estacionados em algum hangar. Isso é estratégia para vender mais passagens.
- Pelo que vejo ao meu redor, acredito que vender passagens não é o problema atual deles.
- Você não está vendo a grande figura. Veja fora da caixa. Eles criam esse cenário para que a pessoa desesperada não espere pelo próximo agendamento e acabe comprando qualquer outro voo.
- Olha só. Olha ali naquela televisãozinha. Todos os voos estão cancelados. TODOS! Não existe sequer outro voo com passagens para comprar.
- É exatamente isso que eles querem que você pense. Pois saiba que existem outros, sim. Eu ouvi uma pessoa falar que se você pedir no balcão, eles têm um pequeno avião que leva até Guarulhos. Tudo pela bagatela de quase mil reais por cabeça. Mil reais a cabeça. É uma grande sacanagem.
- E por qual motivo você ainda está aqui?
- Porque não vou cair no esquema deles. Isso é coisa para desesperado que mete as mãos pelos pés. Só um trouxa afobado cai nisso.
- Bem, me dê licença, mas vou ali em cima descontar esse vale lanchinho que ganhei. Acho que a minha taxa de glicose caiu drasticamente e está afetando meu discernimento.
Teve um pequeno rebuliço quando me levantei, pois algumas pessoas estavam de pé. Foi notória a insatisfação do homem ao meu lado ao perceber que ainda não poderia acomodar suas malas no assento como ele considerava digno. Subi para o mezanino e as mesas da lanchonete estavam lotadas de pessoas enrolando. Fui direto ao caixa na esperança de boas notícias para amenizar o pesadelo que não tinha ainda prazo para acabar.
- O que você tem de cerveja?
- Não temos cerveja, senhor.
- Hum – uma pausa coçando a cabeça e revisando a vida. – Vinho de caneca?
- Não temos bebida alcoólica, senhor.
- Cachacinha? Licor?
- Não temos beb...
- Eu sei! Eu entendi na primeira. Estava apenas tentando desafiar a realidade.
- Infelizmente, senhor, não temos bebidas alcoólicas.
- Sério? E como fazem os pilotos? Eles trazem em uma garrafa térmica em uma lancheira?
- Senhor, acredito que eles não possam beber em serviço.
- Eu também. É apenas uma piada velha. O que tem para comer?
- Temos quatro opções de pratos feitos. São aqueles ali no alto. Acompanham um copo de refresco. Custa vinte e quatro reais.
- Hum – outra pausa mais uma vez desperdiçada, pois a menina não sacou o deboche no meu rosto. – E se quisesse algo diferente de uma refeição?
- Temos um combo. Ele vem com dois salgados, pode ser croissant ou folhado, uma vitamina ou milk-shake e uma fatia de pudim ou de mousse.
- Deixe-me adivinhar. Custa vinte e quatro reais.
- Exatamente, senhor.
- Que mundo pequeno, não? Vamos fazer o seguinte. O que acha de eu te entregar esse vale qualquer promoção de vocês que custa vinte e quatro reais e você me dá vinte reais em dinheiro de volta?
- Tem gente pedindo vinte e quatro pelo vale.
- Não importa. Vinte redondo. Fechado?
Provavelmente me achando um idiota, a atendente trocou o vale. Claro que ela tem razão, mas esse não era o motivo mais apropriado para me julgar.
Com as mesas lotadas e a menor vontade de retornar àquele salão que mais parecia a arca de Noé, optei por ficar em uma enorme janela que dava para a pista de pouso e decolagem. Nada para ver. Apenas muita água caindo no asfalto. Talvez conseguiria uma pouco de paz.
- Então – uma mulher parada ao meu lado também olhando para o nada matou os poucos segundos de paz. – Eu te entendo perfeitamente.
- Ora, não se precipite. As chances de estar errada são grandes.
- Bobo – ela sorriu e foi a primeira bela imagem naquele dia horroroso. – Estou falando do seu drama para conseguir bebida alcoólica.
- Ah sim. Ajudaria muito na minha situação se eu conse... Ei! Que audição impecável. Você está de parabéns!
- Quando você apareceu, eu pensei na hora que seria alguém que estivesse doido por uma birita.
- Birita?
- Ah me deixa. Eu tenho umas gírias estranhas – outro sorriso lindo e o meu dia começava a melhorar ao poucos. – Daí apostei comigo mesma que iria pedir algo para beber. Fiquei daqui ouvindo e nem foi um esforço muito grande. Sua voz é grave, alta. Dá para ouvir daqui facilmente.
- Imagine de manhã ao pé do ouvido.
- Céus! Alto daquele jeito? Tipo acordar com corneta de quartel?
- Não, sua doida. Apenas o grave.
- Ah sim. Deve ser uma delícia. Até imagino você falando “acorda, benhê, entupi a privada.”.
- Que horror – caímos os dois na gargalhada. – Jamais falaria isso.
- Mas é bem a sua cara.
- Não. Acho cafona chamar alguém de benhê. - Ficamos rindo mais um pouco.
Ela aparentava ter um pouco mais de quarenta anos. Era bem bonita, alta, cabelos bem cuidados e o tal sorriso encantador que disse antes. Seu nome era Cristina, estava voltando para o Rio de Janeiro também, mas sem a menor pressa, pois já tinha avisado ao chefe e foi liberada. O meu drama não somente a comoveu, como também a assolava. Precisávamos de um plano e, segundo ela, nos arredores não existia uma opção sequer. Mesmo que tivesse, não nos podíamos nos dar ao luxo de sentar em uma mesa de bar. Sugeri pegar um taxi, deixar que ele nos levasse até algum local que vendesse a tal birita e voltaríamos para consumir enquanto esperávamos as coisas se reestabelecerem por aqui. Ela topou e ganhei mais um sorriso.
Quarenta minutos depois, dos quais a maior parte do tempo foi culpa de um taxista incompetente que sequer sabe onde se pode comprar vinho na própria cidade, estávamos de volta. Eu, Cristina e cinco garrafas de vinho. Todas com as rolhas previamente engatilhadas para facilitar as nossas vidas. Estávamos bastante pessimistas quanto ao nosso retorno ao Rio de Janeiro e otimista sobre nossa capacidade de absorver álcool.
- Baby, se me acompanhar direitinho com essas cinco, direi com certeza que você foi feita para mim.
- Baby? O cara que acha cafona falar benhê usa baby?
Cristina era muito mais que um sorriso lindo. Tinha respostas rápidas que me deixam sem palavras, era despojada e comprou o projeto encher a cara no aeroporto. Obviamente, assim que chegamos, não tinha mais lugar para sentar. Sem dramas, nos acomodamos no chão mesmo. Esticamos as pernas, colocamos as malas de lado, tiramos a rolha da primeira garrafa e nos revezamos com bons goles direto do gargalo. Os olhares recriminadores dos outros passageiros eram cruéis. Cheguei a me incomodar por alguns segundos. Daí, ela me entregou a garrafa, dei mais um gole e passou.
- Impressionante como as pessoas estão incrédulas com a nossa cena.
- É muita coisa para associar de uma só vez – respondi devolvendo-lhe a garrafa.
- Sério? Liste então.
- Dois adultos sentados no chão sem a menor cerimônia.
- Justo.
- Dois adultos bebendo vinho em pleno início de tarde de uma terça-feira.
- Bebendo do gargalo – ela enfatizou erguendo a garrafa como em um brinde.
- Sim, não vamos nos esquecer desse detalhe – peguei a garrafa, bebi e continuei. – E agora o principal de todos. O maior de todos.
- O maior de todos – ela pegou de volta a garrafa e a levantou ao ar. - Qual o maior de todos?
- Estamos nos divertindo enquanto os outros estão odiando este dia.
- Mas é porque temos álcool.
- Direto do gargalo. Não se esqueça.
- Direto do gargalo.
A primeira garrafa terminou em uma velocidade incrível mesmo para os meus padrões. Cristina tinha um potencial impressionante. Era melhor eu ficar atento com ela, pelos bons e maus motivos. Já na segunda garrafa, um funcionário do aeroporto veio recolher a primeira vazia. Ele fez um comentário que flertava com uma pergunta como quem quer saber se iriamos dar trabalho. Eu até tinha uma resposta cretina pronta, mas Cristina foi mais rápida dizendo que só teriam trabalho se nos incomodassem. Quietos no nosso canto, passaríamos despercebidos. Ouvi incrédulo tamanha franqueza, mas o que importava mesmo era o funcionário ter acreditado.
- O que veio fazer aqui?
- Não quero falar sobre isso – ela foi seca na resposta.
- Puxa, me desculpe. Não queria ser indelicado.
- Não foi indelicado. Foi sem graça. Perguntinha mais clichê. Ainda mais vindo de você.
- De mim? O que tem eu?
- Você com todo esse jeito de contornar a conversa e essa cara de safado...
- Essa o que?
- Você ouviu? E sua cara de safado é melhor que essa de cínico. Pode parar com a cena. Enfim, esperava algo melhor de você. Mais compatível com a imagem.
- Tipo o que?
- Tipo perguntar a cor da minha calcinha, se faço sexo com desconhecido, se já trepei em banheiros públicos, se transei a três ou se coloco energético em uísque.
- Energético em uísque?
- Pois é, uma putaria pesada fazer isso, não?
- Estou começando a achar que você é alguma irmã minha que foi roubada na maternidade.
Ela riu do meu comentário, mas não por ser engraçado, apenas por ser patético. Cristina achou curioso o meu desconforto lidando com uma mulher com boas respostas rápidas que me deixavam desconcertado. Não bastante, concluiu de imediato que eu só me relacionava com mulheres mais novas. Ora, que diabo de mulher era aquela? Só tinha uma maneira de fazê-la parar. Ou tentaria deixa-la apaixonada por mim, ou teria de tentar mata-la. Em ambas as opções, indiscutivelmente, não somente fracassaria, como seria o único a sair machucado. Onde fui me meter?
- Ok, você já está muito desconcertado. Vamos para perguntas lugares comum para você retomar o fôlego e a coragem. O que veio fazer aqui?
- Casamento.
- Percebo que esteja esquecendo algo, não? Tipo, a mulher com quem acabou de casar.
- Não, eu não me casei. Vim para um casamento.
- Entendi. Padrinho, né?
- Madrinha.
- Olhe só, já está voltando a ficar à vontade com as asinhas de fora.
- Não é piada, é sério mesmo.
Cristina não pode acreditar no que ouvia. No dia do casamento civil, a madrinha não pode comparecer e a única pessoa que o casal conseguiu chamar às pressas no cartório foi outro amigo. Chegando à hora, o juiz de paz se recusou a fazer um documento com dois padrinhos. Deve ter pensado que éramos um casal gay. Ele disse que só aceitaria se um dos dois assinasse como madrinha. Obviamente, para não empatar o momento, o idiota aqui aceitou a condição. Aliás, condição totalmente absurda, que na cabeça do juiz de paz fazia sentido.
- Ah, então você é gay mesmo?
- Não comece.
- Tudo bem – ela colocou a segunda garrafa já vazia de lado e abriu a terceira. – Veja pelo lado positivo, em casamentos sempre arrumamos alguém.
- Nada.
- Ninguém?
- Zero.
- Neca de bitibiriba?
- Está divertido para você?
Após um gole inaugural na terceira garrafa, ela se desculpou. Não acreditava que alguém pudesse sair de um casamento sem ao menos conhecer uma pessoa nova. Vai ver as minhas obrigações de madrinha ficaram tão extensas que nem tive tempo de interagir com outras pessoas. Ou apenas sou um fiasco nesse tipo de evento mesmo.
- E nos outros dias? Não saiu? Nada?
- Ah sim! Todas as noites.
- E conheceu alguém?
- Ah sim! No sábado conheci uma ruiva linda. Olhos claros. Rosto pintandinho de sardas. Ótimo passatempo.
- Passatempo?
- Sim, ficar contando sardas pela manhã.
- Pois saiba que minhas costas são cheias de sardas.
- Você quer ouvir a minha história ou ficar se gabando?
- Oh desculpe, senhor falador. Prossiga. Quem sou eu para te interromper agora que pegou no embalo.
- Era só isso mesmo. Conheci uma ruiva linda no sábado.
- E?
- E o que?
- Nada? Zero? Neca de bitibiriba? Fuém?
- Não! Ficamos no sábado e repetimos ontem.
- Ah seu cretino. Então quer dizer que estou aqui flertando com um homem compromissado?
- Estamos flertando?
- Não, claro que não! Você é um desastre nesse jogo.
Mesmo que estivéssemos, não era um homem compromissado. Ao final do segundo encontro, a ruiva já deixou claro que nada sairia dali. Aliás, preciso dizer que, no que se refere a ser enfática, ela é muito boa. Qualquer animação pelos dois dias com ela foi estraçalhada por pedidos como esquecer que ela existisse, apagar seu número do telefone e não achar que foi algo especial. Não quero me passar por dramático, mas ainda estava me sentindo mal por como aquilo terminou. E nem foi minha culpa dessa vez. Eu apenas fiquei boquiaberto ouvindo. Era óbvio que não iríamos para frente. Foi muito exagerado o sadismo dela em me comunicar isso.
Enquanto Cristina demonstrava solidariedade ao meu sofrimento recente, o sistema de som anunciou que o tráfego aéreo estava aberto novamente. Fomos para o guichê e, no tempo que esperamos na fila, a terceira garrafa foi embora. Estávamos prestes a completar nove horas naquele local já completamente bêbados. Conseguimos marcar nossos assentos, um ao lado do outro e seguimos para a sala de embarque onde ficamos menos de dez minutos. O pessoal do aeroporto estava disposto a colocar as coisas em dia mesmo. Entramos no avião, guardamos as malas no compartimento em cima das poltronas e nos sentamos. Com a quarta garrafa em mãos, Cristina sugeriu que pensássemos em um local para acabar com esta e a quinta, já que o tempo de viagem era curto. Deixei por conta dela, afinal era o macho alpha da relação. Ela sorriu quando ouviu isso e tirou a rolha. Logo em seguida o avião decolou. O que aconteceu em seguida não cabe mais aqui, pois como disse, essa era a história das minhas últimas horas em Londrina e não estava mais em solo londrinense.