sexta-feira, 1 de julho de 2016

Pedaços de uma vida encenada

Ombro amigo - Cena 1
Teo está dormindo. É tarde da madrugada e seu quarto está escuro, quando o celular toca. Ele atende com esforço. Tela se divide em duas: em uma metade Teo de bruços na cama, Luiza no sofá com cobertor na outra metade.
[Teo] Alô.
[Luiza] Acordado?
[Teo] Não!
[Luiza] Preciso de você.
[Teo] Ai porra.
[Luiza] Por favor. É sério. Preciso muito.
[Teo] Peraí.
Teo se ajeita na cama ficando recostado. Em seguida liga o abajur na cabeceira.
[Teo] Fala.
[Luiza] Preciso que me distraia.
[Teo] Luiza, são três da manhã. Amanhã... ou hoje... que seja... é segunda-feira. Ainda estou bêbado. É mais uma crise de carência?
[Luiza] Não. Desculpe-me, mas dessa vez é serio. Preciso de atenção.
[Teo] Tá! Fala. O que aconteceu?
[Luiza] O Gil me deu um corte.
[Teo] Ah caralho.
[Luiza] O que foi?
[Teo] Estava torcendo muito para ser um problema financeiro. Já tinha me preparado para abrir o notebook e fazer uma transferência para você.
[Luiza] Antes fosse. Ele me deu um pé na bunda mesmo.
[Teo] Como se leva um pé na bunda sem estar sequer namorando?
[Luiza] O Gil acha que estou envolvida demais ao mesmo tempo em que ele não está. Não se enxerga emocionalmente preparado.
[Teo] E por que não continuam do jeito que tudo estava até alguns minutos antes de me acordar? Qual o problema de continuarem se pegando sem compromisso e complicações?
[Luiza] Eu não me sinto à vontade sabendo que não quero ficar com mais ninguém, enquanto ele se mantém disponível para outras pessoas.
[Teo] Ai meu pai. Que complicação desnecessária. Onde que em um relacionamento sem compromisso se fala sobre essas coisas? A ideia era se comerem, checarem exames de doenças e gravidez esporadicamente. Pronto! Fórmula do sucesso. Quem colocou a carta do tema polêmico e inoportuno na mesa?
[Luiza] Eu.
[Teo] Ah porra, Luiza! Sempre falei que esse seu problema em não conseguir pegar no sono depois de transar ia dar em merda. Você fica acordada com esses olhos esbugalhados, só de canto de olho, implorando para a pessoa puxar algum assunto. Mas a pessoa não puxa. A pessoa quer dormir. O que você faz? Hein? Hein? Sapeca de surpresa um “você está querendo sair com outras pessoas?”. Aposto que o pau do rapaz nem deve ter abaixado até então.
[Luiza] Tão bom ter um amigo que me entende e fala as coisas certas no momento que mais preciso.
[Teo] Você sabe que eu falo o que precisa ser dito. Tanto que foi por isso que me ligou.
[Luiza] Não... Te liguei porque sei que era a única pessoa acordada para conversar nesta hora.
[Teo] Ah mas errou feio, hein?
[Luiza] Pois é. Se arrependimento matasse...
[Teo] Você nunca teria me dado pela primeira vez.
[Luiza] FILHO DA PUTA! [Luiza ri]
[Teo] Vejam só! Consegui te distrair.
[Luiza] Não é essa distração que preciso. Quero algo para acalmar o meu coração. Algo que me faça me sentir bem. Daí vem você falando que deveria abaixar o pau do Gil e deitar como um cadáver ao lado dele, só para o conforto de todo mundo.
[Teo] Todo mundo é muita gente. Mas o fato é que, se você não tivesse feito a pergunta, eu pelo menos estaria dormindo no meu conforto.
[Luiza] Escroto... Enfim, a pergunta foi feita, mas não... Não foi após o sexo. Muito menos foi a pergunta que você disse. Apenas comentei com ele que as coisas estavam esfriando. Não sentia mais aquela reciprocidade vindo dele para querer me ver, me beijar, me comer. Estava tudo meio no automático, em uma mesmice sem graça. Ele meteu um papo sobre estar sem grana, que com isso não sai mais e fica desmotivado.
[Teo] Tá, mas isso não tira tesão de homem. Cara que tem tesão na mulher, mas não tem grana, leva para trepar na escada do prédio, praia, carro, canil. Mentira! Canil só a Luciana Gimenez com o Mick Jagger.
[Luiza] Sério isso?
[Teo] Sei lá. Sempre rolou essa lenda de que ele a engravid...
[Luiza] Não, estou perguntando do tesão. Mesmo sem grana o tesão continua?
[Teo] Ah sim. Até porque é tesão. Não é vontadezinha de se ver apenas. Tesão por alguém quando bate, faz o cabra dar o jeito dele para conseguir.
[Luiza] Bem... Eu não sabia disso. Mesmo assim acabei perguntando se isso estava afetando apenas a maneira dele me ver. Isto é, se ele via outras meninas de maneira diferente, ou se via de maneira desinteressada também.
[Teo] E ele?
[Luiza] Não disse sim, nem não.
[Teo] Filho da puta. Ficou calado?
[Luiza] Não! Ele falou que não se achava um pegador, putão, sei lá o termo que usou. Daí não conseguia se imaginar olhando para outras mulheres para poder me responder. Depois falou que isso também não o impedia de se envolver ou ter atração por outras.
[Teo] Que filho da puta! Está tristinho porque a mesadinha acabou. Está tristinho e acha que isso está tirando a vontade dele em te ver. Legal! Mas ficar tristinho para querer pegar outras... ah aí é outra história... Vamos colocar a dúvida no ar, não é mesmo?
[Luiza] Pois é. Achei a mesma coisa. Cheguei a falar algo, mas ele me interrompeu. Disse que gostava de mim, que me curtia... Curtia! Rá! Sonho de toda mulher, um cara que diz “eu te curto”. Enfim, ele falou que gostava de mim, que o sexo não tinha mudado, apenas estava repensando as coisas, pois eu era a primeira pessoa que ele dava prosseguimento depois do término do namoro dele.
[Teo] Como assim dar prosseguimento?
[Luiza] Ele supostamente saiu com outras pessoas, mas só deu uma trepada aleatória e nada mais. Comigo ele prolongou. Entendeu?
[Teo] Ah tá! Estão saindo tem quanto tempo?
[Luiza] Desde agosto... Então... Umas sete semanas.
[Teo] E transaram quantas vezes?
[Luiza] No início não transamos, nem saíamos muito. Depois passamos a nos ver toda semana e transávamos sempre. Sei lá! Acho que umas cinco.
[Teo] É... Vou te falar então... De todo esse tempo que esteve com ele, a melhor coisa que lhe aconteceu foi aquela nossa trepada bêbados no aniversário na casa da sua prima.
[Luiza] FILHO DA PUTA! Sabia que ia falar isso. [risos dos dois]
[Teo] Desculpa, mas a deixa foi muito mais forte. Prossiga.
[Luiza] Ele disse que estava preocupado com o fato de que não queria ter um relacionamento sério. Achava que prolongar algo comigo sabendo disso seria sacanagem e poderia perder a minha amizade, algo que ele disse ter mais valor do que tudo.
[Teo] É, ele está querendo pular fora e está tentando ser fofo.
[Luiza] O argumento principal dele foi que tinha a certeza que eu queria algo e ele, em contrapartida, não. Ele acredita que esse impasse já é algo para não continuarmos juntos.
[Teo] É, ele quis ser fofo, mas é apenas covarde.
[Luiza] Covarde?
[Teo] Sim, covarde. Provavelmente já estava com isso em mente tinha algum tempo. E quando digo isso, me refiro a pular fora. Você veio puxar um assunto delicado, ele usou como ponto de partida.
[Luiza] Sério? Covarde?
[Teo, enquanto fala, se levanta e vai para a sala] Sim. O cara que quer pular fora tem a suas mãos vários recursos, sejam eles detestáveis ou não. Simplesmente sumir e fingir que nada aconteceu, por exemplo, requer muito culhão. Além de falta de caráter, obviamente. Precisa ter culhão para ignorar mensagens cobrando o sumiço, esbarrar na rua e ser indiferente, até mesmo não se incomodar com o outro lado. Como disse, existem diversos recursos e esse é um deles. O Gil foi covarde. Não tomou iniciativa no primeiro momento que cogitou pular fora. Esperou uma desculpa dada por você. É patético, clichê e ao final soa tão ruim quanto o detestável sumiço. Acredito que, na cabeça dele, tudo fez sentido e sua ação foi digna de ser elogiado na mesa de jantar com a família. Não é legal sinalizar para a outra pessoa que entendeu as intenções dela em querer um relacionamento quando não é recíproco. Até porque, quando a outra pessoa quer um relacionamento, a última coisa que ela precisa ouvir é que você não está na mesma vibe.
[Teo faz uma voz forçada] Veja bem, eu sei que você está doidinha por mim, só pensa em mim e está depositando várias fichas em mim, mas tchau. Acredite, é para o seu bem.
[Teo] Ora, fica parecendo que, no momento que era apenas sexo sem expectativas, a ideia era genial. Agora que ela quer algo... Opa... Cadê o botão ejetar?
[Luiza] É, talvez tenha sido isso.
[Teo] Pense da seguinte forma... Suponhamos que ele seja uma alma realmente evoluída... Desastrada na maneira de lidar com as coisas, mas evoluída... Ele percebeu que você está se apaixonando... Ele não está sequer perto de sentir isso por você... Então ele resolve que o melhor é matar o relacionamento. Ora, não se fala isso. O esperado é que...
[Luiza] Eu entendi. Agora já era. Só queria conversar. Achei muito babaca da parte dele, mesmo antes de conversar com você. A diferença é que agora existem mais argumentos para achar ele um babaca. Enfim, essas porradas que me cansam mais que o Gil propriamente dito. Tinha esperanças que saísse algo mais legal dali. Acabei levando na cabeça.
[Teo] Não me faça repetir Paulo Francis. Ele dizia que a vida só é democrática na desgraça.
[Luiza] É, na minha tem rolado muita democracia. Acho que vou diminuir o ritmo mesmo. Aliás, já tinha diminuído. Transei com três caras apenas este ano. Um no carnaval que não aguentei as pontas. Depois fiquei meses sem transar até conhecer o Gil. Além de, nesse meio tempo, um estrupício em uma festa recente.
[Teo] EU! EU!
[Luiza] E nem no canil foi! [risos dos dois]
[Teo] É bem possível que você estivesse indo direitinho no caminho com ele. Você é calejada. Vai ver faltou algo por parte dele. Tipo, ele mandou os sinais errados. Era para dar sinal amarelo e colocou um verde brilhante.
[Luiza] Analisando com calma tudo que disse, eu concordo.
[Teo] Com o que especificamente? Com a falta de calejamento? Que a melhor coisa do seu ano foi a nossa foda?
[Luiza] Também... [risos dos dois] Mas agora quero falar apenas de calejamento.
[Teo] Ok... Ele era amigo antes, não?
[Luiza] Era.
[Teo] Então. Território amigo. Zona segura. Isso cria uma falsa confiança que tira os pés atrás e nos colocam de quatro.
[Luiza] Ui que delícia.
[Teo] Olha só! Já está falando sacanagem! Viu como sou a melhor pessoa para conversar?
[Luiza] Não, você é péssimo! Você é uma alma estabanada, nada evoluída, mas que ao menos diverte falando merda.
[Teo] Isso magoa!
[Luiza] Aham... Que mude a direção das mágoas esta madrugada apenas uma vez.
[Teo] Ok, justo.
[Luiza] Se ele me procurar, você me ajuda?
[Teo] Ajudar como? Sou péssimo de briga. O máximo que posso fazer é preparar umas piadas sarcásticas para usar com ele.
[Luiza] Não, apenas me ajude no que devo fazer.
[Teo] Nada.
[Luiza] Não vai me ajudar?
[Teo] Não, lesada! É para fazer nada! Coisa alguma.
[Luiza] Mas é difícil.
[Teo] Vou te dar uma dica de algo que faço com frequência e é infalível. Apague ele dos seus contatos para não correr o risco de cair em tentação amém e mandar mensagem para ele. Quando ele mandar por conta própria, nem entre na conversa. Apague por fora mesmo. Vai constar eternamente que recebeu e nunca leu. Uma hora ele entende.
[Luiza] Vou tentar. Bem, obrigado. Agora pode voltar a dormir.
[Teo] Ah, já perdi o sono. Nem mais estou no quarto.
[Luiza] Hum... Desculpe-me. Vou tentar dormir então.
[Teo] Não.
[Luiza] Não?
[Teo] Não! Quero aproveitar e falar de outra coisa com você.
[Luiza] Diga então.
[Teo] Suelen.
[Luiza] O que tem a Suelen?
[Teo] Você tem certeza que ela é menina? [Luiza cai na gargalhada]
[Luiza] Claro! Sei lá! Por que está perguntando isso? Vocês não ficaram naquele dia no bar na sexta passada e foram para a sua casa?
[Teo] Sim.
[Luiza] Então? Ela pelada não é menina? Ou você não sabe diferenciar as coisas?
[Teo] Claro que sei diferenciar! Sim, ela pelada é uma menina. A pergunta é: ela sempre foi menina? Ela foi menina a vida toda?
[Luiza] Meu Deus! Sabia que você ia encrencar com isso. A Suelen talvez tenha uns traços rústicos. A voz não ajuda muito, é verdade. Ela é meio grande também. Ainda assim eu garanto que ela é menina. Por que dessa neura?
[Teo] Luiza, escute o que vou te falar. Aquilo que ela tem no meio das pernas não é uma boceta normal. [Luiza ri descontroladamente] Eu estou falando sério. Preste atenção em mim. Eu já vi muitas na minha vida e aquela coisa não era uma boceta natural.
[Luiza] Como não era normal? Era torta? Parecia um porta-níquel? Tinha dentes? [Luiza volta a rir alto]
[Teo] Estou falando sério. Era totalmente fora da posição normal. Não estava alinhada com o corpo.
[Luiza fala rindo] Vou pegou um par de esquadros para constatar isso, Teo?
[Teo] Luiza, pare de fazer graça com isso. Não era algo natural. Era muito áspera.
[Luiza] Vai ver estava seca.
[Teo] Como seca? Eu fiz as preliminares direitinho.
[Luiza] Vai ver você chupa boceta mal, né?
[Teo] Ei! Eu chupo mal?
[Luiza] Sei lá?
[Teo] Como sei lá? Já te chupei algumas vezes.
[Luiza] Teo, eu não vou fazer DR sobre a sua chupada. Vai ver ela não curtiu como você estava fazendo. Ou então não estava solta o suficiente para ficar lubrificada. Quem sabe você não a acendeu suficientemente?
[Teo] Como não? Ela que sugeriu ir para o meu apartamento.
[Luiza] Daí na hora H ela te viu pelado... [Luiza ri] É meio broxante mesmo.
[Teo] Para, porra! Podemos focar no ponto que estou querendo provar aqui?
[Luiza] Tá bom! Sei lá. Então... Sei lá... Você já tinha transado com negras antes?
[Teo] Nunca.
[Luiza] Então é isso! A boceta delas deve ser diferente. Ou demoram mais para entrar no clima.
[Teo] Hum... Talvez isso seja uma possib...
[Luiza] Sim, é uma possibilidade. Acabamos com a neura?
[Teo] Não!
[Luiza] O que foi agora?
[Teo] Preciso te confessar uma coisa.
[Luiza] Já estou com medo.
[Teo] Sonhei que saía com ela novamente.
[Luiza] Olha aí que bom sinal! É um indício que você curtiu.
[Teo] É, mas no sonho transamos novamente.
[Luiza] Pelo seu tom de voz, já vi que não conseguiu deixar a menina animadinha.
[Teo] Pior.
[Luiza] Broxou?
[Teo] Pior.
[Luiza] Desisto.
[Teo] Eu chupava o pau dela.
[Luiza tem uma crise de risos e vai para a cozinha pegar água para não se engasgar]
[Teo] Estou aqui abrindo uma confissão minha e você se diverte. Depois reclama de mim. Tomara que morra engasgada com sua saliva.
[Luiza] Melhor com saliva que com pau de travesti. [Luiza volta a rir]
[Teo] Filha da puta.
[Luiza] Ah relaxa, Teo. Você sempre foi meio viado mesmo. Aproveita e sai do guarda-roupas truculento.
[Teo] Não sei por qual motivo exponho isso para você?
[Luiza] Eu também não sei. Afinal de contas, fui EU quem ligou. E o fiz unicamente para te contar o quanto sou frouxa e o quanto tinha chorado. Levando em consideração o meu rosto naquele momento, eu era mais lubrificada que a xoxota da travesti que você comeu.
[Teo] TRAVESTI, NÃO! TRANSEXUAL! Respeite minha namorada. [Os dois caem na risada]
[Luiza] Ah a sua namorada da xoxota torta.
[Teo] Pois é, preciso levar a sua amiga na funilaria.
[Luiza] Ela não é minha amiga.
[Teo] Como não? Você me apresentou como sua amiga.
[Luiza] Eu dei uma forçada para te ajudar a ter assunto com ela. Eu a conheço lá de onde moro. Sempre morou em duas ruas acima da minha. Esbarrávamos pelas ruas e temos amigos em comuns há anos. E só!
[Teo] Droga. Contava com sua intimidade com ela para confirmar a minha desconfiança.
[Luiza] Para quê desconfiança? Você a viu pelada, Teo. Qual o problema?
[Teo] Presta atenção, Luiza. Eu entrei em vários sites de transexuais.
[Luiza] Meu pai, você é mais pervertido que imaginava.
[Teo] Sério! Sem perversão. Apenas curiosidade. Pesquisa de campo.
[Luiza] Pesquisa de campo? Tá, fala.
[Teo] Não tinha uma boceta que parecesse natural. Eram todas em formatos... Digamos... Como posso falar?
[Luiza] Não natural?
[Teo] Isso! E o pior.
[Luiza] Você ficou excitado?
[Teo] Não! Deixa eu falar, caceta!
[Luiza] Caceta quem tem é a sua namorada. Digo, tinha!
[Teo] Engraçadinha. O pior é que nenhuma é igual a outra. São todas estranhas e diferentes ao mesmo tempo. É tipo artesanato. Sabe aquelas banquinhas de artesanato que vende bonecas mucamas de argila? Então? São todas assim. Estranhas e diferentes entre si.
[Luiza] Ai, Teo. Você está me cansando. Se eu chamasse agora mais umas cinco amigas minhas e ficássemos todas peladas na sua frente, você veria que nenhuma é igual.
[Teo] Sim, isso é a essência da natureza. Mas sob as mãos de técnicas médicas as tendências é que fiquem sempre iguais, pois seguem o mesmo gabarito.
[Luiza] Gabarito, Teo? GABARITO? Você sabe que xoxota e prédios são coisas diferentes, né?
[Teo] Tá, eu me expressei mal. Só preciso ter a certeza se ela é uma transexual ou não.
[Luiza] Você quer sair de novo com ela se for transexual?
[Teo] Não!
[Luiza] E se for mulher?
[Teo] Também não! Não disse que o sexo foi estranho?
[Luiza] Porra! Que diferença faz então?
[Teo] Só quero acalmar essa ansiedade em mim. Eu tive pesadelos. PESADELOS! Eu sonhei que chupava um pau. Sabe quantas vezes já sonhei com isso?
[Luiza] Se me disser que aquela não foi a única vez, eu juro que você é viado.
[Teo] Então... Presta atenção...
[Luiza] Foi mais de uma? VOCÊ JÁ SONHOU ISSO ANTES?
[Teo] Luiza...
[Luiza] FALA!
[Teo] Já, já sonhei antes. Na época que jogava polo aquático no Hebraica, tinha aquele banho coletivo após o treino. Sempre que me sentava no banco para começara me vestir, um dos meninos do time ia pegar as coisas no armário e ficava com aquela piroca a dois palmos do meu rosto. Tentava ignorar, mas aquela jeba ficava balançando como um pêndulo de relógio. TIC TAC TIC TAC. Era impossível não olhar. É como um pombo atropelado. Ele está lá, você sabe que é nojento, mas acaba olhando.
[Luiza] Teo, eu nunca sonhei que estava comendo um pombo atropelado.
[Teo] Ah, experimente ficar toda terça e quinta por dois anos encarando um pombo atropelado tão perto. Você ia sonhar que ele era membro da sua família, chamaria de Tio Aloísio e até conseguiria imaginar ele fazendo a piada do Pavê no Natal.
[Luiza] Você é doente. Boa noite, manjador de pau alheio.
[Teo] Sério. Me ajuda.
[Luiza] Como vou te ajudar? Eu não sou amiga dela. Sequer tenho intimidade com ela. O Fábio disse que ela comentou que tinha curtido você naquele dia e pediu que intercedesse. Só isso.
[Teo] É que você falou sempre se esbarrava com ela pelas ruas desde nova. Vai que tinha algum indício.
[Luiza] Teo, ela sempre foi menina.
[Teo] Ela podia ser hermafrodita.
[Luiza] AI CARALHO! E como vou saber se ela era hermafrodita se nem falava com ela?
[Teo] Sei lá! Alguma pista. Sempre jogava bola?
[Luiza] Machista.
[Teo] Batia nos outros meninos?
[Luiza] Machista frouxo.
[Teo] Ela era masculina e sensual ao mesmo tempo?
[Luiza] Bicha enrustida.
[Teo] Quando se sentava, escapava o saco ou o pau?
[Luiza] Manjador de rola.
[Teo] É serio!
[Luiza] Estou falando sério também. Além de estar incrédula em ter essa conversa logo após expor todo o meu drama. Aliás, esqueça meu drama. O seu drama psiquiátrico é muito pior. Preciso dormir.
[Teo] Calma! Ela sempre jogava de zagueiro estilo Odvan? [Som de telefone desligado] Luiza? LUIZA? Merda! Será que tem algum travesti na Glória uma hora desta para consultar?

sábado, 11 de junho de 2016

O dia seguinte

Capítulo Anterior Debutando mais uma vez
 
Perdi as contas de quantas vezes me sugeriram ter uma vida mais regrada, com alimentação saudável, atividades físicas e boas noites de sono. Algumas dessas pessoas insistiam em que um dia sentiria o peso de um estilo de vida irresponsável e autodestrutivo. Você, convicto de seus argumentos, acha tudo isso balela e acredita que, quando este dia chegar, será tão fulminante que não vai ter tempo de se arrepender e, por isto, terá tudo valido a pena. Obviamente, lá no fundo, você sabe que não vai ser assim. Desconfia que será antes disso, além de longo e penoso. O que você não espera é que esse momento acontecerá exatamente quando está fugindo da polícia.
Você sabe que o universo resolveu lhe pregar uma peça, ou lição, quando precisa testar a sua disposição física fugindo a pé de uma patrulha policial. Não queria olhar para trás e nem precisava. O som da sirene me seguindo era interminável. Já foram quatro quarteirões e não cessava. A minha sorte é que o trânsito não está tão favorável para eles como a calçada está para mim. Retiro forças de partes do meu corpo que sequer sabia que ainda estavam em funcionamento. Na minha cabeça, começo a imaginar uma música, pois perseguição pede música, fora o fato de motivar mais um pouco. Talvez AC/DC seja uma boa ideia, mas é provável que, na hora do solo, pare de correr e comece a fazer o passinho do Duck Walk. Fiquei com YYZ do Rush. Música instrumental não me distrairia com refrões. Cinco quarteirões e, pelo som da sirene, não me afastei deles, todavia não se aproximaram ainda. Resolvo entrar em uma rua perpendicular. Escolho a rua que seja contramão para a polícia. O som de sirene permanece à mesma distância. Eles deram sorte e os carros devem ter liberado o caminho. Mais à frente tem um novo cruzamento, talvez tenha a ajuda de um trânsito mais pesado. Não sei se minhas pernas aguentam até lá. Elas estão no modo automático e a sensação é que pareço a Lula Lelé correndo (gerações pós-década de 80 terão dificuldades em entender esta analogia). Tento, mesmo distante do quarteirão, já identificar a direção da mão dos carros para saber em qual lado virar. Enquanto isso, a patrulha segue com a maldita gasolina infinita e a sirene que não queima nem a pau. Esquerda! Terei de virar à esquerda lá na frente. Na mão da rua que estou não tem carro vindo. Sem olhar para trás, atravesso para o outro lado prestes a virar à esquerda. Sirene maldita não dá descanso. Eles vão me alcançar. Preciso chegar logo na esquina e torcer por um trânsito pesado. Por sorte, as músicas do Rush são longas e YYZ ainda não acabou na minha cabeça, não saberia mais qual usar. Menos de dez metros para virar a esquina. Minhas pernas não vão aguentar. Preciso de uma rua obstruída para ganhar alguns metros e logo após entrar em um prédio ou loja, caso contrário, dar meia-volta, que seria a melhor das opções, não será possível. Ao frear, acho que desabo no chão. Sirene dos infernos segue incansável, diferentemente de mim. Cheguei à esquina! Finalmente! Viro na direção contra o trânsito e dou de cara com minha mãe segurando um chinelo.
- AH MERDA! – Odeio acordar no susto por conta de pesadelo.
Ainda de olhos fechados, me mexi o suficiente para perceber que estava deitado no Tidus, o sofá fétido. Ao fundo, ouvia a campainha do meu celular. Provavelmente estava tocando por um tempo e acabou invadindo meu sono na forma de sirene de polícia. Pela distância, ele devia estar no quarto ou no banheiro. Sentei-me à beira do sofá e senti minha cabeça pesar uma tonelada. Não conseguia sequer abrir os olhos de tanta sensibilidade. Já fazia um tempo que não tinha uma ressaca naquelas proporções. Estranhamente não sentia o aterrorizante enjoo com ânsia de vômito se aproximando. O celular continuava tocando e pelo jeito ficaria assim até atender. Precisava então abrir os olhos, me levantar e andar até ele. Como já morava por lá por tempo suficiente para conhecer os caminhos da casa de olhos fechados, minha lista de afazeres daquele momento diminuiu para dois itens apenas: levantar e andar. Lá fui eu, de cabeça baixa como quem equilibra uma bigorna no topo dela e olhos fechados. Praticamente imitando o Mister Magoo, dava meus passos sofridamente. Um, dois, três...
- AI PORRA!
Escorreguei e caí de bunda no meio da sala. Não sei o que doeu mais, a pancada do meu rabo no chão, o contato da luz com meus olhos que se abriram instintivamente ou a cabeça latejando. Com as mãos senti que tinha escorregado e caído sobre uma poça enorme. Olhei para o chão. Vômito para todo o lado. A quantidade era tão impressionante que explicava a falta do enjoo. O que mais me surpreendeu foi não ter percebido antes, pois o cheiro estava impregnado na sala. Era um aroma de uma mistura ácida de vodka velha e bílis. Além do cheiro insuportável que não senti antes, a cor rosa próximo do vermelho dele também me assustou. Tateei meu corpo à procura de feridas. Nada! Bem, não era sangue. Queria até refletir melhor para entender a causa daquilo, mas o celular continuava tocando. Em um estado lamentável, sem camisa, com calça social, mãos e braços lambuzados de vômito cor do demônio, segui para o quarto.
- Oh meu Deus – exclamei parado na porta.
Vômito para todos os lados. Cama, porta do armário, chão, parede e no meu paletó pendurado na maçaneta. Tudo vermelho e exalando o aroma das minhas entranhas constantemente conservadas em álcool. No chão perto da porta do banheiro tinha uma massa vermelha. Voltei a tatear meu corpo, agora tentando detectar se algum órgão vital foi expelido. Parecia tudo em ordem. Abaixei-me para ver o que era. Meias amontoadas encharcadas de vômito rosáceo. O celular, que continuava tocando, deixou de ser a principal preocupação. Mesmo assim, comecei a procura-lo nos bolsos do paletó em estado lastimável. Revistava bolso por bolso e, ao mesmo tempo, olhando para o estrago na casa e imaginando como faria para limpar aquilo tudo.
Peguei o celular quando estava dando o último toque antes de parar. Era Juliana. Com a chamada encerrada, apareceu na tela o aviso de mais de trinta ligações perdidas. Naquele momento, tentando entender o motivo de tantas ligações, comecei a me recordar da noite anterior. Festa de formatura. Juliana linda. Verônica me assediando. Vodka direto na melancia. Oh! Estava explicado então o vômito demoníaco. Seguindo. Ir atrás da Verônica e flagrar a cretina transando com outro cara nos fundos da festa. Olhei então para o teto tentando lembrar o motivo de ter corrido atrás da Verônica.
- FILHA DA PUTA – gritei quando a imagem de Juliana beijando o outro rapaz me veio à cabeça para, logo em seguida, correr para o banheiro e vomitar.
Mais duas ligações perdidas e saí do banheiro orgulhoso com a quantidade de coisas que ainda tinha dentro de mim se comparado com o resto já espalhado pela casa. Aliás, não entendi como fiz aquela cagada monumental pelo quarto e sala, mas deixei o banheiro intocado. Devia ter chegado em casa completamente alucinado e fora de si. Liguei então para a Marlene perguntando se seria muito abuso ela fazer uma faxina de emergência na minha casa em pleno domingo.
- Claro que vou, patrão. Meteu o pé na jaca mais uma vez?
- Dessa vez foi na melancia.
- Como assim?
- Chegando aqui vai entender.
- Está bem. Devo aparecer aí por volta de três da tarde.
- Ok. Obrigado e, caso não esteja aqui, o dinheiro vai ficar pendurado na geladeira como sempre. Beijos.
Aquela mulher sempre foi uma santa. Ou melhor, um anjo da guarda para mim. Resolvido o problema do estado de calamidade pública da minha casa, era hora de lidar com Juliana. O que diabos ela queria tanto falar comigo?
- FINALMENTE – ela atendeu com um grito.
- O que foi? Pensou que eu tinha morrido em um acidente no meio do caminho ou me jogado da ponte da Linha Vermelha?
- Eu sabia que você estava bem em casa.
- Como pode ter certeza?
- Porque sua moto está aqui do lado de fora intacta.
- Minha moto? Como você sabe que... VOCÊ ESTÁ AÍ EMBAIXO?
- Sim! Você me mostrou seu prédio naquele dia que esbarrou comigo e minha mãe ali na Sãens Peña. Esqueceu? Ou apagou da memória para deletar a vergonha que passou? Como é que é? Vai ou não vai descer para abrir o portão para mim?
Não sei o que foi pior, ela ter a cara-de-pau de aparecer assim de supetão na porta do meu prédio, ou exigir que eu descesse sem ao menos dizer o que queria comigo. Não vou mentir que saber que ela estava lá, independentemente de suas intenções, foi algo bom. Entretanto, ainda estava puto com o que aconteceu na noite anterior. Quero dizer, voltei a ficar puto quando me lembrei do que ela fez comigo.
- Preciso de dez minutos para tomar um banho e desço.
- Vai me deixar na rua? Não posso apenas subir?
- Baby, acredite – o sangue nesta hora ferveu conforme as palavras saíam da minha boca. – Na atual conjuntura, te deixar esperando por apenas dez minutos é um grande favor que te faço. Sem citar o fato que irei falar com você.
- Entendi. Vou ficar na padaria aqui ao lado. Por favor, desça. E venha de boa vontade.
Com a voz aveludada e sinalizando que queria conversar, ela conseguiu me acalmar um pouco enquanto ia para o banho. E, não bastante, era a Juliana. Ela tinha um efeito muito forte em mim. Droga! Odeio concordar com a Verônica. Ainda no banho, refleti sobre as suas intenções. Inventar diálogos e preparar respostas foi inevitável. Era necessário ser o dono da situação, mesmo sabendo que não se tratava de uma competição. Se enxergasse como uma competição, ao final, ambos sairiam perdendo. De qualquer forma, eu precisava desabafar. Ela não tinha compromisso algum comigo. Nós dois sabíamos disso. Ela deixou claro que nada aconteceria na formatura. Sim, também estávamos cientes disso. Mesmo assim, ninguém negaria que o que ela fez foi uma grande sacanagem, independentemente de ter sido com um grande escroto como eu. Como disse, o banho seria importante para esfriar a cabeça, amenizar a ressaca e colocar algumas ideias no lugar.
- Oi – ela atendeu o celular. – Já está descendo?
- Me responda com sinceridade. Você veio de jeans surrado e camiseta básica que sabe que tanto adoro intencionalmente?
- Por que você está perguntando... Peraí! Como sabe disso? Você está me vendo? Cadê você?
- Responde!
- Você está na rua? Não estou te vendo. Vou sair da padaria.
- Responde!
- Sim!
- Você é uma cretina mesmo. Como se a forma que está vestida fizesse a menor diferença neste momento.
- Onde você está?
- Eu ainda não acabei – ela ficou em silêncio. – Além de ser uma cretina, é uma burra. Pois o certo era vir com uma roupa fácil de tirar.
- Não comece. Onde você está?
- Suba a calçada contra o fluxo dos carros. Estou dentro do restaurante que tem uma varanda em frente.
- Você passou por aqui e não veio falar comigo?
- Eu precisava de mais um tempinho antes de te olhar nos olhos.
Sentado, rodando o celular na mesa, vi quando Juliana entrou no restaurante. Ela procurou por mim e, quando me viu, sua fisionomia mudou. Seu rosto acusava culpa e ao mesmo tempo pedia desculpas. Deu para notar que ela tomou fôlego para prosseguir. Mal sabe ela que fiz o mesmo para poder recebê-la à mesa. Assim que se aproximou, repousou as mãos no encosto da cadeira à minha frente. Não me levantei. Ela sorriu na maneira que mais adorava, sem mexer os lábios. Juliana sempre teve os olhos muito expressivos. Eles falavam por ela, a denunciavam e faziam dela uma pessoa totalmente transparente. Ficamos um tempo nos encarando até que sinalizei com um movimento de cabeça para que se sentasse. Já sentada, apoiou as duas mãos sobre a mesa próximas às minhas e soltou um sorriso enorme:
- Sua cara está um lixo – ela disse com o sorriso ainda montado.
- Estou tendo talvez a pior ressaca da minha vida. E você? Qual a desculpa para estar com essa cara horrorosa?
- Chorei a manhã toda.
- É... – Fiz uma pausa para sinalizar chamando a Adriana. – Eu também choraria muito se descobrisse que o cara que beijei na formatura tem gonorreia na boca.
- Idiota!
Indiscutivelmente, esse é o adjetivo mais usado comigo. Em determinadas ocasiões, por pessoas específicas, achava muito sexy. Estava vivenciando uma das situações que se enquadrava. Antes que pudesse responder à Juliana dando corda, Adriana se aproximou:
- Tudo bem, Adriana? Preciso por enquanto de um suco de laranja com gelo e um copo bem grande de café. Um balde se possível.
- E ela não vai querer algo?
- Ah, sim. Hoje tem caldo de traíra?
- Caldo de quê?
- Esquece. Traga apenas o que pedi enquanto ela se decide. Ah, se possível, você pode entregar esta nota para o segurança e pedir para ele dar um pulo na farmácia ali do outro lado e comprar uma cartela de remédio para dor de cabeça?
- Deixa comigo. Já volto.
Juliana permanecia tensa e buscando coragem para tocar no assunto. Eu que não o iniciaria. Ficaria soando como se estivesse tomando satisfações dela e, mesmo ofendido, ou magoado, não tinha esse direito. Talvez até tivesse sob algum argumento apelativo que ela recorreria, se fosse ao contrário. Não! Eu queria que ela puxasse o assunto. Então decidi ficar calado olhando para ela sem expressão alguma. Nada de deboche, nada de felicidade, muito menos tristeza. Apenas a clássica cara de paisagem.
- Deixe-me contar um bafão sobre a Verônica que rolou ontem...
- Eu não acredito, Juliana – Interrompi a sua fala e não contive a expressão de indignação que substituiu a de indiferença. – Não creio que você, depois de chorar a manhã inteira como me falou, despencou da Pavuna até aqui para contar uma fofoca sobre a Verônica.
- Eu sei – ela acusou o golpe retirando as mãos da mesa e as repousando sobre o próprio colo. – Só queria quebrar o gelo.
- Gelo? Que gelo, Juliana? Não tem gelo algum. Eu imagino que você tenha algo para falar comigo de tão importante. Ao menos é o que a sua presença aqui indica. Estou errado?
- Eu pedi para você descer com boa vontade, na paz. Não briga comigo. Por favor.
- Eu não estou brigando. Estou sendo objetivo.
Juliana respirou fundo, engoliu seco e, ao prosseguir, foi interrompida pela Adriana. Ela estava com o suco, o café e a cartela de comprimidos que pedi. Peguei dois comprimidos, engoli juntos com um bom gole de suco e fui em seguida recriminado pelas duas. Acharam um exagero os dois comprimidos. Juliana foi além dizendo que iria desabar com a minha pressão. Mal ela sabia o que fazia na segurança da minha casa em casos drásticos de ressaca. Achei melhor ignorar os comentários e pedi para a Adriana o baixa renda de sempre. Juliana pediu apenas uma água. Assim que a Adriana saiu, fiquei em silêncio aguardando que Juliana prosseguisse. Ela precisou de muita coragem, se considerarmos a demora para iniciar.
- Ok, mas preciso que me garanta que não vai me interromper.
Concordei balançando a cabeça. Ali assinava a minha sentença. Ficar sem interromper alguém é uma tortura sem fim. Ainda mais em assuntos delicados que me deixam desconfortável e me obrigam a usar sarcasmo como camuflagem. Não suficiente, quando não interajo diretamente com uma conversa, mesmo sendo muito do meu interesse, acabo me entediando, paro de prestar atenção e começo a imaginar coisas como o interlocutor nu dançando em um cavalinho de carrossel.
- Foi um erro. Não! Foi uma cagada. Uma cagada enorme. Estava bêbada e sei que isso não é desculpa. Sou muito nova. Sei que não é desculpa, mas explica um pouco a cagada. Sendo nova, sou imatura e tomo decisões idiotas. Talvez esse argumento explique a sua vida. Por favor, não me interrompa. Foi apenas uma gracinha bem ao seu estilo para ganhar um pouco mais de coragem. Enfim, foi uma puta cagada estúpida. Primeiro porque você viu. E não digo isso porque faria escondido. Digo porque você não merecia ver aquilo. Não, você não merecia. Apesar de bêbado como estava, existia a possibilidade de nem se lembrar disso hoje. Ainda assim, você não merecia ver aquilo bêbado, sóbrio ou sob a ameaça de uma arma apontada para a cabeça. Por esse motivo, eu quero muito te pedir desculpas. Desculpas por te feito você presenciar o que imagino ser a última cena que esperava ver ontem. Eu sei que pode parecer pretensioso da minha parte, mas dentro de mim existe uma certeza de que, a pior coisa que poderia ter acontecido ontem para você, foi o que eu fiz. Desculpa mesmo.
Os olhos de Juliana marejaram Aqueles olhos expressivos e brilhantes que ela sempre teve ficaram encharcados de lágrimas retidas. Era lindo. Não estou sendo sádico. Não estou curtindo o sofrimento dela. Estou sendo sincero. A total exposição de Juliana naquele momento era algo de uma beleza tão simplória que exigia que fosse em preto e branco. Ela se calou para conter o choro. Eu fiz o mesmo por falta de palavras. Não esperava essa abordagem por parte dela. Em meus diálogos encenados durante o banho, a coisa era mais visceral. Gritos, troca de ofensas, dedos eretos apontados um contra o outro, tensão total e, ao fim, nos agarraríamos e transaríamos na mesa do restaurante com a Adriana ao lado cantando Celine Dion. Parece que teremos algo bem diferente, não é? Choradeira, perdão e me contentarei com um prato de filé de frango, purê de batatas e feijão.
- Ok. Eu prometi que não iria chorar na sua frente. Não porque acho que é sinal de fraqueza, apenas porque não queria. Assim como não queria ficar com aquele garoto. E antes que me pergunte por que fiquei, vou te responder. Fiquei porque estava bêbada, cheia de amigas ao redor botando pilha para ficar com alguém. Elas sabem que não fico com alguém tem mais de meses. Coincidentemente a mesma quantidade de meses que estamos flertando. Tenho certeza que se soubessem de nós dois, jamais fariam aquilo. Ficariam incentivando para nos agarrarmos lá mesmo e confesso que não quero você como resultado de pilha de amigas gritando beija, beija, beija. Não tinha conexão alguma com ele. Se não me engano, ele é primo da Débora da outra turma. Nunca o vi na vida. Na mesma forma, se não fosse ele ali na minha frente naquele momento, seria qualquer outro. Bastava apenas as meninas colocarem a mesma pilha. Aliás, qualquer outro não. Exceto você. Você seria a única pessoa que, se aparecesse na minha frente ontem, não faria coisa alguma. Como odeio isso. Hoje, seria tudo diferente. Se o baile fosse hoje, você seria a única pessoa. Claro! Apenas você que era para ficar na minha frente. Quando dançamos juntos, eu queria muito te agarrar, te beijar, te morder e sei lá mais o que. Fiquei louca de tesão naquela hora. Eu sempre quis você e ao mesmo tempo sempre quis ter total controle sobre as coisas. Denunciei isso quase todos os dias nas nossas conversas. O problema é que sou teimosa como uma mula. Você sabe disso. Eu queria muito que fosse você ontem. Queria muito que tivesse sido comigo arrumada e produzida. Queria muito te agarrar de terno e gravata. Queria muito terminar o meu porre de formatura com você e o sol nascendo hoje. NÃO! Calma! Antes que fale algo. Não fui embora com o Tiago. Era Tiago o nome dele? Sei lá. Depois que você nos interrompeu, eu saí de perto dele e fui para o banheiro. Ainda levei aquela melancia escrota cheia de vômito que largou na minha mão. Fiquei lá, sentada no vaso com a melancia no colo, chorando até que as meninas apareceram. Nem precisei explicar, né? Elas entenderam. Contei tudo. A Ingrid ainda foi correndo atrás de você, mas já tinha ido embora. Me chamaram de burra, de doida e de teimosa. Não precisa concordar. Pode tirar esse sorriso cínico do rosto. Bem, é isso. Eu quero você da mesma maneira que sei que me quer. Ainda me quer, né? Ah, não responde! Podia ter sido no baile como falei. Podia ter sido semanas atrás no cinema, boteco, ou qualquer outra coisa. Criei uma regra idiota e agora a primeira chance que terei será com você com a boca suja de feijão, comendo frango com purê como se fosse um pedreiro. Desculpa, baby.
Era o momento para me levantar e beijar a Juliana no meio do restaurante. Ela se levantou antes e saiu em disparada para o banheiro. Adriana chegou a se aproximar e me perguntou se Juliana estava bem. Eu a faria ficar bem, respondi. Pelo menos esses eram meus planos em curto, médio e longo prazo.
Quando Juliana voltou do banheiro, seu rosto estava pior do que quando chegou no restaurante. Pela demora e aparência, deve ter chorado muito. De fato foi uma burrada épica por parte dela e, em condições normais, aproveitaria o momento para sapatear sobre ela e sair vitorioso. Obviamente não seria vitória, mas enfim, não o fiz. Assim como não terminei o meu almoço. Estava sem energia para qualquer coisa. A ressaca voltara com força e a cabeça parecia um tambor de aço que não parava de tocar. Precisava de cama e descanso. Ao mesmo tempo, sabia que devia fazer algo com Juliana. Era necessário falar as palavras certas e agir corretamente.
- Baby, não estou muito bem. Essa ressaca está foda, mesmo para um profissional como eu. Não pense que é picuinha ou indiferença minha. Estou mal mesmo. Preciso descansar.
- Ok. Também estou mal. Podemos descansar juntos?
Claro! Claro que podemos! Era tudo que eu queria. Ah esqueci. Aquele gigantesco acidente gástrico que chamava de casa. Eu sequer conseguiria voltar para lá. Imagine levar Juliana pela primeira vez. Por falta de opções e aproveitando o momento sinceridade à flor da pele, abri o jogo para ela.
- Baby, sim. Sim, podemos descansar juntos. É tudo que eu quero e preciso. Descansar e você ao mesmo tempo. O problema é que houve um pequeno problema lá em casa. Sabe aquela melancia que ficou no seu colo no banheiro? Então, ela foi borrifada por toda a casa. Está um pandemônio. Não se preocupe, vou aproveitar que tem muito álcool na mistura e tacar fogo. Até semana que vem já queimou tudo e poderei voltar a morar lá – ela fez uma cara de nojo e depois riu. – Bem, o fato é que a minha faxineira só vai lá em casa no meio da tarde e vai demorar um pouco. Pensei em descansar em um motel aqui perto. É muito pé-de-chinelo, mas é o que tem mesmo. E pare com esse olhar desconfiado. Não é truque para tentar te comer. Estou mal mesmo e preciso de uma cama.
Ela consentiu. Pedi para a Adriana uma dose de vodca para a viagem, pagamos a conta e seguimos para o motel. Lá, Juliana se espantou comigo. Peguei mais dois comprimidos e tomei com a vodca. Enquanto me chamava de doido, Juliana tirou os sapatos e as calças, ficando apenas de camisa e calcinha. É para ficar à vontade, ela disse. Não tive tempo de responder ou reparar na cena. Minha pressão desabou, fiquei pálido e caí desacordado na cama.
Algumas horas depois acordei novo em folha. Era o meu famoso macete de me resetar. Nunca falhava. Quando dei por mim, lá estávamos nós dois. Deitados, agarrados, encaixados. Parecia que tínhamos anos de intimidade. Era confortável para ambos e podíamos ficar assim por dias. Ela, ainda sonolenta, percebeu que estava acordado. Então a abracei com mais intensidade para ficar próximo ao seu ouvido e falar:
- Baby, você se assustou comigo desmaiando? – Ela, cheia de preguiça, apenas balançou discretamente a cabeça dizendo que sim. – Pois se acostume, isso faz parte da minha vida e, a partir de agora, você faz parte dela também.
Ela sorriu timidamente e voltou a dormir leve, sem peso algum nas costas. Eu também.
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