quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Histórias reais inventadas por mim

Parceiro
Depois de dois meses de combate na floresta fechada, apenas Simon e Terence estavam vivos. Dentre os quarenta e cinco soldados do oitavo grupamento de infantaria, apenas eles sobreviveram. Já estavam na segunda semana vagando sozinhos mata adentro e a comida tinha acabado. Água não era problema, pois chovia muito na região. Pelos cálculos deles, mais seis dias andando quinze horas por dia em direção ao noroeste seriam suficientes para chegar a uma região onde outro grupamento estaria acampado.
Durante a segunda metade de caminhada daquele dia, eles foram surpreendidos com aviões procurando por soldados na região. Na tentativa de melhor identificar se eram aliados ou inimigos, acabaram sendo vistos. Eram aviões inimigos. Um deles retornou dando um rasante e disparou dezenas de tiros. Um acertou Terence no meio da barriga fazendo um grande estrago. O sangue não parava de jorrar pelo ferimento apesar dos esforços de Simon em tentar contê-lo.
- TERENCE, PORRA! PORRA! MAS QUE PORRA!
- Parceiro... Me... Desculpe...
- CARALHO! COREANOS FILHAS DA PUTA! MALDITOS SEJAM!
- Simon... Preciso que me escute... Por favor...
- Sim, claro! Pode falar, parceiro.
- Diga à minha esposa que... Que a amo... Diga que queria ter muitos... Muitos... Muitos filhos com ela... Obrigado.
- Pode deixar, parceiro. Assumo esta dívida agora com você e ela será a mais nova motivação para sair deste inferno. Que Deus esteja com você. Eu te amo.
Simon então fecha os olhos de Terence, faz o sinal da cruz, se levanta e inicia a caminhada. Seis ou sete passos depois ele escuta:
- Simon... Simon... Parceiro!
- Terence? – Ele retorna até o parceiro deitado no chão. – Terence?
- Eu não morri ainda.
- Mas sua fala estava fraca. Eu até fechei os seus olhos.
- É, eu sei. Achei bonitinho e achei melhor não estragar o seu momento.
- E como você está?
- Olha... Continuo sangrando bastante e o tiro está começando a arder para valer.
- Eu sei, parceiro. Que merda! QUE MERDA! Calma! Respire com calma, Terence. Você precisa ter paz neste momento. Feche os olhos. Pense em coisas boas.
- Simon?
- Sim, parceiro?
- Eu acho que ainda não vou morrer.
- Meu Deus, parceiro! Por favor! Por favor! Por favor, não me peça isso.
- Pedir... Pedir o quê, Simon?
- Pedir para te finalizar. Eu sou incapaz de fazer isso com você. Não quero conviver com isso o resto da minha vida.
- Não... Não, Simon! Não quero que me mate. Apenas fique comigo.
- Ah claro, parceiro! Pode contar comigo. Ficarei aqui ao seu lado o tempo todo. O que quer que eu faça?
- Aparentemente, nós... Nós não temos muitas opções, né? Apenas converse comigo.
- Sim! Sim, Terence. Tudo pelo seu conforto. O que quer falar?
- Ah... Simon... Qualquer coisa. Conversa comum. Apenas me ocupe a cabeça. Finja que acabamos de nos encontrar.
- OH MEU DEUS, TERENCE! VOCÊ FOI BALEADO! PUTA QUE...
- Não... Simon! Não... Finja que nos encontramos em uma situação normal. Preciso apenas jogar papo fora.
- Ah claro! Faz mais sentido. E aí, Terence? Como vai?
- Simon, como nunca notei que você era um idiota?
- Desculpe, Terence. Sinto muito mesmo. É que estou muito nervoso vendo você sangrando e agonizando à beira da morte.
- Bem, já que mencionou. Até que estou bem, Simon. Continuo sangrando como uma mula sacrificada, mas nem cheguei a agonizar ainda.
- Então não quer que te carregue e...
- Não! Simon, não! Eu vou morrer!
- OH CÉUS, TERENCE! EU NÃO QUERO VER ISSO! NÃO QUERO ESSA IMAGEM...
- Simon! Simon! Homem, eu vou morrer em breve, mas não agora. Não precisa me carregar.
- Ah sim! Agora entendi. Que alívio.
- Mas cedo ou tarde morrerei.
- Não diga isso, Terence! Isso atrai coisas ruins.
- Tipo o quê, Simon? Um contêiner cheio de médicos, gazes e curativos cair na minha cabeça?
- Claro! Que bobagem a minha.
- Pois é!
- E como está aí?
- Ainda sangrando.
- Demora, né?
- Mais do que eu esperava.
- Também estou achando isso. Nos filmes, normalmente o parceiro faz o último pedido e logo em seguida morre. Será que estamos fazendo algo errado? Será que esquecemos de algo?
- Com certeza, Simon. Com certeza nos esquecemos de algo. Eu esqueci de morrer.
- Poxa, Terence, estou preocupado. Não sei o que fazer enquanto está aí deitado sangrando sem parar como um chafariz – Simon coça a cabeça e segue falando. – Quer um pouco de água?
- Você falou em chafariz e ficou curioso para saber se, após beber a água, ela vai sair pela minha barriga?
- Sim, um pouco.
- Simon, eu não sou o Patolino.
- Eu sei. Eu sei, Terence. Tenha paciência.
- Ok... Me dê o cantil.
- Vai testar?
- Não, Simon. Estou com sede após sangrar uma cisterna de sangue.
- Ahn... Está aqui!
- Obrigado – Terence bebe um, dois, três goles. – Cof! Cof! Simon!
- Céus, Terence! É agora?
- Não, homem! Apenas engasguei.
- Desculpe, Terece. Preciso confessar que estou um pouco ansioso com isso. Essa morte que não chega está me deixando nervoso.
- Saia daqui, Simon.
- E agora?
- NÃO, SIMON! APENAS SAIA!
- E te deixar sozinho, parceiro?
- Não, Simon! Preciso apenas que se afaste um pouco. Essa água me deu gases.
- Peidar? Você quer peidar? Pare de bobagem, Terence. Ficarei do seu lado o tempo todo.
- Você está querendo ver se, na tentativa de peidar, farei bolinhas de sangue pelo tiro na barriga, não é?
- Sim!
- Cristo, eu não sou um desenho animado... Faz o seguinte, Simon. Por favor! Pegue aquela pistola e finalize logo comigo.
- Não! NÃO! JAMAIS!
- Simon, porra! Está escurecendo, você vai perder meio dia de caminhada e correr o risco de não encontrar com os aliados.
- Eu fico uma semana aqui com você, perco o ponto de encontro, mas não te sacrifico, parceiro.
- Larga de ser idiota, Simon! Preciso que você pegue o ponto de encontro para dar o recado à minha esposa. Por favor!
- Ok, Terence. É justo. Como prefere?
- Que tal um tiro na cabeça?
Simon então se virou de costas para Terence, puxou a pistola e apontou para trás na direção do seu parceiro. Os dois então fecharam os olhos juntos. Simon balbuciou algo que parecia uma breve prece e disparou. Ele fez o sinal da cruz e seguiu em frente com os olhos marejados. Tudo que ele queria agora era voltar para casa e dar o recado à esposa de Terence. Minutos depois ecoou pela floresta.
- SIMON, SEU IDIOTA! VOCÊ ERROU! E VOCÊ NÃO PEGOU O NOME E ENDEREÇO DA MINHA ESPOSA!

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Aflição de mãe

Capítulo anterior Recomeço
- Oi, meu filho.
Frases como essas são um bote inflável no meio de um oceano de perdição quando estamos boiando à deriva na vida. Por mais decepcionados que estivessem com a minha separação, meus pais me receberam no restaurante com a solidariedade necessária. Inclusive com o meu atraso de quarenta minutos. Pois é, pontualidade nunca foi o meu forte. Mesmo de moto e dirigindo de maneira exageradamente irresponsável.
Marquei em um restaurante perto da casa deles que era um dos seus favoritos. Assim, a aporrinhação com algo que os desagradassem não se acumularia com os assuntos que precisavam ser tocados.
- O que aconteceu?
A pergunta veio de forma direta antes mesmo que me sentasse à mesa. Mamãe nunca foi de rodeios. Tanto que logo após a minha resposta dizendo que aconteceu o inevitável, ela perguntou se a bebida não era o motivo. Na cabeça dela, Maria Fernanda não aguentava mais as longas noites de bebedeiras e acabou fazendo com que eu saísse de casa.
- Dona Vânia – chamá-la de maneira formal em determinados momentos criava uma entonação necessária. – Não se esqueça que foi a sua nora quem deu entrada diversas vezes no hospital com coma alcoólico durante estes anos de casamento. Inclusive na noite de núpcias!
- Mas, claro, também! Acompanhar você deve ser uma tarefa dificílima. Você não bebe. Você entorna. Acha mesmo isso necessário?
Papai permaneceu calado. Era o estilo dele. Ele sabia mais das minhas histórias que a mamãe. Bem, ele sabia apenas de algumas bebedeiras a mais que ela. Nunca soube da parte mais pesada delas. Poupá-los disso, além de um ato egoísta para me livrar de ouvi-los me recriminando, reduzia as já existentes decepções deles comigo.
- Não, mãe. Não foi isso! Foi ciúmes. A situação estava fora do controle e sair de casa era a solução mais viável.
- Ah, mas alguma coisa você aprontou. A Fernanda nunca teria crises de ciúmes sem motivo. Você fica dando trela para as suas aluninhas. Cuidado, meu filho. Fica se envolvendo com aluna. Você pode perder o seu emprego. Você pode ser preso. Ainda mais lá na Pavuna. Não quero nem pensar. Imagine que um pai apareça por lá para te matar.
- Mãe, a Pavuna não é o velho oeste. Quero dizer, não chega a tanto. E, não, não saí com aluna alguma. Ela que foi perdendo a confiança, o controle e o bom senso. Meteu os pés pelas mãos e aqui estamos. Digo, aqui estou.
- Não – ela balançava a cabeça negativamente não querendo acreditar. – Você fez alguma. Maria Fernanda não é maluca.
Muitas pessoas discordariam da afirmação de mamãe sobre a sanidade da Maria Fernanda, inclusive a própria. Éramos dois doidos, inclusive um pelo outro. Entretanto, retrucar não era a melhor das opções. Assim como Tatiana fazia comigo, mamãe vestia a camisa de Maria Fernanda. Era inconcebível que ela estivesse errada. Ficava mais prático culpar o filho pinguço irresponsável. Se bem que isso quando dito em voz alta faz até mais sentido, mas não era o caso.
- Meu filho, pense bem. Uma mulher bonita, inteligente, que gosta de você, carinhosa, se veste bem...
- Tem um excelente útero para gerar meus filhos, né?
- Ok – meu pai interrompeu para fazermos os pedidos. – Vânia, o de sempre? Filho, divide a picanha na pedra comigo?
Pedidos acordados e feitos ao garçom, o silêncio se estabeleceu na mesa. Papai ficou com o olhar perdido mirando a televisão do restaurante, eu bebericando o chope e mamãe ficou de cabeça baixa acenando que discordava com algo. Todos sabiam com o que ela discordava. Até a família, que ignorava a criança batucando os talheres na mesa atrás como se fosse o Olodum, sabia o motivo da discordância de mamãe. Ninguém ousava questioná-la. A ideia era deixar cair no esquecimento.
- Eu não me conformo – ela quebrou o silêncio provando que não precisávamos abordar o motivo da indignação dela. – Uma menina direita... Vocês eram tão apaixonados... Fizeram aquela festa enorme... Demos várias coisas para a casa... Não me conformo.
- Ah mãe – tentou contemporizar com coisas que nem mesmo acreditava. – Vai ver é um tempo. Vai que passa e superamos, não é?
- Tempo? Pois sim – ela fez uma pausa, riu forçadamente e prosseguiu. – Vai ser questão de tempo para ela arrumar outro. Bonita daquele jeito? Pois sim. Sempre que ia para a rua com ela, via os homens babando. Ela chama muito a atenção, meu filho. Aposto que aquele gerente do banco deve estar em cima dela.
- Vânia – papai a interrompeu. – Fazer nosso filho imaginar outro homem sobre a Maria Fernanda não vai ajudar nem um pouco.
- Obrigado, pai – disse para ele. – Acho que mamãe, ao falar em cima, quis dizer dando em cima, chegando junto, ou paquerando como costumavam falar na sua época. Mas, mesmo assim, você trazer a hipótese alternativa de um homem nu sobre a Maria Fernanda foi uma cena bastante útil à conversa. Garçom, mais um chope, por favor! E traga a carta de tequilas, pois será necessário.
- Não, meu filho – mamãe falou para mim, mas gesticulava negativamente para o garçom. – Não vai misturar coisa alguma. Pode pedir mais um chope, mas beba com modos.
- O que seria com modos, Dona Vânia? Com o mindinho levantado? Bebericando fazendo bico?
- Usando canudinho do Bob Esponja – meu pai complementou.
- Aílton, não comece a dar corda para a bobeira dele – mamãe recriminou o papai. – O assunto aqui é sério e você sabe muito bem que nosso filho é muito imaturo.
Para nossa sorte, a comida chegou e a fome era enorme. Fez-se mais uma vez o silêncio. Comentários avulsos sobre o ponto da carne, quantidade de sal no tempero e arrependimento sobre pedir fritas e não batatas portuguesas foram momentos pontuais. Não era apenas o momento que passávamos que criou aquele silêncio. Era habitual conversarmos pouco durante as refeições. Quando estávamos apenas os três, a interação durante o momento de comer era sempre nula. Talvez uma consequência de anos com cada um comendo em um cômodo diferente. Por mais constrangedor que isso possa soar, o entrosamento entre os três em situações como aquela era sofrido e algumas das vezes forçoso. Não que isso denote falta de afeto ou laços familiares. Apenas não éramos uma família de prezar pelo momento à mesa.
- Garçom, outro chope, por favor – era o quarto ou quinto, mas tão necessário quanto os anteriores. – Por que está chorando, mãe? Devo cancelar o chope?
- Não, filho – ela secou uma lágrima, tentou conter outra, prendeu um pouco a respiração e prosseguiu logo após. – Não é isso. Pode beber mais.
Ela abaixou a cabeça na tentativa de conter o choro e se calou. Iniciou-se uma cena constrangedora. Meu pai me olhou como quem manda fazer algo a respeito. Devolvi o olhar para ele indicando que é responsabilidade dele. Mamãe permaneceu de cabeça baixa, lágrimas escorrendo e emitindo sons como se fosse um cãozinho preso do lado de fora de casa. Na mesa atrás, o moleque continuava batucando na mesa para o desespero de todos ao redor. A sensação que se tinha era a mesma quando existe uma infiltração na sua casa que começa a formar uma bolha na tinta da parede. Aquilo não está nem pouco legal, mas mexer vai piorar ainda mais. Optamos pela postura defensiva. Mamãe, como era habitual, partiu para o ataque:
- Eu nunca vou ser avó – a frase foi encerrada com o rompimento do que barrava as suas lágrimas. Ela agora chorava descontroladamente.
- Mãe... Mãe... Mãe... Pai, contenha dona Vânia, por favor.
- Não, não precisa! Não precisa! Passou – ela enxugou os olhos, deu um gole no seu mate e com a voz ainda lutando para não chorar novamente sacramentou. – É verdade! Nunca serei avó. Você é meu único filho e não vai me dar um neto. Isso é muito triste. Estou com o coração partido. São muitas decepções em tão pouco tempo.
- Mas, mãe! Céus – até encerrei a refeição, pois sabia que agora seria complicado. – De onde está tirando isso? Eu sou novo. Seja razoável, por favor. Não tem nem uma semana que me divorciei e já quer condenar o meu futuro.
- Ah filho, vamos ser sinceros. Quem vai querer ficar com você? Só a Maria Fernanda que te aturava. Aquela menina é uma santa. Uma santa! Ela é uma santa e você estragou tudo.
- Pai, você podia me ajudar neste momento que tenho a minha moral espancada pela própria mãe?
- Filho, ela tem certa razão no que diz.
- Tá bom! Pode permanecer no seu silêncio. Ali, olha! Está passando um documentário sobre pesca de baleias albinas cristãs canhotas. Pode voltar a prestar atenção na televisão – acenei para o garçom pedindo mais um chope e antes que continuasse, mamãe me interrompeu.
- Olha só o que acabei de te falar! Mais um chope! Já foram quantos? Cinco? Seis? Quem vai se relacionar com um homem que bebe seis chopes durante um almoço com os pais? Filho, repense as coisas. Estou te pedindo com todo amor de uma mãe.
- Você é engraçada! Insinua que sou um traste de bêbado e agora quer dar carinho de mãe para que eu reveja uma decisão minha que é conveniente com os seus desejos de ser avó. E digo mais... – interrompi minha própria fala para me virar para a mesa de trás. – A senhora poderia por gentileza pedir para essa criança parar com essa batucada dos infernos? Está impossível se concentrar na conversa que estou tendo na minha própria mesa.
- Ele é uma criança – a pessoa que desconfiei ser o pai me respondeu no lugar da mulher com quem me dirigi.
- Eu sei que é uma criança – respondi. – Por isto estou pedindo para os adultos da mesa ensinar para ele como deve ser comportar em um restaurante.
- Você não é capaz de enxergar que ele está brincando? Você não sabe que crianças brincam?
- Sim, sei que crianças brincam. Assim como sei que adultos trepam. E você sabe por qual motivo não estou trepando neste momento? Não responda! Eu facilitarei para você. Eu não estou trepando, nem qualquer outra pessoa adulta deste recinto está trepando, porque aqui não é o local para isto. Agora você poderia ensinar ao seu filho que este não é o lugar para ficar brincando?
Em uma ação involuntária que mais parecia ensaiada, a minha mãe e a suposta mãe da criança intervieram na conversa. A mãe da outra mesa se desculpou pelo filho. Em seguida, a minha pelo dela. Cada uma se virou para a sua mesa:
- Filho, não precisa ser rude.
- Eu não fui rude, apenas fui enfático.
- E você, Vânia, querendo que nosso filho seja pai.
Apesar de desnecessária em uma maneira ampla, mas importante para extravasar, a discussão com o pai da mesa de trás serviu também para distrair mamãe do assunto que a atormentava antes. Entretanto, papai, talvez pela terceira vez em menos de uma hora e meia fez mais um comentário que em nada colaborava comigo. O assunto estava de volta à mesa:
- Aílton, pouco me importa o talento dele. A Maria Fernanda com certeza seria uma mãe maravilhosa e colocaria ele na linha – ela fez uma pausa. – Agora nem isso mais. Vou ter de me satisfazer com os filhos dos outros. Porque sabe que bicho não vou criar mesmo.
- Por que desse negativismo todo, mãe? De onde tirou que nunca poderei ser pai.
- Está bem! Então vamos supor que você conheça uma menina direita. Começam a namorar, se conhecem melhor, noivam e resolvem se casar. Nisso já se passaram mais de cinco anos. Você vai estar com mais de quarenta, meu filho. Quem vai querer fazer um filho com mais de quarenta?
- Ok, eu já entendi a sua lógica. Agora só me explique por qual motivo preciso esperar tanto tempo para engravidar alguém? Basta falar como você quer o seu neto que providencio na hora. Tenho alunas louras, morenas, ruiva, oriental. Escolhe aí.
- Pare com isso, meu filho. Nem brinque com isso. Imagine só um filho fora do casamento. Não, nem quero imaginar. Seria mais uma decepção na minha vida.
- Daí você já está querendo demais do nosso filho, não é, Vânia? Acha mesmo que ele vai casar novamente? Torça para ele pegar um metrô lotado, engravidar acidentalmente alguém e se dê por feliz.
- Pai, preciso dizer que está em uma tarde iluminada mesmo – levantei a tulipa de chope vazia fazendo alusão a um brinde e em seguida gesticulei para o garçom.
- Ah não, filho – mamãe abaixou o meu braço. – Outro chope, não!
- Não, quero a conta mesmo antes que vocês destruam a pouca autoestima que me resta.
- Ah que ótimo então, porque seu pai odeia pegar o Alto da Boa Vista de noite. Vamos logo!
- E por qual motivo pegariam o Alto se moram aqui na Barra?
- Porque vamos conhecer sua casa.
Estava ali uma ideia desastrosa. A possibilidade de minha mãe pisar naquele caos de caixas e roupas espalhadas para todos os lados que chamava de casa era assustadora. Provavelmente seria fatal para ela e meu pai ficaria viúvo em segundos. Não, isto não podia acontecer. Não naquele momento. Quem sabe quando os móveis fossem entregues, restando apenas a falta de espaço natural do apartamento para ela criticar? Precisei vetar enfaticamente aquela ideia.
- Que coisa antipática, meu filho. Aposto que já levou um monte de piranha para conhecer seu apartamento. Já seus pais que são mais importantes não podem ir.
- Sim, várias piranhas, mãe. Inclusive esse é um dos motivos para não levar vocês dois, o apartamento está fedendo a xoxota e vaselina vagabunda.
- Que horror, meu filho. Não diga uma coisa dessas. E você ainda fica rindo, Aílton!
- Eu não fiz coisa alguma, Vânia.
- Ficou rindo. Dá corda para ele falar besteira.
- Que tarde estupenda, hein, pai?
Saímos do restaurante a caminho do estacionamento onde estava o carro deles e minha moto. Durante o trajeto, mamãe insistiu em saber o motivo de não deixar que fossem para a minha casa. Expliquei da bagunça pela falta de móveis e ela se ofereceu para comprarmos imediatamente. Não era necessário, pois já tinha feito isso, bastava apenas que fossem entregues.
- Vamos então ao shopping rapidinho comprar alguma coisa para a sua casa nova?
- Mãe, não precisa. Deixa-me arrumar a casa primeiro e depois descubro o que preciso. Daí eu te aviso.
- Uma lixeira!
- O quê?
- Uma lixeira para o seu banheiro!
- Vânia...
- Não se envolva, Aílton. Eu quero dar uma lixeira para o banheiro do apartamento novo dele.
- Por qual motivo quero uma lixeira para o banheiro, mãe?
- Para jogar papel higiênico, ora.
- Mão, não precisa. Hoje em dia os papéis higiênicos são feitos para dissolver na água da privada.
- E se uma mulher for de regras na sua casa?
- De regras?
- É, de regras! Menstruada! Onde que ela vai jogar o absorvente?
- Mãe, o que uma mulher de regras vai fazer na minha casa?
- É uma boa pergunta, Vânia!
- PAREM VOCÊS DOIS! Sabem que não gosto dessa bobeira. Você não é assim! Eu não te criei assim – ela tentou se recompor. – Vai me dizer que joga camisinha na privada também?
- E por qual motivo usaria camisinha, mãe?
- Ah, não brinque com isso, meu filho. Vai que uma dessas meninas que você leva para casa tentar fazer barriga. Não faça isso, por favor.
- Que barriga, mãe? Eu só como cu.
- Meu garoto!
- PARA! PARA! PAREM VOCÊS DOIS! EU NÃO GOSTO DISSO! PODEM PARAR – coitada da bichinha, ficou toda se tremendo. – Que bobeira. Aposto que não fica falando essas bobagens para as meninas que leva para a sua casa. Vão achar que você é um retardado.
- Eu não levo mulheres para casa, Vânia.
- Aílton, não estou falando com você e não entre na corda dele. Vai ligando o carro! Já vi que nem posso mais passar uma tarde inteira com meu filho sem me irritar – ela abriu a porta do carona, jogou a bolsa no banco de trás por cima do encosto do banco dela e depois retornou para se despedir de mim. – Juízo, meu filho. Pare com essas bobagens e coloque ordem na sua vida. Já que a sua decisão é essa, use-a para recomeçar direito. Não vai me engravidar uma aluna ou uma qualquer. Você promete?
- Prometo, mãe. Agora entra no carro.
- Pare de me enxotar que vou embora na hora que eu quiser. Eu vou me despedir direito de você. Até porque, se depender de você, nos veremos só daqui a quatro meses.
- Eu ando ocupado.
- Anda ocupado. Sei! Para comer essas piranhas por aí você não está ocupado.
- Não fale assim das mães dos seus netos.
- É impossível falar sério com você, não? Me dá um beijo – nos despedimos com dois beijos. – Pelo menos me liga. Ou está ocupado até para isso?
Pronto. Eles se foram. Acabou sendo menos traumático que previa, mas igualmente cansativo. Não desgostava de estar com eles. Porém, quando certos assuntos precisavam ser debatidos, as coisas ficavam desnecessariamente exaustivas. Ela ficava insistindo e eu usando deboche para desviar do foco. Papai, como de costume, optava por se abster para reduzir atrito. Sempre foi assim.
Aquela curta tarde foi emblemática para perceber que certas coisas conceituais provavelmente nunca mudarão. Mamãe continuaria a achar que sou inocente e as mulheres que conheço que são as maldosas. Ela permaneceria a insistir em prolongar certos programas com propostas que remetiam a subornos. Em sua cabeça, uma tarde para comprar algo para mim, seria na realidade comprar a minha companhia por uma tarde. E o principal, cada vez mais ficava evidente que a forma de pensar dela era ingênua ao ponto de parecer uma criança do século passado. Sendo mais preocupante ainda o fato que ela apresentava constante regressão em relação a isto. Talvez isso tenha chances de virar um problema no futuro.
Continua em Sete dias de véspera

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Cretinice homeopáticas

Diálogo de elevador com grandes de chances de acontecer nos próximos dias:
- Chegou, né?
- Oi?
- 2016! Finalmente chegou!
- Ah sim.
- Digo, finalmente começou!
- Pois é!
- Na realidade, ele só começa depois do carnaval.
- É, tem disso!
- Pensando bem... Só vai começar depois das Olimpíadas.
- Bem lembrando.
- Melhor emendar com 2017, não?
- Pode ser.
- Que coisa louca, não?
- É, chegou!
- 2016?
- Não, o seu andar! Por favor, vá embora!

Histórias reais inventadas por mim

Companhia artificial
- Apresento-lhes o aprimoramento de uma das maiores invenções que conhecem.
O vendedor se referia ao sensor de presença de banheiros. Aquele aparelhinho que identifica quando alguém entra no banheiro e aciona a luz automaticamente. Sua função, aparentemente pela demora em acionar a luz, deve ser nos fazer procurar pelo interruptor no escuro enquanto controlamos nossas vontades naturais primitivas.
- Nada disso! A função do sensor sempre foi evitar o desperdício de luz. Não temos culpa se o estabelecimento coloca lâmpadas de demorado acionamento.
Sim, todos sabem que o propósito do aparato é economizar energia por conta de pessoas que não apagam as luzes ao sair do banheiro. Contudo, não é por isso que iremos descartar este inconveniente a ele associado. Inconvenientes na realidade, pois existem mais.
- Desculpe-me, senhor, mas desconheço os demais.
Quem nunca teve de ficar no banheiro acenando para o além no intuito de provar sua permanência por lá porque o sensor desativou as luzes? No caso das pessoas sentadas é até um pouco divertido, pois acabamos fingindo que estamos em um estádio de futebol fazendo uma mini Hola. O problema maior é para os homens de pé enquanto mijam. Pau em uma mão e a outra para o alto balançando. Não é muito legal fazer uma cópia da coreografia do Ricky Martin.
- O tempo é razoável para a atividade de qualquer pessoa em um banheiro.
Não, não é! Uma pessoa sempre demora um tempo elevado em banheiro de bar. Mulheres se demoram retocando a maquiagem ou conversando algo entre si que não querem falar à mesa na frente de outras pessoas. Bexigas são exploradas ao extremo para minimizar a quantidade de idas ao banheiro. Fato que por consequência acarreta em mais tempo para o esvaziamento dela.
- Ok, talvez em um bar o tempo do sensor precise ser revisto, mas para banheiros de trabalho o tempo é fantástico.
O vendedor continuava a se equivocar. As pessoas gastam muito mais tempo em banheiro do trabalho do que no de casa. Tudo é desculpa para enrolar. Ao voltar do almoço, passam fio dental cuidadosamente em cada dente, escovam em movimentos lineares, circulares, com força e suavemente, depois bocejam com água e, por fim, um gargarejo com antisséptico bucal. Em suma, para retardar sua volta ao local de trabalho, passam a ter por dia um cuidado com a higiene bucal maior que em todo período de férias.
- Senhor, gostaria que parasse de desconversar. O objetivo da minha presença hoje é apresentar um novo aparato que vai revolucionar o sensor que tanto recrimina.
 A tecnologia em questão se tratava de um sensor que não identificava a presença por movimentos, mas por interação. Isto é, o sensor era composto por câmeras, autofalantes e microfones. Conforme a pessoa conversava com o sensor, ele manteria as luzes acessas. A proposta parecia ao mesmo tempo divertida e estapafúrdia. Como era de se esperar, exigia um investimento muito alto. Com isso, quase todos os comerciantes presentes naquela apresentação hesitaram, exceto o Seu Joaquim. Conhecido por inovar e ter atrações diferentes em seu estabelecimento, Seu Joaquim contratou o serviço, exigiu a imediata instalação e, por estar sempre muito atarefado, nem pode acompanhar o momento do primeiro cliente estreando a peripécia tecnológica.
- Mas que diabos – exclamou o cliente depois de quase dois minutos procurando por um interruptor em um banheiro escuro.
- Olá – surgiu a voz logo após as luzes se acenderem.
- Quem está aí?
- Ninguém, senhor! Eu sou o Sense Three Thousand, sensor automático de luzes por interação.
- Ah, que coisa!
- O senhor precisa de ajuda?
- O quê?
- Precisa de alguma ajuda?
- Ajuda? Não! Preciso de silêncio. Quero apenas mijar em paz.
- Senhor, meus circuitos só funcionam à base de interação. Caso não tenhamos interação, eles desativarão as luzes.
- Desculpe, Sense Tri Tauzandi, mas minha bexiga só funciona à base de silêncio, portanto já sabe, né?
- Como quiser, senhor.
- Obrig... EI! ACENDA ESSAS MALDITAS LUZES!
- Senhor, sem interaç...
- Eu sei! Eu sei! Já entendi! Fale qualquer coisa enquanto tento mijar.
- Senhor, imagino que seja a terceira vez que usa o termo mijar. Não acredito que este linguajar seja adequado. Que tal urinar?
- Que tal urinar? Enquanto ficar me recriminando, não vai rolar urinar, mijar, pipi, nem abrir a torneirinha. Tente ser agradável ao menos.
- Você tem um belo pênis!
- O QUE? MAS QUE DIABOS?
- Eu o ofendi?
- Não! Digo, não sei! Mas quem quer receber de um robô um...
- Não sou um robô, sou um algoritmo.
- Que seja! Quem quer receber de um algoritmo o elogio sobre o pau?
- Pênis!
- Você está me irritando! O que passou pelos seus circuitos que seria uma boa ideia elogiar meu... meu... meu pênis?
- A formação das minhas falas é baseada em associações lógicas. O senhor pediu um elogio, o qual associado à informação cadastrada sobre o problema que homens têm sobre o próprio órgão acabou resultando no que ouviu.
- Eu não tenho problemas com meu pau.
- Pênis.
- PAU! Eu não tenho problemas com o meu pau.
- Jura, senhor?
- Sim, por que da pergunta?
- Pelo tamanho dele e as informações estatísticas que tenho cadas...
- EI! Meu pau não é pequeno!
- Diria sete... oito centíme...
- ELE NÃO É PEQUENO!
- Minha câmera tem uma precisão com margem de erro de meio milímetro, senhor. Então lhe garant...
- É UM MOMENTO RUIM PARA AVALIÁ-LO!
- Senhor, enrijecer seu pênis não vai mudar a realidade. Além de não ser uma boa ideia para conseguir urinar ou acertar o vaso.
- Você é um programa bem desagradável.
- Senhor, falar a verdade não me faz desagradável.
- Sim, faz! É um péssimo defeito!
- Não, não é um defeito. Segundo informações cadastradas, a honestidade é uma qualidade. Em contrapartida, dificuldade de urinar em ambientes com vozes ou anomalias físicas são.
Aparentemente, Seu Joaquim terá dificuldades para devolver o equipamento destruído ao vendedor e argumentar que a culpa foi do aparato mal programado.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Cretinice homeopática

- Amiga, fui ontem ver a pré-estreia do tal Star Wars novo.
- E aí? Gostou?
- Nhé! Foi legalzinho. Filme nerd, né? Senti falta daquele tal de Vader.
- Ai sua monga! Esse é o vocalista do Pearl Jam!

sábado, 12 de dezembro de 2015

Refúgio

As coisas não progrediam e, por mais que isso me desagradasse, não podia reclamar. A situação atual e a forma como tudo acontecia eram consequências diretas das minhas ações. Tudo resultado de planos mal elaborados ou executados. Como se eu tivesse bolado algum plano esse tempo todo, não é? A verdade é que, no lugar dos planos, estavam improvisos, atitudes não pensadas e reações intempestivas. Resumindo, tudo culpa minha. Mudar algo ou iniciar novas estratégias exigia coragem. Pois foi isso que sacramentei em uma longa reunião comigo mesmo: coragem.
- Nossa, que surpresa – exclamou a Isadora assim que abriu a porta e me viu. – O que faz aqui numa hora desta, meu bad boy?
- Preciso de grana.
Veja a que ponto uma pessoa pode chegar, precisar de muita coragem para pedir dinheiro emprestado para a pessoa que mora na porta ao lado. Era a única pessoa que eu ainda conseguia convencer com uma imagem diferente de um vaso quebrado colado faltando algumas partes. Tratava-se da pior opção para se fazer isso e a única ao mesmo tempo. Familiares e amigos eram palavras arrancadas do meu dicionário. Tatiana se encaixaria como confidente, anjo da guarda ou qualquer definição piegas que faça amolecer seu coração, por isto não está contida nos outros dois grupos. Todavia, ela estava fora do estado a trabalho, tornando-se assim mais uma vez inútil e me obrigando a tomar esta decisão drástica.
- Hum, que direto! Quanto?
- Cinquenta é suficiente!
Quem pede cinquenta reais emprestado? Trata-se de uma quantia tão miserável que não resolve problema algum. É um valor tão pequeno na atual conjuntura que até eu tenho na gaveta do meu armário. Aliás, ter cinquenta reais na gaveta daquele troço de madeira que chamo de armário o valoriza em 35%. Enfim, mesmo tendo, queria emprestado. Por quê? Porque não queria gastar o meu dinheiro. Porque queria mais uma vez testar a minha capacidade de envolver os outros. E talvez o mais principal dos motivos, porque nunca iria pagar de volta.
- Cinquenta? Precisa de cinquenta para comprar um vinho baixa renda de emergência?
- Não, preciso apenas para sair e me distrair um pouco.
- E você não tem cinquenta reais?
- Tenho! Na verdade isso é uma desculpa para vir aqui e poder olhar um pouco suas pernocas.
- Se quiser pode olhar meus peitos – quando ela começou a abaixar o decote da blusa, eu a interrompi.
- Baby, sem distrações, por favor! Preciso de cinquenta. É simples! Gastarei com diversão para relaxar.
- Ah – ela fez uma pausa exagerada para enfatizar o deboche no meu vocativo oficial. – Baby! Você pode entrar e ter tudo isso de graça.
- Ora, não me faças pensar que posso lhe objetificar.
- Ah meu bad boy, quero ser seu objeto sem peso na consciência.
Não posso negar, ela era ótima em persuasão. Nas horas de trabalho, deveria ser um demônio. Dizer não a ela exigia muita coragem. No meu caso foi fácil por motivos óbvios. Daí, voltei ao meu apelo.
- Você pode me ajudar, ou não?
- Vou te ajudar, mas saiba que estou muito decepcionada com a sua negativa à minha proposta.
- Ah, não me venha com melindres. Essa não foi a primeira, tampouco será a última vez que rejeito os seus convites.
- Você me magoa tanto assim – ela parou de falar para pegar o dinheiro na bolsa. – Saiba que vou cobrar juros.
- É mesmo? De quantos por cento?
- Vou cobrar em beijinhos, cafunés e apertões. Ouvi falar que nisso você é muito bom.
- Você ficaria surpresa se soubesse no que de fato sou bom – virei de costas e fui embora.
Para minha sorte, ela me deu uma nota cinquenta e, assim que subi no ônibus, o cobrador disse que não teria troco. O que ele disse mesmo foi que nem fudendo trocaria aquela nota na primeira corrida dele. O fato é que não fiquei ofendido, nem preocupado. Pulei a roleta e ainda consegui poupar alguns míseros reais.
Em poucos minutos lá estava no local que criou a identidade que sou hoje, o ambiente que me deixava mais confortável. Já frequentei várias cidades, estados e até países. Restaurantes com comida bem servida, requintadas e de preço baixo. Praia, serra, floresta e fazenda fazem parte da minha geografia histórica. Já estive no oito, no oitenta e qualquer outro múltiplo de dois. E com toda essa pluralidade e opções extremas, o submundo ainda assim me fascinava. Era meu lar, meu habitat, minha inspiração, meu refúgio.
Millôr dizia “Família unida sempre, reunida jamais”. Mesmo com toda aporrinhação de brigas, alfinetadas e desavenças, família é onde muitos preferem estar. Outros, por exemplo, preferem um estádio onde, mesmo com a agonia do tempo que não passa ou a tristeza da derrota, é a sua válvula de escape. Eu precisava daquele cheiro de urina misturado com bebida derramada, da confusão de músicas diferentes em um volume desnecessariamente alto, da promiscuidade, da penumbra, do bizarro, da sarjeta, das classes mais baixas e da falta de regras que gerava um equilíbrio invisível que quando quebrado resultava em fatalidades. Eu precisava da Vila Mimosa.
Assim que entrei no Bar das Anjinhas, procurei pelo dono: Seu Valdir. Quando meu viu, mesmo mais de dez anos depois, ele me reconheceu. Abriu um largo sorriso e me chamou pelo apelido que apenas lá respondia quando chamado: Insano. Um abraço, comentários mútuos sobre falta de cabelo, rugas e barrigas salientes iniciaram a conversa enquanto nos direcionávamos para a mesa vazia logo à porta. Se você vai à famosa VM, você precisa ficar à porta. Ali você vê tudo e todos, se antecipa das possíveis merdas que acontecem na rua e ainda consegue admirar o máximo de mulheres.
- Ainda tem a promoção da cerveja mais o conhaque?
Pois é, para estar lá é preciso obedecer aos costumes locais. Nada de Stellinhas, vinho, uísque ou Jack Daniel’s. Na Vila Mimosa é cerveja nacional muito gelada acompanhada de conhaque para ficar bêbado mais rápido. Como esse era um dos meus objetivos da noite, estava unindo o útil ao agradável.
- Rapaz, tem uma garrafa pela metade ali que vou deixar na sua mesa. Um presente por você ter voltado.
Enquanto ele voltava para o balcão para pegar a tal garrafa, gritei para trazer uma gelada também. Exatamente, uma gelada! Se você é cliente do submundo, você não pede pela marca. No submundo, ou você confia no dono do bar, ou retorna para o boteco com etiqueta da zona sul.
Já de volta, ele serviu um copo de conhaque para cada um e a cerveja apenas para mim. Brindamos e o conhaque desceu de um gole só. Ele sorriu. Eu franzi o rosto, estava enferrujado para aquele ritual. Enquanto bebericava a cerveja comecei a perguntar pelas meninas da minha época. Fernandinha? Juju? Paola? Dani Furacão? Val? Manú Cambeta? As respostas foram as piores. Morreu. Virou evangélica. Foi assassinada por dever dinheiro a um traficante! Casou e voltou para o interior. Sumiu e dizem que está com AIDS internada em algum hospital público. Trabalha em beira de calçada na baixada.
Nada daquilo era surpresa, porém não deixava de ser triste. Eram boas meninas que participaram de uma parte da minha vida. Virei muita madrugada ouvindo as lamentações delas ou histórias que me calejaram mesmo sem ter vivenciado. Aqueles seis anos que trabalhei na noite terminando o turno por lá para relaxar foi uma escola e elas foram, de certa forma, professoras. Ouvir aquilo não era exatamente o que tinha em mente para aquela noite.
- E saber que você queimou muita grana com elas, não é mesmo?
- Nunca paguei um centavo para elas.
- Jura?
- Sim – confirmei enfático ao fim de um gole. – Você sabe muito bem que não curto sexo por dinheiro.
- Tem razão – ele pausou para servir mais uma dose de conhaque. – Mas nem naquela história do anão com a Fernandinha?
- Aquilo foi diferente. Eu dei dinheiro para a Fernandinha não trancar a porta enquanto fazia o programa com o anão, pois eu queria ver a cena ao vivo.
- Você fazia muita merda, rapaz – ele soltou uma risada e prosseguiu. – É estranho te ver depois de tanto tempo assim sério. Um homem.
Talvez fosse ainda muito cedo para quebrar o encanto da minha imagem que ele fez naquele momento. Pelo menos enquanto ainda tinha conhaque grátis na mesa. Concordei assertivamente com a cabeça e pedi outra gelada. No meio tempo que ele ia até o balcão, uma mocinha se sentou ao meu lado e, pelo visto, algumas tradições não mudam por lá. A abordagem era uma delas. Ainda bem:
- Oi, gato – ela disse repousando a mão com vontade no meu pau. – Vamos gozar gostoso?
Qual homem diria não para uma proposta como esta? É exatamente por isto que este local ficava lotado no início do mês. Com dinheiro, os trabalhadores que lá frequentavam, seduzidos por uma proposta tão direta, saiam com os bolsos vazios. No resto do mês, eles nem davam as caras. Resistir, mesmo sem dinheiro era impossível e sempre existia uma boa alma caridosa a cada vinte metros disposta a emprestar uma graninha a juros tão obscenos quanto as propostas.
Fitei a mocinha por inteira e confesso que ela era bem apessoada. Para os padrões locais, ela era um achado. Tanto que meus olhos procuraram pelo Seu Valdir pelo bar. Quando o vi, ele gesticulou para mim como quem diz “vai nessa que é a boa”. Não, não iria nessa. Ele sabe que não pago por sexo.
- Baby – retirei calmamente sua mão da minha virilha, a beijei para que não se sentisse tão rejeitada e a repousei sobre a mesa. – Temos um problema aqui, pois procuramos coisas que um não pode oferecer ao outro.
- Será mesmo? – Ela perguntou com a convicção de quem consegue convencer qualquer um por lá apenas aproximando muito seu rosto.
- Oh sim! Tenha certeza disto.
- Então me fale o que queremos e não podemos oferecer?
- Eu quero uma companhia para beber e conversar. Você quer um cliente.
Surpreendentemente, ela gesticulou para o Valdir indicando que a garrafa estava vazia e que queria um segundo copo. Ele prontamente a atendeu, nos serviu de conhaque e cerveja. Brindamos o conhaque, bebemos de um gole só e, assim que colocou o copo na mesa, ela se virou para mim e perguntou sobre qual assunto conversaríamos.
- Bem – ainda impressionado com a iniciativa daquela menina, que deveria ter no máximo 22 anos, prossegui. – Podemos começar perguntando o seu nome.
- Mariana.
- E como sua mãe lhe chama?
- Nunca conheci minha mãe, mas acredito que me chamaria de estranha já que me abandonou na maternidade ao me dar a luz.
- Ok – parei para dar um gole no resto da cerveja em meu copo. – Vamos tentar manter a conversa menos constrangedora, tá? E como consta seu nome no documento de identidade?
- É o mesmo! Não tenho nome de guerra.
Mariana ironicamente se chamava Mariana mesmo. Estava presenciando uma geração de garotas de programa que usavam o próprio nome no trabalho. Aliás, uma geração que preferia o termo garota de programa a puta. Como a própria Mariana explicou, puta só poderia ser usado no sexo, mas no diminutivo, pois putinha é música para os ouvidos.
Ela fugia de todos os clichês. Não veio do interior, não foi abusada pelo pai, nem iludida por uma cafetina que prometeu fama no programa Malhação. Mariana foi criada pela enfermeira que ajudou no seu parto assim que sua mãe lhe abandonou. Estudou, fez o ensino médio, mas sempre gostou de sexo e dinheiro. Descobriu que poderia ter os dois ao mesmo tempo, mas também tinha consciência que não conseguiria trabalhar em algum puteiro mais refinado. Sobre os clientes, que na sua maioria são operários suados com o pau todo ensebado, ela diz que cobra caro com o consentimento do Seu Valdir que concorda que ela é um achado por lá.
Conversamos por um bom tempo, mais precisamente por dez garrafas de cerveja e a cortesia de conhaque do Seu Valdir. Em determinado momento, sua mão novamente pousou sobre meu pau, apertando-o com mais vontade. Senti certo ar de cobrança na sua fala:
- E aí, estrangeiro? – Ela cismou de me chamar de estrangeiro por toda noite ao achar que não me encaixava naquele ambiente. – Já falei e muito sobre mim. Não acha que é a hora de tirarmos nossa roupa e passarmos nossa conversa para outro patamar?
- Baby, agradeço muito em ter ficado comigo toda a noite, mas o seu problema continua na mesa. Eu não pago por sexo.
- Quem disse em pagar? Você foi gentil comigo, me deu várias cervejas, ganhou minha atenção à noite toda e os possíveis clientes foram todos embora. Nada mais justo que terminemos essa noite da melhor maneira.
Não, eu não podia aceitar por vários motivos. Motivos físicos, pois não tinha a menor certeza se meu pau subiria, se teria condições de me manter acordado por todo o sexo ou se conseguiria gozar ao final. Motivos éticos também, pois a envolvi na conversa de uma forma covarde, assim como ela tentou me envolver para que fizesse o programa inicialmente. A diferença está nos vários anos de experiência que tenho com garotas de programa e sua conversa barata, além de uma década praticando conversa com desconhecidas toda noite.
Agradeci e disse que ela era um ótimo motivo para que voltasse a frequentar mais a Vila Mimosa. Puxei a nota de cinquenta que Isadora me deu e coloquei sobre a mesa. Ficou bem claro naquele momento que aquilo era tudo que eu tinha. Ela então perguntou como eu voltaria pela casa. Respondi que pretendia ir de ônibus, mas dependia do Seu Valdir.
- SEU VALDIR – gritei acenando com a nota de cinquenta. – VAI TER TROCO?
- Troco? – Ele riu. – Você vai ficar me devendo uns quinze!
Cocei a cabeça e Mariana “coçou” a bolsa. Sacou uma nota de cinco reais e me deu para que fosse para casa de ônibus. É, eu ainda conseguia envolver os outros. Agradeci, anotei meu endereço e a entreguei, ao tentar dar um beijo em seu rosto ela se virou. Nos beijamos e deu para ouvir Seu Valdir falando que certas coisas não mudam. Fui depois ao balcão me despedir dele. Prometi lhe pagar o que fiquei devendo e tudo que ele pediu foi que eu não sumisse. O que um dia foi um cara legal estava virando um velho foda.
Fui embora completamente bêbado e com muita dificuldade consegui chegar à Praça da Bandeira. Ao parar no ponto de ônibus, avistei um ambulante. Mostrei a nota de cinco reais e perguntei se me venderia duas latas de cerveja. Ele disse que sim. Fui então a pé para casa com as duas latas. Normalmente ir da Praça da Bandeira até a Lapa a pé é uma longa caminhada. Cambaleando fica mais longo e cansativo ainda. As duas latas de cerveja ajudaram a me manter ocupado durante todo o trajeto, não reparando assim em mendigos, pivetes ou qualquer outra distração.
Após quase quarenta minutos de caminhada trocando as pernas, trombando em postes e usando bancas de jornal como pontos de apoio, cheguei em casa. O porteiro me ajudou a entrar e me colocou no elevador. Chegando ao meu andar, usei o resto das minhas energias para abrir a porta do elevador e desabei no meio corredor fazendo um barulho de respeito. Enquanto ainda estava no chão, ouvi barulho de chaves. Isadora abriu a porta.
- Meu pai – ela exclamou parada ao meu lado com as mãos na cintura. – Como você consegue fazer isso? Aliás, como consegue ficar assim com apenas cinquenta reais?
- Eu sou um cara de muitos talentos.
Ela assentiu e me ajudou a me levantar. Ao invés de me colocar para dentro da minha casa, ela me levou para a casa dela. Disse que eu estava em péssimo estado e, de fato, ninguém podia contestar isto. Ainda durante uma série de exclamações envolvendo o quanto estava surpresa em me ver naquele estado, ela foi tirando meus sapatos, meia, calça e camisa. Em seguida me deitou em sua cama.
- Mocinha, você está se aproveitando de mim e isto não está certo.
- Estou cuidando de você. Cala essa boca!
Ela me calou com um beijo. Aparentemente eu não era o único capaz de envolver os outros.