segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Começa a colonização

Interrompemos a progr… buffering… amação para trazer a not… buffering… ícia que todo p... buffering... ovo da ilha de Cuba mais esperava. Com a abertura das portas após a parceria acordada com os EUA, hoje se inicia uma nova era no país com a chegada oficial do Netflix. Nosso repórter local Hermano Cabrón conseguiu em primeira mão os nomes dos títulos que estrearão já hoje por lá:

How I Meet Karl Marx
House of Cigars
Top Chefs: Caliente
Star Wars I: A ameaça capitalista
Star Wars II: Ataque da ONU
Star Wars III: A vingança dos traíras
Star Wars IV: Uma estranha democracia
Star Wars V: O comunismo contra-ataca
Star Wars VI: O retorno de Fidel
Férias Frustradas: De Havana até Miami em um pneu de caminhão
Pimp my banheira velha enferrujada
Batman: O companheiro das trevas
Game of Thrones: América Latina
House (a saga de um médico cubano trabalhando em uma UPA da Pavuna)
Walking Dead: não somos zumbis, somos o povo local mesmo
Better Call Morales
Prision Break: fugindo da ilha
Lie to me (todos os discursos da Dilma na última eleição)
O Poderoso Chefão: a vida de Fidel
O Silêncio dos Residentes
Gossip Girls (blogueiras locais difamando ilegalmente o governo pela internet)
Destaque especial para a regravação de Friends para o público local que levará o título A.M.I.C.H.E.S.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Histórias reais inventadas por mim

Fome e ereção
Devia ser a quarta ou quinta vez que a Márcia dizia ao Marcos que estava com fome. E pelo tempo que eles estavam juntos, ignorar esta informação não era algo muito esperto considerando que o mau humor dela sempre foi diretamente proporcional à sua fome. Não sei se vocês entenderam o que tentei falar. Não precisam ter vergonha, regra de três é algo que poucos aprenderam bem no ensino fundamental. O que quis dizer foi que conforme aumentava a fome, aumentava também o mau humor. Tudo bem, explicar para quem entendeu só expõe o meu lado patético. Assim como explicar para quem não entendeu só traumatiza o lado matemático da pessoa.
Enfim, Márcia se levantou e anunciou que iria pedir uma pizza, mesmo sabendo que o Marcos não aprovava este tipo de alimentação durante a semana. Ele era um chato metódico de quarenta e poucos anos com regras para tudo que possam imaginar. Dentre as regras, existia a que terça, aquele dia, era dia de sexo. Ele estava apenas esperando acabar o capítulo do seu seriado favorito sobre policiais que discutem a vida particular na viatura por cinquenta minutos e nos dez minutos finais resolvem um crime cabuloso. Por motivos óbvios, prestar atenção nos minutos finais era uma obrigação, mas pela condição de Márcia não seria uma tarefa fácil:
- Marcos, qual o sabor da sua metade – perguntou a Márcia, pois já era tradição entre eles que cada um pedisse uma metade do seu sabor e assim não brigavam. – Anda, homem! Tira esse olho da televisão! Ahn? Que acenar que nada! Responde ou vou pedir uma inteira de rúcula. Ah, quer me dar atenção agora, né? Fala logo que o rapaz aqui está esperando no telefone. Ahn? Aliche? Está doido, Marcos? Vai ficar com azia a noite toda e amanhã você acorda cedo para o RPG. Vou pedir Margerita para você.
Feito o pedido, Márcia foi à cozinha separar pratos, talheres, cortador de pizza, conferiu catchup e outras coisas na geladeira. Neste interim, ouviu que a série que Marcos assistia acabou e pensou no que estava por vir. Não foram necessários muitos minutos para que sua previsão se concretizasse. Assim que começou a música tema dos créditos, lá estava Marcos abraçando e se esfregando na Márcia por trás como fazia toda terça-feira. Um processo de acasalamento protocolar sem graça que só na cabeça dele parecia ser sexy e persuasivo.
- Pode parando, Marcos – falou a Marcia enquanto o expulsava dando uma bundada nele. – Já falei que estou com fome e irritada. Não vem com esse pau para cima de mim ou corto ele fora e faço um sanduíche. Ou melhor, um petisco, porque nem duro ele está.
O Marcos já estava naquela fase de ereções irregulares há um bom tempo. Não conseguia mais com a facilidade que tinha quando mais jovem, precisava de estímulos extras e talvez por isso passou a fixar datas, pois, quem sabe, forçando menos as tentativas seria mais fácil. Até que deu certo no início, mas era apenas tesão acumulado. Depois com o tempo ficou cada vez mais difícil e frustrante, para ambas as partes.
Expulso da cozinha, ele foi para a sala e ficou trocando os canais sem prestar atenção de fato o que passava. Na sua cabeça tudo que passava era que a terça seria desperdiçada. Márcia daria prioridade à pizza, os dois ficariam de barriga cheia e acabariam dormindo. Ele precisava de uma abordagem enfática imediatamente. Precisava ser naquele momento, nem um minuto a mais. O tempo para o entregador chegar era suficiente para toda a atividade, inclusive os minutinhos adicionais abraçadinhos ao final.
A ideia de ser algo com tempo estipulado causou algo em Marcos. Ele era uma pessoa bastante competitiva e a adrenalina de correr contra os minutos foi um afrodisíaco. Ele se imaginou agarrando a Márcia sobre a mesa da cozinha, a sacanagem já rolando solta e frenética quando toca o interfone. Atendemos ou não? Eles não parariam. Márcia entrelaçaria suas pernas em volta de sua cintura e os dois engatados iriam até a área de serviço para Marcos atender e autorizar a subida do entregador. Temos pouco tempo agora, diria a Márcia. É agora que você vai gozar, afirmaria Marcos enquanto aumentaria a intensidade do sexo, apertaria nos locais certos e faria Márcia arrepiar cada pelo do seu corpo. Quarenta segundos depois, após subir cinco andares de elevador, o entregador tocaria a campainha. Todavia, tudo que o prédio escutaria seria o gemido profundo de Márcia que ecoaria pelos corredores. Era isso!
- Márcia, vem fazer seu sanduíche que estou duro como um salame – disse Marcos da porta da cozinha.
Até a Márcia precisava concordar que era uma ereção impressionante. Talvez nem tanto pelo fato de o Marcos estar vestindo sua surrada calça de moletom amarela ovo, mas era um senhor pau duro. Ainda assim, o grito de fome que prevalecia dentro dela conteve qualquer tentativa de emanar um desejo sexual. Ela então apenas acenou simpaticamente para ele e voltou a dar atenção os talheres na pia.
- Como assim ok? Olhe para cá – disse um Marcos inconformado apontando para o mastro que se escondia em sua calça ilustrando o conceito de armar a barraca. – Querida, talvez esta seja a minha melhor ereção nos últimos anos, não podemos desperdiça-la.
- Esqueça, Marcos. O entregador vai chegar a qualquer momento.
- Exato, Márcia – naquele momento a empolgação de Marcos veio com força, literal e metaforicamente falando. – Vamos transar selvagemente neste meio tempo. Eu começo te jogando sobre a mesa da coz...
- Selvagemente, Marcos? Mesa da cozinha? São quase vinte anos de casados de “papai e mamãe” apenas, Marcos. O mais louco que já fez foi transar com os pés na cabeceira e a cabeça do outro lado da cama. Você reclama quando conseguimos desarrumar o lençol. Quer saber de uma coisa? Faz o seguinte – Márcia se interrompeu para desfazer seu rabo de cavalo. – Não quer perder a ereção? Está aqui! Coloca esse elástico de cabelo na base do seu pau e trava o sangue aí, mas não me encha o saco. Estou com fome!
Frustrado com a reação de sua esposa e um pouco abatido pelo choque de realidade, Marcos ficou preocupado com a possibilidade de perder aquela energia que emanava de sua pélvis e acabou acatando a sugestão. Lá estava ele com as duas mãos dentro da calça enquanto Márcia preferiu dar atenção ao cesto de roupas sujas. Colocado o torniquete peniano, o interfone toca, Márcia atende e diz para o marido que o entregador chegou.
- Manda ele subir, ora bolas.
- Já passou das dez, Marcos. Está sem porteiro lá em baixo. Você vai ter de ir buscar.
- ASSIM?
Era uma difícil decisão a ser tomada. Márcia disse logo de início que não desceria nem a pau, ou comeria tudo na portaria mesmo. Marcos precisava se decidir entre duas opções. Ou abdicaria daquela conquista e arruinava a sua tradicional terça, ou permanecia focado com o revés de passar vergonha na frente do entregador. Enquanto pensava, Márcia deu mais um chilique alegando fome e irritação, o que obrigou o Marcos a descer e optar por se decidir no elevador.
- Oh não! Logo comigo?
É bem possível que as mulheres tenham dificuldade para entender o real motivo do entregador se apavorar ao se deparar com o cliente de pau duro fazendo volume sob as calças. Não, o fato de um total estranho estar em completa ereção na sua frente nem é a principal razão. É algo muito mais clichê que possam imaginar.
Nós homens crescemos vendo filme pornô com uma frequência assustadora. Na sua maioria, esses filmes possuem sempre a mesma premissa: um homem chega à residência para entregar pizza, a gostosa abre a porta, não tem dinheiro e resolve pagar com favores sexuais. É claro que os roteiristas tentam variar substituindo o entregador de pizza por vendedores de enciclopédia, entregadores de jornal, carteiros, testemunha de Jeová, distribuidores de encartes do Guanabara, o cara da pamonha, instalador da NET dentre outros. Em alguns casos, quando querem algo mais arrojado e inovador, chegam a colocar o ator no papel do marido.
- O que foi, rapaz? Larga de drama e me dá logo essa pizza.
- Desculpe, senhor, mas sabe como é, né? Entregador de pizza, imaginação fértil, pensei estar em um filme pornô gay.
- Não, cacete! Você só chegou rápido demais.
- Óh céus! Nunca vi ninguém demonstrar tamanha felicidade com uma pizza que chegou rápido.
- Ahn? Não! Estava prestes a transar com a minha esposa quando você chegou.
- Ah tá! Ufa – faz-se uma pausa e o entregador volta a falar. – Preciso dizer que é uma considerável ereção.
- Obrigado. Por isto estou com pressa. Pode ficar com o troco.
O entregador foi embora e Marcos subiu de volta para casa. Assim que abriu a porta, ele foi atacado pela Márcia que lhe roubou a caixa de pizza de suas mãos e foi correndo para cozinha já mordendo a primeira fatia.
- Isso não é justo! Estou aqui com uma ereção de respeito e você dando preferência para esta pizza.
- Já te falei que estou com fome. Se quiser espere.
- Mas, Márcia, até o entregador elogiou meu pau duro. Não é possível que você não fique sensibilizada com isto.
- Ah Marcos, que viadagem, hein? Vai comer o entregador então!
- Isso não é justo! Tudo que eu queria era fazer um sexo selvagem, sujo e com um gostinho de errado com minha esposa.
- Era isso? Então faremos o seguinte – Marcia pegou duas fatias de uma só vez e foi rumo à sala. – Vou deitar ali no sofá e continuar comendo minha pizza paradinha sem esboçar reação. Daí você pode fazer o seu sexo selvagem comigo que vai foder com a sua coluna te obrigando a fazer uma dupla sessão de RPG amanhã. Vai poder fazer seu sexo sujo, porque vai cagar o sofá todo de gordura e molho de tomate. Vai poder fazer também seu sexo com gostinho de errado porque estarei na sua frente quebrando nossa dieta semanal.
Ao ouvir isso, Marcos teve uma ereção mais forte que qualquer uma em toda sua vida que chegou a arrebentar o elástico preso à base do seu pau. Ele pulou então na Márcia e transou loucamente com ela. Foi sem dúvida o melhor sexo de suas vidas. Márcia gozou freneticamente como um bebê arara fazendo seus gritos ecoar pelo quarteirão. Ao final, exausto, Marcos se levantou e, com um sorriso de vitória estampado no rosto, percebeu que ainda assim Márcia não aparentava estar totalmente satisfeita. Olhando o sofá coberto por algumas beiradas de pizza e diversos fluidos humanos, ele resolve perguntar como ela conseguia permanecer insatisfeita diante de um momento épico como aquele.
- Estou arrependida de não ter pedido a mousse também.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O fracasso do ciclone do Dudu Paes

Colhemos alguns depoimentos que explicam o fiasco da tempestade do século prometida para cidade do Rio de Janeiro prometida pelo prefeito Eduardo Paes: 

“A rápida garoa de alguns minutos estava dentro do esperado segundo a margem de erro.” (Diretor do IBGE)
“Os dados do balanço apresentado talvez tenham sido superfaturados.” (Especialista da Petrobrás)
“O problema é que a água foi cortada por falta de pagamento.” (Roberto Dinamite)
“Isto é culpa da oposição coxinha que boicotou a tempestade para causar constrangimento no governo.” (Militante do PT no pátio da PUC)
“É óbvio que este governo bolivariano desviou a chuva para ajudar Cuba.” (Militante de direita do Facebook)
“Para a chuva virar tempestade seria necessário o consumo de anabolizantes e isto a comissão de Nevada não permite.” (Presidente do UFC)
“O temporal não aconteceu porque nós temos os direitos das patentes das nuvens no país.” (CEO da Apple)
“A chuva foi extraviada na central de distribuição de Curitiba.” (Diretor de Logística dos Correios)
"Foi por falta de verba." (Eike Batista)
“Ela não vai acontecer porque não foi licitada como todo processo público deveria ser.” (Procurador Geral)
“Infelizmente, antes do evento, recebemos uma ordem judicial dizendo que a chuva feria os direitos do Roberto Carlos.” (Advogado do Rei)
“O temporal foi suspenso porque não respeitaria o limite de litros diários por pessoa estabelecido nas novas regras do Big Brother Brasil.” (Pedro Bial)
“Sete gotas foi pouco.” (Luiz Felipe Scolari)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Xuxa chega na Record com nova música

Interrompemos nossa programação para anunciar que assim que chegou à emissora Record, a Xuxa já lançou uma nova regravação de Lua de Cristal. Gostaríamos também de falar que se você rir deste post será condenado a passar o resto da vida no inferno ardendo em chamas. Contudo, se você não rir, será mais um e passará o resto da vida ardendo de tédio na Terra enquanto vivo.


Xuxa na Record (regravada sobre Lua de Cristal)

Tudo pode ser, se o pastor falar.
O Senhor sempre vem pra quem louvar.
Tudo pode ser, só basta pagar.
Tudo que tiver que ser, será.

Tudo que eu fizer
O bispo vai falar que o senhor quis
Mas se ele não gostar do que eu disser
Me tornarei um pecador infeliz

Tudo que eu quiser
O cara lá de cima vai me dar
Mas se os 10% eu não der
Para o inferno eu irei queimar

Gritamos para você
Senhor deve ser surdo, pode crer
Todos somos um
Para chutar a santa e Ogum
Acreditamos em você
Até no Waldomiro, pode crer
Não vamos só louvar
Iremos te julgar

Xuxa na Record
Que me faz louvar
Faz de mim rebanho
A Globo vou odiar
Xuxa na Record
Salva em unção
Voltou a ser virgem
Não é mais sapatão

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Histórias reais inventadas por mim

Negociação
Todos se lembram daquela manhã de agosto quando o país parou. Os canais de televisão, as rádios, os sites, o assunto era um só. As pessoas em casa, nos restaurantes, bares, lojas de shopping e no trabalho pararam o que estavam fazendo para acompanhar o que acontecia na até então desconhecida loja de material de construção do Seu Aristeu. Ninguém acreditava no que estava presenciando. Jamais foi visto algo do tipo. Vou até contar do início para que tenham uma ideia melhor da barbárie.
Não tinha nem vinte minutos que Seu Aristeu abriu a loja e lá estava o Orlando. Ele era um freguês assíduo que, por fazer muitos serviços na região, estava sempre por lá comprando material. Como dizia, lá estavam Seu Aristeu, o Orlando, mais dois funcionários e quatro clientes. O movimento ocorria dentro da normalidade, olha uma peça aqui, pede outra, não tem, tenta uma segunda opção. Tudo ia bem até que em determinado momento, esperando um dos funcionários voltarem com o joelho que pediu, Orlando resolveu se distrair com o jornal que estava sobre o balcão. A primeira notícia que viu lhe atordoou de tal maneira que ficou pálido, seu sangue esfriou, suas pernas tremeram e seu olho esquerdo piscou várias vezes solitariamente, mas isso era um tique nervoso que ele já tinha.
“Prefeito e vereadores suspeitos de desviar dinheiro da saúde municipal.”
Conforme andava com seus olhos pela matéria, um piscando mais rápido que o outro, seu sangue começava a esquentar e sua mente fazia conexões com o passado recente. Tudo fazia sentido. Há três meses ele ficara viúvo porque não tinha equipamento no hospital público do seu bairro. Equipamentos que poderiam ter sido comprados com o dinheiro desviado pelos políticos da reportagem. O sangue ferveu e invadiu o cérebro aos litros tomando controle (ou criando a falta de) da situação:
- NINGUÉM SE MEXE NESSA BODEGA OU CABEÇA DELE VAI ROLAR!
As pessoas na loja tomaram dois sustos. O primeiro com o grito do Orlando e o segundo ao verem que ele estava com uma serra de mão encostada no pescoço de um dos clientes. Com um pouco de medo, mas ao mesmo tempo assustados com aquele momento inesperado do sempre tranquilo Orlando, todos resolveram colaborar e se sentaram no chão. Orlando então abaixou as portas da loja deixando apenas uma fresta e gritou para que todos na rua pudessem ouvir:
- CHAMEM A POLÍCIA E A TELEVISÃO! ESTÁ ACONTECENDO UM SEQUESTRO AQUI – E foi assim que tudo começou.
Em poucos minutos chegou a polícia e logo depois a televisão. Vários canais estavam lá para fazer a cobertura que até então não era ao vivo, pois parecia apenas um assalto que deu errado. A atenção só ficou redobrada quando o negociador da polícia, o major Viega, iniciou os trabalhos e divulgou as exigências do tal sequestrador:
- O meliante disse que não vai liberar os reféns, mas que aceita fazer uma permuta por outras pessoas e daí iniciar uma nova negociação com a instituição. – Ele parou, pois um repórter ao fundo perguntou como seria a troca e logo depois deu prosseguimento. – Pois bem, ele disse ter em sua posse sete reféns e quer trocar por sete políticos a sua escolha. São eles, o prefeito, o presidente da câmara dos vereadores e outros cinco vereadores.
Começaram então as especulações. Qual o interesse nele nos políticos? Enquanto a cúpula da polícia se reunia para decidir como agir, Orlando começou a gritar suas motivações e isso criou um rebuliço maior ainda. Tínhamos novas especulações. Iria ele matar os reféns? Quem está a favor dele? Quem está contra ele? Seriam seus motivos nobres? Era a melhor maneira de combater a corrupção? Somo todos Orlando?
Imagino que estejam pensando que não existe tanto motivo assim para o país se mobilizar com um sequestro com algumas exigências com viés particular. De fato, é algo bem incomum, porém realmente não justifica e nem os condeno por pensarem assim. A mobilização geral aconteceu conforme a negociação deu prosseguimento. Aparentemente, Orlando não esperava uma negativa e, como era uma pessoa de pouca instrução, sua capacidade de negociação e improvisação acabou comprometendo o que viria a seguir. Logo, o que era uma comoção nacional com uma causa até então nobre, virou um sensação de pena coletiva por tamanho constrangimento:
- COMO ASSIM NÃO FARÃO O QUE PEDI?
- Sinto muito, mas o que pediu está além da nossa jurisprudência e acima da nossa alçada – afirmou o major Viega. – Mas podemos negociar a libertação dos reféns para que tudo termine bem para ambos os lados.
- Como terminar bem para ambos os lados? Não tem como terminar bem para o meu lado. Eu já estou viúvo. Quero que não termine bem para o lado dos envolvidos na morte da minha Zildinha.
- Sentimos muito, senhor, mas exatamente por isto não poderemos acatar à sua solicitação. Nosso objetivo é garantir a integridade dos reféns. Trocá-los por outros que não terão a integridade garantida não faz sentido.
- E o que faço então? Libero eles por nada? Vocês estão loucos? Acham que sou bobo?
- Senhor, peço que seja razoável. Podemos negociar algo que seja para amenizar a dor da perda da sua Gilda.
- ZILDA!
- Exato! Peça algo que a faria feliz.
- Algo que a faria feliz? Deixe-me pensar. Só um instante. (pausa) Já sei! Eu quero o presidente da Colgate.
- Como?
- O presidente da Colgate. Aquela marca de pasta de dente.
- Eu entendi, mas como assim você quer o presidente da Colgate? Qual a relação?
- Ele arrasou os negócios da Zildinha ao lançar pastas de dente com aqueles tubos largos de tampas grossas que ficam de pé quando colocados de ponta cabeça. A minha Zildinha vendia aqueles trecos de acrílico que você podia colocar até quatro escovas de dente e um tubo para deixar na pia do banheiro. Agora, ninguém compra porque o tubo não passa mais por ali. Para piorar, os estojinhos que ela vendia para levar pasta e escova de dente para o trabalho também ficaram incompatíveis. Ficou tudo encalhado! TUDO!
- Podemos pensar algo para as nécessaires.
- Nessa o que?
- Nécessaires! Os estojinhos! Podemos tentar vender como estojo escolar.
- Não tem como! Está escrito em letras grandes que é um porta kit dental. Tem até um dentes desenhados. Seria como usar um pote de geleia como porta brincos ou quinquilharias. Não, ninguém vai comprar! Eu preciso deste homem e suas ideias mirabolantes destruidora de negócios alheios.
- É, meu senhor, não vai ser possível.
- Como não? Nada aliviaria mais a alma da minha Zildinha do que isto!
- Eu sei, mas teremos de fazer outra coisa para aliviar a alma da sua Gilda.
- ZILDA!
- Isso! Peça outra coisa, mas seja razoável. Pense antes de pedir. Deve existir outra coisa que a faça feliz.
- Ok! Está bem! Eu quero falar com alguém da Brastemp.
- Ah meu senhor! Mas tenha paciência. O que foi agora? A geladeira quebrou e estragou a torta que ela fazia por encomenda?
- Claro que não! Não deboche da minha Zildinha.
- Ok, me desculpe. Então se explique.
- São essas novas malditas máquinas de lavar em que o compartimento do sabão líquido não segura o produto, daí ele escorre antes dela encher e mancha a roupa toda.
- Ok, meu senhor. Foram dadas as oportunidades. Irei autorizar que o esquadrão faça a sua parte encerrando de vez a negociação.
- NÃO! NÃO OUSE! ESTOU NERVOSO E FRUSTRADO! EU ARREBENTO A GARGANTA DELE E DE OUTROS MAIS ANTES QUE CONSIGAM DAR O SEGUNDO PASSO!
- Tudo bem! Tudo Bem! Sem exaltação! Vamos retornar à negociação. O que podemos fazer por você?
- Como assim? Sou novo nessa área. Nunca vi sequer filme de sequestro, logo não sei como agir.
- Normalmente pedem um helicóptero para fugir.
- Mas eu não sei como dirigir com troço destes.
- Ah, mas poucos sabem. Por isto pedem sempre com um piloto.
- Tá bom! Tá bom! Só que mesmo com um helicóptero para onde iria? Eu moro ali na esquina mesmo.
- Você pode ir para uma cidade perto e se esconder na casa de um cúmplice. Ou ir para outro ponto distante, de lá pegar um carro já fora do nosso alcance e fugir.
- Gostei da primeira ideia. Minha tia Alzira mora na cidade de São João do Torrão de Fubá. Não é tão perto, mas é um ótimo lugar para me esconder.
- Viu? E a quantos quilômetros fica daqui?
- Por volta de 180, no máximo 200.
- Bem, se o helicóptero estiver com tanque cheio, dá para ele te levar e voltar.
- Ótimo! Quero então um helicóptero com tanque cheio e piloto.
- Não temos helicóptero disponível, senhor. Terá de pedir outra coisa.
- AH, MAS VÃO TODOS PARA O INFERNO! EU VOU MATAR ESTE CABRA E É AGORA!
- CALMA! CALMA! CALMA! VAMOS COLOCAR A CABEÇA NO LUGAR! Que tal algo que lhe traga conforto? Algo que diminua essa confusão na sua cabeça.
- Certo! Justo! Eu quero o Maurício!
- Maurício? Quem é o Maurício?
- O desenhista! O Maurício de Souza!
- Ah sim, claro! Imagino que tenha sido uma referência na sua infância e falar com ele irá reconfort...
- Não! Nada disso! Eu tenho uma dúvida mesmo. Nunca entendi aquelas histórias do Cebolinha com o Louco. Aquilo acontecia mesmo ou era um delírio do Cebolinha?  Ou o Louco dava drogas para o Cebolinha e os dois viajavam juntos?
- Está bem, senhor! Encerramos aqui as negociações. Nós vamos entrar!
- NÃO! NÃO! PAREM ONDE ESTÃO! EU VOU CORTAR A GARGANTA DELE – E Orlando parou ao notar o desespero de seu refém, olhou ao se redor e viu a mesma expressão nos outros que lá estavam sob seu terror já infundado, por fim, passeou com os olhos pelas prateleiras reparando em cada produto como se fosse a última coisa que veria antes de ser preso e tomou a decisão. – OK, EU TENHO APENAS UM PEDIDO. APENAS UM!
- Pois então diga, senhor!

- Eu quero falar com o desgraçado que mandou padronizar para essa maldita tomada de três pinos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Histórias reais inventadas por mim

Bacanal
É sempre a mesma coisa. Basta alguém fazer um comentário referente a valer de tudo que meu pai selava o assunto com sua frase habitual: “Existem regras para tudo, inclusive no bacanal onde, dentre várias delas, deve-se respeitar o garçom.”. Ele achava que com essa frase iria se passar por descolado. Inocente! Com ela, só ficava evidente que ele era um careta que nunca participou de uma sacanagem de verdade. Fato, aliás, que me reconforta, pois até onde sei, ele passou a vida toda com minha mãe.
A verdade é que se ele tivesse ido uma vez apenas aos bacanais organizados pelo Rico, apelido nada modesto do Ricardo Teviano, riquinho do bairro, jamais diria algo do tipo. Inclusive sobre os garçons que eram os que mais sofriam. Para se ter uma ideia, eles eram obrigados a trabalhar pelados com o corpo pintado como se estivessem vestindo smoking, contudo, no lugar do guache, usavam Nutella. Daí já viu, né? Quando não estavam cercados pelas mulheres que queriam lambê-los, eram atacados por gordinhos que pretendiam esfregar waffles quentinhos em seus corpos.
Desistências eram coisas fora de cogitação. Bastava a primeira pessoa anunciar uma crise de timidez ou arrependimento que o Rico imediatamente organizava uma fila e obrigava a todos darem umas palmadas no cidadão. Das duas uma, ou servia como lição para nunca mais tentar se meter onde não devia, ou ficaria rapidamente animadinho para entrar na brincadeira. Alguns pediam inclusive uns tapinhas extras seguidos das fantasias mais ocultas:
- Vai! Me castigue por tocar nas suas verduras e não compra-las, seu feirante!
Imprevistos sempre aconteciam, mas Rico sabia lidar como ninguém com eles. Nada podia interromper o bacanal, quanto menos ameaçar que fosse cancelado. Tudo era solucionado. Problemas viravam novidades. Camas quebradas se transformavam em tatames. Câimbras eram encaradas como orgasmos intensos. Tem muita mulher? Hora da folga dos garçons! Tem muito homem? Sinto muito, garçons! Qualquer coisa podia ser contornada:
- Senhor Rico, temos um problema na suíte três.
- O que aconteceu?
- Aparentemente passaram vaselina demais em uma das bailarinas magrelas que contratou. Daí, o Marcão, aquele seu amigo meio grosseiro, agarrou uma delas com muita força e foi ejetada como um sabonete da mão de uma pessoa.
- E qual o problema?
- Ela está pendurada, entalada pela cabeça, no teto rebaixado de gesso.
- Pela cabeça?
- Sim, pela cabeça. O resto para baixo está aparecendo.
- MUITO BEM, SENHORES! QUEM QUER FAZER UM HELICÓPTERO DE VERDADE?
Só não pensem que os bacanais do Rico era uma baderna generalizada. Não, nada disso! Inclusive tudo era escolhido com muito cuidado, até a parte musical. Já teve banda de jazz, um quarteto de cordas, uma dupla de harpas, um grupo de forró e um belo canário da serra que cantou por quinze minutos apenas porque foi atacado por um pervertido sem escrúpulos. Certa vez, calhou de quatro pessoas desistirem quase ao mesmo tempo. Rico ficou possesso com isso, mandou desligar o som que no dia era DJ e colocou os quatro no sofá com as bundas empinadas. Virou-se então para um senhor bigodudo que lá participava e decretou: “Você agora se chama Tito Puente! Faça uma salsa com estas quatro bundas!”. O problema é que o caboclo não sabia que o tal Tito era um grande percussionista americano e a ordem era batucar nas bundas. Ele pensou se tratar de um famoso cozinheiro mexicano e criou um caos ao enfiar manjericão e pimenta no rabo dos desistentes. Não era exatamente o que Rico previa, mas todos acabaram se divertindo e criou-se então o Rabo Nacho.
É claro que vez ou outra a escolha musical não agradava a todos:
- Rico, não me leva a mal, mas essa coisa é muito ruim!
- Você sabe o quanto me custou trazer lhamas cantantes da Guiana?
- Eu imagino, Rico. Só que não consigo me concentrar. Não entendo uma palavra que elas cantam.
- Ora, é muito difícil ensinar português para lhamas que só falam espanhol.
- Ok, eu entendo! Acontece que elas cantam sempre a mesma música.
- Não é sempre a mesma música! Elas estão cantando Raça Negra!
Reclamações obviamente existiam sempre. As mais frequentes eram das ações rotineiras. Mulheres inseguras com o marido que estava muito solto e quase não lhe dava atenção. Pessoas indecisas que diziam estar distraídas pelo bufê. Dúvidas sobre posições desconhecidas eram bem rotineiras. Afinal, nem todos conhecem o cowboy invertido aéreo, a colhedora de mandioca e a Smurfete trepidante. Ainda assim, a mais comum era de maridos sem sorte.
- Rico, minha mulher já transou com uns sete e até agora tudo que consegui foi uma punhetinha.
- Pois é, Rico! A minha também! E eu até agora só consegui bater uma punhetinha para ele.
- Ok, senhores! Vamos testar a concentração dessas lhamas cantantes.
Algumas brincadeiras eram criadas para entreter os participantes. As mais famosas eram Boca do Palhaço e Pescaria. Salto com Vara teve de ser suspenso depois que o Rico passou a aceitar orientais nos bacanais. Outra brincadeira cancelada foi a Tonico Tá no Oco, que por um desentendimento acabou com um grupo de pessoas nuas desvairadas atacando o vigia do prédio com mesmo nome.
O fato é que os bacanais eram bastante animados com uma movimentação intensa. Se tivesse que fazer uma comparação, remeteria às cenas clássicas de perseguição do desenho Scooby-Doo. Todo capítulo tem uma cena em um corredor com muitas portas dos dois lados, então entra personagem em uma, sai em outra, vai outro personagem em mais uma e depois aparece em outra. Aquela confusão de todos entrando em todas as portas, mas nunca se encontrando. Acho que deu para entender a metáfora, né? Bem, até meu pai entenderia.
Por falar em pai, eu preciso fazer uma correção. De fato ele tinha razão, pois até nos bacanais do Rico existiam regras. Na realidade, uma regra. Jamais podiam trocar o canal da televisão. Isto era sagrado. Aconteça o que acontecer, nunca podia tirar do canal de leilão de animais rurais. Não sei ao certo o verdadeiro motivo, entretanto, Rico dizia que aquilo fazia com eles se sentissem menos animais.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Histórias reais inventadas por mim

No caixa do supermercado
- Oi, Jorge Luiz. Já está saindo do supermercado?
- Oi? Não, querida. Estou no caixa ainda, mas sabe o que é? A caixa que está me atendendo é daquelas bastante falantes.
- Você quer dizer chatas?
- Não, até que ela é bem prestativa e conveniente.
- Ahn? Então o que foi? Ligou para falar apenas isso? Estou enrolada aqui, Jorge Luiz.
- Não! Não! Por outra coisa. Ela é meio impaciente.
- A caixa é impaciente?
- Não, estava falando com ela que você é meio impaciente. Bem, de qualquer forma, rolaram umas dúvidas aqui com alguns itens.
- Jorge Luiz, não tem dúvida. Eu te mandei uma lista específica. O que não tiver, não inventa que no mercado aqui de baixo do prédio tem. É um pouco mais caro, mas tem.
- Pois é, Cristina. Sabia que a caixa tem uma frase curiosa que ela falou há pouco? É algo assim: Se seguisse sua lista à risca, Colombo nunca acharia as Américas.
- Que frase sem sentido, Jorge Luiz. Colombo não tinha uma lista de passos a seguir para chegar ao destino. Ele tinha uma lista de itens de especiarias para levara para sua esposa. E ai dele se tivesse alguma dúv...
- É, não falei? Ela não gostou da frase.
- Estou falando com você, Jorge Luiz.
- Oi, Cristina. É que ela perguntou o que você achou da frase. Peraí que ela está falando outra aqui. Como é? As listas dos pedidos... Ah de! As listas de pedidos são as... Amarras? Ok... São as amarras da felicidade do consumo básico. Essa é boa, hein, Cristina?
- Jorge Luiz, tenha paciência. Estou toda enrolada aqui fazendo o jantar para seus primos que chegam mais tarde. Não bastante, temos uma criança hiperativa correndo pela casa com um avião na mão derrubando tudo que vê pela frente cantando Let it go. É quase uma versão de muito mau gosto de musicais tipo Jesus Cristo Superstar. É o Osama Bin Laden Supercold heart!
- Tá bom! Tá bom! Uma das dúvidas é sobre as laranjas.
- O que tem, Jorge Luiz? Pedi duas dúzias de laranjas lima. Qual a dificuldade?
- Então, ela disse que se for para fazer suco, melhor comprar a laranja Bahia, que é tão saborosa quanto e rende mais.
- Não, Jorge Luiz. Aparentemente sua amiguinha aí não entende muito de economia doméstica. A laranja Bahia é mais cara que a laranja lima.
- Ahá, aí que se engana, Cristina. Aqui, a laranja lima está custando R$ 0,66 a unidade e a laranja Bahia R$ 0,79. Contudo, pelo o que ela disse, estatisticamente, uma laranja lima dá em média 49ml de suco, enquanto cada laranja Bahia dá 64ml. Logo, gastaríamos um total de R$ 15,84 para obter 1,18 litros de suco de laranja lima. Se fosse com a laranja Bahia, gastaríamos R$ 18,96 para 1,54 litros de suco.
- Jorge Luiz, continuaríamos gastando mais com a laranj...
- Sabia que diria isso, Cristina. Pois eu disse o mesmo para ela. Mas ela é uma caixa muito sabida, sabia? Ficou ruim essa construção, né? Enfim, ela recorreu à Regra de Três. Você se lembra disso, Cristina? Lógico que não! Nem precisa confirmar. Somos um casal de advogados incapazes de montar a tabuada de quatro. Digo, do número quatro. Porque se ficarmos de quatro nunca mais nos levantamos.
- JORGE LUIZ, PARA DE FALAR! Compra a maldita laranja lima que eu gosto, ou do contrário faço uma Regra de Três na sua testa quando chegar. Ok? Um beij...
- Não, não desliga! CRISTINA!
- O que foi, Jorge Luiz?
- Temos um problema também com o sabão líquido.
- O que foi desta vez? Ela aplicou a fórmula de Pitágoras na composição e concluiu que ele rende menos que o da outra marca?
- Não, Cristina. Que bobagem. Isso nem faz sentido. Pitágoras é para geometria. Usado para resolver problemas de triângulo retângulo até eu sab...
- FALA, HOMEM DE DEUS!
- Ela comentou que este sabão líquido especial para roupas escuras só vale a pena se for para roupas delicadas.
- E qual o problema? Eu tenho umas calcinhas pretas.
- Pois é, mas ela comentou que precisa ser algo mais delicado mesmo. Tipo um fio dental.
- E por que ela disse que não vale a pena comprarmos, Jorge Luiz?
- Ora, eu comentei que você não usa fio dental. Estou mentindo? Você sequer depila a bunda para que eu não me anime a pedir coisas que não quer fazer.
- Jorge Luiz, olha a vergonha. Você está em um supermer...
- Qual o problema, Cristina? Não é vergonha alguma não usar fio dental. Vergonha seria usar com uma bunda não depilada. Ia parecer o Lula nos tempos áureos como se estivesse em uma despedida de solteiro com uma calcinha na boca com o rosto de lado. Imagine ele falando “fonfanheiros, veja o que tenho preso no dente...”
- JORGE LUIZ, PARA DE FALAR! As pessoas ao redor devem estar ouvindo.
- Nada, Cristina. Ninguém está prestando atenção. Todo mundo na fila está olhando para o próprio carrinho. Escutou? Foi o pessoal dizendo que não está ouvindo.
- Ai Jorge Luiz, que vergonha. Chega! Vou desligar!
- Não, mais um item apenas!
- Qual? Qual, homem? QUAL?
- A cobertura de chocolate.
- Qual o problema? É para colocarmos no sorvete quando oferecermos como sobremesa para seus primos.
- Então, Cristina. Ela disse que a cobertura pode ser usada para incrementar nossa vida sexual também. Tipo, colocar na sua sobremesa. Sua, entendeu?
- Ai, Jorge Luiz.
- Sim, mas ela disse que tem de ser de outra marca. Essa é muito enjoativa. Daí, com dois minutos lambendo sua periquita eu estar...
- Vagina! VAGINA! Você sabe que odeio esses termos. E ninguém vai colocar cobertura alguma aqui, entendeu?
- Mas, Cristina, precisamos dar uma animada nas coisas em casa. E preciso concordar com ela, você anda bastante tensa ultimamente.
- Você contou da nossa vida para a caixa do supermercado, Jorge Luiz?
- Aparentemente ela é uma senhorinha muito persuasiva. Conseguiu tirar várias coisas de mim. A sua mania de só usar calcinhas de algodão compradas em cestos de promoção, a monotonia no sexo, a incapacidade de falar sacanagem, a dificuldade de sair do básico, os probl...
- Peraí! Você disse senhorinha?
- Sim, bem senhorinha.
- Senhorinha tipo quanto?
- Uns sessenta e cinco. Não se sinta ofendida, minha senhora. Ela não se sentiu.
- Jorge Luiz, pergunte o nome dela agora!
- Desculpe, mas qual seu nome? Acho que ela vai fazer alguma recl... O nome dela é Susana Iolande.
- Seu idiota! Você está na pegadinha do programa de dicas sexuais.
- Como? Peraí! Minha esposa disse que estou em uma pegad... É verdade? Sério? Vou aparecer na TV? Olha só! Cristina, já te ligo de novo. Vou mostrar uma foto sua para que apareça também.
- NÃO! JORGE LUIZ! NÃO MOSTRA! JORGE LUIZ! EXPLICA QUE TENHO ALERGIA A CHOCOLATE NA XOXOTA!