terça-feira, 26 de agosto de 2014

Amargura por Extenso

Delírios divinos
Não sei se vocês também, mas eu tenho inveja de muita coisa por aí. Só que uma inveja boa, nada de inveja rancorosa desejando o mal a alguém. Apenas sinto inveja por não ter escrito aquele trecho de livro que achei genial, não ter bolado um roteiro de filme que virei fã, até mesmo de letra de música já senti inveja por não ser o responsável. Uma das coisas que encabeça essa minha constrangedora lista de coisas que invejo está uma piada com a cena dos três reis magos no nascimento do menino Jesus.
Resumindo, a cena original é o menino Jesus na manjedoura acompanhado por Maria e José até que os três reis magos entram com presentes. Cada presente possui um simbolismo. O ouro é para indicar a realeza, o incenso se refere à fé e a mirra remete à futura morte do messias. Na piada, tem-se exatamente as mesmas coisas, só o diálogo que muda com a absurda possibilidade de um dos reis ficar constrangido. Algo mais ou menos assim:
Belchior: Eu trouxe incenso.
Gaspar: Eu trouxe mirra.
Baltazar: Eu trouxe ouro.
Belchior: Ouro? Mas não tínhamos combinado de trazer apenas uma lembrancinha? E agora você me aparece com ouro enquanto dei um saquinho de incenso? Ah não, vou lá fora comprar algo melhor.
Semana passada, conversando com um professor sobre assuntos aleatórios, a cena dos reis magos voltou à minha cabeça sabe-se lá por qual motivo. Foi inevitável sugerir outra situação para o caso, depois outra, seguida de mais uma e assim sucessivamente. Vocês sabem como é cabeça de pessoa hiperativa sem acompanhamento profissional, não sabem? Mesmo com a certeza que jamais irei superar a minha cena favorita, optei ainda assim por transcrevê-las. O mote é o mesmo, a entrada dos três reis magos para entregar os presentes, com a diferença que o messias supostamente nasceu no século XXI. A proposta é criar o absurdo exatamente com a falta de bom senso das pessoas ou com situações corriqueiras que passamos em eventos deste tipo:
Cena 1 (praticidade)
Belchior: Eu trouxe incenso.
Gaspar: Eu trouxe mirra.
Baltazar: Eu trouxe um vale-presente da Saraiva. Só presta atenção que é válido até o final de fevereiro, tá?
Cena 2 (a cara-de-pau dos nossos dias nos dai hoje)
Belchior: Eu trouxe incenso.
Gaspar: Eu trouxe mirra.
Baltazar: Vocês se incomodam em me dar a senha do wi-fi?
Cena 3 (cara-de-pau II)
Belchior: Eu trouxe incenso.
Gaspar: Eu trouxe mirra.
Baltazar: Eu trouxe a minha Gopro. Vamos juntar todo mundo e tirar uma foto aqui. José, puxa aquela vaca malhada para sair na foto também.
Cena 4 (tradição nos escritórios)
Belchior: O pessoal fez uma vaquinha para comprar um presente melhor, tá? Está aqui. Esperamos que goste.
Gaspar: E aqui o cartão com a assinatura de todos que participaram.
Baltazar: Isso! Meu nome não está aí porque não deu tempo de assinar. Belchior, segunda eu deposito na sua conta, tá bom?
Cena 5 (cada um traz uma caixa que eu levo a carne)
Belchior: Eu trouxe uma caixa de Itaipava.
Gaspar: Eu trouxe uma caixa de Cerpa.
Baltazar: Ah, qual é, galera! Eu comprei Stella à toa?
Cena 6 (brinquedo é sempre a melhor opção)
Belchior: Eu trouxe o boneco do Tyrone dos Backyardigans.
Gaspar: Eu trouxe o DVD da Galinha Pintadinha.
Baltazar: Eu trouxe a Pepa Pig, mas relaxa é que unissex.
Cena 7 (quem tem bicho em casa passa sempre por isso)
Belchior: Eu trouxe incenso.
Gaspar: Eu trouxe mirra.
Baltazar: Ih, o sofá é de feno? Estou de bata preta. Vai encher de pelo!
Cena 8 (cara-de-pau III)
Belchior: Olha, não deu para trazer um presente. Sabe como é, né? Tudo em cima da hora.
Gaspar: E hoje ainda é feriado. Fica tudo fechado no Natal.
Baltazar: Eu trouxe um vaso de violetinhas que comprei no quiosque aqui da esquina. Não molha todo dia, não!
Cena 9 (perdidos ou atrasados)
Belchior: Gente, desculpe a hora. Sei que são quase meia-noite e criança deve dormir cedo.
Gaspar: Pois é, foi muito difícil achar o endereço.
Baltazar: E o GPS do meu carro errou nas indicações. Nunca mais compro GPS da marca Estrela de Belém.
Cena 10 (mulambentos)
Belchior: Trouxe uma camisa do Botafogo. Esse garoto é glorioso.
Gaspar: Trouxe uma camisa do Fluminense. Esse garoto é sangue azul.
Baltazar: Trouxe uma camisa do Mengão. Já vem escrito Zico atrás, o verdadeiro messias.
Cena 11 (conveniência)
Belchior: Dei uma passadinha no shopping e comprei nas Lojas Americanas esse enfeite de berço.
Gaspar: Fui na Venâncio 24horas e trouxe essas fraldas e Hipoglós.
Baltazar: Olha só, passei ali no posto Ipiranga e tudo que tinha era essa lata de óleo. É do coração do nosso carro.
Cena 12 (comentários constrangedores)
Belchior: Vocês gostam de decoração rústica, né?
Gaspar: O bom de quase não ter paredes é que a casa fica arejada.
Baltazar: E não é que esse bode de vocês quase não fede.
Cena 13 (piadinhas sem graça)
Belchior: Que criança bonita! Você fez o DNA dela, José?
Gaspar: Liga, não! Pai é quem cria.
Baltazar: Essa criança me lembra muito um soldado romano.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Queimando o filme



Clássicos do cinema em versões mais realistas e factíveis. O texto a seguir pode conter termos chulos e ofender pessoas frescas que não sabem lidar com sarcasmo ou imaturidade gratuita.
De volta para o futuro
Estamos no ano de 1985. Na casa dos McFly as coisas continuam na mesma rotina de anos e anos. George, o pai, segue frustrado com seu emprego deplorável de vendedor de planos da AT&T. Para piorar, ele é alvo de piadas e humilhações do seu chefe e vizinho Biff Tannen. Lorraine, a mãe, segue cada vez bebendo mais, o que a acaba a deixando fora de forma, motivo para beber mais e mais, formando assim um círculo (literalmente) vicioso. Os dois se conheceram quando Lorraine atropelou George na época da faculdade. Ainda assim, mesmo com essa história sendo contada frequentemente para os filhos, sempre existiu a impressão de que os dois escondiam algo sobre o acontecimento, sobre a passividade de George com Biff e o motivo da bebedeira de Lorraine.
Dos três filhos do casal, Marty é o mais safo de todos, o que não é digno de muito reconhecimento. Dave é um retardado que só sabe ler quadrinhos de super-heróis, jogar pinball na lanchonete da esquina e comprar bonequinhos do Falcon. Ele tem mais de dezoito anos. Linda está no décimo ano na faculdade local do governo. Ela começou fazendo sociologia, depois foi para comunicação, passou para filosofia, transferiu para letras e atualmente está fazendo apenas disciplinas eletivas enquanto aguarda a abertura do curso de responsabilidade sócio-ambiental em países comunistas. Ela é bolsista e ainda não se formou em um curso sequer.
Voltando ao Marty, ele está na escola e tudo que sonha é que sua banda faça sucesso, mesmo com um vocalista que tem temperamento imprevisível e notórios problemas em manter o peso. Seu único incômodo era com o nome da banda, motivo que o fazia discordar dos companheiros. Em um ensaio, depois de muita discussão por conta do nome, Marty é informado que será substituído por outro guitarrista caso não aceitasse o nome Guns and Roses.
Sem banda, Marty passa a ficar cada vez mais amigo do Dr.Emmett Brown, um engenheiro esquizofrênico, hiperativo, dislexo, desempregado e marginalizado pela comunidade científica por ser viciado em LSD e mescalina. Frequentemente Marty ia ao que Dr.Brown chamava de laboratório, uma garagem escura e suja, entulhada de quinquilharias que não funcionavam e coisas que um dia funcionaram, mas também foram desmontadas e não funcionam mais.
Certa noite, a pedido do cientista demente, Marty vai ao estacionamento de um mercado local. Lá encontra o Dr.Brown encostado em um DeLorean cheio de gambiarras. Com os olhos vidrados, fala acelerada e mãos nervosas, o criador explica ao jovem do que se trata a criatura. É uma máquina do tempo. O veículo que agora é movido a plutônio, depois de acertada a data destino no teclado de um Odyssey instalado no painel do carro, ao alcançar 120km/h viajaria no tempo. Enquanto Marty do lado de dentro do carro estava fascinado com aquela maravilha tecnológica e o Dr.Brown do lado de fora encenava seu processo criativo com gestos exagerados e movimentos cartunescos, uma van com alguns traficantes locais se aproxima. Eles querem cobrar uma dívida que o engenheiro adquiriu comprando supositórios alucinógenos. As coisas então saem do controle, os traficantes matam o desvairado cientista e Marty, assustado, foge com o carro que, ao alcançar a velocidade de 120km/h, viaja para a data que tinha brincado de colocar: o dia em que seu pai e sua mãe se conheceram em 1955.
Voltando no tempo, é óbvio que o local não seria igualmente um enorme estacionamento de mercado. Então, completada a viagem, assim que se materializa, o carro se esborracha em uma árvore. É perda total, nem adianta tentar fazer com que ande novamente. O motor voou longe, o Odyssey ficou em pedaços e o plutônio vazou transformando os pobres répteis que lá próximo estavam em tartarugas ninjas mutantes. Sem opções, ele cobre aquele monte de ferro retorcido com folhas, galhos e mato seco, seguindo a técnica de construção de cabanas aprendida em A Lagoa Azul que até então era para ele um lançamento, para depois andar até a cidade.
Chegando ao centro da cidade, Marty passará por diversas situações sobre coisas e costumes da época para mostrar que os roteiristas são antenados, até que enfim algo que preste vai acontecer. Andando pela calçada, ele vê seu pai, agora mais novo, atravessando a rua e depois sendo atropelado por sua mãe, uma gostosinha diga-se passagem. Ele chega a se recostar na parede de uma loja para mais à vontade presenciar o que seria a cena mais romântica da história de sua vida, e o que acaba acontecendo é um grande circo. Vários homens começam a cercar o carro acusando Lorraine de tudo e mais um pouco. Ouvem-se gritos coletivos de “piranha barbeira”, “vai pilotar fogão”, “mulher no volante, perigo constante”, “mulher no pedal, ameaça mortal” e um tímido ao fundo “eu comeria fácil, ela e o atropelado”. Marty, que esquecera ter voltado para uma época de predominância machista, fica assustado com aquilo tudo e não sabe o que fazer com medo de estragar o futuro, até que a polícia chega junto de uma ambulância. Pai George vai para o hospital, mãe Lorraine vai para a delegacia. Sabendo que o pai vai sobreviver, ele opta por seguir a ambulância usando um skate roubado de um adolescente. Essa cena em particular é assumidamente absurda, mas se faz necessária pela gravadora patrocinadora que queria uma oportunidade para colocar a música hit do filme.
O caos está formado na delegacia. Uma turba de homens coléricos pede a cabeça da menina que, ao invés de estar em casa desenvolvendo seus talentos domésticos, colocou em risco a vida de um rapaz ativo capacitado para sustentar uma família em um futuro próximo. Marty opta por ficar no meio daquilo tudo por cautela. O tumulto é tamanho que ninguém nota que ele veste um casaco do Boston Celtics com o número 33 e o nome Larry Bird gravado nas costas em comemoração ao título de 1981. Aqueles homens conservadores que são fãs de esportes não percebem, os repórteres sequer reparam e o roteirista é demitido depois disso.
Horas depois Lorraine é finalmente liberada após pagamento de fiança. Marty fica surpreso ao saber que quem pagou a fiança é a mesma pessoa que vai levá-la para casa: o jovem Biff Tannen. Indignado, Marty resolve seguir os dois com seu skate para que possam tocar a parte restante da música hit que ficou incompleta na primeira cena que era muito curta, mesmo para uma música pop de três minutos e meio.
Escondido no jardim e próximo à janela do quarto de Lorraine, Marty ouve a conversa dela com Biff. O que ele ouve é perturbador, aparentemente os dois são namorados. Incrédulo e disposto a confirmar o contrário, ele se levanta um pouco para enxergar o que se passa no quarto e flagra os dois se beijando. Ele se sente mal com aquilo, volta a se abaixar e tenta controlar a mente que está em uma velocidade descontrolada insinuando várias besteiras para ele. São longos minutos ali abaixado com os piores pensamentos possíveis. Como era possível a sua própria mãe, aquela santa criatura alcóolatra, trocando beijos com o rapaz que um dia seria o homem que humilharia seu pai dia após dia? Ele não poderia se conformar com aquilo e decide então surpreendê-los. Ao se levantar, o que era antes um pesadelo vira uma pequena imagem desconfortável perto do que presenciava. Sua mãe aplicava um guloso boquete em Biff. Ele passa mal, vomita no vidro da janela, desmaia e é sorrido por Biff com pau ainda de fora, das calças e da janela.
Mais tarde, com a consciência retomada, Marty está no quarto de Lorraine que ainda está acompanhada de Biff. Acontece uma longa e cansativa cena de diálogo entre eles até que seja explicado quem ele é e o que fazia ali. Todos convencidos que ele era um estudante de outra cidade perdido, o casal resolve ignorar o fato de ele ser um total estranho e começam a confabular em sua presença. Aparentemente, Lorraine seria condenada por atropelar George e a única solução era conquista-lo, para que assim ele retire a queixa. Martin, cada vez mais atordoado com a sequência de porradas que recebia horas após horas daquele dia nefasto, se levanta da cama, inventa uma desculpa e vai embora à procura do Dr.Brown.
Quando abre sua porta, antes mesmo que o desconhecido até então Marty pudesse falar algo, o Dr.Brown já antecipa “Desista, rapaz! Estou proibido de fabricar metanfetaminas.”, para a surpresa do garoto que precisa de muito esforço para conseguir a atenção de um agitado e confuso Dr.Brown, que estranhamente aparenta ter a mesma idade de 30 anos depois, provocando mais tarde a demissão do segundo roteirista. Após alguns argumentos de Marty e muitos olhos esbugalhados do cientista aloprado, o rapaz consegue convencê-lo a ir com ele até o DeLorean destruído. Chegando lá, Dr.Brown fica espantado com tamanha tecnologia e sua capacidade de desenvolver algo do tipo. Marty então explica seu problema, tudo que aconteceu e pede para que ele conserte o carro para que possa voltar para o tempo de onde veio, tempo que aparentemente não era tão cruel com ele. Infelizmente Dr.Brown não tem boas notícias para ele:
“Rapaz, isso nunca vai ser refeito! Você está falando com um imbecil desgraçado que passa o dia todo fumando haxixe e tocando punheta para encartes de lingerie que furto da caixa dos correios dos vizinhos. E você acha que é fácil achar plutônio? Ainda mais depois que aqueles porcos da Casa Branca encheram a cabeça daqueles amarelos nojentos dessa merda radioativa na segunda guerra? Esquece! Não tem como! Mesmo que conseguisse comprar plutônio no mercado, precisaríamos consertar o carro. Só que não existe tecnologia atual capaz de substituir aquelas peças. O mais perto desse carro que posso conseguir é um Lincoln Continental 1948, uma banheira gigante que pesa mais que o Titanic e precisaria de uma rodovia inteira para alcançar aquela velocidade. Rapaz, sinto muito por você. Lamento que sua mãe seja uma piranha que vai casar por conveniência com seu pai e manter um relacionamento secreto com aquele brutamontes. Já cogitou a possibilidade de ser filho desse tal de Biff? Pelo que me falou, você é bem diferente de seus irmãos. Você consome drogas? Deveria! Tenho uns adesivos mágicos na minha garagem. Quer vender comigo? Podemos fazer uma grana boa, o que acha?”
O restante do discurso do Dr.Brown é ignorado por Marty. Ele está totalmente desconcertado. Era como se tivessem tirado o chão debaixo dele. Marty estava em sua cidade e perdido ao mesmo tempo. Ele tinha pais e ainda assim era órfão. Estava preso naquela época para sempre e graças a dois doutores Emmett Brown. Primeiro, o do futuro, ou ex-presente, que o meteu em toda essa confusão. Segundo, o drogado e imbecil do passado, ou atual presente, incapaz de resolver seu problema. Não existia escapatória, ele tinha de recomeçar a vida.
Desgostoso com tudo, ele resolve ignorar Lorraine, George, Biff ou qualquer outro vínculo com sua família original. Naquele momento ele se tornara apenas Marty, um misterioso rapaz sem origens que arriscaria a vida no mundo da música. Para isso, ele ficou por um semestre inteiro vendendo drogas alucinógenas fabricadas pelo Dr.Brown em sua garagem para juntar dinheiro e produzir seu próprio disco. Com o primeiro objetivo concluído, ele planeja se apropriar de todas as músicas que eram sucesso na sua época para assim mais rápido alcançar o sucesso.
Dois meses depois de pagar do seu próprio bolso o lançamento do seu disco, Marty voltava a vender drogas para o Dr.Brown. Aparentemente a década de 50 não estava pronta para uma banda chamada Menudo que tocava músicas como Super Freak, Like a Virgin, Kung-Fu Fighting e I Want to Break Free.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Histórias Reais Inventadas por Mim

 Divagações fálicas
Era uma festa de exibicionismo puro, daquelas em que o anfitrião inventa uma desculpa qualquer para chamar amigos e pessoas de influência nos mais sofisticados círculos sociais para esfregar a sua casa e conquistas em suas caras. Os convidados ficavam espalhados pelo enorme e bem cuidado jardim aos fundos da casa, todos em mesas alugadas especialmente para o evento, mas arrumadas como se fossem mobília permanente ao redor da piscina que recebia uma iluminação artística que, se não fosse provisória, nunca tinha sido acessa antes. Garçons com trajes impecáveis serviam champanhe para as madames, uísque para os marmanjos e coquetel para os que gostam de ostentar bebidinhas coloridas em mãos. Se quisesse algo diferente como rum, tequila, vodca e outras bebidas que fariam os almofadinhas contraírem todos os músculos do rosto ao beber, você tinha de ir para o bar localizado em um dos vários ambientes da obscena da sala principal da residência. Era lá que eu estava. Não pela bebida em si, pois não é todo dia que posso tomar um porre de Blue Label que era servido no jardim, mas pelo público que o frequentava.
Em volta do bar estavam as pessoas que, mesmo frequentando habitualmente este tipo de evento, possuíam um comportamento um pouco diferente dos que estavam no jardim. Nada de vocabulário pomposo, falavam sobre assuntos corriqueiros, tinham uma postura informal e, o melhor de tudo, tentavam me acompanhar na bebida. Eram pessoas mais despojadas digamos dessa forma. Mesmo assim, eu era um peixe fora do aquário, se me permitem usar uma frase-pronta clichê. Na verdade, estava em um patamar muito abaixo delas, não apenas socialmente e financeiramente, mas principalmente em reputação.
Não fazia sentido ter sido convidado. A anfitriã me odiava por ter arruinado o casamento de sua irmã mais nova, coisa que não tive culpa direta, que fique registrado. A menina tinha 23 anos e casou com um velho bundão de mais 50 anos cheio da grana. Ele a enchia de presente e mimos, pagava viagens, deixava uma horda de funcionários à sua disposição, coisas que toda mulher sonha. Acontece que uma menina naquela idade sonha com isso, mas também tem vontades carnais, e nisso o cara não chegava junto. Bem, o resto já podem concluir, né? Enfim, um dia o cara descobriu, deu um pé na bunda dela que veio correndo achando que eu iria assumir algo com ela. Claro que não! A vantagem de morar em cidade pequena é que todos sabem a sua fama e a minha era de ser solteiro convicto. Nunca casei, noivei ou namorei. Vivia de um bar frequentado por uma rapaziada alternativa de roupas rasgadas e cabelos coloridos e me divertia comendo universitárias com problemas afetivos paternos ou mulheres com casamentos fracassados. Não podia ser mais perfeito, tinha mais de 40 anos e estava no auge.
De tanto beber rum, precisava ir ao banheiro. Fui ao que parecia ser o mais distante e discreto de todos. Caso tivesse sorte, fumaria um baseado rapidamente. Peguei então um longo corredor e ao me aproximar do banheiro, a porta se abre. Era a Cristina, a anfitriã que saia dele. Ao me ver, ela parou e me analisou da cabeça aos pés. Não sei se já disse, mas se a minha presença por lá era algo incompatível, meus trajes necessitavam de um adjetivo especial pra descrever tamanha discrepância. Estava de bota, calça jeans surrada e com alguns rasgos na frente, camisa preta, jaqueta de couro e uma bandana amarrada no pulso para esconder as marcas de um incidente recente. Cristina, que vestia um vestido vinho justo ao seu corpo, que preciso dizer ser invejável, não o vestido, o corpo, principalmente se considerarmos sua idade e os dois filhos nas costas. Ela me olhou com uma expressão que não sabia se era desprezo, pena, constrangimento ou algo relacionado a um possível problema intestinal que a levou até aquele banheiro destacado. Como junto dela não veio nenhum aroma estranho, escolhi desprezo para descrever a sua expressão. O olhar durou alguns segundos e nem tinha como evitar, pois ela estava exatamente na porta obstruindo minha passagem. Eis que do nada ela me pega pelo colarinho do casaco e me puxa para dentro do banheiro, trancando a porta em seguida.
- Sempre quis fazer isso com você.
Assim que anunciou, ela ficou de costas para mim e se inclinou na direção da bancada da pia. Nada podia ser mais proibido do que foder a anfitriã de uma festa no banheiro da sua própria casa com o marido por perto, sendo ela a mulher que tanto me despreza. Não pensei duas vezes, abaixei minhas calças, dei umas duas balançadas na minha rola e ela já estava rija, pronta para a ação. Sei que provavelmente alguém vai ficar ofendido dizendo que usei um termo chulo. Pois saibam que rola é um termo técnico para o membro sexual masculino, conhecido cientificamente como pênis. Explicarei.
A cultura masculina é naturalmente competitiva, dinheiro, fama, corpo, conquistas, tudo. O homem é tão competitivo e babaca ao mesmo tempo que disputa corrida com motorista de ônibus que está cagando para ele e só está fazendo merda no trânsito. No topo da competitividade masculina está a sua cultura falocêntrica. Tanto que desenvolveram uma nomenclatura técnica para classificar o pênis de acordo com o tamanho.
A nomenclatura mais conhecida é pau, usada para classificar o pênis que tenha a medida dentro da média. E que fique claro que a média precisa ser local, pois sabemos bem que a média no Congo deve ser bem diferente da média no Japão, que estranhamente tem aumentativo no nome. Em seguida vem o termo piru, com a letra i, porque com a letra e trata-se do animal, então, se um dia seu namorado disser que vai lhe enfiar o peru, ligue para o IBAMA fazendo uma denúncia de zoofilia. Enfim, piru é necessariamente um pênis com medida ligeiramente menor que a média, digamos um, no máximo, dois desvios-padrões abaixo. Depois existe o pinto que se refere a um pênis bem abaixo da média. Algo em torno de três desvios-padrões de diferença. Qualquer coisa muito abaixo disso não possui nome técnico, mas pode ser chamado de vergonha, deboche biológico ou clitóris.
No sentido oposto da escala, existe a rola, termo que utilizei. Ele é adequado para o pênis acima da média, mas ainda dentro de um a dois desvios-padrões de diferença. Entre dois e três desvios-padrões acima da média, o pênis leva o nome de piroca. Nome bastante justo, pois para pronunciá-lo é exigido que se encha a boca e se você, minha amiga, não estiver disposta a encher a boca, você não está pronta para lidar com uma piroca. Qualquer coisa além de três desvios-padrões acima deve ser literalmente chamada de coisa, mas também de aberração, ofensa, deboche coletivo, jequitibá ou Ubirajara.
A única ressalva é o termo caralho que não entrou na classificação por estar consolidado no vocabulário como termo de diversas aplicações. Dentro das mais famosas está para situações de espanto: “Caralho, isso é enorme!”. Para orientações geográficas: “Vai para o caralho com essa coisa mini que tem no meio das pernas!”. Para intensidade: “Isso está peludo para caralho!”. Para determinar coisas com funcionamento ruim: “Esse caralho não levanta!”. Ou tudo isso junto: “Caralho, mas nem aqui, nem na casa do caralho que você vai enfiar esse caralho torto para caralho em mim!”. Claro que os exemplos não precisavam ser relacionados a pênis, isso foi apenas um recurso didático que aproveita o tema em pauta para um melhor entendimento de conceitos novos.
Voltando ao banheiro, eu tinha acabado de direcionar o meu sangue para os canais venosos do meu pau. De imediato, aproveitei que Cristina já estava naquela posição e levantei seu vestido. Antes que pudesse abaixar sua calcinha, ela se virou rapidamente para mim:
- Você está louco – ela fez uma pausa ao reparar que estava de pau de fora e continuou. – Qual o seu problema?
Daí que notei que ela tinha acabado de montar algumas carreiras de cocaína na bancada da pia e já tinha uns restinhos de pó na ponta do nariz. Constrangido, tentei explicar rapidamente o que tinha passado pela minha cabeça, mas ela estava doida demais para entender. Tudo que fez foi me dar um canudo e voltou a enfiar a cara na farinha. Ficamos ali como dois tamanduás inalando tudo que tinha para ser inalado. Ela de vestido ainda levando e bunda de fora, eu de calças arriadas e com o pau duro encostado na pia. Não transamos um minuto sequer e, não sei na cabeça de vocês, mas na minha, isso foi a maior sacanagem da minha vida. Em ambos os sentidos.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Eleições 2014 - Debate ao vivo

Por conta do enorme sucesso da entrevista que fizemos com o candidato Jorginho da Pipoca que alcançou o nosso recorde pessoal de três leitores, contando com mamãe, conseguimos levantar verba e promover o primeiro debate entre candidatos à prefeitura de Tartarugalzinho. Qualquer semelhança com candidatos reais é uma mera coincidência ou um excesso de imaginação por parte de quem nos lê. Mas chega de papo e vamos ao vivo para o estúdio localizado aos fundos da mercearia da dona Alzira.
APRESENTADOR: Senhoras e senhores, o circo está armado. Hoje tem marmelada? Hoje tem goiabada? E o político o que é? Não respondam! Por favor, não respondam! Bem-vindos ao nosso debate. Recebemos hoje os cinco maiores candidatos à prefeitura de Tartarugalzinho. Caso você também seja candidato e não foi convidado, talvez para a política local você seja tão insignificante quanto um escritor de blog é para a literatura nacional. Primeiro apresento o candidato Pirralho do PCdoB, Partido dos Crápulas Brasileiros. Ao seu lado, do governo atual, o candidato Sasquatch do PMDB, Partido dos Muito Despreparados do Brasil. Seguindo, temos o Ecabergh do PT, Partido dos Traíras. O próximo é o candidato Caravela do PDT, Partido do Dízimo Transferido. E por último, o candidato Janjão do DEM, Distribuição Exagerada de Massa. Vou pedir que cada um faça um breve boa noite para abrirmos os trabalhos. Candidato Pirralho, por favor, comece.
PIRRALHO: Boa noite a todos e queria aproveita a deixa para lembrá-los que, no meu último mandato como prefeito, eu criei o boa noite, o bom dia, o boa tarde. Além de ter criado também os boa viagem, bom trabalho, boa sorte, boa prova, bons sonhos e o boaquete que aparentemente não vingou muito. Já o partido da situação, só para lembrar, fez projetos fracassados como o boato, o boabá para substituir o baobá e o Bonaparte.
APRESENTADOR: Muito obrigado. Agora, com a palavra, o candidato Ecabergh.
ECABERGH: Meu boa noite é para o pobre de Tartarugalzinho, para o rico de Tartarugalzinho e para a distância que existe entre eles que pretendo reduzir. Boa noite.
APRESENTADOR: Ok, obrigado. Agora o candidato Caravela.
CARAVELA: Bem... eu... queria... dar... boa... noite... para... todas... as...
APRESENTADOR: Seu tempo acabou, candidato. Agora o candidato Sasquatch, mas o tempo dele também acabou. Por fim, o candidato Janjão, mas ele não vai se pronunciar ainda porque está com a boca cheia de empadinha de frango. Vamos então para a primeira rodada. Nela, cada candidato faz uma pergunta para outro candidato. Candidato Pirralho, faça sua pergunta para o candidato Sasquatch.
PIRRALHO: Prefeito, no início do ano, tivemos um desastre na cidade com o deslizamento do Morro da Popozuda, várias pessoas morreram, outras ficaram desabrigadas. O governo federal enviou verba para que pudessem dar suporte a todos, mas aparentemente o dinheiro sumiu. O que tem a falar?
SASQUATCH: Isso é uma mentira. Demos todo o suporte necessário. Muitos não sabem, mas, naquele dia, fui o primeiro a acordar. Fui também o primeiro a ver que tinha começado a chover e o primeiro a fechar a janela de casa por causa da chuva. Acredito que você esteja desinformado, pois assim que foi noticiada a tragédia, fui o primeiro a pensar que eu, como prefeito, deveria estar lá. Logo em seguida, sem pensar duas vezes, coloquei minha jaqueta marrom, mas depois, por livre e espontânea vontade, troquei pela preta para prestar solidariedade ao luto das famílias das vítimas. Isso você não fala.
APRESENTADOR: Sua réplica candidato.
PIRRALHO: Prefeito, você está fugindo totalmente do assunto. Eu perguntei sobre a verba de auxílio que foi desviada.
SASQUATCH: Não desviei. Fui bem objetivo ao falar da tragédia do desmoronamento daquele morro e acrescento mais se necessário. Como sabem, desmoronamento é quando árvores, terra, pedras e outras coisas deslizam do topo de um morro. E no topo daquele morro passa boi, passa boiada.
APRESENTADOR: Ok, já é suficiente. Agora, prefeito, você faz uma pergunta para o candidato Ecabergh.
SASQUATCH: Candidato, você fez fama quando jovem protestando contra a corrupção e agora é famoso por fazer aliança com os mesmo corruptos que condenava no passado. Como podemos saber que não vai trair a população?
ECABERGH: Pois saiba, prefeito, que todas as minhas ações são feitas com um único intuito, aproximar os pobres dos ricos dessa cidade. Tudo que quero é uma maior igualdade entre todos, sem separação de nível social.
APRESENTADOR: Réplica, por favor.
SASQUATCH: Mesmo passando por cima dos próprios ideais?
ECABERGH: Meus ideais são voltados para aproximar os pobres dos ricos. Diminuir essa distância que existe entre eles.
APRESENTADOR: Tá bom, chega! Agora, candidato Ecabergh, faça uma pergunta para o candidato Janjão.
ECABERGH: Candidato Janjão, como deve saber, meu objetivo é focado na distância existente entre os pobres e os ricos. Eu quero aproximá-los, acabando de vez com as diferenças. Quero criar uma cidade igual para todos, sem diferenças entre pobres e ricos. Pode responder.
APRESENTADOR: Candidato, isso não foi uma pergunta. De qualquer forma, candidato Janjão, a palavra é sua.
JANJÃO: E o que falo?
APRESENTADOR: Qualquer coisa, serás ignorado mesmo.
JANJÃO: Quero falar então do meu plano de governo para a educação. Melhores salários, professores motivados e recebendo constantes cursos de renovação. Salas de aula confortáveis, bibliotecas, centros culturais, maconhódromo, salas de informática, profissionalismo...
APRESENTADOR: Isso! Profissionalismo!
JANJÃO: Perdão?
APRESENTADOR: Profissionalismo é a palavra que estava tentando lembrar. Estava fazendo palavras-cruzadas enquanto falava. Enfim, belas ideias. Sua vez de fazer uma pergunta, agora para o candidato Caravela.
JANJÃO: Candidato, você é conhecido por sua influência no meio religioso. Não considera que política e religião não se misturam?
CARAVELA: Perdão... mas... eu... só... ouço... um... zumbido... Alguém... falou... algo?
APRESENTADOR: Estranho, também acho que ouvi algo.
JANJÃO: Ei! Eu fiz uma pergunta? EI! ESTOU FALANDO! Esse microfone está desligado?
APRESENTADOR: Seguindo. Candidato Caravela, sua vez de fazer uma pergunta para o candidato Pirralho.
CARAVELA: Candidato... você... possui... histórico... de... corrupção... e... ações... suspeitas... O... que...
APRESENTADOR: O que você tem a falar sobre isso. É isso que ia dizer, não é, candidato Caravela?
CARAVELA: Era... exatam...
APRESENTADOR: Tá bom! Pode responder, candidato Pirralho.
PIRRALHO: Assunto muito pertinente. Obrigado por perguntar. No meu último governo, eu criei a corrupção. Eu criei as notas superfaturadas, os desvios de verbas e o nepotismo. Tanto que consegui colocar para me substituir no mandato seguinte a minha esposa Urticariazinha. No governo dela, ela deu continuidade ao meu trabalho, criando a formação de quadrilha.
Apresentador: Candidato Caravela, sua réplica. Mas agiliza tá?
CARAVELA: E... o... senhor... não... acha... isso.... ruim?
PIRRALHO: Só eu posso classificar assim, candidato. Pois eu criei o projeto sobre o ruim, o péssimo e o detestável. Minha esposa, a Urticariazinha, deu prosseguimento com o detestável, o lastimável e o desprezível.
APRESENTADOR: Muito bem. Encerrada essa etapa, vamos à rodada de perguntas feitas pelos nossos internautas em sites, portais e parceiros. A primeira pergunta é do internauta do Grêmio de Alunos de Cursos de Blábláblá da PUC. É a seguinte: “Qual sua posição sobre a legalização da maconha?”. A pergunta é para o candidato João.
JANJÃO: É Janjão!
APRESENTADOR: Que seja! Responda, por favor, candidato Sebastião.
JANJÃO: É Janjão! JANJÃO!
APRESENTADOR: Ah foda-se! Ninguém se importa. Fala logo enquanto vou pegar um café.
JANJÃO: Sou totalmente a favor da legalização da maconha. Pois vejamos a palavra legalização. Ela começa com legal e tudo que é legal dever ser considerado legal. E sabemos que legal é a mesma coisa que bacana. E, ora, bacana é uma coisa legal.
APRESENTADOR: Candidato, o senhor está enmaconhado?
JANJÃO: Provavelmente. Seguindo, vou incentivar a maconha nos colégios, asilos, repartições públicas e na alimentação. Vou criar o sucrilhos de maconha, McMaconha, Nespresso de maconha e o Koni de maconha, que nada mais é que um baseado com peixe cru e arroz. Pensando nas consequências do excessivo consumo de maconha, vou criar o Vale-Larica. Para alavancar a minha campanha sobre a maconha, já consegui o apoio de todo grupo de atores da Rede Globo, dos jogadores do Flamengo e de um candidato à presidência.
APRESENTADOR: Agora uma pergunta do nosso patrocinador Enlatados Coqueiro: “Qual sua proposta para o transporte urbano que é sempre comparado a latas de sardinha, difamando nosso principal produto?”. Por favor, responda, candidato Ecabergh.
ECABERGH: Minha principal proposta é reduzir a distância entre o pobre e o rico. Farei que com se aproximem um do outro, sem distanciamento. E isso envolve a parte de transporte, tanto que, para reduzir essa distância, incentivarei os engavetamentos de Land Rover com ônibus lotado.
APRESENTADOR: Estou com uma pequena sensação de déjà vu, mas tudo bem. Vamos à pergunta do portal Bate-papo UOL para o candidato Caravela: “Olá! TC de onde? Como você é?”. Candidato, por favor.
CARAVELA: Bem... Eu... sou... branco... alto... cabelos acaju... cristão... preconceituoso... e... às vezes... um... pouco.. agitado...
APRESENTADOR: Ok, ok, ok. Agora a pergunta para o candidato Sasquatch feita pelo site Bueña Vista Social Club: “O que acha da contratação de médicos cubanos?”. A palavra é sua, candidato.
SASQUATCH: Não poderia ser melhor. Eles se adaptaram bastante ao serviço público de saúde. Vale lembrar que fizemos um exaustivo treinamento com eles, incluindo curso de soneca em ambulatório e preparação com fonoaudiólogos para pronunciar corretamente virose, Novalgina e “volte daqui a uma semana”.
APRESENTADOR: Agora o candidato Pirralho vai responder a pergunta enviada por torpedo do presídio de Bangu I, eis: “Qual a sua proposta para a polícia que atualmente conta com policiais truculentos, fora de forma e ineficientes?”. Por favor, candidato.
PIRRALHO: Antes de responder à pergunta, gostaria de lembrar ao candidato Sasquatch que Cuba foi uma invenção do meu mandato. Eu criei aquela ilha. Fidel Castro foi meu secretário de direitos humanos e Tito Puente meu porta-voz oficial. Agora seguindo sobre a polícia. Não é verdade que os policiais estão fora de forma. Acontece que diferentemente do que muitos dizem, não foi a Puma que inventou o uniforme coladinho no corpo. Fui eu quem o criou. No meu mandato, elaborei a farda justa e, por isso, parece que estão fora de forma. Sobre a ineficiência, isso é uma consequência de outro projeto meu, a meritocracia. Estávamos e continuamos com presídios lotados. Incentivei que se iniciasse uma campanha de esvaziamento. A tropa logo comprou nossa proposta e reduziu as prisões. O seu governo, prefeito, que foi ineficiente, criando chacinas, queima de arquivos, Amarildos etc.
APRESENTADOR: Agora pedirei a cada um suas palavras finais para encerramos este debate. Primeiro o candidato da situação, o prefeito Sasquatch.
SASQUATCH: Quero apenas agradecer a você pelo convite. Os eleitores conhecem meu trabalho. Agradeço também aos colegas presentes, Pirralho, Caravela e Ecabergh.
JANJÃO: E eu?
SASQUATCH: Acho que é isso!
JANJÃO: E EU?
APRESENTADOR: Agora, com a palavra o candidato Ecabergh.
ECABERGH: Também só tenho a agradecer pela oportunidade, mesmo que curta. Curta quanto a distância que quero reduzir entre pob...
APRESENTADOR: Ah vai para o cacete, né, candidato? Caravela, seu encerramento.
CARAVELA: Para... mim... foi... uma...
APRESENTADOR: O candidato Caravela vai publicar o seu agradecimento na página do Facebook e vocês podem ler por lá. Temos de agilizar, candidato. Vai começar a novela! Candidato Pirralho, sua vez.
PIRRALHO: Antes de agradecer, gostaria de lembrar ao candidato Caravela que as reticências são obras do meu último mandato. E, candidato Ecabergh, a redundância é fruto do governo da minha esposa Urticariazinha que me sucedeu. Por fim, o seu governo, prefeito Sasquatch, é responsável por tudo e qualquer coisa contrária ao que eu disser que fiz no meu ou no de minha esposa Urticariazinha. Por fim, apenas agradeço a todos por um debate justo, limpo e sem ataques ou mentiras.
APRESENTADOR: Pois bem, encerramos aqui nosso debate. Até as eleições!

JANJÃO: E eu? Ei! Ei porra! EI! EU AQUI, CARALHO! POR QUE ESTÃO APAGANDO AS LUZES? ALGUÉM CHAMA A MINHA ESPOSA QUE ESTÁ SAINDO ALI PELA PORTA. QUERIDA! Ela entrou no carro e se foi...

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Queimando o filme

Clássicos do cinema em versões mais realistas e factíveis. O texto a seguir pode conter termos chulos e ofender pessoas frescas que não sabem lidar com sarcasmo ou imaturidade gratuita.
Poltergeist – O Fenômeno
O bairro tem novos vizinhos, uma família está de mudança para a casa que por tanto tempo estava à venda. O casal Freeling e seus três filhos acabam de chegar com mala, cuia, caixas de papelão, móveis de MDF com prestações ainda por pagar, mas nunca ficarão firmes novamente e o projeto de construir uma piscina no quintal. A ideia original era que, com a mudança, teriam novos ares e, com novos ares, uma nova vida. Só que eles não sabem o que está por acontecer. Até porque, se soubessem, não teriam se mudado, daí não fariam o filme e a garotinha não morreria nas filmagens. Mentira, isso é só uma lenda.
Logo no primeiro dia, eventos estranhos começam a acontecer pela casa. O primeiro é presenciado pela esposa Diane. Ela está cozinha, se vira para pegar um copo e ao retornar, segundos depois, todas as portas dos armários estão abertas e as cadeiras sobre a mesa. Impressionada com a cena, ela grita: “Alzira!”. A faxineira chega e leva um esporro: “Já não tem falei que não quero a cozinha bagunçada? Está arrumando a sala? Termine a cozinha primeiro. Um cômodo por vez, mulher. Que não se repita!” A empregada sai sem nada entender.
Na noite do mesmo dia, acontece o segundo evento. Dana, a filha mais velha que está na adolescência, escuta um barulho estranho vindo do quarto de sua irmã mais nova. Ela entra para ver o que está acontecendo e se depara com o boneco Bozo de quase um metro de altura andando pelo quarto. O boneco então para de andar, aponta para ela, passa o dedo indicador pelo pescoço como quem diz que vai cortar a jugular de alguém e começa a rir. Dana sai correndo, entra em seu quarto e liga para o namorado. Assim que ele atende, ela grita: “Caralho, seu filho da puta! Esse ácido é muito louco! Não tem ideia das merdas que estou vendo.”.
No meio da madrugada começa a cair um temporal, ventos uivantes, trovões que fazem tremer as paredes e raios que iluminavam até os quartos com cortinas fechadas. Em sua cama, Robbie, o filho do meio está assustado com todos aqueles sons e luzes. Ele não consegue pegar no sono e vai para o quarto dos pais que estão dormindo. Depois de acordar o pai, ele conta que está com medo. Steve, o pai, fala que é bobagem. “Basta contar entre um trovão e outro, se o tempo aumentar é sinal que a tempestade está se afastando”, diz para o filho. O garoto então volta para o seu quarto se cagando de medo. O primeiro trovão explode o ensurdecendo. Ele então fala em voz baixa: “Que pai filho da puta. Estou cheio de medo e ao invés de me dar um abraço ou me chamar para dormir com eles, me manda contar e ficar prestando atenção nas merdas dos trovões que estão me assustando.”. Antes que pudesse completar a próxima frase, outro trovão estoura. Assustado, ele corre para a janela e vê a amendoeira que fica logo em frente criar vida e esticar os galhos em sua direção para pegá-lo. Ele grita, volta correndo para o quarto dos pais acordando o casal e conta o que aconteceu. Sua mãe não hesita e diz: “Robbie, todo véspera de prova você inventa uma palhaçada. Cansei. Ouviu? Cansei! Pode voltar para o seu quarto que amanhã você vai para o colégio fazer a maldita prova de matemática.”. Ele então, não mais assustado, mas frustrado, volta para o quarto, anda até a janela, abre e grita para a árvore: “Me leve com você para longe desses pais desnaturados.”. A árvore se vira para ele e diz: “Está pensando que sou o Barbárvore, moleque? Se enxerga!”. Ela então se solta do terreno e vai embora.
Ainda na madrugada, assim que a tempestade para, Carol Anne, a filha mais nova, é acordada com o som da televisão do quarto dos pais chiando. Ela se aproxima do aparelho que está apenas com chuvisco em tela, pois o canal está fora do ar, e depois de alguns segundos a encarando bem perto, ela sorri e começa a conversar com a TV. Ela diz uns “oi”, “olá”, “viva os Teletubbies” e de repente uma mão sai da tela e a puxa para dentro da TV. Toda essa ação provoca um ruído que acorda o casal. Eles olham para a imagem da televisão e parecem incrédulos com o que veem. Um olha para o outro, até que o marido chama a responsabilidade para ele, pega o telefone da cabeceira, disca um número, espera e quando é atendido grita: “Vocês da SKY são uma merda mesmo! Mal pode cair uma chuvinha e o sinal já some! Amanhã vou cancelar essa bosta!”.
Na manhã seguinte, pai, mãe e dois filhos estão à mesa para tomar o café-da-manhã, mas não pensem que é uma família unida. O pai e os filhos que são uns imprestáveis preguiçosos que exploram a mãe para fazer tudo. Tanto que bem depois perceberam que Carol Anne não aparecera para comer. Eles resolvem vasculhar a casa e nada. Não existem dúvidas, a caçula desapareceu sem sair de casa. Decididos a fazer algo para recuperar a filha, tomam a decisão mais acertada que uma família de classe média poderia optar, ligam para o Fantástico.
Algumas horas depois a equipe de filmagem aparece. Tadeu Schmidt inicia os trabalhos usando o detetive virtual para achar alguma fraude na casa. Ele nada encontra e ainda consegue frustrar a todos com suas piadinhas colegiais. Marcio Atalla perde o foco da visita e fica recriminando a comida estocada pela casa. Gloria Maria é confundida com uma assombração e sequer deixam que entre na casa. Acaba sobrando para Renata Ceribelli que fica por horas chamando pela criança, mas sem sucesso, ela não responde. E também nunca responderia. A apresentadora, assim como a maioria dos imbecis que viram o filme, insistia em chamar a menina de Carolaine (escreve-se Caroline). Daí fica difícil que a caçula responda, ela não é adivinha.
Frustrados com a ação fracassada da equipe global, a família então recorre ao Ratinho que não titubeia e manda um grupo de paranormais para a o local. Assim que chegam, Rosamaria de Oxossi, a líder do grupo crava a primeira premonição: a filha está dentro da TV. A família estupefata não entende como isso pode acontecer e pergunta quem está por trás de tamanha atrocidade. A especialista então crava a segunda premonição: a culpa é do local onde levantaram aquela casa. A mãe, de tanto ouvir estórias por aí durante a vida, cogita que a casa foi construída em cima de um cemitério indígena. Só que sua hipótese é rapidamente descartada pela líder da equipe: “Se fosse um cemitério indígena, sua filha não estaria na TV, mas sim em uma cumbuca, canoa ou dentro daquele quadro de tecido cafona pendurado na sua sala de jantar. Esta casa foi construída sobre um antigo posto de saúde do SUS onde diversas pessoas morreram na sala de espera enquanto assistiam TV.”. Convencida, a mãe corre para a televisão e pergunta como pode fazer para falar com a filha. Rosamaria diz que precisam sintonizar no último canal antes dela ser abduzida, para isso bastava apertar a tecla que dá o comando de voltar ao canal antes assistido. É o que mãe faz. A TV sintoniza no canal erótico que passa o filme “Todo mundo na bundinha da Suzana” e todos olham para o pai que rapidamente se justifica: “Ai caralho! Minha filha está desaparecida, fiquei tenso, precisava relaxar!”.
Depois de muito tempo, passando de canal em canal, finalmente conseguem sintonizar no que Carol Anne está presa. A equipe então inicia uma conversa com ela para entender melhor como farão para resgatá-la. A equipe faz várias perguntas, toma nota de algumas respostas, tira fotos da casa, usa uns aparelhos estranhos que piscam e fazem barulhos irritantes. Em seguida, se reúnem na sala e em alguns minutos traçam o plano de ação: “Entraremos pelo armário do quarto de Carol Anne e sairemos com ela pelo teto da sala!”. Dana retruca a decisão: “Mas isso não faz sentido alguma!”. A líder com toda sua experiência acalenta o coração da jovem: “Sua irmã está em um TV. Preciso dizer algo mais?”.
Com todos devidamente informados de como devem proceder, a equipe se prepara para entrar em ação. Erivelton, rapaz afeminado e enrustido, por ser o mais leve é escolhido para entrar no armário, por mais irônico que isso soe. Com uma corda amarrada em uma cintura ele inicia a caminhada. Após dados os primeiros passos, o rapaz grita assustado clamando pelo Senhor. As pessoas perguntam o que foi e ele responde: “Que horror esse monte de roupas da C&A, Renner e Marisa. Coisa cafona!”. Diane argumenta: “Precisamos apertar algumas contas por causa da compra da casa.” Robervaldo, irmão de Rosamaria e pai de Erivelton, vai contando a quantidade de corda que entra no armário como um recurso para saber o quão fundo o rapaz está: “Um metro. Dois metros. Três metros. Nárnia. Cinco metros.”
Com o passar do tempo e preocupada com a filha, a mãe começa a gritar para orientar a pequena: “Não olhe para luz, Carol Anne! Não vá para a luz, Carol Anne!”. Robbie retruca: “Legal! Vocês são foda. Estou me cagando de medo e me mandam de volta para o quarto. Minha irmã está sozinha sabe-se lá onde e vocês mandam ela fugir da luz e ir para o escuro. Só pode ser brincadeira.”. Certa de sua decisão, Diane continua com as mensagens para Carol Anne que responde estar com medo. Enquanto isso, Rosamaria pergunta a Erivelton como estão as coisas e ele diz que aquilo é terrível. Ela pede que ele se esforce e encontre a menina. Erivelton pede um tempo, todos se calam por uns minutos, até ele próprio quebrar o silêncio para dizer que a achou, mas logo depois gritar assustado. Diane desesperada pergunta o que houve e ele responde: “O horror! O horror! Esta menina com este pijama da feirinha de Petrópolis. Que coisa medonha! Joaninhas, ursinhos e brigadeiros por todos os lados. Meus olhos!”. Rosamaria ordena que ele pegue a menina e corra para a saída.
A cena que se segue é antológica. Todos no quarto parados, praticamente petrificados, catatônicos, com olhos vidrados apontados para o armário de Carol Anne. Silêncio. Tanto no quarto, quanto no armário. De repente, um enorme estrondo vindo da sala. Todos correm para lá e se deparam com uma enorme cagada. Erivelton e Carol Anne estão de volta. Ao sair pelo teto, ficaram completamente cobertos de plasma espectoral áureo, mais conhecido como geleca nojenta. Não bastante, nenhum imbecil ficou na sala para segurá-los quando caíssem do teto. Resultado, se espatifaram na mesa de centro de vidro, ficaram com cortes pelo corpo todo e sujaram o que não estava cagado de gosma com sangue. A mãe não se conteve de felicidade e gritou: “Minha filha está de volta! Que alegria, meu Deus! Só não te dou um abraço porque está toda nojentinha, né? Vamos tomar um banho antes?”. Rosamaria anuncia que não dá tempo, todos precisam sair correndo da casa que, logo em seguida, começa a tremer. Primeiro sai a equipe paranormal, depois mãe, filhas, filho e por último o pai que demorou porque voltou para salvar o Blackberry da empresa que se sumisse seria descontado. A casa então desaparece, resta apenas o terreno, o buraco de onde seria a piscina e um envelope pardo. O pai se aproxima, abre o envelope pardo, checa o que tem dentro e grita: “SEUS FILHOS DA PUTA!”. Eram as prestações a vencer da hipoteca.