terça-feira, 12 de agosto de 2014

Historias Reais Inventadas por Mim


Orgias químicas
Para variar ele chegou atrasado, coisa de vinte a vinte cinco minutos. Parece pouca coisa, mas o tempo era curto e todo esquematizado, um minuto atrasado implicava diretamente em comprometer toda a sequência dos planos. Não bastante, ele surge com uma mochila nas costas, mesmo eu avisando com antecedência para não levar coisa alguma, ou seríamos barrados. Ele era um imbecil e não sei por que insistia em manter contato com ele.
- Saca só o que eu trouxe – ele diz se aproximando e abrindo a mochila para mostrar o seu interior.
Ele fedia a éter. Não confundam éter puro com Cheirinho da Loló, que além do éter leva clorofórmio. A Loló, como chamávamos intimamente, tem toda uma relação romântica com nossa juventude por ser uma das primeiras drogas que experimentamos. Já o éter é coisa de preguiçoso, sem a menor relação com a droga, com a aventura e com o resultado final. O infeliz apenas subtrai um pouco de éter do frasco do avô que usa isso constantemente para tratar uma unha podre e, pronto, já está doidão.
Enfim, eram menos de dez da manhã e o desgraçado já estava fedendo a éter. Para dizer a verdade, como já notaram, eu implico com éter a qualquer hora do dia. Aquilo para mim é o nível mais baixo que uma pessoa pode chegar para ficar chapada. Ele aparentemente não tinha limite e pudores quando se tratava de ficar doido. Certa vez, em um ato desesperado para ficar bêbado, ele virou duas garrafas de Biotômico Fontoura só porque tinha álcool na composição. Além de não ter conseguido ficar um pouco alto sequer, ainda ficou com uma larica de dar inveja a uma comunidade de rastafáris.
- Porra – falei empurrando ele para se afastar. – Você está cheirando a armário velho de remédio, seu imbecil.
Ele riu debilmente e voltou a se aproximar para tentar mostrar novamente o interior da sua mochila. Quando conseguiu, fiquei hipnotizado com aquela cena. Era um mar de bolinhas, comprimidos, adesivos e papeizinhos de todas as cores possíveis. O que via naquele momento era um caleidoscópio de drogas, um mosaico de entorpecentes, uma colorida fábrica de alucinações. Ali tinha coisas que sequer sabia o que era. Não tinha a menor ideia por onde começar, estava estupefato, quase uma criança perdida dentro de uma loja da M&M’s. Sim, a analogia foi fraca e óbvia, mas é tudo que consigo pensar enquanto decido o que escolher.
- Ah seu verme – ele falava balançando a mochila. – Enfia a mão aí dentro e faz um sorteio. O que vier, veio.
Claro, era o que fazia mais sentido naquele momento. Não importava a ordem, seria tudo mandado para dentro mesmo. Meti a mão com tudo na mochila, mexi como se fosse sortear o último número da loteria de final de ano e tirei. PUTA QUE PARIU! Foi exatamente o que os dois disseram ao mesmo tempo. Era um pequeno papel marrom: ácido! Eu só costumava usar esse tipo de ácido para prolongar o efeito de outras merdas vagabundas que comprava por aí, mas nunca para começar o dia. Muito menos de barriga vazia. Colocava debaixo da língua quando ele saca, sabe-se lá de onde, uma pequena garrafa e me oferece para beber. Não pergunto o que é e mando para dentro.
- Caralho – falei cuspindo um pouco do líquido para fora. – Que merda é essa?
- É uma batida de pimenta que meu avô faz.
Aquilo desceu queimando a alma. A língua que estaria dormente pelo ácido, ficou áspera, irritada, virou tudo uma confusão na minha boca. Mal conseguia xingar aquele imbecil que ria da minha situação. Pedi então alguma coisa com sabor para ajudar a disfarçar o sofrimento. Ele me deu uma cápsula azulada que desmontei e despejei o pozinho do seu interior na minha boca. Aliviou um pouco a sensação de ardência. E, antes que pudesse fazer algum efeito, o alto-falante anunciou que o ônibus das dez e quinze que partia para o Rio de Janeiro estava fechando as portas. Era o nosso. Corremos para pegá-lo.
Três horas de viagem, o ônibus alcançava o topo da serra e estávamos completamente alucinados. Os comprimidos eram colocados na boca e mastigados como se fossem Tic Tac. Minhas mãos tremiam, não sentia as pernas e a paisagem se movia em câmera lenta em tons de sépia. Precisávamos de água com urgência. A boca estava seca e, quando desidratado, essas desgraças químicas fazem um efeito que é uma porrada no crânio. Enquanto tentava identificar em que ponto da serra estávamos para pedir ao motorista que parasse para comprarmos água, levo um susto com o imbecil gritando do nada ao meu lado:
- AI, PORRA! ME ATACARAM!
- QUE FOI, CARA?
- ME ATACARAM! FUI ATACADO!
- TE ATACARAM? – Perguntei a ele para depois me levantar e gritar com os outros passageiros. – ATACARAM MEU AMIGO!
- ME ATACARAM!
- ONDE?
- ONDE O QUÊ?
- ONDE TE ATACARAM?
- AQUI NO ÔNIBUS!
- AQUI NO ÔNIBUS? – Novamente, após gritar com ele, pois era a única maneira que os dois enlouquecidos conseguiam se comunicar, gritei com o resto do ônibus. – ATACARAM MEU AMIGO AQUI NO ÔNIBUS!
- ME ATACARAM AQUI NO ÔNIBUS!
- ONDE?
- NO ÔNIBUS!
- EU SEI! ONDE TE ATACARAM?
- NO PESCOÇO!
- NO PESCOÇO?
- NO PESCOÇO!
- CADÊ?
- CADÊ O QUÊ?
- O PESCOÇO!
- MEU PESCOÇO? – Daí, completamente alucinado, ele se levanta e começa a gritar com todos e jogar as malas que estavam no compartimento de cima no chão. – ROUBARAM MEU PESCOÇO! MEU PESCOÇO! FORAM ESSAS CAPIVARAS MALDITAS!
Meio instintivamente e meio seduzido pelo surto dele, também me levantei e participei daquela loucura descontrolada provocada pela orgia química que fizemos durante todo o trajeto. Eram malas jogadas ao chão com gritos sobre procurar o pescoço desaparecido, as pessoas estavam estarrecidas, não sabiam sequer como reagir a tal cena. Tinham também os gritos pelas capivaras que, mesmo tão alucinado quanto ele, não conseguia entender o motivo e ainda assim repetia. Em pouco menos de dois minutos o ônibus ficou um caos, sendo impossível andar pelo corredor, até que dois homens se cansaram da cena e se levantaram lá dos fundos. Eles estavam sentados um ao lado do outro e eram enormes. Enormes mais no sentido do tecido adiposo que musculatura, mas ainda assim enormes. Tanto que ao se aproximarem, me abaixei esperando uma surra. Já o sachê de éter pulou na direção de um deles e ficou pendurado como uma pochete. Em meio segundo, o gordo o jogou no chão, deu uns dois cascudos nele e o arrastou para a poltrona de onde se levantou.
- FICA SENTADO AÍ! Senta do lado dele – diz o gordo para seu amigo macio e depois se vira para mim no meio do corredor. – E VOCÊ VOLTA PARA A SUA POLTRONA QUE VOU SENTAR DO SEU LADO!
Agora estava fudido de todas as formas inimagináveis. A doideira tinha alcançado o seu ápice, que somada à adrenalina da agitação da confusão virou um gás extra, como se tivessem dado uma carga elétrica em mim. Eu precisava me mexer, gritar, balançar o corpo, tentar matar aquelas malditas capivaras que agora conseguia enxergar com clareza, era necessário fazer algo. Só que ao meu lado tinha uma montanha de carne e gordura me espremendo contra a janela. Ele era branquinho, cabeça raspada e redonda. Fiquei olhando por um tempo e comecei a enxerga-lo como uma grande Nha Benta reversa. Eu precisava morder aquela cabeça.
- Açúcar!
- O que foi, garoto?
- Açúcar! Eu preciso! Preciso de açúcar!
Foi o máximo que consegui falar para tentar me manter no controle e não enfiar os dentes naquele delicioso crânio de gordura hidrogenada com creme de baunilha. Não tenho certeza se consegui pronunciar muito as palavras ou se balbuciei como se tivessem arrancado o meu maxilar, mas o que importa é que ele entendeu e perguntou se estava tudo bem. Claro que as coisas não estavam nada bem. E se para mim estava complicado, imagina para aquele imbecil que parecia um suricato epilético quando conseguiu ser contido. Precisava saber como ele estava, então tentei me virar para olhar para o fundo do ônibus.
- Onde vai, garoto?
- Imbecil. Não! Você não! Você gostoso! Digo... Cremoso e crocante... Nham! Nham! Amigo... Meu amigo imbecil...
Enquanto meu novo vizinho de poltrona tentava entender o que tinha acabado de falar, me virei completamente para os fundos do ônibus. Não acreditei no que vi. O imbecil pegou aquela espécie de fronha usada como proteção de encosto de poltrona, colocou na cabeça e ficou imitando sons de fantasma para o fofo que estava ao seu lado. Por sorte, o outro cara era bem humorado e estava se divertindo com aquilo. Resolvi interagir com eles fazendo sons de fantasmas e os dois retribuíram. O cara ao meu lado ficou puto da vida e foi tirar satisfações com o colega que ao invés de colaborar com o sossego, estava piorando ao dar corda.
Fiquei quieto na minha poltrona esperando pelo pior. Estávamos prestes a presenciar um duelo de sobremesas. Seria um Flan versus Nhá Benta. Por sorte, o Flan apenas ria e nada fez contra a Nha Benta que lhe dava seguidos esporros e sacudidas na cabeça. Meu amigo imbecil permanecia imitando fantasma ao redor dos dois e as capivaras não paravam de correr pelo ônibus. O ápice ficou por conta da hora em que o zangado percebeu que seu amigo não ria dele, mas ria por rir, porque tinha aceitado dois papéis de ácido e estava doido também. Agora eram três alucinados e um colérico. Potencialmente, tínhamos material em mãos para fazer uma versão alucinógena e alternativa de O Mágico de Oz. Entretanto, o motorista resolve parar o ônibus e nos expulsa, os quatro, no meio da descida da serra.
Agora estamos aqui no meio do nada. O zangado parado na beira da estrada tentando pedir carona, mas nunca vai conseguir, pois xingava tudo e todos ao mesmo tempo. Meu amigo imbecil e o amigo do zangado estão correndo entre as moitas tentando pegar as capivaras imaginárias. Eu estou montando uma grande armadilha para capturar o zangado e poder comer aquela deliciosa cabeça de Nhá Benta. Já juntei três gravetos e duas folhas grandes, não devo demorar muito para terminar. Aparentemente não está sendo como planejamos originalmente, mas acho que podemos deixar para uma próxima vez a tentativa de ir à capital visitar o avô dele e sua unha bizarra na clínica de idosos para tentarmos pegar mais batida de pimenta.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Queimando o filme

 Clássicos do cinema em versões mais realistas e factíveis. O texto a seguir pode conter termos chulos e ofender pessoas frescas que não sabem lidar com sarcasmo ou imaturidade gratuita.

Uma linda mulher
Um milionário chega à cidade para uma curta temporada apenas para fechar negócios. Em sua primeira noite, entediado, resolve recorrer aos serviços de uma prostituta de beira de calçada. É assim que Edward e Vivian se conhecem.
Chegando ao hotel, Vivian percebe que, pela suíte onde Edward está hospedado, trata-se de um cara mais endinheirado do que ela previa. Ela, puta malandra e calejada, pede que ele pague adiantado e logo após receber a quantia combinada, diz que houve um engano, aumentando o valor do programa. Ele, mesmo sendo um experiente e bem sucedido homem de negócios, fica constrangido e intimidado pela ousadia dela e aceita o novo valor sem negociar.
Com a parte que mais lhe importa resolvida, tudo que Vivian quer é se livrar de Edward. O que não será nada fácil, pois tudo que ele precisa é alguém para conversar e chorar suas lamúrias. Ela então recorre ao infalível boquete.  Edward se cala, mesmo ela sendo a pessoa com a boca ocupada, e depois que ele tiver gozado, será fácil pular fora, pois, convenhamos, homens são assim mesmo.
Quarenta minutos depois e Edward ainda está ali sentado na poltrona com o pau duro. Vivian, que fez uma pausa para relaxar a mandíbula, não crê no que está acontecendo. Para ela, é muita ironia o trouxa não ter ejaculação precoce. Quando Edward faz menção de que vai começar o falatório novamente, Vivian interrompe dizendo que o tempo dele acabou e que vai embora. Ele então pede para que ela fique aquela noite, o preço não será problema.
Na manhã seguinte, pouco antes das seis horas, Vivian, que não dormiu um minuto sequer durante a noite, se levanta toda dolorida. O maxilar ainda dói do boquete longo que ela não terminou, os braços estão cansados de uma tentativa de punheta para fazê-lo dormir que obviamente também não funcionou e os ombros estão moídos porque Edward quis dormir abraçadinho a noite toda com ela. De pé, em frente à cama, com a maravilhosa sensação de corpo livre, ela percebe que Edward ainda está apagado no sono. Aproveitando o momento, ela pega sua bolsa com o dinheiro que ele pagou, recolhe sapatos, cinto e ainda leva, de lembrança daquela noite, um dos Rolex que estava em uma mala aberta sobre o sofá.
Cruzando o saguão do hotel, cantarolando mentalmente a música Girls Just Want to Have Fun, Vivian é parada pelo gerente que diz estar recebendo ordens do hóspede da suíte presidencial para não deixa-la sair. Em pânico, ela ameaça um escândalo, dizendo que é um país livre, que pode ir onde quiser, quando quiser, com o que quiser. Porém isso só dura dois minutos, tempo suficiente para um dos seguranças chegar e dar um safanão na orelha dela, “O que foi que você roubou dessa vez, sua putinha de merda?” diz ele. Antes que ela abrisse o jogo, Edward aparece para apaziguar “Senhores, o que está acontecendo? Não precisa de violência.” ele fala enquanto leva Vivian pelo braço para uma sala anexa ao saguão.
A sós, Edward diz que pediu que não a deixassem sair, pois queria convidá-la para passar o final de semana com ela. Ele explicou que tinha uns eventos sociais para ir, só que, como está solteiro, uma consequência de sua total dedicação ao mundo os negócios, precisava de alguém para fazer companhia. Aliviada com a nova reviravolta na história, Vivian aceita. Edward então diz que tem um compromisso e precisa sair, mas vai deixar com ela um cartão de crédito para que compre uma roupa melhor para poder acompanha-lo.
Três horas depois, Edward é chamado em uma delegacia. O oficial de plantão diz ter prendido uma golpista que roubou seu cartão de crédito e está torrando o limite em várias compras. Recuperado do susto, ele explica que não houve roubo algum, apenas que cedeu o cartão para que ela comprasse algumas roupas. O oficial então o surpreende dizendo que além de gastos com roupas, foram comprados eletrodomésticos, jogo de sofá, cama e armário com porta de correr nas Casas Bahia de Beverly Hills e, não suficiente, a suposta meliante foi detida em uma boca de fumo na companhia de alguns traficantes. Vivian desmente, dizendo que foi vítima de um sequestro-relâmpago e que apenas as roupas foram compradas por ela. Ela ainda alega que quando encontrada com os traficantes, estava na realidade com quem tinha lhe sequestrado. Edward acredita, paga a fiança e a leva de volta para o hotel.
Já no quarto, impressionada com o quanto conseguiu iludir Edward, Vivian resolve recompensar fazendo sexo com ele, que mesmo assim nega, dizendo que estão atrasados para o evento de mais tarde. Ela, visivelmente aliviada pela negativa dele, se arruma rapidamente e o deixa boquiaberto ao aparecer com um vestido vermelho. Para completar a produção, ele a presenteia com um belo colar de diamantes que diz ter sido gentilmente cedido pela loja de joias do hotel.
Chegando à festa, a entrada de Edward com Vivian vira uma atração à parte. As mulheres, sempre invejosas, comentam entre si “É puta com certeza!”. Já os homens, sinceros e muito observadores, falam discretamente “É puta com certeza!”. Philip, advogado de confiança de Edward, pega ele pelo braço e o leva até a varanda deixando Vivian isolada no meio da pista. De uma maneira enfática e quase grosseira, ele se monstra indignado com seu cliente que sumiu durante o dia, exatamente quando tinham eventos importantes para comparecer. Edward se justifica dizendo que estava resolvendo um problema com a Vivian que se meteu em uma enrascada (termo realmente usado por ele). Philip então diz que ela é uma golpista, que o oficial ligou para ele preocupado com Edward estar caindo em um golpe, só que de nada adianta. Edward acredita cegamente em Vivian e chega a se desentender seriamente com seu advogado na tentativa de se explicar.
Abandonado na varanda por Edward que volta à festa, Philip fica refazendo a história na cabeça para melhor entender. Dentre as várias hipóteses, a inocência de Edward estar sendo levada pela malandragem de uma puta de rua é a que mais faz sentido. Ele, mesmo sendo um cara sofisticado e com diferenciada formação, ainda é uma pessoa ingênua sem talento para lidar com mulheres, tão pouco com malícia para discernir a maldade dos outros. Decidido, Philip retorna à festa para abrir os olhos de seu cliente, que acima disto é seu amigo, mas encontra Vivian isolada perto do buffet guardando caviar na bolsa. Então pergunta por Edward e ela responde que ele saiu para falar a sós com um cliente. Aproveitando a deixa, Philip convence Vivian a sair também para conversar a sós.
Os dois estão em uma sala menor, isolada e com a porta fechada. Philip diz a Vivian que já entendeu a dela e que, se não cair fora, não vai ser a polícia que vai chamar, mas uns amigos para darem uma surra nela. Vivian entende o recado, sabe bem que com advogado não se mexe, e diz que vai inventar uma desculpa para ir embora. O advogado então, como todos da categoria, se empolga por ter consigo se impor e tenta ameaça-la mais um pouco, se exaltando ainda mais, até que, quando se dá por conta, está quase violentando Vivian. Ele levanta o vestido dela, que luta contra, mas não tem tanta força. Faz-se um escândalo. Ela grita por socorro. Ele também. Edward entra na saleta acompanhado de outras pessoas que escutaram o escândalo. Eles se deparam com Philip de calças arriadas e Vivian de vestido levantado. Ela grita “Ele tentou me violentar!” e ele também gritando responde “Ela é um travesti!”. As pessoas reparam que existem de fato dois paus amostra na sala e o de Vivian é muito maior que o do advogado. Edward constrangido sai correndo da festa.
Na manhã seguinte, Edward ainda está na delegacia por muitos motivos. Ele responde por acobertar a golpista Vivian liberando a saída dela quando estava detida e agora é considerado cúmplice. O gerente da loja de joias do hotel o acusa pelo sumiço do colar que não foi devolvido ao final da noite como combinado. Na realidade, com a escapada da vergonha que Edward fez, Vivian aproveitou para ir embora com o colar e agora ele precisa ressarcir a loja. Para piorar, uma horda de jornalistas ensandecidos que aguarda pelo milionário que caiu no golpe de um travesti motiva Edward a retardar sua saída da delegacia. Philip avisa que seu celular não para de tocar com os empresários querendo cancelar os negócios que vieram fechar. E, como cereja do bolo, ele nota uma vermelhidão crescente em sua virilha que provavelmente é alguma doença que Vivian lhe passou no boquete.
Sobem os créditos tocando Roy Orbinson. Só que ao invés de Pretty Woman, a música é Anything You Want, You Got It.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A casa dos Malavazi 2.1

(Presente)
Era pouco mais de nove da noite quando Vagner chegou ao apartamento da Barra. Quando abriu a porta, se deparou com uma sala escura e uma casa em total silêncio. Televisão estava desligada, nenhum barulho de videogame, computador, brinquedos, bonecas, nem música. Era um cenário bem diferente do que estava acostumado a encontrar quando chegava em casa. O habitual era Sandra espalhada no sofá assistindo à novela, com Julia brincando no meio da sala com suas bonecas e kits de cozinha de plástico. Artur, como de costume, ficava no quarto jogando videogame, ouvindo música e conversando no computador, tudo ao mesmo tempo e sempre em um volume que, mesmo com a porta encostada, incomodava Sandra na sala, obrigando que a mãe aumentasse o volume da televisão. Não suficiente, Marlene nesse horário estaria adiantando a comida do dia seguinte, passando roupa e ouvindo aquele ruído conhecido de panela de pressão meio que ritmando suas ações. Só que nesta noite era um silêncio e uma escuridão, quase um mausoléu. Vagner atravessou a sala e foi direto à cozinha que estava igualmente escura e deserta. Saiu pelo corredor, passou pelo quarto de Artur que estava com a porta encostada, mas dava para perceber as luzes apagadas e silêncio absoluto, o mesmo no quarto de Julia. Parou em frente à porta do quarto do casal que estava totalmente fechada, tentou escutar algo, mas não veio um som sequer. Decidiu então abrir a porta:
- Com licença, moça. Essa é a minha casa?
- Oi?
Sandra, deitada na cama, está tão distraída com o mar de revistas, papéis e recortes em seu colo que nem escutara a gracinha feita pelo marido. Ele gesticula então com uma das mãos como se desistisse do que foi dito e se aproxima, afasta algumas folhas da beira da cama para poder criar um espaço e se senta ao lado da esposa dando-lhe um beijo na testa. Ela continua compenetrada no que está fazendo, então Vagner a interrompe:
- Brincando de fazer pout-porri?
Ela esboça um sorriso com a intenção de dizer que ouviu e ser simpática, só que não responde prolongando a conversa. Vagner percebe e muda o assunto perguntando pelas crianças. Sandra diz que Julia foi dormir cedo porque estava um pouco febril, tanto que voltou mais cedo do colégio. Depois, ela fala que Artur está na rua com uns amigos e que deveria ligar para o celular dele pedindo que voltasse para casa. Os dois ficam então em silêncio. Sandra olhando as revistas e recortando fotos, Vagner observando a esposa no seu afazer. O marido se levanta e pergunta se ela vai ligar para o Artur agora:
- Não – ela responde sem tirar os olhos do que está fazendo. – Você vai ligar.
- Mas estou doido por um banho para relaxar, amor.
- Vagner, são dois minutos no máximo. Pare de dramas e ligue.
- Sandra – ele faz uma pausa balançando os braços. – Você sabe muito bem que não são dois minutos. Ele vai chiar, resmungar, negociar, chiar de novo e depois chiar mais um pouco. Isso vai demorar uns vinte minutos no mínimo. Me ajuda, vai.
- Não, Vagner – ela tira pela primeira vez os olhos do que fazia e fita o marido com expressão séria. – É só falar o que tem de ser dito e ser rígido. Dois minutos é tempo até demais.
Ela volta em seguida para o que lhe ocupava, enquanto Vagner fica em pé parado como uma assombração no meio do quarto. O silêncio perdura, mas apenas ele fica desconfortável. Sandra permanece entretida no folhear das revistas e recortar das fotos e, ainda assim, sabe que o marido não somente está ali parado, como também está tentando enrola-la. Ele coça a cabeça, olha para o lado, pega uma foto na ponta da cama, depois coloca de volta e resolve então perguntar pela Marlene:
- E a Marlene? Notei que ela não está aqui.
- Vagner – ela para o que está fazendo e novamente séria fala cadenciadamente para ele. – Pa-re de en-ro-lar e li-gue pa-ra seu fi-lho.
- Não estou enrolando, querida – ele volta a sentar na beirada da cama como sinal de aproximação e tentativa de persuadi-la. – Simplesmente acho que vai ser todo um estresse. Ele não reage bem quando falo essas coisas. Para quê criar uma situação como essas?
- Querido, isso só acontece porque ainda não resolveu o que aconteceu lá trás. Você precisa acertar essa pendência. Não dá para continuar com essa convivência tensa em que tudo que você fala, ele reage intempestivamente e tudo que ele fala, você aceita passivamente. Você não são amigos...
- Peraí – Vagner interrompe. – Claro que somos amigos.
- Você entendeu o que quis dizer. A relação principal entre vocês dois não é a de amizade, é de pai e filho. É óbvio que precisam ser amigos, mas acima disso, é pai e filho, logo precisam ter uma relação baseada nisso. Se fossem apenas amigos, tudo bem. Ficam sem se falar, passam meses sem se ver e depois o tempo cura. Mas não é o caso! Aqui é pai e filho. Você deve trata-lo como tal e vice-versa. Ainda mais morando na mesma casa. Se um dia ele surtasse e fugisse, até entenderia esse distanciamento. Ou se você um dia nos desse a alegria de nos abandonar, também seria aceitável...
- Nossa – Vagner interrompe mais uma vez. – Não precisa ser tão cruel.
- Não estou sendo cruel, estou sendo enfática e me prendendo aos fatos. Enfim, está na hora de assumir novamente o papel de pai. Ele está precisando disso.
- Só que ele vai ficar mais irritado ainda.
- Não importa. Antes ele irritado porque o pai é presente e assume sua responsabilidade, do que você achando que está tudo bem, quando na verdade não está. Não existe relação entre vocês, logo não existe paz, nem convivência saudável, apenas um abismo interpessoal.
- Existe essa palavra abismo interpessoal?
- Não é uma palavra, é uma expressão – ela volta a olhar as revistas enquanto permanece falando. – E não sei se existe, mas você entendeu o que quis dizer, portanto não enche.
- Você não pode inventar expressões e achar que isso é um argumento.
- Posso, sim. Acabei de fazê-lo – ela responde recortando uma foto e ao mesmo tempo reparando que o marido está saindo do quarto. – Mas posso usar uma expressão que existe também. Quer ver? Não foge da raia. Gostou? Aqui vai outra: volta aqui e liga aqui do quarto que quero ouvir. Que tal essa?
- Muito boas, mas ligarei da sala.
Vagner sai do quarto, saca o celular do bolso de trás da calça e liga para o celular do filho. Ele não percebe que a Sandra, na ponta dos pés, foi atrás dele e está na porta do corredor vendo e ouvindo o marido na sala.
Ele precisa refazer a ligação umas quatro vezes, pois o filho desligou enquanto chamava nas três primeiras. Vagner fica impaciente e pela primeira vez, depois de muito tempo, a insubordinação do filho o incomoda. Ele bufa e desabotoa a camisa enquanto Artur não atende. Finalmente ele consegue:
- Por que está desligando na minha cara?
- Talvez porque não quero falar com você, não?
- Pois acredite, neste momento eu também não quero falar com você. Tudo que eu queria era tomar um banho e descansar depois de um dia inteiro de trabalho. Mas não! Eu tenho que ligar para o menino que pensa que é rebelde e fica na rua até a hora que quer porque acha que a casa é um hotel. Enfim, volte para casa, porque sua mãe está pedindo – ele se vira para trás e vê Sandra ali parada gesticulando negativamente. – Ouviu? Volte para casa porque eu estou pedindo.
- Tá bom – Artur responde com um ar desleixado. – Daqui a pouco estou aí.
- Artur, eu estou pedindo, não estou mandando. E nem vou mandar, pois você vai obedecer ao pedido de seu pai. Volte para casa. São nove e meia e vou avisar na portaria que se você aparecer depois das dez não é para te deixar entrar no prédio. Está entendido?
O rapaz não diz que sim, nem que não, apena desliga. Vagner coloca o celular de volta no bolso de trás da calça e mostra para Sandra que está com as mãos tremendo. Ela faz uma corrida de três passos para abraça-lo, sorri e diz que está orgulhoso dele. Ele diz que não gosta de ser assim, que não precisa ser assim.
- Não, não precisa. Mas às vezes é necessário – ela então o pega pela mão e puxa pelo corredor até o quarto. – Agora vem ver o que estou fazendo. Acho que vai adorar.
(Continua em 2.2)

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Poesia for dummies

Vem para rua

Passos, braços
Mãos levantadas, punhos cerrados
Estranhos, amigos
Uns lado-a-lado, outros abraçados
Lá vem todos eles, é uma multidão
Faixas e placas, cartazes grifados
Não gostam, não querem, insatisfação
Palavras de ordem, gritos cantados
Ideias, ideais, mobilização

Sem falas ou gestos, não podem opinar
Só resta esperar
Pra ver o que vai dar
São outros, são muitos, todos paus-mandados
Com ordens bem dadas, mas sem instrução
Nem preparação
Ação por impulsão
Estratégia traçada, aguardam parados
Aproximação

Gás de pimenta!

Não corre, corre, caos instaurado
Bombas no ar, porretes erguidos
Só sinto ardido, escuto zumbidos
Nos querem cegar
Pra não enxergar
A sua mentira, está tudo errado
Até que se espalhem, existe união
Já sabem a verdade, conscientização
Não irá demorar, iremos voltar
Em tamanho dobrado

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Entrevista de matar



Com exclusividade, pela primeira vez na história, nosso repórter conseguiu uma entrevista com a entidade mais temida de todas. Na reportagem de hoje, teremos um bate-papo com a Morte.
Repórter: Gostaria de iniciar agradecendo a sua presença, pois sabemos o quanto você é ocupada. Aliás, devemos nos remeter a você no feminino ou no masculino?
Morte: Bem, não deveria usar nem um, nem o outro. Por isso prefiro o inglês, pois sou um autêntico “it’. De qualquer forma, pode usar o feminino mesmo, fica mais elegante e charmoso.
Repórter: A primeira coisa que deve ficar clara é que, com você aqui, podemos de fato comprovar que você de fato existe.
Morte: Mas como assim? É claro que eu existo. A partir do momento que a moça faz o xixi naquele pauzinho, aparece a cor rosa dando que é positivo, a única certeza que aquele ser terá é que um dia vai morrer.
Repórter: Sim, não duvidamos disso. Talvez tenha me expressado mal. Quando digo você existir, falo literalmente da personalidade, da entidade, do ser. Até então, a imagem da morte como alguém que visita todas as pessoas nos seus últimos momentos de vida era algo difícil de acreditar. É como crer que existe Papai Noel e que ele visita todos os lares na noite de Natal.
Morte: Mas como assim? Você está me dizendo que Papai Noel não existe?
Repórter: Er... Na verdade quero focar em como faz para visitar todas as pessoas no final da vida delas.
Morte: Bem, eu costumo viajar em velocidades inimagináveis. Para que se tenha uma ideia, enquanto construía a sua última frase, estive em 185 lugares diferentes, levei 245 pessoas comigo e voltei. Inclusive sua tia Alzira.
Repórter: Oh não! Pobre Alzira.
Morte: Ela já era bem velhinha. Convenhamos.
Repórter: Tem razão. Mamãe vai ficar arrasada. Seguindo... Diga-me como começou nessa carreira.
Morte: Minha primeira oportunidade foi como incentivador de apedrejamentos. Como sabe, esse era um ritual muito comum há séculos. Meu papel era ficar estimulando as pessoas para que não parassem, inclusive, quando acabavam as pedras, eu conseguia mais. De fato, eu era sensacional nisso. Tanto que o patrão reconheceu e...
Repórter: Peraí! Patrão? Está falando de Deus?
Morte: Sim, ele mesmo. Meu chefe, patrão, o cara que manda, o dono de tudo, o pica das galáxias. Então... Ele reconheceu meu talento e me chamou para conversar. Naquela época, ele era ainda a versão do Antigo Testamento, colérico, vingativo, sádico e provocador do caos. Ele disse que queria montar um grupo de quatro entidades que se chamaria os Cavaleiros do Apocalipse. Esse grupo seria formado pelas quatro piores coisas que já pisaram na Terra. A formação original era composta por mim, a Morte, Time do Flamengo, Pagode e Operadores de Telemarketing. Mas daí, ele remodelou o projeto para algo menos aterrorizante chegando à formação que todos conhecem.
Repórter: Você sabe quantas pessoas levou até hoje?
Morte: Sim, mas é um número que não é possível expressar usando a matemática que conhecem.
Repórter: E se lembra de todos?
Morte: De todos que levei, sim. De todos que tenho de levar não.
Repórter: Você se esquece de levar pessoas?
Morte: Sim! Como explicar a Hebe ter vivido tanto tempo?
Repórter: Faz sentido. O Silvio Santos e o Cid Moreira também são casos esquecidos?
Morte: Não! O Silvio continua por escolha minha. Depois do Datena e todas aquelas tragédias, ele é meu programa favorito. Já o Cid, eu sou proibido de levar. Ele faz divulgação de material do patrão e aí já viu, né? Protegido e tal. Ninguém mexe com ele.
Repórter: Já que falou de protegido, vamos conversar sobre a Faixa de Gaza que é um tema do momento. Ali deveria ser um local protegido, mas aparentemente você tem atuado enfaticamente?
Morte: Eu não tenho relação alguma com aquele lugar. Ele fica fora da minha jurisdição.
Repórter: Pensei que trabalhava por todo o planeta. Existe isso de jurisdição?
Morte: Sim, existem alguns lugares que não me envolvo. Faixa de Gaza, Afeganistão, alguns países da África e Pavuna. Lá na Faixa de Gaza é por conta de todo um problema religioso. Sempre que levava alguém, aparecia uma dúzia de entidades metidas a superior para resmungar com o patrão. Era uma encheção de saco. Daí o chefe ficou puto e falou “para de se meter naquele lugar, deixe com aqueles teimosos que acham que conseguem se entender sozinhos”.
Repórter: Imagino que no Afeganistão seja a mesma coisa.
Morte: É parecido, mas não a mesma coisa. O problema lá basicamente é o chato do Alá. Ele promete uma porrada de coisas, os caras ficam se explodindo antes que eu chegue e depois pedem o que ele prometeu. Ah caceta! Que peçam para ele! Mas não! Ele sempre foge da raia e se faz de morto. O que é uma ironia na minha presença.
Repórter: E os países da África?
Morte: Ah, lá é de cortar o coração que não tenho. Tanta fome, pobreza, doença que nem tenho coragem de aparecer. Até porque, mesmo sem aparecer por lá, morrem dúzias por dia.
Repórter: E a Pavuna?
Morte: Já foi lá? Nem a porrada que coloco meus pés lá. Aquilo é uma desgraça na vida de uma pessoa.
Repórter: Ok, vamos falar de outras coisas atuais então. E esses aviões caindo e sumindo?
Morte: Confesso que desastre de avião não me agrada. É trabalho porco e preguiçoso. Mesmo assim, existem épocas do ano que estou longe da minha meta. Aí não dá! Preciso agilizar o resultado, né? Então apelo para avião, transatlântico com comandante italiano covarde, final de campeonato entre Flamengo e Vasco. Tudo que gere muitas mortes.
Repórter: Quem diria que você tem metas?
Morte: Sim, tenho. É muita pressão. Tem semanas que mal consigo dormir.
Repórter: Você dorme?
Morte: Não, foi uma piadinha, mas você não acompanhou. Prossiga!
Repórter: Ainda de atualidades. Por que levou três escritores brasileiros em uma distância tão curta de tempo? Ariano, Ruben e João Ubaldo de uma só vez não é demais?
Morte: Ora, eles não iriam fazer falta.
Repórter: Como não? São excelentes escritores aclamados pela crítica.
Morte: Ora, convenhamos. No seu país são poucas as pessoas que ainda leem livros. A molecada de hoje em dia só quer saber de Facebook. A única coisa que eles leem é manchete do Meia Hora e olhe lá. E ainda mais, estava de saco cheio desse título bobo de imortal. Peguei logo três para mostrar que de imortal eles não têm nada.
Repórter: Mas se for para pensar assim, podia ter levado o Sarney.
Morte: Mas ele não é querido por aí?
Repórter: Claro que não!
Morte: Não? Todo dia alguém fala sobre ele no Facebook e Twitter. O povo continua votando nele e por isso permanece onde está. Como que ele não é querido?
Repórter: É, faz sentido nessa perspectiva. Ainda sobre mortes coletivas em algumas áreas, lembro que levou um grupo de profissionais do esporte recentemente.
Morte: Sim, foram alguns. Luciano do Valle, aquele repórter da Globo que foi para a Record que posso até falar o nome, mas só vão reconhecer falando assim, o doutor Osmar, a dupla de ataque do Fluminense Casal 20, Kajuru...
Repórter: Epa! Kajuru? Ele não morreu, não? Eu vi um programa dele hoje.
Morte: Acredite, ele morreu. Basta olhar para ele. Só que o bicho é tão chato, tão mala, tão cricri, que o rejeitaram e o patrão autorizou que ele ficasse vagando por aqui.
Repórter: E qual o motivo para ter levado eles?
Morte: Eles que pediram. Eles imaginavam a vergonha que seria a Copa e daí imploraram para ir embora e não testemunhar aquele vexame.
Repórter: E você atende ao pedido de todos?
Morte: Claro que não! Imagine só, Brasil perdendo de 7, Vasco rebaixado duas vezes e Fluminense na terceira divisão. Se atendesse a todos os pedidos isso aqui estaria um deserto.
Repórter: Existe alguma morte que se orgulhe?
Morte: Sim, as misteriosas são minhas favoritas. Pessoas que somem, corpos sem evidência. Teve uma com potencial para ser perfeita. A morte do Tancredo Neves. Mas nos quarenta e cinco do segundo tempo apareceu a Gloria Maria e fudeu com tudo. Só de sacanagem fiz uma meia morte nela. Agora ela fica por aí, meio morta, meio viva, parecendo uma múmia de Botox.
Repórter: Todos têm a imagem da morte como um esqueleto humano com lençol preto cobrindo todo o corpo e uma foice na mão.
Morte: Essa é a imagem que o Maurício de Souza me popularizou. Até acho bonitinha, mas preciso passar algo mais imponente. Preciso causar impacto. Alguns filmes insistem em querer vender a minha imagem com algo poético. Não existe poesia na morte. Poesia é para as meninas abrirem as pernas e só.
Repórter: Pois bem, morte, adorei a conversa. Podemos marcar ao final do ano uma nova entrevista fazendo uma retrospectiva das mortes mais importantes do ano?
Morte: Claro que pode! Só que você precisa ter certeza que estará por aqui até o final do ano. Afinal, nunca se sabe, né? Ainda mais depois de me contar que Papai Noel não existe.