quinta-feira, 24 de julho de 2014

A casa dos Malavazi 1.3




Vagner entra correndo na cozinha e vê Sandra e Marlene abraçadas encostadas no balcão. Ele pergunta o que aconteceu e elas respondem que tinha um homem no meio da cozinha, mas que ele voltou para a sala. Vagner então corre na direção da sala, mas para na porta e grita:
- AH PORRA! QUER ME MATAR DO CORAÇÃO?
Ele apoia as mãos sobre os joelhos e balança a cabeça negativamente. Elas nada entendem e perguntam se o tal homem ainda está ali. Vagner com um gesto de cabeça sinaliza para que elas se aproximem.
- Podem vir – diz ele. – Esse é o Seu Nogueira! Ele é quem faz a manutenção da casa. Quase que um caseiro, ou zelador, não sei o nome ao certo.
Seu Nogueira é um senhor baixo, de cor mulata, poucos cabelos ao redor da cabeça e nenhum no topo dela. Com o perdão de todo preconceito que isso pode soar, ele aparenta ser uma pessoa ignorante, falo de poucos estudos, não do jeito de lidar com as pessoas. Além disso, sua pele mastigada pelo tempo indica que teve uma vida muito difícil. Sua expressão é dócil, fraterna, mas mesmo assim assustou as duas simplesmente por estar em um local onde elas não imaginariam poder ter outra pessoa. Ele, depois de apresentado a elas, as cumprimenta com um toque de formalidade, e ainda assim elas permanecem um pouco constrangidas com a cena que protagonizaram.
- Ora, não precisa se encabular por isso – ele diz a elas. – Eu mesmo me assusto pela manhã quando me olho no espelho.
Elas riem de forma contida, talvez agradecendo a gentileza que ele faz ao tentar minimizar a situação. Vagner então, para ajudar a cena a cair no esquecimento, puxa assunto com Seu Nogueira perguntando o que ele fazia por lá.
- Tava no andar de cima tentando resolver umas coisinhas nos canos. A água não caía direito em algumas torneiras da casa.
- E acha que resolveu?
- Não – ele responde balançando a cabeça também. – Parei porque escutei um barulho cá embaixo. Daí desci para ver o que era. Se soubesse que era vocês, nem teria parado.
- Me desculpe, Seu Nogueira. Trouxe a trupe toda para ver a casa e, como é domingo, jamais imaginaria que você estaria aqui trabalhando. Bem, devia desconfiar com as marteladas que escutamos. Ah! – Vagner exclama ao ver Artur entrar na cozinha com Julia no colo. – Aqueles são meus filhos, Artur e Sandra.
- Olá, princesa!
- Olá, vovô.
Com todos novamente descontraídos, Vagner sugere que a visita prossiga para o segundo andar. Ele ainda convida Seu Nogueira para acompanhá-los, que aceita e brinca que será o guia turístico da casa. Os dois então vão na frente. Marlene e Sandra ficam paradas para Artur passar com Julia no colo. A mãe fala para o filho.
- Gostei de ver.
- Do que está falando, mãe?
- Você sabe – ela responde apontando com os lábios para Julia. – Assumindo o papel de irmão protegendo ela.
- Que nada, patroa – Marlene se intromete. – Ele é frouxo mesmo! Foi se proteger com a pequena.
- Ah tá – ele responde. – Ah tá!
Os dois então passam e as duas mulheres seguem atrás. Marlene fala no ouvido de Sandra que também achou bonita a ação de Artur. Sandra responde que o menino é bom na essência, apenas está passando por uma fase e nem por isso não podem deixar de dar umas sacudidas nele.
O passeio pelo segundo andar, logo após subir as escadas, começa em uma espécie de pequena sala que dá acesso a todos os cômodos do andar. Eles entram primeiro na suíte. Acontece a tradicional gracinha em que cada um diz que aquele vai ser seu quarto. Os argumentos são sempre estapafúrdios, não porque estão se esforçam atabalhoadamente para convencer os demais, mas porque querem fazer graça mesmo. Seu Nogueira não resiste e entra na brincadeira:
- Se for para brigar, eu fico nesse quarto. Tudo pela família feliz.
- Boa iniciativa, Seu Nogueira. – Vagner intervém colocando a mão sobre o ombro do velho. – Mas, aparentemente, você já fica na casa toda. Daí é covardia.
A família prossegue para o quarto exatamente em frente à suíte. Sandra anuncia que ali será o quarto de Julia. Marlene gosta da informação porque o quarto é aparentemente espaçoso o suficiente para que caiba uma cama para ela também. No apartamento atual, Marlene dorme naquelas camas de deslizar que fica embaixo da cama de Julia.
Eles em seguida passam rapidamente pelo segundo banheiro da casa e depois entram no último quarto. Artur não gosta da ideia de esse ser seu quarto. Na sua concepção, é o menor de todos.
- E onde que você precisa de um quarto maior? – Pergunta Sandra. – Você só tem essa bermuda esfarrapada que usa todos os dias, algumas camisas e seu celular maldito. Acho que podíamos até inverter, transformar o banheiro em seu quarto e o seu quarto em banheiro. Aí a Marlene terá um banheiro enorme para tomar banho e brincar de diva.
- Ah, eu acho muito justo, patroa.
- Vocês duas estão muito engraçadinhas hoje. Depois não sabem por que estou sempre de mal humor.
A família retorna à área comum de acesso a todos os quartos. Vagner vai em direção a uma porta que fica em frente à escada que leva ao térreo e saca o molho de chaves. Ele comenta que, quando foi conhecer a casa pela primeira vez, não estavam todas as chaves com o corretor, mas hoje, como pegou todas, vai poder abrir a tal porta. Sandra pergunta o que tem ali e, antes que Vagner responda, Seu Nogueira se antecipa dizendo que é uma escada dando acesso ao sótão, que nada tem ali e é perda de tempo.
- Seu Nogueira – diz Vagner. – Você que conhece a casa como ninguém, qual dessas trocentas chaves é a desta porta?
- Não sei, Seu Vagner. Não sei.
O velho muda o tom simpático, fica com a expressão séria e se afasta dizendo que tem outras coisas por fazer na rua. Ele então se despede de todos e desce as escadas, deixando a família ali esperando que Vagner finalmente acerte a chave da porta.
- Consegui – comemora Vagner.
Todos os cinco sobrem para o terceiro andar que é composto por um único salão do tamanho dos dois outros andares. O teto é baixo, o cheiro de poeira e de coisas velhas se sobressai e, para completar, é uma escuridão total. Vagner até tenta acender a luz apertando o interruptor, mas parece que está sem lâmpadas ou as lâmpadas estão queimadas.
- Que escuridão, Jesus – exclama, Marlene. – Alguém pega o celular para iluminar isso aqui.
Vagner pega o dele, mas está sem bateria. Ele pede o de Sandra, mas também está sem bateria. Artur não se conforma:
- Os dois sem bateria? Quantas vezes já falei para deixar o celular carregando durante a noite? Agora, se alguém quiser falar com vocês já era.
- Filho – Vagner responde. – Eu tenho o hábito de deixar o celular espetado no computador o dia todo no trabalho. Sua mãe também. Só que ontem foi sábado, não trabalhamos. Daí esquecemos e já viu.
- Eu não entendo como pode essa tamanha complicação dos velhos com eletrônicos.
- Filho – agora Sandra quem fala. – Pare de reclamar e nos dê a honra da luz do seu poderoso celular que carrega toda noite como se fosse uma usina nuclear.
Artur tira o celular do bolso de trás da bermuda e percebe que também está sem bateria. Os três implicam com ele que se justifica dizendo que passou a noite toda conversando por mensagens e acabou se esquecendo de colocar para carregar. A gozação com ele continua. Até Julia, sem saber do que se trata brinca:
- Cabeção!
Sem luz nas lâmpadas e o recurso alternativo de celular indisponível, Marlene toma a frente de todos e vai até uma das janelas para tentar abri-las.
- Não dá para abrir – ela diz. Estão lacradas com umas “táubuas”.
- Umas o quê, Marlene?
- Você entendeu, garoto. Larga de ser pentelho.
- Entendi não, Marlene. Qual a dificuldade de falar tábua? Ou falar registro?
- Qual a dificuldade em cicatrizar a testa do cascudo que vou te dar?
Artur fica rindo e vai na direção oposta a de Marlene tateando o caminho, pois nada consegue ver. Vagner e Sandra ficam parados na entrada com Julia ao lado deles. Os pais alertam para tomarem cuidado com pregos, farpas ou outras coisas que podem machucar. Marlene vai tateando em outra direção.
- Trombei em algo!
- O que, Marlene?
- Parece um monte de cano empilhado, patroa.
- Deve ser o tal conserto que o Seu Nogueira falou.
- Não, patroa. Não é cano não! São camas velhas de ferro. Uma sobre a outra.
Vagner comenta que no dia da primeira visita, o corretor disse que alguns móveis dos antigos proprietários estavam amontoados por lá e que deveriam ser jogados fora ou doados. Sandra estranha e retruca que não faz sentido tanta cama assim. Ele rebate dizendo que nem devem ser tantas assim, provavelmente o escuro enganou Marlene. Além disso, ele prossegue constatando que ali mesmo com eles serão quatro camas, portanto era possível outra família ter quatro ou cinco camas.
- Ih caralho – resmunga Artur. – Caguei a porra da mão toda.
- Olha o vocabulário, meu filho – sinaliza Sandra. – Sua irmã está aqui.
- Desculpa, mãe. Mas acabei me apoiando em um monte de caixas empoeiradas aqui. Parece que tem mais coisas da outra família para jogar fora.
Sandra anuncia que chega de passeio no escuro. Eles precisam ir embora porque ela ainda tem de fazer as compras para o almoço de domingo. A família então desce a escada, com Vagner por último comentando que precisa marcar as chaves.
- Coroa, larga de ser lerdo. É só deixar a portas de dentro abertas. Para quê tanta chave?
Vagner concorda com a observação do filho e segue com a família para o térreo. Eles saem da casa e, enquanto esperam o pai trancar a porta principal no pequeno pátio que separa a casa do muro, Artur coloca a mão no bolso de trás, saca o celular e fica parado olhando para ele.
- O que foi, garoto?
- Ele está vibrando, Marlene.
- Então atende! Qual o problema?
- É a bina! Olha – ele mostra o celular para ela. – Que número estranho! Zero, zero, zero, jogo da velha, zero, jogo da velha.
O celular para de vibrar. Vagner termina de trancar a porta e abre o portão que dá acesso à rua. Sandra é a primeira a sair e vai para o carro apressada pedindo que todos andem logo, pois o mercado fecha logo. A família vai atrás e, antes que Artur entre no carro, Marlene o segura pelo braço e comenta:
- Peraí, garoto. Seu celular não estava sem bateria?
(Continua em 2.1)

domingo, 20 de julho de 2014

Amargura por Extenso

Mentirosos
Ariano Suassuna sempre assumiu publicamente sua fascinação pelos mentirosos. Pelos doidos também, mas isso fica para outro momento. Em sua declaração, ele fazia uma ressalva excluindo um tipo específico de mentiroso. Para ele, os que mentiam para obter ganho prejudicando outra pessoa não mereciam o seu respeito. O mestre admirava apenas os que mentiam por amor à arte da mentira. Não discordo de Ariano, como também engrosso o grupo de pessoas que admite a importância do personagem mentiroso para o folclore diário que chamamos de vida. Todavia, cabe ir um pouco além, pois a divisão dos que mentem em apenas dois grupos é muito simplório.
A maior virtude de um mentiroso é ser capaz de identificar outro mentiroso pela sua fala, e aí reside uma ironia. Ele é capaz de reconhecer o ator, mas não o ato. Como disse, eles se reconhecem, mas não possuem facilidade em identificar mentiras. Isso se dá porque existem diversos tipos de mentirosos. Isto é, existem muitos tipos de artistas nesta rústica produção cultural. Daí, o mentiroso reconhece o outro artista, entende o que ele está fazendo, mas não sabe até que ponto é ação corriqueira e até que ponto é arte de mentir. Existem três tipos de mentirosos, o por motivo, o por natureza e o por objetivo.
Dentre os mentirosos por motivos, existem os mentirosos por pressão. São aqueles que mentem apenas sob pressão, como subterfúgio em uma situação desesperadora, o chamando “panicar” (odeio neologismos, mas são úteis para atrair a atenção das pessoas que usam a linguagem informal). Eles, por só mentirem em situações como essas, não possuem muito talento e desenvoltura no assunto.
- Dona Eurenice, você está três horas atrasada.
- Desculpe, patrão, mas precisei levar minha avó ao clube de swing.
Outro tipo de mentiroso por motivo é o mentiroso por réplica. Ele precisa rebater algo que não gostou e então mente na tentativa de se sair por cima. Na maior parte dos casos, como acontece em uma dinâmica além da sua capacidade de raciocinar, eles costumam ser incoerentes.
- Tobias, você foi o meu pior namorado! Aceite isso! Eu fingi todos os meus orgasmos!
- Pois saiba, Heloísa, que, com você, eu também fingi todas as minhas gozadas!
Ainda nos mentirosos por motivo, temos o mentiroso por culpa. Eles alguma vez na vida comentaram algo que não era verdade, uma mentira inocente, corriqueira. Daí, se sentindo culpados por isso e com medo que descubram a fraude, eles revisitam a mentira várias vezes na esperança que vire uma verdade incontestável, mesmo que as pessoas não deem a mínima para o fato.
- Sabe aquela menina que conheci no feriado de finados em Mangaratiba?
- Claro que sei. Todo dia você fala dela. Todo dia você conta algo novo. Primeiro a conheceu, depois chamou para sair, finalmente saiu, daí transou com ela. Qual a novidade agora?
- Estava reparando, ela tem algo entre as nádegas.
- Claro que tem! Isso se chama cu – a pessoa reage impaciente.
- Não é disso que falo. É uma pequena mancha de nascença.
- E por que, raios, está me falando isso?
- Porque somente uma mulher que realmente existe possui uma característica própria como essa.
- Ah foda-se você, essa mulher e essa marca de bosta que ela ainda não limpou na bunda.
O último caso de mentiroso por motivo é o mentiroso por agrado. Pessoas desse tipo têm medo de falar a verdade e fazer com que os outros fiquem ofendidos. No intuito de serem simpáticos, eles mentem, mesmo piorando a situação.
- Querido, tem certeza que ficou bem em mim? Não me faz parecer gorda?
- Claro que não, amor. Talvez esteja um pouco justo, mas esse top ficou muito bem em você.
- Paulo Sérgio, isso é um vestido!
Os mentirosos por natureza possuem uma característica em comum, eles mentem por necessidade. É algo hormonal, químico, patológico, quase uma vocação. A forma como fazem isso os dividem em duas categorias. A primeira é a categoria amadora. No objetivo de saciar seu desejo por mentir, esse tipo de mentiroso não mede as coisas e pesa na mão, mesmo correndo o risco de ficar óbvio para os outros.
- Eu sou médico, né?
- Jura? Que especialidade?
- Sou obstetra.
- E tem muito tempo isso?
- Ah tem! Sou médico há mais de 40 anos!
- E ainda pratica?
- Claro! Já fiz o parto da Sasha e recentemente fiz o do filho do Neymar.
- Que interessante! Bem, eu fico por aqui, ok?
- Claro! A corrida deu R$ 18,90.
- Aqui está! Pode ficar com o troco e obrigado, seu taxista.
A segunda categoria é a profissional. Trata-se da categoria dos bons mentirosos, aqueles que não são pegos. Sua maior virtude é contar pequenas mentiras, coisas bobas e sem valor. Assim, eles aliviam a necessidade de mentir sem maiores problemas.
- Cara, hoje vi uma mulher muito gostosa.
- É mesmo? E como era?
- Ah, era muito gostosa. Só isso mesmo.
O último tipo de mentiroso é o mentiroso por objeivo, e se divide em três. O mentiroso mercenário tem sido o mais famoso ultimamente. São tantos, que fica cada vez mais fácil identifica-los. Eles mentem apenas para obter ganhos.
- Este homem não, irmãos – diz o pastor.
- TENHA PENA DELE, SENHOR! – Grita a multidão.
- Vejam! Ele está andando – afirma o pastor minutos depois.
- GRAÇAS AO SENHOR! – Grita a multidão.
- Agora ele já consegue até jogar bola – avisa o pastor dias depois.
- É UM MILAGRE, SENHOR! – Grita a multidão em seguida.
- Ele foi convocado pelo Felipão – anuncia o pastor semanas depois.
- Por culpa do seu milagre perdemos de sete a um – fala um futuro ex-fiel enquanto sai do culto.
Outro mentiroso por objetivo é o bem-sucedido. Ele mente, passa isso para o papel, escreve livros, contos, crônicas, peças, filmes, tudo por prazer. Seu sucesso está no fato das pessoas se importarem com isso. Elas compram seus livros, pedem autógrafos, tiram fotos, fazem entrevistas. Mesmo sem ter como meta inicial, ele com suas mentiras obtêm dinheiro e sucesso.
- Eu sou um novelista, mas podem me chamar de autor de não-ficção se preferirem.
Por fim, dentre os mentirosos por objetivo, existem os mentirosos fracassados. São exatamente como os mentirosos bem-sucedidos, mas sem a grana e a fama. Exatamente como eu.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A casa dos Malavazi 1.2



- Que sala grande!
A observação de Julia foi a mesma que provocou a reação de Sandra e Marlene fazendo com que exclamassem a mesma coisa juntas. Era uma sala enorme, maior que muito apartamento. Com boa vontade, era possível fazer até quatro ambientes separados sem deixar os móveis apertados. Obviamente estava vazia de mobília. Seu piso exigia um novo tratamento de sinteco, assim como as paredes urgiam de reboco e tinta.
- Isso é uma espelunca – esbravejou Artur assim que entrou por último.
- CHEGA, ARTUR – grita Sandra. – CHEGA! Estou cansada dessa rebeldia desnecessária. Nada te faz feliz, nada te satisfaz. Tudo que sabe é reclamar, colocar defeito, destratar os outros. Cansei! Se não tem algo de bom para falar, fique calado.
O clima fica ruim na sala. Marlene que, apesar de ser uma pessoa de pouca instrução, é bastante safa para as coisas do dia-a-dia, vai para outro cômodo com Julia no colo para que ela não veja a bronca que a mãe dava no Artur. Ela abre a primeira porta e entra, trata-se da cozinha e fica pasma com o que vê.
- Não sou obrigado a aceitar tudo que me impõem – rebate Artur. – A vida não funciona assim.
- Funcionam, sim – Sandra se impõe com o dedo em riste. – A vida não é como seu maldito videogame em que você aperta os botões e acontece exatamente o que você quer que aconteça. A vida, mocinho, não é como Facebook, em que você pode escrever qualquer porcaria e sua patotinha vai curtir e comentar dando corda. Não, não é mesmo. Acredite! A vida é muito pior e injusta. Muito mais do que imagina. E se acha que se mudar para um bairro longe dos seus amiguinhos, ou longe do shopping onde você gastava a tarde inteira fazendo nada, é a pior coisa que pode lhe acontecer, você está muito enganado. Existem coisas muito piores, como ser mãe, esposa, patroa e sensata ao mesmo tempo.
A fala de Sandra é interrompida por uma pancada seca e alta: TUM! Vagner e Sandra se assustam e correm na direção da porta em que Marlene entrou com Julia. Vagner é o primeiro a entrar perguntando se está tudo bem. Marlene responde que sim.
- Mas é que ouvimos – Vagner não consegue completar a frase porque Marlene está muito empolgada com o que vê.
- Patroa, olha essa cozinha – diz ela apontando para todos os lados conforme vai comentando. – Olha o tamanho deste fogão. Deve ser industrial. E a geladeira. Olha essa bancada! E ainda posso pendurar as panelas sobre a bancada que nem aqueles programas de chef.
Sandra concorda, mas sequer consegue balbuciar algo de tão espantada. A cozinha é enorme, com tudo nela tão grande quanto deveria ser. Era possível fazer comida para alimentar um batalhão ali. Ainda assim, ela retoma o fôlego do esporro, do susto e da boa surpresa com a cozinha:
- Marlene, seu sonho de fazer comida para fora e ganhar dinheiro extra vai se realizar.
Além de concordar com a patroa, Marlene se empolga com o cenário, com a possibilidade, com tudo. Tamanha é a sua empolgação, que ela deixa Julia sobre a bancada central da cozinha e começar a planejar coisas em voz alta. Cardápio, pratos, a logística de como vai funcionar, horários. Faz tudo isso de frente para o fogão, como se fosse um general em frente ao grande mapa da guerra planejando o próximo movimento de suas tropas. Vagner e Sandra, logo atrás dela, se cutucam concordando com a felicidade dela. A cena é ingênua, mas ao mesmo tempo cheia de emoção e sincera. Marlene chega ao auge do seu raciocínio quando é interrompida por uma sequência de novas pancadas secas e altas: Tum! Tum! Tum! Tum! Tum!
- ARTUR – grita Sandra. – AGORA ESTÁ SENDO INFANTIL. PARE DE ANDAR PELA CASA BATENDO OS PÉS NO CHÃO!
- Mas estou aqui – responde ele.
Os adultos se viram para trás e lá está ele, sentado em um balcão ao lado da porta por onde entraram. Os três então se entreolham assustados, enquanto Julia finalmente se vira também e, ao ver Artur, o chama pelo nome. Ele repete o próprio nome para ela em voz alta, mas prolongando a última sílaba como a sonoplastia de filmes de fantasmas de baixo orçamento.
- Pare, Artur. Pela sua irmã, pare – diz Sandra logo depois se virando para Vagner. – Será que veio daquela porta?
Ela se refere a uma pequena porta no meio de uma das paredes. Ela, além de pequena, é baixa. Vagner se aproxima dela e Sandra pergunta se ele sabe o que tem ali. Ele diz não saber, pois a primeira e única vez que esteve na casa, foi tudo muito rápido.
- É ali que escondem os corpos – fala Artur.
- Já disse para parar, Artur. Coisa mais estúpida.
- Estúpida, mãe? Vocês escutaram um barulho estranho, não sabem do que se trata, ao invés de fugir, querem ir atrás e minha brincadeira para tentar quebrar a tensão é estúpida?
- Sabe, patroa – diz Marlene enquanto pega Julia no colo e circula o balcão central da cozinha para se posicionar no ponto mais oposto possível da porta. – Isso me dói muito, mas tenho que concordar com o garoto problema.
- É garoto enxaqueca, Marlene – Sandra a corrige. – E não tem nada de estúpido em checar do que se trata. Provavelmente foi apenas um gato preso atrás dessa porta.
- Um gato, patroa? Com esse barulho, é mais fácil ter sido um touro.
Vagner gesticula com a mão para que façam silêncio. Ele está com a mão na maçaneta e quando vai começar a abrir, Artur fala: “Outro gato!”. Todos olham sérios para ele que batendo os ombros diz:
- Ih, esqueci que nunca assistiram Chaves na vida.
Vagner enfim abre a porta. Nada! É uma despensa, daquelas que você consegue entrar e dar uns três ou quatro passos dentro, com prateleiras por todos os lados. Está completamente vazia. Nem uma lata sequer.
As atenções então se voltam para a terceira porta na cozinha localizada na parede oposta da porta por onde entraram. É uma porta comum de acesso provavelmente a outro cômodo e, como todas as outras da casa, totalmente maciça, sem a chance de prever o que está por trás dela. Vagner, mesmo não querendo fazer suspense, se dirige até ela vagarosamente. Sandra então toma sua frente, coloca a mão na maçaneta e abre.
- MARLENE, MULHER! VENHA VER ISSO!
É um pátio enorme nos fundos da casa. Além de possuir o mesmo comprimento do muro da rua, ele deve ter, no mínimo, o dobro de largura. Ele tem o chão todo em cimento e diversas mesas de concreto com bancos também de concreto ao redor. Estranhamente, se olharmos como um todo, as mesas formam um círculo com um grande espaço ao meio, bem no centro do pátio. Nenhum deles se atenta para esse detalhe. Eles se espalham pelo quintal olhando as mesas. Marlene fala em voz alta que é possível fazer ali um bom restaurante popular a céu aberto. Sandra senta em uma das mesas e pergunta o que fazer com tantas. Vagner sugere abrir um bingo clandestino. Artur cogita sediar a copa do mundo de sueca. Julia apenas corre entre mesas e bancos.
- Vai voltar à caça de assombrações, mãe? – Pergunta Artur assim que a mãe se levanta da mesa e se encaminha para a porta por onde vieram.
- Não, seu bobo. Vou ver o resto da casa. Quero saber se ela consegue me surpreender mais ainda.
Ela finaliza a frase, abre a porta para voltar a cozinha e entra. Depois disso se escuta um grito de Sandra. Vagner e Marlene correm na direção da porta. Artur corre na direção de Julia. Marlene é a primeira a chegar à porta e também grita.
- O que foi? – Pergunta Vagner enquanto se aproxima às pressas. – O QUE FOI?
(Continua em 1.3)

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A casa dos Malavazi 1.1



(Presente)
O carro parou exatamente em frente ao destino, quase como se a vaga estivesse reservada a eles. Foi apenas uma coincidência, pois era um domingo, dia de pouquíssimo movimento naquela pequena rua em Vila Isabel. Ela fica no que costumam referenciar como começo do bairro, pois está na altura do início da Avenida 28 de Setembro, maior avenida e referência do bairro. Para quem não o conhece, o bairro Vila Isabel possui duas ruas principais. A mais conhecida, a Avenida 28 de Setembro, começa na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, UERJ, e termina literalmente no chamado final do bairro, quase no Túnel Noel Rosa que leva para outros bairros da zona norte. A segunda rua é a Teodoro da Silva, a qual os moradores preferem pronunciar Tiodoro da Silva, mania que motivou o nome de um motel nela localizado: Te Adoro.
Assim que desligado o motor, Sandra, que estava no banco do carona, sai. Ela deu a volta no carro enquanto Vagner, que dirigia, saía também. Eles pararam lado a lado de costas para o carro. Nisso, Marlene saiu do banco de trás com Júlia no colo. Artur foi o último e, como de costume, estava com cara de emburrado. Todos fora do carro ficaram quase que perfilados de frente para o destino.
- Que muro alto – disse Julia.
De fato era um muro alto. Aliás, se me permitem opinar, era um muro exageradamente alto, sequer era possível ver o que estava por trás dele. Talvez os demais estivessem constrangidos de fazer esse comentário. Ou até mesmo coagidos por aquilo que era completamente diferente do que esperavam. Julia, por ser apenas uma criança de cinco anos, acabou falando a primeira coisa que lhe veio à cabeça, o que possivelmente foi o que os outros pensaram também.
- Pelo menos devia ser uma casa muito segura – ponderou Marlene tentando quebrar o silêncio.
- Casa? Casa que nada – disse Artur olhando ao redor como quem aponta as redondezas para os outros. – Era uma empresa. Não tem uma casa nessa ruazinha.
O diminutivo usado não era desprezo, apesar do temperamento sempre hostil de Artur. A rua era muito pequena, tinha no máximo 50 metros e ligava duas ruas transversais. À primeira vista, parecia uma rua agradável de casas. Daquele tipo de rua onde todos os vizinhos se conhecem, nos fins de semana as crianças brincam na rua e fazem decorações para festa junina. Apenas adentrando que é possível notar que as tais casas são todas na verdade empresas, pois seus letreiros são discretos. Tem um consultório veterinário, empresa de segurança privada, escritório de advocacia, firma de entregas expressas, uma gráfica e o tal muro alto como definido pela Julia.
O silêncio se restabelece. Marlene recrimina Artur com o olhar que, em troca, esboça uma careta de cansaço e tédio. Vagner, que estava tenso desde quando deu a partida no carro, sinaliza agradecimento para Marlene com uma expressão facial simpática. Sandra pega Julia do colo de Marlene como quem vai tomar iniciativa e começar a andar dando prosseguimento aos planos. Contudo, Julia faz mais um comentário deixando todos desconfortáveis novamente.
- Que muro branco.
Além de alto, era um muro inteiramente branco. Na realidade, era mais para marfim, mas isso porque estava escurecido e um pouco encardido. Ele não era pintado, era de azulejos retangulares colocados na vertical.
- Parece um banheiro – completou Julia para piorar ainda mais a situação.
- Banheiro nada – retrucou Artur. – Parece um lavabo de empresa furreca. Deve ter sido planejado por algum engenheiro dessas empresas mequetrefes daqui.
Desta vez foram todos que olharam recriminando Artur que, como todo adolescente rebelde, se sentiu vitorioso ao conseguir atenção da pior forma possível. Entretanto, a suposta vitória durou poucos segundos, pois logo após Marlene fez um comentário roubando sua atenção:
- Deve ser pela praticidade – ela disse apontando para o muro. – Com esse bando de pichadores por aí, um muro assim é fácil limpar e fica sempre bonito.
Todos se calaram como se engolissem o argumento de Marlene. Só que não tinha o que argumentar, o muro era muito alto, muito feio e realmente parecia um banheiro. Para piorar, ele tinha uma porta, como de acesso a pedestres, feita de metal pesado bem estilo de empresa mesmo, pintada toda de branco e um portão para carros do mesmo jeito. A primeira impressão era indiscutivelmente ruim. Sandra chega a olhar para Vagner como quem pergunta que tipo de furada é aquela que ele está arrumando. Ele, notadamente sem jeito, tenta desconversar:
- Vamos, gente – ele diz gesticulando e andando na direção da porta menor. – Vamos entrar. Tenho certeza que irão gostar do que vão ver.
Vagner se enrola com o molho de chaves que tem em mãos. São muitas e este é o argumento dele, mas não convence muito bem, ele está nervoso também. Depois de testar umas três das várias chaves, então a porta é aberta. Ele cede passagem a todos e entra por último. Fica até parecendo um anfitrião mesmo sendo a segunda vez que coloca os pés por lá.
Aparentemente, a primeira reação das pessoas não foi muito simpática. Aliás, para ser mais preciso, pode-se afirmar que a reação foi um coletivo sorriso amarelo. De início, o que se via era a casa, sua fachada tinha o mesmo comprimento do muro, isto é, não existiam corredores laterais externos para levar a um suposto quintal nos fundos, caso exista. Ela era toda em um azul bem claro com uma única porta de acesso e janelas indicando que possuía dois andares. Tanto a porta, quanto as janelas, todas eram brancas.
- Boa, coroa – diz Artur colocando a mão sobre um dos ombros de Vagner. – Realizou o sonho da mamãe de ter uma casa branca com as janelas azuis. Só que ao contrário.
Sandra coloca Julia no chão e abraça Vagner agradecendo a ele e dizendo que achou a casa bonita, mesmo sua expressão indicando o contrário. Julia corre pelo pátio cimentado que separa a casa do muro em toda a sua extensão. Marlene ensaia ir atrás de Julia, mas para com as mãos na cabeça:
- O que foi, Marlene?
- Nada, patroa – ela responde. – Apenas uma dorzinha de cabeça chata.
- Não é a sua pressão?
- Não, patroa. Estou tomando meus remédios como o Seu Vagner indicou. Foi só uma pontadinha enjoada que me deu agora.
Marlene enfim pega Julia no colo e Vagner coloca a chave na porta que dá acesso à casa. Sandra o abraça em expectativa para o que está por vir e recebe em troca dele um sorriso. Artur fica escorado na parede com os braços cruzados e com cara de desdém. A porta se abre:
- Oh meu deus!
(Continua em 1.2)