quinta-feira, 12 de junho de 2014

Plantão da Copa



“Interrompemos sua crise de ansiedade pelo início da Copa do Mundo para falar de estatística e te deixar mais em pânico ainda.”
E na última noite antes da abertura oficial da Copa do Mundo, o IPEA se meteu em mais uma polêmica ao divulgar os resultados de uma pesquisa com torcedores. A pesquisa foi realizada em todas as cidades-sede e foram consultadas pessoas com o máximo de pressa possível para que não se perdesse tempo. O processo de arrumação e interpretação dos dados também foi feito a toque de caixa, o que nos faz esperar por, no mínimo, umas cinco erratas até o fim da etapa de jogos de grupo. Vamos aos resultados parciais:
73% das mulheres adorariam ser violentadas pela seleção espanhola;
81% dos travestis se casariam com um jogador da seleção italiana;
100% dos travestis são casados com italianos;
61% das pessoas acreditam que o Brasil vai ser campeão;
22% das pessoas não acreditam que o Brasil vai ser campeão;
17% das pessoas não responderam se achavam que o Brasil seria campeão, nem que o Brasil não seria campeão, apenas se limitaram a ofender o entrevistador e gritar que não ia ter copa;
100% do grupo acima citado, após terminada a entrevista, chutou uma lixeira, jogou uma pedra no ponto de ônibus e depois xingou muito na internet;
67% dos homens agradecem ao fato de que as seleções africanas não participavam da copa na época em que os jogadores usavam shorts curtos e assim não corriam o risco de ver o “cordão” escapando;
78% dos jogadores de países da antiga Tchecoslováquia têm “cordãozinho”;
98% deles culpam o frio por isso;
71% dos bolões serão vencidos por mulheres que sequer sabem diferenciar a seleção da Croácia da seleção da Bósnia;
99% dos homens que precisaram de horas para montar os seus palpites do bolão ficarão em último lugar;
13% das pessoas que lerão esta pesquisa ficarão ofendidas ou indignadas com algum desses dados;
13% das pessoas que lerão esta pesquisa são chatas e amargas;
100% é o quanto estou cagando para quem ficar ofendido ou indignado;
57% das pessoas disseram preferir assistir aos jogos da seleção no conforto do sofá;
33% delas disseram que ficaria irritada se alguém derramasse cerveja no sofá;
44% dos bebês que nascerão durante a copa receberão nome de algum jogador da nossa seleção;
0% deles receberá o nome de Hulk;
11% dos bebês que nascerão durante a copa receberão, segundo a mãe, nomes de jogadores de seleções estrangeiras, mas na verdade será aquela mesma merda de sempre: Uilliam, Roberti, Thyerry, Petersuel etc;
11% dos bebês que nascerão durante a copa serão moradores da Pavuna;
85% das pessoas que estão lendo esta pesquisa estão esperando piada cretina envolvendo seleção do Irã e homens-bomba;
85% das pessoas que estão lendo esta pesquisa estão decepcionadas até agora;
22% dos jogadores do Irã treinam para que partes deles não caiam em impedimento após explodirem;
85% das pessoas que estão lendo esta pesquisa estão felizes;
100% dos jogadores do Irã só treinam uma vez a parte da explosão;
85% das pessoas que estão lendo esta pesquisa estão radiantes de satisfação neste momento;
38% das pessoas assistirão a transmissão da Copa pela Globo mesmo odiando muito o Galvão;
38% das pessoas que assistirão a transmissão da Copa não sabem onde o controle remoto está;
78% dos jogadores chilenos serão confundidos com peruanos, mesmo que a seleção do Peru não esteja classificada para a Copa;
19% dos divórcios que acontecerão durante a copa serão motivados por comentários da esposa sobre a bunda do jogador Hulk;
17% serão porque foi o marido quem fez o mesmo comentário;
59% das vezes que o jogador Cristiano Ronaldo olhar para o telão será para se ver;
41% das vezes que o jogador Cristiano Ronaldo olhar para o telão será para ver um jogador espanhol;
88% são as chances do jogador Cristiano Ronaldo se casar com um jogador espanhol;
0% são as chances das suas amigas conseguirem casar com um jogador da seleção de Honduras;
66% dos rebeldes adolescentes chatos simpatizantes pelo socialismo e comunismo irão torcer para Coreia do Sul;
66% dos rebeldes adolescentes chatos simpatizantes pelo socialismo e comunismo não entendem porra alguma de geografia e política;
34% dos rebeldes adolescentes chatos simpatizantes pelo socialismo e comunismo disseram que vão torcer para o Brasil, mas com uma camisa com o rosto do Che estampada;
22% dos brasileiros nos estádios guardarão de recordação pedaços dos jogadores do Irã;
85% das pessoas que estão lendo esta pesquisa estão fazendo um brinde em minha homenagem;
89% das pessoas que leram esta pesquisa a adoraram simplesmente por ajudar a passar o tempo mais rápido enquanto enrolava no trabalho até meio-dia;
11% das pessoas que leram esta pesquisa não acharam grande utilidade nela, pois não foram trabalhar mesmo;
89% das pessoas que leram esta pesquisa estão morrendo de inveja dos 11% recém-citados;
Ficamos aqui no aguardo de você reler novamente isso tudo e começar a sacar que existem dados interligados.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Plantão da Copa



“Interrompemos o seu acelerado deslizar da timeline para postar mais um texto gigante que não vai ler, o que nos permite manter em 100% o índice de pessoas que não gostam das nossas publicações.”
Se em condições normais de temperatura e pressão o trânsito do Rio de Janeiro já é ruim, imagine com a chegada da Copa do Mundo. Pois bem, agora pense em um ônibus de uma delegação atravessado no meio de uma das principais avenidas da zona sul. Essa era a cena que muitos cariocas presos no trânsito encontraram ao tentar ir de São Conrado para o Leblon. A vista do ônibus da seleção da Inglaterra imóvel no meio de duas pistas era uma imagem perturbadora para quem precisava se deslocar por aquele trecho da cidade.
- O ônibus quebrou? – Perguntava uma mulher pela janela do seu carro.
- Hyundai é uma merda! – Gritava outro motorista de dentro do seu poderoso Palio 2004 1.0.
- Isso é um 438 maquiado ! – Esbravejou o motorista de uma van.
O que ninguém sabia era o motivo do ônibus parado. O jogador Gary Cahill tinha sido esquecido no hotel pela delegação. Exatamente, caro leitor! Anos depois, a síndrome de Macaulay Culkin que tanto aterrorizou mães e filhos de famílias férteis durante a década de 90 se repetia em plena cidade maravilhosa.
O comunicado que o porta-voz da delegação soltou para a impressa alega que o jogador se atrasou durante o tradicional processo do Tea Time. Para quem não sabe, o Tea Time é uma tradição britânica que exige todo um requintado cerimonial, no qual são servidos vários tipos de acompanhamentos para o chá, os quais devem ser degustados em uma ordem específica. Tudo começa com os sanduíches, que podem ser de peixe, queijo ou pepino. Em seguida, é a hora dos scones, uma espécie de pão doce, normalmente de geleia de morango, ou de creme. Por fim, temos os pastries, que são doces finos, podendo ser de chocolate, ou biscoitos escoceses, tortas etc.
Ainda segundo o comunicado, o problema se deu porque o hotel não estava preparado para satisfazer tamanha exigência e, na tentativa de improvisar, acabou desagradando ao zagueiro em questão. Os demais jogadores pouco se importaram e optaram pelo café-com-leite brasileiro mesmo, mas o zagueiro, por vir de uma tradicional família do sul da cidade de Satisfaction, próximo ao povoado de I Can Get No, se recusou a aceitar o oferecido e disse que só sairia após um legítimo Tea Time. O hotel tentou se justificar dizendo que, mesmo improvisando, ofereceu opções sofisticadas e de fino trato para o zagueiro.
- Mentira – retrucou o zagueiro. – Logo de início me ofereceram um sanduíche de atum, com queijo prato e um pedaço de rúcula no pão francês. FRANCÊS!
- Mas foi feito pelo Claude Troisgros – replicou o gerente do hotel.
O zagueiro também reclamou muito do que foi oferecido no lugar dos scones. Para ele, ofereceram uma iguaria de culinária que incentiva a obesidade.
- Esta informação não procede – discordou o gerente. – Colocamos à disposição dele algo tão clássico para o brasileiro, quanto o chá é para o britânico.
- Que tradicional que nada – resmungou o zagueiro. – O porteiro saiu correndo do hotel, parou um homem com uma carrocinha de madeira branca coberta por um plástico grosso e trouxe duas coisas massudas do tamanho de uma bola de baseball transbordando doce de leite.
Extremamente consternado com a situação, o zagueiro disse que a parte final foi tão trágica que fecharia com chave de merda o Tea Time improvisado pelo hotel. Segundo ele, foi um show de horrores a começar pela substituição dos deliciosos biscoitos escoceses por porcarias branquelas sem gosto.
- São tradicionais biscoitos de nata – exaltou-se o gerente.
- Eram sem sabor – manteve-se irredutível o zagueiro para depois prosseguir. – Sem falar nos suplentes dos pastries.
- Reclamar disso é um absurdo – indignou-se o gerente. – Oferecemos um sucesso nacional: Biscoito Goiabinha da Piraquê.
- Eles estavam murchos de tão velhos – rebateu o zagueiro.
- ELES SÃO SEMPRE ASSIM – o gerente encerrou de maneira constrangedora a discussão.
O que se sabe é que o zagueiro desistiu da segunda tentativa do hotel em corrigir o ato falho e foi correndo ao encontro do ônibus que o aguardava no meio da rua. Já o gerente, ficou esbravejando sobre o quanto é difícil agradar aos britânicos e por isso preferiria que tivesse recebido os jogadores da Bélgica. Tanto que para fazer com que se sentissem em casa, compraram vários chocolates Batom e cerveja Itaipava.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Pérolas da Copa



 “Interrompemos nossa programação pseudo-intelectual para trazer notícias que são mais respeitáveis que nossos textos. Mesmo reconhecendo que são notícias boçais.”
E as instalações dos hotéis brasileiros já estão dando o que falar. Que o diga o jogador da seleção italiana Andrea Ranocchia. Hospedado em um hotel escolhido a dedo pela federação italiana de futebol, aparentemente as instalações estão gerando polêmica entre os atletas.
O hotel está localizado no sofisticado balneário de Mangaratiba. Cidade conhecida por ficar eternamente na vida de quem a visita. Isso porque sua praia tem uma areia maldita que gruda no seu corpo e nem esfregando com Bombril sai. Atualmente ainda tenho alguns grãos colados no meu tornozelo desde o carnaval de 1997.
O problema encontrado pelo atleta da azzura foi uma dupla opção de privada em um mesmo banheiro com reduzida distância entre elas (vide imagem). Isso seria aceitável se tivesse acontecido em Volta Redonda, onde ficou hospedado o adversário da Itália para um amistoso preparatório. Tal adversário possui uma enorme tradição de momentos afetuosos e invasivos entre seus atletas e torcedores, daí a possibilidade de privadas tão próximas.
Tal desconforto do atleta com a cena inusitada está provocando rebuliço pela rede mundial de computadores. Na realidade, não aconteceu porra alguma! Nem um desgraçado sequer comentou! Só queria ter a desculpa para usar a palavra “rebuliço” sem ter mais de 60 anos e o termo “rede mundial de computadores” sem ser apresentador do Fantástico.
Para ser honesto, apenas uma pessoa comentou e, obviamente, se trata de um brasileiro. No comentário (vide imagem), ele ensina ao italiano que nós brasileiros temos consciência de inclusão aos portadores de necessidades especiais, pois uma das privadas é destinada para anões por ser mais baixa.
Não há dúvida que nós brasileiros incluímos pessoas com necessidades especiais em todas as possibilidades. A começar pelo próprio brasileiro comentando, que prova que pessoas com deficiência mental têm acesso à internet. E, como se não fosse suficiente, ele ratifica que é possível que uma pessoa com deficiência visual também tenha acesso, pois só ele está vendo uma privada menor que a outra.
De qualquer forma, na tentativa de manter o padrão de acessibilidade do hotel, já foram contratados engenheiros para projetar duas pias, duas camas e duas maçanetas. Uma de cada tamanho, para o caso de aparecer um anão, ele possa agradecer.

domingo, 1 de junho de 2014

Ressaca e Sermão - Parte II


Nem adiantou tentar convence-la a ir de moto, ela estava decidida que iríamos de Metrô. Sua preocupação não era voltar de carona comigo depois de beber, pois já havíamos feito isso várias vezes, mesmo com seu chatíssimo discurso de que é perigoso. O que ela queria mesmo era usar o tempo no Metrô para conversar. Ela estava preocupada com o ritmo dos últimos dias.
- Você não acha que está perdendo o controle das coisas novamente? - Ela perguntou com o jeito tranquilo de sempre quando quer dar um esporro, mas ao mesmo tempo não quer correr o risco de provocar uma reação intempestiva minha.
Eis uma pergunta que admite apenas duas respostas: sim ou não. Adoro perguntas que só permitem essas duas saídas, pois elas tornam tudo mais dinâmico. Ainda assim as pessoas insistem em responder com algo totalmente fora dessas opções disponíveis.
- Este é o Edifício Carlos Prestes? - Perguntei certo dia ao porteiro para saber se estava no endereço certo.
- Aqui é Rio Branco 543, senhor - ele responde, não sanando minha dúvida e me fazendo refletir sobre a sua dificuldade em lidar com sim ou não.
Obviamente temos casos nós quais a pergunta não admite essas duas respostas, mas continua aberta unicamente para duas opções. Perguntas que nelas mesmas explicitam as duas respostas possíveis. Perguntas que você já antecipa para a pessoa o que ela pode responder. Ainda assim, a probabilidade da terceira opção surpresa é maior. Situações como essas tendem a criar um ligeiro disturbo na mente da pessoa mais centrada envolvida na conversa. É o caso de quando perguntamos ao porteiro do mesmo prédio se o escritório do advogado Marcelo Tomarim fica no quinto ou sexto andar e, para o seu desespero, ele responde "sim". Ironicamente, nessa hora ele consegue lidar com uma das possíveis respostas disponíveis, pena que da outra pergunta.
Com o passar do tempo, você vai se tornando mais intolerante a situações como essas. E, não sendo suficiente, passa a ser tomando pela cretinice da resposta surpresa quando assume o papel de interrogado. Mas para isso, é imprescindível que quem faça a pergunta seja potencialmente alguém quem iria responder a terceira opção quando perguntado.
- Senhor, é crédito ou débito? - Pergunta a caixa do supermercado ao finalizar a conta.
- É isso! - Respondo com um belo sorriso sacana no rosto.
A pergunta da Tatiana era obviamente um caso de sim ou não. E, talvez por acreditar que tinha muito mais coisa envolvida ali, respondi dando um tiro no meu próprio pé. Aliás, um tiro duplo.
- Você acha que essa pergunta faz sentido? - Falei para ela no mesmo tom tranquilo.
- Baby, só os idiotas respondem uma pergunta com outra pergunta - A desgraçada me atacou com minha frase favorita e nem podia revidar.
Passamos pouco mais de um minuto calados, um fuzilando o outro apenas com o olhar. Meu olhar dizia "sua maldita, te odeio". Já o dela era "mentira, você me ama e sabe disso". Merda! E ainda estávamos na estação Afonso Pena, faltando mais onze estações até nosso destino.
- Então me explique por qual motivo essa pergunta não faz sentido.
Não acreditei quando ela pediu isso. Para mim, era algo tão óbvio que sequer precisava ser explicado. Tratava-se de lógica básica. Para que se perca o controle de algo novamente é condição sine qua non que antes você tenha recuperado o controle desta mesma coisa, fato que, convenhamos, eu estava longe de ter feito. Nada mudara desde então. Talvez uns breves lampejos de discrição ou esporádicos dias de isolamento do mundo, mas o controle reassumido, jamais.
Não foram essas exatas palavras que usei para explicar a ela. Até porque, sejamos francos, ela não saberia o que é uma condição sine qua non. Ainda assim, após explicado, ela se calou e, olhando para o vazio à sua frente, fez uma expressão muito triste. Se tivesse usado mesmo o termo sine qua non, pensaria que ela estava prestes a ter um derrame de tanta força que fazia para tentar entender o significado. Nunca a vi com o rosto daquele jeito, e vale lembrar que já passamos por várias situações adversas juntos. Talvez estivesse com essa fisionomia no episódio do pai dela enquanto o acompanhava antes da minha desastrosa aparição. Mas como ao chegar tumultuei tudo, não posso saber como estava a sua expressão. Tudo que lembro era sua cara de desespero gritando para que eu me parasse.
- Você precisa de um motivo - ela, com calma, quebrou o silêncio após colocar a mão na minha perna. - Você precisa de alguém.
Não sei se é um charme, ou uma deficiência mesmo, mas acho incrível a capacidade que ela tem de ser imbecil quando conversamos de assuntos sérios. Não que ela em outras circunstâncias não seja. Sim, ela é! Mas em outras circunstâncias é proposital. É como se fosse a nossa língua oficial, quase como esperanto dos imaturos.
- Quem vai querer algo comigo, baby? Quem vai encarar essa furada?
Não estava criando uma situação de autodepreciarão para receber elogios depois. Era quase que uma pergunta com uma constatação implícita. Tínhamos concordado que minha vida era um caos, passava em média três finais de semana fora da cidade por mês fazendo merda em várias cidades do país e quando estava no Rio era aquela zona de sempre. Ninguém toparia entrar nesse carrossel que, no lugar de unicórnios coloridos andando em círculos ao som de agradáveis músicas instrumentais de menestréis, tinha motos sujas de graxa e óleo sacolejando ao som de AC/DC. Exceto, é claro, outra pessoa tão desequilibrada quanto eu. Só que teríamos um novo problema e não mais uma solução.
- Então que tal um filho?
O alto-falante anunciou a Estação Carioca. Puta que pariu! Ela ainda tinha mais cinco estações para sugerir ideias de merda.
- Imagino então que, se meu problema fosse temperamento agressivo e instável, você sugeriria como solução comprar um fuzil.
- Idiota - ela disse, depois riu, recuperou o ar e prosseguiu. - É sério, você não tem ideia como isso muda a vida de uma pessoa. Existe uma relação intensa. Algo químico. Algo biológico. Algo natural mesmo. Uma conectividade entre os dois que muda tudo. E já muda desde o primeiro momento.
- Isso é ótimo - falei já dando entender o tom de sarcasmo. - Não bastasse a ideia de criar um filho, também sugere que eu gere a criança dentro do meu ventre. Então terei de mudar de sexo! Só melhora!
Preciso reconhecer que é algo bonitinho o esforço que ela fazia para tentar me colocar na linha. Reconheço também que ela tem ideias de merda. Afinal, se não é viável conseguir alguém para tentar um relacionamento o mais curto seja comigo, imagine convencer este mesmo alguém a propagar meus genes. Ela tinha tanta vontade que desse certo e estava tão estúpida ao mesmo tempo que beirava o que deveria ser o conceito original de romantismo.
- Sei que você não tem coragem, tão pouco vontade de passar um mísero final de semana comigo em uma viagem. Sei que tudo que você pensa de mim é que sou a última pessoa apropriada para entrar na sua vida. Mesmo assim, estava aqui pensando comigo mesmo, que tal se fizéssemos um filho? Iria visitá-lo no único final de semana de cada mês que estou no Rio. Bem, nem todos, pois rolam uns eventos profanos imperdíveis. Você sabe, né? Foi assim que nos conhecemos, não é mesmo? Mas tem um detalhe. Nos raros dias que ficarei com ele, é aconselhável a sua supervisão integral. Sabe como é, né? Sou distraído! Vai que bebo a mamadeira dele e dou a ele a minha Stelinha. Sem falar nos meus constantes blackouts por sofás, recepções de hotel e elevadores. Não vai dar muito trabalho, não. Fique relaxada. O único porém será a presença de duas potenciais máquinas de vômito, mas a criança sabemos que é só nos primeiros meses. E aí, o que acha? – Finalizo a fala olhando com um sorriso forçado para um ponto aleatório à nossa frente, como se estivesse falando com uma terceira pessoa imaginária.
- Você é tão idiota – ela exclamou entre uma risada e outra. – Eu teria um filho com você.
- Ah mas que ótimo! Mais uma ideia genial sua. Vamos misturar a sua imbecilidade com a minha demência incurável e faremos quem sabe um inhame.
- Nada disso – ela retrucou me dando uma ombrada. – Você tem coisas boas. É alto, inteligente, tem senso de humor.
- Puxa, vou interpretar isso como uma cantada – disse colocando o braço em volta do seu ombro. – Vamos descer aqui mesmo e voltar lá para casa para iniciarmos a prática.
- Larga de ser escroto – ela tirou meu braço de cima do seu ombro dando uma gargalhada. – Não vai ter sexo, seu idiota!
- Baby, você sabe muito bem que como todo homem, a punheta faz parte da minha vida. Mas mesmo com tanto tempo de experiência, punheta com mira telescópica é complicado. Vai ser difícil acertar sua xoxota à distância de primeira.
- Para, seu nojento – ela me empurrou. – Sabe que odeio essa palavra.
É curioso notar que, logo depois de falar que vai brincar de tiro ao alvo com a vagina de alguém usando o seu próprio esperma, esta pessoa implica apenas com a terminologia que lhe atinge. Na minha cabeça, a preocupação deveria ser de fato com o que estaria literalmente me atingindo e onde. Mas enfim, consequências de conversas sérias que são levadas na banalidade.
Antes que pudesse discorrer meu já manjado argumento sobre o quanto o termo xoxota é genial, chegamos à Estação Flamengo. Lá era nosso destino. E, segundo ela, três amigas estavam à nossa espera.
- Por favor – ela falou segurando minha mão – não me envergonhe. Promete isso para mim?
Merda! Uma pergunta de sim ou não. E está aí algo que não posso prometer, não é mesmo?