terça-feira, 10 de junho de 2014

Pérolas da Copa



 “Interrompemos nossa programação pseudo-intelectual para trazer notícias que são mais respeitáveis que nossos textos. Mesmo reconhecendo que são notícias boçais.”
E as instalações dos hotéis brasileiros já estão dando o que falar. Que o diga o jogador da seleção italiana Andrea Ranocchia. Hospedado em um hotel escolhido a dedo pela federação italiana de futebol, aparentemente as instalações estão gerando polêmica entre os atletas.
O hotel está localizado no sofisticado balneário de Mangaratiba. Cidade conhecida por ficar eternamente na vida de quem a visita. Isso porque sua praia tem uma areia maldita que gruda no seu corpo e nem esfregando com Bombril sai. Atualmente ainda tenho alguns grãos colados no meu tornozelo desde o carnaval de 1997.
O problema encontrado pelo atleta da azzura foi uma dupla opção de privada em um mesmo banheiro com reduzida distância entre elas (vide imagem). Isso seria aceitável se tivesse acontecido em Volta Redonda, onde ficou hospedado o adversário da Itália para um amistoso preparatório. Tal adversário possui uma enorme tradição de momentos afetuosos e invasivos entre seus atletas e torcedores, daí a possibilidade de privadas tão próximas.
Tal desconforto do atleta com a cena inusitada está provocando rebuliço pela rede mundial de computadores. Na realidade, não aconteceu porra alguma! Nem um desgraçado sequer comentou! Só queria ter a desculpa para usar a palavra “rebuliço” sem ter mais de 60 anos e o termo “rede mundial de computadores” sem ser apresentador do Fantástico.
Para ser honesto, apenas uma pessoa comentou e, obviamente, se trata de um brasileiro. No comentário (vide imagem), ele ensina ao italiano que nós brasileiros temos consciência de inclusão aos portadores de necessidades especiais, pois uma das privadas é destinada para anões por ser mais baixa.
Não há dúvida que nós brasileiros incluímos pessoas com necessidades especiais em todas as possibilidades. A começar pelo próprio brasileiro comentando, que prova que pessoas com deficiência mental têm acesso à internet. E, como se não fosse suficiente, ele ratifica que é possível que uma pessoa com deficiência visual também tenha acesso, pois só ele está vendo uma privada menor que a outra.
De qualquer forma, na tentativa de manter o padrão de acessibilidade do hotel, já foram contratados engenheiros para projetar duas pias, duas camas e duas maçanetas. Uma de cada tamanho, para o caso de aparecer um anão, ele possa agradecer.

domingo, 1 de junho de 2014

Ressaca e Sermão - Parte II


Nem adiantou tentar convence-la a ir de moto, ela estava decidida que iríamos de Metrô. Sua preocupação não era voltar de carona comigo depois de beber, pois já havíamos feito isso várias vezes, mesmo com seu chatíssimo discurso de que é perigoso. O que ela queria mesmo era usar o tempo no Metrô para conversar. Ela estava preocupada com o ritmo dos últimos dias.
- Você não acha que está perdendo o controle das coisas novamente? - Ela perguntou com o jeito tranquilo de sempre quando quer dar um esporro, mas ao mesmo tempo não quer correr o risco de provocar uma reação intempestiva minha.
Eis uma pergunta que admite apenas duas respostas: sim ou não. Adoro perguntas que só permitem essas duas saídas, pois elas tornam tudo mais dinâmico. Ainda assim as pessoas insistem em responder com algo totalmente fora dessas opções disponíveis.
- Este é o Edifício Carlos Prestes? - Perguntei certo dia ao porteiro para saber se estava no endereço certo.
- Aqui é Rio Branco 543, senhor - ele responde, não sanando minha dúvida e me fazendo refletir sobre a sua dificuldade em lidar com sim ou não.
Obviamente temos casos nós quais a pergunta não admite essas duas respostas, mas continua aberta unicamente para duas opções. Perguntas que nelas mesmas explicitam as duas respostas possíveis. Perguntas que você já antecipa para a pessoa o que ela pode responder. Ainda assim, a probabilidade da terceira opção surpresa é maior. Situações como essas tendem a criar um ligeiro disturbo na mente da pessoa mais centrada envolvida na conversa. É o caso de quando perguntamos ao porteiro do mesmo prédio se o escritório do advogado Marcelo Tomarim fica no quinto ou sexto andar e, para o seu desespero, ele responde "sim". Ironicamente, nessa hora ele consegue lidar com uma das possíveis respostas disponíveis, pena que da outra pergunta.
Com o passar do tempo, você vai se tornando mais intolerante a situações como essas. E, não sendo suficiente, passa a ser tomando pela cretinice da resposta surpresa quando assume o papel de interrogado. Mas para isso, é imprescindível que quem faça a pergunta seja potencialmente alguém quem iria responder a terceira opção quando perguntado.
- Senhor, é crédito ou débito? - Pergunta a caixa do supermercado ao finalizar a conta.
- É isso! - Respondo com um belo sorriso sacana no rosto.
A pergunta da Tatiana era obviamente um caso de sim ou não. E, talvez por acreditar que tinha muito mais coisa envolvida ali, respondi dando um tiro no meu próprio pé. Aliás, um tiro duplo.
- Você acha que essa pergunta faz sentido? - Falei para ela no mesmo tom tranquilo.
- Baby, só os idiotas respondem uma pergunta com outra pergunta - A desgraçada me atacou com minha frase favorita e nem podia revidar.
Passamos pouco mais de um minuto calados, um fuzilando o outro apenas com o olhar. Meu olhar dizia "sua maldita, te odeio". Já o dela era "mentira, você me ama e sabe disso". Merda! E ainda estávamos na estação Afonso Pena, faltando mais onze estações até nosso destino.
- Então me explique por qual motivo essa pergunta não faz sentido.
Não acreditei quando ela pediu isso. Para mim, era algo tão óbvio que sequer precisava ser explicado. Tratava-se de lógica básica. Para que se perca o controle de algo novamente é condição sine qua non que antes você tenha recuperado o controle desta mesma coisa, fato que, convenhamos, eu estava longe de ter feito. Nada mudara desde então. Talvez uns breves lampejos de discrição ou esporádicos dias de isolamento do mundo, mas o controle reassumido, jamais.
Não foram essas exatas palavras que usei para explicar a ela. Até porque, sejamos francos, ela não saberia o que é uma condição sine qua non. Ainda assim, após explicado, ela se calou e, olhando para o vazio à sua frente, fez uma expressão muito triste. Se tivesse usado mesmo o termo sine qua non, pensaria que ela estava prestes a ter um derrame de tanta força que fazia para tentar entender o significado. Nunca a vi com o rosto daquele jeito, e vale lembrar que já passamos por várias situações adversas juntos. Talvez estivesse com essa fisionomia no episódio do pai dela enquanto o acompanhava antes da minha desastrosa aparição. Mas como ao chegar tumultuei tudo, não posso saber como estava a sua expressão. Tudo que lembro era sua cara de desespero gritando para que eu me parasse.
- Você precisa de um motivo - ela, com calma, quebrou o silêncio após colocar a mão na minha perna. - Você precisa de alguém.
Não sei se é um charme, ou uma deficiência mesmo, mas acho incrível a capacidade que ela tem de ser imbecil quando conversamos de assuntos sérios. Não que ela em outras circunstâncias não seja. Sim, ela é! Mas em outras circunstâncias é proposital. É como se fosse a nossa língua oficial, quase como esperanto dos imaturos.
- Quem vai querer algo comigo, baby? Quem vai encarar essa furada?
Não estava criando uma situação de autodepreciarão para receber elogios depois. Era quase que uma pergunta com uma constatação implícita. Tínhamos concordado que minha vida era um caos, passava em média três finais de semana fora da cidade por mês fazendo merda em várias cidades do país e quando estava no Rio era aquela zona de sempre. Ninguém toparia entrar nesse carrossel que, no lugar de unicórnios coloridos andando em círculos ao som de agradáveis músicas instrumentais de menestréis, tinha motos sujas de graxa e óleo sacolejando ao som de AC/DC. Exceto, é claro, outra pessoa tão desequilibrada quanto eu. Só que teríamos um novo problema e não mais uma solução.
- Então que tal um filho?
O alto-falante anunciou a Estação Carioca. Puta que pariu! Ela ainda tinha mais cinco estações para sugerir ideias de merda.
- Imagino então que, se meu problema fosse temperamento agressivo e instável, você sugeriria como solução comprar um fuzil.
- Idiota - ela disse, depois riu, recuperou o ar e prosseguiu. - É sério, você não tem ideia como isso muda a vida de uma pessoa. Existe uma relação intensa. Algo químico. Algo biológico. Algo natural mesmo. Uma conectividade entre os dois que muda tudo. E já muda desde o primeiro momento.
- Isso é ótimo - falei já dando entender o tom de sarcasmo. - Não bastasse a ideia de criar um filho, também sugere que eu gere a criança dentro do meu ventre. Então terei de mudar de sexo! Só melhora!
Preciso reconhecer que é algo bonitinho o esforço que ela fazia para tentar me colocar na linha. Reconheço também que ela tem ideias de merda. Afinal, se não é viável conseguir alguém para tentar um relacionamento o mais curto seja comigo, imagine convencer este mesmo alguém a propagar meus genes. Ela tinha tanta vontade que desse certo e estava tão estúpida ao mesmo tempo que beirava o que deveria ser o conceito original de romantismo.
- Sei que você não tem coragem, tão pouco vontade de passar um mísero final de semana comigo em uma viagem. Sei que tudo que você pensa de mim é que sou a última pessoa apropriada para entrar na sua vida. Mesmo assim, estava aqui pensando comigo mesmo, que tal se fizéssemos um filho? Iria visitá-lo no único final de semana de cada mês que estou no Rio. Bem, nem todos, pois rolam uns eventos profanos imperdíveis. Você sabe, né? Foi assim que nos conhecemos, não é mesmo? Mas tem um detalhe. Nos raros dias que ficarei com ele, é aconselhável a sua supervisão integral. Sabe como é, né? Sou distraído! Vai que bebo a mamadeira dele e dou a ele a minha Stelinha. Sem falar nos meus constantes blackouts por sofás, recepções de hotel e elevadores. Não vai dar muito trabalho, não. Fique relaxada. O único porém será a presença de duas potenciais máquinas de vômito, mas a criança sabemos que é só nos primeiros meses. E aí, o que acha? – Finalizo a fala olhando com um sorriso forçado para um ponto aleatório à nossa frente, como se estivesse falando com uma terceira pessoa imaginária.
- Você é tão idiota – ela exclamou entre uma risada e outra. – Eu teria um filho com você.
- Ah mas que ótimo! Mais uma ideia genial sua. Vamos misturar a sua imbecilidade com a minha demência incurável e faremos quem sabe um inhame.
- Nada disso – ela retrucou me dando uma ombrada. – Você tem coisas boas. É alto, inteligente, tem senso de humor.
- Puxa, vou interpretar isso como uma cantada – disse colocando o braço em volta do seu ombro. – Vamos descer aqui mesmo e voltar lá para casa para iniciarmos a prática.
- Larga de ser escroto – ela tirou meu braço de cima do seu ombro dando uma gargalhada. – Não vai ter sexo, seu idiota!
- Baby, você sabe muito bem que como todo homem, a punheta faz parte da minha vida. Mas mesmo com tanto tempo de experiência, punheta com mira telescópica é complicado. Vai ser difícil acertar sua xoxota à distância de primeira.
- Para, seu nojento – ela me empurrou. – Sabe que odeio essa palavra.
É curioso notar que, logo depois de falar que vai brincar de tiro ao alvo com a vagina de alguém usando o seu próprio esperma, esta pessoa implica apenas com a terminologia que lhe atinge. Na minha cabeça, a preocupação deveria ser de fato com o que estaria literalmente me atingindo e onde. Mas enfim, consequências de conversas sérias que são levadas na banalidade.
Antes que pudesse discorrer meu já manjado argumento sobre o quanto o termo xoxota é genial, chegamos à Estação Flamengo. Lá era nosso destino. E, segundo ela, três amigas estavam à nossa espera.
- Por favor – ela falou segurando minha mão – não me envergonhe. Promete isso para mim?
Merda! Uma pergunta de sim ou não. E está aí algo que não posso prometer, não é mesmo?

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Ressaca e Sermão - Parte I


 - Precisa ser tanto?
Não sei se foi exatamente isso que Tatiana disse. A ressaca estava violenta e ela tinha acabado de me acordar. É bem possível que tenha sido algo desse tipo mesmo, mas em um tom suave. A cada dia que passava nossa relação era mais próxima no sentido de companheirismo. Era o dia todo dando patada um no outro como forma de carinho, mas nos momentos de falar sério, a mão dela ficava exageradamente leve, o que tirava totalmente o efeito do esporro.
Sim, acredito que foi isso que ela falou, com o porém de terminar a frase usando meu short name como vocativo. Short name é quando reduzimos o nome da pessoa. Eduardo vira Edu, Mariana vira Mari, Priscila vira Pris, Carlos Eduardo vira Cadu e estranhamente Raquel vira Quequel aumentando o nome. Eu odiava ser chamado pelo short name, mesmo sabendo que minha mãe escolheu esse nome propositalmente para ser chamado assim. Tatiana sabia disso, aliás, muitas pessoas sabem disso. Algumas o fazem para me irritar, Tatiana não. Ela usa inconscientemente, acha que dá um tom de carinho nas frases. Sim, de fato dá, mas me irrita! Ainda assim prefiro quando ela me chama de idiota.
Voltando à situação, lá estava Tatiana falando comigo. Devia ser por volta das quatro da tarde, eu estava apagado no sofá, o cheiro de bebida ainda era muito forte, meus olhos estavam vermelhos e meus movimentos lentos.
- Precisa beber tanto? Sexta já foi foda – tínhamos saído na sexta e ficamos muito mal. – Ontem três da tarde você me ligou dizendo que estava na rua e seu porteiro disse que quando chegou para trabalhar às oito da manhã precisou te ajudar a subir para casa, pois estava jogado no canto da portaria.
Provavelmente era verdade, meus porteiros eram fofoqueiros, mas não eram mentirosos. Não me lembrava disso. Recordo de ter ido à Feira do Lavradio, de lá fui para a Pedra do Sal e fiquei até por volta de uma da manhã. Tive um ligeiro flash na cabeça sobre algum lugar fechado, mas não conseguia identificar ao certo onde.
- Minha moto – balbuciei para ela perguntando sobre.
- Está parada aqui embaixo – ela se interrompeu por um segundo para num tom mais suave possível prosseguir. – Você ainda estava de moto? Qual o seu problema?
Responder imbecilidade ou irresponsabilidade seria uma opção, mas ela iria falar sobre, dar sermão e não queria isso. Não que não estivesse certa em fazer isso. Apenas não queria ouvir qualquer coisa. Precisava dormir mais um pouco. Então me calei e ela fez o que mais me irrita, repetiu a pergunta várias vezes na esperança que respondesse.
- Ei, onde você vai? – Ela mudou ao pergunta assim que me levantei empurrando a cabeça dela para que saísse da minha frente.
- Vou vomitar – respondi. – Você e sua chatice me dão vontade de vomitar.
- Quer ajuda?
- Sim, continue falando! Assim vomito mais e curo a ressaca mais rápido.
O silêncio se fez e logo depois foi quebrado pela sinfonia que regia na tentativa de eliminar todo aquele álcool de maneira controladamente direcionada. Eu odeio vomitar! Tenho pavor, fico sem ar, acho que vou morrer e acabo fazendo uma revisão da minha vida na cabeça. Daí é sempre a mesma coisa, arrependimento pelas ações de costume: misturar bebida, comer porcaria com bebida, não ter ido falar com a menina que tanto achei bonita, futucar a problemática unha encravada do pé esquerdo. Por sorte, como tenho refluxo, coloco tudo para fora mais rápido e a crise passa rápido.
Sim, tenho refluxo e bebo, mais estúpido impossível. Foi até curioso o dia que descobri a causa. A médica (lembro que era mulher, mas não recordo o nome) deu a notícia:
- Bem, a endoscopia confirmou o que tinha dito antes. O motivo de tantas crises de refluxo é que você tem hérnia de hiato.
- Hérnia de hiato? Mal sei o que é ditongo, imagine isso – aparentemente ela não acompanhou meu raciocínio, ficou séria e, sem graça, piorei com outra cretinice. – Tem certeza que fez medicina, não foi letras?
Ela não deve ter gostado muito, pois optou por não me operar, me deixar dependente de Motilium e ainda prescreveu uma dieta que me faria ficar de mal humor pelo resto da vida. Por teimosia, não a obedeci e hoje sofro todas as noites sorrindo.
Voltando à cena do banheiro, lá estava eu agachado de frente para a privada. Sim, agachado, me recuso a ficar ajoelhado. Não, não tem uma explicação lógica para isso, é apenas estupidez repetida mesmo. Todas as vezes, por mais rápido que seja, fico com câimbras e o sofrimento fica maior ainda. Cria-se uma cena dantesca de dar inveja à Linda Blair, com gritos de dor e um irrigador de jardim gástrico ao mesmo tempo. Eu sei, não precisam imaginar.
- Isso! Sofre mesmo, idiota – ela estava quietinha o tempo todo atrás de mim na porta do banheiro. – Ali, vinte Reais em Stella acabaram de sair. Ih, mais trinta! Mais dez! Uma empadinha! Um pentelho!
- Cala a boca, Galvão! Vai ficar narrando meu vômito?
- Se fode aí!
Como se tivesse outra opção. Não bastava toda aquela cena, ainda tinha uma motivadora reversa ao fundo para piorar. Nem preciso dizer que ali o maior arrependimento era manter a amizade com ela. Não importa o quanto a pessoa está certa, aproveitar o meu momento de fraqueza para sapatear na minha cara e esfregar seus argumentos é muita ruindade. Exceto quando eu estou na posição de sapatear, aí pode!
Terminado aquilo tudo, voltei para a sala. Ainda vestido com as roupas da noite anterior, Tatiana sugeriu que as tirasse para colocar para lavar. Aos poucos e com a ajuda dela tirei bota, meia, camisa, calça. Antes de colocar no cesto de roupas sujas, ela conferiu se tinha algo nos bolsos:
- Oba – ela gritou da cozinha. – Achei dez Reais!
- Ótimo! Pague seu táxi e vá embora.
- Não – ela respondeu e se calou para logo depois continuar. – Achei um comprovante de cartão de crédito. Não! Dois!
- Dois? De que são?
- São do mesmo valor, sessenta e oito Reais. E são do mesmo lugar também!
- Será que passei duas vezes ou me roubaram?
- Bem-feito, para deixar de ser mané – ela falou com certo ar de ódio. - Não! Um é crédito do Diners, o outro é débito do Itaú.
- Eu não tenho conta no Itaú!
- Não? Que estranho – ela fez novo silêncio para ler os comprovantes. – Está escrito vê ponto erre gê service. Tem outras coisas escritas também.
Não tinha a menor ideia do que podia ser “V.RG Service”, até mesmo porque sequer lembrava de como saí da Pedra do Sal. Tatiana ficou intrigada, largou a minha calça sobre a máquina e pegou o celular para tentar descobrir o que era. Enquanto isso, eu só de cuecas sofria um pouco mais da ressaca largado no sofá.
- Se incomoda de pegar um pouco de água para mim?
- Levanta o rabo e vem pegar!
- Estou sofrendo!
- Se fode aí!
Confesso que adoro muito mais esses nossos diálogos do que quando ela vem com cautela para conversar seriamente comigo. Mas nada custava ela pegar água para mim. Permaneci deitado com aquela péssima sensação de vazio, que parece que arrancaram todos os seus órgãos e os substituíram por bolinhas pequenas de isopor. Ou resumindo, te transformaram em uma almofada infantil da década de oitenta.
- Pelo que vi aqui na internet, é algo de Vila Regia hotel. Isso não é um motel ali perto da Pedra do Sal?
- Motel? Eu fui em um motel?
- E aparentemente dividiram a conta com você. Não lembra?
- Claro que não!
- Levanta as pernas aí para que possa conferir as suas pregas.
Os dois riram por algum tempo, daí eu parei primeiro. Ela perguntou se estava contraindo a bunda para conferir e voltamos a rir. Deu ânsia novamente, levantei-me e fui para o banheiro xingando Tatiana de idiota. Ela riu mais um pouco e voltou a conferir os bolsos enquanto no banheiro eu esperava que algo mais fosse sair.
- Tem um comprimido no bolso – ela disse para depois repetir, pois nada falei. – Tem um comprimido fora da cartela no bolso.
Saí do banheiro e ela me esperava no meio do quarto com o comprimido na mão. Fiz cara de paisagem como se a resposta viesse sozinha, mas ela insistiu em perguntar mais uma vez.
- Qual o problema? É a porra de um remédio para dor de cabeça!
- Colorido – ela falou quase enfiando na minha cara. – Remédio para dor de cabeça colorido?
- É um remédio para dor de cabeça divertido.
O silêncio se fez e, como de hábito, ela não se conteve e riu. Obviamente me chamou de idiota logo depois. Em seguida me deu o comprimido dizendo que deveria tomar, pois se estava de ressaca, estava com dor de cabeça. Falei que não precisava, pois só queria ficar quietinho e voltar a dormir.
- Que lindo! Tão responsável – ela sempre foi muito ruim com sarcasmo. – Podia ser assim na noite.
- Pois é, mas minha noite é agora – disse enquanto começava a me ajeitar na cama. – Mas me diga, o que, raios, veio fazer aqui?
- Vim te buscar. Um grupo de amigas me chamou para beber no Flamengo.
- Me dê cinco minutos – disse me levantando. – Ah, e pega o comprimido, vou precisar dele.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Histórias Reais Inventadas por Mim

Strangers in the Line
Noite de evento no ginásio da cidade. Do lado de fora, uma enorme fila de homens vestindo calças jeans escuras, camisas pretas, correntes, brincos, piercings, anéis, pulseiras e tatuagens por todo o corpo. Na companhia deles, mulheres de maquiagem pesada que as deixavam com a aparência mais pálida ainda, olhos negros, cabelos de todas as cores estranhas que possa imaginar e roupas igualmente escuras. Era noite do show da banda Abutres do Inferno, uma banda conhecida pelo rock pesado com letras violentas e obscenas.
No meio da fila, mais próximo da entrada do que do final, estava um rapaz sozinho. Robusto, com um corpo desenhado provavelmente à base de muitos Cheetos, Kit-Kat e Coca-Cola Zero, ele suava aparentemente de ansiedade. Sapato de camurça preto, calça jeans escura, cinto preto, camisa de botão preta de manga curta para dentro das calças e cabelo impecavelmente penteado para o lado. Ao seu lado surge um homem aproximadamente 10 anos mais velho. Barba mal cuidada, camisa preta com as mangas cortadas e estampa de caveira, calça jeans surrada com alguns pequenos rasgos e uma bota imunda que um dia foi de uma cor reconhecível.
- Fala aí, cara!
- Olá!
- Vou ficar aqui do seu lado, ok?
- Mas isso é furar fila.
- É, eu sei, mas não consegui chegar cedo e não vou para a merda do final da fila.
Fez-se o silêncio. O rapaz ficou praticamente catatônico olhando para frente enquanto o homem, ao seu lado, o encarava à espera de uma reação. Após algumas piscadelas e coçadas na testa seguidas de ajeitadas da franja, o homem impacientemente fala, interrompendo aquela sequência de gestos estranhos do rapaz:
- Que foi cara? Vou ficar aqui, relaxa.
- Tudo bem – o rapaz responde sem virar o rosto. – Tudo bem.
- Que porra é essa? Olha para mim, caralho!
- Perdão – ele vira o rosto, seca o início de suor que se forma no seu pescoço e prossegue. – Só tenho medo das pessoas que estão na fila não gostarem e virem aqui reclamar.
- Isso é uma porra de show de heavy metal, cara! Quem vai reclamar de fila sendo furada? Aqui é só maluco trool!
- Tudo bem, senhor! Eu só não quero problemas.
- Relaxa, porra! Você não vai ter – o homem se interrompe para prosseguir logo em seguida. – Senhor? Você me chamou de senhor? Que porra é essa?
- Desculpe, não queria insinuar que é velho. É apenas respeito. Você nem aparenta a idade que tem com essas roupas velhas e essa barba estranha.
- Moleque, qual o seu problema? Mas que porra é essa?
- Desculpe, senhor. Digo, moço. Estou apenas nervoso.
- Nervoso com o quê, caralho?
- Senhor... Digo, moço, peço que controle seus palavrões que eles passam a imagem que está brigando comigo e fico mais nervoso ainda. Coloque a mão aqui na minha barriga.
- NÃO! – Exclama o homem levantando a voz. – Que porra é essa? Mas que merda de ideia é essa?
- Senhor, por favor, peço apenas que encoste nela e verá como estou nervoso.
- Ai merda – diz o homem enquanto coloca vagarosamente a mão sobre a barriga do rapaz. – Pronto, coloquei. Está dura como uma pedra. Deve estar cheia de merda. Você não está nervoso, você precisa cagar.
- São gases – fala o rapaz ensaiando um sorriso discreto. – Sempre que fico nervoso, fico com gases. E com você falando palavrões desse jeito fica pior ainda.
O homem olha ao seu redor como quem procura ajuda, mas ninguém está reparando naquela cena. As pessoas estão suficientemente ocupadas conversando sobre as músicas da banda, shows antigos e assuntos relacionados. Ele ainda vislumbra a ideia de sair dali, porém nota que dificilmente vai conseguir obter sucesso em furar a fila novamente. Sem opções, ele coça a barba, olha para o rapaz dos pés à cabeça e dá prosseguimento:
- Ok, fábrica de butano, você definitivamente está nervoso. Só peço que contenha seus gases.
- Metano, senhor.
- O quê?
- Desculpe, moço. É metano. Não butano.
- Que seja! Por favor, mantenha essa merda de metano dentro de você ou serei obrigado a “meteno” ele novamente no seu rabo.
- Sim, senhor. Irei me conter.
- Agora me explique o motivo de estar nervoso. Nunca foi a um show antes?
- Sim, claro que sim! Vou quase todo sábado. Sempre que tem música ao vivo no shopping, eu, minha mãe e meu pai vamos. Comemos pizza e bebemos refresco de maracujá para não afetar o meu sono mais tarde.
- Peraí, moleque. Você nunca foi a um show assim? Multidão, som alto, calor, suor, cheiro de mijo, de cerveja e de maconha?
- Bem, de fato, este é o meu primeiro e, realmente, este odor ácido de urina com cerveja é consideravelmente desagradável. Ainda bem que passei Vicky no nariz para suportar.
- Moleque, qual o seu problema? Você só pode estar de sacanagem com a minha cara. Ninguém assim como você chegaria vivo aqui. Tive de empurrar um bando de desgraçado para conseguir entrar nos ônibus lotados que estão nos trazendo para cá. Fiquei espremido, passei maior perrengue. Não, ninguém como você sobreviveria a isso. E mesmo que tivesse sorte, nunca chegaria com a roupa engomadinha como essa.
- Meu pai me trouxe de carro até aqui. Não precisei de ônibus. Foi uma ideia bem oportuna que ele teve.
- Porra, moleque – o homem não se contém, tira a camisa do rapaz de dentro das calças e depois dá uma bela despenteada no cabelo dele. – Não, você é muito almofadinha. Assim vai ficar melhor.
- Não sei se minha mãe aprovaria este estilo, moço.
- Sua mãe não está aqui, cara. Além do mais, na volta você vai se foder para conseguir entrar em ônibus. Acredite, vai chegar muito pior do que está agora. Veja isso – o homem aponta para a falta de mangas da sua camisa e os rasgos na sua calça. – Quando estava vindo para cá, estava de smoking. Olha como fiquei.
- O senhor é muito espirituoso – disse o rapaz enquanto colocava a camisa de volta para dentro das calças. – Mas não será necessário, meu pai vai me levar no final. Mesmo assim, se fosse utilizar o ônibus, minha mãe não aprovaria.
- O que ela não aprovaria? Ficar desarrumado ou andar de ônibus?
- Os dois!
- E como que você anda pela cidade, caralho? Sempre de carona com o pai?
- Sim, ele sempre me leva e me busca nos lugares.
- Ele fica para cima e para baixo sempre?
- Nem sempre. Em casos como este de hoje, ele já sabe que vai ter trânsito, então fica por perto me esperando.
- Ele vai ficar o tempo todo no carro te esperando? Mas que merda! É quase uma versão conservadora de Conduzindo Miss Dayse. E o que ele faz enquanto isso?
- Isso depende muito. Na maior parte das vezes ele fica lendo um livro. Quando esquece um livro, ele improvisa algo. Certa vez ele ficou no carro se masturbando ouvindo Sade.
- Caralho, que foda! Seu pai é muito doente!
- Ele diz que isso é necessário para expulsar os maus pensamentos.
- Bronha expulsa maus pensamentos? Então hoje fiz uma sessão inteira de exorcismo lá em casa.
O homem ri descontroladamente e o rapaz permanece sério como se fosse a coisa mais natural do mundo. Alguns segundos depois, ele se recompõe e, vendo que o rapaz permaneceu quieto, fica sem graça.
- Cara, isso não pode ser sério. Você está me sacaneando!
- Não mesmo, senhor.
- Ok, acreditarei. Até porque não quero entrar nos méritos da vida sexual solitária do seu pai.
- Sim, é algo muito triste mesmo. Meus pais não fazem sexo. Minha mãe acha que é algo sujo e errado. Só fizeram para engravidar de mim. Ela diz que sou um presente de Deus.
- Ah, claro! Você é um presentaço! E sem direito a troca! – O homem nota que o rapaz não entendeu o comentário e, sem graça, dá prosseguimento. – Mas então seus pais nunca mais transaram? Nem umazinha? Nem uma fodinha rápida?
- Senhor, minha mãe não faz essas coisas. Ela é uma mulher muito correta.
- Ah claro, imagino. Só não entendo como um filho de uma mãe tão direita e praticamente fora de uso e com um pai que zela pelo corpo sem maus pensamentos escuta Abutres do Inferno.
- Essa é uma história muito engraçada.
- Ah, sim, imagino que seja.
- Foi no funeral da minha avó.
- Funeral da sua avó e Abutres do Inferno? Eu não tenho certeza se quero ouvir isso.
- Ok, não contarei.
- NÃO! Foi deboche! Claro que quero ouvir.
- Bem, era o funeral da minha avó. Ela seria cremada e minha mãe contratou uma pessoa para colocar músicas religiosas ao fundo. Só que as versões que o homem colocava não agradaram e minha mãe foi reclamar com ele. Ela achava que tinha de ser a versões em latim cantadas por padres italianos. O homem explicou que era difícil conseguir aquelas versões e por isso levou as que achou para que a cerimônia fosse feita de qualquer forma. Minha mãe não gostou mesmo assim e deu uma boa bronca nele. Disse que era um incompetente naquela tarefa simples e que, graças a ele, a minha avó não descansaria em paz, tão pouco faria um caminho sossegado para o céu.
- Caralho, que esporro, cara! Sua mãe é brava mesmo! Não é a toa que seu pai prefere ficar na bronha no carro. Mas onde entram os Abutres aí?
- Bem, depois disso o homem ainda tentou argumentar. Só que minha mãe falou que ele era um herege em danação, uma alma perdida que veio à Terra para poluir as pessoas de bem. Daí ele ficou zangado, colocou uma música dos Abutres para tocar e foi embora.
- Que foda, cara! Que foda! DJ fodido esse! E qual música que ele colocou?
- Ele colocou “Queimem a desgraçada”.
Iniciou-se aí uma sequência de gargalhadas histéricas por parte do homem. Ele inclinava a cabeça exageradamente para trás, contorcia o corpo para frente, ocupava todo o espaço ao seu redor com movimentos de braços, era uma cena espontaneamente escalafobética. Ao mesmo tempo, o rapaz com um leve e fofo sorriso de canto de boca observava aquilo tudo. Nesse meio tempo a fila andou um pouco para frente. O rapaz disfarçadamente levantou a sobrancelha e acenando com a cabeça chamou o homem para andar com ele.
- Obrigado – disse o homem enquanto tentava recuperar o folego. – Garoto, essa história é sensacional. Fico apenas com pena da sua avó. Sua mãe mereceu!
O rapaz nada respondeu e aparentou ficar desconfortável com o comentário do homem que, ao notar a reação dele, sem graça, se ajeitou, olhou para os lados e fingiu que nada aconteceu. O silêncio permaneceu por breves segundo, até que o homem voltou a falar.
- Mas me explica como a sua mãe deixou você vir ao show.
- Foi bem difícil, sabe? Só escuto as músicas deles quando ela não está em casa, ou quando estou na rua. Ela não suportaria saber que ouço esse tipo de música.
- Ah claro – concordou o homem com as mãos espalmadas levantadas. – Imagino que não.
- Então – o rapaz faz uma pausa para passar as mãos no rosto para secar um pouco do suor. – Expliquei para ela que, de uma maneira não muito legal, essa era a última lembrança que tinha da minha avó e que apenas a sonoridade das músicas me faziam lembrar dela.
- Que foda, moleque! Você sabe ser um mentiroso do caralho!
- Não é mentira – rebateu o rapaz passando os dedos pela testa. – É verdade. Só ouço essas músicas para me sentir mais próximo dela. É estranho, eu sei, mas me sinto como se ainda estivesse no seu funeral me despedindo dela.
- Moleque, de boa – o homem para, coça a barba, a cabeça e prossegue – fazer um in memoriam para a sua avó no show dos Abutres do Inferno é a coisa mais foda que já vi na minha vida. Queria um dia contassem que meus filhos fizeram algo do tipo para mim.
- Imagino que sim. Você tem filhos?
- Não – responde o homem vagando o olhar para o seu redor. – Perdi os dois testículos em uma briga de faca alguns anos atrás.
- Oh céus – o rapaz se espanta e dá dois passos para trás. – Oh céus!
- Relaxa, garoto. Isso tem muito tempo. E no final eu ganhei a briga cravando a faca com o sangue do meu saco no olho daquele desgraçado. Quer ver?
- Ver o quê? A faca? O homem morto? – O rapaz, de olhos arregalados, não parava de perguntar o que ele queria mostrar. – O quê?
- A cicatriz! É Algo diferente. Não tenho mais saco. Os médicos na época cogitaram colocar duas bolas de titânio para disfarçar, mas não quis. Prefiro ter apenas um pau e um pedaço de pele murcha pendurada embaixo. É como uma cicatriz de guerra.
- Senhor, eu adoraria ver tal excentricidade, mas cicatrizes me fazem passar mal. Tenho um estômago muito fraco para essas coisas. Minha mãe costuma dizer que Deus escreve certo por linhas tortas e, por isso, ele, me dando essa sensibilidade, acabou me impedindo de ser médico.
- Seu Deus é um debochado ao fazer você desse jeito, garoto! Acredite! – O homem faz uma pausa, ajeita o pau dentro das calças e retoma. – Então “Queimem a Desgraçada” é sua música favorita?
- Nem tanto. Ela é a que mais me recorda a minha avó, mas não gosto da sua sonoridade. Acho muito barulhenta.
- Garoto, TODAS as músicas deles são barulhentas. Até no intervalo entre as músicas do CD tem barulho. Lembro do primeiro álbum dele que antes de cada faixa tem o baterista arrotando o número da música. Muito foda.
- Oh não, senhor – o rapaz exclama gesticulando negativamente com as mãos. – Isso é totalmente desnecessário. Tanto que fiz várias edições nas músicas para torná-las mais aceitáveis.
- Você tirou os arrotos, seu demente neurótico?
- Também.
- Como também?
O homem se curva apoiando as mãos sobre os joelhos e balança a cabeça de insatisfação. Ele solta três suspiros de indignação, se levanta e pergunta novamente:
- Como também? Me traumatize mais ainda, garoto. O que fez além de tirar os arrotos?
- Eu tiro as letras.
- Letras? Que letras? Letra da música? – O rapaz responde que sim balançando a cabeça e o homem prossegue. – Você tira a voz do vocalista, seu verme maldito fruto de uma punheta?
O garoto dá alguns passos para trás assustado e chega a se afastar da fila. O homem nota que foi ríspido demais, estende a mão para ele, pedindo que volte. Pede desculpas, mas ainda assim pergunta qual o motivo de tirar o vocalista.
A explicação dada foi que as letras, por serem muito violentas e obscenas, acabavam por afetar diretamente a tranquilidade dele, causando desconforto e inquietação, além de desregular o sono. Além disso, ele disse que a quantidade excessiva de sangue e órgãos humanos nas músicas fazia com que passasse mal.
- Garoto, imagino então que você quase morreu quando ouviu pela primeira vez “Comerei seus miolos em uma tigela de sangue”.
- Oh sim – ele responde arregalando os olhos. – Troquei o nome para “Comerei sucrilhos com iogurte de frutas vermelhas”. Ficou mais simpática.
- Garoto, você me assusta! De verdade! – Depois disso o homem se afasta e tenta furar a fila mais à frente em um grupo mais compatível com o evento.
Algumas horas depois, após terminado o show, lá estava o homem sentado no meio-fio na companhia de um conhecido. Papo vai, papo vem, enquanto esperavam o ônibus chegar, quando um carro em baixa velocidade passa por eles. No banco da frente, um homem de aparentemente 50, quase 60 anos. No banco de trás, o garoto, com o cabelo ainda impecavelmente arrumado. Ele vê o homem sentado no meio-fio, abre um sorriso e dá um inocente “tchau” de mão espalmada para ele. O amigo do homem vê a cena, olha para um, olha para o outro e pergunta:
- Quem é o retardado?
- É a criatura mais assustadora que vi na minha vida.
- Em qual sentido?
- Todos! Acredite. Em todos os sentidos!
- Mais que o homem que arrancou seus testículos com uma faca?
- MUITO MAIS!
- Ele? Aquele cara de broa no banco de trás de um carro?
- Aham.
- Cara, você é estranho.
- Você deveria conhecer o garoto. A palavra estranho vai ganhar todo um sentido novo para você.